Pancho - Dr. Demóstenes Ribeiro (*)
Nos anos cinquenta, quando eu era
secundarista no Rio de Janeiro e sonhava tornar-me advogado, recebi um
telegrama amargo e seco: venha urgente, seu pai muito mal. Logo que pude tomei
o ônibus e cheguei quase três dias depois.
Agonizando, o velho balbuciou: estou
partindo, tome conta do Zé Antônio, das meninas e do Barreiro. Combati o bom combate. Agora é com você.
Dei adeus ao sonho de me formar advogado,
mas guardei a Cidade Maravilhosa para sempre. O meu irmão, indefeso e
pequenino, tornou-se o centro da minha vida, e me reintegrei ao sertão.
Não foi fácil, pois adorava o Rio. Um
paraíso, apesar de morar no alojamento dos estudantes, da comida do Calabouço e
das gozações dos cariocas. Mesmo a pé, sempre o Rio de Janeiro! Copacabana,
Cinelândia, Maracanã, o centro da cidade. Que maravilha a descontração do povo
e a alegria do carnaval. Lá, pela primeira vez estive num cinema. Assisti a
muitos filmes mexicanos, uma paixão da vida inteira, me rebatizaram de Pancho, e até me emociono ao lembrar.
No Barreiro, tínhamos um cavalo
manco, chamado Rocinante -, e Zé Antônio tratava aquele pangaré como um
irmão. Vestindo calça farwest, bigode à Clark Gable, camisa de manga
comprida e lenço vermelho no pescoço, reassumi a vida no campo e o passado não
me interessava mais.
Por algum tempo, com aquele figurino, a
mulherada não me dava sossego, mas uns invejosos passaram a se incomodar com o
meu tipo e me chamavam, permanentemente, valete de pau. A molecada se apropriou do apelido e mal
eu apontava na rua, vinha o coro infeliz e insolente: valete, valete, valete
de pau! Claro que eu não gostava. Um dia, assustando a todos, dei um tiro
pro alto e me diverti bastante com a correria geral.
Zé Antônio cresceu muito... Foi
pro Rio de Janeiro, formou-se em Veterinária e regressou anos depois pra me
ajudar no Barreiro. Era agora um moço alto, curvado, de boca entreaberta
e ligeiramente retardado – os cariocas cravaram-lhe o apelido de babão.
Na cidade modorrenta, a vida
eram as missas e, à noite, os passeios na praça; a visita ocasional de cupido,
uma médica feia e, tempos depois, a surpresa geral: a doutora e o Zé Antônio
estavam namorando!
Estão casados há cinco anos, mas ainda
sem filhos. Ele, sempre babando. Ela, com a santa virtude da feiura extrema.
Embora bondosos, nunca se viu tanto heroísmo junto. Muito me preocupam as
futuras crianças daquele casal.
Hoje, dia de feira, tirei uma folga do Barreiro
e vim à cidade. Dei uma passada na igreja, fui ao barbeiro e aparei o
bigode. Tomei um aperitivo e almocei bem. Breu do cinema falou que no
fim-do-ano haverá filme de Cantinflas e de Sarita Montiel: assistirei
várias vezes e já espero com ansiedade!
O sol começa a se pôr e estou voltando
à fazenda. Só eu e o Rocinante pela estrada poeirenta. Após cinco
anos de seca, o crepúsculo ainda é mais triste. Outra vez, lembrei do Rio. Quem
me dera a Cinelândia e as chanchadas: o sorriso da Eliana, as coxas da Virginia
Lane e a bunda alegre da Renata Fronzi. No rádio de pilha ouvirei Bienvenido
Granda e talvez volte a chorar.
Rocinante percebendo a minha
tristeza, parece escorrer duas lágrimas e me olha diferente. Aliso a sua cabeça
e falo ao seu ouvido: é isso mesmo, amigo velho, ninguém consegue fugir ao seu
destino.
Solteirão para sempre, pois o Rio de
Janeiro destruiu toda a minha esperança nas mulheres. Depois das cariocas,
nenhuma me interessa mais. Mas, se algum dia o cupido me flechar novamente,
tenho por precaução um velho cinto de castidade feminino comprado na Lapa.
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(*) Dr. Demóstenes Ribeiro, médico
cardiologista, é natural de Missão Velha, estudou no Crato durante muito tempo,
e atualmente reside e exerce a nobre profissão em Fortaleza-CE


