TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

AS CIDADES VIVIDAS – NOVO EXU

As cidades são corpos com vida. Isso quer dizer que se deslocam, são seres de tempo, possuem sentimentos, guardam relações de afetividade e estranhamentos, além de possuir uma inteligência que compreende as suas coordenadas no universo das relações das coisas em geral

Quando o viajante se aproxima de Novo Exu pelos lados da Chapada do Araripe ou flui contracorrente pelo riacho da Brígida, naquelas jornadas transcendentais pelos afluentes do grande Rio dos Cariris, duas visões ele tem.

Quando no alto da Serra divisa todo o infinito pernambucano até a vista se encabular por tanto espaço, que se dobra na curvatura do planeta, o viajante é tomado pelos espíritos dos Buxixés que dominavam a cordilheira do Araripe. Há uma sensação de vida e morte, uma dualidade de espinho e flor, um que fura e outro que perfuma.

Se pelas trilhas dos rios e riachos, vindos desde as barrancas e ilhas do São Francisco, tem o viajante o espírito desbravador dos desconhecidos, o abrasador sentimento de a tudo sobrepor, em alma e corpo, em catecismos e nas grafotecnias que atormentam a mensagem de futuro. Aquele futuro que pula o tempo, que esgarça a grande narrativa dos povos e cai no buraco do fatiamento da terra em glebas, que produzem para as ondas navegantes dos oceanos.   

Novo Exu tem o sentimento síntese de todas as lutas da divisão da terra, das propriedades das boiadas e do salto qualitativo das relações destas coisas, com a transformação disso tudo em poder político, disputa, morte e vingança. Foi necessário que um cantor das flores dos sertões se aproximasse das miras das armas para dizer: agora é outro tempo, nada mais a mover a morte, nada há para a próxima camisa ensanguentada.

Como todos os seres vivos ela fez escolhas para marcar sua identidade. O Crato é como um burgo medieval, necessita-se dele, mas além de educar os filhos, colocar os excedentes da produção e se abastecer, a mais nada serve como plural. Ainda hoje, o viajante atento, poderá ouvir o ranger de madeira dos velhos “mistos” que saiam da feira do Crato às 13 horas, desembarcava nas ruas de Nova Exu, assim como em Bodocó e se acalmava, nas horas primeiras da noite, em frente a uma pensão em Ouricuri.
Traduza toda a inteligência de Nova Exu no filão da Asa Branca, no rosto de lua de seu Luiz, no banco de conversa no mercado, com o olhar de adivinhação para o talude belíssimo da Chapada do Araripe. Nova Exu surpreende por ser Exu quando é Inxu, por não ser África, nem América, tampouco Europa.

Nova Exu não são seus fonemas. Em verdade é outra névoa a despertar a atenção do viajante. Não é uma esfinge, mas um índio que corre na cordilheira ou que desce com as águas até o grande rio.

AS CIDADES VIVIDAS - FARIAS BRITO

O viajante foi tomado por outros ares à entrada da cidade, qual a Paulo um rasgo nos céus o derrubou do cavalo, revelando-lhe a “nova mensagem”. Aquele que chega nas primeiras residências tem a visão nas nuvens: “o que teus olhos vêm é apenas o invólucro da realidade.”

Eis que naquela cidade a morte disfarçou-se num bloco de carnaval. Que ao povo se traduziu como se fora uma fantasia completa em que todos os dançarinos pertenciam ao culto das armas e do ódio. Na fúria malsã, o assassino tentou retirar a orelha da vítima e neste baixo instinto, foi barrado por uma faca de cortar sabão.

Como os donos das fábricas de gatilhos, miras e projéteis, tanto desejam, a cena não terminou na pura morte da arma de fogo, houve mais um corpo caído por arma branca. Nenhuma nova ordem se impõe que não seja, nas épocas comerciais, pela negociação, até da vida.  

Tudo que o viajante encontra em Farias Brito é diferente das pequenas cidades sertanejas. Em verdade, apenas os viandantes de pouca atenção conseguem entender a mesma semelhança entre diferenças tão marcantes nas localidades dos sertões nordestinos.

Algumas seivas correm nesta cidade, entre elas o rio Cariús em banho de fertilidade. Eis que a fertilidade é o centro do universo afetivo de toda a vida e se expressa quando, cheio de orgulho e disposição, diz: uma fartura maior do que ela mesma substantiva.

A cidade carrega, em seu topônimo, a memória do pensador Farias Brito, cearense, nascido em São Benedito e que se assemelhou às atuais forças dos pêndulos das ideias, entre avançar e retroceder. Era o pensador reacionário, arraigado aos preceitos religiosos e combatendo a evolução da filosofia crítica.

Três nomes encantam o viajante. Um deles soterrado na história da cidade, cuja beleza toma os sons de guizos, quem sabe de um sonho ritmado: qui-xa-rá. E a seguir o berço da toponímia dos povos fundadores da história humana na região: Cariutaba.

Entre eles, um se eleva sobre todo o panorama dos homens norteando os lugares para neles se reencontrarem. Canta, encanta-se e exalta-se a Serra do Quicuncá. O viajante cheio de amor sai pelas vias além, ritmando sua alma peregrina: qui-xa-rá, xa-rá, qui-qui. Qui-cun-cá.

Entre tudo, cá para nós, que saudade do Quixará.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


AS CIDADES VIVIDA – AIUABA

Conta o viajante, nos canais de comunicação, que Aiuaba é uma terra encantada, que alterna suas formas e cores como aqueles efeitos luminosos de grandes painéis e de árvores com lâmpadas chinesas, que enfeitam o verão quente dos trópicos, com apliques brancos como a neve.

No inverno, Aiuaba é de mais variado verde que a paleta de Monet. Ao longo do tempo as cores se modificam em ritmos diferentes, nas redondezas da cidade é uma cor, na Estação Ecológica é outra, na Serra dos Bois as cores se desmancham no caititu dos aviamentos das Casas de Farinha.

Nas margens dos açudes, um colar clorofilado e nas várzeas, faixas de umidade que, lentamente, modificam a tonalidade. As cores temporais de Aiuaba, um dia deixou de ser Bebedouro, porque outro havia a nomear uma cidade paulistana. Nome perfeito para um vaqueiro tangendo as boiadas pelos campos altaneiros dos Inhamuns e dos sertões do Piauí.

Todo mundo se pergunta sobre o fio do tempo mais longo da história dos sertões centrais do Ceará. Escondida no meio do mato, esquecida do tempo, eis a Casa do Umbuzeiro, que muitos sabem ser o berço familiar de dezenas de clãs no círculo de mais de cem quilômetros de raio. E a Casa do Umbuzeiro virou mito, imaginação, sem compromisso com sua integridade física. A ela ergueu o Padre José Bezerra do Vale, tido que, de dia, batizada os filhos que, à noite, ele mesmo gestava.

As ruas de Aiuaba, têm o silêncio dos séculos de ocupação, soma milênios dos povos que se fixaram em suas matas de terras altas e as centúrias da ibéria invadida, miscigenada, civilizada por ocidente e oriente, centro de gravidade da acumulação de conhecimento das grandes navegações e do maior poder unificador territorial da resultante do mercantilismo.

Quando em Aiuaba, nos cafés do Mercado, após o bate papo com Limaverde, na sua cadeira de rodas, os gestos da mudez quando ainda não se sabia a linguagem dos sinais, e seu Francês, como um relógio britânico, indo até a conversa de início de noite na praça da matriz e, na exatidão de minutos, retornando ao aconchego da casa.  

Aiuaba é uma terra seminal nos Inhamuns. Dos Fernandes Vieira, dos Feitosas, dos Arraes, dos Bragas, dos Andrades, Rochas, entre tantos que povoaram o futuro do país. Mas, também, tem cruzado em seu coração as tragédias pessoais, que resultaram de violências e mortes, vinganças e destruição. Nunca se esqueceu de seu Caboclo do Umbuzeiro, destemido, doce e sedutor, mas valente para qualquer embate que houvesse.  

Embaixo de um umbuzeiro, no entanto, sabe-se que uma seiva de vida corre pelas terras da cidade. Um amor pela pecuária de corte, com as sobras de leites e derivados tal qual a manteiga da terra pura em sua originalidade e o mais saboroso queijo de coalho. A carne de criação e um tempero de poucas especiarias, assim mesmo personalíssimo: alho, pimenta do reino, sal, cebola eventual e para outras receitas o gergelim e algumas ervas como a doce.

Em Aiuaba existe um fenômeno especial (não incomum no Nordeste) que são traços de personalidade, ética, honra, moral e inteligência de acordo com os núcleos humanos em suas fazendas. Como se fosse uma herança tribal da memória subjacente. Então, uma vez sabendo-se que é de tal fazenda, já se imagina traçar o seu perfil.

Antes que o viajante siga para além do multicolorido de Aiuaba, levará ele a memória de dois pratos de extraordinários sabores, no desvio padrão da normalidade gustativa. Lembrará o doce de chouriço, feito com sangue de porco, alguma gordura, gergelim, castanha de caju, erva doce ou outro tipo.

E o sarapatel, muito variável no Nordeste, de tal modo que muitos o confundem com sarrabulho. O primeiro das vísceras de carneiro e este das vísceras de porco. Acontece que em Aiuaba (de resto em partes dos Inhamuns) o sarapatel é do puro sangue ovino, talhado, cozido de modo a ser partido em pequenos cubos e completado o cozimento com as iguarias típicas de lá: muito alho e pimenta do reino.

Quando o viajante me descreveu a cidade, lembrei-me que alguma coisa havia em meu coração. Uma lembrança do Boqueirão e da Santa Clara. De um professor que faria cem anos no vindouro mês de abril. Além da sua mãe Leonarda, que tivera a visão clara do século XX, no dia em que, ao acordar para uma viagem na madrugada, viu o rastro luminoso do Cometa de Halley.

Muito mais havia para o viajante contar, mas ele tinha pressa em seguir em rumo do Nascente.


AS CIDADES VIVIDAS - ASSARÉ

O viajante ao marcar a rota para o local a que se diz Assaré, venha de onde vier, encontrará campos de várzeas e vegetação baixa, com algumas moitas de pereiro, pés de oiticica e dispersas carnaubeiras. Igualmente estará na confluência de vários sentidos humanos.

O sentido dos destinos, por exemplo. Assaré é um pouso seguro e ameno, para os transeuntes das longas jornadas a pé, em destino do Piauí ou seguindo o rumo dos Inhamuns ao Cariri. As rotas das boiadas em qual rumo tomasse, fosse ao Cariri ou em busca da estrada de ferro em Senador Pompeu, muitas vindas dos sertões piauienses.

O sentido dos topônimos. Dada a hegemonia que tomaram as línguas tupis para o projeto mercantilista da colonização portuguesa, diz-se que Assaré teria origem nesta língua com o significado de uma estaca que se destacou como referência destes campos. Porém, no sentido das outras línguas, não tupi, seria um destino diferente.

Assaré é o local da síntese poética do sertanejo: de suas lutas para enfrentar a maldição das secas, das cercas, das desigualdades e desamparo social. O lento destilar dos versos acumula, todas estas lutas pela mais bela das narrativas dramática. Pinta a seca pelo seu contrário.

No centro humano de Assaré corre um regato de águas cristalinas e ali assentaram-se alguns, separando o mundo, ao norte a várzea de carnaubal e ao sul os campos da “lagoa da pedra”. No inverno as águas minam em centenas de olhos que esverdeiam a vida em “tudo que é amoroso e terno”.

Por seus sentidos aos viajantes, Assaré sempre foi aquela que acolheu os passos cansados nas longas rotas dos sertões. Havia carne e legumes para tal acolhida. Os viandantes da “marcha de Caxias”, que seguiram do Cariri ao Maranhão para combater os últimos redutos portugueses, adversários do grito de independência dada ao Brasil, por um português. Por isso mesmo, muitos dizem que o grito não foi do Brasil, mas de Portugal, então, pertencente ao Reino Unido de Brasil, Algarve e Portugal.

Quando em Assaré, de frente para a matriz de Nossa Senhora das Dores, saiba o viajante que à sua esquerda, numa casa da calçada elevada, houve um momento que fundou o futuro e consolidou o passado. Já Assaré era parte da colonização europeia há 134 anos, quando afinal tornou-se a seiva de um novo povo na história. Era o quinto dia de março do ano de 1909.

Aos 21 anos, com todo o Ceará mantendo as esperanças na região amazônica, aquele que consolidou Assaré, foi viver em Belém do Pará. Naquela altura já o sangue dos povos da floresta e dos vastos campos nordestinos, tinha nele a sua Patativa. E ali um dos mais importantes cearenses, José Carvalho, publicou pela primeira vez versos daquela Patativa do Assaré.  

Desse modo Assaré tornou-se uma ave canora, versejando o mundo com sua dura realidade humana, com suas divisões de sofrimento, o céu, o purgatório e o inferno em que a classe trabalhadora ficaria. Mas sobretudo denunciando que este mundo era outro, fértil, amoroso, intenso e “transformado no mais imenso jardim.

E tudo em Assaré se expressa em cores e cantos. Pintando um “lindo quadro de beleza, do campo até na floresta.” E todos lá se manifestam, as aves, “no despertar de seus ninhos” e o “camponês vai prazenteiro plantar o seu feijão ligeiro”. “E corre água em borbotão”, os perfumes, os vagalumes enfeitando a noite em sua escuridão.

“Nesta festa alegre e boa, canta o sapo na lagoa e o trovão no ar reboa”. Assaré poetou, como uma patativa no mais alto galho, a pintar os sertões em toda a sua plenitude dos feitiços dos poderes que secam aos encantos que a todos desperta a humanidade plena.


AS CIDADES VIVIDA – CAMPOS SALES

O viajante flanava em lenta pesca de pensamentos, sonhos e amores, embaixo de uma grande Timbaúba, sentado numa formação de raízes da enorme árvore, toda ela com as cascas rugosas alisadas pelas inúmeras vezes que por lá se formaram rodas de conversas e a modorra do meio dia, ocultava até os cantos dos passarinhos da redondeza.

Estava nas chegadas do fim do dia. Os pavões já rodeavam o velho tamboril quando nas proximidades da galáxia notou-se uma perturbação. Pessoas a pé se aproximando do velho casarão. Em seguida o viajante percebeu, no calçadão próximo, uma reunião de homens, dois deles muito agitados.

Desse modo começou a grande viagem a Campos Sales. Nunca por lá estivera. Mas sabia ser uma referência de fronteira com o Piauí e o centro de encontro e fuga dos Feitosa e Arraes dos Inhamuns. Além da legendária Tauá, Campos Sales, era um centro comercial. Hoje recata o túmulo de Dona Bárbara de Alencar, a heroína das revoluções republicanas. Já foi Várzea das Vacas uma fazenda em torno da qual aconteceu o povoamento e depois Nova Roma em homenagem a um grupo de italianos que por lá se fixaram.

Nada disso o viajante viu. Convocado no calor das tensões em fuga, deveria pegar uma Camionete Verde e Branca, de Cabine Dupla e rumar sem demora para Campos Sales. Ele, o retirante e um filho, que seguia no banco da cabine de trás, com um rifle atravessado nas coxas. Uma viagem de cordas de violão em dó sustenido maior.

Ocultando-se do trânsito da estrada principal, seguiu pela antiga e abandonada estrada, que igualmente chega às Guaribas. Passou ao largo da casa de Pedro Belém, seguiu pelo Engenho de Água do Doutor Elísio e subiu a íngreme ladeira, margeada por cursos de água, com bicas saborosas de banho e cachaça.   

Nas Guaribas, o sol já se agasalhara por trás da serra, continuou pela antiga estrada, na direção de Santa Fé, e lá no descortinar da mais bela paisagem do Cariri, ainda percebeu uma lua cheia se levantando como um imenso fenômeno de cores e sedução.

A partir daí seguiu o túnel de luzes do veículo, embaixo da mata fechada em rotas antigas, cruzou a casa de Mané Coco e seguiu na velocidade que a fuga permitia, sempre com a visão de antolhos, não por anteparos à luz, mas por uma luz que reconheceu o momento de revelação do que antes era apenas escuro.

Nenhum assunto se tomou sobre a razão da repentina viagem a Campos Sales. Eram todos tão familiares ao viajante, que este se deu por satisfeito com as observações despertadas dos pequenos eventos no pleno das sete horas noites. Seja uma coruja cruzando as luzes, os insetos vitimados pelo sólido em movimento, alguma reminiscência dos tempos em andamento.

Aproximadamente de duas horas e meia a três horas, a camionete circulou pelas ruas de passagem do Araripe, focando alguns transeuntes que por lá se encontravam. E as pessoas ainda saíam às ruas, a única coisa que poderia prende-las em casa era o acordar da madrugada ou algum programa de rádio. Televisão não havia.

O viajante nem mais lembrou-se da razão da visita repentina a Campos Sales. O cantar inteiriço dos grilos, nas margens da estrada, alguma raposa cruzando o facho de luz, o formato desigual da copa de alguma árvore desengonçada e as horas minutando o tempo da rotação do mundo.

Finalmente Campos Sales. Toda ela dormindo. Ninguém na rua. Onze horas e só para bem depois os galos começariam a cantar. Com vagar, circulando por esquinas, ruas retas, casas semelhantes à arquitetura sertaneja, comércio sem letreiros, apenas com o nome pintado na fachada. Nenhum bar aberto. Apenas a camionete circulando até chegar a um largo.

Ali o retirante despediu-se e com passos apressados seguiu na direção da natureza escondida da noite. O filho sentou-se ao lado do viajante e este, com olhar atento à oportunidade, foi acompanhando as mesmas ruas por onde chegara.

Campos Sales, um dia volto, porque não podes ficar inscrita na memória como um lapso noturno de uma viagem. Duas horas da madrugada, o viajante desligava o motor da camionete e foi deitar-se, relaxado, numa rede da velha casa ao lado da majestosa Timbaúba.


AS CIDADES VIVIDAS - POTENGI

Um viajante pelas vertentes da Chapada do Araripe, pode se aproximar de Potengi, vindo pelos vales junto ao Planalto, segue pelo Latão, Morro do Ouro e Baixio do Facundo. Ou, então, desce perto de Araripe e segue em direção noroeste.

Na jornada encontrará um viajante atemporal, presente em todo o trajeto e em qualquer século, que dirá: “quando em Potengi, encontre uma iguaria dos céus, feita pela paciente Neuza. O doce de leite mais puro e saboroso da história.” Neuza, Neuzinha, Dedé, Zé, Agamenon, com a memória do tempo e o sabor cremoso, a desmanchar-se na boca com a certeza que não provará doce de leite igual.  

Outro dizer apontará a permanência icônica de Seu Luzim, com a paciência dos grandes líderes e o ímpeto emancipatório, a transformar em município o que já era, então, distrito de Potengi, vinculado a Araripe.  Acontece que na memória mais funda do viajante ainda o enunciado do “xique-xique” que um dia foi.

Nos campos sertanejos, de pedras e jardins de cactáceas e muito pé de Imbé, nas locas dos lajedos ou dos morros de granito, habitat natural de mocós e onde os bode e cabras dão saltos na beirada dos abismos. Nas manhãs, os cabeças vermelha despertam a alma e pela metade as rolinhas “fogo-pagou” dão pontos e vírgulas às narrativas do tempo. Ao final do dia o cantochão da rolinha “caldo-de-feijão”, quase uma “tristesse” de Chopin.

Quando o viajante pensa no riacho Brejinho, passeia em suas margens, seco a maior parte do ano e retorna à cidade, o seu reencontro é no mercado com seus bares, cafés e pequenas lojas. Nada acontece, ou se sabe, se não sentados em cadeiras, com assento de couro ensebado pelo tempo, um café coado e adoçado, acompanhado de um bom pedaço de “bolo-de-milho”, com um sabor apenas encontrado naquele tipo de comércio.

E seu Françuli? Cavando as covas para despejar milho ou feijão e escuta o barulho estranho de uma aeronave, mais alta que um urubu. A enxada parada e ele na ponta do cabo com os olhos pregados no céu. E viajou nos ares pela força do olhar, numa viagem que durou uma vida toda. Um museu da aviação em pleno sertão, todo o acervo criado por seu Françuli faz os visitantes voarem na criação humana. A criatividade do povo de Potengi.

Coroa-de-Frade. Mandacaru. Xique-Xique. Rabo de Raposa. Juazeiro. Umbuzeiro. Cajarana. O velho Antônio Dão se entocou na loca de pedra, lá no alto, de onde tinha uma visão de léguas à frente. Ele, um rifle do papo amarelo, munição, uma cabaça de água e pedaços de rapadura e fumo num embornal. Se o campo estivesse sem estranhos à vista, acenava e um prato de comida lhe era entregue.

Lagoa do Gravatá e o açude de Zé Alves são pedaços do paraíso e não porque fossem apenas belos e cheio de vida, mas porque era água, daquelas águas que inundam o coração do viajante. Pelos lados do norte, o viajante chegará ao Baixio do Facundo, terra dos Libórios, de onde uma belíssima mulher se criou, elegante, cavaleira e com olhar de mando da altura do encanto do Coronel Chico de Brito. Morena Libório, um dia chegou ao litoral pernambucano e naqueles recifes sorveu o tempo, que ainda inventou depois daquele do Baixio e outro no Crato. 

O viajante, com a barra do sol quebrando, foi saindo para novo destino, ouvindo a sinfonia dos martelos sobre a bigorna, como dezenas de arapongas, dando aos metais as formas da utilidade. E foi saindo sem uma resposta sobre a razão de Potengi ser dito Potengi, que em tupi guarani quer dizer rio de camarões. É o nome de um rio histórico do Rio Grande do Norte, o Potengi que desemboca na altura do Forte dos Reis Magos.


AS CIDADES VIVIDAS – ARARIPE

O viajante das léguas e do tempo sobre a Chapada do Araripe, se não descer a serra em Santana, seguirá pelo planalto até declinar na cidade, também denominada Araripe, um pouco mais afastada da elevação.

Um fervor histórico formou esta cidade. A história, como sabemos, é fruto da política praticada pelos poderes religiosos e laicos. Formou-se uma nova comunidade, atrelada ao modelo imperial, do então Brasil independente, pós-guerras napoleônicas e da era do Imperialismo Inglês.

O fervor religioso, acompanhado pelo carisma do Padre Henrique José Cavalcante, foi atraindo gente dos outros sítios de Santana, Assaré e pelos Inhamuns e Campos Sales adiante. As famílias foram chegando por aí, mas com um forte pé nas vizinhanças piauienses e suas boiadas pelo Vale do Médio Parnaíba.

As lutas pela emancipação da comunidade, com base familiar, sempre se acompanharam dos eventos históricos fortes nos séculos XIX e XX: a freguesia de Santo Antônio do Brejo Seco, depois evoluído para Município com o mesmo nome para finalmente, 1889, na Proclamação da República tornar-se Araripe. 

Araripe tem uma espécie de ilusão de compreensão, atordoando o transeunte que em seu espaço chega. As primeiras impressões espaciais se igualam às cidades sertanejas, com ruas empoeiradas, um silêncio de clima seco, o cheiro de criação, as audições do badalo de chocalho e a depender do horário do dia, madrigais de passarinhos se espalham pelos “locus” da cidade.

Uma vez superado o sentimento do espaço, introduz-se o tempo humano e seu trabalho e assim encontra-se o território plenamente centrado na família numerosa, aparentada, seguindo todo o modelo, quase clânico, como faz cultura e se organiza politicamente.

Os Alencar, os Almino, os Arraes e tantos outros entrelaçamentos, onde o viajante extrai a formação de poder e família que se projeta nos principais pilares do Estado e da Sociedade. Quando o transeunte é acolhido numa roda de conversa, jamais cite alguém ou se mostre admirado por um espécime do gênero humano, ninguém é indivíduo congelado, todos estão solvidos no arco do tempo e do espaço do regato familiar.   

Um dia Padre Limaverde tornou-se vigário de Araripe. Aliás este Padre exótico fez o mapa do Ceará, se teve notícias dele em povoações juntas ao litoral e agora nesta viagem, numa Chevrolet verde Cabine Dupla, foi transportado até sua paróquia.

Ninguém veio busca-lo. Em Araripe chegou e num quarto da casa paroquial guardou tudo que tinha na vida, não ultrapassava muito de vinte quilos, inclusive livros. Mas levava uma carne preparada para comemorar no almoço.

As partes firmes do corpo de uma cobra jararaca, já preparada e temperada, precisou apenas ir ao fogão. Comeu com uma alegria que encantou os demais comensais de outras iguarias, numa verve impossível do viajante repetir, porque apenas, junto ao Padre Limaverde, seria possível sentir os cânticos dos jardins do paraíso, numa explanação exuberante e otimista.


AS CIDADES VIVIDAS – SANTANA DO CARIRI

O viajante, que subiu a Chapada do Araripe, pisará a teia de aranha do tempo e seus rastros se misturarão à poeira dos passos corridos do povo Buxixé que percorria o planalto, até descer nas vertentes do vale do Cariús. 

Na borda do arenito da Formação Exu, um cruzeiro a 750 metros de altura, desperta as sobrecapas das levas humanas, criando territórios de histórias milenares, que imitam as camadas sedimentares, a oferecem, ao visitante, o panorama da idade da terra. 

Junto ao povoado do Cancão Velho tudo é mundo e tudo é história. Desde a separação ruinosa das placas da terra, regredindo o oceano e deixando pedras dos corpos entardecidos da vida de então e depois um lago onde se imprimiram em milhares de anos as tênues partes do corpo de lepidópteros.

E as camadas sedimentares da história humana, com as inscrições rupestres, na mirada do alto do Cruzeiro, as lendas dos povos cariris e a chegada violenta doS europeus, com as pestes em seus corpos e o chumbo com pólvora nos braços, o dedo no gatilho e as boiadas a tomar as terras e suas emanações de vida.

E na camada superficial, mesmo aqueles viajantes mais apressados, que apenas enxergam a face da terra, encontrarão a oração de Sant´Ana: Senhor, Deus de nossos pais, mesmo quando pais nossos não foram, que concedeste a graça de gerar a vida, dali extrair os filhos que lutam para sobreviver, em meio à fúria dos rituais do dinheiro e da ganância, na borra ritualística extraída das nossas almas originais, então maculadas em sede de vingança e medo do amanhã. 

Santana do Cariri por tuas ruas compridas, nascidas na base da serra e alinhadas em rumo do Brejo, tenha por certo a pureza de coração, a paciência da espera, porém se conectando ao correr do tempo e das eras, enxergando mais do que uma civilização além mar, achando os corpos d´África e toda a força daqueles que nestas terras já estavam.

Que tu, viajante destas terras belas, com teu véu (chapéu) de duas cores, um marrom para representar a simplicidade da síntese de quem tem os arremates das camadas do tempo e o verde para que renasças deste longo sonambulismo das gôndolas dos supermercados ou das vitrines luminosas dos shoppings.

Quando em Santana do Cariri encontre-se com sua filha a Senhora da Luz e deste encontro saiba que tudo o que possas compreender em rastros, símbolos e vida, foi o esforço de um filho, preparado intelectualmente, no Seminário do Crato, que fundou a compreensão Plácido Cidade Nuvens das camadas do tempo e da história humana.

Seja Santana do Brejo Grande, Santonópole e afinal o teu Santana do Cariri, eis, de algum modo a tática europeia de implantar-se no Novo Mundo: transpor os símbolos de sua história para os Cariris Novos. E fizeram isso porque precisavam dar sentido à invenção da civilização mercantil: a isso disseram sincretismo. Afinal todo arranjo é sincrético em religião, lendas, símbolos e língua.

Sabe o viajante que nas ruas de Santana, correu sangue da guerra dos coronéis, das rixas políticas do Século XX, assim como até esqueceram do padre que um dia bebia com os amigos quando um disse: nesta terra só quem não bebe é o sino da igreja. E o padre, audacioso, disse: sino bebe. Ele bebe! Desceram o sino e o banharam em cachaça. Só que na movimentação, no tombar do sino, ele rachou.

E, a partir daí, ficou roufenho. Como cordas vocais partidas entre os componentes que o viajante encontrará de três continentes da história humana e toda as eras geológicas, que a indústria cínica do extrativismo chama Pedra Cariri. Aquelas que se tornarão pisos de praças malcuidadas do interior do Ceará.  


AS CIDADES VIVIDAS – NOVA OLINDA

Nova Olinda se esconde do viajante. Fica numa reentrância da Chapada do Araripe a depender por onde o destino conduz. Ao deixar o litoral e descer pelo sertão central do Ceará, passando na região dos Inhamuns, após algumas serras o andante chega lá.

Quando vem pela região do Cariri o viajante é obrigado a atravessar a Chapada do Araripe e seguir descendo por grotas, alcantilados sedimentares, cortados tão verticais que lembram as paredes de cânions litorâneos. E ali brotam olhos de água doce.

A velha Tapera que fermentou um tempo, ao invés do abandono. Lenta transformação que perdeu o sentido dos propósitos. Numa manhã de inverno atravessava a Ponte de Pedra, no lapso de dois mundos, aquele que vivia para morrer e o que morria para viver.

A velha Casa Grande, nascida dos currais e dos tangerinos atravessando os sertões, até os matadouros e salgadeiras, que maturaram o produto da carcaça em cortes e o transportaram no lombo de animais para, depois de muitas léguas, embarcarem nos mares bravios, aos quais vaqueiros nem imaginavam como eram.   

Alguma parte da carne, tornou-se carne-de-sol no prato do povo da Tapera. Assim como parte do couro foi curtida e ali transformada em sola e amolecida após ser tingida e ao final artesãos a transformarem em selas, arreios, perneiras, gibões, alpercatas, botas e açoites, de muitas tranças, lindas peças que poderiam lanhar a carne do açoitado.

Tudo era uma névoa do tempo. Uma espécie de final de ano que mal recordava o início. Por certo alguém, com as veias circulando do seminário de Olinda deu à velha Tapera o Novo tão distante dos recifes.

E a moda pegou, tem Nova Olinda do Norte no extremo do Amazonas, tem Nova Olinda do Maranhão e até uma Nova Olinda da Paraíba. Afinal não foi por algo distinto, que a vetusta freguesia portucalense, dos Templários e dos bispos poderosos tais qual Marqueses, resultou, em pleno solo úmido dos Cariris, numa Crato substitutiva da Missão original.

O viajante encontra em Nova Olinda três minaretes que coçam o céu da mitologia. O primeiro desanuvia o panorama em sentidos gênicos, sejam animais, minerais ou vegetais. Tudo se move no presente dos vivos e na borda do fantástico simbólico, na analogia das formas rotineiras com aquelas da eternidade mitológica.

Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde transformaram os trapos da história, numa teogonia esplêndida, onde todos os sentidos se voltam aos que nascem, se transformam e se expressam com uma autenticidade nunca antes vista naquela simbologia superada da aldeia abandonada.

Afinal Nova Olinda chegou ao apogeu do seu propósito (de ser uma linda situação para o seu povo). Mas não veio com os versos de cavalaria, na métrica dos poemas dos trovadores. Esta Nova renasceu como uma revelação de Vinhos da Alma, produzido a partir da mistura de cipós e folhas. Portanto, surgiu da relação dos seres mutantes da floresta, com a burguesia rígida das tramas viárias.

Do mesmo modo, fazendo parte da mesma mesquita, o segundo Minarete reflete a esquecida civilização do couro. Uma espécie de reconquista do mundo perdido do profundo sertão, onde o ferro e outros instrumentos eram raros e ao couro se daria toda a serventia do que faltava. Seu Espedito Seleiro continua fazendo do couro as mesmas sandálias que o pai fazia para lampião confundir os “macacos”:  um solado retangular sem dianteira e traseira.

O viajante poderá encontrar uma bolsa num shopping qualquer da alta burguesia, extasiada pelo exótico, sem entender nada dos símbolos que seu Espedito exprimiu nos desenhos quase mouros. E não foi uma aliteração, o terceiro Minarete é o próprio Viajante em busca de um sentido para o vago da globalização incompreendida.    


AS CIDADES VIVIDAS – CARIRIAÇU

Caririaçu é uma visão, uma composição imaginária, assim como uma flor evidente entre inúmeras outras do jardim. Na claridade tropical, próxima ao equador, a acuidade visual não consegue localizá-la, no círculo de serras, que cinturam o Cariri.

Fincada no alto da Serra de São Pedro, na face virada para o Vale, Caririaçu foi criada como aqueles espelhos de bolso, geralmente masculino, redondo, com figuras eróticas ou emblemas de futebol na face irrefletida. Um dia meu primo Eliezer Feitosa caiu do cavalo em disparada, sentiu que quebrara o nariz, com a objetividade sertaneja, tirou o espelho do bolso e repôs o vômer ao lugar correto.  

Disse espelho, mas ela não é um astro que se evidencie no reflexo da luz. Caririaçu é um pequeno ponto luminoso nas noites do vale, quando a alma, desamparada de luz, divaga nas luzes elevadas na serra distante, propícias à expansão do espírito.   

De onde nos encontramos, a cidade parece cantar uma velha melodia italiana a solicitar: diz-me quando tu virás, diz-me quando...quando...quando. E por certo vamos marcando o ano, o dia e a hora em que talvez, numa noite vazia, a beijarei em seu pequenino aceno luminoso.  

Caririaçu fica no gume da Serra de São Pedro. Toda a largura da serra é preenchida pelas suas curtas ruas. A ela sempre se chega subindo e se vai descendo. E todas as vezes que o viajante passa ali, guardará, para sempre, um instante, até quando...quando...quando, de repente a reverá sorridente junto a ele.

Caririaçu não se faz notar na distância para, na proximidade, ser diferente. Continua sendo o mesmo ponto luminoso que orienta o vazio do olhar. E na sinceridade devida a toda fonte de luz, exige que o viajante diga sim, mas revelando o por que, uma vez que não faz sentido para ela, a vida sem a presença física daquele que um dia notou as suas luzes na distância.

É preciso ser um viajante de raiz para perceber a importância de Caririaçu. Três vias principais são alternativas de viagem. Uma sai de Crato, contornando a Serra de São Pedro na direção de Farias Brito, a outra sai de Juazeiro para Barbalha e segue adiante e finalmente aquela que sobe até seu recato urbano.

Aquelas luzes no alto, no ermo escuro da noite, parece nos solicitar que digamos quando iremos, numa emoção latina: diz-me quando....quando...quando.

E nas impressões permanentes da vida os nosso corações serão beijados pela promessa que não a deixaremos jamais.

Jamais.

A sedução de Caririaçu com seu flerte de luz noturna.

AS CIDADES VIVIDAS – JUAZEIRO DO NORTE

O viajante para chegar a Juazeiro do Norte deve incorporar-se às léguas tiranas dos sertões, nos passos das almas em busca de salvação. Um companheiro de jornada, falava, com fervor, da qualidade das cunhas que fixavam as enxadas até nas covas dos legumes plantados em terreno pedregoso.

Dizia ele: é mais importante do que este monte de carne e osso, pois é com ela que alimento o arranjo. É mais importante do que tudo acontecido desde que separaram-me do cordão umbilical que me ligavam às águas da minha mãe. A cunha da enxada bem ajustada é como o palácio de um rei.

Juazeiro é um grande lago de gente, que recebe tributários da totalidade da rosa dos ventos. Na carroceria do “pau-de-arara”, embaixo da lona enfornada, na poeira batida pelo calcanhar da corrolepe, ajustando a carga do jumento, no passo das ladainhas e das cantigas de peregrinos.

E como uma cidade, cuja natureza são os moradores e moradias, pode ser um lago pondo em risco as posses, onde todos vão do modo como podem, do jeito que a fé lhe conduz? Estes são os segredos de Roma, de Meca e Medina. Tudo é igual em trabalho e vida, o que os distingue são as quantidades em atribuições de valor. 

Deste o Arco dos Salesianos, os segredos, os mistérios da fé, os enigmas, os caprichos do destino, os desfechos de vida e morte, na insustentável existência, se fundem nas estações suplicantes e desenhadas como os benjamins da Praça Padre Cícero.
Por onde passe, seja na Igreja dos Salesianos, no Santuário dos Franciscanos, na Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e na subida do Horto, tudo sustenta as multidões que desembocam naquele lago com face de eternidade.

Sei bem que nada sou e nada levo deste mundo. Ninguém me conhece, não tenho nome e nem parentes. Sigo os preceitos da fé dos meus antepassados, aceitando o destino, mesmo escrito por outras mãos que não as próprias. Por isso este lago de gente, no qual sou uma gota, não se rebenta e extravasa. Pelos preceitos e destinos assinalados.  

Hoje levo um terço para Das Dores, um retrato do meu Padim, um pano para Zabé, levo porque é esta mercadoria sagrada que tudo acalma, tudo acomoda, a tudo explica. Acalma as dores do sol consumindo, em chama alta, o meu estoque de tempo. Acomoda o sangue das balas da tocaia, explica porque deixei minha roça no tempo de bonecar. A menina negou-se ao filho do patrão.

Como não tenho outro valor de corpo e alma, ajoelho-me aos pés deste terço, deste retrato e deste pano como se fossem tudo o que resta de valor na vida. E assim ouvindo aquele com quem andei nas estradas de chegada, fomos deixando Juazeiro do Norte pelas mesmas rotas. Levando um desejo de um dia ser tão igual no céu quanto não somos na terra.

Juazeiro do Norte, a cidade onde a voz mais aguda do destino se manifesta, numa fé cantante que sinaliza a dor inteiriça, enquanto a terra não for o amor e a irmandade prometida há dois mil anos. 

AS CIDADES VIVIDAS – BARBALHA

Quem chega a Barbalha, pelas vias principais, sempre atravessa grandes canaviais. São rotas úmidas, com perfume adocicado e algumas fragrâncias fermentadas. Na passagem, a lateralidade é obstruída pelo verde e pendões, restando a esticada rota invadida por palha seca e o céu azul como uma tampa sobre aquela floresta baixa.

Das três contas da joia caririense, Barbalha é aquela que mais se guardou no interior da caixa nacarada que contém a preciosidade regional. Na rota vinda de Juazeiro do Norte, o viajante se depara com um muro, que lembra as cidadelas medievais, onde se escreveu: “alto lá senhores protestantes, Barbalha de Santo Antônio, já foi evangelizada.”

O viajante se defronta com um burgo de castelos e um silêncio de tempo no qual não se ouve os estalidos da modernidade vingativa, que incendeia todas as outras cidades, mas não parece acontecer em Barbalha. Um traço da personalidade da cidade são as moças louras, de olhos claros, diáfanas como um sonho de branca de neve, que nos desperta o desejo de lhes oferecer um naco entorpecente de maçã.

Numa rua de Barbalha todas as casas são patriarcais. Menos a casa de tia Tetê. Era ela uma matrona com olhar de decisão e uma acolhida de relaxar o viajante. Naquela casa, todos os cômodos experimentaram várias gerações humanas. Por isso o mobiliário era centenário, na coleção sempre a lembrança de alguém que já se fora ou de quem ali permanecia. Sobretudo nos habitantes, a postura imperativa com uma aura solene que albergava séculos de histórias d´além-mar.

No labirinto de aclives e declives, das ruas de Barbalha, o transeunte é capaz de ouvir o grito forte do almuadem, anunciando outro conteúdo que não a oração muçulmana. Uma boca eletroeletrônica estonteia a audição anunciando a próxima sessão do Cine Neroli, que tanto resistiu ao tempo, até que foi condenado pela inquisição televisiva com suas novelas em substituição aos dramas cinematográficos.

Na Praça Central, quando em época das festas de Santo Antônio, o padroeiro deu um sentido pleno jamais visto nas outras cidades. Dias próximos ao evento, uma multidão de homens, uma banda cabaçal, panos para os ombros, garrafas de cachaça e os machados cantando no meio da mata. Depois uma procissão, carregando um longo tronco de linheira árvore, até finca-lo no centro da praça. Em Barbalha era o “pau-de-Santo-Antônio”.    

Barbalha é um meio entre a subida e a descida. Ao descer se dilui no imenso canavial e ao subir evola-se pelas encostas da Chapada do Araripe, numa inclinação tal que a respiração fica mais rápida que o suspiro dos motores a vapor dos engenhos. No primeiro anel da marcha, encontra-se a vila do Caldas com sua gruta de águas cristalinas e um silêncio apenas melodiado pelas diversas espécies de pássaros das matas vizinhas.

O ritual mais intenso da solidão, acontece das seis horas em diante, numa calçada alta do Caldas, com tudo escurecendo, os pássaros silenciando e as luzes se acendendo na distância impossível de por lá se resolver. Qualquer que seja a proposta, nunca aceite uma insônia em tal ambiência, quando todos dormem, os lampiões se apagaram e apenas sombras de caibros, linhas e telhas, numa latência que tanto pode implodir o corpo como explodir a alma.

Porém, tudo isso são as impressões dos viajantes por estas cidades vividas. Jamais um natural dali, teria esta calda de angústia que acompanha os cometas andantes do firmamento. 


AS CIDADES VIVIDAS – BARRO DE ZÉ INÁCIO

As rotas dos sertões dos Cariris são amplamente fronteiriças às alternâncias de altitudes do relevo e da divisão política dos estados. Ali a confluência de quatro dos nove estados nordestinos: Piauí, Pernambuco, Ceará e Paraíba. Mas se aconselhando que o Rio Grande do Norte fica bem perto.

O Barro de Zé Inácio não é um território contínuo. A maioria das cidades contínua é, mas o Barro se diferencia. Três pontos espaciais dão significância ao destino, tanto dos que no território nasceram como aqueles que chegam e outros que se vão.

Os três pontos do Barro são o Arruamento, a Serra do Ouricuri e o Riacho do Meio. Os três em conjunto têm um significado espiritual traduzido nas simbologias desde o Vale do Indo, passando pelos corpos hídricos da Mesopotâmia e as civilizações das águas do Mediterrâneo.

Símbolos do movimento da matéria e daquele que nunca se move e tudo cria. O Pai, o Filho, o Espírito Santo. O criador Brahma, o preservador Vishnu, o destruidor Shiva. A arte do encontro com a comunicação, a expressão e a expansão.

Zé Inácio conformado nos determinantes históricos do Arruamento: coiteiro de Lampião, operador militar de Floro Bartolomeu, estabelecido na linha política do Padre Cícero. Ousado, com o desiderato do avanço e da vingança, de fazer filho com as mulheres e de retirar deste mundo, os filhos dos outros.

O Riacho do Meio como vértice do triângulo, é o movimento, a revelação do presente, o sótão do passado e a visão panorâmica do futuro. Da varanda para o infinito sertão, lá onde a vista plena alcança o Serrote do Cachimbo, quando fuma, adiante vem chuva.

A Serra do Ouricuri é híbrida, parece que existe noutra ordem que não a carne da Sede (o poder político) ou do Riacho do Meio (a contagem do tempo). Espiritual, não se explica pelas partículas de matéria e energia, não é um tempo, apenas o simulacro do espaço.

Nas ladeiras da Serra a civilização dos automotores vai ao mundo dos vivos com um langor de dúvidas sobre a realidade da combustão e da explosão que movimenta molhos de ferro, plásticos e borracha. Um gemido contínuo se espalha nos demais pontos do Barro de Zé Inácio.

No Riacho do Meio a criação desperta com o cancão falante do velho Julião e anunciando a história da travessia da África nos porões negreiros. E por isso mesmo ele teve dois filhos idênticos. Um adotou os ritos da masculinidade imposta e outro a feminilidade expressiva em gestos e amores. Ambos migraram ao Maranhão.

A Sede por muito tempo chorou o assassinato de Zé Inácio, fugitivo a conselho do Padre Cícero para Goiás. Ali encontrou seu destino de violência, carregando muito dinheiro, na companhia de Sinhô Pereira e Luiz Padre. A inveja cuspiu chumbo e enterrou o coronel nos sete palmos de profundidade.

O viajante que chegue ao Barro vai encontrar tudo muito diferente em fantasias e escolhas de indumentárias (celulares e esta tela de facebook). Mas se encontrar os três vértices do triângulo, logo compreenderá o significado desta trindade.   


AS CIDADES VIVIDAS – ROSÁRIO DE MILAGRES

Antes de chegar ao destino antropofágico do centro imaginário, quando corpos emagrecidos foram postos a engordar e uma espécime entre todos, fora escolhida por apaixonada donzela da tribo cariri, para uma fuga milagrosa, eis que saindo da “cidade de passagem” toma-se encostas divisadas a belas planícies.

Numa alça da rodagem, declivada em tonturas de velocidade, no destino oeste a leste, à direita de quem segue, bem ao final da curva, um casarão sertanejo, assim dito porque lembra, mas com finalidades distintas, porque é ali o “Café da Linha.”

Um Expresso de Luxo nas bordas do vale do Riacho dos Porcos, afluente do Salgado. Café, leite gordo da vaca mimosa, cuscuz com manteiga feita na casa, queijo de coalho assado, costela de carneiro (ou bode), um rebuliço de gente servindo e outras comendo.   

Depois a vista é só paisagem esticada com a curva de um universo inteiro. Então o passageiro toma à esquerda, ao final de uma rota e a caravana segue na trilha de massapê que dança a condução, jogando a traseira para um lado e outro. Uma dança do ventre típica das épocas chuvosas.

Quando, então, desemboca-se no que se diz, naquelas terras de chuvas temporárias, numa passagem molhada. Uma parede que barra a vazão do Riacho dos Porcos e mesmo o passageiro transitando sobre borrachas e aço, tem a sensação hídrica de uma navegação submarina.

Ao final cai na Vila de Rosário. Um largo como de uma aldeia tapuia, meninos nus pela paisagem ampla, cabras observadas sobre pontas de pequenas pedras, porcas amamentando uma ninhada, índios europeizados e africanizados sentados na estiagem do trabalho. Conversa em cantochão como se numa devoção mariana.

Enquanto o olhar em trânsito observa aquela vila do Rosário em meditação, uma solidão interior abala o passageiro que percebe o ciclo dos três mistérios desde a anunciação dos eventos (gozosos), sua agonia (dolorosos) e sua ressurreição (gloriosos). Sabe o transeunte que a ressurreição é outro estágio, muito distinto do nascimento. Porém muito mais intenso porque Rosário ressurgiu como Podimirim.

As ninhadas de porquinhos, mamando as tetas sem amanhã, dão aos podimirins um sofrimento castigado numa sina de males e balas, de trilhas impedidas, do largo esvaziado, mesmo que com os cariris conversando pacificamente ao tecido da visão passageira. Antes que se atinja o canavial a seguir, o transeunte ver nas nuvens Badzé atendendo aos pedidos de Poditã ensinando os segredos do cachimbo de ervas mágicas e do cauim da jurema preta.

Então estamos em Milagres. Com suas ruas curtas e tortas, seu casario de século XIX e XX, no estilo bem típico de quando os veículos de transporte eram outros, a iluminação caseira de chamas e o fogão em fagulhas. Mas para afago do Vale dos Cariris foi ali que a Companhia Hidroelétrica do São Francisco implantou sua estação de distribuição.

As cidades vividas nunca são uma paisagem de passada. Elas são uma efluência de mistérios e histórias prontas.