TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

terça-feira, 13 de novembro de 2018

RESSACA ELEITORAL - José Nilton Mariano Saraiva


O velho axioma nos ensina que a arrogância e a soberba não levam a lugar algum. Essa a principal lição que se poderia extrair ao final das eleições presidenciais recém-findas, com o chororô interminável e recorrente do senhor Ciro Gomes, pela terceira vez rejeitado pela maioria da população brasileira (obteve raquíticos 12,47% dos votos válidos, no primeiro turno, cerca de duas vezes e meia menos que o segundo colocado - 29,28%).

A propósito, não se deve olvidar que, lá atrás, muito lá atrás (conforme ele mesmo confirmou agora), fora convidado para figurar como vice na chapa que seria encabeçada pelo então líder das pesquisas, Lula da Silva, preso em Curitiba, mas recorrendo da sentença.

Mas, como já àquela altura era quase certo que a candidatura Lula da Silva seria inviabilizada pelo conluio imoral e desonesto do juiz Sérgio Moro, Supremo Tribunal Federal e alto comando das Forças Armadas (o próprio comandante do Exército confirmou agora que exerceu pressão sobre o Supremo Tribunal Federal para que não concedesse o habeas corpus a Lula da Silva), a tendência natural seria que Ciro Gomes assumisse a “cabeça-de-chapa”, contando com o apoio irrestrito de um “cabo eleitoral” do peso e porte de Lula da Silva (mamão com açúcar, faca na manteiga, mole mole).

Mas, aí falou mais alto a já conhecida arrogância e soberba de Ciro Gomes, ao imaginar que, como candidato de um partido de aluguel, PDT (como tantos outros pelos quais transitou) conseguiria fazer com que o PT abdicasse de seu passado  de luta e, por consequência, de  uma candidatura própria, para apoiá-lo, em nome de uma suposta “aliança das esquerdas”.

E aí, muito embora experiente e passado na casca-do-alho, Ciro Gomes literalmente pisou feio na bola. Afinal, o racional e lógico, naquela oportunidade, seria que subisse no “cavalo selado” que praticamente parou à sua porta pedindo pra ser montado e daí cavalgasse para o abraço (certamente teria feito cabelo, barba e bigode).

Como não o fez, o PT decidiu-se por Fernando Haddad, que com apenas ínfimos 20 dias de campanha (mas com o apoio de Lula da Silva) conseguiu passar tranquilamente para o segundo turno.

Assim, depois da mancada homérica, só restou a Ciro Gomes acenar para os políticos de quinta categoria do tal “centrão” e outros partidos pigmeus, que o renegaram, preferindo abraçar o insosso Alckmin (que também não ganhou nada com isso).

Fato é que, inexoravelmente derrotado (por erro de estratégia), Ciro Gomes praticamente ajudou, sim, a eleger Bolsonaro, ao se omitir no segundo turno e se mandar para férias na Europa, em plena efervescência do embate final.

Hoje, na ressaca da refrega eleitoral, matreiro e oportunista, e aproveitando o momento difícil da esquerda (como um todo), a “diversão-fúnebre” de Ciro Gomes é desancar do PT e de Lula da Silva, ao sugerir uma grande frente de esquerda já visando as eleições de 2022, evidentemente que com ele comandando e figurando como “cabeça-de-chapa”.

Proscrita desde já, uma possível candidatura do PT, por conta da repentina aversão do messiânico adepto do “bloco do eu sozinho” (Ciro Gomes). 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O QUE NOS ESPERA



QUI, 08/11/2018 - 23:59
ATUALIZADO EM 09/11/2018 - 06:55
 * Uma referência não muito sútil ao filme O Exército de Brancaleone
Talvez o exemplo histórico mais próximo seja o da Torre de Babel. São grupos de pessoas de várias procedências preparando-se para tomar o poder. Ou “O Rato que Ruge”, que conta a tomada de Nova York por um pequeno país, que tinha apenas a pretensão de ser derrotado para ser auxiliado, mas encontrou Nova York em blackout.
Só dentre os “olavetes” (discípulos do filósofo Olavo de Carvalho) há quase dez grupos independentes entre si, que mal se conhecem. Tem mais tendências que os trotskista dos anos 70.
Há os seguidores do padre Paulo Ricardo, reacionário de mão cheia, que juntou uma legião de padres para apoiar a campanha de Bolsonaro.  Há olavetes que detestam evangélicos e olavetes que detestam católicos. O segundo grupo segue evangelicamente os ensinamentos do mestre, que os proíbe criticar o Papa, mas os estimula a desancar a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). São os mais ideológicos, acreditam piamente no liberalismo amplo e irrestrito e no destino manifesto de Bolsonaro, de ser um Donald Trump tropical.
Aliás, para o grupo, é Deus no céu, Olavo na terra, e Trump no mundo. Deu um trabalhão para o general Heleno convencer o pessoal que não bastava pensar como Trump para agir como Trump: era necessário dispor de um exército como o dos EUA e uma economia como a norte-americana para invadir outroS países. E parem com essa bobagem de pensar em invadir a Venezuela!
Pararam.
Vão ser os primeiros a serem engolidos pela real polítik. No início tinham a ilusão de que, pelo fato de Olavo ter fornecido os três grandes motes da campanha – o kit gay, a Venezuela e a liberação das armas – ele seria o grande ideólogo de Bolsonaro. Mas o capitão está mais para os ecos de Olavo – tipo Lobão e Danilo Gentile – que para formulações mais complexas.
Há os youtubers, é claro. E uma profusão de deputados recém-eleitos sem a menor informação sobre o que significa o trabalho parlamentar. Ninguém conhece ninguém. Dia desses, em uma das reuniões dos grupos de trabalho, passou um senhor de terno e gravata e imediatamente vários recém-eleitos pediram que trouxesse água. Não era garçom, mas um deputado bolsonariano.
A única bandeira que os une é a do antipetismo e os gritos de guerra de manter Lula preso ou eliminado. Não há consenso nem mesmo no campo das ideias reacionárias. Por exemplo, como fazer com evangélicos que defendem aborto? Tem que tirar. Mas como?
O único grupo articulado é o dos militares da infraestrutura, comandados pelo general da reserva Oswaldo Ferreira, com a cabeça desenvolvimentista de Ernesto Geisel. Eles têm acesso direto e irrestrito a Bolsonaro e já se constituem em um facho de racionalidade em meio ao caos.
Se fortalecerão mais ainda depois que caiu a ficha de Bolsonaro – e da legião estrangeira que o cerca - sobre o enorme erro de entregar o Ministério da Justiça de porteira fechada para o juiz Sérgio Moro. Especialmente depois que seu modelo, Donald Trump, demitiu sumariamente o Procurador Geral de Justiça, por não concordar com suas ações. Bolsonaro criou um Ministro indemissivel. O que acontecerá quando ele quiser colocar na cadeia algum aliado estratégico de Bolsonaro? Bolsonaro colocou no cargo mais estratégico do governo um Ministro indemissível. E houve quem saudasse o convite como um lance de genialidade de Bolsonaro.
O exemplo de Trump, desde o início atacado pela justiça e pela mídia, consolidou em algumas alas de olavetes a crítica à Lava Jato e ao partido da justiça.
Muitas das batatadas, Bolsonaro deve aos seus gurus internéticos. Já as correções nas declarações estapafúrdias, os fachos de racionalidade – como voltar atrás na questão do Mercosul, do Meio Ambiente ou da embaixada em Jerusalém – são atribuídas aos conselhos dos militares.
Dia desses, no entanto, houve a maior saia justa. O general Oswaldo fez uma longa explanação sobre a necessidade de investimentos nos diversos modais, o ferroviário, o rodoviário, o portuário, o fluvial. Quando ousou dizer o óbvio – nos locais em que não houver investimento privado, será necessário aportar investimento público – foi apartado pelo príncipe Luiz Phillippe de Orleans e Bragança, que teve um chilique, acusando-o de estar sendo influenciado por ideias comunistas.
Partiu dos militares a sugestão de criar uma Casa Civil da Infraestrutura, sob o comando do general Oswaldo, diretamente ligada à Presidência, para coordenar os Ministérios dos Transportes, Minas e Energia e Telecomunicações.
Um ponto de convergência geral, aliás, é a constatação de que o astronauta Marcos Cesar Pontes – nomeado Ministro da Ciência e Tecnologia – é alienígena que vive no mundo da lua. No início, impressionou pelo domínio do inglês. Depois, caiu a ficha que o inglês servia apenas para o astronauta dizer tolices em duas línguas.
Outra decepção foi com o superministro da Economia Paulo Guedes.
No início, os olavetes, os militares, os youtubers, todos apostavam na genialidade de Guedes. Agora,  passaram a vê-lo como um trapalhão. Primeiro, quando foi afrontar o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, demonstrando ignorância em relação ao be-a-bá do orçamento: o orçamento de um ano é aprovado no ano anterior. Ou seja, o primeiro orçamento de Bolsonaro depende da atual composição do Congresso. Por isso não é de bom alvitre afrontar o presidente do Senado.
Depois, quando falou que o Banco do Brasil seria comprado pelo Bank foi America. Guedes não tinha a menor ideia de que um dos aliados mais influentes de apoio a Bolsonaro, o pessoal que garantiu o financiamento privado de campanha por todo o país  – o agronegócio – não vive sem o Banco do Brasil.
Depois que Guedes passou a se desdizer tanto quanto o capitão, as diversas alas bolsonarianas desiludiram-se. Os olavetes deram-se conta da terrível realidade de que o capitão não é  muito letrado nem intuitivo. Não é um um ideológico racional, formulador. Foram, então,  atrás da mediação dos filhos, até cair na real de que os filhos só sabiam mesmo detonar aliados pelo Twitter. Foi o que ocorreu com o infeliz que se apresentou como marqueteiro de Bolsonaro, foi desmentido pelo filho, demitido da equipe de transição e, como bom marqueteiro, anunciou que deixava a equipe para se dedicar a trabalhos voluntários na equipe que o dispensou.
Balaços pelo Twitter é o de menos. Internamente, há uma guerra de dossiês. Basta alguém sugerir um nome para o governo para meia hora depois aparecer um dossiê contra o candidato, em geral apresentando pelo vice-presidente, general Mourão.
Foi um dossiê que derrubou a candidatura a vice do príncipe de Orleans e Bragança, um sujeito ultraconservador, mas de pensamento articulado – que fez a cabeça de Bolsonaro com a brilhante constatação de que o início do fim do país foi a Constituição de 1988. Ah, e o golpe da Proclamação da República.
A candidatura do príncipe soçobrou devido a questões pessoais menores que, em nenhum outro ambiente, seriam motivo para vetos. O que menos pesou foi o fato de, na juventude, ele ter sido skinhead.



quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O "BLOCO DO EU SOZINHO" - José Nilton Mariano Saraiva


Já que não obteve os votos necessários para a batalha final, se realmente tivesse mesmo um mínimo de apreço pela democracia, e ante a ameaça real desta sucumbir ante um ultradireitista, Ciro Gomes deveria ter posto em prática seu recorrente discurso contra  o perigo da ascensão do “fascismo” por essas bandas, dando apoio àquele que se habilitou para ser o “anti” (Fernando Haddad). Isso seria o natural, o lógico, o racional, o óbvio.

Só que, com Ciro Gomes, a coisa não funciona bem assim, certamente devido à longa convivência com o seu padrinho político Tasso Jereissati (a quem espetacularmente findou traindo).  E por uma razão simplória: como bom aluno que é, a “criatura” findou por assimilar pari-passu o modus operandi do “criador”, em termos de arrogância, prepotência e autocracia coronelística.

Para comprovar, basta uma rápida olhadela para o seu extenso “prontuário-político”, onde constata-se ter aderido a incríveis sete (07) agremiações partidárias em seus 36 anos na política: PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS e PDT, algumas das quais sem qualquer identidade ideológico-programática com a outra (ou seja, por pura conveniência pessoal).

E que delas se desligava em razão dos seus dirigentes não permitirem que “tomasse de conta” da agremiação (à época, houve discussões com os Novaes, aqui de Fortaleza, com Roberto Freire e com o falecido Eduardo Campos, de Pernambuco). Já com relação ao PROS, por exemplo, circulam notícias que teria pago R$ 4,0 milhões para se apossar do partido.

Frio e calculista, ao aproximar-se de Lula da Silva já objetivava obter seu apoio para uma possível candidatura à Presidência da República, mais à frente, mesmo sem integrar os quadros do PT.

Como, após reeleito, Lula da Silva frustrou seu desejo ao optar por Dilma Rousseff à sua sucessão, arranjou espaço em horário nobre nos principais noticiosos de diversos canais televisivos e tratou de desancar da candidata petista, mesmo que para tanto tenha tido que tecer loas ao adversário e arquirrival José Serra (à época, a entrega da “coordenação de campanha” de Dilma, no Nordeste, foi o bastante para acalmá-lo).

Em partidos de aluguel, concorreu em duas oportunidades à Presidência da República, tendo como “vice” figuras às quais não guardava identidade, mas que lhes eram convenientes eleitoralmente: Roberto Freire e o tal Paulinho da Força, mas ainda assim nunca conseguiu ter votos suficientes para sequer passar para o segundo turno.

Agora, na eleição recém-finda, foi convidado a concorrer como vice na chapa de Lula da Silva, mas a prepotência e arrogância falaram mais alto, já que só aceitaria entrar na disputa na condição de “cabeça-de-chapa” (ou seja, Lula da Silva e o PT deveriam se submeter aos seus caprichos e vontades, olvidando todo um passado de luta). Se tivesse tido a humildade de aceitar, com o impedimento de Lula teria ocupado o lugar que acabou sendo entregue a Fernando Haddad e, enfim, poderia ter chegado lá.

Como fracassou mais uma vez, foi lamber suas feridas fora do país, durante o segundo turno da eleição, negando-se a combater o candidato fascista e, potencialmente, ajudando-o a eleger-se, ao soprar no ouvido do irmão ventríloquo todo o ódio e frustração que dele se apossou e que foi verbalizado em reunião do próprio PT (depoimento que foi usado à vontade pelo  candidato fascista, a partir de então).

Hoje, em sua própria “página oficial” no facebook  (https://www.facebook.com/cirogomesoficial), centenas e centenas de pessoas o rotulam de traidor, frouxo e covarde, e de ter contribuído decisivamente para a eleição do candidato-fascista (em sua página oficial, repita-se).

Em troca, Ciro Gomes responsabiliza o PT e Lula da Silva pelo desastre da ascensão do fascismo no Brasil, e já dá a entender que só participará de uma grande frente democrática em 2022 se o colocarem como “cabeça-de-chapa” e, claro, com o PT fora.

Se não, continuará messianicamente a desfilar no “bloco do eu sozinho”.  


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

PARA REFLEXÃO - José Nilton Mariano Saraiva


VOCÊ VAI MESMO VOTAR EM UM CANDIDATO QUE, SEM UM MÍNIMO DE ESCRÚPULO, AFIRMA QUE USA O DINHEIRO PÚBLICO (AUXÍLIO-MORADIA) PARA “COMER GENTE” ???

E QUE É UM DECLARADO ENTUSIASTA DA “TORTURA” E DA “DITADURA” ???

E QUE TEM COMO EXEMPLO DE VIDA O BANDIDO CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA, O “TORTURADOR-MÓR” DA DITADURA MILITAR ???

E QUE RECOMENDOU AOS NORDESTINOS “COMEREM CAPIM” PRA SOBREVIVER ???

E QUE ORGULHOSAMENTE AFIRMOU TER SIDO O “ÚNICO DEPUTADO” A VOTAR CONTRA A LEI QUE BENEFICIAVA AS EMPREGADAS DOMÉSTICAS ???

E QUE AFIRMA, SEM PAPAS NA LÍNGUA, QUE A “ÚNICA UTILIDADE DO POBRE É VOTAR... PORQUE É BURRO” ???

E QUE JÁ PROMETEU AOS AMERICANOS ENTREGAR-LHE A REGIÃO AMAZÔNICA, PARA DELA SE SERVIREM, JÁ QUE O BRASIL NÃO TERIA CONDIÇÕES DE EXPLORÁ-LA ???

VOCÊ VAI MESMO VOTAR NUM CANDIDATO QUE SE RECUSA A PARTICIPAR DE DEBATES EM RAZÃO DE NÃO SABER ABSOLUTAMENTE NADA SOBRE O BRASIL ???

ENFIM, VOCÊ VAI MESMO TER A CORAGEM DE ENTREGAR O BRASIL A UM ENERGÚMENO E INDIGENTE MENTAL DESSA ESTIRPE ???

PENSE NISSO !!!


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O RISCO BOLSONARO


O Jornal de todos Brasis

por Juliana Moreira, Carolina Bueno e Grazielle Cardoso
Enquanto estivermos em uma democracia, é possível discordar do governo, fazer oposição, escrever textos, ir a manifestações. Deve-se temer um candidato que sempre afirmou não ter existido ditadura no Brasil, negando a história e incitando ódio e violência abertamente.

Na década de 1980, quadros de todos os campos políticos, da direita à esquerda, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, André Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, lutavam pela redemocratização do país e por eleições diretas.
No entanto, depois de 21 anos de ditadura militar, foi somente com a promulgação da Constituição de 1988 que a democracia foi restaurada e tivemos pela primeira vez na história do país garantidos os direitos sociais.
Por que voltar tão longe na nossa história? Para mostrar que, depois de 30 anos, é justamente o pacto democrático de 1988 que está ameaçado pela candidatura do deputado Jair Bolsonaro nessas eleições.
Instituições e especialistas, através de notas, opiniões, entrevistas, estudos etc., tanto de projetos da direita quanto da esquerda, alertam do perigo à democracia caso um presidente de extrema-direita suba à cadeira de presidente do país.
Os mais conceituados jornais do mundo publicaram textos nas últimas semanas alertando sobre o risco. O Washington Post aponta que ascensão de Bolsonaro é um novo golpe para a democracia liberal. The Guardian diz que a democracia está em perigo no Brasil. A revista The Economist afirmou que o deputado é uma “ameaça para América Latina” e suas propostas para o Brasil são “brutais“. “Um populista de direita, defendeu a deplorável ditadura militar que governou o País entre 1964 e 1985 e justificou o uso da tortura”, no New York Times.
As declarações feitas pelo deputado Bolsonaro:
Em entrevista, o deputado afirma que o economista Chico Lopes, que junto com Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha, formulou o Plano Cruzado, deveria ser submetido a um “pau de arara”; se declara a favor da tortura e da sonegação de impostos, diz que fecharia o congresso nacional e daria um golpe no primeiro dia de governo; afirma não acreditar no voto, e que o país só irá mudar quando houver uma guerra civil e matar 30 mil, começando com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que deixou o PSDB e foi para o Partido Novo assumir o programa do João Amoedo, afirmou em entrevista que a convocação de Paulo Guedes é mais uma jogada oportunista, pois não crê que o deputado Jair Bolsonaro tenha nenhuma afinidade com agendas pró-mercado e que “o risco de vitória desse populismo nacionalista militarista é preocupante”.
Alguns exemplos desse populismo militarista:
O deputado encoraja os pais a ensinarem os filhos de cinco anos de idade a atirar. Ele próprio começa a ensinar uma criança, de cerca de 4 anos, a fazer o sinal de uma arma, e brada “temos que rasgar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e jogá-lo na latrina”.
Exalta um dos maiores torturadores do regime militar, o Coronel Brilhante Ustra – aquele que além de torturar, levava os filhos para verem suas mães serem torturadas; deseja a morte da Dilma “infartada, de câncer ou de qualquer maneira“, exalta o fuzilamento da “petralhada do Acre“, se diz contra as minorias, e encoraja os pais a darem uma palmada, uma cintada, um “côro” nos filhos para “entrarem na linha” e mudarem o comportamento sexual.
Ou seja, trata-se de um candidato que declara fuzilar adversários; que exalta e homenageia torturadores. Formas explícitas de incentivo à violência e tortura, do uso da moral e da religião (que contradição, hein?), compõe sua campanha eleitoral, e levaram Bolsonaro ao segundo turno na corrida presidencial, com mais de 40 milhões de votos.
Qual o risco da naturalização de atitudes desumanas, autoritárias, e de violência explícita?
Há trinta anos, todos os presidentes desde a redemocratização – Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma – respeitaram e cumpriram o padrão democrático selado em 1988. Nenhum deles despreza abertamente o sistema de liberdades e garantias selado em 1988, como faz o deputado Bolsonaro.
Em palestra na Fundação Fernando Henrique Cardoso, o professor da Universidade de Harvard, Steven Levitsky, autor do livro “Como morrem as democracias”, alertou para o risco de o Brasil eleger um potencial autocrata:
Se um candidato, em sua vida, carreira política ou durante a campanha, defendeu ideias antidemocráticas, devemos levá-lo a sério e resistir à tentação de apoiá-lo, ainda que, diante de circunstâncias momentâneas, pareça ser uma opção aceitável”.
Devemos fazer todo o possível para evitar que um candidato antidemocrata conquiste o poder, pois, ao chegar lá, não tenha dúvida de que ele colocará em prática suas ideias autoritárias. Para impedir que isso ocorra, vale até mesmo se aliar a adversários políticos com opiniões diversas, desde que firmemente comprometidos com a democracia”.
É importante lembrar que o Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, justamente lutando pelo fim do regime militar e pela democracia do país. Não faz sentido histórico associar o PT com qualquer tipo de ditadura. Muito embora não concordemos com esse ou aquele projeto, posições partidárias diferentes, PT e PSDB, ou qualquer outro partido, mesmo que muitos de seus quadros estejam presos ou envolvidos em escândalos de corrupção, é preciso reconhecer a importância desses partidos para a consolidação das instituições brasileiras, de programas e projetos.
Os partidos políticos, com seus defeitos e qualidades, suas contradições, são instituições da nossa democracia e nenhum deles feriu isso. O deputado Bolsonaro sim. Que também apresentou ser contra as instituições multilaterais, como a ONU (Organização das Nações Unidas) e defendeu a saída do Acordo de Paris. Não podemos negar a história e, sim, aprender com ela. E a democracia é uma das maiores conquistas, não só do Brasil, mas de vários países em todo o mundo.
A quem interessa, em nome de “exterminar a corrupção”, fragilizar e destruir as instituições e os partidos políticos?
Se conseguirmos nos afastar por um minuto do argumento “a corrupção é o maior problema do Brasil e o PT é maior expressão do que é ser corrupto” talvez seja possível recuperar a capacidade de julgar e entender o risco à nossa frágil e recente democracia. E que ainda estamos caminhando e aprendendo com ela.
O empresário Ricardo Semler, que não compartilha dos pressupostos programáticos do PT e até pouco tempo era filiado ao PSDB, escreveu em artigo de opinião intitulado “Alô companheiros de elite. Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas”, que é estarrecedora a tese de que “qualquer coisa é melhor do que o PT”. Ele dá o exemplo da eleição de Lula em 2002, quando as elites diziam que 800 mil empresários deixariam o país caso o PT ganhasse as eleições, e em seguida os principais empresários viraram conselheiros próximos de Lula.
No final do artigo, Semler faz um apelo: “Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. O PT errou sem parar nos 12 anos, mas talvez queria e possa mostrar, num segundo ciclo, que ainda é melhor do que o Centrão megacorrupto ou uma ditadura autoritária. Foi assim que a Europa inteira se tornou civilizada. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis. Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas. O Brasil é maior do que isto, e as elites podem ficar, também. Confiem”.
Pode haver discordância dos caminhos trilhados nos dois governos de FHC ou nos mandatos de Lula e Dilma, mas, cada um à sua maneira, contribuiu para fazer valer o que pactuamos em 1988:  “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias” (preâmbulo da Constituição).
No entanto, agora estamos em uma encruzilhada histórica.
Enquanto estivermos em uma democracia, é possível discordar das opções políticas do governo, fazer oposição, escrever textos, andar nas ruas se manifestando contra as políticas econômicas e sociais do governo. O deputado Bolsonaro fez sua trajetória política afirmando não ter existido ditadura no Brasil, ou seja, nega a história e desrespeita a democracia. Apoia e homenageia um dos maiores torturadores do regime militar, fala em fuzilar adversários em evento de campanha, acabar com o congresso, e ainda incita o ódio e a violência abertamente. Recentemente, questionou a legitimidade das urnas gerando desconfiança eleitoral na população.
Na democracia é que é possível convivermos e expressarmos nossas ideias. O aumento do grau de intolerância nas ruas já é sinal do enorme risco que estamos expostos.
No campo democrático, a gente sempre joga melhor.
Juliana Moreira - É economista pela UFRJ, especialista em Políticas Públicas, doutoranda em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e integrante do GT sobre Reforma Trabalhista IE/Cesit/Unicamp
Carolina Bueno - É pesquisadora pelo Núcleo de Economia Agrícola e do Meio Ambiente da Unicamp e doutoranda pelo Instituto de Economia da Unicamp
Grazielle Cardoso - é economista pela Universidade Federal de São Carlos e mestranda em Desenvolvimento Econômico pelo Núcleo de Economia Agrícola e Meio Ambiente da Unicamp



sábado, 20 de outubro de 2018

O "MODUS OPERANDI" DO BOLSONARO


O Jornal de todos Brasis
SAB, 20/10/2018 - 10:00
Profissional responsável pelo furo jornalístico recebeu a solidariedade de colegas após ataques / (Foto: Reprodução/Twitter)
Profissional responsável pelo furo jornalístico recebeu a solidariedade de colegas após ataques - Créditos: (Foto: Reprodução/Twitter)
do Brasil de Fato
Patrícia Campos de Mello, da Folha de S. Paulo, sofre ameaças e agressões por parte de apoiadores do candidato do PSL
Lu Sudré
Brasil de Fato | São Paulo (SP)
“Mais uma canalha imunda, militante esquerdista. Quando Bolsonaro ganhar temos que combater esses canalhas com ferro e fogo, se é que me entendem. Sem misericórdia contra esses vagabundos”. 
Essa é apenas uma das inúmeras mensagens que a jornalista Patrícia Campos Mello recebeu. A profissional é a autora da reportagem publicada pela Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (18) que denunciou possível caixa 2 na campanha presidencial de Jair Bolsonaro. 

A matéria apresenta informações sobre a ação ilegal de empresas privadasque financiaram o disparo massivo de mensagens contra o Partido dos Trabalhadores (PT) via WhatsApp, com o objetivo de influenciar as eleições. A disseminação das informações falsas favoreceu o candidato do PSL. 

Depois da publicação da reportagem, os eleitores favoráveis a Bolsonaroimpulsionaram a hashtag #FolhaPutinhaDoPT no Twitter. “Militante travestida de jornalista, código de ética do jornalismo que é bom, usa apenas pra limpar a bunda tão suja quanto seu caráter”, escreveu um internauta. “Puta vagabunda”, escreveu outro. 

Em repúdio às ofensivas contra Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha, organizações e entidades importantes como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Instituto Vladimir Herzog (IVH) condenaram as agressões. 
“Patrícia Campos Mello é uma das mais importantes jornalistas do país. Repórter experiente, cobre relações internacionais, economia e direitos humanos há 18 anos. Cobriu conflitos como o da Síria e foi a única profissional brasileira a cobrir in loco a epidemia de Ebola em Serra Leoa em 2014 e 2015. A Abraji condena a ofensiva contra Patrícia Campos Mello. Retaliar jornalistas em função de sua atividade profissional não atinge apenas o(a) comunicador(a) em questão; traz prejuízos à sociedade como um todo, inclusive aos que praticam os ataques”, posicionou-se a Abraji. 

Em nota, Maria José Braga, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj),afirma que a entidade também condena as agressões e, em repúdio, lançou nota conjunta com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. 

“Existe um candidato que faz apologia da violência. Isso está fazendo com que parte da sociedade encare a violência como forma de ação política. No caso do jornalismo, quem opta pela violência demonstra todo seu perfil antidemocrático. O jornalismo tem como função social exatamente levar a informação de interesse público para a sociedade, mas quem se sente de alguma forma prejudicado, acha que pode usar da violência para impedir que a sociedade tenha conhecimento dos fatos. Isso é muito grave e está exacerbado nessa eleição”, afirma Braga. 
Para ela, é urgente que as autoridades brasileiras tomem providências contra as ameaças. A presidente da Fenaj também destaca que as agressões contra a jornalista em questão foram feitas, exclusivamente, por eleitores de Bolsonaro. 
“Vários mandaram email para Fenaj pedindo investigação do comportamento ético da jornalista, em uma tentativa clara de intimidação, para que não se fale do candidato. É claramente um processo de intimidação, de tentativa de cerceamento da liberdade de imprensa. Ao fazer ameaças e dizer que pode sim ocorrer violência, estão tentando fazer com que a jornalista se cale”, critica.  
Apesar das mensagens de ódio, Patrícia Campos Mello recebeu mensagens de apoio de outros profissionais.
“É uma das grandes repórteres desta geração. Já fez reportagens em zonas de guerra no Afeganistão, Síria, Iraque e Gaza. Cobriu a epidemia do ebola in loco em Serra Leoa. Foi correspondente em Washington. E faz uma ótima cobertura da eleição brasileira na Folha”, elogiou o Guga Chacra, correspondente internacional da Globo News. 
Leonardo Sakamoto, outro jornalista usualmente perseguido e xingado nas redes sociais, também prestou apoio. 
“Patrícia Campos Mello é a melhor repórter do país. Cobriu guerras, a epidemia de ebola, fez grandes investigações. Patrícia está sendo covardemente atacada após sua reportagem sobre o impulsionamento de mensagens no WhatsApp por empresários pró-Bolsonaro ser publicada. Num momento em que fatos perdem importância, quem não consegue debater com argumentos atua para exterminar o mensageiro. O toque de cinismo fica por conta do fato que editaram uma entrevista que ela concedeu, distorcendo o seu sentido, para atacá-la”, escreveu Sakamoto. 
Entenda o caso
A reportagem publicada pela Folha informou que as empresas privadas estariam preparando uma grande operação de disseminação de mensagens via WhatsApp para a semana anterior ao segundo turno.
As companhias envolvidas utilizam a base de contatos vendida por agências de estratégia digital, assim como a base de contatos de Bolsonaro. No entanto, a lei só permite o uso de lista de apoiadores do próprio candidato, com contatos disponibilizados de forma voluntária. 
Para disparar centenas de milhões de mensagens, cada contrato firmado chega a R$ 12 milhões. A prática é considerada ilegal, pois se  configura como doação de campanha por empresas, proibida pela legislação eleitoral.  Entre as compradoras do serviço, está a Havan, cujo dono, Luciano Hang, obrigou seus funcionários a votarem em Jair Bolsonaro.
Por ter sido beneficiado diretamente pelo envio ilegal dessas mensagens, Bolsonaro pode ter sua candidatura impugnada ou cassada, caso seja eleito. A punição pode acontecer mesmo se não for comprovada sua participação direta na ação. 
Entre as agências responsáveis pelo “disparo em massa” estão a Quickmobile, a Yacows, Croc Services e SMS Market. No entanto, na prestação de contas de Bolsonaro consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital, que recebeu R$ 115 mil para mídias digitais.

O valor do serviço varia de R$ 0,08 a R$ 0,12 por disparo de mensagem para a base própria do candidato e de R$ 0,30 a R$ 0,40 quando a base é fornecida pela agência.
O PT entrou com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para que se investigue a chapa de Bolsonaro por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. 
Jornalistas em risco
A repórter especial da Folha de S. Paulo não é a única que sofre com agressões na profissão. A situação é alarmante: De acordo com relatório recente da Abraji, entre maio de 2017 ao início de outubro de 2018, período que compreende a cobertura das eleições, foram registrados 129 atos de violência contra profissionais da imprensa.
Do total, 98 ocorrências envolvem agressores ligados a candidaturas de direita. No caso dos 70 casos de ataques digitais e incitação de ódio pela internet, 67 partiram de militantes de direita, e, em relação aos registros de agressões física, 31 foram praticados por eles.