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Arte, Cultura e Idéias em Movimento
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DO EDITORIAL DO ESTADÃO, DE 21 de maio de 2026
O
tradicional encontro que une gerações em torno da arte de soltar pipas está de
volta. O Coletivo Camarada realiza no próximo dia 7 de maio a reunião de
planejamento da XII Edição da Pipada no Gesso, um dos eventos mais aguardados
do Território Criativo do Gesso. O encontro acontece às 17h, na sede do
coletivo, localizada na Rua Monsenhor Juviniano Barreto, 350 – Centro, e é
aberto a organizações, coletivos, artistas, moradores e moradoras da região,
com o objetivo de construir, de forma coletiva e participativa, os últimos
preparativos para a pipada.
A
Pipada no Gesso vai muito além de soltar pipas. É uma brincadeira que reúne
crianças, adultos, idosos, mulheres e homens – todos participam ativamente da
atividade. A maioria das pipas é confeccionada pelos próprios moradores, e o
Coletivo Camarada fornece o papel seda para a produção. Na edição deste ano,
são esperadas cerca de 100 pipas nos céus do Gesso. Os participantes podem
levar pipas prontas para doar ou vender, ou ainda confeccionar suas próprias
pipas durante o evento. É importante destacar que fica proibido o uso de linhas
com cerol ou linhas cortantes, reforçando o compromisso com uma brincadeira
segura para todos.
A
cultura periférica se faz com participação popular, e a Pipada é um símbolo
disso: a comunidade se reunindo, ensinando os mais novos, valorizando o fazer
manual e ocupando o território com alegria e autonomia. Convidamos todas as
organizações, coletivos, artistas, moradores e moradoras do Território Criativo
do Gesso para planejarmos juntos a XII edição da Pipada no Gesso. A reunião de
planejamento será no dia 7 de maio de 2026, às 17h, na sede do Coletivo
Camaradas, na Rua Monsenhor Juviniano Barreto, 350 – Centro. Compartilhe com
sua rede e confirme presença pelo WhatsApp (88) 999273176.
A Prefeitura do Crato, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudança do Clima, e o Coletivo Camaradas oficializaram o Acordo de Cooperação nº 03/2026 para o desenvolvimento de ações socioambientais no município. O objetivo central da parceria é o apoio ao projeto "Agentes do Sítio Urbano do Gesso", uma iniciativa que busca consolidar o território como referência em sustentabilidade, justiça socioambiental e gestão participativa. O acordo, assinado pelo secretário George Érico de Alencar Braga Borges e pelo representante do coletivo, Fidel Barbosa Fernandes, possui vigência inicial de 12 meses.
O projeto foca no fortalecimento comunitário através de práticas de agroecologia, agricultura urbana e educação ambiental. Entre as ações previstas pelo Coletivo Camaradas estão a implantação de um viveiro comunitário, a criação de um banco de sementes e a realização de oficinas e atividades formativas voltadas à preservação do meio ambiente. Para viabilizar essas metas, a Secretaria oferecerá suporte institucional, podendo disponibilizar mudas de espécies vegetais, além de fornecer orientações técnicas e realizar o acompanhamento simplificado das atividades desenvolvidas.
Um ponto fundamental do ajuste é a sua natureza estritamente não lucrativa e a ausência de transferência de recursos financeiros entre as partes. A cooperação baseia-se na conjugação de esforços para a promoção do interesse público, com o Coletivo Camaradas responsabilizando-se pela execução das atividades de forma participativa e sustentável. Como contrapartida institucional, o município do Crato será mencionado como parceiro em todas as publicações e produtos técnico-científicos que resultarem desta iniciativa.
Após 7 meses do II Encontro Nacional do MAM, o movimento inaugura a secretaria estadual na capital cearense
O Movimento pela Soberania Popular na Mineração - MAM, realiza em Fortaleza, dia 09 de maio o Ato Político Cultural de Inauguração da Secretaria Estadual do MAM Ceará. O evento tem o objetivo de reunir a militância, parceiros políticos e aliados na capital cearense para comemorar e debater esse passo tão importante na construção do movimento no estado do Ceará.
Com a crescente expansão da mineração predatória no estado do Ceará e no Nordeste, firmar um espaço físico em uma capital, apresenta-se como um passo estratégico de ampliação de articulações políticas, visando amadurecer o debate em torno de um problema que atravessa a sociedade brasileira.
O evento contará com militantes de cerca de 12 municípios do Estado do Ceará, sendo eles, Independência, Santa Quitéria, Itatira, Monsenhor Tabosa, Crateús, Redenção, Novo Oriente, Crato, Tauá, Madalena, Quiterianópolis e Fortaleza. Estarão presentes representantes de organizações diversas da sociedade civil, incluindo ONG’s, movimentos sociais, sindicalistas e organizações sociais da igreja católica. É esperado a presença de parlamentares municipais de Fortaleza, representantes de secretarias do Governo do Estado do Ceará, secretarias municipais, deputados estaduais, acessórias parlamentares e representantes de partidos políticos.
A animação cultural será por conta de Edilson Barros, de Nova Russas, nos Sertões de Crateús, trazendo a força cantada das Comunidades Eclesiais de Base e da Música Popular Brasileira, para encantar o público na inauguração, somando-se a potentes místicas e apresentações que ocorrerão no decorrer do evento.
A expansão do setor mineral do Nordeste e a massificação da luta na capital cearense
Após o ano de 2025, recheado de muitas lutas e articulações direcionadas ao estado do Ceará, entre elas a I Escola Nacional de Arte e Cultura Patativa do Assaré e o II Encontro Nacional do MAM, em Fortaleza, intensifica-se a necessidade de pensarmos um projeto popular de mineração na Região Nordeste, haja vista a intensidade e o foco que o setor mineral está empregando na região e as particularidades que o território apresenta frente as questões hídricas e sociais.
A secretaria do MAM Ceará, firma-se como espaço de apoio e articulação de toda a região, pois entende-se que o Ceará será um dos estados expoentes da especulação do capital mineral nos próximos anos e, destacando-se como principal rota de exportação internacional de minerais de toda a região nordeste, como indica por exemplo, a intensificação nas obras da ferrovia Transnordestina, que interliga os portos cearenses ao litoral pernambucano.
Programação:
16h: Abertura, animação/ acolhimentos dos participantes
17h: Jornada socialista e mística
18h: Apresentação sobre a construção e desafios da secretaria estadual do MAM
18:30: Diálogo com os/as parceiros/as do MAM
19h: Forró com Edilson Barros
Serviço:
Atividade: Ato Político Cultural de Inauguração da Secretaria Estadual do MAM Ceará
Quando: 09 de maio de 2026
Onde: Rua Napoleão Laureano, 485, Bairro de Fátima
Horário: a partir das 16:00
Para mais informações: João Victor - (88) 981942254
BANCO MASTER: A PROVA
DEFINITIVA DA SAFADEZA – José Nílton Mariano Saraiva
Quando, após o imoral golpe
perpetrado contra a democraticamente eleita Presidenta da República Dilma
Rousseff, Michel Temer assumiu interinamente a Presidência da República, em
maio de 2016, uma das suas primeiras providencias foi nomear o senhor Ilan
Goldfajn para gerir o Banco Central.
Este, independentemente de ter
ascendido ao cargo por escolha de um golpista (e até por isso mesmo), ficou na
função de junho/2016 até o fim da gestão Temer, em dez/2018. Então, com a
eleição e posse de Jair Bolsonaro, e após tramites burocráticos de praxe, dois
meses depois, em fevereiro/2019, o comando do Banco Central foi entregue ao
senhor Roberto Campos Neto, por indicação pessoal de Jair Bolsonaro.
Antes disso, no entanto, na
fase de transição dos dois governos, Ilan Goldfajn mostrou pelo menos um pouco
de dignidade e altivez quando, já nos estertores da sua atuação como presidente
do Bacen, recebeu o senhor Daniel Vorcaro, que manifestou sua intenção de tornar-se
“banqueiro”.
Após análise da situação, e
elaboração do competente relatório técnico, o Banco Central (de Ilan Goldfajn) negou
veementemente tal investida do senhor Vorcaro, por absoluta falta de
provimento.
Em outubro/2019 (somente oito
meses depois), e aí já na gestão de Campos Neto, no Bacen, o senhor Daniel
Vorcaro, certamente que orientado por alguém do próprio novo governo Bolsonaro,
voltou à carga na sua tentativa de tornar-se “banqueiro”, usando a mesma
argumentação e papelada da solicitação anterior (que houvera sido rejeitada).
E aí, numa metamorfose
impressionante e digna de esclarecimentos detalhados, o Banco Central da dupla
Jair Bolsonaro/Campos Neto, resolve aprovar o mesmo pedido que houvera sido indeferido
oito meses atrás, tornando o senhor Daniel Vorcaro, agora, sim, “banqueiro”, de
fato e de direito.
Deu-se então que, durante os
quatro anos do governo Bolsonaro o Banco Central de Campos Neto fez vista
grossa ao jogo sujo e toda sorte de maracutaia do senhor Vorcaro (fraudes,
desvios, corrupção e por aí vai). A troco de quê ???
Nisso tudo, há que se destacar
a omissão criminosa da imprensa nacional, que, mesmo sabedora que o Banco Master,
do senhor Vorcaro, foi fundado e atuou livremente no governo Bolsonaro (com
Campos Neto, no Bacen), insiste em enganar a população ao sugerir que o atual governo
tenha algo a ver com o descalabro descoberto.
Portanto, para que dúvidas não
pairem e se acabe de vez com especulações infundadas, o líquido e certo é que: o
Banco Master, do bandido Daniel Vorcaro, foi criado, homologado e atuou livremente
e irregularmente desde o princípio, quando da gestão da dupla Jair
Bolsonaro/Campos Neto.
A dupla Lula da Silva/Gabriel
Galípolo fez apenas e tão somente o essencial e que deveria ter sido feito lá
atras: liquidaram extrajudicialmente o Banco Master.
Alfim, metade do mundo e a
outra banda gostariam de saber: depois da prisão do bandido Vorcaro, pela Polícia
Federal, por qual razão não intimar o senhor Campos Neto para que explique a
não tomada de providências durante seu tempo de presidente do Banco Central.
A SIMILITUDE (“MODUS OPERANDI”) ENTRE CIRO, CAMILO E BOLSONARO
Na arena política, com seus
atores multiformes, vige aquele velho e assertivo adágio popular, segundo o
qual... “o sujo não pode falar do mal lavado”.
Aqui no Ceará, por exemplo,
temos o Ciro Gomes, que vive a falar mal do Jair Bolsonaro e do Camilo Santana,
quando o seu “modus operandi” tem muita similitude com os dos dois, a saber: como
deu um jeito de empregar na política toda a sua família (os irmãos Cid, Ivo,
Lia e Lúcio devem a ele, sim, o ingresso na política), Ciro não pode criticar
Bolsonaro por ter também empregado todos os filhos na política (Flávio, Carlos,
Eduardo e Jair Renan, além da enteada (filha de Michele com um homem casado) e
seu namorado que, mesmo morando no Rio de Janeiro, assinam ponto num órgão
governamental em Santa Catarina, do governador Jorginho Melo).
Com relação a Camilo Santana,
Ciro Gomes não pode nem de leve pensar em criticar seu ex pupilo por ter conseguido
colocar a esposa Onélia Santana no cargo vitalício de Conselheira no Tribunal
de Contas do Estado do Ceará, já que sua ex-esposa Patrícia Gomes de há muito
está abrigada no mesmo cargo vitalício de Conselheira do Tribunal de Contas do
Estado do Ceará (nos dois casos, a remuneração beira aos R$ 40.000,00 mensais).
É aquela velha história: um
sujo não pode falar do mal lavado.
Post Scriptum:
Ainda sobre o Ciro Gomes, por
qual razão ele omite, em suas falas, discursos e no próprio curriculum, ter
sido Conselheiro da Acesita e da Itaipu Binacional, faturando uma quantia mais
que razoável, no tempo em que era ministro no governo Lula da Silva ???
“CONFIDÊNCIAS... NA MADRUGADA” - José Nilton Mariano Saraiva
Desde tempos imemoriais
criamos o saudável hábito (ou seria pura insegurança ???) de, ao sentar para
tentar redigir alguma coisa, termos ao lado um velho companheiro de luta: o dicionário.
Assim, logo após o seu
lançamento no Brasil, em 2001, adquirimos o Dicionário Houaiss (embora já
tivéssemos o do Aurélio) por entender tratar-se de uma grande, necessária e
imprescindível obra.
Para que tenhamos ideia da
sua grandeza, basta atentar que, na sua elaboração, nada menos que 200
(duzentos) lexicógrafos e especialistas no mister participaram da empreitada, e
que em suas 2.924 páginas o “livrão” nos traz cerca de
228.500 verbetes, 376.500 acepções, 415.500 sinônimos, 26.400 antônimos e
57.000 palavras arcaicas, além de um sem número de consistentes informações
técnicas, evidentemente que versando sobre a Língua Portuguesa (daí também ter
sido lançado em Portugal). Sem qualquer demérito ao “Dicionário Aurélio”, o
Houaiss lhe dá de goleada. Temo-lo, pois, como um companheiro inseparável,
sempre que – como agora – queremos colocar o preto no branco, tentar passar
alguma coisa pra você, aí do outro lado da telinha.
Pois
foi exatamente numa dessas íntimas trocas de “confidências na madrugada” (vocês também conversam com o Dicionário, no
silêncio da noite ???) que a porca torceu o rabo: a palavra que procurávamos
(que não nos recordamos no momento), começava com a letra “P”, cujo vastíssimo
banco de dados se encontra relacionado entre as páginas 2.099 a 2.340 do
Houaiss, para onde nos dirigimos.
Uma
primeira pesquisa e a surpresa desagradável: nadica de nada da dita-cuja.
Pacientemente, creditamos o seu “não encontro” à zonzeira típica da chegada do
sono àquela hora da madrugada, razão porque nos dirigimos à cozinha para
bebericar um gole d’agua e “lavar a fuça”, objetivando acordar de vez.
Numa
nova tentativa, nada da palavra. Ficamos um tanto quanto “baratinados” e
murmuramos cá com os nossos botões: como é que pode, um “bichão” desse tamanho
(2924 páginas) não ter uma simplória palavra dessa. E assim fomos nos deitar
com a pulga atrás da orelha.
Pela
manhã, já descansado e alimentado, partimos pra encarar a fera de frente,
convictos que dessa vez ela não nos escaparia. Ledo engano. A tal palavra,
definitivamente, não constava do estupendo Houaiss. Inconformados, tomamos
então uma decisão radical: como que a procurar uma agulha no palheiro,
sofregamente conferimos, uma a uma, da página número 01 à página número 2.924,
na perspectiva da falta de alguma página.
Xeque-mate.
Encontramos,
não só no espaço dedicado à letra “P”, mas, também, em mais duas outras letras
(N e O ???), quatro ou cinco páginas faltando (em cada uma das letras) e, em
seu lugar, páginas repetidas, num imperdoável erro de impressão (ou
organização, ajuntamento e por aí vai) para uma obra de tamanho vulto.
Imediatamente
acionamos o site ao qual o havíamos solicitado via Internet (Livraria Saraiva)
e fomos orientados a devolver o Dicionário, via sedex (evidentemente que sem
custos) e, semanas depois, recebemos um outro exemplar de volta (e aí já
completo), com o agradecimento da editora responsável (Objetiva), que alegou
que no “lote” em que se encontrava o exemplar que adquirimos originalmente
teria havido o tal problema (repetição e falta de páginas).
Se,
por conta disso, houve um “recall” a
posteriori (solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de
produtos, feita pelo responsável pela impressão do mesmo), não sabemos e nem
nos foi dado conhecimento (mas, aqui pra nós, se você chegou a adquirir um
Dicionário Houaiss, confira pelo menos a letra “P” à procura de páginas
repetidas e consequentemente à falta das que deveriam ali constar, ok ??? ).
No mais, tirante esse
detalhe (atípico), vale a pena investir no Houaiss (e como vale).
Senhores,
O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante
décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do
Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro
da instituição, mercê da dedicação à própria.
Mas, como não era “jeitoso”, como não era
“subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por
pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum
cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso).
Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé
Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de
Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência
e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana
qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada;
e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos
antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por
merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e
desonesto Byron Queiroz).
Mas, como “dignidade” é algo que deve ser
preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou,
então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente
prejudicial.
Se o setor bancário perdeu uma figura mui
competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil
“arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos
antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua
autoria foram publicados).
A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de
escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer
assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica.
O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre
“O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor.
José Nílton MARIANO Saraiva
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O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes
Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de
muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos
nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares,
rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono
dos velhos.
Durante décadas, esses homens e mulheres
trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram
doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e
provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da
educação dos filhos.
Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De
repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais.
Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.
O velho fala demais. Conta histórias que ninguém
quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não
se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do
corpo, fica fedorento, seboso.
A dependência, que deveria despertar compaixão,
muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de
desumanização.
Aquele que um dia foi o centro da família passa a
ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga
que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.
Então surge a solução prática, fria e aparentemente
civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”
A frase é curta. Mas o efeito é cruel.
Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da
conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais
lidar com ele.
Em muitos casos, o próprio idoso sequer é
consultado.
De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde
viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar.
Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina,
de suas lembranças e de sua história.
O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se
em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para
alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando
visitas que raramente vêm.
No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as
visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares,
nem sequer é permitido.
O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas
pelas ausências.
Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se
histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem.
Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias
pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.
Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas
também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores
sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de
montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.
Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em
certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que
cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na
velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.
— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns,
ele pagará por isso.
É uma justiça amarga, construída sobre
ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um
tribunal sem defesa.
Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem
da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não
conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há
quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a
aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que
três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta
estrutura.
Cuidar de um idoso dependente exige presença
permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que
simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas
do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as
pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos,
netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.
Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade
ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.
E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo:
a solidão dos velhos.
O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto
do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de
garantir dignidade, respeito e convivência familiar.
Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo
que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.
O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir
negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a
amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um
critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.
Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram
origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais
inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.
Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância
emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente
justificado. E assim o ciclo se conclui.
Os velhos, que um dia foram o centro da família,
terminam a vida como hóspedes da própria história.
Mais do que políticas públicas, precisamos
recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos
de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de
amanhã.
Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a
morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na
vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da
existência. A dor termina. A jornada continua.
Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não
deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão.
Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e
pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.
A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde,
exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser
abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja
essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:
Como queremos ser tratados quando chegar a nossa
vez de envelhecer?
Fortaleza, 02 de março de 2026
José Nilton Fernandes
“CÃO DE BRIGA” - José Nilton Mariano Saraiva
O “click” do destravamento da estranha coleira mecânica (e sua posterior remoção do pescoço) representava a senha para que aquele aparentemente tímido e frágil ser humano se transmutasse numa fera ensandecida, capaz de aniquilar quem encontrasse à frente.
Na verdade, desde a meninice o pacato e “desligado” Danny (Jet Li) que experimentara precocemente a orfandade, fora exaustivamente treinado e programado (por um suposto “tio”) com um objetivo específico: nas arenas da vida, tornar-se uma potente arma de guerra, autentico matador profissional, capaz de trucidar o adversário em segundos, em troca de algum dinheiro. Ao final de cada combate, dinheiro no bolso do “empresário” e o retorno à jaula que lhe servia de moradia, à comida racionada e às humilhações de sempre. Um cachorro vadio e desprezível, na completa acepção do termo.
Mas quando, em razão de um grave acidente (e a presumível morte do seu “tutor-tio”), o “encoleirado” Danny se vê sozinho no mundo, perambulando sem rumo pelas ruas, repentinamente é atraído pelo som de um piano; e aí ele conhece Sam (Morgan Freeman) que, apesar de cego, é um exímio afinador do instrumento.
Desprovido da visão, mas dono de uma apurada acuidade extra-sensorial, Sam detectara a presença de Danny no ambiente, estimulara-o a aproximar-se, pedira sua ajuda no manuseio de algumas teclas do piano e, ao final da conversa que fizera questão de provocar, convencido de que tratava de alguém de boa índole (mas sozinho no mundo, sem eira e nem beira), convidara-o para ir morar em sua casa. Lá, o encontro com Victória, enteada de Sam, aluna concludente de um dos mais respeitáveis conservatórios de música (piano) dos Estados Unidos.
Pacientemente, os dois deixam que Danny aos poucos se liberte dos seus medos e apreensões, das suas angústias e temores e finde por integrar-se à “nova família”, até porque, segundo ouviria de Sam a posteriori... “as famílias devem permanecer unidas”; e assim, aos poucos, acompanhado por Sam ou Victória, Danny começa a descobrir os prazeres da vida, em coisas e situações aparentemente banais ao mortal-comum: tomar um sorvete e saber que é gelado, ir a um supermercado, detectar quando uma fruta se acha madura e, até, que um beijo na face, lhe dado por Victória em forma de saudação, é “molhado” e “gostoso”. Definitivamente, aquela era a “sua família”.
De outra parte, os ensaios de Victória ao piano, em pleno recinto familiar, além de deixá-lo embevecido e extasiado, repentinamente o levam de volta ao passado e, via fragmentos memoriais, imagens começam a “pintar no pedaço”. E aí ele obtém a resposta do “porque” da sua atração pelo piano: sua mãe fora pianista. Ajudado por Sam e Victória (através de um “retrato” que guardara e pesquisas posteriores), descobre não só a identidade materna, mas que fora uma pianista consagrada e famosa.
Nisso, numa prosaica visita a um supermercado, eis que Danny é reconhecido por um dos comparsas do “tio” (que ele julgara morto e que o transformara num autêntico animal); descobre, então, que o próprio havia sobrevivido ao acidente e se vê “convidado” a comparecer à sua presença, imediatamente (sob a ameaça de que, não o fazendo, descobririam seu endereço e seus atuais protetores sofreriam as consequências).
Volta, é obrigado a recolocar a coleira e, mesmo afirmando não mais querer matar ninguém, é jogado numa arena onde cinco profissionais, usando instrumentos contundentes, começam um autêntico “massacre”; por instinto de sobrevivência, a “fera” ressurge em todo o seu esplendor e letalidade, e assim Danny acaba com todos eles. Foge e, ferido, arquejante e cambaleante procura o abrigo de Sam e Victória, até porque... “as famílias devem permanecer unidas”.
Surpreso, descobre que os velhos amigos (o “tio” à frente), já haviam descoberto seu “esconderijo” e, agora, subiam os lances de escada dispostos a trucidar com todos eles. Após colocar Sam e Victória num local presumivelmente seguro, dá-se a última batalha: um a um os comparsas são abatidos, impiedosamente, só restando o “tio”; já caído ao chão após uma luta sangrenta, incitando-o a que ele (Danny) mostre ser o que realmente é - “só um assassino” – provoca-o mais ainda ao afirmar que sua mãe fora uma prostituta que lhe servira sexualmente em ocasiões diversas; e aí, em feedback Danny revive a cena em que o “tio” matara sua mãe, à queima roupa, com um tiro na cabeça.
Ainda assim, naquele momento crucial, o humano se sobressai, a fera sucumbe e Danny terminantemente se recusa a assassiná-lo; não, ele não é “aquilo”. Pressentindo o perigo, Sam sai do esconderijo e acaba com o marginal, ao acertá-lo com um vaso de plantas, na cabeça.
Cena final: no conservatório, ao receber seu diploma de melhor pianista da turma de concludentes, Victória, ao ser convidada pra mostrar suas habilidades, toma do microfone e anuncia que a música a ser executada é dedicada a alguém muito especial, que se encontra na plateia; alguém cuja vida transformou-se quando encontrou a música.
Um filmão !!!
Haja coração.
REMINISCÊNCIAS...
ANTOLÓGICAS - José Nilton Mariano Saraiva
Localizada
ao oeste do Rio Grande do Norte, quase que fronteiriça com o estado do Ceará,
Pau dos Ferros era (à época), uma dessas agradabilíssimas minúsculas cidades
interioranas (já mudou bastante e hoje é uma cidade mais desenvolvida que o
Crato, por exemplo), em razão, principalmente, da índole receptiva do seu povo
e de um detalhe não tão comum em cidades do interior: a beleza brejeira e ao
mesmo tempo esfuziante das suas mulheres e o extremo bom gosto e requinte com
que se vestiam (até parece que os internacionais estilistas de moda, antes de
lançarem suas famosas coleções em Paris, Roma ou Milão, faziam de Pau dos
Ferros uma espécie de laboratório-experimental às suas criações; como luxavam
aquelas jovens e belas mulheres pauferrenses).
Vivenciamos
tudo isso em meados da década de 70, quando, atendendo convite de um colega que
já conhecia nossa capacidade de trabalho e que houvera sido nomeado gerente da
agência do BNB (então a única agência bancária da cidade), para lá nos
deslocamos a fim de cumprir uma “adição” de 90 dias; e, embora realmente o
trabalho fosse muito (a ponto de cumprirmos expediente de 10 a 12 horas por dia),
a “diária” que recebíamos compensava plenamente, além do que havia uma espécie
de “irmandade” entre os que compunham a equipe beenebeana e a população da
cidade.
Ao final
da jornada de trabalho diário, a parada obrigatória era a “Sorveteria do Sales”
(próspero comerciante local, que vendia inclusive sorvetes), onde sorvíamos uma
geladérrima, ao tempo em que as paqueras se sucediam, furtivas ou abertamente;
os fins-de-semana, então, eram, literalmente, uma festa: num deles, por
exemplo, tínhamos a escolha da “Miss Olhos” (obviamente uma disputa entre
aquelas que tinha os “olhos” mais bonitos); na outra semana, a escolha do casal
que melhor dançava; na outra, a escolha daquela que melhor desfilava e por aí
vai; enfim, momentos eminentemente interioranos. O certo é que a “coisa” era
tão legal e gostosa que, não mais que de repente, o tempo voou, os 90 dias exauriram-se
e tivemos que voltar para Fortaleza (bem que houve uma tentativa de prorrogação,
mas não colou).
Antes da
volta, entretanto, foi firmado um compromisso, uma profissão de fé, um
autêntico pacto de boêmios: sempre que houvesse uma festa que compensasse,
seríamos acionados, tempestivamente. E assim, todos nós (mesmo os casados), que
por lá passamos na condição de “adidos” (uns oito colegas, não necessariamente
no mesmo período), findamos por voltar, várias vezes.
Os ônibus
que faziam o percurso até Pau dos Ferros eram os famosos “pinga-pinga”, que,
além de desconfortáveis, eram desprovidos de banheiro. Pois foi numa dessas
viagens que “a porca torceu o rabo”: já saímos da rodoviária de Fortaleza um
tanto quanto “melados” (muita “birita” – vejam só que desculpa - pra puder ter
coragem de enfrentar a buraqueira, já que parte da estrada era de piçarra).
Na
chegada a Pau dos Ferros, cedo da manhã, os notívagos “recepcionistas” (colegas
do Banco) já estavam a nos esperar com um “churrasquinho no ponto e aquela cervejota
geladinha” (é que a “parada do ônibus” ficava estrategicamente localizada
frente a um bar, que aos finais de semana funcionava 24 horas por dia). Os
trabalhos se iniciavam ali mesmo, sem nem escovar os dentes. De lá e durante
todo o dia de sábado, os reencontros, na Sorveteria do Sales, na Churrascaria
do Anísio e no meio da rua, com aquelas mulheres fabulosas.
À noite,
após uma passada na “república” (a fim de tomar um banho, mudar de roupa,
passar uma “brilhantina” no cabelo e colocar o perfume “Lancaster”), festa no
único clube da cidade, que se prolongava até o sol raiar; depois do famoso
“caldo de misericórdia”, servido num posto de gasolina, todo mundo se mandava
pra “barragem” (na verdade, o açude que abastecia a cidade e onde existia uma
“palhoça” que servia o melhor “tucunaré” do mundo); e tome “mé” (aí já na base
do famoso “cuba-libre” – mistura de Ron Montila e Coca-Cola).
Naquela
tarde de domingo, Rivelino, famoso jogador que houvera se destacado no
Corinthians, faria sua estreia (no Maracanã), pelo time do Fluminense, jogando
contra o ...Corinthians. Mesmo diante de uma televisão preto-e-branco com uma
imagem sofrível, na sala da casa do prefeito da cidade formamos uma grande
torcida do Fluminense (pra agradar o homem). E tome Ron Montila com Coca, com exóticos
tira-gosto: panelada, buchada, tucunaré, o escambau. O certo é que o tempo, de novo, voou, e de
repente chegou a hora do retorno.
Já
chegamos na “parada do ônibus” mais pra lá do que pra cá, puto de raiva por ter
que voltar e lá encontramos a colega do BNB Julieta (que também houvera ido
passar o fim de semana). Sentamos na poltrona (?) e...apagamos.
Lá pras
tantas, após uma parada abrupta do coletivo a fim de desembarcar algumas
pessoas que moravam na zona rural ao lado da estrada, ressuscitamos e, pior,
com uma vontade ou necessidade imperiosa, miserável mesmo de “descarregar”, “arriar
a massa” (e o ônibus não tinha o famoso toylette). Falamos com o motorista e o
trocador (existia um, sim, encarregado de recolher o dinheiro das passagens) e
eles sugeriram que descêssemos o barranco e fizéssemos o “serviço”, enquanto eles
procuravam e entregavam a bagagem do pessoal. E só deu tempo mesmo descer o
barranco às pressas, arriar as calças e ... tome merda, muita merda, merda em
profusão, em pleno estado líquido e em “chicotadas” brabíssimas, monumentais (o
Ron Montila e os tira-gostos finalmente cobravam seu preço).
Até hoje
não conseguimos lembrar é se nos deixamos absorver pelo esplendor da lua cheia no
céu (em pleno meio da caatinga) ou se, simplesmente, dormimos de cócoras; o
certo é que, de repente, conseguimos “captar” a zoada de um carro acelerando;
ao olhar, desesperado, pra cima, rumo à estrada, divisamos o ônibus se
afastando, lentamente; não houve tempo para raciocinar: num átimo, nos
despojamos da bermuda e da cueca, pegamos essa última e passamos de forma
apressada no traseiro, a jogamos fora, vestimos novamente a bermuda e subimos a
ribanceira feito um louco.
Contando
com a solidariedade do pessoal que havia descido (umas oito pessoas) que se
puseram a urrar em plena três horas da manhã, o ônibus parou mais à frente;
resfolegando, suando em bicas por todos os poros, a língua pra fora e extensa como
se fosse uma gravata, alcançamo-lo e, evidentemente, reclamamos do motorista e
cobrador; eles alegaram que haviam “esquecido” e pediram desculpas. Quando
sentamos na poltrona (?), uma réstia da luz da Lua nos permitiu observar que Julieta
(ainda dormindo) imediatamente virou o rosto para o outro lado. Deixamos pra
lá. Sentamos e... apagamos (de novo).
Oito
horas da manhã, rodoviária de Fortaleza. A muito custo e após nos sacolejar
bastante, a dupla caipira (motorista e cobrador), consegue finalmente nos
“trazer de volta”. De mau humor, com um terrível gosto de “cabo-de-guarda-chuva”
na boca, doido pra chegar em casa, não ligamos para a cara feia dos dois,
pegamos nossa sacola que estava na parte de cima e saímos.
E foi aí,
ao tentar nos despedir da colega Julieta, que vimos a “merda” (literalmente) que
tínhamos armado: é que ela (e demais passageiros), não só se recusava a aceitar
o nosso cumprimento, como, também, olhava(m) fixamente para nossa mão
estendida; já com um certo receio, um pressentimento estranho a nos percorrer a
espinha, acompanhamos o seu mortífero olhar e, só então, entendemos a dimensão
da coisa: não só nossa mão, mas partes do antebraço, coalhadas estavam de
merda, em transição do estado líquido para sólido. É que, ao passarmos a cueca
apressadamente no traseiro, ela não dera conta do recado e o “produto” (merda) havia
vazado, em profusão, para a mão e adjacências.
Imagine o
que é ter vontade de morrer, sumir, meter-se em algum buraco, sumir do mapa, ir
parar na China, no outro lado do planeta. Uma tragédia. Pra completar, quando
tentamos dá um passo à frente, sentimos, aí sim, a bermuda um tanto quanto
apertada, muito presa ao corpo, obstando estranhamente nossa locomoção; é que
ela simplesmente houvera “pregado” na bunda, tal a quantidade de merda e a
extensão da área em que se propagara.
Resultado
??? A vergonha foi tão grande que ficamos “baratinados”, perdemos a noção do
tempo, espaço e do ridículo, e sequer conseguimos atinar que na Rodoviária
tinha um banheiro onde poderíamos fazer uma “meia-sola” (mini-banho). E assim, como
nenhum taxista compreensivelmente nos aceitou como passageiro, tivemos que
fazer o percurso do Bairro de Fátima até o apartamento, no Centro da cidade, no
pé-dois, sol a pino, cantando amor febril e sob os olhares desdenhosos dos
transeuntes, que cortavam caminho, tratavam de passar por longe daquele
“lixo-humano” a se debater com um exército de moscas, muitas moscas, a prossegui-lo
insistentemente. É que a fedentina era tão grande, o odor à nossa volta tão
insuportável, até para a mais das insensíveis narinas, que poderíamos e
merecíamos ser cognominados como uma “fossa ambulante”.
Quanto à
colega Julieta, passou um certo tempo amuada, cabreira, sem querer papo nenhum,
intrigada mesmo; hoje, casada, mãe de filhos, reside em Mossoró e nas suas raras
incursões à cidade de Fortaleza, nas vezes em que a encontramos, nos saúda efusiva
e festivamente, embora um tanto quanto diferente, esquisito até: “Diga lá...
seu cagão”. E haja risadas.
Coisas da
vida...