TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Vagares Vadios

Farto o teu vazio...
Basto-me na rosa,
colhida no jardim.

Se não chegares,
a rosa vai namorar seu jasmim
devolvo as lágrimas ao marfico
com o olhar em botão
discretamente nascido,num pé de saudade!
Existem idas sem voltas
momentos saem da órbita
desistem do seu destino...

Existem voltas sem malas
um amor extraviado
que brinca do outro lado
Existe o ausente
que não cabe no presente...

O riso palhaço,
o olhar desconfiado,
a palavra maldita...
Que sufoca cruelmente,
o respirar de uma flor!
xxxx

Entre pela porta,
pela meia voz...
Entre na hora,
no antes ou no depois...
Entre você e o tempo
é sempre você quem ganha!

Dona da porta e da chave
dona também das janelas,
paredes, barraco de papel...
Noite fria, negra magia
Nela fiz minha pauta
Nela escondi a poesia
Dela fiz meu pentagrama com claves de lua,
preenchido de estrelas...breves e semifusas...pulsares de luz!

Noturna teimosia
Gosto do teu manto
Fujo do olhar do dia!
Socorro Moreira

(arte que ilustra o poema: MADONNA, Edvard Munch (Løten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944) pintor norueguês, um dos precursores do expressionismo alemão.)


(homenagem bem humorada a socorro)


culinária de solteiros
1
como fritar um ovo:pegue uma panelaabra uma lata de cervejaesparrame margarina na panelatome um gole e acenda um cigarrojogue a colher na pialigue o som (planet hemp é recomendável)quebre um ou mais ovos e os jogue na frigideira imediatamente (existe possibildade de resíduos melecosos caírem no chão, nas mãos e na roupa)beba outro gole, mais generoso desta vezapague o cigarro na piajogue sal nos ovos (quando bate no fogo é o maior barato: princípio de incêndio)acenda outro cigarro.grite: "dê dois, mais mantenha o respeito"esqueça os ovos, pegue outra cerveja, atenda a porta.converse dez minutos, desligue o fogo, jogue a panela na pia.(amanhã você lava tudo)

2
esquente águaligue pra alguémpergunte se tem grana, que traga cerveja ou vinhoprocure coisas que cozinhemnada?beba mais um gole. acabou o gelo? beba quente.procure nas panelas. sobrou?desligue a águajunte os restos dos ontensabra a porta.receba as latas, e depois os amigos.ofereça as panelas,diga que é um prato novo.invente um nome.tome um porre.esqueça as panelas.

3
sobrou algum?compre pronto.é mais seguro.e suja menos.ligue o som.engane a criatura, diz que tú que fez.

Cinema, outra vez!


Outro filme - Olho de Boi (tragédia de Edipo Rei transposta para o sertão nordestino), de Hermano Penna estará na mostra competitiva de longas metragens. Hermano é cineasta de raiz caririense e a sua obra tem sido premiada em muitos festivais pelo mundo afora.
Com seu primeiro longa-metragem, Sargento Getúlio (1983), foi premiado como melhor diretor no Festival de Locarno, Suiça, e melhor filme em Gramado. Cearense, nascido em 1945, passou a juventude na Bahia, em meados dos anos 60 mudou-se para Brasília e, em seguida, para São Paulo, onde começou a trabalhar como assistente de direção, em O profeta da fome (1969), de Maurice Capovilla, e como assistente de câmera, em Gamal, o delírio do sexo (1970), de João Batista de Andrade. Entre a metade dos anos 70 e o início dos 80, dirigiu documentários para o programa de televisão Globo Repórter, como A mulher no cangaço (1976) e África, mundo novo (1977). Seu segundo longa, Fronteira das almas (1987), inspirado em romance de João Ubaldo Ribeiro, foi premiado como melhor filme e direção pelo júri oficial no III Rio Cine Festival. Em 2000 dirigiu seu terceiro longa-metragem, Mário, e em 2004 iniciou o processo de roteirização do longa-metragem Cismas do destino(Olho de Boi?).

Ave Poesia-Patativa do Assaré, estará em Gramado 2007

O filme Ave Poesia-Patativa do Assaré, de Rosemberg Cariry, maior realizador cearense, estará nesta edição 2007 do Festival de Gramado. Veja toda a programação no link que segue:

O Kikito, a estatueta símbolo e prêmio do Festival de Gramado, foi criado pela artista Elisabeth Rosenfeld. Desde 1990 é feita em bronze e tem 33cm de altura. Até então era feito em madeira de imbuia. A estatueta representa o deus do bom humor.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Haapy Hour com Jazz


O jogo



Rejane Gonçalves


Procura-nos a Morte quando já somos tão pouco.
Quando o que nos dá a condição, senão a possibilidade de seguir ao lado dessa gente, é apenas um corpo semelhante aos que do nosso lado passeiam. Todavia mover os pés nesse ritmo próprio do caminhar, trotar com essas criaturas de uma calçada à outra, não nos confere a imponência de um puro sangue, nem tampouco oferece à Morte a garantia de que apertará nos braços um indivíduo, ainda, senhor absoluto dos seus restos de sonhos, ânsias e quereres
A Vida matreira e ladina com suas mortes cotidianas, sutis, mas atrozes, a nos infligir, dificilmente entrega um corpo cujo espírito ainda esteja envolto na integridade de suas emoções. Ela que dispõe e impõe, olha da janela envidraçada a ridícula figura da Morte que ao se abaixar para pegar o fardo o faz sempre com a convicção de que o peso a ser suportado vai ser imenso, e ao levantar-se com um urro como que para se ajudar, acaba desequilibrando-se com a leveza da carga. Nesse momento, Vida e Morte, como duas velhas comadres que estivessem em abstinência da companhia mútua, cruzam os olhares ávidos de uma para outra calçada; e gesticulam e gritam e gemem e movem-se como se existisse uma fluidez ao abraço ou à trincheira. As duas comadres enfrentam-se.
E nós somos um leve embrulho arremessado no ar num jogo frenético, destituído do calor das torcidas e da sonoridade das multidões. Bola disforme jogada cada vez com menos precisão de Uma para a Outra, até que a Morte, a mais sensata dentre elas, lembre-se de sua tarefa milenar, bote-nos debaixo do braço e saia praguejando.

Cozinha da Sauska: Croquete de berinjelas!

Ingredientes:
3 colheres de sopa de manteiga
1 cebola picada
1 dente de alho amassado
1 berinjela grande cortada em cubos
1 tomate picado
1 xícara de batata cosida e amassada
2 xícara de leite 2 gemas
1 xícara de farinha de trigo
1/2 xícara de cheiro verde picado sal
e pimenta do reino à gosto
1 1/2 xi de farinha de trigo
2 claras de ovos
1 1/2 xi de farinha de rosca óleo para fritar.

Modo de fazer: Derreta a manteiga e refogue a cebola e alho.Adicione a berinjela, o tomate e refogue até amaciar.Acrescente a batata, o leite, as gemas,e mexa.Adicione a farinha de trigo, mexendo até desprender do fundo da panela.Retire, acrescente o cheiro-verde,sal, pimenta e deixe esfriar.Modele croquetes, passe pela farinha de rosca.Frite em óleo quente, escorra sobre papel toalha e sirva.


Culinária também é uma arte!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Só no Crato Mesmo...


DEODATO GLOBALIZADO

Quase todo mundo já se acostumara com as histórias estapafúrdias de Quinca de Filó, ali na praça Siqueira Campos. Chegava , invariavelmente, com aquela cara de ressaca, meio amassada e obscurecida por olheiras , parecendo uma lata de torrar castanha. Postava-se ali num canto, ouvindo mais que falando e só quando se recobrava um pouco daquele gosto de cabo de guarda-chuva é que começava a tecer suas considerações. No início, alguns grunhidos mal humorados, depois a articulação de palavras inaudíveis, só lá para o meio dia, começava-se a traduzir o que saltava da boca de Quinca. Valia a pena, porém, a paciência : o homem se tornara o maior depositário cratense de histórias fantásticas e impossíveis. Disso já se sabia, mas naquela terça-feira, depois da Expo/Crato, Filó simplesmente se superara.
-- Vocês sabiam que no último dia de Exposição, um bêbado morreu e mesmo assim, depois de esticar as canelas, ainda dançou a noite toda, bebeu cachaça na barraca de Luiz Jacu, rodou na roda gigante e , não bastasse isso, pegou carona num caminhão e foi bater em Campina Grande?
A Praça Siqueira Campos cobre-se daquela fauna própria das florestas interioranas. Os passantes, desavisados, que vão ao , ou saem do trabalho; os rueiros que escapolem para tomar um cafezinho ali no Café Crato; os taxistas esperando serem requisitados para alguma corrida; os transeuntes que se acercam das bancas de revista e finalmente aqueles que têm escritório montado na praça, aposentados oficiais ou independentes , que se deleitam tricotando as últimas novidades da Vila.Diante do release de história tão surrealista , saída da boca de Quinca, todos as almas numa circunferência de cinqüenta metros se aproximaram, curiosos, do nosso André Breton tupiniquim. Imaginaram, a princípio, que o homem vinha embalado ainda da Exposição e estava mais melado do que balcão de Correio ou talvez, simplesmente, endoidara. Aos poucos, no entanto, perceberam que ele acordara da ressaca e , dentro do possível, mostrava-se lúcido e coerente. Mas que diabos de conversa sem pé nem cabeça, de um defunto andarilho, era aquela ? Quinca, com platéia montada, de pronto estimulou-se a continuar a narração.
--- Não tem nada de mentira não. Vou contar direitinho como tudo aconteceu. No dia do show de uma tal banda chamada “Aviões do Forró”, o parque encheu de gente que não cabia mais nem uma linha zero. Ficou todo mundo espremido uns contra os outros, tal e qual sardinha na lata.Do lado de fora , tinha mais de quinhentas pessoas querendo entrar e sem poder. Nunca se viu tanta gente reunida aqui nesta cidade para ouvir música ruim. Pois bem, num é que lá no currupio da platéia estava “Cutia”, aquele pau-d´água da Vila Lobo. Não se sabe como o homem entrou e só depois se descobriu pra que. Beirando meia noite, o bêbado teve um colapso e morreu. Devia cair duro no chão, mas como, meu senhor? Espremido ali no meio da multidão ficou de pé. Morreu como batida e passou todo o show dançando ao sabor da multidão. Só lá pras oito horas, quando o povo saiu é que Cutia pode cair em paz. Mas aí, iam passando uns bêbados amigos ( e o que não falta neste mundo é solidariedade de bêbado), conheceram o amigo, imaginando-o capotado pela cana, botaram-no no braço e foram lavar o peritônio , cedinho, na barraca de Luiz Jacu. Deitaram Cutia em duas cadeiras e acabaram de encher o toba de cana. Aproveitaram e deram ainda umas goladas ao companheiro capotado ( e juram que o homem engoliu). Botaram novamente o fardo no ombro e subiram em procura daquela saída do parque que dá para o Pimenta.
Neste ponto , Quinca parou um pouco para respirar e, estrategicamente, procedeu como se a história tivesse terminado por aí. Após alguns minutos de silêncio, os ouvintes quase em uníssono, perguntaram:
---Sim, e o resto da história, como diabos é que o defunto andou no parque de diversões e viajou ?
Era a deixa que Quinca de Filó esperava. Respirou fundo, pôs-se pensativo como que tentando lembrar-se de um roteiro distante e impalpável e retornou ao fio da meada:
--- Bem, quando chegaram na altura do parque de diversões, já chumbados pela cachaça e pelo peso que carregavam, sentaram “Cutia” um pouco na cadeira da roda gigante . Era mais fácil de ele se manter no lugar, fechando aquele ferrinho de segurança da cadeira. Deitaram ao derredor e descansaram . Pois não é que o responsável pela roda gigante, chegando ao parque, ligou os motores para consertar a cadeira treze que estava lá no alto. Cutia então subiu na sua poltrona até à cumeeira e ficou contemplando a cidade amanhescente com seus olhos baços.Quando o maquinista notou que havia alguém passeando na roda, sem ter pago o ingresso, desceu , acordou os amigos e lhes entregou novamente a carga. Novamente os companheiros de Cutia colocaram o homem no tum-tum e já na saída do parque, cansados , resolveram deixá-lo descansando na carroceria de um caminhão baú ali estacionado. Encostaram-se, cambaleantes, pelas paredes do antigo Campo do Esporte e simplesmente desmaiaram. Despertaram do sono, sob o açoite do sol do meio dia. Um cutucou o outro bêbado e, quando saíam, lembraram-se: menino, cadê Cutia? Só que o caminhão não mais se encontrava no pátio. Souberam, depois, quando curaram da ressaca, que o bicho tinha ido pra Campina Grande .
Os circunstantes, embasbacados, quiseram, então, saber o desfecho da história. Quando descobriram que Cutia estava morto? Sepultaram-no em Campina Grande? Quinca de Filó, então, matou a curiosidade de todos.
--- O que soubemos, amigos, é que o caminhão ia transportando peças de couro do Mestre Expedito de Nova Olinda para serem exportadas para França. A última notícia da polícia paraibana é que Cutia embarcou com a carga para França e não mais se soube o paradeiro do homem. O Itamaraty , porém, informou que um cachaceiro francês, preso semana passada por arruaça, garante que viu um sujeito cambaleante, todo encourado, descendo numa das barcaças do Rio Sena, aboiando feito um doido.


J. Flávio

Agende-se

Lembretes!

  • Fiquem atentos que a nossa CaririCult tem o seu arquivo "semanal" de postagens. Então, em linguagem simples, a nossa revista fica com a sua edição renovada semanalmente. Entretanto, para vizualizar as edições anteriores basta clicar nas datas/intervalos desejadas que você encontra na lateral/direita da página.
  • Os comentários, como já afirmei, são o "lado B" da nossa revista. Alguns até excedem o valor positivo da postagem. Merecem ser vistos!.

domingo, 5 de agosto de 2007

GRANDE SERTÃO: SEREMOS

Não quero iniciar uma discussão sobre estereótipos. Os equívocos que povoam nossas mentes acerca de uma série de coisas. Desejo falar de outro livro. Grande livro.
Porém, existe alguma dificuldade nesta minha tentativa. Do material que resolvi escrever – tateando no escuro, sendo muito mais intuição que conhecedor de fato – pouco entendo. O suficiente para pontuar fatos, conceitos e o que for necessário. O problema é que tenho outras referências. Quando o assunto é literatura, o que consigo descrever tão bem passa longe do que será interpretado nas próximas linhas. E acho melhor deixar claro que estou fazendo um ensaio, no que mais de verdadeiro a palavra significa. Tentar explicar algo que para mim é tão somente comoção, é um processo dos mais delicados. Corro algum risco. De ser mal interpretado ou não ser entendido. Mas não posso deixar de tentar(...)
Leia mais aqui

Cinema no Cariri: primórdios!


O texto a seguir tem a ver com a declaração do Rosemberg Cariry (veja postagem anterior) de que que o filme Ave Poesia- Patativa do Assaré, teve seu começo com a nossa produção do filme: Passarim do Assaré.

EU E O CINEMA

Os filmes de Tarzan vieram bem depois já no cine El dourado! Antes, os filmes eram passados nas paredes amareladas da Igreja N. Sra das Dores pelo padre Argemiro. Que idéia maluca desse padre! A gente sentava no chão e esperava até as lâmpadas da rua serem apagadas. Ficava um breu! A gritaria tomava de conta. Não eram somente crianças, não! Gente grande, também. Quando a luz do projetor acendia e a luz projetava imagens em movimento na parede os nossos pequenos corações se agitavam. Eu nem lembro direito se tinha algum filme de santo, desses de céu, inferno, anjos e demônios. Não lembro não! Eu não esqueço é daquele filme que a gente chamava de “carro doido”. O carro passava por debaixo de trem, voava, batia em postes, atravessava casas... Era uma zona! A gente ria de perder o fôlego. Inesquecível!
O primeiro filme que vi em sala de cinema foi no cine El Dourado - na rua Sta. Luzia de Juazeiro do Norte : A Paixão de Cristo! Não era mais a versão muda e em preto e branco mas uma sonora e colorizada com papel celofane. As sessões eram concorridíssimas durante toda a Semana Santa. A cópia dublada não tinha qualquer preocupação com o sincronismo labial ou identificação com as personagens: a voz de Cristo era bem grave e um pouco medonha; Poncio Pilatos falava fino e abaitolado; a virgem Maria tinha uma voz de mezo-soprano muito sensual e Madalena era gasguita como a Tetê Espindola. A trilha sonora dramática, executada por uma daquelas orquestras sinfônicas européias e com gravação que devia trazer o selo de qualidade da Deutsch Gramophone, não fazia a mínima diferença para a pequena caixa acústica monofônica que a amplificava. Assisti a tantas sessões que cheguei a decorar o Sermão da Montanha com a mesma entonação cavernosa que o filme trazia.
Depois dos dez anos é que comecei a ir regularmente ao cinema. Já eram duas salas na cidade: o El dourado e o Capitólio. Minha iniciação foi com os filmes de Tarzan e seu grito Ahaaaaaaaaaah!, Jane, Chita e aquelas histórias fascinantes de heroísmo e bandidagem nas savanas da África, do Oriente e não sei mais onde. Mas antes da sessão principal tinham aquelas séries – uma novelinha em capítulos - que sempre deixava o mocinho em perigo iminente para criar a obrigação de vermos o próximo episódio numa outra sessão. Aquela expressão “perigo da série”, tão em voga na época, veio daí.. De Johnny Weissmuller- o melhor tarzan de todos os tempos-, que convivia numa boa com os índios, para John Weyne, o maior matador de índios da história do cinema, era só mudar de faixa etária e horário das sessões. Vieram depois os celebrados clássicos Ben-Hur e os Dez Mandamentos do Cecil. B.de Mille com mais de três horas de duração e “intervalo” ou os de guerra como Os Canhões de Navarone, A Ponte do Rio Kwai com aqulela musiquinha que a gente saia assobiando. E o que dizer daquela seqüência de “espaguettis italianos” estrelados por Franco Nero? Ou dos românticos Noviça Rebelde, Candelabro Italiano e Dio come ti amo! E a alegria do mestre Cantinflas? Os nacionais eram as chanchadas ( com aoas Eu sempre ia às sessões das 18:30h. Vi poucos filmes nacionaisAntes passava na casa de um amigo, O Zé Adauto, ficava um pouco na praça Pe. Cícero ouvindo o programa “Música Clássica para Quem não Gosta de Música Clássica” do CRP - Centro Regional de Publicidade - do Darim, transmitido por uma corneta de som que ficava no alto da coluna da hora e depois subia a rua São Pedro em direção ao cinema. Nem sempre eu tinha a grana disponível pro ingresso e aí me valia de uma das minhas irmãs, a Enedina, que já trabalhava numa biblioteca municipal e sempre atendia aos meus apelos de cinéfilo. Todos foram filmes que degustei na minha adolescência!
Pra chegar aos grandes mestres da arte cinematográfica, demorou um tempão e a minha iniciação só se deu quando fui pra Fortaleza fazer vestibular e descobri o Cinema de Arte na Casa Amarela e as sessões dos sábados às dez da manhã no cine Diogo. Foi uma festa! Aí descobri Antonioni – Bergman – Antonioni - Vitório de Sica - Orson Wells - Pasoline - Eisenstein - Fritz Lang - Woody Allen – Mario Peixoto – Fasbinder – Hitchcock –Glauber Rocha e outros mestres do Cinema. Agora já citava Le Cahiers du Cinéma! Comecei a ler alguns roteiros disponíveis na Casa Amarela e descobri as semelhanças que tinham com uma peça de teatro (já fazia teatro). Quando vi alguns filmes russos é que essa semelhança ficou acentuada. Quis, então, escrever roteiros... Mas desisti em seguida. Continuei apenas vendo muitos filmes.
Os anos se passaram. Saí de Fortaleza pra São Paulo pra Recife pra Fortaleza! Assim se passaram dez anos! Foi quando reencontrei o Rosemberg Moura, hoje Cariry que, sabendo do meu retorno a Fortaleza, me envolveu com a produção do jornal Nação Cariry e me falou do seu desejo de fazer um documentário sobre o Patativa do Assaré utilizando um equipamento Super-8. Não deu outra: comprei uma câmera Cannon, um editor, um projetor e iniciamos as filmagens de “ Passarim do Assaré “, o primeiro registro cinematográfico da figura emblemática do maior poeta do sertão nordestino. A nossa equipe: Rosemberg Cariry, Bola Bantim, eu e Zé Roberto França. Saímos do Crato para Assaré e depois para o sítio em Serra de Santana onde nos arranchamos na casa de Patativa e Dona Belinha (uma santa). Foram sete dias gravando o que podíamos. Naqueles dias éramos parte da família. Patativa, sempre muito inteligente, talvez adivinhasse que a sua poesia e imagem pudessem ir mais longe com aquele filme e, com a sua grande humildade, sentia-se prestigiado. Dona Belinha, sua esposa, nos tratava com tanto carinho que nos sentíamos seus filhos. Foi uma experiência enriquecedora pra todos nós!
PS: A foto que ilustra esta postagem- que está na internet- é de minha autoria e foi feita na época das filmagens

Oração para todos os dias: São Jorge!

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos

não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por Nós.

COMENTÁRIO ABERTO:

Socorro Moreira disse:

" Lua bonita, se tu não fosse casada, preparava uma escada para no céu te buscar/e se calhasse o meu frio com teu calor/pedia a Nosso Senhor para contigo casar.Lua bonita me causa aborrecimento/vêr S.Jorge num "jumento"/pisando teu coração/Por que casastes com um homem tão sisudo/que come, dorme, faz tudo...dentro do teu coração!? "

Não sei de quem é a canção.Aprendi aos dois anos de idade,certamente com a moça que me carregava nos braços.Engraçado, como a gente não esquece, o que se aprendeu em tenra idade!Mas, S.Jorge é meu protetor: Sou filha de "Ogum" com "Iansã"!

Pessoal, vcs precisam comentar as postagens !



Tem gente só se preocupando em Postar, postar...sem comentar as postagens!
Tem muita gente postando pra pouca gente lendo.
Então acho que comentar faz parte do processo de digerir o material já postado.
Procuro sempre ler todas as postagens.
Vamos comentar também, dar um feedback para os autores de artigos.

Abraços e Bom Domingo!

sábado, 4 de agosto de 2007

Chico Buarque, o homem perfeito.

Sim, sou fanática. Buarqueana, buarcófila, buarqueísta, buarcólatra. Muita gente se espanta com minha paixão pelo Chico Buarque. Sim, é patológica.

Os homens não entendem. Vêem nele apenas um bom compositor. Dizem que ele é machista. Dizem que a voz dele é ruim. Dizem que ele não pode ser um símbolo sexual aos 60 anos de idade.

Pois é. Os homens não entendem. E perdem, dessa maneira, a oportunidade de abarcar um mistério que somente Chico Buarque conhece: o universo feminino. Caetano já disse que a mulher “é um livro místico e somente a alguns a que tal graça se consente é dado lê-la”. Deus deu essa graça ao Chico. Em demasia. Ele entende as mulheres como ninguém. Sei que é clichê dizer isso, mas é necessário. Porque o interessante é que os seres humanos do sexo masculino são capazes de admirar o Chico, mas nunca conseguem compreender em profundidade o que a poesia dele significa para nós, seres humanos do sexo feminino.


A verdade é que só ele é capaz de sentir a dor de todas nós. Nenhuma mulher fica sem canção do Chico.

A mulher madura (valsinha, sem fantasia), a jovem (sentimental, flor da idade, bolero blues), a desencantada (trapaças, a história de Lily Braun), a prostituta (viver do amor, umas e outras), a que se apaixona por um cafajeste (choro bandido, o corsário do rei), a dona de casa amorosa (com açúcar, com afeto), a homossexual (mar e lua, Bárbara), a mulher livre (veneta, suburbano coração), a que domina sem que o homem perceba (bem querer, mil perdões, último blues), aquela que se deixa dominar (sem açúcar, Teresinha), a abandonada (soneto, atrás da porta), a que abandona (a Rita), a que humilha o homem (tira as mãos de mim, aquela mulher, olhos nos olhos, a Rosa), as que amam o mesmo homem (o meu amor) ou as que são amadas por um homem só (no barco de Lia, na ilha de Rosa).

Todas elas merecem a atenção de nosso mestre maior.

Os homens deveriam aprender com ele! Seria bom se vocês fossem capazes de vislumbrar o que há de essencialmente belo em cada mulher, compreendendo nossas ambigüidades e conflitos. Talvez desta forma vocês conseguissem aprender como ser um homem cobiçado aos 60 anos de idade. Garanto que trocamos 3 homens de 20 por um de 60 (desde que seja como o Chico). E garanto que o homem que escreve as coisas que o Chico escreve torna sua voz encantadora pelo simples fato de ter desvendado nossos mistérios.

Chico, acima de tudo, compreende a existência da mulher como algo imprescindível para a plenitude da vida do homem (sem você, moto-contínuo); ele nos vê como algo quase sagrado (Cecília, Beatriz) e, no entanto, extremamente carnal (tatuagem, caçada, amando sobre os jornais). Não, Chico não é machista. E as mulheres dele não são submissas. São apenas mulheres. Cada uma delas possui sua especificidade, como nós. Vocês, homens (e algumas feministas radicais) precisam perceber a sutil diferença que há entre ser submissa e se deixar submeter. A diferença que há entre ser machista e agir como um homem deve agir. A diferença que há entre ser um bom compositor e ser Francisco Buarque de Hollanda.

Sassaricando






Olhei para Joaquim e ele me respondeu com aquilo que achou que o meu olhar perguntava:
- Existem limites que não devem ser ultrapassados. Se ultrapassar muda de fase.
- Mas ultrapassar limites é da natureza humana. Respondi em cima do que ele me dizia. Na verdade eu não sabia ao que Joaquim se referia. Até então estivéramos conversando, no restaurante, numa roda de seis casais. O assunto era o frisson que a peça Sassaricando fazia na mídia e nas conversas da cultura nos últimos dias aqui no Rio. Um dos casais já tinha assistido e se desdobrava em elogios à peça que praticamente era um musical com marchinhas antigas de carnaval.
Aliás, nestes tempos de "guerra civil" nos morros cariocas, a cultura escapava pelo passado da cidade maravilhosa. O espetáculo a respeito do Cauby Peixoto dominou a conversa e a tônica da narrativa eram os sorrisos e a alegria saudosa de um tempo que era mais tempo da cidade. Por isso mesmo Sassaricando – todo mundo leva a vida no arame, virou uma fuga de velhos carnavais – pra onde você for eu vou atrás, o seu rebolado é bom demais...
Joaquim e a Lisieux também tinham ido e ela estava exultante com a experiência ocorrida ainda na noite passada. Naquele exato momento fiquei muito feliz, o casal passava por um desmame que nem os bebês mais chorões verteriam tanta água. Estavam na base do Noel Rosa: seu português agora foi s´embora, já deu o fora e levou seu capital, esqueceu quem tanto amava outrora, foi no Adamastro prá Portugal, prá se casar com uma cachopa, e agora com que roupa, com que roupa, eu vou, pru samba que você me convidou, com que roupa, eu vou, prú samba que você me convidou.
O filho Rafael, destino de pintor, filho do renascimento, virara gaúcho. Ia a busca de sua prenda e o casal, acostumado ao menino que teimava crescer, não vira que ele dizia: Eva querida quero ser o teu Adão, dar-te-ei, o meu amor, a minha vida, em troca do teu coração. Hei de conquistar o teu amor se Deus quiser, custe o que custar, haja o que houver, serei capaz de qualquer prejuízo, mas te darei um paraíso.
Um pouco antes do referido olhado, Lisieux, no entusiasmo da anterior noitada feliz, comentara que tinham ido e voltado numa destas Vans que transportam freqüentadores dos teatros e das casas de show do Rio de Janeiro. Copacabana, princesinha do mar, pelas manhãs tu es a vida a cantar e a tardinha o sol poente deixa sempre uma saudade na gente.....é o bairro do Joaquim desde que nasceu nos idos iniciais dos anos quarenta. Dizem os americanos, e Joaquim confirma, os dez ou quinze anos após a segunda guerra mundial foram os mais felizes do mundo Ocidental e, por tabela, do Rio e de Copacabana. Nesta ocasião foi que, vendo o entusiasmo de Lisieux e sabedor das dores de cotovelo que passava, olhei para o Joaquim como a demonstrar a minha surpresa e até mesmo alegria. Este olhar enigmático, meio Mona Lisa, deve ter provocado a resposta dele lá do início.
A minha resposta também lhe parecera sem sentido e aí ele, com aquele riso maroto que guarda antes de alguma sacanagem, narrou o que segue.
- Ontem me senti tão velho. Como nunca me senti antes – parecia que eu ouvia uma daquelas marchinhas: "não quero broto, não quero, não quero não, não sou garoto pra viver mais de ilusão, sete dias da semana eu preciso ver minha balzaquiana". – A Lisieux resolveu ir de Van e já no telefonema o serviço perguntou se ela queria algum recurso especial, como uma cadeira de rodas, para facilitar o acesso do marido. Quando a Van encostou e abriu a porta, toda Rue de Rivoli espalhou-se pelo Morro dos Cabritos. Duas senhoras, coloridas, cheirando a perfume francês, a pele esticada de dúzia de procedimentos plásticos, já estavam sentadas. O motorista achou a mim e a Lisieux um casal na flor do vigor e por isso mesmo nos enviou para o último banco. Naquela posição, facilitaríamos as grifes, os colares de pérolas falsas, as bolsas indefectíveis, as camadas de cosméticos que entravam em cada parada da Van junto com a dificuldade deambulatória da ampulheta dos tempos. No interior da Van o ar fora tomado por uma atmosfera de perfumes de todas as fragrâncias prováveis e improváveis, exóticos e triviais que as narinas podem distinguir. Após um dado tempo havia uma soma de todos os perfumes, o silêncio circunspeto da solidão dos oitenta em marcha dos noventa. A peça é linda, mas a idade média das pessoas não ficou a dever para qualquer uma daquelas marchinhas.
Caímos no riso de um verdadeiro desfile de Escola de Samba. Eu, o único que ainda não fora à peça, mas prestes a ir, cantarolei: o velho gagá já deu o que tinha que dar, o velho gagá já deu o que tinha que dar, o velho gagá gagueja no baile do Municipal, quando arranja um broto que parece uma pimenta, o velho se arrebenta e noutro dia passa mal....

JOSÉ DO VALE PINHEIRO FEITOSA
Médico-Escritor Cratense
Autor de "Paracuru"

Halleluyahh! Geraldo Urano.



Existem mil maneiras de se aproximar de Deus. Uma delas é ir numa tarde de domingo conversar com Geraldo e dar umas boas risadas.

Quando se toca, é melhor calar !



Tocar

Um samba eu vou lhe dizer

É sempre bom de fazer,

E faz a gente querer cantar.

O canto, quando ele vem,

garanto que é bom também
,
porque não deixa ninguém chorar


Tocar é sentir a presença de Deus pelo som;
tocar é ouvir a batida de um só coração

Nenhum poeta vai definir,
quando se toca, é melhor calar!

Não dá pra dizer o prazer que há.
Só quem sabe, é quem sabe tocar!



Paulo César Pinheiro

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Serpentes na Noite, memória de uma música

Certa noite, no início dos anos noventa, eu, Salatiel e Geraldo Urano, nos reunimos no apartamento de Salatiel, para assistir o documentário “blues”, de Valter Salles Jr., transmitido pela Rede Manchete. O documentário trazia depoimentos e performances de velhos blueseiros norte-americanos, todos desconhecidos da mídia. Emocionados com o que vimos, decidimos esticar a noite no restaurante Pau do Guarda, para beber e papear (Geraldo Urano bebeu Cola-Cola, sua bebida preferida). Aquele documentário mexeu profundamente com a gente, pois não conseguíamos sair do êxtase que se instaurou naquela noite.
Quando cheguei em casa, já no início da madrugada, escrevi uma letra inspirada naquele acontecimento. No dia seguinte, bem cedo, entreguei-a a Geraldo, que passou uma semana para devolver-me cantarolada (Geraldo a compôs sem auxílio de instrumento musical, mas somente com o coração, memorizando a melodia).
A música, anos depois, em 1995, foi classificada no histórico CHAMA (Chapada Musical do Araripe), que aconteceu no antigo aeroporto do Crato, em cima da Serra. Foi defendida, numa bela noite de lua cheia, pela banda Nacacunda (Eu, voz; Marcos Leonel, Luís Carlos Saraiva e Calazans Callou, guitarras, Igor Rocha, baixo; Cacheado, bateria e Antonio Carlos, percussão, com participação de Dihelson Mendonça, no teclado).
Apresentamos a música na noite que Hermeto Pascoal e grupo se apresentaram. Por conta disso, encontramos, nos camarins, Itiberê Zwarg, Carlos Malta e Márcio Bahia, respectivamente baixista, saxofonista e baterista do grupo de Hermeto, com os quais conversamos animadamente por alguns momentos. Lembro de Itiberê revelando que a profissão de músico lhe presenteava momentos como aquele, “num lugar bonito como esse, apreciando essa deliciosa bebida” (Itiberê bebericava uma dose de Xá-de-Flor, cachaça temperada feita pelo alquimista Blandino Lobo).
Por conta dessa agradável memória, transcrevo a letra da música, intitulada Serpentes na Noite (uma referência ao signo do zodíaco chinês, que eu, Geraldo e Salatiel temos em comum).

Baby, quero lhe dizer algo importante
Quando mais se cresce menor se fica
É o doce mistério da vida
E não há outra saída
Que não seja a porta dos fundos
Por onde você também pode entrar

Somos serpentes na noite
E isso é um tanto perigoso
É muito bom!
Já tomamos de tudo
Mas nada nos pegou
Se você quer me ver feliz
Toque um pouco de blues
Pinte a vida de azul

Sim, eu sou apenas um cantor de blues
Levando a vida num pagode
Mas sei que sou um rapaz de sorte
E sei que a morte
É só o último acorde de um blues

Cordelzinho



ACM NO OUTRO MUNDO

Miguezim de Princesa

I
Numa sessão em Angola,
O meu amigo Raimundo
Recebeu alma penada
Que num contar bem profundo
Narrou a fundo a chegada
De ACM no outro mundo.

II
Todo vestido de branco,
Pois já tinha trocado o terno,
ACM se postou
Na entrada do inferno
Para onde foi direto
A mando do Pai Eterno.

III
Carregando água de cheiro,
Viu-se um cordão de baianas
Esperando o grande líder
Numa comitiva bacana
Com mais de 100 deputados
E um cão comendo bananas.

IV
Apareceu Lúcifer:
Com um chicote na mão
E a cara muito amarrada,
Foi logo dizendo, então,
Que entre o babalaô,
Hoje tem reunião.

V
Duma grande mesa de ferro
Já foram se aproximando.
Na cabeceira da mesa,
ACM foi sentando;
Lúcifer deu um pinote
E começou protestando:

VI
Aqui, quem manda sou eu,
Eu sou o rei da folia!
Pra comer acarajé
Tem de pedir à minha tia.
Já falei pra Juraci
Que aqui não é a Bahia!

VII
ACM não falou
Durante a reunião,
Fingiu concordar com tudo
Que viu na resolução,
Disse: "Tou com Lúcifer,
Vou apertar sua mão".

VIII
Junto com seis senadores
Começou a passear,
A cumprimentar o povo
Que encontrou no lugar,
Nas esquinas do Inferno
Desandou a discursar.

IX
Lúcifer tava dormindo,
Acordou de supetão,
Pela brecha da janela
Viu muita aglomeração
E ao redor de ACM
Toda espécie de cão.

X
"O Inferno está sem graça";
"Queremos animação";
"Lúcifer é um moleza,
Não rouba nem tem ação"
assim pediam nas faixas
Do diabo a deposição.

XI
Lúcifer inda propôs
Dois turnos de eleição,
ACM fincou pé
Que não aceitava, não,
Pois a vontade do povo
Pedia deposição.

XII
Lúcifer sai correndo,
Pulou um grande portão,
Encontrou do outro lado
Seu amigo Lampião.
Disse: "O homem tá com a gota,
Quer fazer revolução!"

XIII
- A hora é de resistir !
Exclamou Chico Pinguelo.
- Vamos botar pra feder !
Animou-se João Tranguelo.
- ACM hoje vai ver
Como se come farelo !

XIV
Aí, começou uma guerra
(Cacete de cão com cão):
A turma de ACM
Deitou abaixo o portão,
Tinha até uma quitandeira
Com uma vassoura na mão.

XV
No exército de ACM
Se viam até generais;
Lúcifer tinha cangaceiros
Que não acabavam mais
Pra defender o portão,
Reduto de Satanás.

XVI
O grande Lucas da Feira
Se agarrou com Pinochet,
Arrancou o seu bigode
Com uma agulha de crochê,
Deu uma facada em Videla,
Botou Médici pra correr.

XVII
O Cão-Coxo de um pinote
Uma tora de pau pegou,
Zuniu a tora no vento
Chega a direção mudou,
Meteu em Garrastazu,
A tora pegou no sul
Que o norte sentiu a dor.

XVIII
ACM quase morre
Na volta de Cão-Ligeiro,
Escapou manco de uma perna
Por dentro do marmeleiro,
Escoltado por uma diaba
Com um pau de bater tempero.

XIX
Corisco acertou um tiro
No general Golbery;
Castelo Branco, com medo,
Começou fazer xixi;
Lampião disse só falta
Do nosso lado Waldir.

XX
Apareceu Costa e Silva,
Sem saber por quem lutava;
Ernesto Geisel num canto
Com Figueiredo falava,
Enquanto o Cabeça Branca
Na capoeira escapava.

XXI
Se mandou em retirada,
Pegou o caminho do Céu,
Deu um esbregue em São Pedro,
Uma bicuda em São Miguel
E ainda pirraçou
O arcanjo Gabriel.

XXII
Na porta do paraíso
Quando ACM chegou,
Ofegante e agitado,
A santidade esnobou
E disse para São Pedro:
- Não falo com assessor !

XXIII
Mandaram chamar Jesus
(Quem chamou foi São Tomé),
ACM se exaltou,
Fez o maior rapapé:
- Eu só falo é com o pai dele,
Daqui não arredo pé!

XXIV
Jesus Cristo então pediu
O parecer de Maria.
Ela pensou direitinho
Enquanto o Inferno ardia:
- Se o Inferno não agüenta,
Se aqui ele não entra,
Só voltando pra Bahia.


Encaminhado por Zé Newton

Johann Sebastian Bach e José Aniceto


A queixa partiu do musicólogo George Lederman, quando terminávamos de ouvir A Paixão Segundo São Mateus, de Bach: nunca mais se comporá assim. A noite sem lua, o pátio extenso da casa de campo e o retorno ao silêncio após os últimos acordes da orquestra tornavam a sentença bíblica. Na verdade, nunca mais se compôs assim. A prova é que escolheram a música do mestre alemão para ser lançada no espaço, escapando a prováveis hecatombes que varram o homem e sua arte do planeta. Algum dia, seres de outros universos poderão se encantar com a mais sublime e elevada música. Talvez, os etês não compreendam como foi possível que do mesmo barro original tenha nascido a mão que desenhava partituras e a que apertou o botão das ogivas nucleares para o ato final.
"A Paixão" é uma obra complexa, dura quase quatro horas, exige dois coros, cada qual com sua própria orquestra, e inúmeros solistas vocais e instrumentais. As peças profanas do compositor são poucas, se comparadas à sua música sacra, composta sobretudo de 1723 até sua morte em 1750, quando trabalhava em Leipzig, como mestre de capela ou diretor musical de várias igrejas. O miraculoso para nós modernos é o volume da obra de Bach: trezentas cantatas, das quais nos chegaram duzentas; cinco paixões, três oratórios, um magnificat, seis concertos de Brandemburgo, diversos concertos para violino e cravo; fugas, prelúdios, fantasias, sonatas, tocatas, partitas, suítes e caprichos escritos numa época em que não existiam computadores editando partituras musicais. Será que o tempo diminuiu a sua medida ou possuía um outro sentido e utilidade que perdemos? Bach tinha uma grande família e se ocupava da educação dos filhos. Religioso, compunha para o futuro, sempre na perspectiva do eterno. Era imune à ansiedade do homem contemporâneo, que só pensa no reconhecimento imediato e no consumo do seu produto artístico.

O compositor que ficou esquecido cem anos, também fez sombra ao talento dos filhos. Só agora os pesquisadores chamam atenção para a qualidade da música produzida pelos filhos de Bach. A história do homem é assim mesmo, um terreno arqueológico em que camadas se sobrepõem às outras e só por milagre alguns tesouros perdidos vêm à luz. Há vários níveis de saber na construção do conhecimento humano. Penso numa pequena orquestra da minha cidade do Crato, uma humilde banda cabaçal de dois pífaros, uma zabumba, uma caixa e um par de pratos. Tinha o nome de "Os Irmãos Aniceto", e era formada por um pai e quatro filhos homens. Bastava olhá-los para reconhecer que o sangue de índios e negros corria nas suas veias. Criados nos vales e chapada do Araripe, acostumaram-se a caçar na floresta e banhar-se nas nascentes d'água. Plantavam arroz, feijão, mandioca e milho como todos os pequenos agricultores. No tempo livre, tocavam seus instrumentos e dançavam. Tinham um repertório de mais de cem peças, de que se diziam autores. Pode-se duvidar da informação. Outras bandas locais executavam músicas semelhantes. Mas isso não tem a menor importância. A arte é um bem comum e só o homem moderno inventou a assinatura como marca de proprietário.

Por alguma razão a família Aniceto sempre me lembrou a família Bach. Há em comum entre eles o mesmo modo religioso de viver, o sentido de sagrado, a arte incorporada ao comum das coisas. Toca-se o pífaro com a mesma fé e concentração com que se bebe um copo d'água. Com a música celebram-se os nascimentos, os casamentos, as colheitas, a morte. Não há rupturas na cadeia do viver, nenhum staccatto. O tempo flui com uma outra medida. Plantar um roçado de milho não é diferente de compor uma marcha de estrada.

Tive provas disso. Nos meus tempos de pesquisador de cultura popular, assisti a uma apresentação de palanque dos Irmãos Aniceto. Depois de marchas e baiões, cada membro faria um solo com o seu instrumento, tocando e dançando. Os quatro irmãos, Francisco, João, Antonio e Raimundo, saíram-se bem, sendo aplaudidos. O Velho José Aniceto, com quase noventa anos, foi deixado por último. Para ele, mestre e pai, sobraram os pratos, por serem leves e não exigirem esforço. Quando o filho mais velho fez uma vênia na sua frente, estava dado o sinal para que começasse a dança. Solene e vagaroso, o velho colocou os pratos no chão e deitou-se de bruços. Debatia-se, agitando braços e pernas, como se lutasse contra um monstro poderoso. O público, estranhando aquela dança, não teve a menor compaixão e vaiou o velho até que ele se levantou, dando o rito por encerrado. Eu sofria como se fosse contra mim todo o clamor. Dias depois ele me disse: já estou velho e a minha briga é com a morte. Eu me atiro na terra e ela me puxa para baixo, querendo me levar. Eu luto, luto para subir pro céu.

A música barroca de Bach eleva-se em espirais e sugere um movimento de ascensão. O mesmo que o velho José Aniceto tentava dar à sua vida e à sua modesta criação.


Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor Caririfense. Escreveu Faca e Livro dos Homens. Assina coluna na revista Continente e no site Terra Magazine

Ave Poesia - Patativa do Assaré , filme de Rosemberg Cariry






Na última edição do Cine Ceará o filme mais premiado foi Ave Poesia - Patativa do Assaré, de Rosemberg Cariry. Abaixo segue pequeno trecho de entrevista publicada em vários jornais do país onde faz referência aos primórdios de sua produção cinematográfica. É interessante como a gente não sabe onde as coisas vão dar mas o começar é sempre o início de tudo!

Como foi a primeira dessas gravações com o Patativa, que resultou no filme?

A primeira vez que filmamos foi em Assaré, por volta de 79, fotografado em super 8, pelo Jackson Bantim e o Luiz Carlos Salatiel. Registramos o cotidiano dele, na roça, Dona Belinha cozinhando... Quando cheguei lá, era um amigo que estava chegando, era o filho de Zé Moura, que já tinha laços afetivos fortes. Passamos uma semana com ele dessa primeira vez, e o que me lembro era do cheiro do inverno na terra. O flamboyant, ele sentado naquela raiz, que virou quase um símbolo depois do Patativa, do homem enraizado. Foi a época em que ele foi homenageado pela SBPC, reconhecimento pioneiro de um poeta popular. E nós fizemos um grande show no Theatro José de Alencar, chamado “Canta Cariri”, e um recital do Patativa. Documentamos em super 8 o encontro dele com toda a geração ligada ao movimento de esquerda que na época se aproximou muito do Patativa. Ele virou uma voz. A gente acreditava que as nações tinham seus poetas, Neruda, Maiakovski... E a gente achava que o Patativa era esse poeta da expressão nacional, ou pelo menos nordestina.

O Grão - trailler (em primeira mão) do filme de Petrus Cariry


Petrus, filho do cineasta Rosemberg Cariry, passou a infância entre os copiões e os filmes do pai. "Eu tenho muitas recordações dele montando filme; é uma coisa que me vem sempre à memória, quando me lembro da infância". Mas foi apenas em 2001 quando resolveu deixar a banda de rock e realizar o primeiro vídeo, Maracatu Fortaleza. "O meu pai ser cineasta, pra mim, era uma carga pesada. A sombra era grande, eu ficava sempre receoso. Mas tomei coragem, superei e deu certo. A partir daí (do filme Maracatu Fortaleza), não parei mais". No entanto, para Petrus, foi somente com A Velha e o Mar que as comparações - até então "inevitáveis" - com o pai arrefeceram. "Porque são estéticas bem diferenciadas; o meu (cinema) é mais ligado ao cinema contemporâneo. Papai trabalha com elementos populares, é um pouco mais barroco. São duas linguagens diferenciadas", demarca.

Petrus, aos 28 anos, faz parte do que se chama de "nova geração" do cinema cearense, ao lado de cineastas como Armando Praça e Ivo Lopes. "A gente se identifica muito com uma forma de fazer cinema, a gente vê os mesmos filmes. É interessante fazer parte de uma geração que pensa o mesmo cinema - ou pelo menos tem as mesmas ambições, em termos de mudança". Em relação à produção cinematográfica cearense, Petrus avalia que os curtas vêm recebendo bom investimento do Governo e estão rodando bem os festivais. "Mas eu acho que o pessoal deveria experimentar bem mais no curta-metragem, que acaba virando um 'micro-longa' ou uma seqüência de uma longa".

Para o cineasta, Dos Restos e das Solidões é o seu "grande filme". "É, sem dúvidas, o mais avançado tecnicamente, que eu dei tudo de mim, tudo que eu conhecia sobre cinema e vinha estudando e discutindo com o Firmino Holanda (montagem), o Ivo Lopes (fotografia). É o 'meu filme'. Pelo menos até o próximo (risos)". E o próximo começa a ser filmado justamente amanhã, dia 1º. É O Grão, primeiro longa do cineasta e sua segunda experiência com ficção, que deve ficar pronto em julho do ano que vem. "Nesse longa, já vou usar as experiências que eu fiz em Dos Restos e das Solidões, essa coisa da dilatação do tempo, planos mais estendidos, recusa do plano/contra-plano", adianta. As filmagens, diga-se, vão ocorrer no município de Itaiçaba (160 km da Capital). Antigo ponto de comercialização de gado, o local era chamado de "Passagem de Pedras". Nada a ver com a história do filme, mas muito a ver com a trajetória do cineasta. O Grão promete ser a passagem de Petrus; do curta ao longa, da experimentação inicial à consolidação de uma linguagem. "Agora, você imagina a pressão pra esse longa, as pessoas me cobrando... Mas é isso mesmo, as pessoas cobram". Quem manda ousar fazer um cinema diferente?

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Gretas...


Soneto para Greta Garbo
(Em louvor da decadência bem comportada)


Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já não sabe por que chora

Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe
transforma-se em silêncio por que sabe
que o silêncio se oculta e se evapora

Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a tua face
que já foi sol e agora é cinza fria

Mas vê nascer da sombra outra alegria
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.


Carlos Pena Filho (1929-1960)

Exposição de Arte - CCBN

Show no SESC / Crato

poemas azul sonhados


Amor marginal
Se descoberto sob mantas
nas esquinas,nos muros pichados...
Deixe a declaração...
Não assine!
A máxima do amor é quando ele perde a cara
Mistura-se na luz,
e enche o coração do mundo!
Elos físicos
são frágeis laços de fita
Elos espirituais
são fios invisíveis...
conjugam no infinito!
No silêncio das manhãs
vou fiando, o terço do meio dia
e quando o céu se avermelha,
meu coração se inflama,
e acende uma poesia!
Tonta e branca,
a lua descobre a pauta,
e compôe a melodia!
Belo, alto,rico de encanto
Leve, baixo,preso de lamento
Voz de auroras que se repetem
luas lastimosas que reclamam canto
como gotas de orvalho,
aspergindo a terra...
fêmeas colcheias atiradas pelo ar
repousam, renascem...
Filhas da natureza!


Socorro Moreira

Programação do CCBNB - 1a. Semana Agosto


I BNB AGOSTO DA ARTE


SEMINÁRIO AVANÇADO DE ARTE Dia 03, sex, 18h às 19h30


Trará discussões sobre a arte urbana e suas fronteiras de ação e dominância, como arte-vida, público-privado e o lugar específico da intervenção urbana.

Palestrante: Professora Ana Tavares
Graduada em Artes Plásticas pela FAAP. Recebeu o título de Master of Fine Arts pela The School of the Art Institute of Chicago (EUA). Concluiu o doutorado no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da USP - Universidade de São Paulo.


OFICINA DE FORMAÇÃO ARTÍSTICA

Permitido: ações na cidade Vitor Cesar CCBNB-Cariri: Dias 02, qui, 03, sex, 04, sáb,

15h às 19h

Qual o papel do artista hoje em dia? Seus trabalhos devem ser somente apresentados em museus e galerias? Será possível desenvolver projetos para públicos que não esperam um trabalho de arte? Esta oficina de caráter prático procura desenvolver, numa colaboração entre os participantes, pensamentos e projetos que contribuam para a discussão sobre a transformação do espaço da cidade. Inscrições: a partir de 25 de julho, na recepção do CCBNB. Nº de Vagas: 20. Carga horária: 12 horas-aula.


EXPOSIÇÕES

Fotopintura: Encontros Inusitados Franklin Roosevelt

Abertura: 03 de agosto, quarta, 19h

Período da exposição: 04 de agosto a 08 de setembro

A Exposição Fotopintura: Encontros Inusitados surgiu do interesse pessoal pela estética da arte popular, mais precisamente da fotopintura e da importância dessa técnica para a cultura da região nordeste do Brasil. Com o objetivo de promover uma subversão desse trabalho, a exposição procura deslocar a atenção do universo tradicional da fotopintura para os assuntos do mundo contemporâneo, através da manipulação de imagens e a utilização da estética e do imaginário da fotopintura.


Grafite Cariri Frank e Dema
Abertura: 03 de agosto, sexta, 19h

Período da exposição: 03 de agosto a 08 de setembro

A exposição traz o trabalho de dois artistas de rua, Frank e Dema, que utilizam os muros da cidade de Juazeiro do Norte para compor, com grafite, ricos painéis, onde expressam além de sua habilidade artística, seus valores, suas crenças e os aspectos culturais da região. Autodidatas, os seus trabalhos evidenciam influencias do design gráfico, do universo dos quadrinhos e dos tradicionais retratistas nordestinos. A exposição faz um panorama dos seus trabalhos com fotos das diferentes linguagens utilizadas pelos artistas e dois painéis síntese de seu trabalho.

Trailler do filme: ABIDORAL JAMACARU - O Homem e o Tempo

Olá, amigos,

Trago para vocês em primeira mão, um trailler do filme/documentário que resolvi fazer sobre a vida e obra de Abidoral Jamacaru. Começamos a filmar há uns 3 dias, mas pelo trailler dá pra sentir o tipo de filme que este será.

Haverá entrevistas, depoimentos, e curiosidades sobre o artista, além de muita música, é claro...



"ABIDORAL JAMACARU - O Homem e o Tempo"
Produção, Direção, Montagem, Roteiro, Iluminação, Som, Edição:
Dihelson Mendonça ( eheheh )
Além de: Motorista, entrevistador, contra-regra, roadie, e Patrocinador.

Previsão de lançamento:
Primeira metade de 2008.
( versão 1.01 )

O Circo



Rejane Gonçalves(*)


Há um homem que no primeiro dia é o palhaço, no segundo dia é o espectador, no terceiro dia é outra vez o palhaço e depois outra vez o espectador. Essa troca de papéis repetida indefinidamente através dos tempos embota-lhe o espírito. Sua mente transtornada é surpreendida com freqüência embaralhando os papéis; e assim é comum o palhaço cochilar na platéia e o espectador fazer mesuras no palco. Pode também suceder de essas duas figuras se postarem uma em frente à outra e, vítimas inconscientes dessa dualidade, não sabendo de imediato quem entrará em cena, impedir uma o desempenho da outra, sem que por nenhum momento se dêem conta disso.
O homem (acho eu) conhece o caminho que leva à porta de saída; todavia, devido às dimensões exageradas da casa onde se apresenta o show, antes que de todo seja tomado pela réstia da luz com que a porta o presenteia, uma voz autoritária aponta-lhe um lugar no palco ou na platéia . O homem, desconhecendo o que o aguarda lá fora, volta sempre para a monotonia do espetáculo.


(*) Rejane Gonçalves é uma grande amiga de Recife(PE). É uma escritora de muita sensibilidade e tem a minha admiração desde quando morei por lá (1976/78). A partir da CaririCult retomamos um contato passadas mais de duas décadas. Somente os nossos corações sabiam quando e onde nos reencontraríamos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Enquanto isto em Matozinho...


<ZEZINHO E O CINEMATÓGRAFO HEREGE


Cidadezinha perdida no meio da caatinga , Sta. Genoveva do Mato-Dentro parecia uma ilha em meio àquele deserto. Era daquelas vilas onde Judas perdeu as botas e o vento fazia a curva para , num alívio, voltar à civilização. A pequena população vivia da colheita de frutos, da caça de pequenos roedores e da pesca ( quando o rio, milagrosamente , corria). A cidade mais próxima distava mais de 200 quilômetros e a estrada até ela era carroçável : intransponível no inverno e pista de Rally no verão. Em tempos mais auspiciosos, uma "Sopa" fazia a linha entre as duas cidades, semanalmente, sempre levando mais gente do que trazendo. Padre só se via em época de desobriga e juiz, como político, só aparecia nas eleições. Ali qualquer briga de vizinho era assunto de discussão para mais de uma semana na única praça da cidade, aquela que circundava a capelinha da milagrosa Sta. Genoveva.
Imaginem o alvoroço na cidade, quando uma perua adentrou a Rua principal, conclamando num alto-falante o pacato povo genovês, a assistir, a preços módicos, à projeção de uma película , à noite.Só depois se soube que o local da sessão já tinha sido combinado antecipadamente com o Cel. Filomeno, o homem mais abastado da cidade e detentor, estrategicamente, de um vasto oitão de casa, recém caiado. O Cel. , a troco de ingressos para ele e a família, resolvera ceder o telão , ou oitão, improvisado. A Kombi anunciara a sessão para logo de noitinha e o filme fora escandido com todas as letras : " O MILAGRE DE GENOVEVA". A novidade causou o maior reboliço naquele oco de mundo: não bastasse o avanço tecnológico de se Ter uma sessão de cinema naqueles confins , o filme prometia trazer a história da santa padroeira daquela Vila.
Mal anoiteceu e o povo começou a chegar para o gigantesco evento prometido, cada qual de posse da sua cadeira de Bodocó. O controle de pagantes era o mais difícil possível, já que não havia cordão de isolamento e a turba ia chegando em volumosos grupos. Zezinho do Cinematógrafo, corria de um lado para o outro, como louco :
--- Ei você já pagou ?
--- Você aí já tirou o ingresso ?
--- Como é , já acertou?
Em pouco já se tinha uma seleta platéia e Zezinho, arrastou de dentro da Kombi, uma máquina de projeção e vários rolos de filmes que acondicionou, num tamborete, perto da máquina. Esticou, então, um longo fio até o quintal da casa do Cel. Filomeno, e ligou na tomada que trazia a energia de um gerador a óleo que iluminava a cidade. Feita a conexão , a máquina cuspiu um cone luminoso que desenhava um enigmático quadrado no muro do coronel.
Zezinho ,então, conferindo, mais uma vez a platéia, em busca de possíveis penetras e dos xexeiros de praxe, anunciou o início do espetáculo. Adaptou o primeiro rolo do longa-metragem na parte superior do projetor e, tomando um porrete, deu duas pancadas no poste mais próximo. Era a senha! Imediatamente um menino com símia habilidade, trepou-se e afrouxou a lâmpada que pendia lá em cima, provendo a necessária escuridão para o início da sessão. De repente, o primeiro espanto : ali defronte a imagem mágica do milagre: pessoas andando e falando normalmente, numa cidade bonita e totalmente estranha: repleta de edifícios enormes, pontes e a onírica visão do mar. A platéia atônita e encantada , sequer seguia o enredo , a história do filme, despertava, apenas, periodicamente, quando terminava o rolo e Zezinho, maquinalmente, batia com o porrete no poste e o menino contratado subia e arrochava a lâmpada, o cinegrafista, então, agora no claro, trocava o rolo pelo subsequente e batia novamente no poste, para que o garoto subisse novamente e folgasse a lâmpada, trazendo de volta a penumbra necessária para a continuidade da sessão. Aquela estripulia do garoto iria se repetir por nove vezes, que era, em suma a quantidade de rolos para que se contasse todo o enredo.
Por volta do sexto rolo e 12º exercício de alpinismo do ajudante de projeção, a platéia teve o primeiro choque quando a Genoveva da estória, uma pacata mocinha vinda do interior, sapecou um beijo desses de desentalar engasgado com osso de peixe , na boca de um rapazinho que passava na rua. Começaram então a desconfiar que aquilo não era filme sacro coisíssima nenhuma, o que confirmaram na primeira cena de nudez da protagonista já no sétimo rolo. No oitavo, então, deu-se a tragédia: os cinéfilos perceberam que "A Casa da Luz Vermelha", onde Genoveva morava, não tinha nada a ver com o óleo do Santíssimo e que a ela era sim uma deslavada puta, cujo milagre (que dera nome ao filme) era tornar rijos os membros mais flácidos, antes do advento do viagra.O cinematógrafo parou de projetar já no primeiro tiro desferido pela honrada pistola da guarda nacional do Cel. Filomeno. O resto do massacre foi providenciado pelas densas cadeiras de Bodocó dos circunstantes que pulverizaram a Kombi , enquanto alguns ateavam fogo nos rolos desarvergonhados que tentaram denegrir a sacrossanta imagem da imaculada Santa Genoveva. Zezinho agora sem cinematógrafo, escapara por pouco, num pernas-prá-que-vos-quero inesquecível, enquanto pensava, com cara de Giovanno Bruno, na fogueira::
--- Como é duro ser pioneiro! É nisso que dar tentar trazer tecnologia para o cu do mundo!
J. Flávio
(Capiongo com a partida de Antonnioni e Bergman)

Cinema Paradiso



Imaginei-me num campo de florescência eterna
Os odores ondulando por todos os poros da existência
As cores tantas e diferentes como vontades do amanhecer

Pois pensei-me cheio de lembranças irremovíveis,
De saudades insuperáveis, verdades incrustadas,
Uma biblioteca dos tempos vividos por mim e pelos outros.

Agarrei-me aos tatos dúlcidos, a sabores emplumados,
Com as músicas absorvidas aos meus fluidos sudorais,
Tudo explicado como as cenas em 16 mm de um cinema de periferia.

No meu embornal cada pedaço dos momentos registrados,
Os canaviais incendiados dos finais inevitáveis da rota eternidade,
Lá na distância a lua cheia corroída pelos anúncios eclipsantes.

Mas foi tudo um sonho, imagem que se diluiu no solavanco da estrada,
Algo após suplantou os rastros deixados nos momentos esquecidos,
Uma nova carícia, sabor distinto, um pensamento emergente.

E as canções que julguei inigualáveis foram decantadas,
Um som lento rastejou o solo fértil dos dias atuais,
E me fez a guerra sobre a paz das saudades sepultadas.

A cada dia se juntam novos sons, ritmos diferentes, canções insuperáveis
Quando saudade é também tempo em andamento,
É adição de momentos sublimes a todo momento.

José do Vale Feitosa
Médico-Escritor
Autor de "PARACURU"

Sobre Antonioni, Bergman e que God (Deus) nos acuda!


Mesmo sem pedir licença, resolvi postar um comentário de Socorro Moreira sobre a morte de Antonioni (e Bergman). È uma belezura!

Um recadinho prá ela: Cadê os teus poemas, menina!

Socorro Moreira disse...
Quem lembra o tempo em que, praticamente, o único divertimento eram as sessões de cinema?Todo mundo era cinéfilo, sem nenhuma consciência! A gente assistia a matinê, a vesperal, a sessão das 4h, e ainda cochilava, na sessão das 20 h.Antonioni era censurado para crianças...hei,hei... era só para quem tinha completado 18 anos, e olhe lá! Existia uma censura da Diocese, pregada no mural do Café Itaytera, que barrava a nossa entrada. As meninas do meu tempo só conheciam B.Bardot, Virna,Ava,Monroe, na revista "Cinelândia", que nossos pais assinavam.Eu lia todas! Sabia aos 4 anos, o nome de todos os maridos da Liz Taylor...Achava estranho,achava bárbaro! Ela não cumpria o castigo de ser infeliz , a vida inteira! Depois, quando cresci, senti uma pena...! O sonho do amor para sempre, também foi por nós absorvido, nos livros de M.Delly.Estava gerado o conflito! Não sei como o povo da minha geração escolheu...tomara que tenham sido felizes!Mas, enquanto não assistíamos Antonioni, víamos tanta coisa bonita, na telinha...:O mágico de Oz, Melodia Imortal, Música e Lágrima, Sissi, Zorro, Tarzan, Sapatinho de cristal,O pequeno Polegar,A Noviça Rebelde,Quando Setembro Vier, Aldilá, As aventuras do Gordo e o Magro,Chaplin,Marcelino Pão e vinho,Marisol( mil vezes Marisol!) os filmes épicos, os bíblicos, e os musicais...ah, os musicais! Inesquecíveis! As vezes vou em "Manoel" lá no Jota, catar o que passou na minha infância, e não assisti por pouca idade.E foi assim, que a gente rencontrou Antonioni, Bergman,Bertolucci,Visconti,Scola,De Sica,Glauber Rocha,Fellini,Hichcock,Woody Allen,Pasolini,Truffaut,Godard,Vadim,Coppola,etc,etc Claro que não preciso falar em Cecil B.de Mille, nem Walt Disney! risos.Se a gente tiver paciência, todos os segredos e mistérios, nos são revelados...menos o da vida e da morte!Nem precisa ser famoso...basta ter sido o fruto sadio de uma árvore; ter encontrado a própria essência, ter sido feliz! Eu ando ultimamente, mas do que em toda vida, insaciável! É que já passei da meia idade, e a terceira, me acena, na curva do caminho.Como aposto, na paisagem, depois da curva...corro,corro,corro, e peço socorro, no mato sem cachorro!



01 Agosto, 2007 18:27

ESCOLA BRASILEIRA DE ARTE POPULAR

ESCOLA BRASILEIRA DE ARTE POPULAR TERÁ INÍCIO DIA 15DE AGOSTO DE 2007, NA ABERTURA DO 29º FESTIVALFOLCLÓRICO DO CARIRI, E FUNCIONARÁ NA ESTAÇÃO CULTURALDO ARARIPE (ANTIGO LARGO DA RFFSA) EM CRATO-CE.Uma das mais ousadas iniciativas da Fundação doFolclore Mestre Eloi, a Escola Brasileira de ArtePopular dará início às suas atividades no próximo dia15 de agosto de 2007, no âmbito da abertura do 29ºFestival Folclórico do Cariri, que prosseguirá até odia 22, quando ocorrerá a abertura da Festa daPadroeira do Crato, Nossa Senhora da Penha.O projeto já conta com o apoio da Prefeitura Municipaldo Crato, através da Secretaria de Cultura e doGabinete da 1ª Dama Mônica França Araripe. Osdirigentes da Fundação estão pleiteando parceriatambém com a SECULT-CE, SESC, SEBRAE, URCA e outrasentidades.A Escola Brasileira de Arte Popular, que funcionarádurante o ano inteiro, será coordenada pelo presidenteda Fundação do Folclore Mestre Eloi, o professor edramaturgo Cacá Araújo, e pelo prof. AristótelesTeles, repórter cinematográfico Catullo Teles,historiadora Eliane Café, artista circense JosernanyOliveira, com apoio técnico das instituiçõesparceiras. Cacá Araújo - Presidente da Fundação do FolcloreMestre Eloi (88 8801 0897)

Zéfiro e eu: vôos de liberdade.

Felizes brincadeiras de avião
deslizando e viajando com o vento.
Carregada pelo vento,
braços abertos - cruz vertical -
a vida começando a me dar lições de grandeza.
Vem em forma de redemoinho
dobrando as árvores, perturbando o sossego de gatos e passarinhos,
levantando poeira grande: terra, gravetos, frutos,
folhas.
E assustando minha meninice de eternas brincadeiras pelos terreiros
da casa e baixios da fazenda.
Vem forte, ligeiro, ousado.
E faz da minha saia um grande balão
que sobrevoou o Capibaribe
aterrissando-me na Ilha de Antônio Vaz.
Outras vezes em que me visita,
chega mansinho, suave,
beijando-me a face, a nuca,
enchendo-me de carícias breves,
delicadas como rosas primaveris.
Certas vezes tem rompantes
e me chega impetuoso, voraz.
Levanta por inteiro a minha saia,
passeia por entre
minhas coxas,
gargalhamos juntos as delícias do nosso amor brincante.

Stela Siebra de Brito

Rita Lee, para maiores e melhores! (sugestão:faça do clipe a trilha sonora na leitura do texto)





Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças.
Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres?
Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens.

E, com isso, Barbies de facaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composto de moças. Em que mulheres se
afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo. Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.

As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência. É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.

E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.
"Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda."


Rita Lee

(postagem recomendada por Socorro Salatiel)