TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Irmãos Anicetos em Guramiranga!

foto 3. A devoção dos mestres diante da tela de São Francisco, no Mosteiros dos Capuchinhos.


foto 2. Mestre Antonio em performance ministrando oficina para grande platéia.



foto 1. No palco, os nossos mestres revereciam o público


O Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga teve seu diferencial este ano: a Banda Cabaçal dos Iramãos Anecetos! Foi no sábado, dia 02 de fevereiro. Ao som dos Tambores de Guramiranga, um cortejo formado por músicos, turistas e a própria comunidade abriu o festival. A saída foi da praça Raquel de Queiroz no centro e percorreu a cidade até as escadarias da Igreja Matriz. Aí começou o badalado festival com o show dos Irmãos Anicetos. O público delirou com a performance musical de quase duas horas de espetáculo dos nossos mestres da cultura. Como sempre, com a sua eloqüência usual, mestre Raimundo Aniceto, declarou: - “Se a gente for apresentar aqui tudo que a gente sabe, um ano ainda é pouco!”
No dia seguinte, o mestres Anicetos ficaram a disposição de músicos e interessados para “ensiná-los” na arte de sua música e dança de palco.
Nestes três dias que acompanhei os Irmãos Anicetos aproveitei para contatos diversos com a comunidade artística e acadêmica, quando distribui no ambiente do festival, jornais e folders da nossa querida Urca e presenteei os produtores do evento com um CD-coletânea dos compositores e intérpretes da nossa região caririense, para motivá-los em contratações futuras desse elenco nos próximos festivais.

Matéria e fotos que me encaminhou o Jackson (BOLA) Bantim, de Guaramiranga, para postagem especial no CaririCult.

Filhos da Mãe D'água

Investindo cantigas de alegria

Chei de sorte bateu palma e dançou

Dos índios herdou a sua sina

Soprou pife e não mais desencantou


Segue o tempo de lâmina cortante

Debandando outros rumos da historia

Nos mostrando que as lendas Cariris

Ainda vivem num encanto a sua glória


Entoando uma gaita, hoje pife

Invocou os seus Deuses numa dança

E previu de um tempo em que se vissem

Forçados a sumirem sem lembrança


Poditã vou fumar minha esperança

Pois por ti sou pajé e raizeiro

Warakdzan me veio e disse em sonho

Badzé vai baixar no meu terreiro


Mãe Iara serpente sagrada não perdi minha fé

Ê mãe d’água, és Deusa sem mágoa que habita o sopé


Na zabumba de dançante pancada

Segue o tempo numa louca melodia

Meu suor então mostra em minha face

Um semblante que eu desconhecia


Monto um vento que corre pra chapada

Vou a mata entregar-me ao que me chama

Numa fonte então vejo a minha imagem

Sou caboclo minha alma não se engana


Mãe Iara serpente sagrada não perdi minha fé

Ê mãe d’água, és Deusa sem mágoa que habita o sopé

Parabéns Padre Ágio Moreira!


Crato, 04 de Fevereiro de 2008.


Pe. Ágio,

Um sorriso meigo que só os anjos graduados apresentam.
Um olhar que transcende o concreto e alcança os espíritos daqueles que buscam alento.
Uma palavra assertiva que só o Divino Espírito Santo sopra nos ouvidos de quem é santo.
Assim é um menino, que virou Sacerdote, Padre, Monsenhor, mas nunca deixou de ser o menino que Deus escolheu para lhe representar na terra.
Eu não sei falar o que o meu coração sente por tanta gratidão e alegria quando o olho, e sei que ele me enxerga como filha de Deus, irmã dele, e por isto me acolhe como membro da família Divina que ele abençoa.
Monsenhor Ágio, obrigada por tudo que tem feito por mim, por minhas irmãs (Graça e Fátima), e por todos aqueles que batem a sua porta.
É um Jesus disfarçado em humano, cuidando de um rebanho que precisa de suas palavras, do seu olhar, e da sua generosidade.
É um sábio silencioso que, como passarinho, canta a melodia do amanhecer, e faz com que toda a vizinhança cante em um só coro.
O amor cura.
E Jesus diz amém.

Feliz Aniversário!

Mila (Maria Emilia Ribeiro Chagas)




(Pela homenagem da Mila ao Padre Ágio, este semeador do bem, CaririCult também festeja seus noventa anos)

550 km (ou a nobreza de se atravessar uma ponte numa noite santa de sábado)

"(...)A FONTE NA SEGUNDA-FEIRA NÃO MATA NADA NEM A SEDE."
Lupeu Lacerda, Entre o alho e o sal, 2007, p. 61


1.


Na ida, expectativa em todos. Éramos os caras que tiravam fotos, empertigados e presunçosos. Com nossas roupas comuns e nossas mochilas. Tentando demonstrar - através de um olhar mais enviesado, um queixo proeminente apontado pro alto -, que podíamos ser eternos. Tal qual a foto onde Hal Chase, Kerouac, Ginsberg e Burroughs tiraram na época da Columbia.
Sim, foram várias fotos assim.


Mas no meu caso, a coisa era avassaladora. Cerca de oito ou nove anos me separavam daquele lugar. Da mesma ponte. Do cais – onde, em tempos idos, eu descolava fumo bom, uma foda, um livro do Miller - e que agora tinha dado lugar a um calçadão com seus bares enfileirados tocando a mesma música de merda.
Estava calado. Enquanto me perguntava qual era o real interesse naquilo. Se uma espécie de saudosismo babaca, daqueles que fazem o sujeito tentar voltar as coisas no tempo, ou se era pela diversão. Esse lance de dar um tempo da rotina e pegar a estrada.


Vale dizer que algumas coisas mudaram de lugar – um barco que atravessou as ruas do velho centro, e que agora repousa pacato do outro lado da ponte; as casas do bairro onde morei, verdadeiros bunkers ordenados com suas fachadas ensolaradas; o asfalto tomando conta da cidade. Eu já sabia que não ia ser a mesma cidade daquela época.


Tava meio ressabiado. Mas sorria pra foto, desejando ser, curiosamente, o Burroughs. Em seu poético pragmatismo; o velho junkie.

2.


Respirei o ar seco do local. Lancei um olhar curioso pro alto e vi que o zinco das telhas da rodoviária evaporava a quentura. Janeiro sempre foi assim por lá. Calor do caralho, a gente dizia enquanto chegavam os copos e as garrafas. Eu tinha chances. Nem tudo havia mudado tanto assim. Deu pra ver que eram as mesmas casas. Entre outras coisas daquela paisagem quase imutável – a velha estação de trem abandonada; trilhos cobertos pelo mato espesso; o arame farpado das cercas e velhos corcéis como táxi.


E as cervejas já desciam, os cigarros, as piadas infames e os velhos hermanos. E os novos hermanos. Ainda na rodoviária. Já tava ficando divertido. Mas a gente não esperava tanto.

3.


Um mito derrubado na livraria. Depois de quinze anos, com aquela imagem imbatível em minha cabeça, um dos caras tombou. Mas eu ainda enxergava um pouco de dignidade e misticismo; loucura e felicidade; alguma vontade de mudar a vida, ainda que depois de tanta coisa – sim, as palavras soaram como um retrocesso escroto; mas devo respeito, mesmo que a crença tenha se dissipado: ele estava lá quando tudo se iniciou, na mesma ponte, no mesmo cais.


Mas isso é coisa minha. Assumo. E o admiro.


Depois, Lupeu. Meu irmão “absolutamente importante”. Entre tantas ondas, cabeça erguida e punhos firmes. Enfiando jabs sorrateiros na porra da vida, que tentou derrubá-lo. Lucidez. A vida e a literatura indissociáveis.


Nos anos noventa, início do. Quando tudo parecia meio sombrio e sem graça. Quando literatura era uma coisinhas mórbida e sacal, um negócio filho da puta que tentava, a todo custo, me converter em cordeiro letrado e culto, ele me passou uns livros dos beats, junto com um baseadinho convincente. Uns dias onde amanhecer na concha acústica de Petrolina era início de semana, segunda de manhã; ressaca e corpo dolorido; um riso imaculado em nossos rostos barbados.


Isso é e sempre será minha literatura. Ou isso, ou nada. Antes a decência de grelhar filés e tentar aumentar o sal de nossos dias nas moquecas oferecidas com um amor incondicional.

4.


Quase tontos, uma mesa cheia de gente. Toda a nata do que aquelas cidades possuem de mais cintilante. Os poetas, figuras, contistas, pessoas amadas. Editores quixotescos; místicos que filavam nossos cigarros; primos queridos; idas furtivas ao banheiro – afinal, noite era longa e promissora.


Pensei na mitologia pessoal que o Sandro falou. Pensei na porra da lenda que temos em nós, que somente nós mesmos podemos contar.


A certeza de que não fomos cooptados. Ainda altivos, tal qual as fotos da rodoviária.

5.


Os outros dias, complementos de nossa tão preterida eternidade. O garoto de cavanhaque e boina negra, com um olhar desconfiado e seguro de si, que lia o Malcom X; os sujeitos que tentavam – mas não conseguiam, a pesar da grandiosidade de seus atos – dialogar com os meninos: era preciso três caras chapados de alegria e munidos de certezas sólidas, pra dizer que a vida é um começo, quase um tropeço; que tudo valerá, no caminho que escolhemos.


Papéis invertidos: nós falávamos e eles nos ensinavam.

6.


ATRAVESSAR A PONTE FAZENDO O CHÃO ESTREMECER. ALIAR-SE AO QUE DE MAIS VENERÁVEL EXISTE EM CADA UM DE NÓS. SORRIR, FUMAR CIGARROS DO LADO DE FORA DO CORSA BRANCO, SER FELIZ, DIALOGAR COM O IMPOSSÍVEL.


MAS PODEM CHAMAR DE HELTER SKELTER.

7.


Logo cedo, sentindo na boca o gosto estranho da saudade – mais cedo, outros inconfessáveis tomavam lugar do amargo da certeza da ida -, revemos as coisas. Respiramos um pouco o silêncio que nunca tinha surgido. Tristeza quase indisfarçável em meu rosto. Resolvi ficar calado. E manter o tal silêncio.


Somente quando nosso Túlio chegou com o carro, foi que saquei a hora.


Ao meio-dia, saímos. Silenciosos e ainda firmes em nossas escolhas. De que novos dias como aquele devem rolar. Entre outras descobertas e momentos. Deu tempo de dar uma olhada pra trás. Vendo a família beat acenar um tchau da porta daquela enorme casa branca.

Tribuna de honra: Lupeu, Islaine, Lucas, Luisa & Luana; Túlio "Cassady" & o Corsa; Angelo 'Dom' Roncalli & Moésio; Gabi; Cesinha & Mazé; Olegário Jr.; Cixto, Iramar, Dai & os garotos do Quidé; Pinsoh; Sidney 'Quixote' Rocha & Kabalah; Helter Skelter; Uberdã; cachorros-quentes sob a ponte; Levi...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ALGO AMEAÇANDO O BLOG DO CRATO?

Dihelson: não entendo bem do assunto. Mas hoje à noite em duas vezes que entrei no Blog do Crato o programa de anti-vírus do meu computador deu alarme que havia a tentativa de redirecionar o endereço para um endereço de má fé. Não sei se como administrador do blog você tem autonomia para verificar isso ou se isso é uma coisa aqui no meu computador. De qualquer modo estou verificando anti-spy e anti-vírus nele. O que chamou-me a atenção é que noutros endereços que entrei o aviso não apareceu. Só no blog do Crato. Isso poderia ser a fama do blog que atrai tais picaretas.

Ói nós aqui!


Pense num entusiasmo de viajante! Pense! Pois fora assim que ele chegou da Europa. A primeira vez que atravessara o Atlântico desde a ponta do Mucuripe até o Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa. O cabo fica há 140 metros do nível do mar e localiza-se na freguesia de Colares, no Concelho de Sintra, Distrito de Lisboa. Para que servem tais informações? Isso eu deixo para vocês decidirem. Isso sem contar que apesar do Word ter estranhado a palavra Mucuripe, para minha alegria estranhou, também, Concelho e Sintra. Aqui no meu não mais estranhará: anexei ao dicionário do programa. E o quê isso tem a ver? Não sei.

Mas voltando à regra narrativa. A Europa valeu o que pagou. Até mesmo o Euro aos olhos da cara em relação ao famélico Real fora compensado pelas intensas alegrias da viagem. E a compra da máquina digital? "È uma coisa fantástica. Depois de se acostumar que não tem mais que comprar filmes, a liberdade de fotografar é total". É bem verdade que sobrou para a família no retorno ao santo lar. Horas de olhos pregados no vídeo da televisão. do Oceanário de Lisboa o relógio bateu tantos minutos que no final o caixa de tempo se esgotara.

Era frio. Final de ano. Inverno de agasalhos, roupas sobre roupas e calefação. E tantas foram as taças de vinho, pão e primo piatto - e chega: o Euro mata, - que os corpos saíram do continente falando mais alto com a gravidade e a balança. Lisboa no Natal e quase nem jantavam, nada funciona, durma-se mais cedo, pois no dia seguinte nada estará aberto. Vida de turista é um caminhar através das veredas das possibilidades.

Paris. Ah! Paris! Que coisa. Mas não precisava ter sido apressado e entrado no toalete auto-lavante logo após a saída do último usuário. Tomar um banho em regra junto com a higienização da casinha solitária. Mas isso foi um acidente isolado, pois logo sabia andar pelos buracos do metrô. Bem que tentou achar o que levaria a Farias Brito, sua terra natal, mas não encontrou. Culpa dos engenheiros franceses que conhecem umas tal de Sorbonne Cliny, Montparnasse, La Defense e assim por diante.

Paris é uma festa. Pena que os japoneses tomaram conta do baile, da orquestra e do bar. O lugar onde os japoneses amadurecem é no Louvre. eles ficam de um corredor para outro, aos montes, subindo e descendo, de sala em sala clicando suas máquinas digitais. O lugar exato em que todo os japoneses do mundo brotam fica de frente da Mona Lisa. É como uma fonte jorrando água continuamente. Até mesmo de noite eles devem brotar, pois no dia seguinte, assim que as portas do museu se abrem eles ocupam os espaços entre uma pintura e outra, subindo a escadaria da Vitória de Samotrácia.

Mas nada igual a Roma. Não existe quem se equipare. Nem o Crato. Roma é demais! Nas ruas, nos jardins, nos prédios antigos, nas igrejas e os museus. A coisa mais linda – pareceu-lhe que noutra encarnação tivera algo com ele - foi o Prédio de Vitório Emmanuel. Ficou pasmo sob a sua monumental composição. Roma inteira vale um Vitório Emmanuel. Até a noite de ano novo, sem fogos e samba, na Via Veneto. Roma fora a jóia de sua viagem.

De uma coisa se arrependera. agora ter podido ir a Roma. Seria tão bom que por tivesse antes que os prédios da Roma Imperial se tornassem aquelas ruínas que ninguém entende nada. Apenas colunas caídas, pedaços de paredes, pisos e muito entulho. Mas não tem nada não, Roma ainda tem o Vaticano, a Pietá, o Coliseu aos cacos mas ainda de e suas colinas.

Por último a língua estrangeira. Foi em Verona que a experiência se mostrou fértil. Entregando o carro na locadora. Pedem à moça da recepção que os levem até o hotel em que se hospedavam. Afinal estavam entregando o carro com antecedência e aquilo poderia ser uma cortesia. a moça olhou para eles e disse: " Mais rapaz não precisa não. É bem ali. uns passinhos e vocês estão no hotel. Fica bem aqui ". E apontou para o mapa. Nisso um destes chatos que sempre existem se virou e perguntou se o diálogo tinha sido mesmo em tais termos. Bem ele disse: " Mas foi em italiano." E o chato não deixou de chatear: "E como é que se diz em italiano: não precisa não." ele explicou que não saberia repetir as palavras estrangeiras, mas fora aquilo mesmo que ela dissera apontando para o mapa da cidade. E o chato: " E como é "bem aqui" em italiano. " Ele resmungou e respondeu: " Falar estrangeiro é uma experiência única, não dar para repetir".

Criada a Medalha Padre Murilo

Diferente de outras cidades, Juazeiro do Norte cultiva a virtude da gratidão. No dia que completa 50 anos da chegada de Padre Francisco Murilo Corrêa de Sá Barreto à Terra do Padre Cícero, o prefeito Raimundo Macedo instituirá a Medalha do Magistério Padre Murilo.


Desamor

A sordidez da traição não é o coito furtivo.

Mas dormir com os cabelos molhados

sobre fronha perfumada a cheirinho caseiro.

400 anos de nascimento do Padre Antônio Vieira

Lúcio Alcântara

(Fonte: blog do ex-governador Lúcio Alcântara
www.lucioalc.blogspot.com)

Quarta-feira, dia 6, teve início em Portugal as comemorações dos quatrocentos anos do nascimento do Padre Vieira. Este jesuita português é uma das maiores referências estilísticas da língua portuguesa. Suas cartas e sermões estão entre os melhores textos já escritos em português.

Atuou como conselheiro do rei, diplomata, pregador e evangelizador. Dividiu sua vida entre Portugal e o Brasil. Defendeu os índios e combateu a inquisição. Propôs uma trégua na perseguição aos judeus e sua integração à vida portuguesa.

No Brasil viveu na Bahia, onde veio a falecer, e no Maranhão. Incursionou pela Ibiapaba, no Ceará, pregando o evangelho e convertendo os índios. Era bom que o Ceará também estabelecesse uma programação para comemorar a data.

OS ESTUDIOSOS AFIRMAM QUE O MUNDO VAI ACABAR
Os físicos quânticos atestam a veracidade dos ovos mumificados das centopéias
OS BACKING VOCALS SUSSURRAM CANÇÕES DE AMOR E MEDO DAS ENCHENTES
... enquanto isso os celenterados
REGURGITAM BROTOS DE FEIJÃO
... enquanto isso os suicidas
TELEFONAM PROS SEUS ANALISTAS
... enquanto isso os comedidos
ANALISAM PRIORIDADES EM LISTAS DE SUPERMERCADO
Os estudiosos afirmam que a pobreza é uma piada
OS ARGONAUTAS TEM SEU MANTRA
Mas nem mesmo eles sabem entoá-lo
OS POLÍTICOS HÁBEIS CONSIDERAM
Na última hora uma saída honrosa
... ENQUANTO ISSO OS DRY MARTINIS
Saltam como loucos das bocas dos bêbados
ENQUANTO ISSO OS ESCRAVOS DE JÓ
Terminam de jogar a centésima partida de gamão
ENQUANTO ISSO AS MAMÃES BAIANAS
Colocam pra dormir suas crianças ciber-punk´s
E ATÉ POR ISSO O LOBO MAU
Morre de tristeza, numa gaiola de
ZOOLÓGICO.

Saudade de ciência

Qorpo santo sangra
Como se impossível fosse
Qorpo sangra
Santo corpo
Como se louvável fosse
Qorpo divisível, ímpar
Faca suja
Goma laca nas lentes de óculos retro-futuristas
Lacra o qorpo explode qorpo
Tudo mais ou menos
No canal a4
Do diabo a7
No copo de conhaque cor de ferrugem e lama
Na boca do qorpo
Vivo de medo
Morto de merda
Predadores caçam profetas
Nas avenidas mal iluminadas
Que levam recife a olinda
Um caranguejo indefeso
Sangra feito um porco qorpo
Na ante sala do inferno
Um caranguejo aloprado
Com as patas quebradas
Não vai nunca mais ver o manguemar
Nem os estandartes luminosos
Dos maracatus enfezados nas ladeiras
Evoé science
Ave ciência

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Religião: tempo da Quaresma começa hoje


Os católicos em todo o mundo iniciam hoje a Quaresma, período de preparação para a Páscoa que se baseia em penitência e reflexão e que se estenderá até Quinta-feira Santa, dia 20 de Março.
Em termos litúrgicos, a Quaresma é o tempo de conversão, que não se cinge à Igreja Católica, mas se estende à Igreja Anglicana e a algumas igrejas protestantes, iniciado na chamada Quarta-Feira de Cinzas, o dia imediato à Terça-Feira de Carnaval.

Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, os católicos que assistirem a uma missa receberão na fronte uma cruz, desenhada com as cinzas das palmas queimadas no Domingo de Ramos do ano anterior, como lembrança de que a vida é transitória, acompanhada da frase bíblica «lembra-te que és pó e ao pó voltarás».
Por isso, durante a Quaresma, que se prolonga por 40 dias, os fiéis são convidados a um período de penitência e meditação, por meio da prática do jejum, da esmola e da oração.
A duração da Quaresma está baseada no simbolismo do número 40 na Bíblia, que significa provação.
Na Bíblia são referidos os 40 dias do dilúvio, os 40 anos da peregrinação do povo judeu pelo deserto, os 40 dias de Moisés e de Elias na montanha, os 40 dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública e os 400 anos que durou o exílio dos judeus no Egipto.
Caridade, obras de misericórdia, solidariedade, entre-ajuda, justiça, dever e verdade são alguns dos conceitos e expressões que assinalam o tempo da Quaresma, da partilha e da renúncia, para os cristãos e para a sociedade em geral.
Embora seja um período de tempo penitencial, este não é visto pelos cristãos como um período triste e depressivo, dado que se trata antes de um momento de purificação e de renovação da vida cristã, que culmina na Paixão e Ressureição de Cristo, no Domingo de Páscoa.

Fonte: Diário Digital / Lusa

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

131 cidades em todo o mundo protestam contas as FARC

04 de fevereiro de 2008.
Enquanto os brasileiros curtem o carnaval, tem início uma mobilização em todo o mundo. Um dia histórico.
Um analista de sistemas da cidade colombiana de Barranquilla, Oscar Morales Guevara, lançou a campanha "Um milhão de vozes contra as Farc" no site de relacionamentos Facebook, conseguindo um feito inédito pela internet na Colômbia.

Uma manifestação internacional sob o lema "Não às Farc" (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) tomou as ruas de 131 cidades de todo o mundo nesta segunda-feira após uma convocação feita pela internet.
A Igreja Católica da Colômbia uniu-se ao protesto no dia 28 de janeiro com um comunicado da Conferência Episcopal no qual convocava "todos os colombianos a aderirem à mobilização nacional de 4 de fevereiro para expressar, pacificamente, sua rejeição total ao seqüestro e seu desejo de paz e de reconciliação". Dezenas de milhares de manifestantes dos Estados Unidos, da União Européia (UE) e de muitos outros países se reúnam para condenar o "terrorismo" das Farc e exigirem a libertação dos reféns.

Enquanto os partidos Social de Unidade Nacional e o Conservador, ambos fiéis ao presidente Álvaro Uribe, e o Liberal, de oposição, participaram da passeata, o esquerdista Pólo Democrático Alternativo (PDA) preferiu convocar outra manifestação na Praça Bolívar.
O PDA se concentrou sob o lema "Pelo acordo humanitário: não à guerra, não ao seqüestro", manifestação aderida por sindicatos, e porque o partido que se distanciar da passeata que, em sua opinião, "foi aderida, entre outros, pelos líderes do paramilitarismo e que foi absorvida" pelo Governo de Uribe.
De qualquer forma, diz, "o PDA não pode permitir que sua atitude seja interpretada como conivente com as Farc, com o seqüestro e com os crimes de guerra". À manifestação se somaram, além de instituições do Estado, vários municípios e praticamente toda a imprensa.
O protesto também encontrou outros opositores, como a comunidade indígena paez, que ganhou em 2001 o Prêmio Equatorial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Segundo os indígenas, o ato foi convocado unicamente contra as Farc e não contra todos os atores do conflito armado interno e suas práticas criminosas.

"Queremos que a comunidade internacional condene energicamente o terrorismo das Farc. É uma oportunidade para que todos, sem importar sua ideologia política, condenem as ações da guerrilha", disse à Agência Efe a coordenadora da passeata em Washington, Laura Busche.
Também ocorreram manifestações na Espanha, onde o coordenador de Madri, Camilo Garavito, disse à Efe que as cidades de Barcelona, San Sebastián, Bilbao, Valencia, Oviedo, Salamanca e Las Palmas de Gran Canaria, entre outras, se uniram ao protesto.
EFE
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A voz do Granjeiro

José Alves de Figueiredo*

Este rio que passa aqui gemendo,
E vem da serra envolto em cipós,
Anda plangente desde que entendo,
Desde que se entenderam meus avós.

É um rio de amor que vem trazendo
O cristal que regala a todos nós.
Seu gemido é segredo que eu desvendo,
Pois nele fala o Crato em terna voz.

Cantem outros o encanto de outros rios,
Como fez com o Tejo o vate luso,
Que eu cantarei em doces murmúrios

Do Granjeiro esta voz que sempre acuso
Como um lamento, um canto de amavios,
Um lamento de deusa que eu traduzo!

* "José Alves de Figueiredo nasceu no Crato, em 28 de abril de 1878 e faleceu na mesma cidade, em 6 de fevereiro de 1961 (...). Autodidata, depois de freqüentar a escola primária, empregou-se numa farmácia, da qual seria mais tarde proprietário. Foi dono de um grande sítio de lavoura no sopé da Serra do Araripe. Foi vereador em mais de uma legislatura, chegando a exercer mandato de prefeito municipal do Crato na década de 20. Ainda em 1901 fundou e dirigiu o jornal Sul do Ceará(...). Publicou: O Beato José Lourenço (1935) e Ana Mulata (1958), sendo postumamente editados, pelo Instituto Cultural do Cariri, seus Versos Diversos (1978), com prefácio de J. Lindemberg de Aquino (...)."

Sanzio de Azevedo (soneto e texto publicados na revista Itaytera, nº 27, 1983)


... E o Granjeiro que não existe mais



Belos versos para um rio que não existe mais.
Este é o sentimento que toma conta de qualquer cidadão cratense que tenha o mínimo de sensibilidade ou consciência ambiental.
O que já foi um límpido e caudaloso rio, onde as donas-de-casa lavavam roupas, as crianças tomavam banho e os homens pescavam,- é hoje um fétido canal a céu aberto, um pútrido esgoto que se constitui no mais vergonhoso atestado de subdesenvolvimento de uma cidade.
Devemos, pois, cobrar de todos os candidatos a prefeito desta cidade um compromisso, firmado em cartório, para com a despoluição do rio Granjeiro. (Carlos Rafael)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

ÁGIO AUGUSTO MOREIRA, "Uma lição de vida"!

Por ocasião do aniversário de 90 anos do Monsenhor Ágio Augusto Moreira, popularmente conhecido como Pe. Ágio, posto aqui a programação das festividades que acontecerão no período de 05 a 10 de Fevereiro. Na ocasião, estarei expondo fotografias cujo tema é o título acima. Vamos prestigiar e parabenizar o Pé ágio!

Dia 05: Terça-feira: às 07:00h na capela da comunidade, Missa de Ação de Graças e café da manhã com os idosos de 80/90 anos, na residência do Padre.
Dia 07: Quinta-Feira: 10:00h: Encontro com os afilhados do Padre e Almoço de confraternização.
Dia 08, Sexta-feira: 19:00h: Encontro com camponeses da Orquestra e do Coral, em seguida, coquetel no refeitório.
Dia 09: Sábado: às 19:00h,
Entronização dos grupos de benfeitores, desfile dos Seresteiros, apresentação do Coral Santa Cecília, Apresentação da Orquestra Pe. David Moreira.
Dia 10: às 07:00h, Encerramento das Festividades, com Missa, lançamento do CD, lançamento de livro, apresentação da Orquestra, apresentações folclóricas, almoço parra os presentes a solenidade.




Fotografias: Pachelly Jamacarau
“Direitos Reservados”

Ondátua*


Encontrei
A estátua da liberdade
De noite
Numa praia do caribe
Deixou a américa de mansinho
Pondo em seu lugar uma imitação

Geraldo Urano

*Publicado no jornal Folha de Piqui, nº 3, abril de 1984

Sobre a biblioteca do ICC



"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca"

Jorge Luis Borges

Depois do sumiço, reapareço com um post simples e rápido... uma pergunta, na verdade: como vai a biblioteca do ICC? Tive acesso a ela há um bom tempo e achei que estava precisando de uma organizaçãozinha e uma boa limpeza. Fiquei até com medo de as traças serem as maiores freqüentadoras do local! Queria saber se atualmente há alguém cuidando dela e, no caso de não haver, qual seria a possibilidade de algo ser feito para que o paraíso não se transforme em depósito de pó. Talvez não seja um problema fácil de resolver... mas acredito que é preciso fazer algo, não? Meu coração chega a doer só de pensar num acervo tão bonito sendo engolido pelo tempo... bom mesmo seria se me dissessem que tudo já está em ordem.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

DE CRATO A ROMA: UMA VOLTA NA MESMA IDA.

Certos esforços coletivos não são fáceis de ter identificada a sua origem. O mais provável é que vontades antes reservadas terminem por se expressar entre várias pessoas e afinal se tornam em um único desejo. Um único desejo entre pessoas tem potência muito alta de acontecer.

A certeza é que alguém sentada numa mesa do Granjeiro, tomando uns copos de cerveja gelada no interior da paisagem do vale do Cariri comentou: eu não morro sem ir a Roma. O companheiro de copo bateu duas vezes na madeira da mesa e repetiu a frase. As mulheres logo se assanharam pensando nas grifes, nos perfumes europeus, nas calçadas de gente bonita. Um que passava para uma prosa breve ouviu e lembrou da bênção papal. Assim deste núcleo a vontade foi se unificando.

A TAP seria a aerovia. O crediário no cartão a certeza. E a vontade arregimentadora criou um grande grupo. Alguns haviam cruzado o oceano. A maioria se aventurara pelo turismo nacional. Mas ela, a mais pioneira entre todos e todas, apenas chegara até a beira do oceano atlântico, em Fortaleza, por uma única vez.

Imaginem a fantasia antecipada que ela vestiu com a família e a vizinhança. de medalhas milagrosas e quinquilharias que se tornam troféus de viagem dos turistas, para se esquecerem no fundo de gavetas escuras e empoeiradas, ela tinha uma lista de toda a rua. Vestidos, lingeries, cabelos cortados e pintados, dieta para emagrecer e cremes para suavizar a pele. Estava pronta para a grande ventura.

A viagem até Fortaleza foi em ônibus especial, fretado especialmente para o grupo. Chegaram direto ao Aeroporto. Naquele dia teve um teste de carga excepcional na calçada repleta de malas. Malas com fitas coloridas, a algazarra dos desejos. O embarque, apresentar o passaporte, uma emoção sem igual. Vôo e todos em Roma.

Todo mundo junto. Um mundo se expondo em milhares de desejos. Era tanta coisa que manter o grupo unido seria um esforço de estouro de manada. Finalmente ela combinou com as amigas que as esperasse onde se encontravam, enquanto entrava para comprar algum souvenir. Pronunciar a palavra souvenir era uma sofisticação maior que a própria. Escolhe ali debaixo, no meio e em cima. Escolhe do lado, olhe que lindo acolá, pronto a variedade é o trevo da perdição.

Retornou ao ponto de encontro e o grupo havia sumido. Isso mesmo, em plena Roma, no centro daquele mundo estranho, não havia uma cara conhecida nem para um chá. Na esquina e na outra também não. De repente nunca mais acharia o Crato. Sozinha, abandonada. Sem um norte na vida. Não teve alternativa.

Foi para o centro da Piazza Navona e toca a berrar a plenos pulmões e nos decibéis que as cordas vocais permitiam. VIVA O BRASIL. VIVA RONALDINHO. VIVA O BRASIL. VIVA RONALDINHO. Alguém se apiedou da cena veio pergunta que acontecera para tamanho amor patriótica e ela:

Aquelas covardas me abandonaram. As covardas disseram que me esperavam aqui e nem sombra delas. Covardas mais safadas. Covardas sem alma.

Ele lembrou de uns restaurantes por perto em que os ônibus de turismo costumavam levar seus viajantes para o almoço. Foram para , ela reencontrou o grupo mas foi aos berros:

Suas covardas. Me deixaram sozinha no mundo. Isso não é coisa que se faça. Eu faltei morrer de medo.

As amigas tentaram se explicar pelo ato falho, mas tal coisa servia para que ela mais ficasse excitada. Desconfiava que aquele esquecimento fora proposital. E neste clima do medo e da suposta rejeição deu quiripapo no peito da mulher, passou mal, saiu de ambulância internada para avaliação.

No dia seguinte a excursão iria a algum lugar e ela queria ficar junto. O médico nem , daqui não sai ela ainda deve ficar em observação. Para terminar a história a mulher teve discreta melhora apenas para fazer o caminho de volta para o Crato e com ela toda a frustração dos demais com a excursão interrompida.

A danada ainda comentava: bem feito. Também fizerem aquilo comigo!

Viva o Vaia

Tem uns caras e garotas lá do sul que estão trabalhando em prol desse lance chamado literatura. Faz algum tempo. Eu os conheci há pouco, o trabalho deles ao menos.


Eles têm um site cheio de novidades e outras ondas interessantes. Entrevistas com novos escritores e alguns "conhecidos"; divulgação de eventos vários e outras ondas. Além do site (lincado aí abaixo), os caras conseguem botar na rua um jornal. Tudo isso gratuitamente. Só que o aperto de grana pesa.


Agora eles surgem com um esquema de assinaturas justo, honesto e, por que não dizer, digno. Preço bacana pra ter o trabalho desses caras em sua/minha/nossa casa.


Vão lá. Dêem uma olhada no link. Procurem saber. Divulguem. E vamos ajudar os sujeitos a detonar alguns moinhos por aí.


Blog do Vaia: http://jornal-vaia.blogspot.com/


Jornal da internet: http://www.artistasgauchos.com.br/vaia/


Assinaturas: http://www.artistasgauchos.com.br/vaia/?contato=2

Cisco no olho

Não lutarei contra a garrafa de vinho.

Dentro dela

Engarrafado um duende.

A chuva minha amiga

Atiça meu coração: meu ventre.

Os olhos no escuro

Brilham.

Atraem insetos.

Feudalismo

Mas que gente ignorante...
Orlando Fedeli

Dona Cleonira, minha professora primária - que fazia questão de ser chamada de Cleô - senhora baixinha e arredondada como uma chaleira, ensinou-me que foi Colombo quem provou que a Terra era "era redonda como uma bola, um pouco achatadinha nos pólos". Antes dele, os homens da Idade Média - gente muito ignorante... muito atrasada... - pensavam que a Terra era plana e chata. Boa Dona Cleô, que nos mandava recortar borboletas e desenhar carneirinhos em cada página do caderno, que queria bem limpinho: a pedagogia e a didática exigiam. E ela era uma Pedagoga.
No ginásio, tive outras professoras de História. Uma delas, bem mocinha e de saia curta, mascava chicletes durante as aulas, mandava os alunos lerem o livro ou fazerem "trabalho em grupo" - pesquisa, dizia ela - e, enquanto isso, pintava os lábios olhando-se num espelho baratinho. De vez em quando fazia um curto comentário: "A Idade Média foi uma época muito ignorante e atrasada. Imaginem! Eles não tinham televisão nem moto! Andavam de carroça! A mulher não tinha direitos, não havia escola pública e eles pensavam que a Terra era plana. Hoje nós estamos adiantados: tem computador, o homem chegou à Lua, e qualquer uma sabe que a Terra é redonda."
No colegial, a professora de História - a Lenindira - era de outro estilo. Não se pintava nem usava espelhinho barato. Usava jeans, óculos de lentes redondas e enormes que tornavam seus olhos míopes minúsculos. Tinha preso na blusa um bottom onde se lia: "O povo unido jamais será vencido". Falava em mais valia e exploração do proletariado. Proclamava-se atéia, dizia que éramos filhos de macacos e desancava a Idade Média, idade das trevas e da ignorância, na qual o povo era obrigado a viver rezando, enquanto a Igreja queimava os hereges e ensonava que a Terra era plana.
Entrei num Cursinho. As classes eram abarrotadas de moços e mocinhas preocupados com o vestibular e com rock. Alguns falavam em drogas. Os professores despejavam matéria aos borbotões. O professor de História, muito popular, recheava suas aulas de palavrões e slogans marxistas. Atacava a censura e defendia a liberdade. A cada cinco minutos dizia uma piada pornográfica. Todo mundo ria. Cinicamente. Debochadamente. Menos um colega, com cara desanimada, que fazia o Cursinho pela terceira vez. Ele não ria. Explicou-me que já ouvira todas aquelas piadas três vezes. Sempre nas mesmas aulas. Sempre na mesma hora. Sempre do mesmo jeito. Sempre com os mesmos palavrões. O professor os repetia sempre do mesmo modo. Como um autômato. E falava em liberdade. E sempre a mesma história: "A Idade Média tinha sido uma época muito ignorante. Naquele tempo os homens acreditavam que a Terra era plana".
* * *
Um dia, um amigo me convidou para visitar um professor. Era um sobradinho, num bairro pobre. A sala pequena estava cheia de rapazes que riam. O professor falava pelos cotovelos enquanto tomava café. Não havia palavrões.
A conversa rolou para a Idade Média. Eu, ingênuo, repeti o que aprendera nos chatos e rabiscados bancos de minhas escolas. Soltei lá o "meu" comentário: "Eu acho que a Idade Média foi uma época de gente muito ignorante - é até chamada a Idade das Trevas - na qual se queimava quem não era católico e se ensinava que a Terra era plana e chata." Pensei que ia fazer sucesso e que todos apoiariam minhas palavras, já que essas eram teses universalmente aceitas em nosso científico, progressista e tolerante século XX.
O professor, rindo, me atropelou, contundente: "Quem lhe contou essa lorota?"

Quase engoli uma azeitona que comia, com caroço e tudo. A palavra "lorota" era uma trombada em minha erudição e cultura históricas.
Sem jeito, respondi que todo mundo sabia que era assim. Todos professores que tive me ensinaram isso. Por minha memória passavam rapidamente as imagens de Dona Cleô, recortando borboletas; a mocinha que mascava chicletes, se olhando em seu espelhinho barato; Dona Lenindira com o seu bottom; o professor do Cursinho, escarrando palavrões e vomitando pornografia.
Envergonhado com essas imagens, não as citei. Falei de livros vagos, de jornais, de um filme - "Vocês não viram O nome da rosa?"- todo mundo sabe que a Idade Média foi uma época de gente muito ignorante, que pensava que a Terra era plana, não esférica. Isso é indiscutível.
Meu adversário, na polêmica que se montara, sorria. Citou fatos e autores. Como eu não capitulava e insistia, buscando desesperado no fundo dos arquivos de minha memória - tão vazios! - as informações de Lenindira e as provas que o professor do Cursinho não me dera, ele foi buscar uma pilha de livros que começou a me mostrar.
"Veja este livro. Aqui temos a reprodução de uma estátua de Carlos Magno. É um obra romântica do século IX, embora o cavalo seja do século XVI. Repare que o Imperador está com os símbolos de seu poder: usa coroa, numa das mãos porta a espada e na outra segura um globo"
"Que você acha que significa esse globo? Pensa que Carlos Magno fosse talvez campeão de jogo de ‘boccia’? "Esse globo representa a Terra, sobre a qual ele tinha poder. Se os medievais julgassem que a Terra era plana, deviam colocar na mão do Imperador algo como uma tábua, e não um globo. Gente realmente ignorante essa da Idade Média - ironizou o professor. Acreditavam que a Terra era plana e a representavam por meio de um globo".

São Tomás de Aquino - o maior gênio medieval - tratou da questão em pauta na Suma Teológica . Veja o que diz S. Tomás ao cuidar dos fins das ciências:
"O astronômo, por exemplo, demostra a mesma conclusão que o físico, ou seja, a esfericidade da Terra."
"Então o maior filósofo medieval afirmava que a Terra é redonda."
"É incrível, exclamei. Como é que ninguém diz que S. Tomás ensinava isso? Será que ninguém conhece esse texto? Parece-me impossível que ninguém o conheça."
"Realmente é impossível que ninguém o conheça, concordou o professor. Se os que o conhecem não o mencionam, é porque há tal preconceito contra a Idade Média, por ter sido uma época católica, que o mundo moderno ateu tem que denegri-la. E o preconceito é tão forte que ninguém se dá ao trabalho de verificar se uma acusação que se faz contra ela é verdadeira ou não.

ABRAM OS OLHOS!


Clamor*


Clama o leigo
Clama o clérigo
Pela livre aurora que não quer chegar
Tonta a terra parece invocar ao cosmo
Um dia de amor
Muito são os puros tristes
Que rodeiam crente o palácio central
Cego surdo e falso o rei repousa alegre
A bem do mal
Num susprio derradeiro de esperança
A gente tenta resistir
Tal como uma membrana fina e frágil
Como a que reveste a menina dos olhos
Clama a rua, a província, a aldeia, a beira-mar,
O sertão, a planície, o planalto, a terra e o ar
(que as vezes quase me falta), o errante,
O andante, o prudente e o amante

Abdoral Jamacaru

* Publicado no jornal Folha de Piqui, nº 4, julho de 1984

Fim de festa


Foto: Emerson Monteiro
www.emersonmonteiro.blogspot.com

POLÍTICA DE MARMELADA

Pedro Esmeraldo

É dramático para aqueles que gostam de sua terra (a pioneira da região) assistirem de maneira brusca seu esfacelamento e nada poder fazer. Principalmente, depois de tomarmos conhecimento dos casos aberrantes, pois sempre os nossos políticos desviam-se das normas da ética do trabalho e não lutam em defesa desse grande centro de concentração urbana do Cariri.
A nossa situação é extremamente grave já que encontramos o povo desanimado o desorientado. Em defesa desta terra apelamos para que reajam e tenham união e aumento de força, reagindo com muita garra reclamando às autoridades governamentais, mostrando que o Crato não é bugre podre para que venham cercear seu desenvolvimento equilibrado e firme, empurrando o barco em direção de águas brandas.
Ouvimos boatos que o governador desejaria dar ao Crato um hospital de alto relevo o que viria tornar esta cidade o maior centro médico da região. Infelizmente, os políticos fracos desinteressaram desse grande melhoramento.
Avisamos a esses senhores de que não existe fraqueza desde que partem destemidamente para a luta, mostrando que somos fortes e não vamos soçobrar desses poderosos que só pensam em diminuir o Crato, enlanguescendo com seu trabalho austero a fim de alcançar o equilíbrio econômico.
O desconhecimento desse pensamento ridículo deve ser desconsiderado e não dar ouvido, a esses inimigos do Crato, pois só desejo desqualificar esta administração, que a tanto esperamos maiores desempenhos em seu trabalho. O que mais nos esmorece é aceitar-lhes calmamente da idéia deles dizendo que é bom pra lá e bom para toda região.
Tudo isso envolve transmissão de conhecimento reduzido que o normal de conceito histórico permite agir sobre o ângulo de interresse positivo. Ao mesmo tempo, conclamamos a todos que não se envolvam em conversas ocas e sim prestem a trabalhar, elevando seu espírito com dignidade e apreço.
Devemos evitar esta política de marmelada, enfrentando barreiras que se parecem intransponíveis, mas com trabalho e fé poderemos igualar na luta com muita disposição.