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“Acreditaste, porque me viste?
Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
João 20, 24-29
Era um gélido dia em Londres, naquele 01 de Julho de 1858, há exatos cento e cinqüenta anos. Na Piccadilly Circus , uma famosa praça de Londres, existe um palácio conhecido desde o Século XVII, por Burlington House. Desde 1788 , ele sediava a famosa Sociedade Linneana de Londres, nome dado em homenagem ao grande botânico Carl von Linné (1707-177
8). A Sociedade tradicionalmente se dedica à taxonomia e publica relevantes estudos dedicados à botânica, zoologia e biologia. Nenhum dos encartolados e sisudos senhores presentes à reunião percebeu a importância daquele momento histórico para a humanidade. Pois ali , pela primeira vez, foi apresentada a Teoria da Evolução assinada por Charles Darwin e Alfred Russell Wallace. A apresentação de uma das mais importantes teorias de toda a história passou perfeitamente desapercebida. Talvez porque nenhum dos dois biólogos pode comparecer ao conclave: Darwin (1809-1882) havia perdido o filho caçula, morto de escarlatina, dois dias antes e Wallace escontrava-se na Nova Guiné, continuando suas pesquisas. Ele nem sabia dos rumos tomados por seu estudo, enviado em fevereir
o do mesmo ano para Darwin. Só um ano depois, com a publicação por Darwin do livro “A Origem das Espécies” é que o mundo começou a se dar conta do cataclismo científico desencadeado pelos dois pesquisadores.
Há inúmeros pontos nesta história sesquicentenária que merecem ser lembrados. Darwin chegara à Teoria Evolucionista há mais de 20 anos e a mantivera sob sigilo certamente percebendo o potencial polêmico e bombástico que tinha nas suas mãos. Só quando em fevereiro de 1858 chegou às suas mãos um trabalho enviado por Wallace da Indonésia que contemplava as mesma conclusões é que resolveu publicá-la , temendo perder a procedência do seu descobrimento. Eticamente a apresentou, naquele primeiro de julho, na Sociedade Linneana, em nome seu e no de Wallace. A história, injustamente, terminou por esquecer o nome do grande biólogo Alfred Wallace, nascido no País de Gales em 1823 e que desapareceria deste mundo conturbado em 1913, hoje considerado o pai
da Biogeografia.
Darwin percebeu com clareza o tsunami que acabava de desencadear. Certamente se pôs na pele de Galileu, Copérnico , Giordano Bruno que entre os Séculos XV e XVI descobriram que havia explicações mais plausíveis para os segredos do mundo do que aqueles arrancados dos livros ditos sagrados. Darwin e Wallace acabavam de jogar por terra , com a sua Seleção Natural, todo o Gênesis bíblico. Os seres vivos simplesmente não foram criados de uma só vez , em apenas sete dias, conforme o texto sagrado do Cristianismo. A história científica da humanidade é bem mais profana. O mecanismo da Seleção Natural trazia uma enorme cobertura de sofrimento para muitas espécies e o aniquilamento contínuo de outras tantas menos capazes de se adaptar às modificações contínuas do meio ambiente. Os seres vivos atuais não foram criados como tais, mas são o somatório de uma infinidade de transformações que terminaram por ajudar suas características a sobreviverem, em detrimento de outros seres menos capazes. Adão e Eva – por mais absurdo que possa parecer – eram símios que desceram das árvores para o Bem e para o Mal. Os estudos arqueológicos que se seguiram apenas passaram a confirmar o evolucionismo descoberto por Darwin e Wallace.
Estabeleceu-se, com eles, a dicotomia definitiva entre Ciência e Religião. A concepção de mundo nunca mais foi a mesma. Os homens passaram a investigar a natureza por meios próprios, já não temendo a fogueira e a excomunhão. Os religiosos continuam estrebuchando , não se conformam em admitir que os livros sagrados podem cuidar com esmero do espírito, mas que em termo de explicação científica do mundo se comparam a um gibi. Bem- Aventurados os que deram sua vida para provar que para crer é necessário ver e provar cientificamente a veracidade da sua visão.
J. Flávio Vieira
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Nos blogs e na mídia em geral discute-se atualmente o processo de mudança ou transição de poder através da competição acirrada entre partidos políticos. Nesse sentido, devemos refletir profundamente sobre a essência desse processo de reorganização das forças sociais. O que se pretende afinal através da participação e competição popular na eleição de novos representantes do povo? A resposta não poderia ser outra: JUSTIÇA SOCIAL. Em verdade, o que se busca é a justiça social onde os diferentes possam ter oportunidades de produção e acesso “iguais” a todos os bens, valores e serviços oferecidos ou aplicados pelo Estado ou Sociedade. Então, o princípio básico que nos une nessa empreitada é, portanto, a JUSTIÇA. Mas, o que significa a expressão JUSTIÇA? Entendemos no mundo moderno pragmático como sendo o direito e dever de todos sustentados sob a mesma ordem e valor aplicados segundo a Constituição do país em seu Estado de Direito Democrático. É claro, que esta é uma definição conceitual que criei nesse momento. A definição etimológica de JUSTIÇA nos remete, segundo o conceituado e respeitado jurista Miguel Reale no seu livro Filosofia do Direito, a idéia de união e junção. Segundo REALE, o radical JUS (de Justiça) se origina de uma expressão sânscrita que significa exatamente UNIÃO e JUNÇÃO. Isso implica dizer que o princípio que orienta a idéia de justiça é a união, junção ou integração da consciência humana.
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ete nós na camisa e o Pai-Nosso resmungado de trás pra frente. Era esse o conjuro das catimbozeiras de minha terra pra mudar de signo, se tornar diferente, melhor ou pior. Só isso. Nada de coração de bode preto, língua de víbora, cabeça de codorna, miolo de asno, fava-moura, pedra-ímã, flor de hidra, corda de enforcado, unha de cobra, sombra de mulher menstruada, nadinha de nada. Sete nós numa camisa, um espojadouro de cavalo, a encruzilhada em lua cheia, meia-noite de uma quinta pra sexta-feira. Arre! Cuspo de raiva! Fiz pior que tudo isso. Arribei-me do meu mundo distante, saí à cata de outro destino. E no que deu? Nisto. Uma cidade grande, uma rua, uma esquina, um viaduto, caixas de papelão, sacos plásticos, e a mesma fome me roendo por dentro.
Dei os sete nós na camisa e vesti pelo avesso. Cumpri o que ensinaram pra reverter a sina ruim. E agora, que sou eu? Dolorida. E esse homem morto aos meus pés? Um homem. Uma carniça que os urubus estão doidos pra comer, mas não comem porque eu não deixo. Eu, Dolorida. Esse é meu nome, mesmo. Parece nome de gente? Parece não, mas é o que eu carrego desde que nasci. Dolorida, para me dolorir bem muito.
Xô, desgraça! Xô! Xô! Só porque o meu velho era um bêbado e vivia caído pela rua, pensam que vão levar? Levam não! Nem o corpo e nem a alma. O Diabo que experimente. Ninguém me passa a perna. Ele não prestava, nunca prestou, mas é meu. Podre do jeito que está é a única coisa que tenho. Xô! Xô! Vão agourar a mãe.
Ah, memória fraca e perdida. Esqueci tudo. Desde hoje eu tento me lembrar de uma reza. Queria rezar pra meu morto. Eu sabia tantas. Na minha terra se rezava pra tudo: pra chover, pra caírem os dentes, pra nascerem outros, pra tirar olhado de menino, pra espinhela caída e carne trilhada. Meu Deus, até pra casar! Como eu rezei pra casar com esse homem.
Meu São Roque, faz tanto tempo, era tão longe. Ainda existe aquele lugar? Um povoado com nove casas, ou dez, ou onze, eu nem me lembro mais. Mergulhamos no esquecimento e, quando acordamos, o Diabo aparece e carrega a gente. Mas este Ele ainda não carregou. Só se me levar junto. Meu velho não valia nada. Não dizia coisa com coisa. Desde que viemos embora e nos perdemos neste mundo grande de cidade, ele se apalermou. Meu São Roque, por que você não disse pra gente não vir? Agora tudo é longe. Está escuro sem ser noite. E este morto, aqui do meu lado, marca o meu tempo. O que foi que eu deixei de ver?
Um dia, olhando pela janela vi passar um homem cheio de feridas. O que é isso tão feio, ninguém falou a mim que existia? É a doença, responderam. Numa tarde, olhei de novo pela janela e vi uma mulher se arrastando, enrugada como estou agora. Disseram que era a velhice. Não é possível que ainda falte conhecer coisa pior.
Não! Não! Xô! Xô! Xô! Não levam o meu velho que eu não deixo.
Conheci a morte. Este homem caído aos meus pés está morto. Morto, mesmo. Duro, amarelo, frio, sem respirar. Quando São Roque me deu ele em casamento, não me disse que íamos ficar velhos, doentes, miseráveis e, por cima de tudo, morrer.
Se eu não viesse embora pra cidade, será que ele teria morrido? Teria, sim. Os de lá também morrem. Mas, pelo menos, aparece um conhecido, uma vizinha que ajuda a encomendar o corpo e rezar bonito. Aqui, estou sozinha. Sozinha com ele, que não valia nada, mas era meu marido.
Se passa alguma pessoa e escuta, acha que eu estou doida. Cantar para um morto... Só na minha terra. Lá, as pessoas adoecem e morrem em casa. Aqui, vão morrer nos hospitais.
Eu cantava a noite toda. Até pra vestir o defunto, peça por peça.
E vestia a calça, as meias, a camisa... Meu Deus, eu não tenho nada pra vestir no meu homem! Ele só tem a roupa com que morreu.
Era assim mesmo, eu me lembrei. E tinha outra. Como era a outra? Meu Deus, se nós esquecemos quem fomos, o que será de nós? Eu não tenho nada, mas posso ter, pelo menos, a minha lembrança. Como era aquela outra, eu cantei muito quando minha mãe morreu!
Eu me lembrei dessa, também. Escute, meu velho. Enquanto as mulheres cantavam pro morto, na sala, os homens bebiam cachaça no terreiro. Quando morria um menino, a gente levava pra enterrar e ganhava doce, bolo e ponche de laranja. Parecia que o povo se alegrava porque um anjinho tinha subido ao céu.
Está ouvindo, meu velho? Se você fosse um anjo eu fazia uma mortalhazinha de cetim branco, colocava você num caixãozinho azul e enterrava, bem alegre. E quando fosse de noite, olhava o céu, procurava uma estrelinha e dizia: lá está ele piscando os olhinhos de anjo pra mim. Não é, meu anjinho papudo? Todo anjinho vai pro céu. Mas os velhos como eu e você podemos queimar no inferno ou no purgatório. Como se não bastasse o que já padecemos na terra. E se formos pro céu, ainda temos de passar no purgatório, pra vomitar o leite que mamamos. Minha mãe falava e eu lembrei agora. Tinha esquecido tudo. Sinto um arrepio só de lembrar. Não sei se é bom, nem se é ruim. Sei que estou lembrando.
Você está morto, eu estou viva, nós estamos sozinhos. Ou é o contrário? Sou eu que estou dormindo? Daqui a pouco chega um Anjo ou o Diabo pra levar você. Mas ninguém leva. Xô! Xô! O Anjo São Miguel vinha buscar as almas boas. O Diabo carregava as almas ruins. Bastava eu fechar os olhos pra ver o Satanás. As mulheres cantavam, os homens bebiam cachaça, o defunto não se mexia na cama. Os meninos se agarravam com medo às saias das mães. O vento apagava as lamparinas e o Diabo entrava de mansinho. Era preto, vestia paletó branco e tinha os olhos vermelhos. Xô! Xô! Daqui você não leva nada! Xô! Eu, Dolorida, não deixo. Xô! Xô! Xô!...

tremeram com a versão anárquica de “Chão de estrelas”, um clássico da velha guarda. Para completar a quebra de tabus o disco ainda trazia uma ode psicodélica ao coisa ruim, a hedonista e satírica “Ave Lúcifer” e uma carnavalização sacra com a esquisita “Haleluia”, uma espécie de fusão rockeira entre o sagrado e o profano.










