TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Arte com café em xícaras azuis, crespo e sequilhos

  • Amanheci com aquele aguaceiro todo esborrotando nas bicas do telhado lá de casa e não resisti à tentação: fui tomar banho de chuva, passear nas calçadas das ruas feito menino ruim (lembrei de minha mãe) e, curioso, perigosamente, quis ver de perto como estavam as águas do canal que me assustaram pelo volume e velocidade no seu percurso. Eu, como nordestino que me prezo, tenho uma grande afeição por dias chuvosos e, confesso, até por tempestades: hipnotiza-me o resplendor do relâmpago, deliro com o ribombar dos trovões, os ventos me estremecem e as águas que me parece querem deixar o mundo mais limpo e purificado! Enfim, eu homem primata, me fascino com a natureza poderosa e manifestada querendo dizer pra gente quem é que manda no “pedaço”.

  • Sim, como eu ia dizendo... era quarta-feira e eu me comprometera com Dona Almina Arraes para uma visita (promessa antiga) no sentido de documentar as aulas de desenho e pintura do Karimai nos jardins da casa da família. Até duvidei da presença do mestre Karimai naquela manhã chuvosa e antes confirmei sua presença por telefone. Não negara a disciplina dos antepassados samurais e se antecipara ao temporal. Então, de máquina digital a tiracolo...rumo ao que aqui interessa.

  • Chegamos (eu e minha irmã Ana) na casa da Dona Benigna - matriarca da família- lá pelas dez da manhã. Quem conhece já sabe que aquele ambiente é inspirador! Um vasto jardim com flores de todas as tonalidades com folhagens e ramas verdejantes que praticamente rodeiam toda a casa com a sua fachada desenhada por arcos que definem um alpendre lateral que agora também abriga os cavaletes de suporte para as telas, o ateliê.

  • Dona Almina, com aquela simpatia e simplicidade cativantes, nos recebe e já nos convida para compartilharmos da pausa para o café com arte: a mesa estava posta para o café servido em xícaras azuis numa bandeja de prata; sequilhos dourados ao forno de lenha se ofereciam num pote de vidro e crespos da mais finíssima goma nos provocavam sob guardanapos de linho branco bordados. Arte, culinária e ternura.

  • O mestre Karimai, sempre disponível e espiritualizado, me fala que aquele encontro semanal já dura três anos naquele espaço e se transformara -muito mais do que aula de arte, desenho e pintura- num encontro de “comadres” pela cumplicidade que se gerou entre “alunas”. Cada uma desenha e pinta nas telas a rica experiência de suas vidas que recebe formas, cores, tons e sobre tons próprios.

  • O mestre compartilha a alegria de suas alunas comadres.

  • Dona Almina inspirada.

  • Aleide ensaia uma pose e fica muito bem na foto.

  • Dona Leíla já não tem dúvidas sobre o próximo traço, forma e cor.

  • Recomeça a aula? Que nada! Mais conversa com Dona Almina, Dona Leila e Aleide. Algumas poses com o mestre, fotos do ambiente, uma rápida visita ao ateliê da anfitriã que já coleciona um acervo até para uma exposição individual!
  • Pra finalizar, falei sobre a nossa revista virtual CaririCult e que nela publicaria essa pequena reportagem. Já se mostravam ansiosos pelo resultado e sentindo-se “famosos” pela possibilidade de estarem na rede www.

  • (Com algumas fotos montei o poster que segue para presentear a nossa anfitriã. Clique nas fotos para melhor visualização)

  • Além do mais:
  • No jardim, próximo ao banco, uma vigorosa escultura grego-erótica do nosso amigo Beto Fernandes dava um especial toque de beleza e muita sensibilidade ao ambiente.

Mais outra:
Antes da minha saída, fui apresentado a "Zé Roberto", este simpático "sapinho" de estimação que tem todo o seu domínio e reinado nos jardins da casa.

ACREDITAR EM ALGO A TODO CUSTO

Emerson Monteiro

Resolvera parar com um tanto de assuntos que me tomavam o tempo no dia-a-dia das horas. Agir só quando o estrito e necessário viesse à tona. Deixar as ondas cumprirem sua parte, bem no rigor da palavra. E escrever apenas as listas de compra e o planejamento diário para cumprir nas saídas de rua. Juntar as peças do quebra-cabeça e montá-lo sem agonia, de acordo com os reais e exatos motivos de cada junção, querer conduzir o processo ao sabor de meras intenções individuais; isto é, largar de lado invenções de qualquer tipo.
Nesse procedimento de fluir suave e lubrificado o método vem acontecendo, ao calor dos dias de verão, das mangas saboreadas cedo, de manhã, do alimento do cachorro com restos da mesa da véspera, do aguar das plantas às rápidas visitas à sala enquanto da televisão espalham-se notas dissonantes dos jornais, às latas de lixo misturado com folhas de jornais antigos, esquecidos nos sonhos, um tanto de sonhos aflorados no juízo, até nos cochilos de meio de tarde, aos livros selecionados para a distribuição do final de ano, aos dias e às noites deste tempo sensacionalista que tudo quer invadir e, contudo, permanece sempre a roer as cascas da esperança de novos governantes estrangeiros, maçã a deixar de fora as carnes vivas da filosofia poluidora da civilização de massa.
Blocos quentes de pacotes econômicos caem aos borbotões pelas bolsas do mundo. Nunca se falou tanto em trilhões de dólares quanto nos idos mais recentes. Limites que se avolumaram e não acham mais gretas para se esconder, nesse pedaço cru da história. Os besouros automotores contagiaram o que se pode classificar de tudo o que sobrou dos meios naturais, nma praga do Egito de proporções monumentais que atinge os ânimos fortes do comando financeiro ocidental, os doutores do vasto mundo. Até o aço enferrujou, os vitrais dos templos mercantis, vidros temperados nas altas temperaturas, empalideceram como nunca antes.
De desafio se viva vida... Bons tempos aqueles das modinhas populares fazendo a cabeça das resistências do futuro. E cá vamos nós, através dos corredores inexpugnáveis infinitos no palco iluminado narcisista.
Alguns itens não os detive, a saírem que foram pelo ralo dos dedos, nestas frases incontidas do regime de espera a que me programei. No entanto deixo que façam parte das circunstâncias, que cheguem as novas regras ortográficas do novo português e encontrem gosto em atualizar a linguagem do que, em breve, queira dizer, ao léu dos momentos posteriores.

O bom de mim

Fizeram lavagem cerebral
dentro do meu coração.
Não dou um passo,
não engulo um soluço,
sem que eu deixe de ver
algo sobrenatural.
Meus bichinhos domésticos -
formigas, baratas
e uma pequena lagartixa -
zombam do meu estado.
Sou-lhes grato -
e para meu deleite -
ofereço-lhes de mão beijada
minha alma e meu juizo.
Poeta que se preza -
pelo menos uma manhã na vida -
há de ter sensatez:
caiam trevas,
sobra luz.

PESARES - Dihelson Mendonça



PESARES

( Dedicado a meu amigo e poeta Antonio Sávio )

Apesar de tudo, dos sentidos que aguçamos
como o limar de uma grande rocha sem fim
permanece inda o opaco brilho sobre os olhos
cravados em nuvens e paisagens dentro de mim

Sobre a gleba insana rastejam as borboletas
de vaidade pura nas asas,- pobres delírantes -
voam também por sobre as nuvens, elefantes
...pois nada mudou, nem manterão tais silhuetas

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
das frestas podres e de fendas à minha porta
corta a faca, corta o tédio, corta a testa
corta a planície, cortam serras sotopostas

Viver das migalhas de uma realidade
que ora me escapa por entre os dedos rotos
rastejar-me de medo, - infelicidade -
carregado de segredos em mundo ignoto

Da plenitude bela de uma vida instante
à abjeta dualidade residente dentro de mim
passam-se os dias, passam-se os meses, passam-se os anos
em mares de tristeza eterna... e que já não têm mais fim!


Dihelson Mendonça

( basedo no poema Pesares de Antonio Sávio ).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Convite para os 15 Anos de Claude !


Caros Amigos,


Recebi, agora msmo, o Convite para os 15 anos da Claude. Vai ser uma festa de arromba( ainda é assim que se diz?). Em breve vcs tambem estarão recebendo o convite, mas vou me antecipando para que já possam ir engomando as roupas do baile e comprando os presentes.


Parabéns Claude !

PESARES

Apesar de tudo, e dos sentidos que aguçamos
Como o limar de uma pedra sem fim
Permance o opaco sobre os olhos
E uma nuvem intensa sobre a paisagem

Os elefantes, pelo delírio vôam
E as borboletas diferente de antes
Rastejam a vaidade de suas asas sobre a gleba
Nada mudou, mas tudo enfim não há de permanecer o mesmo

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
Das frestas das fendas de minha porta
Corta então o tédio arenoso sobre mim
Pois a vista perdida na paisagem,

A catar as migalhas da realidade
Que me encaparam entre os dedos
E agora resta-me o medo,
Dos segredos deste fardo, que arde sobre mim

Crônica de uma Romaria em Bertioga




Agosto jogava nos olhos dos matozenses dois sentimentos conflitantes. Nublavam-se as almas, um pouco, com o cinza do tempo e o calor escaldante. Em meio à terra devastada apenas um ou outro juazeiro, como um soldado de Pompéia, mantinha a lembrança única do verdor e da fartura. O Paranaporã, batendo piaba, mostrava-se vivo ainda em pequenos barreiros e caldeirões ao longo do seu curso. Os matozenses, no entanto, tinham, por outro lado, um motivo ainda de alegria. Comemorava-se, justo naquele mês, a grande Festa de Nossa Senhora dos Desafogados da vizinha e hoje próspera Vila de Bertioga. Após uma sucessão de casos inexplicáveis da padroeira milagreira , a festividade aos poucos se foi encorpando. De início doméstico e regional, o evento ampliou-se com o passar dos anos. A cidade quase que duplicava a sua população neste período.
Vinham romeiros dependurados em burros, jegues, paus-de-arara de tudo quanto era biboca deste país. Como na vida, o sagrado e o profano conviviam lado a lado. Todas ruas de Bertioga se atulhavam de pequenos comerciantes negociando tudo quanto é de picuaios e quinquilharias. Alimentos regionalíssimos : panelada, buchada, filhóis, passa-raiva, fígado com tapioca. Lembranças de tudo quanto é nacionalidade, predominando importados da China e do Paraguai esparramavam-se desordenadamente pelo chão. E, principalmente, artigos religiosos: terços, imagens, fitinhas, botons, ex-votos. Um parque de diversões se espalhava por toda praça da matriz, enchendo de felicidade meninos e adolescentes: Carrossel, Canoas, gangorras, Roda-Gigante. As novenas , concorridíssimas, deixavam irrespirável a já pequena igrejinha de Nossa Senhora dos Desafogados. O fiel pagamento das promessas, uma espécie de escambo espiritual, reabastecia de óbulos variados os cofres da paróquia. Missas se sucediam em três turnos e faces sofridas e mãos calejadas buscavam conseguir num outro mundo o que lhes havia sido confiscado descaradamente aqui na terra. O cabaré de D. Maria Juriti, do outro lado da cidade, reabastecia-se de madames vindas até da capital para abastecer o superaquecido mercado de pecados e vícios que depois seriam , piedosamente, descontados nas confissões com o Padre Vanderico, pela manhã.
Junto , naquela turba amorfa, se uniam romeiros, comerciantes, religiosos, políticos, agricultores e, também , os aproveitadores ; como aliás em qualquer aglomerado humano. De boa fé, ali, de coração aberto, apenas os romeiros e, conseqüentemente, anestesiados na sua crença, sujeitos a ataques de malandros de toda espécie. A crônica da última Romaria em Bertioga me passou o velho Giba, proprietário do mais famoso botequim de Matozinho.
Há em Bertioga uma santeira bastante peculiar chamada D. Regina. Viera da banda das Alagoas, em uma das romarias, anos atrás e acabou se estabelecendo na vila. Percebendo o mercado propício resolveu ser artesã em barro, esculpindo imagens de santos para vender, depois, aos romeiros. Sem muita habilidade, construía, geralmente, imagens disformes parece que aprendidas dos quadros de um Picasso que jamais conhecera. Na hora da comercialização, a identificação do santo se tornava, o mais das vezes, quase que impossível e a nossa D. Regina tinha pavio curto e de rastilho inflamadíssimo. O romeiro , observando um São Sebastião, perguntava o preço do Cristo crucificado, aí nossa santeira saltava com quatro pedras na mão. Nesta última romaria, um velho de São José do Egito, observando as peças à venda, pegou um pretenso São José, que (se sabe lá como ?) saíra torto feito o Corcunda de Notre Dame .Desconhecendo a caninana, caiu na besteira de perguntar , na sua inocência:
--- Ei , a Cuma é este Frei Damião ?
Regina enrugou o cenho e respondeu rispidamente que já tinha sido vendido. O matuto continuou observando as imagens expostas e se deteve, de repente, numa imagem de uma santa mal engembrada , vestida com um vestido longo pintado de verde abacate. Voltou a se interessar:
--- Ei dona, que santa esquisita é essa ?
A santeira saltou de lá:
--- Não ta conhecendo, não ? É Nossa Senhora dos Desafogados !
O matuto retrucou, com suas dúvidas:
--- Nossa Senhora dos Desafogados ? Mas toda vestida de verde, onde já se viu ?
Regina, então, cuspiu de lá :
---- É porque nesta época, seu abestado, ela tava servindo o Tiro de Guerra...
O caso mais insólito, no entanto, segundo Giba, aconteceu em uma das barracas que vendia um cafezinho esperto, com beiju, nas proximidades da Roda-Gigante. D. Arlinda , a proprietária, possuía um dos pontos mais tradicionais da Praça de Alimentação de Bertioga. A principal atração do estabelecimento, além da comida, era um rádio grande Transglobe de 12 faixas em que ela sintonizava, geralmente, a Rádio Sociedade da Bahia. Em períodos de festa, o aparelho tocava de sol a sol e engolia um carrego de pilha Ray-O-Vac todo santo dia. D. Arlinda colocava o Rádio, o mais das vezes, em um pequeno tamborete, lá no fundo da barraca, encostado na lona. Pois não é que um malaca, de tanto ouvi-lo tocar, cresceu os olhos e resolveu surrupiá-lo da dona! Esperou , à noite, o momento de pico no movimento , escorregou, discretamente para trás da barraca, meteu a mão por trás da lona, desligou o aparelho, enquanto empostava a voz e falava com aquele sotaque de FM:
--- Atenção! Atenção ! Interrompemos a nossa programação temporariamente por falta de energia elétrica em nossos transmissores, voltaremos dentro de alguns momentos. Não mudem a sintonia da nossa Rádio Sociedade da Bahia!
Estabelecido e esclarecido o problema, puxou o rádio e desapareceu na esquina para nunca mais voltar. Só uma hora depois D. Arlinda deu fé do problema técnico mas já era tarde demais. Até hoje, ao que parece, ainda está faltando energia elétrica em Salvador.

J. Flávio Vieira

Falso testemunho

Um sutiã preto
com uma das alças
em volta do trinco.

Tristonho sem os seios.
Humilde sem os ombros.

Um sutiã preto diz muitos segredos
com uma das alças em volta do trinco.
Silencioso quase caindo.

A esposa sequer imagina
as aventuras descritas aos ouvidos da porta.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

- Por um momento -

Foto por Claude Bloc
(Aceitando o desafio e brincando com a rima)
.
Inesperado e lento
por um momento
entre um sorriso ameno
e o olhar atento

O tempo já se escoa
e o meu tormento
é o sopro no cabelo
regendo o vento

o mordiscar dos lábios
Sutil intento
E o franzir do cenho
Fugaz provento.

Esse cristal do olho
doce alimento
O levitar da alma
meu sentimento...

E esse langor no corpo
quase um lamento
Esquecer a distância
eu sempre tento

Nas tuas ondas sigo
olhar atento
Minh’alma logo exalta
contentamento

indago por teu nome
meu complemento
exultam meus sentidos
meu firmamento.....

separa-nos a vida,
a mesa do tempo.
.
Texto por Claude Bloc

Do vendaval à brisa rasteira

Jogo meus olhos
nas paredes
respingam bolinhas de sabão.

Silencio-me
fitando o telhado
cai poeira.

Das formigas
herdei a capacidade
de contrair a alma
após soterramentos.

Vale de sonhos

Debaixo de uma ponte
construída com fundos de garrafa
muita água salgada dos olhos
e na correnteza
barquinhos de papel,
caroços de oiti,
seringas descartáveis.
Milagre caber uma alma
dentro desta urna funerária.
Sandálias antigas jogadas num canto.
Xícara de asinha quebrada no basculante.

Repentes - Amasso e descarto , antes da segunda leitura.




Sei fazer "rondelli"
e rigatoni ...
"Rondel"...
não é cordel ...

(Claude explica,
e a gente aplica !)


Meu caminho eu compus
iluminado de luz ...
Passeando nas calçadas
me adentro até nas matas
Procurando pirilampos...
me aposso de outros galhos
no rastreio dos teus passos ...
Nem sempre chego no céu
nem sempre tiro o meu véu
Adormeço nesse sonho
com vontade de outro engano...
Sobrevoar o mundo...
como anjo , como fada,
como bruxa ...
por que não ?
Eu preciso da razão ?


No azeite quente ,
batata do dia a dia...
E a nossa gente ,
quando a vida se entedia ?
Sem precisar esconder
mas desejando aprender
curto a alma feminina
desde o tempo de menina :
Lingerie , brincos
pequenos vícios ...
Poison , coisas de Paris
Hoje tem arroz com pequis...
Que os distantes sintam o cheiro ...
Enriquecido com queijo
e com respingos de chuva.
O meu canto de viúva
garante que é feliz ...
E prova sempre o que diz !

Mão engessada

O ferrão adocicado das abelhas
só procura uma artéria virgem.
Tem mais sangue,
e flui sem coágulos.
Canto ruidosamente
com meu tridente enferrujado.
Ando atento com preguiça de voar.
Posso dar de cara com abelhas
que misturam mel com cianureto.
Não caio em suas artimanhas.
Todas as minhas artérias
já perderam a esperança.
Agora jovens senhoras felizes
com seus dias quentes
e suas madrugadas solitárias.

Livre pensar é só pensar...

Artista: João Modé – Sem Título

A Bienal do vazio, ou o vazio da Bienal
A “arte contemporânea” em crise terminal: não atrai, nem desperta paixões
R. Mansur Guérios
Visitar a Bienal de São Paulo, em sua 28ª edição, não é distensivo. A “arte contemporânea”, vanguardeira do mundo das artes, está em crise. Constatação que, aliás, se pode fazer para a maioria das manifestações culturais.
Feita para ser “vanguarda”, abrigo de novas tendências, exemplo de ruptura com o passado, a obra que nela provocou mais manifestações, críticas e protestos foi um andar vazio, por carente de algo expressivo para ocupar tal espaço. Suscitou comentários virulentos na imprensa diária: “Se a intenção da curadoria da 28ª Bienal de São Paulo era dar visibilidade à crise do modelo das bienais, o resultado foi plenamente alcançado. O vazio do segundo andar, que representaria a tal crise, recebeu muito mais elogios de artistas e curadores do que a mostra de arte apresentada no terceiro andar, marcada pelo tom conceitual” (“Folha de S. Paulo”, 28-10-08).
* * *
Indignados com tal desperdício de espaço, pichadores invadiram e executaram suas “artes” no monótono e vulgar espaço vazio do pavilhão de exposições. Compreensível, pois quase não há um metro quadrado na megalópolis paulistana sem suas marcas — as “griffes” das “tribos” de “artistas pichadores”.
“Fossem outros os tempos, [o andar vazio] teria suscitado acusações para todo lado, brigas de foice e a leitura de manifesto em praça pública. A arte contemporânea já não produz mais paixões descabeladas” (Barbara Gancia, “Folha de S. Paulo”, 31-10-08).
Monitores, telas, telinhas e telões em profusão, com projeções sobre seus autores, tudo foi feito para atrair admiradores. Mas filas e afluxo de interessados, só havia no “tobogã” deslizante do 3º andar até o térreo.
A incapacidade de atrair, de arrastar, visando indicar rumos para o mundo, ainda que desvairados, nos parece o ponto central: como “desconstruir” um mundo que já se apresenta “desconstruído”, que aceita e admira, por exemplo, corpos tatuados, crivados de metais, como os de selvagens de tribos primitivas?
Há muitos descontentes com os rumos dessas manifestações artísticas. Não há infelizmente indignação, salvo honrosas exceções.
Em suma, a 28ª edição da Bienal corresponde bem ao sinistro e derradeiro degrau a que chegou a pseudo-arte, dita “contemporânea”, reflexo do vazio de alma de homens que rejeitaram o verdadeiro Deus e se chafurdaram no neopaganismo de nossos dias.

E-mail para o autor: guerios@catolicismo.com.br

Rondel

A pedido de Dihenson, trago aqui um poema rimado e com métrica.
Este tipo de texto chama-se RONDEL.
Há alguns detalhes específicos que caracterizam o RONDEL.
1.Um deles é que: os dois primeiros versos do primeiro quarteto se repetem no segundo quarteto, como terceiro e quarto versos.
2.O primeiro verso da primeira estrofe, repete-se na terceira estrofe sendo, então, o seu último verso.
O desafio é: usar os versos repetidos sem perder o prumo do tema, num encaixe perfeito. E a rima deve ser observada.
Neste rondel os versos são decassilábicos. A última estrofe, um quinteto.


Quem se arrisca a fazer um RONDEL?

I - Rondel do Silêncio

No silêncio da noite enluarada
Minha alma passeia enternecida
Na areia os passos, a jornada
E a saudade fortemente renascida.

Nas espumas do mar, a minha vida
Devaneio que vingou na madrugada
No silêncio da noite enluarada
Minha alma passeia enternecida

Percorri teu caminho, tua lida
Pelo chão, os teus passos na estrada
Caminhei tantas vezes distraída
Te encontrei quando já não tinha nada
No silêncio da noite enluarada


II - Rondel da Luz

Nas vestes rotas desta madrugada
Eu escrevi teu nome na areia
E a encantada luz da alvorada
Teceu à tua volta sua teia

Em teu olhar o lume da candeia
E os tons difusos, nessa tua estrada
Nas vestes rotas desta madrugada
Eu escrevi teu nome na areia

Em teu sorriso minha alma passeia
Descortinando a lua enevoada
Rompendo a noite, a chuva, a maré-cheia
Chamei teu nome e não disseste nada
Nas vestes rotas desta madrugada.

Rondel por Claude Bloc

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Adeus

As andorinhas do entardecer já partiram
levando seus ninhos nas costas.
A última lâmpada
do poste da esquina
apagaram.
Apenas um cãozinho sarnento
perambula por nossa rua
tremendo de frio
e com um olhar triste
de quem foi roubado os sonhos.
Minha solidão é a sua saudade.
Não há chance para um novo flerte.
Estamos cegos e sem cílios.

Encontro de Cearenses - Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes



Encontro de Cearenses

Garanhuns, município do agreste pernambucano, faz jus ao nome de cidade das flores. Clima serrano, bem arborizada, belíssimos jardins, muitos deles começando do lado de fora das casas. Proprietários fazem os jardins começarem do lado de fora do muro, como se fizessem parte das calçadas e não das residências. Não por acaso, um dos seus pontos turísticos é o relógio das flores na praça de entrada. Em termos físicos, não tem muito a ver com o Crato mas é do mesmo porte. O número de habitantes é igual, a renda per cápita de seus moradores no mesmo patamar da do Crato, o IDH praticamente no mesmo nível, a mesma quantidade de veículos e, tal qual a Princesa do Cariri, também sede de diocese, bons colégios (inclusive um Diocesano) e vários cursos superiores. Em dois outros aspectos as duas cidades empatam: a simpatia/hospitalidade dos seus moradores e o amor pela terra. A afinidade não pára por ai. Eles não tem uma exposição como a nossa mas possuem um festival de inverno onde rola a mesma energia da ExpoCrato. Acontece no mês de julho e muitos nativos “não residentes” retornam à terra para rever parentes e amigos.
Para visitar minha filha e neta, que moram lá, vou quinzenalmente à Garanhuns. No último final de semana soube que estava acontecendo o II encontro do Ceará, reunindo os cearenses residentes na cidade pernambucana. Não resisti ao forte apelo e fui até o local, em um dos clubes da cidade. Para minha surpresa, encontrei mais de 150 pessoas, uma banda de forró pé de serra, cachaça de cabeça e ipioca, rapadura, paçoca, folhetos de cordel, redes, estátuas de Pe. Cícero e de Frei Damião, piqui e um delicioso licor feito dele. Procurei cratenses e dei de cara com Dr. Alberto Madeira, ex-locutor da Rádio Araripe, filho do Prof. Álvaro Madeira e irmão das inesquecíveis professoras Lúcia e Almeirinda Madeira. Através de Alberto, conheci Augusto Siebra, filho de Seu Antônio Siebra e Esposa, ambos do Crato. Soube de outros cratenses que fixaram residência na terra de Dominguinhos, como Dr. Leórgene e D. Socorro (ele neto de Seu Lauro Maia) e a Médica Socorro Sampaio, filha de “Seu” Otacílio Sampaio, mas não estavam no encontro.
P.S.

Joaquim Pinheiro é mais um dos nossos que chega.
Com imenso prazer dou-lhe um abraço de boas vindas , em nome dos tantos amigos e cratenses de todos os tempos , que fazem esse Blog.

A Viagem do Elefante – José Saramago
Um mestre conta uma história

Depois de tantos anos com uma idéia na cabeça, desde 1999, Saramago entrega ao público uma viagem inusitada, cheia de ironias vigorosas, nada vigaristas, e sempre atravessando seus alvos com travessões travessos, questionadores da mormência histórica, obstinada em empilhar fuligens racionais por sobre os devaneios reais dos seres humanos em pleno absurdo da existência.

A idéia dessa narrativa surgiu quando ele almoçou em um restaurante de Salzburgo, na Áustria, chamado O Elefante, a convite de Gilda Lopes Encarnação. Neste restaurante algumas pequenas esculturas em madeira chamaram a atenção de Saramago, que logo ficou sabendo que eram representações de edifícios, que demarcavam a longa viagem de um elefante, de Lisboa a Viena. Nascia ali um conto singelo.

A narrativa se baseia na manobra diplomática envolvendo o elefante Salomão, que no século XVI, mais precisamente em 1551, cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena, dado como um presente, embalado como um golpe baixo e conduzido como uma esfinge. Dom João III, rei de Portugal e Algarves, casado com dona Catarina d’Áustria, resolveu oferecer ao arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos V, como presente de casamento, o elefante, muito menos por se tratar de uma imensidão, do que pelo tamanho maior da desculpa em não recebê-lo.

O livro levou cerca de dez anos para ganhar forma e foi escrito durante o período em que o escritor maior da língua portuguesa estava acometido por uma estranha e impertinente doença respiratória. O próprio autor achou que não escaparia e a narrativa ficaria inacabada. Mas, para o bem geral do povo culto, Deus disse que ele ficaria mais. Assim podemos conviver com mais esse filho da família Saramago, dona de uma linhagem astuta, elegante, provedora de signos e ironias, para além das habilidades técnicas da escrita, já nos domínios das esferas infinitas.

De acordo com Pilar del Río, mulher de Saramago, o autor entende essa narrativa como um conto e não como um romance. De fato, essa é uma deliciosa história contada ao pé da fogueira em um quintal vizinho. No entanto, nem de longe essa é uma obra pequena, claro que sem o fôlego de um O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas com o encantamento de Uma Jangada de Pedra. A técnica é de um exímio esgrimista em duelo indefinido com as palavras, com a planta dos pés postada no fio da navalha da criação.

A estética é nominal, leva a assinatura da contemporaneidade da obra de José Saramago, singular e plural, dialética, incontida em suas junções e disjunções, em suas diacronias e sincronias. A fusão entre história e ficção é uma das grandes janelas que arejam os ares da cansada literatura universal. Saramago é um dos seus mestres. É um duende que extrai de datas,decretos, de formulários e de protocolos, o sangue humano em sua mais sofisticada inventiva existencial.

Saramago fundamenta a história de Salomão, o elefante presente, e de seu conarca, o indiano Subhro, na mais pura metalinguagem, em que um narrador, que oscila em ser às vezes sim e às vezes não, observador, destila uma ironia fina sobre o ato da poética, sobre os valores da significação e sobre as intenções da escrita. O humanismo do teatro universal de Saramago está em todas as linhas, redimensionando os seres vivos, os mortos e os ressuscitados. As entranhas da convivência humana são revisitadas mais uma vez, como sempre, em tom quase que anárquico.

A forma como Saramago trata as formas do discurso continua a mesma. As falas são anunciadas apenas por maiúsculas, após vírgulas ou pontos. Os parágrafos são imensos, com imensas frases entrecortadas por imensas vírgulas. Agora as maiúsculas só aparecem para fundarem uma nova frase ou indicar uma fala, e não mais do que isso, todas as necessidades do uso delas está descartada, exceto as citadas. Existe um quê de descontinuidade e fragmentação no discurso poético de Saramago. Ele constrói para desconstruir, convidando o leitor para participar de seus estranhamentos específicos. Não podia faltar um toque de absurdo e de fantástico, senão não seria uma saga de Saramago.

Da mesma forma não poderia ficar de fora a abordagem especial que ele faz da estrutura caricatural da família real portuguesa, com seu ar infinitamente beócio, com suas digitais decadentes e seus rastros indolentes fincados no molde absconso da história. A burocracia patética do Estado português também recebe as suas devidas considerações irônicas. A igreja também é referenciada em seus mecanismos de burlas e dominações nefastas.

Entre tantos protagonismos da saga da comitiva, o episódio em que o elefante Salomão é obrigado a forjar um milagre, ao se ajoelhar frente à basílica de Pádua e frente a inúmeras autoridades do clero, para combater a expansão do luteranismo, é um caso à parte. É tão hilário quanto contundente o leitor se deparar com o livre comércio dos pelos do elefante como relíquias.

Assim conta o narrador, com ironia corrosiva, “Solimão (o elefante muda de nome ao chegar às mãos do arquiduque) recebeu em troca uma generosa aspersão de água benta que chegou a salpicar o conarca lá em cima, enquanto a assistência unanimemente, caía de joelhos e a múmia do glorioso santo Antônio estremecia de gozo no túmulo.” Esse é apenas um pedacinho dessa deliciosa jornada. Descubra você mesmo ela por inteira. Ela é encantada, como tudo que sai da imaginação desse fenômeno chamado José Saramago.

O Pão

Ofício de matador de mosquito
é árduo, insalubre e arriscado
cair da caixa d'água e quebrar as pernas.

As pernas parafusam-se.
Inferno é torcer o punho direito.

As teclas do meu computador detestam
mão sem movimentos e dedos letárgicos.

Reflexos

Foto colorida artificialmente - Claude Bloc

O espelho ainda guarda
os movimentos ansiosos
os olhares inseguros
a ânsia, a aflição, o segredo
a alma atônita, em pânico
mãos espalmadas e úmidas.

Lembro agora, lembro sempre
O espelho que assistia
em soberana apatia
o breve toque do vento
nas sedas do meu vestido
o roçar da primavera
nas bordas do pensamento...

Eu olhava meu reflexo
O leve toque nos lábios
Entreabertos, resignados...
O rubor nas minhas faces
Os meus primeiros arroubos
Presságios, sonhos, enigmas
Sintomas febris de amor

Queria vê-lo, tocá-lo
dançar com ele um bolero
olhar lá dentro dos olhos
poder vislumbrar-lhe a alma
o tempo,porém, brincava...
e a vida nos empurrava
emaranhando meus sonhos

Mas lá estava o espelho
refletindo o vazio:
minha dança solitária
retorcida de saudade.


Texto de Claude Bloc

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Passeando nos tempos do Verbo.



Sensível
a qualquer tipo de carinho
sorriso , mimo ...
Rostos distantes
parecem contas
de colares partidos
olhares , bocas ...
pérolas escapadas de mim
Sem adereços
esqueço endereços
acendo velas
ilumino lembranças
fragmentos visíveis

O vento traz
o vento leva
a onda traga
espuma de amor
...saturada !

Entreguei os pontos
sem checar os trunfos
meus ases, meus ais ...
num jogo comum
E se todos chegassem ,
num apelo coletivo ?
- Eu ficaria contigo !

Se o tempo voltasse
eu dançaria a valsa dos meus 15 anos
Pediria uma bicicleta no Natal
Nadaria nos rios poluídos
Do Crato até Ingazeiras ...
E naquele trem , naquele dia
Teria te visto primeiro
E naquela festa , naquela dança
Me apertaria em teu peito
E naquela noite , naquela praça
te entregaria os meus olhos.

Donzelas de saltos finos e meias desfiadas
se avermelhavam
quando a brisa do amor passava
Guardavam cadeiras no cinema
pro moço que não chegava
Choravam em convulsão
por Francisco e Santa Clara.
Tremores nas mãos , em dias de prova
Disparos no coração , quando recebiam nota
A chatice de provar o vestido novo
que ficara torto
A vergonha de vestir o traje antigo
com mancha de caju , na altura do colo
A barra da saia desmanchada
O sapato de sola desgastada
as meias de algodão afolozadas
E o coração na boca
todo atrapalhado
As cartas de amor nunca postadas

promessas tímidas
desejos contidos
orelhas pegando fogo
retrato em 3 x 4
na bolsa ou no livro
um trevo de 4 folhas
pra garantir o destino

Queríamos correr no tempo
e o tempo nos pegou
Deixou-nos
aonde estou !
Senhora - vó
Querendo comer maça
Pecar contra o que não fez
Ser feliz sendo o que quis !

Poesia Negona

Poesia é minha ama de leite.
Até hoje mamo nos seus fartos peitos de negona.
Negona da Ilha que curte mambo
ao invés de dançar vodu
e espetar bonecos.

Ultimamente minha negona
tá misturando leite com ácido:
o telhado brilha de madrugada,
a porta da geladeira se abre
antes que eu peça um copo d'água.

Ela anda? Sabe não, andar.
Meio que levita, dançando
Descalça em uma calçada
Que sei não se existe.
Dança, sei não se dança,
De verdade não escuto a música
Mas ela sim, porque dança.
E sei não, se dança.
Ela ri. Isso sei. Ri pra caralho
E o som do riso, é nela toda
É ela toda entre riso e ventania.
Soprou? É ela, ou já foi. Volta?
Sei não se volta, ou se foi.
Ela aparece. Assim: como um
Semáforo que se abre. Zupt. Pronto.
Quando pega, mais que dez dedos,
Quando solta, some, faz falta, arde
Ela beija, assim como quem come
Ou avisando: vou comer!
Depois fecha os olhos, cochila
Sem pressa, feito uma gata. É gata?
Sei não se gata, se mulher, se estrela.
Penso: vou segurar.
Quem segura água?
Quem segura vento?
Quem segura risada?
Aí que só olho, bebo, respiro e rio.

Tem gente
Que é tão especial
Que parece que o mundo
Sempre dá um jeito de esperar
Por elas:
O show, começa mais tarde
O ônibus, aguarda mais dez minutos
A lua demora
A chuva cai, ralinha

EIS TUDO DE MIM

Nas rodas desta engrenagem que mastiga meus sonhos
No solo deste palco, num ato interminável
Estou a rever a mesma cena burlesca e irascível
Onde me despertam os brados mais medonhos

Quem sou nesta imensa teia de reações bioquímico-sociais?
Sou a sombra misteriosa dentro da bruma
Sou o estalo das ondas sobre as rochas, sou a espuma
Sou os arlequins funestos dos carnavais

Sou o brilho ocre no dente do velho
Sou o escavelho fomento entre as carnes
Sou o todo, o meio, enfim, sou as partes
Que ardem no fogo de vida ou morte deste prélio

CARIRICULT! - PENSO...(B)LOGO EXISTO! (*)


O NOME acima é o primeiro que me veio á cabeça para TITULAR o nosso encontro anual - NÃO VIRTUAL! - que poderá acontecer em maio (ou junho?) do próximo ano. Portanto, preparem seus poemas, suas crônicas, seus livros, suas canções, suas performances, suas oficinas, suas fotografias, seus espetáculos e tudo o mais relacionado a arte, porque nos tornaremos VISÍVEIS!

Poderão ser 05 dias, de quarta a domingo!

Por favor, agendem-se, minhas senhoras e meus senhores!

Aguardo sugestões!

(*)Por precaução, já providenciei o registro em forum apropriado da marca CaririCult e do nome do evento!

O outro lado da rua.

Muito diferente da outra margem do rio. Nos rios o caudal das águas pode representar uma dificuldade de trânsito entre uma margem e outra. No entanto, as margens são a unidade partida do mesmo terreno. O universo de um lado ou outro é o mesmo. Quando os rios são muito largos, quase um oceano, os animais e as plantas podem ter algumas diferenças, mas tendem, no geral, à mesma composição de vida e hábitos. No Ceará, então, os rios que secam somam as margens num mesmo território.

As ruas, no entanto, têm outro lado bem nítido. Muito cedo, vindo da zona rural, aprendi tamanha diferença. Na Rua Santos Dumont. No lado para o nascente me hospedava com freqüência e ali era o meu habitat. Conhecia todos os cômodos, a calçada e, o mais importante, as pessoas que nele viviam eram extensões de mim (ou era eu delas). Comíamos e dormíamos sob o mesmo teto, fazíamos nossas programações coletivamente e falávamos sobre nós mesmos. Os nossos sonhos eram semelhantes.

Já no outro lado da rua, assim evidenciava-se, a natureza era bem distinta. Outro território, outros sonhos, outros estilos, outras famílias. Não era o mesmo com os vizinhos do lado, pois esses estavam na mesma ligadura da calçada e, das janelas e portas, não os víamos. No outro lado da rua, no entanto, era outro visível, pessoas entrando e saindo, crianças na calçada com brincadeiras assemelhadas às nossas, mas assim observadas e não praticadas coletivamente, eram um tanto diferentes.

As entranhas do habitat no outro lado da rua eram vistas em penumbra. Por isso mesmo mais plenas de desconhecidos. E o mais curioso de tudo, o outro desaparecia no labirinto do outro lado da rua e só depois, muito depois, por vezes, chegava com sua luz às pupilas dos olhos do lado de cá. Agora lembro: era a família de Antonio Aragão. Se, num pátio ou na sala de um colégio, na vizinhança do cinema ou na praça, se igualava mais. No outro lado da rua era mais nitidamente outro.

O outro lado da rua despertava o respeito pela independência da vida que levava, especialmente postas como imagens de nossas visões. O modo de tramar o arranjo de cada minuto demonstrava o senso de liberdade dos fatos vistos e incompatíveis de julgamento. Embora a língua ferina da vizinhança seja a chama do conflito diário, não foi aí que o senso se estabeleceu: o outro lado da rua tinha um modo tão próprio e diferente do lado de cá, que meu lado ficou muito maior do que seria caso o outro lado não existisse.

Desafiando...

Clique na foto para vê-la mais de perto


A foto mostra um evento das bandeirantes, guias e chefes de bandeirantes ocorrido em Crato, na década de... 60?
Era um encontro promovido pela Patrulha Paraguaçu (aquela da qual eu fazia parte).
Aconteceu na minha casa, na Irineu Pinheiro.
A fogueira era falsa. Por baixo, havia uma luminária para simular o fogo com a ajuda de papel celofane.
O tacho foi conseguido num engenho.
Alguns detalhes não aparecem na foto, tais como: uma oca, meio estilo americano (não havia jeito de fazer diferente com o espaço de que se dispunha).
Atrás das "índias" estilizadas, um pequeno girau com pratos de barro, mas que também não aparece na foto.
Tudo foi preparado com o intuito de criar um clima silvícola/silvestre, embora atrás das índias, houvesse o mapa do Brasil com a França bem à altura do coração...
A confraternização foi especial.
Mas... mas... mas... o que interessa é que sejam identificadas as "moçoilas bandeirantes" que constam na cena e também os "mocinhos" e "mocinhas" que se arvoraram a assistir a festa na escada da casa.
.
Pensem, imaginem, escrevam.
Quem me achar ganha um queijo (falei queijo!).
Abraços e boa sorte...




domingo, 7 de dezembro de 2008

Dos hemisférios

Vou confessar
confesso que o farei
mas sem muita convicção
vou abrir o coração
talvez a mente não
pois ela mente
é cheia de demências cotidianas
gosta de elaborar fronteiras
e me meter dentro de extensões
que mais parecem caixas
dentro de outras caixas
sem consentimentos
apenas formadas por formulários
de alfândegas lotadas
de funcionários corruptos
assim tanto é que estive tão ausente
ocupado com minhas perdas
com braças e braças de terras ausentes
que já não fazem parte dos meus domínios
que me fazem sentir um retirante dentro de mim
que me fazem sentir que o meu sofá já não mais me pertence
como o velho computador que
sente ir embora as vogais
e vê o sistemático plano das consoantes
se entramelar entrementes
já o livro de Saramago
com a viagem do elefante Salomão
ainda me olha vislumbrado
já os beijos para os filhos
são imediatos como pés de patos
já os beijos para a amada eterna
resolveram estrelar um número novo nos trapézios
voam com os seus e os meus limites

Esse poema pertence ao livro inédito "Manual
de sobrevivência para astronautas" e é dedicado
a Carlos Rafael e Domingos Barroso

A difícil arte de levantar-se

Trágico alongamento.
A rótula saiu do lugar.
A sétima vértebra desceu.
E logo eu que tive
tantos mestres indianos.
Que fazer agora
com minh'alma capenga?

Mitologia doméstica

Sempre tem uma cueca na gaveta.
Algumas com marcas de traças,
outras sem elástico
e ainda aquelas
do último aniversário.
Mas nunca houve um dia
em que eu abrisse a gaveta
e só me deparasse com meias.
Sempre tem uma cueca solícita,
disponível, lavada e engomada.
Sou um abençoado.

Sol Poente

Foto por Claude Bloc

O Sol suspira
Efervescente
No horizonte toca as nuvens
E no ocaso se esconde.

Em minha vida
O sol flameja
Desenhando os contornos da serra
Desce, completando o ciclo
Fenece em plena luz
Avermelhando-se
Incandescente
E incandescido
Se escoa entre meus dedos.
.
Texto de Claude Bloc

Fidelidade - Poeta Nijair Pinto

FIDELIDADE

Merecemos esquecer o calor da vida e seus encantos,
simplesmente por causa do desencontro casual?
Ser de alguém e a este alguém pertencer, sim,
invalida todas as outras buscas, tornando-se um mal?
Não há nenhuma culpa nem culpados... há o real;
há o valor da vida que se nos mostra sempre ativa.

Se os dissabores e os reveses nos consagraram amigos,
mesmo que através de uma casual situação,
esses mesmos reveses nos podem revelar, sem castigos,
os prazeres de uma nova e intensa sedução.

Que as investidas não sejam tidas como agressões;
que as possíveis tentativas apenas sejam ouvidas...
Falando sim ou falando não, escute-me, isso basta!
Afinal, meu desejo é verdadeiro e a retórica é vasta.

Não tenha medo de ser taxativa e talvez fria...
Você pode me xingar ou, quem sabe, fazer ameaças!
Nada me impedirá de tentar, deixando às traças,
O imenso desejo de tocar, sem pressa, sua pele macia.

Se o trair for algo íntimo, não revelado e introspectivo;
sem nenhum toque, sem nenhuma ação de desejar,
já estamos pecando no inigualável ato de verbalizar.
Repense valores e prossiga ou tente, isso não é instintivo.
E se o fosse, que maldade haveria no ato em si?
O amor não é a dimensão de um doar-se?
Estamos distantes... Ah, se você estivesse aqui!
Não seríamos errantes – estaríamos em Marte!

Nijair Pinto
Fortaleza-CE, 9 de maio de 2007.
21h10

Nota: estarei postando aqui os poemas enviados a mim por Nijair Pinto, enquanto ele se acerta com o CaririCult para que ele mesmo possa postá-las.

Abraços.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Tecinha

Eis que deparo com uma tríade poética
Essa que sobe ligeiramente abaixo
Ou seria uma trilogia ou um tridente
Pronto para espetar nossos pecados ?
Pode ser tudo e/ou nada ao mesmo tempo agora
Pode ser simplesmente Domingos num dia inspirado
Ou um dia de sábado ao som de Tim Maia
Pode ser um momento de lucidez no meio de tanta loucura
A propósito, hoje é o aniversário de Tecinha
Minha irmã mais nova e cada vez mais nova
Apesar do desgaste do ácido graxo de suas juntas
Quero desejar pra ela mais um aniversário
E mais um natal, de lambuja

Meditação

Não é heresia detestar um poema.
Rasgá-lo, cuspi-lo, jogá-lo ao vaso e dar descarga.
O poema é feito de matéria mesclada.
Há em certas obras muito barro e pouca água.
Ou muitas nuvens e quase nenhum chumbo.
O poema não é terra santa e imaculada.
Pisemos, torçamos, desembrulhemos o poema.
A voadura atingirá mais céus.
O poema só não pode ser dividido em partes iguais.
Pois da forma semiótica em que é criado
quando se reparte a verdade se perde.
O poema é o todo - e de cada um, o seu próprio.
O único castigo no dorso do poema
é quando o poeta toma as dores das chicotadas.

Entre

O monitor engordurado.
As teclas sujas do suor dos meus dedos.
Caroços de seriguela pela escrivaninha.
Acabei de tomar banho.
Antigamente sabia o nome dos sabonetes.
Agora nem sinto perfume.
Minhas narinas entupidas -
ou minha alma perdeu a delicadeza floral.
Tarde de sábado opaca mas não tristonha.
Meu fígado adormecido.
Meu coração buscando sangue sei lá onde.
Minha mente brincando de espadachim.
Água, guaraná, fanta, suco de acerola.
Minhas cúmplices desta tarde de sábado.
Simplória tarde de sábado mas não melancólica.
Preciso passar uma flanela no computador.
Pintar de branco a escrivaninha.
Degustar mais seriguelas.
Sobretudo aquelas congeladas
que se abrem nos dentes.

Oração

Anjo não sou
nem o desejo.
Mas amo as asas dos Serafins.

Minha aridez não é das planícies.
Dos pântanos.
Detrás dos galhos retorcidos
e dos lamentos dos corvos
uma lua cheia me comove.

Meu esqueleto ninguém leva nas costas.
Minha alma e minhas tolices
despojos aprisionados em uma arca.
Já fui pulverizado por trair a Verdade.

Resta-me cantar baixinho
seguindo os rastros dos Elfos e Sátiros.
Também adoro um vinho françês e um pedacinho de croissant.
Que viva o poeta fiel aos seus devaneios.

CORREINHA

Um mestre sem diploma se despede

Mestre Correinha: artista aclamado como mestre da cultura popular, mesmo sem reconhecimento oficial

Enquanto o Cariri vive uma semana de celebração a grandes nomes da cultura tradicional popular, sediando o IV Encontro Mestres do Mundo, o município do Crato se despediu de um de seus grandes artistas. Francisco Correia Lima, o Correinha, recebeu quinta-feira as últimas homenagens.

Ironia do destino? Francisco Correia de Lima, o Correinha, artista de várias linguagens atuante no município do Crato, se despediu nesta semana, marcada pela realização de um evento voltado para o reconhecimento a mestres da cultura popular tradicional. Ao final da tarde de quinta-feira, o adeus ao cordelista, compositor e artesão contou com um cortejo particular dos Irmãos Aniceto, na igreja do Cemitério de Nossa Senhora da Piedade, lotada por familiares, amigos e admiradores. Entre estes, figuras como Mestre Cirilo, do maneiro-pau, e mestre Zulene Galdino, do Pastoril, participantes do IV Encontro Mestres do Mundo, que tem encerramento hoje no Cariri.

Nascido em Farias Brito, em 14 de fevereiro de 1940, mas amante inveterado do Crato, município ao qual costumava fazer referências em suas canções, Correinha, 68 anos, faleceu às 16h de quarta-feira, no Hospital São Francisco, onde lutava contra um câncer de próstata. Para muitos na cidade, sua morte representa a perda de um artista aclamado como mestre da cultura popular – mesmo sem reconhecimento oficial de tal condição.Talvez por não ter tido seu nome incluído nas listas anuais de mestres reconhecidos pelo Governo do Estado desde 2004, mestre Correinha tenha sido sepultado em meio a homenagens comoventes de moradores do município, mas, como ressaltaram amigos e familiares, sem o devido destaque por parte do Poder Público. Situação destacada durante a missa de corpo presente, enriquecida pelo acordeom de Hugo Linard, com quem Correinha gravou, há menos de um mês, 15 canções que agora constituem o último registro de sua obra.

"Já o chamávamos de nosso mestre da cultura. Há décadas você construiu esse reconhecimento", disse, emocionada durante a missa, a cantora Leninha Linard, que se dedicou à interpretação de composições de Correinha e participou de apresentações ao lado do artista. "Porém, não chegou a receber em vida o título de mestre da cultura cratense, de uma autoridade, numa festa. Mas recebe hoje o título de mestre, outorgado e assinado com lágrimas de saudade", acrescentou.

"Belezas do Crato" - canção mais popular de Correinha, conhecida pela gente que gosta de exaltar as virtudes de sua cidade-natal – foi lembrada na missa, na voz de João Dino, cantor da região. Os Irmãos Aniceto também prestaram tributo ao artista, fazendo sua dança ao redor do caixão, no contraste entre a alegria do som dos pífanos e o lamento pela partida do artista.

Reverência dos mestres - "A gente considerava ele como mestre igual à gente. Era mesmo que ser um dos nossos irmãos", atestava seu Raimundo Aniceto. "Ele fazia muita coisa linda, muita poesia. E fazia na hora. Era igualmente a gente mesmo, tinha o dote. Parece que nós nascemos tudo na mesma veia, viu?".

Mestre Cirilo, do maneiro-pau, também compareceu à cerimônia. "Ele era cordelista, compositor, fazia teatro, era tocador e fazedor de pife... Era tudo! Pra mim, é mestre da mesma forma. E era muito querido pelo povo do Crato", atestou. "Correinha era artista demais. Durante muito tempo fez os grupos de dança no Sesi, fez a Caninha Verde... Era querido por todo mundo aqui", acrescentou mestra Zulene. Uma despedida com as cores da cultura popular.

Encerramento - O IV Encontro Mestres do Mundo tem encerramento hoje, com as Rodas de Mestres de 9h às 12h, no Crato Tênis Clube e o fechamento do III Seminário Nacional de Culturas Populares no Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, de 14h30 às 17h. Na praça do Memorial acontecem a partir das 18h30 o lançamento do catálogo Encontro Mestres do Mundo, pela Secult-CE e pelo Ministério da Cultura, e apresentações de artistas que participaram do evento.

Registros em discos e cordéis - O pianista e arranjador Ibbertson Nobre produziu em seu estúdio no Crato o último registro da voz e das composições de Correinha. "Foi há umas três semanas. Ele gravou 15 músicas, em uma sessão muito rápida, de pouco mais de uma hora. Veio pro estúdio com uma sonda, mas cantou suas músicas, com o acordeom de Hugo Linard", recorda o músico. "São músicas muito simples e bonitas, de uma beleza natural, falando das coisas do Crato e do sertão. Foi gravado de uma forma simples, mas o importante é que a voz está registrada e o disco pode ser completado com instrumentos".

Segundo Hugo Linard, as canções registradas nesse último trabalho de Correinha em estúdio são, na maioria, inéditas. "Ele gravou também 'Belezas do Crato', mas as outras não tinham registro", diz, citando canções como 'Coisas do meu sertão', 'Exaltação a Barbalha', 'Crato de Açúcar' e 'Meu Cariri' e 'Balanceio'. "Fazia tempo que a gente tava cutucando ele, dizendo que ele tinha que gravar de novo. Ele fez dois compactos e outros discos, no tempo do vinil, além de vários cordéis".

Linard chama atenção para aspectos peculiares da trajetória de Correinha. "Ele mantinha um bar aqui no Crato e ainda trabalhava como agente carcerário. Era tão querido que os presos pediram à família para deixar um pouco o corpo dele lá na cadeia, para eles homenagearem", ressalta.

DALWTON MOURA (Enviado ao Cariri)

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

Suor frio

Poeta que tem orgulho
é um pássaro que vende ninhos.
Já que sua vida é um livro aberto
não rasgue as páginas com vergonha da letra.
Poeta que tem vaidade
é uma nuvem amorfa sem fisionomias.
Já que sua vida é um poço de águas cristalinas
não se assuste com a rãzinha lodosa e friorenta.
Poeta que não mata baratas e não pisoteia em formigas
é mais saudável calçar havaianas e fazer um tour no mediterrâneo.
Já que seus olhos brilham de tão verdadeiros
não tenha medo da miopia.
Poeta, poeta, vá dormir.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sábado de Aedes

Por favor, não me convide.
Nem sei que lua é hoje.
Comi salgadinhos,
bebi refrigerante.
Não me sinto seguro.
A cirurgia é tão delicada.
Um garfo enfiado na glândula pineal.
Dedos meus não tremam.
Cílios meus não caiam na palma da minha mão.
Sou do tempo que assoprava e fazia um pedido.
Peço-lhe, não me convide.
Muitas caixas d'água ainda gorjeiam.
Muitos telhados para destelhar e retelhar direitinho.
Ou deixar goteiras.
Por favor, não me convide.
Nem sei que brisa é essa que me arrepiou as canelas.
Sou do tempo que fugia amedrontado.
Talvez fantasma do tio.
É. Vou dormir cedo.
Vestir meu bermudão surrado.
Sonhar com larvas da minha Aedes.
Ela é tão egoísta.

Em Matozinho também chegou um falso padre...


UM BONÉ


-- Um boné !?
Certamente haverão de interrogar vocês com ar enigmático e decepcionado. E o leitor, de imediato, concluirá que isto só pode ser falta de alguma notícia mais interessante vinda de Matozinho. Um sujeito tentando tirar suco de língua de papagaio. Paciência ! Por favor não vire a página só por causa de um simples e insignificante boné. Esse talvez seja também uma espécie de anzol literário que tentará aguçar sua curiosidade e mantê-lo preso, na transparente linha da narrativa, desde o princípio mixuruca ,até o parágrafo final. Assim, pois, embarquemos nesta viagem.
Dias atrás, numa solenidade dessas de só se suportar sob anestesia etílica, lá estava eu com um boné xadrez, desses que os franceses gostam de usar no final da tarde, quando vão comprar o baguette. Sentia-me um Jacques Prévert reencarnado, em plena Matozinho, quando um amigo, me vendo com aquela indumentária sui-generis, partiu em minha direção e olhou a peça de vestimenta com olhar apaixonado, me perguntando onde a tinha comprado. Antes que inventasse uma mentira qualquer, para não dizer , simplesmente: -- No Braz ! , ele o arrancou da minha cabeça e procurou a etiqueta que deveria identificar a nobre procedência daquele meu apêndice craniano. Não encontrando nada que demonstrasse ser de uma fábrica famosa, mo devolveu e saiu com cara desenganada e ar reprovativo. Fiquei matutando com meu boné aquela atitude brusca e deselegante, quando despertei para a profundidade do ato que tinha vivenciado. Certo que a sociedade de consumo havia criado as "marcas" justamente para poder vender produtos de igual qualidade, por preços totalmente díspares, única e exclusivamente por pertencerem àquilo que se convencionou chamar : "griffe" . O problema é que incorporamos esses hábitos na nossa convivência humana. Interessa-nos , pouco, as qualidades espirituais dos homens. Priorizamos o continente em detrimento do conteúdo e aí passamos a rotular as pessoas, igualzinho como o comerciante faz no supermercado ( muitas vezes até mesmo o preço colocamos). Fulano de tal é ótima pessoa porque é de família importante; Joaquim é burro porque é preto ; Ingrid é uma desavergonhada porque é homossexual; Gabriela é uma santa porque só vive rezando; Marcos não presta porque é comunista.... e por aí vai; vamos colocando rótulos superficiais e encaminhando essas mercadorias para o pútrido mercado negro das relações humanas. Lá serão elas colocadas nas prateleiras , para o consumo de todos, na razão direta dos superficiais valores que, com toda parcialidade possível, a classificamos . Não é certamente por mero acaso que a bíblia dos colunistas sociais, a constituição que rege as boas maneiras de se portar em sociedade, se chama exatamente de : ETIQUETA.
Essas vãs elucubrações em torno de um boné lembram-me, agora, da história de um ex-seminarista que aportou, subitamente, em Matozinho. O moço boa pinta, com vestimentas graves e discurso pausado, foi imediatamente tomado como padre. De início ainda tentou desfazer o mal entendido, mas aos poucos foi gostando da idéia e aí passou a exercer plenamente as funções sacerdotais que lhe tinham confiado. Rezava missa, casava , batizava, dava extrema-unções . Era queridíssimo na comunidade e cantava, saltitava em Show-missas que cada vez mais iam fazendo inflar a platéia da pacata cidade. A novidade, no entanto, chocou as beatas mais tradicionais que começaram a torcer o nariz , o que terminou por facilitar o desvendamento da farsa.
O novo pároco, não muito versado em teologia, passou a cometer alguns deslizes que,aos olhos dos cristãos comuns, hipnotizados pela música, pareciam coisa de somenos importância; mas para as beatas mais tradicionais se tornaram peças de um quebra-cabeças que foi aos poucos se materializando. O sacerdote ,freqüentemente, misturava a "Salve-Rainha" com a "Creio em Deus Pai" . Os sermões eram bastante liberais e abordava-se de cibernética à plantação de cebola. Numa das missas, ele simplesmente se esqueceu de proceder à Elevação e fez a Comunhão dos fiéis sem ter consagrado as hóstias previamente.
As beatas também já haviam desconfiado da quantidade de vinho ingerida pelo pastor em cada missa: Bebia na Liturgia, no Ofertório, na Leitura do Evangelho, na Homilia, no Sermão, até no "Ide em Paz...". A gota d'água , no entanto, ocorreu num dia de confissão quando um sessentão da Cidade, ajoelhado aos seus pés, sussurrou um pecado cabeludo: tinha uma amante há já alguns anos. O pastor , calmamente, interrogou se a esposa legítima se encontrava na Igreja naquele momento. O senhor respondeu que sim e mostrou sua cara-metade, naquele mesmo instante, curvando-se ante o vaso de água benta. Era uma mulher enorme, dessas de se pesar em arroba, mal feita como um saco cheio de cruz e com uma cara amassada como se estivesse encostada numa vidraça. O pastor olhou espantado aquele Trivelato truncado e foi taxativo:
--- Mande sua mulher aqui agora mesmo, que a penitência eu vou passar é para ela: cinco Rosários. Você tá absolvido, rapaz!!!
Quando as beatas tomaram conhecimento do ocorrido, foram direto ao bispo. Contactada a arquidiocese, em pouco a polícia estava no encalço do pseudoprofeta que obrou o único milagre de que se tem notícia: Escapou da noite para o dia, como se tivera pacto com o demo.
Restabeleceu-se a ordem religiosa em Matozinho, mas permaneceram alguns problemas aparentemente complexos. Mães ,cujos “anjos" tinham sido batizados, in extremis, pelo sacerdote de araque , choravam agora temendo estarem seus rebentos condenados ao limbo, ad eternum. Alguns casais unidos em cerimônia presidida pelo pastor fugitivo foram chamados para se submeterem novamente ao matrimônio. Alguns noivos , no entanto, já gozando das benesses do casamento, se negaram, terminantemente, dizendo que não iriam cometer o mesmo erro duas vezes. O pior, no entanto, aconteceu com as beatas denunciantes: viviam agora amedrontadas, temendo verem seus segredos terríveis de confessionário revelados pelo ex-pároco, em represália . Desde o dia da fuga rezavam sem parar, enquanto absortas fitavam a única peça que restara de lembrança do ex-santo reverendo, na sacristia :
-- Um Boné!

J. Flávio Vieira


Do Livro : "Matozinho vai à guerra"

EFÍGIE

EFÍGIE

Dedicado a Correinha


Pela espinha dorsal do tempo
Vejo hoje o homem interior que sou
E brigo com uma realidade fantástica
Daquele que, nas tênebras, vê a própria morte no ar!

Os olhos fitos através do teto,
Um gosto aziago já se faz na garganta,
O cheiro da terra parece bem mais perto,
E toda a natureza testemunha no esplendor da tarde.

Verdes folhas a crepitar no amarelo
reluzente do ouro, e o azul sereno do céu
a tecer o meu futuro breve
-- esta será minha última noite! --

E então serei arrastado pelas mesmas pessoas
Há quem entoe para mim as ladainhas
Proximo a um corpo inerte
Pois sei que meu caixão já está encomendado...

Tambem meu corpo assim padece,
Que mais há de fazer nesta terra miserável ?
Debalde verti a mocidade em sensações efêmeras
E consumi a velhice em lágrimas de arrependimento !

Amanhã, pois, serei um.
Apenas mais um.
Um corpo fétido a poluir o cemitério
Hoje, valorizo a sepultura
A passar antes de mim vi muitos, hoje é meu dia
...e de meus companheiros de morte.
...
Nada mais há para dizer !
A tristeza jaz no ar convulso.
A noite se aproxima...
A hora derradeira se aproxima...

Afinal, que mal há em ser apenas uma lápide ?
Mais uma lápide ?
E me contentarei em ser inerte como o mármore.
E serei recompensado pela paz dos cemitérios

Que diferença jaz entre o momento atual e a hora
em que hei de passar ?
Que diferença há entre o teu e o meu momento
em que escrevi essas linhas ?
Sob um prisma de visão, o ontem é o hoje, e
o hoje, o amanhã. Se hoje, portanto morri para uma vida,
Amanhã ressucitarei para ser eterno dentro de um poema ?
...por um breve momento apenas...
...por um breve momento... e nada mais !


Dihelson Mendonça
.

Desafio

"Quero que você me diga, cinco "vez" encarrilhado, sem errar, sem tomar fôlego"... (vaca preta, boi pintado)

1. Quem são as moçoilas da foto?
2. Onde (em que rua) elas estavam marchando, num dia 7 de setembro, em plena Semana da Pátria?
3. Esta "farda de gala" que estão usando, de que colégio era?


Se você é de Crato, e viveu essa época deve se lembrar.
Ganha um queijo quem acertar !!!

Andar de cá para lá ...



Hoje eu tomaria um vinho
Sairia descalça na madrugada
Nem Flora , nem louca
Apenas irmã das estrelas
que ainda piscam ,
no trânsito do silêncio.


Hoje eu compraria o apito do guarda
Por que não toco violão ?
Por falta de destreza , me desafino
Cordas no pinho
- vocálicas ...
Intenção e desvio.


Hoje eu aportaria
no teu quintal ,jardim ,
sonho ,coração ...


Rasguei e amassei
versos antigos
Rasurei minha agenda
Iluminei endereços
Telefonei pro passado
Quem atendeu é presente!


Hoje não durmo
enquanto o sol não chegar
Como Amélia , coitada ...
espero o dia voltar.


Hoje meu sonho é tão lúcido
que a loucura de vivê-lo
conversa com o travesseiro.


Como Domingos Barroso ,
vou atrás das formigas
Transformá-las em musas
Preencher folhinhas
Soltá-las ao vento
com recadinhos
em notas musicais.

Pássaros da Noite


"Carpem nas sombras pássaros ascetas; Cantam poetas, pássaros da noite..."

"Poetas são pássaros disfarçados de pessoas! Eles moram nos galhos das árvores mais altas, donde podem tocar todo o céu com a ponta dos dedos, e apanhar um punhado de estrelas que atiram aos pés dos homens, velando a sua existência, e dando-lhes música em forma de sonhos."

Abraços,
...e Boa Noite...

Dihelson Mendonça
.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"Um Favor" - Para Dihelson Mendonça (Duplix) Socorro & Claude Bloc)


"Um Favor" - Para Dihelson Mendonça
(Poetrix de Socorro Moreira //Duplix entre parênteses de Claude Bloc)


Poesia e melodia ...
(Maestria da alma)
Quando se acasalam
a gente fica prenha de sonhos,
(a gente fica em êxtase)
e se apaixona , nos sonhos.
(Quando a noite retoma o leme...)
A gente dança , trabalha , resolve a vida ...
fica feliz !(Feliz!)
(Encaracolados na estrofe)
A música tem feitiço...
(Arco-íris e luar)
A ela, rendo-me !
.
(Duplix de Socorro Moreira e Claude Bloc)