TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Paulo Francis, dez anos depois


“Não sou antinada, só anti-burrice’’.
Paulo Francis (1930-1997)


Máximo Gorky escreveu belo ensaio sobre as influências que nos moldam intelectualmente além do ensino acadêmico: ‘’Minhas Universidades’’, tratando de pessoas e livros que induzem culturalmente ao gosto pela Arte e o Pensamento. Paulo Francis foi uma dessas minhas universidades, só igualado à Haroldo de Campos noutra esfera. Comecei lê-lo muito cedo ainda na ‘Folha’, no ‘Estado’ e ultimamente colaborando na ‘A Tribuna’ de Santos. Entre os anos 80 até sua morte, Francis fazia parte do cotidiano: era mágico um colunista iconoclasta discorrer sobre ópera, ballet, a ‘nouvelle vague’, revelar-me Edmund Wilson e Faulkner, críticar o teatro brasileiro e shakesperiano , tudo dito com desprendimento dum boêmio carioca vivendo em New York. Gênio, era ideologicamente errático, tinha glamourosa arrogância de quem calcula excessos de opinião para desfazer certezas, demolir ortodoxias e não incorrer no lugar comum. ‘’Mudo muito de opinião, quem não muda é cretino.’’ Essa frase é luva ao ex-trotskista encantado com possibilidades do capitalismo: Francis teve a constância da inquietude, só não transigia em Cultura, paixão literária e na força de ultrapassar imediatismos do jornalismo . Retomando os ‘’Diários da Corte’’ que conservo em fascículos releio textos nada datados, comentários sobre Política e Comportamento que parecem desse verão-2007. Francis é retrato de 40 anos do século XX: desde ‘’Diário Carioca’’ até a persona televisiva do ‘’Manhattan Connection’’; romancista frustrado, foi ‘cult’ dos cronistas. Chegou usufruir dos primeiros efeitos da globalização sócio-econômica e Internet, mas não sei como veria a continuação da História sob a sombra do Terror, de Bush e Chavez. Os frutos do neoliberalismo soariam-lhe amargos e imagino que sua dialética originalíssima não resistiria a nova revisão. Numa sociedade carcomida pela cultura de massa e diante da crescente infantilização de mentalidades, Paulo Francis se refugiaria em Wagner, Billie Holiday, Balanchine ou Albee: quem sabe não tenha se tornado o fantasma do City Ballet ou entre telas de Matisse no MoMa? Há um dilema recorrente em Arte: o que vai ficar? ouvindo Stravinski ou lendo Tolstoi , Francis dizia: ‘’Pode-se escutar e ler mil vezes, sem cansar, esse é o teste supremo do que fica em arte.’’ Esse aforisma é de 02/02/97 e encerra último texto digitado pelo mestre: Francis morreu fulminado entre o teclado, o acervo eclético de fitas e livros ; o ermitão cosmopolita se despedia. Francis era artesão da notícia refazendo atmosferas, estilista de esboços e memoralista fragmentário, mix de Karl Kraus e Dorothy Parker, deu relevância à polêmica, essa parteira online das vanguardas. Transcendia os periódicos : era especialista em tudo sem aferrar-se à dogmas ou cátedras. Via o mundo do alto e amplificava infindável rede de assuntos: da física quântica à um show de Madonna, nada escapava ao cúmplice da Inteligência. Lia Francis para ser influenciado, discordar e compreender sem síntese irremovível. Aprendi que único compromisso do intelectual é construir em dúvida. Francis não era um gênio criativo, mas elevou o jornalismo nacional à categoria de Literatura do agora : desconstrutor de unanimidades, cometia deliciosas bobagens e sucumbiria de tédio aos suplementos que tratam de reality-shows e futebol. Elocubro: o que Francis diria disso, desses e daquilo? Erudito do cotidiano, faz falta , mas estaria só: a solidão dos sábios é cruel desperdício. O Brasil esnoba os seus...


FRANCIS : PÉROLAS

Não tinha idade para ler Francis no ‘Pasquim’, comecei mesmo já na ‘Folha’. Obviamente indignava chamar gays de ‘invertidos’, suas gozações com Suplicy e Erundina eram abomináveis, não lembro de Francis citando poesia brasileira e creio ele não ter entendido perfeitamente obras das vanguardas brasileiras: do mesmo modo que torcia o nariz para ‘noveau roman’, não assimilava os concretistas e Clarice Lispector. Francis era bem produto dum Brasil que se industrializava e da primeira geração que cresceu sob influência da América vitoriosa: o jazz, a bossa novaiorquina, o jornalismo ágil, a cultura não-uspiana, a liberação hetero, o escárnio aos babyboomers e uma reação cínica ao pós-68 são bem a marca de quem lia Somerset Maugham , curtia os irmãos Marx ao mesmo tempo que orientava-se pelos experimentos ‘entronizados’: em literatura parou em James Joyce (o que já é ótimo!) e em música desdenhava Schoenberg até por falta de aporte técnico.

Francis ‘chutava’ muito culturalmente: era capaz de discorrer sem entender ‘bolhufas’ sobre John Cage ou Yourcenar. Era duma livre-escola que primava pela voracidade e não pela intelecção: jamais citaria Deleuze num artigo, preferindo discorrer apartir de Montaigne ou o velho Marx que nunca rejeitou completamente. A reunião de Daniel Piza para o ‘pensamento’ de Francis é um apanhado delicioso para reavivar o entendimento de seu legado. ‘’Waaal’ é remédio anti-monotonia: percorrer seus verbetes ou jornais amarelados é prá mim o que Fred Astaire ou Peter Sellers eram prá Francis.

Seu legado: penso que sua influência vai até os nascidos até 1975: o que resta são pérolas que recolhemos do baú. Um Francis importante é o crítico de teatro inovador: o cultuador de Ziembinski e Nelson Rodrigues, outro é o cronista da fragmentação que se constrói numa lógica que dá liga aos que seguem sua trajetória no instante da observação. Jornalismo é inteligência assumidamente sem pretensão: um saber que se liquida. Francis fixou-se na ‘retina mental’: agora são móbiles no meu glossário existencial. O que se leu muito é existência de dentro afinal...



Frases

"Só acredito em iconoclastas que saibam construir estátuas, e Caetano sabe’’. – elogio antes do rompimento.

"Essa é a mentalidade dominante: ninguém lê mais nada, ninguém se interessa por mais nada. Todos agem como derrotados. Como a cultura pode prestar?
Não podemos desistir da cultura. Temos de lutar pela cultura, até porque a cultura é que vai nos explicar."

"Penso também em um escritor como Raul Pompéia. Quem ainda lê ‘O Ateneu’ , um dos mais romances brasileiros mais importantes deste século?"

"Sei que é meio chocante o que eu vou dizer, mas eu prefiro a solidão dos livros ao contato com as pessoas. As relações humanas são sempre complicadas, não importa se com homens ou mulheres. Sei que é desagradável dizer, mas eu prefiro os livros às pessoas. Eu sou um homem tímido. Eu sempre fui um esteta.’’

"A TV é , mesmo, o ‘Country Club’ dos pobres.’’

[trechos de entrevista à José Castello publicada no Estadão de 18/ 08/ 96]

"Saddam é um genocida, um ditador... Os EUA estão lá por causa do óleo. É verdade, e tem o apoio de todas as pessoas sensatas (...) dependemos dos EUA para a defesa dos nossos interesses mais básicos, apesar do ódio malsão, puramente patológico, que o nacionalismo-esquerdóide tem dos americanos. Nem por isso deixo de achar nojenta a banda de música pró-EUA no Golfo, que vejo na mídia aqui. Acho que deveria haver mais crítica, mais discernimento do que está em jogo.’’
["Diário da Corte’’ , 1/12/ 90 – ‘’Folha’’, véspera da primeira Guerra do Golfo ]

‘’O perigo de Bush é o sucessor-candidato republicano. Mas ficará para 1996, à beira do milênio ou eleito em 2000. Quem sabe o mundo acaba antes? ‘’
["Diário da Corte’’ , 3/05/92, ano da eleição de Bill Clinton sobre Bush-pai]

Bush filho seria eleito em 2.000, Francis morreria antes do milênio e o mundo ainda não acabou.

"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. Crítica não é raiva. E crítica , às vezes, é estúpida." seria um epitáfio adequado. Sinto falta de Francis: mas ainda tenho Gore Vidal, esse mais próprio à minha visão de mundo e preferências estéticas.



Flávio Viegas Amoreira, escritor, poeta e ensaísta; já lançou 4 livros pela 7 Letras e em abril estréia em romance com ‘’Edoardo, o Ele de Nós’’. E-mail: flavioamoreira@uol.com.br

Cobras venenosas na política cratense – Por Pedro Esmeraldo

O cidadão cratense assusta quando observa o desinteresse de alguns políticos, já que permanecem quietos e alheados diante dos problemas que são muitos e que tenham de enfrentar com dificuldade por mais ténue que sejam; não reagem, ficam quietos, pedem ajuda sem nem sequer ser privilegiados. Não enfrentam com dignidade os obstáculos, não praticam um bom desempenho com a administração séria e honesta. Deixam tudo "correr frouxo" como que, "quem vier atrás, resolva esses problemas".

Ultimamente há uma serie de contrapeso; devem ser solucionados: Mas isso tem que adquirir com lutas intensas procurando solucioná-los com muita disposição a fim de colocar o Crato num caminho reto, de crescimento económico e demográfico . Mas o que? Isto não acontece por que preferem esperar com muita calma, pensando que as coisas podem melhorar e sem retribuir com forças suficientes com o intuito de readquirir o património perdido desta cidade.

Deixam de lado todos os acontecimentos ocorridos em favor do Crato, mas nada fazem por que ficam mudos, sem saber reagir e têem medo de enfrentar o batente e por isso, abocanham todas as coisas boas do Crato. Ficam simplesmente meneando a cabeça, dizendo amém. Depois com o ocorrer do tempo, apoiam esses algozes, através do voto, chegando a eleger ao mais alto grau da esfera política. E nós, simplesmente nós, temos que aceitar as migalhas que sobram de outro município que por justiça não deveremos nada de favor para receber grandes melhoramentos, alegam que são os maiorais, e o município mais populoso da região. Pura Balela!

Essa medida errónea estarrecedora, devem ser compreendida que nos não pertencemos ao bugre podre da região, portanto, não devemos ocultar as mazelas desses políticos inconsequentes que só nos vêem causar mal.

Sim meus amigos, aproximam-se as eleições, devemos marchar com serenidade e não nos rebaixemos mansamente diante desses urubus que só nos vêem buscar votos e depois ficam dando mordidas de cobras venenosas, abocanhando o naco desta cidade. Fujam desses crocodilos perniciosos, cutucando-os com varas compridas, botando toda essa massa negra para correr e deixem-nos em paz.

Por esse motivo, até quando devemos tomar cuidado desses malditos perseguidores que por trás das montanhas tenebrosas querem enganar o povo através de cratenses inconsequentes que os apoiam integralmente, talvez recebendo alguns dotes, mas sem pensar nas consequências sombrias que há no futuro.

Não devemos encobrir esses erros que metem medo. Tomemos cuidado e sejamos vigilantes e não vamos ouvir conversas fiadas desses cratenses, que por sua vez, são os verdadeiros entreguistas que devemos repudiá-los.

Cratenses: temos possibilidades de crescer sem a presença desses cruéis inimigos, inoperantes e desequilibrados do Crato que consideramos vendilhões da pátria.

domingo, 9 de maio de 2010

Casanova de casa nova


-- Aquilo não é uma mulher, é um cão perdigueiro !
Esta talvez tenha sido a mais perfeita definição da mulher de Salustiano, feita por um de seus amigos, numa mesa de bar. Salu( como era conhecido na patota) sempre fora chegado a uma gandaia. O bordel sempre tinha sido o templo maior de suas oferendas. Seu oratório era preenchido pelos deuses pagãos: Dionísio, Baco e Vênus. Parece que tinha sido castigo! Já entrado nos quarenta, terminara por casar com D. Guilhermina: mulher madurona, sistemática, cuja maior diversão era ir para quermesses e assistir às reuniões de casais com Cristo que Salu acompanhava, a contragosto. Não bastasse tudo isso, a patroa de Salu era extremamente ciumenta. Parecia um cão farejador. Ligava para a repartição do marido inúmeras vezes ao dia, como se estivesse fazendo chamada. Quando o pobre retornava para casa, procedia-se uma revista rigorosa, digna de Sherlock Holmes, em todos os seus pertences e vestes. D. Guilhermina olhava atentamente a Agenda, em busca de telefones suspeitos, ou bilhetes. Revistava ainda cuidadosamente todas as roupas externas e íntimas procurando fragrâncias estranhas, cabelos femininos ou marcas de Batom. Algumas vezes, chegou a examinar, com atenção quase urológica, o próprio corpo de Salu, fingindo-se de mulher envolvente e carinhosa.
Apesar de todo cerco impingido por D. Guilhermina, nosso D. Juan não havia perdido de todo o espírito aventureiro. Como, por mais de uma vez, tinha sido flagrado, com uma ou outra prova material, foi desenvolvendo um ritual digno da CIA ou do MOSSAD. Carregava no porta malas, escondida, uma maleta fechada com um sem número de utilitários : soluções para retirada de manchas, aromas vários para disfarçar perfumes, óleo e graxa para simular “pregos”no carro e justificar atrasos , bateria descarregada( sempre) para justificar celular fora de área e por aí vai...Não bastasse isso, tinha uma rede de auxiliares digna de nota, capaz de falsear vozes, inventar histórias/desculpas mirabolantes, forjar documentos e álibis. A mulher tinha, porém, pacto com o demo: devia ir para o Afeganistão procurar o Bin Laden, diziam os amigos. Um dia, suplicante, pediu que ele a contasse sobre qualquer aventura após o casamento, jurando calma e compreensão, pois, dizia, sua fobia não era de chifre, mas de ser enganada sem saber. Salu, para testar, começou a falar sobre alguns namoricos da infância e, mal tinha passado do segundo, já D. Guilhermina ia quebrando todos os pratos da cozinha no tubo de imagem da TV. Imagina se falo os do pós-matrimônio, pesou Salu, aliviado em meio aos destroços da III Guerra Mundial.
O período de maior aflição passado por Salu aconteceu depois do caso Diana Bobitt. Vocês lembram ! Sim, foi aquela que, numa crise de ciúmes, cortou o pinto do marido com uma faca de pão, como se fosse salaminho. D. Guilhermina, imediatamente, a tomou como ídolo e até andava com um retrato da emasculadora senhora na bolsinha de dinheiro. Salu entrou em pânico quando descobriu no guarda roupas da esposa ( imaginem o quê !): uma faca Gin Su ! Passou mal, terminou por internar-se em clínica para esgotados mentais. Voltando, inventou , prontamente, que o médico prescrevera comida chinesa típica , para toda a família e, a partir daí, deu fim às cortantes lâminas da casa e passaram a comer com pauzinhos ( para alívio derradeiro dos países baixos e melindrosos de Salu).
A vida assim ia se escoando em meio a esta Guerra Fria. Tamanha perseguição parecia ir dando um tempero todo especial às perigosas escapulidas de Salu. Dia desses, no entanto, o homem voltou a sobressaltar-se. Aparecera nova arma de contra-espionagem no mercado. Ele soube ,através de sua especial rede de informação. No Bar de Seu Louro, os amigos, aflitos, lhe mostraram o recorte de Jornal. Os japoneses inventaram um spray que borrifado na cueca da pessoa, em contato com qualquer resquício de sêmen, torna-se verde e aí, a patroa –perdigueira, ao examinar, poderá ter uma prova concreta da traição cometida. Não bastasse isso ainda desenvolveram um tipo de meia que muda de coloração ,se por acaso for retirada do pé, o que poderia dar evidência de visitas sorrateiras a motéis. Salu gelou! Aquilo nas mãos de Guilhermina seria uma arma perigosíssima. Na sua visão de Casanova, a atitude dos japonas só podia ser despeita com os ocidentais. Inventar uma porcaria destas, só pode ser complexo de inferioridade: por terem um pingolim do tamanho de um alfinete !
Por via das dúvidas, no entanto, desde aquele dia, Salu só anda de chinela, só compra cueca verde-camaleão e ,pra dormir, é com um olho só fechado : o outro “pastora” Guilermina!


J. Flávio Vieira

ver com os olhos LIVRES


sábado, 8 de maio de 2010

Pedofilia: Ó "Nóis" na fita!

Em geral avesso a meias palavras, o ator José Wilker parou, pensou e se recusou a responder uma simples pergunta – “Qual é o nome do colégio onde você estudou?” – feita pela reportagem do iG. Com a insistência do jornalista, ele se explicou: “Prefiro não responder, para não comprometer os amigos”. Para o ator, toda essa cautela se justifica: “Posso falar que fui educado por padres pedófilos. Era tudo meio escondido, mas eu via”.
Sem especificar o nome da escola, José Wilker lembra que “não entendia muito o que era aquilo”.
Cearense, nascido em Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, ele também morou no Recife quando criança. Assim, os amigos de uma e de outra cidade permanecem protegidos porque o ator não revela em que paróquia viviam aqueles padres pedófilos. Estas revelações ele faz à reportagem do iG, sentado próximo à piscina de um hotel, na capital pernambucana, onde participa do festival de cinema de Olinda.

pulpifex maximus


estou contra todos os tabus sexuais e a favor de todas as liberações. nenhuma espécie de combinação sentimental ou erótica me assusta ou indigna, pois opino que a cada pessoa assiste o direito de dispor do seu corpo como lhe apraz e de entregar-se às experiências sexuais que deseje. - gerard de lacaze-duthiers -

feliz dia das MÃES!!!!!!!!!!!


essa história de complexo de édipo é conversa fiada.claro que um filho pode levar sua própria mãe ao cinema numa noite de sábado e dar-lhe um malho durante o filme ou uns amassos no banco de trás do carro.mas,ir pra cama com ela?isso é loucura! -mel brooks-

As bases da crise do socialismo no fim do século XX - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Não sendo um substitutivo religioso, o que aconteceu com os partidos que lutavam pelo socialismo nos séculos XIX e XX? Em primeiro lugar, é importante se ter a noção que o socialismo, como idéia política mais bem constituída, surgiu na própria Revolução Francesa. Destacam-se Babeuf, com a Conspiração dos Iguais; os socialistas utópicos franceses e ingleses lá no início do século XIX (Fourier, Saint Simon, Owen etc.) e os Cartistas ingleses que foram os primeiros a incorporar idéias socialistas de democracia, igualdade e coletivismo em movimentos de trabalhadores.

Após a revolução de 1848 na França, quando efetivamente a classe dos trabalhadores enfrentou as estruturas da burguesia, começa, de fato, o movimento socialista que repercute até hoje e que nasce de um documento seminal que é o Manifesto Comunista de Marx e Engels. Deste modo, o socialismo deixa de ser encarado como um ideal para o qual se podiam fazer planos de um futuro Canaã, e passa a ser produto das leis do desenvolvimento do capitalismo. Entenda-se este desenvolvimento com as mesmas bases que Darwin aplicou à evolução da espécie. Ou seja, a transformação que implica em novas formas de estrutura e função. Aliás, em discurso no enterro de Marx, proferido por Engels, ele comparou o papel científico de Marx ao que Darwin tinha feito nas ciências naturais.

Para simplificar, as bases da luta pelo socialismo estavam no desenvolvimento do próprio capitalismo. Nada mais dialético, no sentido filosófico do modo alemão de estabelecer uma análise e um pensamento complexo para o comum da época. Neste desenvolvimento implicam-se as contradições que toda estrutura produtiva tem, qual sejam, os seus limites a partir dos quais deixam de ser. Entre elas grandes questões como: a migração rural urbana gerando excedente de pessoas ao sistema produtivo; o trabalho (infantil, da mulher, jornada, acidentes e doenças etc.); a renda, a aposentadoria, a emergência tecnológica e assim por diante.

A verdade é que todos estes limites, quase quatro séculos de capitalismo, estão presentes em todo o planeta. E nisso é que surge a crise do socialismo histórico em duas fases, antes da primeira guerra mundial e depois da segunda. A primeira crise efetivamente foi o surgimento dos partidos de natureza social democrático, que bebiam nas teses do socialismo. À proporção que estes partidos foram adquirindo natureza de massa, foram tendo que negociar dentro do parlamento e tendo que incorporar os segmentos que emergiram no século XX como a classe média. Com isso se passou a um plano moderado da luta revolucionária e se adquiriu uma natureza extremamente reformista, negociada nos termos do limite do capitalismo e que, por isso mesmo, não só o preservava, como o modernizava e reduzia seus choques com os trabalhadores.

A outra foi a Revolução Russa se tornando a força hegemônica no movimento comunista internacional. Antes que você perceba, esclarecerei uma questão: o movimento comunista internacional não era de natureza idealista, era uma estrutura de análise racional das contradições do desenvolvimento capitalista. Então, a Revolução Russa ao se tornar a força dominante, praticamente subordinou o cenário da luta internacionalista aos objetivos da grande União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esta contradição foi, ideologicamente, muito bem explorada pelas forças organizadas do pensamento liberal e capitalista.

Quando a União Soviética caiu e todos os Estados que estavam sob sua esfera de influência, mais do que a derrocada do comunismo ou de sua forma autoritária e totalitária, o que se viu foi a emergência de outra fase do capitalismo. Chamado globalizado, criando um sistema de trocas amplas no mundo, envolvendo capitais e mercadorias, além de pessoas de um lado para outro. Quando, por outro lado, os comunistas acabrunhados, passando por intenso revisionismo, se abespinhavam diante da quebra da hegemonia, de modo independente surgiam novas forças contraditórias em todo mundo. Exemplos: o movimento pela preservação do meio ambiente, as lutas contra a globalização, o “terrorismo” islâmico, os embates por ocasião dos encontros do G7 e assim por diante.

A concentração da renda, a liberdade dos capitais e a hegemonia do liberalismo em bases mais sofisticadas de Estado mínimo e da quebra dos direitos sociais, atingiram o outro componente da crise do socialismo, que foi a Social Democracia. Os direitos sociais, mediados pelos Estados Nacionais por meio de suas moedas, estão sobre forte ataque da roda do fluxo financeiro desta nova fase do capitalismo.

O fim da União Soviética não significou apenas o fim do modo de produção socialista, mas o reforço da nova fase do capitalismo, que é o imperialismo. Imediatamente, surgiram pólos alternativos a esta hegemonia, tais como a União Européia e a China. Isto, em 2010, está em plena ebulição. Os EUA, maior representante da forma imperialista está em crise, bem como a União Européia; por sua vez a China se encontra numa encruzilhada, ou bem se acerta no resto do mundo ou se volta para dentro de si.

Na próxima semana, tentarei abordar a difícil questão do que acontecerá, tomando como marco o momento atual. É difícil, porque toda a análise socialista sempre teve, no fundo, a questão da crise final do capitalismo e isso não se viu na prática. A chamada crise final foi, para muitos socialistas, aquilo que os Judeus e depois os Cristãos sempre esperaram, ainda em vida, o retorno do Messias.

E Agora ? Tem Ranking ?

Lula recebe prêmio da ONU como campeão mundial na luta contra a fome


Depois de a revista Time publicar que o presidente Lula é um dos homens mais influentes do mundo, agora ele recebe um novo prêmio, desta vez o de "Campeão Mundial na Luta contra a Fome", da ONU, que será entregue pela diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos, PMA, Josette Sheeran, que inicia visita ao Brasil na próxima semana.Segundo o PMA o prêmio destaca a importância da parceria com o Brasil em momentos como o terremoto no Haiti e representa ainda o reconhecimento dos esforços do governo do pais no cumprimento das Metas do Milênio.Além do encontro com Lula, Sheeran visitará projetos do programa Fome Zero em cidades próximas a Brasília. E no dia 10, participa do encontro "Diálogo Brasil-Africa sobre Segurança Alimentar", que envolve o governo brasileiro e ministros da agricultura de vários países africanos.O diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil, Unic-Rio, Giancarlo Summa, falou à Rádio ONU sobre a importância do prêmio."É um reconhecimento do papel que o Brasil desempenha na luta contra fome, seja internamente e no cenário internacional. O Brasil está empenhado na África em cooperação técnica com dezenas de países" afirmou.


Rede Brasil Atual – 07.05.10

No coração da gente - Emerson Monteiro

Passadas se foram situações emocionais e, por vezes, permanecem no âmago do peito, bem no crivo do coração, retardatárias, incoerentes, as mesmas impressões de intenso fervor indefinido nas palavras silenciosas que gritam. Há pouco, impactos vividos no mais profundo da alma pediam gritantes explicações sem resposta, pois dependiam do outros, que duraram dias, meses, existências.
Quais zumbis de qualidade e cores estridentes, tons maiores de ansiedade e desprezo, tais formações nodulosas, invadem a serenidade apenas aparente do cotidiano, filhos diletos das paixões universais, no palco interior desse peito, se arriscam percorrer, por tempo descomunal, os intermináveis corredores dos recônditos lugares do corpo, entra na trilha dos pensamentos através de excursões permanentes de retorno intermitente.
Nisto, bestas solitários portadoras de saudades sombrias, arrastam consigo bolsas pesadas de dúvidas impermeáveis, mágoas fragorosas, culpas sepulcrais, exigências endurecidas, vastas penumbras recorrentes, e, contra a vontade, nos transportam a dimensões reservadas de cavernas escuras, quais guerreiros de dramas ancestrais, postigos de chapéus empoeirados nas jornadas sórdidas da experiência, largados ao abandono diante do monturo supérfluo de horas mortas.
Restos das refeições felizes ali se mexem encarquilhadas, larvas da série da gente nos instantes saboreados quase sempre ao lado de criaturas humanas bonitas, charmosas, fragmentos fantasmas de espelhos desbotados que amareleceram, pétalas secas de livros atirados nas gavetas esquecidas; eles a nos esfregar a cara de palpites pegajosos, reclamos de outras margens impossíveis, erros aflitivos de lances duvidosos, digamos em resumo.
Nalguns momentos, funcionam, sem quaisquer cerimônias, de inimigos da paz interna das tréguas, a chutar contra o patrimônio pessoal. Noutros, agem parecido com micro e dolorosos incidentes suspensos no horizonte do tórax; convergem nuvens de chumbo que teimam em não chover jamais; máscaras de azia, bolos estomacais, cólicas, coceiras...
Só raramente advérbio de modo providencial, menos denso, chega-nos desconfiado em socorro, trazendo notícias de jardins ensolarados, alentos ainda tardios, nervosos, a nutrir de reparo às frustrações lancinantes, marcas vermelhas na vastidão das ilhas abandonadas, testemunhos inconvenientes de perdidos sonhos, amores equivocados, inúteis paisagens das insônias, constelações do universo distante, nos mundos inconscientes; esperanças, talvez, de acasos fortuitos, portais reencarnatórios das soluções futuras, tropel harmonioso dos degraus da verdade eterna.
São os vultos sorrateiros de si próprio, matéria vigorosa da individualidade prepotente, sentimentos, digamos assim, elaborados na ausência da ternura, na busca de termos melhor categorizados.
Bom, nisso de identificar os tais estilhaços flutuantes da corrente sanguínea do ser abstrato e sua dor de existir, império talentoso dos casos clínicos particulares das criaturas atuais, invade-se o tempo da eternidade, nos seis pontos cardeais do intrépido infinito; se chora sozinho, se chora pelos cantos; elaboram-se cantilenas melodiosas, versos quadrados, modernos, perpassados de litanias fragorosas, vendavais insubmissos de súplica que varrem impiedosos as superfícies emolduradas nos eufemismos culturais de letras maiúsculas, decentes, dos valores imortais. Elaborações filosóficas exemplares trabalham as lufadas de tempestade, transformando-as em brisas suaves de manhãs inesquecíveis, conceito civilizado da persistência, feras descomunais extintas se nos mudam mais mansos animais de estimação; quadros fortes de museus; livros encadernados e suas lombadas brilhantes, dose certa depositada nas prateleiras das academias públicas, pedaços conservados nos sarcófagos das gerações futuras; fogueiras apagadas viram rescaldos mornos, a encher de lágrimas doces olhos ardentes...
E cada um rompe o hímen da cena seguinte, com as faces das corujas atormentadas, porém calmas no esquecimento de quem vive com pressão cardíaca nas raias da normalidade, medidas ideais do expediente, destemor na ponta da língua afiada, épicos do espetáculo revivido, máquinas da permanência, seres eficientes do inesgotável destino, altivos palatinos da utopia, páginas de velhos almanaques, último lançamento de grife, etc. Sentimento, generosidade, coração. Expressão, animação, vida. A alma perpétua deste mundo. Veemência de sentimento; entusiasmo, arrebatamento. Pessoa, indivíduo... Arre, quanta letra em espaço tão pequeno só para dizer que dói viver, e angustia sentir paixão não correspondida...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O metalúrgico e o marinheiro

Direto do Escrevinhador: 


"O governo Lula marca pontos, e ajuda a (des) travar o bom debate político no Brasil, quando assume posições como essa:  batizou o primeiro navio montado no Brasil, depois de 13 anos, com o nome de João Cândido - o herói da Revolta da Chibata. Ele, o marinheiro, foi o mote para a monumental canção "Almirante Negro" - de João Bosco e Aldir Blanc (este último, certamente, um dos dez maiores letristas da nossa riquíssima música popular). Se tiver interesse em saber mais, clique aqui - http://www.rodrigovianna.com.br/brava-gente/as-pedras-do-cais-ja-nao-sao-o-unico-monumento-para-o-almirante-negro.
Com o nome do marinheiro no casco do navio, Lula politizou (no bom sentido, da grande Política) um debate que poderia ser puramente econômico.
E, aliás, trata-se economicamente de um salto gigantesco. Leia mais aqui, no blog da Petrobrás - http://www.blogspetrobras.com.br/fatosedados/?p=22562.
O navio-petroleiro João Cândido significa que a a indústria naval renasceu, hoje, em Pernambuco. É o Estado (nacional) cumprindo o papel de indutor do desenvolvimento.

Tudo ao contrário do que os tucanos fizeram no Brasil!  

Os tucanos liquidaram a indústria naval. E queriam liquidar a Petrobras. Agora, a empresa  voltou a encomendar navios no Brasil. E - com isso - fez renascer os estaleiros nacionais. Mais que isso: a indústria naval agora tem um pé no Nordeste!

Só isso já seria um fato marcante. A se comemorar.
Podemos comemorar também o fato de o Brasil agora ter navio com nome de marinheiro. Antes, eram só almirantes.
Nada contra os almirantes. Mas é bom ver o Estado brasileiro romper a tradição estamental.
O Estado hoje não pertence só à Casa Grande. 

Trata-se de um fato emocionante. Tão emocionante como a música de Bosco e Aldir" -http://www.youtube.com/watch?v=f9c7sY5TNTQ

SOPA DE LETRAS


Socialismo: uma questão de fé? - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Vou postar aqui nos blogs da região, por sugestão de Dihelson Mendonça, entre dois e três textos, sobre o assunto do Socialismo hoje. Pretendo, de cara, superar aquele velho debate da Guerra Fria em que se apresentavam as vantagens e desvantagens do sistema de produção capitalista e do sistema de produção socialista. O assunto é histórico e as opções em história nunca são atos de fé e tampouco, uma fabulação de como deve funcionar o mundo.

Um fato central é que ao se discutir o socialismo, necessariamente se debate a superação do capitalismo que historicamente o precede. Por uma questão filosófica, na raiz do pensamento socialista histórico, a sua emergência se daria pelas contradições entre os detentores de capital (capitalista, ou classe burguesa) e os trabalhadores explorados pelo capital (operários) e que resultaria noutra forma de organização da produção, distribuição e consumo de bens.

A análise histórica, também, tem demonstrado que tanto a formulação dos objetivos políticos dos partidos socialistas, quanto a realidade transformadora, tem se acelerado com base nas crises do próprio capitalismo. Estas crises cíclicas do capitalismo geraram conflitos armados de intensidade, revoluções políticas e, também, a emergência de certo radicalismo assentado na estrutura do Estado Capitalista, que são os regimes fascistas no século XX. Observação: não inclui no mesmo bolo os regimes soviéticos e chineses, pois de algum modo não eram capitalistas no sentido liberal de sua raiz.

Portanto, não se falou, até aqui, em atos de fé, em catecismos ou em um idealismo meramente espiritual. Tudo se encontra na base da vida material das pessoas, na economia como se reconhece desde o século XIX. E por isso que as crises do capitalismo se mostram tão agudas como momentos transformadores.

Agora mesmo, no caso dos EUA, da Grécia, o comportamento errático das bolsas; a Letônia, a Romênia e outros que começarão a ser notícia nas próximas semanas; em tudo campeia a contradição. Revoltas nas ruas de Atenas. Nos EUA pelo menos dois atentados, aquele do avião e este em Time Square não se originam no surrado terrorismo islâmico, mas na frustração do homem médio americano com a crise. Mesmo este caso do Paquistanês, não passa de um americano frustrado. Além do mais a ultra direita americana tem se tomado de um protagonismo que deixa de joelhos o velho modelo da democracia liberal.

O mais crítico é que a contradição é entre o capitalismo financeiro e a social democracia que pretendia reformar o capitalismo antes que este evoluísse para a forma socialista. Esta contradição, no que se costuma identificar como Neoliberalismo, significou um retrocesso histórico fundamental, o capitalismo é incompatível com os chamados direitos sociais (incluindo previdência, serviços públicos, trabalhistas etc.).

As lições políticas, os objetivos e as ações adquirem feições ao longo da agudeza contraditória. Por exemplo, nas ruas da Grécia a queima de bancos com a morte de três pessoas. A frustração popular com o próprio parlamento, que aprovou, por maioria, o sacrifício popular, enquanto gritavam nas ruas. Do mesmo modo que se viram a queda dos regimes comunistas no leste europeu, o movimento popular é capaz de subverter a ordem como se encontra estabelecida.

Isso irá piorar pela inflexibilidade do sistema financeiro, todo ele corroído por falsidades, com uma necessidade insuperável de mais juros e lucros. Além do mais a interligação entre os bancos, arrastando para a cena política os próprios Estados Nacionais que, ou bem atendem aos bancos ou ao povo nas ruas. Além do mais nesta altura o valor dos negócios, efetuados em bolsa de valores, estão absolutamente sem parâmetros. A verdade é que um simples “erro de digitação” pode levar a bolsa de N. York a um novo crash. Ontem os prejuízos de certos investidores foram imensos e a credibilidade desta bolsa está comprometida.

Para sintetizar este clima, vou apresentar um trecho de entrevista do Rapper, Mano Browm ao responder sobre o que achava de um dos candidatos (as) à presidência da república, o qual omito o nome para não reduzir a argumentação a esta disputa eleitoral em curso:

“O(a) fulano(a) ? O(a) fulano(a) é um(a) cara neutro(a), é um(a) cara neutro(a). Se ela(e) tiver uma criança pobre magra e uma criança rica gordinha e ela(e) tiver um sanduíche, ela(e) joga para o alto e faz aleluia. Ele(a) não dar para o pobre. Esse é o tipo de justiça que ele(a) faz. Esse é a(o) Fulana(o), malandro. Não espere dele(a) um sentimento que um negro teria, um cara operário. Ela(e) é um(a) cara de classe média da ...., filho de ...., que trabalhou, lutou muito também, que dar muito valor pru dinheiro, pru status que ela(e) alcançou, e pela luta da família pobre .... dele.”

quinta-feira, 6 de maio de 2010

cartum por BANX


Maestrina Divani Cabral no CARIRI ENCANTADO de número 50!

Com grande alegria é que receberemos no programa Cariri Encantado, ESPECIALMENTE nesta sexta-feira quando comemoramos o programa de número 50, um dos ícones da nossa cultura que é a Profa. Maestrina DIVANI CABRAL.
DIVANI
tem dedicado com entusiasmo parte de sua vida ao projeto da Sociedade de Cultura Artística do Crato-SCAC, responsável pela gestação, educação e moldagem de muitos talentos na área de música, teatro e artes plásticas na região do cariri.

Uma dentre tantas atividades preciosas à escola, destaca-se a manutenção dos corais infantil e adulto regidos por Divani- com um cuidadoso repertório que transita entre o clássico e o popular- e já foram premiados em diversos festivais acontecidos no território nacional.
Ultimamente, a SCAC foi reconhecida pelo Ministério da Cultura e transformada em Ponto de Cultura. O que muda, daqui pra frente? Do que carece ainda a SCAC? A comunidade pode ajudar mais?


ENCONTRO MARCADO: Programa Radiofônico Cariri Encantado Sexta-feira, dia 07.maio de 2010, das 14h às 15h, Rádio Sociedade Educadora do Cariri, 1020 Khz. Produção: Oca-Officinas de Cultura, Artes & Produtos Derivados Revista Virtual CaririCult. Apresentação: Luiz Carlos Salatiel

Flamengo e Coríntians - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Que palavras para falar de Flamengo e Coríntians ontem no Pacaembu? Jogo de noventa minutos, prá cima, pressionando, arrumando, pelo centro, laterais, na risca do campo. Penalidade feita de má fé? Nem sei se houve, mas alguém pode achar e me calo. Mas as faltas que aconteceram foram de disputa, no drible, no desarme, na faina para atingir a meta da rede.

Os cartões amarelos foram mais do poder de disciplina do juiz do que deslealdade dos jogadores de ambos os campos. Nem provocação entre jogadores, que não apenas aquelas do entrechoque, e o jogo não era qualquer um. Tratava-se dos times das principais torcidas nacionais, uma no Rio e resto do Brasil e a outra em São Paulo.

O Coríntians vinha no embalo, crescendo no campeonato, mereceu a classificação para esta fase. O Flamengo era como certo Exército Brancaleone, atrapalhado, como que avançando na probabilidade e acertando na sorte. A torcida acreditava, é da natureza de toda torcida, acreditar para soltar o grito com mais força ainda, contra os ouvidos de quem duvidava.

E veio o jogo do Maracanã. Apenas um bobalhão como eu, que não vinha de partida em partida, somente tomava pulso pelas manchetes, nem lia a matéria, disse: o Flamengo tira o Coríntians. Sem base qualquer, referência alguma, apenas um sentimento do passado e o Flamengo do tamanho do Maracanã. Opa! Esta figura é banal?! Tamanho do Maracanã, mas não falei das dimensões físicas do estádio. Quis dizer do tamanho de espírito de jogo e do volume de credo na camisa do Flamengo.

E ontem o Coríntians precisava de dois gols e o fez com a maior categoria, abafando a perplexidade do time do flamengo, terminando o primeiro tempo com agenda marcada para a fase seguinte. A torcida do Coríntians era de uma beleza que só existe no futebol e no Brasil. Importam as besteiras policiais do pós jogo, mas falo daquele momento. Dos rostos em felicidade e este substantivo é tão importante que se inscreveu até mesmo na enxuta Constituição dos EUA. A felicidade pode se inscrever entre os direitos fundamentais da humanidade.

O segundo tempo começou com o treinador do flamengo dizendo que o time voltaria completamente diferente. Confesso que desdenhei a esperança do técnico. Mas não tive oportunidade de conjugar os tempos do verbo desdenhar, o Flamengo era outro em campo e nem passei da primeira pessoa, quando o Coríntians levava um gol. E tudo em campo mudou e o Coríntians, embora ganhando no jogo, perdia no campeonato.

E eis que o efeito causado pela psicologia coletiva, pelo histórico dos embates entre ambos, pelo peso da camisa frente à esperança frustrada da torcida, dar aos eventos de bola toda uma “sorte” cujo dado parece viciado. Uma jogada certa, precisa, se frustra por centímetros. Um ataque perfeito esbarra no bate e rebate, meio atordoado, do adversário e, resulta em nada. Ao contrário, o adversário mesmo quando erra, tem por efeito perigo às traves que não podem levar gol naquele momento.

E foi assim que minha alegria de torcedor foi se amargurando com os olhares sofridos dos Corintianos. Com suas unhas moídas na ponta dos seus dentes, ora de um dedo da mão direita e em seguida, para outra mão e nem tinha acabado os restos das unhas anteriores. A moça chorando no abraço ao namorado. Aquele rosto por trás da tela do campo, um pouco na sombra, profundo como as crateras da lua.

Se tivesse o dom de sustar a dor dos Corintianos, não o trocaria certamente pela alegria de torcedor do Flamengo, mas o faria com a compreensão de quem é o Coríntians. Não o seu passado de glória, mas a sua presença, da glória deste povo sofrido da periferia desta descomunal cidade. Deste povo que é feliz e por assim o ser, diz de uma humanidade mais plena e menos artificial.

Mas, confesso, no Rio sou Flamengo, em São Paulo Coríntians e no Ceará, sou Ceará. E do mesmo modo tenho a compreensão pelos outros que não são perfeitos.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COMPOSITORES DO BRASIL


DO FINO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS

Carlos Lyra Bóscoli e Menescal

Por Zé Nilton

O professor universitário e crítico de música e literatura, J. Jota de Moraes, escreveu uma resenha sobre bossa nova, para a coleção de Música Popular Brasileira, editada a partir de 1974, pela Editora Abril. Nela o crítico enaltece o movimento da bossa nova e cita três compositores como os mais pródigos em composições que direcionaram o movimento para o Brasil e o mundo. Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e Roberto Menescal são da geração primeira do novo movimento, ao lado de Tom Jobim, Vinicius e tantos outros.

Há mais de 50 anos de sua criação “a bossa nova sem dúvida continua possuir especial importância para a moderna música popular brasileira, a ponto de significar para alguns a própria modernidade nesse campo”, escreveu.

Sem falar na renovação estética a bossa nova trouxe uma abertura fenomenal no interior da música e permitiu o engajamento de uma grande parcela de cantores, compositores, instrumentistas na edificação de uma forma de expressão musical eminentemente urbana.

Talvez seja por isto que ainda na década de 60 verificaram-se momentos de ruptura entre seus adeptos e outros ciosos por uma música mais engajada na nova ordem social, sinais de um pronto encaminhamento para a música de protesto.

É o caso de Carlos Lyra. Oriundo da vanguarda dos movimentos de esquerda foi se distanciando, sem perder a forma e a tonalidade da bossa nova, da temática do amor, do sorriso e da flor. Foi um dos primeiros a re-elaborar o discurso musical da bossa nova. Inovando o conteúdo, incorporando letras de teor político e social, contribui para inovar a sua própria musicalidade.

Nesta quinta feira vamos dar início a uma sequencia de programas falando da bossa nova porque o assunto é tão vasto como é a sua produção musical.

Carlos Lyra, Bôscoli e Menescal é o assunto do Compositores do Brasil de amanhã, 6, quando falaremos um pouco dos primórdios da bossa nova enquanto ouviremos:
LOBO BOBO, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, com João Gilberto;
O BARQUINHO, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, com Pery Ribeiro;
FIM DE NOITE, de Ronaldo Bôscoli e Chico Feitosa, com o Coral de Ouro Preto;
INFLUENCIA DO JAZZ, de Carlos Lyra, com Carlos Lyra;
RIO, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, com Sylvia Telles;
TELEFONE, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, com o conjunto Os Cariocas;
MARIA MOITA, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, com Nara Leão;
A MORTE DE UM DEUS DE SAL, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, com Roberto Menescal;
PAU DE ARARA, de Carlos Lyra e Vinícius de Morais, com Ary Lobo;
MARCHA DA QUARTA FEIRA DE CINZAS, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, com Elis Regina;
PRIMAVERA, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, com Carlos Lyra,
A VOLTA, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, com Elis Regina

Quem ouvir verá !

Programa: COMPOSITORES DO BRASIL
Rádio Educadora do Cariri
Quinta-feiras, de 14 às 15 horas
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Apoio: Centro Cultural Banco do Nordeste.
Reestrasmitido pela www.cratinho.blogspot.com

CONFERÊNCIA MUNICIPAL DO ESPORTE


Com a participação de vários atores dos segmentos do esporte estavam presentes no último dia 30/04, no teatro Salviano Arraes Saraiva em Crato de acordo com a lei nº 2.553/2009 de 25 de Junho de 2009 que a mesma dispôe sobre a instituição do plano Municipal de Desportos e a criação do Conselho municipal de Desportos como política de apoio e incentivo ao Esporte no municipio do Crato, quando na oportunidade foi eleito o Conselho Municipal do Desporto que foi composto por membros nomeados pela Secretaria de Cultura, Esporte e Juventude, discriminadamente :
Danielle Maria Ferreira Esmeraldo Presidente do Conselho
Luciano Carvalho das Neves Diretor de Capatação de Recursos
Amaury Azevêdo Diretor de Esportes Colegiais
Baden Powell Diretor de Esportes Amadores
Adriano Modesto Diretor de Esporte e Formação
CONSELHEIROS AUXILIARES :
Antonia de Sousa Aguiar
Luis Oliveira Cavalcante
Jânio Carlos Ribeiro Bastos
Evilásio Martins Vieira
Ismael da Silva
José Adriano Cruz Saraiva
José Flávio Silva Batista
Roberto Lima Araújo
Clailson Bezerra Oliveira
O mandato que cada membro do Conselho Municipal de Desporto terá a duração de 2 (dois) anos sendo permitida uma recondução.
A CONFERÊNCIA MUNICIPAL DO ESPORTE, contou com a participação de palestrantes renomados como o Prof. Evilásio Martins Vieira que destacou a relação intersetorial de politicas de esporte e lazer com a educação e saúde, a segurança pública é o ponto de partida para legitimar, fortalecer e ampliar o alcançe de programas desenvolvidos pelo ministério do Esporte, bem como favorecer a a inclusão social. Propondo caminhos para fomentar a educação esportiva dos Brasileiros e dinamizar a relação da população com o esporte educacional, recreativo e de lazer. O prof. Luciano das Neves Carvalho salientou que deve ser preservado o caráter multiprofissional da área, abrangendo as práticas esportivas, recreativas e de lazer até as de alto rendimento, na busca da garantia da democratização do acesso, da inclusão e desenvolvimento humano. nessa linha o mesmo propôe que a formação esteja articulada com a valorização profissional para que se assegure melhores condições para a atuação do sistema. Com o tema Esporte, Saúde e Qualidade de Vida e a democratização do acesso ao esporte e lazer, assim como a prática frequente de atividades fisicas podem contribuir para melhorar a qualidade de vida da população, há que se tenha uma visão intersetorial de que o esporte e o lazer devem ser considerados na perspectiva de uma politica urbana. Os espaços urbanos possibilitem a realização de atividades fisicas e de lazer, bem como o acompanhamento profissional de modo que a saúde e o desenvolvimento social estejam contemplados justificou o Prof. Marcos André Rodrigues da Silva . Durante a Conferência algumas sugestões feitas pela plenária, que será remitida para a Conferência Nacional do Esporte que acontecerá em Brasilia - DF. O que se espera com a criação deste conselho é que se possa fomentar e incrementar e incluir o maior numero de esportes e os seus protagonistas e que sejam contemplados. Precisaremos conversar e ouvir todos os segmentos que fazem a cena esportiva em nosso municipio. MEXA-SE.

antes ARTE do que tarde







HÁ OLHOS QUE SÓ OLHAM O SONHO;E,QUANDO O SONHO SE DISSIPA,FICAM CEGOS.-NUNO JÚDICE-

Ecos da Crise do Capitalismo - por José do Vale Pinheiro Feitosa

A PRIMEIRA VÍTIMA DAS CRISES DO CAPITALISMO É SEMPRE A CULTURA

A primeira vítima sempre é a cultura. Por ser supérflua?

Engano total.

Exatamente por ser essencial. A cultura é quem faz funcionar o cotidiano das pessoas. É quem revela o tipo de mundo que desejam e quem expõe os elementos que dão sentido à complexidade da vida nos centros urbanos e à rede de cidades que se entendem. A cultura é o frontispício do arcabouço social, onde estão seus acordos econômicos e políticos.

Quando Decretos Presidenciais, alegando contenção de gastos com a crise econômica, reduzem os gastos da cultura, apenas começa a meter a faca profundamente nas entre costelas do povo. Agora virá o desemprego, o corte de direitos, o desespero e a miséria.

Silvio Berlusconi, da Itália, assinou decreto reduzindo, drasticamente, o orçamento dos entes líricos do país. O Le Scalla irá reduzir pessoal e os que ficarem terão perda de 20% nos ganhos. Todos os teatros italianos estão em greve, desde a assinatura do decreto. Um dos mais importantes conservatórios do mundo, a Academia di Santa Cecilia, parou.

O grande Maestro Zubin Mehta regeu em praça pública o Coro e Orquestra do Teatro Comunale di Firenze. A canção escolhida foi a ária “Va pensiero” da ópera Nabuco de Verdi. Com escolha sugestiva, esta canção tem um significado patriótico para a Unidade Italiana. Quando de sua apresentação para o Imperador Francisco José (o marido de Sissi) houve uma grande manifestação de patriotismo da platéia presente, constrangendo o Imperador que dominava o norte da Itália.

Do ponto de vista econômico, por outro lado, o ataque à cultura italiana, só aprofunda a crise. O país tem no turismo uma das suas principais receitas. Sem os seus teatros líricos ficará mais vazia, com menos compras no seu comércio e mais desemprego.

DO MODO COMO SE PRONUNCIA, A PEDOFILIA É PARTE NATURAL DA SOCIEDADE SEGUNDO ALGUNS HIERARCAS DA IGREJA CATÓLICA

A Igreja Católica engendrou um discurso perigoso para ela ao tratar da Pedofilia. Se a Igreja é necessária para “salvar” as pessoas, lhes abrir as portas da bem aventurança, que discurso é esse afinal que apenas justifica os pedófilos intra-muros, acusando aqueles extra-muros?

Se a pedofilia não é moralmente condenável, o que resta a Igreja do ponto de vista da sua essência como instituição? Eu me explico melhor. Ninguém exige moralidade de uma pedra, ela é inerte ao assunto. Quando o Arcebispo de Porto Alegre, Dadeus Grings diz que a sociedade é pedófila, deu a ela a mesma natureza inerte da pedra em face do assunto. Especialmente quando esta sociedade é de um país cuja maioria é católica.

Ao assumir esta falibilidade da igreja, por extensão, embora não tenha dito, assume a do próprio Papa. Ou a Pedofilia é moralmente ruim e não tem que fazer campeonato entre sacerdotes, médicos, educadores e empresários para saber-se quem o é mais ou se toca o dedo na ferida. Então se a pedofilia é ruim para a vida em sociedade, este é um assunto moral e que certamente poderá ser tratado pelas pessoas e pelas instituições como forma de transformação e conquista.

AGENDONA!





(clique nas imagens para melhor visualização)
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Atenção Atores e Atrizes do Cariri !

Nos dias 5 e 6 de maio, quarta e quinta-feira, a equipe de produção do seriado "Sedição de Juazeiro" estará no Auditório do Centro Cultural do Araripe para realização de testes para compor o elenco, pessoal de apoio e figuração do referido seriado.
O horário dos testes será de 8:00 às 18:00h com o intervalo do almoço, entre 12 e 14 h.

Os interessados em fazer parte desse momento cinematográfico importante para nossa região devem comparecer nas datas acima citadas no Auditório da RFFSA e procurar o pessoal da produção.

Maiores informações na Secretaria da Cultura, Esporte e Juventude (Crato)
ou pelo Fone (88) 3523-2365

Organizado por: Kaika Luiz

terça-feira, 4 de maio de 2010

Fatinha Gomes: As mulheres que comiam flores nesta quinta

verba volant,scripta menant


As tias high-tech emburrecendo com a televisão - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Minhas tias Rosa, Maria e Raimunda estiveram, neste amanhecer, envolvidas numa quente discussão. Tudo por causa de uma notícia nos jornais on-line da internet. A “chamada da matéria” dizia: A televisão me deixou burro demais.

- Eita, que sujeito mais fraco, até a televisão é capaz de deixá-lo fraco das idéias! – Abriu o verbo minha tia Maria, mas Rosa, após ajustar os óculos e correr os olhos no corpo da matéria, logo questionou:

- Menina, num é o sujeito que é fraco. A televisão é que um veneno para a inteligência. Raimunda que aproveitava o diálogo das irmãs para avançar na leitura deu veredicto:

- É pesquisa, viu. Tudo foi pesquisa. Tá provado, comprovado e aprovado: “Assistir à televisão emburrece as crianças”. Eu bem digo que é melhor contar estrelas do que ficar vendo novela. Vocês não despregam os olhos da televisão na hora da novela. Quando é noticiário, todo mundo quer, até futebol já estão assistindo e agora deram para se viciar em filme. Vão ficar igualzinho a estas crianças do Canadá: piores em matemática, comendo junk food (pronunciada como junque fó odi) e sofrendo mais bullying (pronúncia do perfeito inglês dos sertões, não sem gaguejar na leitura: bu li li ingue). Raimunda terminou sua linha argumentativa e Rosa rebateu:

- Ora! Se eu ficar burra nas aritméticas eu tenho os dedos prá contar e estas comidas e sofrimento eu nem sei o que é. Tu sabes me esclarecer? Raimunda, embora tivesse ousado pronunciar as palavras estrangeiras, não tinha a menor idéia do que se tratava. Então, abriu os olhos e fez um belo discurso nacionalista como fuga do núcleo explicativo:

- É um absurdo. Falta de Governo. De vergonha na cara. A culpa, também, é deste povo besta que nem sabe defender o próprio valor. Nossa língua é mais completa e inteligente do que o tal do Inglês, mas estes abestados não sabem dizer nada que não seja falando estas palavras de abestado. Onde já se viu menina! Ninguém sabe nem explicar o que escreve. É tudo macaco de imitação, papagaio da língua solta, espelho que não tem ciência da imagem que reflete. – Raimunda salvou de explicar o que era Junk Food e Bullying a Rosa, pois Maria adiantou a conversa com outro trecho da matéria:

- Olhem aí! Viram! – as outras irmãs, ajustando mais ainda os óculos, aproximaram o rosto do monitor, enquanto Maria traduzia – Os americanos, franceses e australianos já nem querem que as crianças menores assistam à televisão. Até para crianças maiores querem limitar o tempo. Mas Rosa, na eterna dúvida, demonstrando que não ver televisão tanto assim:

- Mas e o que causa o problema? É a luz do aparelho da televisão, as imagens ou as besteiras dos programas que botam as crianças para assistir? Raimunda e Maria trocaram breve olhar e continuaram a leitura para ver se havia uma explicação para a dúvida da irmã, até que Maria falou:

- É a perda de tempo e aquisição de hábitos ruins. Se perde tempo, é porque fora da televisão teriam mais proveito. Se pegam coisa ruim, é porque os programas são ruins mesmo. Mas aí Raimunda rebate:

- Mas a burrice fica para toda a vida! – Rosa foi ao final e concluiu:

- O problema é dos programas e do aparelho da televisão com esta correria das imagens de um lado para outro, com som nas alturas, cores fortes e muito piscar de luz. Pronto, era o que Raimunda queria como lição do dia:

- Viram como é melhor a gente ficar juntas na internet. Nós temos tempo de discutir, conversar e não ficar de olho aboticado nesta tela.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os sinais políticos da crise do Neoliberalismo - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Todos sabemos os componentes econômicos, sociais e políticos da grande crise do capitalismo nos anos 30. Aliás, a tendência é se considerar que a crise foi do principal arcabouço mundial do liberalismo econômico, do mundo ocidental, após ter acumulado milhões em capitais com a colonização das Américas, da África e até da Ásia. Por isso quando estourou a guerra de 14, ela foi mundial e terminou provocando a Revolução Russa, que significou uma enorme barreira ao modelo expansionista do Ocidente.

As lutas do século XX, entre guerras formais, rebeliões, razias de fome, migrações e fugas, além de tantos efeitos conhecidos, resultaram em efeitos políticos como o Fascismo, ou seja, a emergência de uma extrema direita. O que não se tinha em conta é o que a atual crise promoveria.

No primeiro momento tentaram salvar as instituições do capitalismo financeiro, à custa dos recursos e em detrimento do programas sociais. Desde a emergência do Neoliberalismo que os campos em luta estavam definidos: não é possível o crescimento do lucro com a aplicação das riquezas no bem estar social. Bem estar social traduzido como previdência e assistência social, direitos sociais, emprego, renda, habitação, transporte, segurança, saúde e educação.

Finalmente o próprio Neoliberalismo assumiu as teses de Karl Marx, este “bem estar” é incompatível com o capitalismo. E como um partido em perfeito domínio do campo de ação, partiram para a prática global, especulando com as moedas nacionais, emprestando capitais a juros estratosféricos, levando os países à bancarrota e, por último, aplicando “remédios” que salvam o resgate dos seus capitais e destroem os regimes em que existiam algum bem estar social.

Esta é a essência do que está acontecendo na Grécia. Por isso a revolta popular e muito mais acontecerá. Todo europeu bem informado já se deu conta que o Euro está sob as mesmas contradições das grandes moedas do capitalismo ocidental – dólar e libra. A moeda não é mero papel, ela representa os compromissos históricos de suas sociedades. Por isso esta grande briga sobre a liberação ou não dos recursos para a Grécia.

A Chanceler Alemã quer apertar a garganta dos gregos, que já estão na rua da amargura. Qual a motivação maior de Angela Merkel? Se os gregos não pagarem as prestações que devem aos bancos na metade do mês de maio, os bancos Alemães e Franceses, grandes especuladores em Hedge com a moeda Grega, entram em crise. Então que paguem o que deve com o sangue do povo grego.
Mas por outro lado o povo grego e, de resto, todo o povo europeu sabe o quanto foi dos recursos públicos para salvar ditos bancos. Mesmo assim, o lucro deles não cessou, pois, como piranhas num rio amazônico, partiram para especular com o próprio euro e com as reservas de moedas em cada país. Resultado, agora se exige sacrifício com o povo e não se regulam os bancos?

Esta é a grande discussão na Europa, esfolam o povo e não regulam os bancos. Até por que nesta altura o problema atinge o coração das instituições políticas da Europa. Por isso é que a Chanceler acrescentou ao seu pedido de sacrifícios sobre os gregos, a idéia de regulação do sistema financeiro.

Enfim, o Neoliberalismo não iria morrer naturalmente. Ele lutará e com vigor. Tentará navegar nas águas turvas da crise econômica e social. Crises, que já sabemos, ao atingir as pessoas e suas famílias, criam o ambiente a todo tido de experiência, muitas delas irracionais e, que embute muita violência. Por isso, Noam Chomsky já alerta para a emergência de uma ultra direita no EUA.

Leiam o que diz o pensador segundo o Diário La Jornada: “Nunca vi algo parecido em minha vida”, declarou Noam Chomsky. Entrevistado por Chris Hedges para o site de Internet Truthdig, acrescentou que “o humor do país é assustador. O nível da ira, frustração e ódio a instituições não está organizado de maneira construtiva. Está desviado para fantasias autodestrutivas” em referências a manifestações populistas da ultra direita.

Um ódio ao governo, aos políticos e às instituições, que abre espaço para todo tipo de aventureiro. O mesmo elemento de racismo vigente nos anos 30, então contra os judeus e, agora, contra Latinos e Negros. Mais uma vez as bandeiras desfraldadas da supremacia branca justificam todo tido de perseguição e constrangimento possíveis. Agora mesmo, a governadora do Colorado, aprovou uma lei de cunho fascista que permite deter qualquer pessoa sem os papéis e que tenham semelhança com migrantes ilegais.

“É muito similar à Alemanha de Weimar. Os paralelos são notáveis. Também havia uma desilusão com o sistema parlamentarista”, apontou Chomky na entrevista. “Os Estados Unidos têm muita sorte que não tenha surgido uma figura honesta e carismática” já que se isso acontecesse “este país estaria em verdadeiros apuros pela frustração, a desilusão e a ira justificada e a ausência de uma resposta coerente”.

Seguremos a onda que a crise continua em curso. O mesmo curso que já vinha das teses do Neoliberalismo, a de que deixe o espírito selvagem do capitalismo funcionar que tudo o mais se resolverá. Ou seja, a função de capitalização e acúmulo.

A pessoa sem Deus




“A pessoa que fuma sabe que o cigarro vai fazer mal, mas continua assim mesmo. Depois, adoece e mesmo assim continua fumando. Assim, é uma pessoa sem Deus. Sabe que Ele está ali, mas não o procura”.
Do ex-governador José Serra, falando a fiéis em Santa Catarina.
Fonte: Viomundo. 

LIFE is a xerox...


domingo, 2 de maio de 2010

À direita de Marina Lima, donde veio para julgar marxistas e comunistas. - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Afirmando que a “revolução” (aspeado para especificar que é a marxista ou comunista que fala) se encontra num beco sem saída, Antonio Cícero, poesia, arte, filosofia, crítica, literatura e política, pretende pular o muro do beco. Qual beco e como?

O beco da superação do capitalismo e suas mazelas, o qual “nem os marxistas podem pretender saber como seria”. Como todo bom conservador, aponta o dedo para aqueles que pretendem revolucionar as estruturas vigentes do capitalismo.

E qual a acusação? A de que, pretensamente, se “julguem superiores e desejem o monopólio ético”. Superiores a quem? A todos que não tenham feito a crítica do “capitalismo, da propriedade privada dos meios de produção, das diferentes classes sociais nem dos flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano.” Em outras palavras quem faz esta crítica apenas ler horóscopo de astrologia como a muleta que vai buscar em Theodoro Adorno.

De qual ética? Da ética entranhada em Antonio Cícero. O valor intrínseco do modo de produção capitalista, do progresso decorrente deste e da democracia (que ele não gosta que se diga burguesa). Como valor intrínseco, o filósofo, que fez sucesso com as letras das canções da irmã, naturaliza o capitalismo e o declara irremediavelmente parte do mundo e das pessoas. Como disse, com outras palavras, um pouco mais eruditas, Yoshihiro Francis Fukuyama, o liberal mor do “fim-da-história”.

Este pequeno texto de Antonio Cícero, publicado aqui no Cariricult, por um fato curioso, talvez porque tenha gostado da pedrada crítica que poderia dar nos marxistas, não se apercebeu que ele era o próprio exemplo que Adorno apresentava. Ora, o texto parece não dar conta que o próprio capitalismo é fruto da superação de outro momento da história, conhecido como feudalismo. E que esta observação, apontava para aquilo que Marx foi, de alguma forma buscar em Hegel, que é o movimento da história. E veja que lá no final é neste “fluxo incessante” que ele busca sua solução.

Aliás, a superação do feudalismo não se deu apenas no campo das idéias (como forma acadêmica, pois em última instância as idéias representam a vida material e ética de todos), mas criando novas categorias sociais, econômicas e políticas tais como a burguesia, o operariado, o campesinato, as instituições burguesas, as lutas de classes, e no campo político a direita (ou conservadorismo agora não mais revolucionário da burguesia), a esquerda (oriunda das novas categorias sociais em luta com a burguesia) e toda alternativa ao conservadorismo como o Comunismo, Socialismo, Social Democracia, Anarquismo e outros mais.

Mas, ao, tentar, condenar os marxistas e comunistas a um beco sem saída, olhe que Antonio Cícero usa as mesmas categorias críticas da direita política contra os regimes comunistas e a social democracia nos anos noventa, quando o Muro de Berlim caiu. Pelas beiradas para não se mostrar de cara, pois ele não tem o caminho da superação, mas do aperfeiçoamento.

E tem um viés em Antonio Cícero que retorna novamente à citação de Adorno: o uso acadêmico das citações, a esgrima de citações para apenas confundir ou calar o “adversário” no campo das idéias. Ora trazer Badiou ou Mao Tsé Tung, fora do contexto das complexas análises que fizeram é apenas dar palavra final, em cima das costas de gigantes, especialmente se este não foi apenas teórico mas parte da práxis marxista.

E pronto e acabado, com alguém comentando que os socialistas pensam em dividir os bens dos outros, o pulo do muro que fecha o beco sem saída dos marxistas. E tem mais, com um tremendo “ato falho” ao citar que a miopia ideológica impede de ver que se tenha revelado um beco sem saída. Finalmente vamos não à crítica ao marxismo mas à contribuição de Antonio Cícero: é possível melhorar o mundo, “ele se encontra em fluxo incessante, com uma sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor”.

Tudo naturalizado: a sociedade é aberta sem a intermediação do dinheiro, os direitos humanos frutificam em árvores, a expressão do pensamento é livre como o céu é do “avião de carreira”, o indivíduo tem liberdade máxima compatível com as regras vigentes, as artes e a ciência não são intermediadas por capitais e poderes familiares e de grupos. Sinceramente, confesso minha incapacidade para criticar tal texto, o melhor seria recorrer a Stanislaw Ponte Preta e seu magistral Samba do Crioulo Doido.

a eterna permanência das coisas

Após beber seu cafezinho
não ponha a xícara suja
sobre a escrivaninha

(ou não se surpreenda
com as formiguinhas

de volta
e mais espertas).

Observe a vida paralela
além do seu conceito poético.

Além da sua pena.
Dos seus olhos.

Aquela atmosfera
que não se move
por sua presença.

Transforme logo esse vestido de noiva
em uma linda almofada para as traças.

SKULL BUS


SOM NA RURAL COMPACTO 07-08

sábado, 1 de maio de 2010

Claridade

Nasci para limpar os óculos.
Passar creme antimicose.
Consultar meu intestino
a cada flatulência.

Meu cachorro vive no açougue.
Meus gatos sobre os telhados.
Minha lagartixa sumiu de vez.

Não há como amar um par de botas.
Uma xícara povoada por formiguinhas.

Uma palavra suspensa.
Esquecida em alguma parada de ônibus.

A minha alma (se vejo bem)
tem garras, tem pele.

Confunde-se com tudo
deste mundo.

Formidável lâmpada apagada.
Fogem os besourinhos.

Poesia fraternal

Enrosca na pele
Tatua a alma
Terce com agulhas de veludo
O brilho na face
Atira com sopros
Cócegas na vida
Assim constrói
Entre olhos de carrossel flutuante
Uma rede aconchegante de lua
Um tempero de sol
A poesia nua
Poesia guardada com cuidado
Para resguardar a cor
Do som do tambor
E a leveza das nuvens
Eis nosso buquê escorpiano
Esculpido sutilmente em dia de Baco
Balacobaco comunal
Cheiro que faz dança
Em musica fraternal.

Alexandre Lucas

ver com os OLHOS livres


Encanto

Aquele flerte trocado
entre a menina skatista
penteado curtinho à nuca
um brinquinho madrepérola

e a estudante cabelos pretos
até a cintura
de mochila azul

foi uma bênção dos céus
antes que o semáforo despertasse.

E o intruso poeta
contentíssimo:

a menina skatista
puro charme afrodisíaco

a estudante tímida
a suspirar por dentro

(um perfume adocicado
envolvia aquele encontro)

e o parasita poeta
silencioso

admirando o esplendor da paquera
entre aquelas duas alminhas
do mesmo sexo.

O semáforo (completamente atordoado)
ergue, enfim, o olho vermelho
aos míseros mortais
dentro das carruagens frias.

Primeiro cruzou a skatista
voluntariosa e saltitante.

Olhei para trás:
a insegura estudante
fugira pulando calçadas.

Entristeci.

A ideologia marxista hoje

ANTONIO CICERO

A ideologia marxista hoje

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Hoje, nem os marxistas podem pretender saber como seria a superação do capitalismo
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JÁ CITEI uma vez, nesta coluna, a observação do filósofo Theodor Adorno no ensaio "As Estrelas Descem à Terra" de que, ao semierudito, "a astrologia [...] oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais supõe pertencer a uma minoria que está "por dentro'". Na época, mostrei que tal descrição convém também à ideologia religiosa do apóstolo Paulo, assim como à de Martinho Lutero. Pois bem, o fato é que ela se aplica igualmente bem a ideologias seculares, tais como o marxismo vulgar.
Embora tencione dar uma chave para o entendimento do mundo, como uma religião, o marxismo, longe de se tomar como religião, considera-se inteiramente racional, declarando-se tanto filosofia quanto ciência da história e da sociedade. Isso faculta ao semierudito ter-se, do ponto de vista cognitivo, como superior também aos eruditos que, por diferentes razões, não tenham adotado a concepção marxista.
Como, além disso, essa concepção do mundo quer fundamentar uma teoria revolucionária, tendo em vista a superação do capitalismo e a instauração do comunismo, sociedade em que pretende que não haverá mais propriedade privada dos meios de produção, nem diferentes classes sociais nem os flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano, os marxistas, já pelo simples fato de se posicionarem a favor de tal revolução, consideram-se, a priori, superiores, também do ponto de vista ético, a todos que não o tenham feito.
Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente desvalorizado. Nele, qualquer progresso é tido como meramente adjetivo, quando não fictício. A democracia existente -qualificada de "burguesa"- não é valorizada senão enquanto caminho para a revolução. Só esta deverá trazer um progresso real.
Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo. Não ignoro que, se questionados, certamente falariam em "socialismo". Concretamente, porém, que poderia significar para eles tal palavra?
Seu socialismo certamente nada teria a ver com a social-democracia, pois esta, sendo compatível com o capitalismo, não representaria sua superação. Tratar-se-ia então do socialismo como a estatização dos meios de produção, tal como se deu, por exemplo, na URSS?
Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a propriedade social dos meios de produção, os revolucionários russos supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista.
Será possível identificar a estatização com o socialismo? Friedrich Engels diria que não, pois afirmava que "quanto mais forças produtivas o Estado moderno passa a possuir, quanto mais se torna um capitalista total real, tantos mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores continuam assalariados, proletários. Longe de ser superada, a relação capitalista chega ao auge". Dado que a propriedade estatal dos meios de produção não garante a posse real deles pelos trabalhadores, ela é capaz de não passar de uma forma de capitalismo estatal.
A Revolução Cultural Chinesa pode ser entendida como uma tentativa de mobilizar as massas contra o estabelecimento de situação semelhante, na China. Seu líder, Mao Tse-tung, chegou a dizer: "Não se sabe onde está a burguesia? Mas ela está no Partido Comunista!".
É possível. Como, porém, a verdade é que as "massas" são inerentemente plurais, particulares, instáveis e manobráveis, o fato é que, na época moderna, qualquer "democracia direta" não pode passar de uma quimera. Não admira, portanto, que a Revolução Cultural se tenha tornado extremamente caótica e violenta, de modo que, por fim, tenha sido necessário, ainda nas palavras de Badiou, "restabelecer a ordem nas piores condições". O resultado é que impera hoje na China o mais brutal capitalismo, tanto estatal quanto privado.
Contudo, só a miopia ideológica impede de ver que, embora a "revolução" se tenha revelado um beco sem saída, o mundo em que vivemos encontra-se em fluxo incessante; e que a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor.


FSP de 01 de maio de 2010

Coração Ateu

Um poema de amor
(diz quem ama)
escreve-se sonhando.

Deixei há muito tempo
os sonhos de molho
dentro do copo de vidro
juntamente com a dentadura
da minha vozinha querida.

Não tenho forças
para escrever um poema

desses que arrebatam
a alma do solitário

e faz nascer um risinho torpe
no canto dos lábios daquele
sujeito sortudo:

ao dia febre
à noite língua de namorada.

Até esqueci as palavras
as imagens, o ritmo
matéria delicada
ao escrever um poema
desses que levam o incrédulo
a morrer às gargalhadas.

Poema de amor deve-se (creio)
escrever chorando com o soluço
acorrentado no meio da garganta.

Ninguém deve ouvir
as loucas batidas do peito.

Nem a sombra dos dedos
deve estar próxima.

É um tipo de extermínio
próprio, individual, oculto.

Diz quem ama,
escrito um poema de amor
todo feriado é santo
todo repouso é sagrado.

Batalhas somente
nos braços da amada.

(Aquele sinal
marca de vacina)

Sinto, mas não tenho forças
para escrever um poema de amor.

Mesmo porque há muito tempo
esqueci o copinho de vidro
(com todos os sonhos dentro)
sobre a penteadeira
do guarda-roupa.

A dentadura?
Lembro-me agora:
a vozinha querida
levou ao túmulo.

Maurício Einhorn Gravando a Vida - por José do Vale Pinheiro Feitosa

O som de uma harmônica de boca ecoou entre as palmeiras da praça, desde os espigões do topo delas, passando pela folhagem dos pés de benjamim, carregados de sementes e Lacerdinhas. Como um cosmo, respirava em cada poro da existência até mesmo naquelas bolinhas pretas e duras que são as sementes das palmeiras. Foi quando uma voz, acompanhada pela harmônica, encantou o ambiente:

Alguém como tu,
Assim como tu, eu preciso encontro
Alguém sempre meu
De olhar como o teu
Que me faça sonhar...

E, na madrugada solitário, num banco da Praça Siqueira Campos, tive saudades de mim mesmo. Saudades de todas aquelas meninas, com seus olhares dissimulados, que me deixavam queimando de dúvidas. Saudades da minha intensidade, mesmo que sob incertezas, com que as amavas e ainda as amo.

Sob efeito da abertura do “show” de gravação do disco “Maurício Einhorn e Convidados”, na noite de ontem, 30 de abril de 2010, na Sala Cecília Meireles. A platéia de amigos e músicos da carreira deste extraordinário instrumentista. À exceção de Billy Blanco, apoiando seu passo trôpego numa bengala, a maioria não faz parte do écran da televisão. São músicos verdadeiros, do cerne da música, do fundo do palco, mas que constroem a maravilha de arranjos que parecem naturais quando são pura criação, aqui e, eternamente, humanas. Naquele estágio em que, efetivamente, se revela o quanto Deus é criatura deles.

Não poderia estar mais bem acompanhado. Uma turma de engenheiros, físicos e matemáticos, todos, músicos instrumentistas. Vivem de suas profissões, mas tocam em seus apartamentos, nos bares da cidade, sem o peso terrível com que os músicos têm que matar o leão da sobrevivência todos os dias. E foi, neste clima, que falávamos das agruras do músico instrumentista: Maurício Einhorn, um símbolo da cultura musical internacional, entre os melhores junto a Jean “Toots” Thielemans, por vezes não tem grana para fechar o pagamento do condomínio do prédio em que mora e o atrasa.

Quando aquele homem alto veio ao palco, com sua roupa do cotidiano das ruas do Leme, alto, dominando a cena, era de uma gentileza pura como os carbonos brilhantes de um diamante. Um carinho com os amigos e a platéia em geral só comparado ao seu gesto, quando, no meio da gravação, abre uma garrafa de litro e meio de água mineral, levanta em oferta para o seu público e bebe um gole. Um gesto de educação, tão distante, destes jovens nervosos no palco que parecem o centro do mundo.

É preciso ver. Maurício Einhorn quebrando a vulgaridade dos “shows” de absoluta coreografia, destas bandas caídas, destes artistas de palco, destas embalagens de consumo fugaz, como uma barra de chocolate. Ele tocava, como um ferreiro na oficina, olhava para um músico e outro, se afastava, simples assim, como se caminha na rua, apenas para melhor ouvir e visualizar os sons que aqueles gênios da música extraiam. Da mais pura e intensa fonte humana: Alberto Chimelli, Luiz Alves, João Cortez, Roberto Sion,Dario Galante, Augusto Mattoso e Rafael Barata. Isso acrescido de um dos melhore regionais de chorinho da atualidade aqui no Rio de Janeiro.

O disco é uma comemoração especial na vida de Maurício Einhorn. No próximo dia 20 de maio ele completa 78 anos, sendo 73 anos dedicados ao instrumento – ganhou sua primeira gaita em 1937, quando tinha 5 anos. A Sala Cecília Meireles cheia, ainda pediu um bis e ele assim se confraternizou, com todos cantando parabéns. Ele abraçado a todos os artistas. Incluindo seu diretor e produtor Danilo Bossa Nova. E aqui uma variante aos músicos de todo o nosso país, na periferia do mercado de sucessos.

Maurício Einhorn foi a Ubá, terra de Ary Barroso em Minas Gerais para um evento musical e lá encontrou, vendendo livros, o seu produtor atual. Danilo Bossa Nova tivera sucesso como cantor no inicio da Bossa Nova, recebeu o apelido de Altamiro Carrilho. Depois de ter viajado pela América do Sul, acompanhando Dilu Mello, Danilo se apresentou na TV Excelsior, TV Tupi, TV Rio, Boite Plaza, onde começou a bossa nova, na Boite Cangaceiro, cantando com Elizete Cardoso e Rildo Hora. Foi ajudado por Roberto Carlos na divulgação do seu disco nas rádios.

No final da gravação do CD, fomos para o Bar do Ernesto com a turma de músicos. Entre ouvir um conjunto que tocava na casa, dançar um pouco, beber e comer, um bom papo sobre música. Ora, vocês não precisam mais arrancar o feijão da terra. O que fazer do tempo? A resposta: o que Maurício Einhorn faz. Uma intensa procura de regiões inalcançáveis de cada um, através do instrumento musical que mais gosta, como se escala o estreito do cume do Everest.

Aliás, na altura rarefeita do Everest, se encontra metros abaixo, os pulmões de Maurício Einhorn, sobre o fechamento de um enfisema, adquirido como fumante passivo nas casas de shows em que os músicos instrumentistas, especialmente os jazzísticos, exerciam sua profissão. Aquela mistura entre o espaço fechado, o esfumaçado dos cigarros e o sopro em suas gaitas.

Na volta para deitar-me e dormir, tinha a certeza que assistira a algo muito singular. Em todos os sentidos, especialmente o programa musical, a expressão de arte, mas, também, a possibilidade de que aquilo não se repita tão facilmente. Um evento como aquele, uma gravação, um público e uma divulgação, é algo extremamente difícil e, economicamente, caro. Como o caro em economia só envolve moeda, não diz sobre arte, está aí a dificuldade, não na escassez de oportunidades.

A Vanguarda do Atraso


Enquanto a Universidade Regional do Cariri - URCA impede o acesso a blogs e aos sites de comunicação como este blog aqui, a Universidade Federal do Ceará - UFC utiliza os instrumentos de comunicação.


http://twitter.com/ufcinforma

O sentido da expressão "Vanguarda do Atraso" ganha sentido quando falamos da URCA nesse campo.