TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O sapoti do padre Lauro


Era um beco estreito, angustiado entre muros de casas que se estendiam, ao comprido : poucas portas ousavam desembocar naquela curta vielazinha, sem jardins, sem quintais visíveis, sem pomares alcançáveis. Mera e exígua ponte a unir, meio a contra gosto, a exuberância da Praça da Sé , à voluptuosidade pouco sinuosa da Rua das Laranjeiras. À noite, então, o opressivo e cúmplice aconchego do beco – sem olhos perscrutadores de portas e janelas --- como que convidava os casais para os afetos proibidos, os encontros escusos e outras necessidades igualmente incontroláveis e prementes. Ainda sem energia elétrica , o beco era quase uma contravenção arquitetônica, uma fuga à cansativa linearidade geométrica das avenidas vizinhas, um portal de acesso a outras dimensões e outras realidades. Uma quebra àquela fina e eternamente cultivada hipocrisia estampada na sociedade que desfilava imperial na praça, orava sem convicção na Igreja da Sé e se deliciava nas comerciais ruas que oprimiam o bequinho de todos os lados. Muro contra muro , tijolo em vis-à-vis a tijolo e cal, calçadas estreitas e calçamento irregular, o beco não tinha maiores atrativos: aprestava-se o passo rápido para, como num canal de parto, fugir do angustiante trajeto. A insípida paisagem, o desértico e insulso percurso, no entanto, quebrava-se tragicamente, quando já se divisava a Rua das Laranjeiras. Ali, na lateral do casarão do Padre Lauro Pita, um sapotizeiro frondoso varava impetuosamente a altura do muro e da casa e esparramava seus galhos por sobre o beco, como um pinto fendendo a casca do ovo, em busca de luz.

O verde permanente das folhas imprimia uma cor especial à mesmice repetitiva da aquarela do beco, dividida entre o branco da cal dos muros e o cinza dos paralelepípedos. Em tempos de safra do sapoti, então, o beco se transformava. Os pássaros entoavam loas à delícia dos frutos gigantes e dulcíssimos. Os morcegos à noite empreendiam vôos rasantes em torno dos galhos, como uma esquadria da fumaça em dia de festa. E embaixo, a algazarra dos meninos das ruas próximas, de água na boca, esperando, pacientemente, a queda dos frutos mais maduros, tentando alcançá-los ainda no ar, antes que a gravidade os fizesse, num som surdo e grave, se espedaçarem no chão. Na janela , o padre ainda resmungava : um pouco pelo bulício das crianças, um tanto pelo desconforto de perceber que a árvore plantada no quintal terminasse por dar frutos no pomar alheio.

Hoje os meninos cresceram, o beco iluminado já não é mais o mesmo: perdeu seus mistérios e seus fantasmas. O casarão e o sapotizeiro foram mastigados pelos dentes inexoráveis dos minutos e das horas. E o padre silente, já não resmunga. Mas mesmo assim, os meninos, espalhados pelo mundo, enfrentando a cruciante travessia de outros becos, ainda param e olham para cima esperando a queda possível, mas incerta do sapoti . Sabem que ele pende agora de outras árvores , mas ainda mantém o inesquecível sabor daquele fruto da infância e que precisa ser pego antes que a gravidade da vida o faça se esparramar, inutilmente, na calçada estreita .

J. Flávio Vieira

O barco tá afundando



                                                      Charge de Aroeira para O Dia

RECONHECER



Os pequenos e singelos versos são em homenagem ao meu irmão Ismael Félix que tanto estimo. Poeta coadjuvante ou apenas aprendiz de poeta, mas que da vida aprecia  o que há de mais simples que lhe disperta sorrisos, gestos alegres e de encontrar felicidade em qualquer situação.Quando morava com a gente gostava de pegar o violão e fazer repentes com todos da família e com os amigos. Esses momentos se eternizaram no coração de todos os que têm ou tiveram o privilégio de conviver  com meu querido irmão.

Reconheço que a vida
Muitas chances me negou
Reconheço que sou bruto
Que meu coração julgou
E mesmo sem ser juiz
Muita gente condenou

Reconheço que estou
Nas correntes da saudade
Reconheço que nem sempre
Estou falando a verdade        
Mas reconheço que sempre
Estou com felicidade

Reconheço que a vontade
De ser feliz está viva
Reconheço que a mente
Do artista é criativa
Reconheço que a pobreza
Muita gente ainda priva

Reconheço patativa
Que defendeu o sertão
Reconheço que no mundo
Há bastante humilhação
Mas com fé em Deus eu quero
Ver o nosso mundo irmão

Isso aqui é uma prova
Sincera e de humildade
Meu orgulho é do amor
A minha vida é verdade
Reconheço e agradeço
Louvando a realidade
(Versos de Ismael Félix, produzido em 2006)



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

E o PSDB não era o guardião da moralidade ?

TRE de Roraima cassa mandato do governador e de vice

Do UOL Notícias, em São Paulo

  • José de Anchieta Júnior, governador de Roraima

    José de Anchieta Júnior, governador de Roraima

O TRE de Roraima cassou, por maioria, os mandatos do governador Anchieta Junior (PSDB) e seu vice, Chico Rodrigues por arrecadação ou gastos ilícitos de campanha. O julgamento encerrou em torno das 19h30 desta terça-feira (13).

A decisão será publicada nesta quinta-feira (15) no Diário da Justiça Eletrônico. Após a publicação, inicia-se o prazo de três dias para interposição de recursos. O Tribunal decidiu ainda que o governador e seu vice permanecem no cargo até o julgamento de eventuais recursos.

O MPE (Ministério Público Eleitoral) alega que os representados efetuaram gastos ilícitos e adquiriram 45 mil camisetas amarelas no valor de R$ 247.500, cujo objetivo era a distribuição aos eleitores de Roraima.

O ministério acusa ainda os políticos de terem efetuado movimentação financeira ilícita com despesas com pessoal no valor de R$ 5.521.455 e pagamento de colaboradores, em espécie, em desacordo com a legislação eleitoral.

A última acusação refere-se a utilização da empresa de transporte de valores Transvig para movimentação de R$ 800 mil que não foram recolhidos diretamente ao Banco do Brasil, mas ao Comitê do PSDB.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"A Privataria Tucana" - Vídeo

Vale a pena conferir !!!



"A Privataria Tucana" - José Nilton Mariano Saraiva

Só pra “abrir o apetite”, um breve e “inocente” trecho do livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior (baseado em documentos de conhecimento da Justiça), já esgotado em todas as livrarias (sugerimos, a quem se interessar, solicitar à Editora FNAC – www.fnac.com.br). Como se poderá observar, o PIG (partido da imprensa golpista), “lavou a burra” (e ainda tem alguns coitados – ou seriam ignorantes - que ignoram tamanho assalto).
Convém atentar, ainda, que num outro trecho temos o depoimento sobre a “participação cearense” (família Jereissati), corrompendo com dinheiro grosso, além, é claro, de FHC, Serra e sua filhota querida, Mendonça de Barros e por aí vai.
*******************
Trecho do livro:
“Mas por que a mídia defendia – e continua defendendo – tanto a privataria tucana? Simples, porque enquanto publicava editoriais aos quais FHC e Mendonção se referiram naquelas gravações, tratava de fazer bons negócios com o que estava sendo vendido a preço de banana.
Veja a seguir, leitor, cada negócio que esses barões da mídia tão zelosos com o dinheiro público fizeram na época da privataria tucana enquanto a defendiam sem informar aos seus leitores que tinham interesse direto no que estava sendo doado pelo governo ao setor privado.
A família Mesquita, do Estadão, saiu do processo de privatização como sócia da empresa de telefonia celular BCP (atualmente, Claro) na região Metropolina de São Paulo. O Grupo OESP (Estadão) ficou com 6% do consórcio, o Banco Safra com 44%, a Bell South (EUA) com 44% e o grupo Splice com 6%.
Já a família Frias, dona da Folha de São Paulo, aproveitou a liquidação da privataria para adquirir opção de compra de 5% do consórcio Avantel Comunicações – Air Touch (EUA) 25% e grupo Stelar mais 25% -, que ficou com 50% da telefonia paulistana, tendo a construtora Camargo Correa comprado mais 25% e o Unibanco os 25% restantes.
Finalmente, a família Marinho. Mergulhou fundo na Globopar, empresa de participações formada para adquirir parte da privataria, tendo comprado 40% do consórcio TT2, que disputava a telefonia celular nas áreas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, ficando o resto com a americana ATT, que comprou 37%, com o Bradesco, que comprou 20%, e com a italiana Stet, que se contentou com 3%.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Fora do Armário

Igreja das Filipinas envia fiéis para site pornográfico por engano

Link seria para acompanhar ao vivo posse de novo arcebispo.
Igreja percebeu equivoco e mudou chamada para endereço certo.

Da EFE


Igreja das Filipinas colocou link errado para acompanhar posse de novo arcebispo (Foto: Reprodução)
Igreja colocou link errado para acompanhar
posse de novo arcebispo (Foto: Reprodução)

A Igreja Católica das Filipinas enviou seus fiéis nesta segunda-feira (12) para um site pornográfico ao se equivocar com o link, que, teoricamente, seria para acompanhar ao vivo a cerimônia de posse do novo arcebispo de Manila.

Em seu portal na internet, a arquidiocese anunciou na manhã desta segunda-feira (12) que a nomeação do arcebispo Luis Antonio Tagle poderia ser acompanhada por meio da página "tvmaria.com". No entanto, os fiéis que abriram o site encontraram a imagem de um travesti.

Posteriormente, a Igreja, que achou que se tratava de um ataque hacker, percebeu seu equivoco e reenviou a chamada para o endereço "tvmaria.net". Mais de 80% dos 94 milhões de filipinos são católicos.

“Onde anda você, Maria de Fátima” – José Nilton Mariano Saraiva

Em Fortaleza, num desses ambientes onde se reúnem mulheres a serem cortejadas, ela era unanimidade e compreensivelmente pra ela convergiam os olhares, as fantasias e os corações daqueles alegres e falantes marmanjos, todos já “encharcados” de álcool até o gogó. Assim, presumindo que com o nosso estilo discreto e reflexivo dificilmente conseguiríamos algo ante tantas feras de porte atlético privilegiado e verborragia (teoricamente) envolvente, preferimos ficar na nossa, observando o ambiente, curtindo o som e “deglutindo” uma geladinha.
De repente, às nossas costas, aquele toque suave no ombro; e, ao virarmos pra conferir, deparamo-nos com o mais belo (embora discreto) sorriso que alguém possa imaginar, seguido da sussurrada e inolvidável indagação: “E você, não quer ficar comigo ???”.
Foi assim que conhecemos a meiga Maria de Fátima.
Altura mediana, clara, cabelos castanhos, olhos discretamente ao estilo japonês, nariz perfeito, dentes impecavelmente alvos, lábios carnudos e... “cheinha”. Já no quarto, ao desnudar-se, uma visão deslumbrante, arrebatadora, digna de ser retratada por um desses pintores clássicos e posta num pedestal pra ser admirada por gregos e troianos: seios medianos e rijos, cintura fina, coxas firmes e pra lá de torneadas. Enfim, tudo no lugar. Uma deusa da perfeição.
Super-carinhosa, fala mansa, conversa aprumada, de pronto bateu aquela sinergia entre nós. A ponto de, ainda na cama, lhe indagarmos (com sinceridade d’alma) a “razão” ou o “por que” de uma mulher tão bela e educada freqüentar um local daqueles; de onde ela era; de qual família e por aí vai. Surpresa, ela afirmou que era a primeira vez que alguém fazia tais tipos de perguntas pra ela, que nunca alguém procurara saber da sua intimidade, que, enfim, encontrara alguém “diferente”.
Pra encurtar a conversa: na segunda vez que a procuramos ela simplesmente largou tudo, sob protestos da cafetina, e fomos curtir a vida em pleno dia, terminando por encontrar abrigo em nosso apartamento de solteiro (onde ela aprendeu, a partir de então e durante meses, a dormir “empacotada” em nossas camisas de seda – de mangas longas - que achava... ”gostosas”).
Em represália, fomos proibidos de adentrar o tal ambiente, já que os “seguranças” tinham ordem expressa de “baixar a cacete”, se fosse necessário; então, conjuntamente, arquitetamos que bastavam dois toques na buzina pra que ela “se mandasse” dali. E assim foi feito, a partir dali.
Foram meses de felicidade plena, durante os quais freqüentávamos, de mãos dadas e sorriso no rosto, qualquer lugar que “desse na telha”, sem nenhum constrangimento de encontrar algum desses barões que com ela houvesse se relacionado.
Mas...
De repente, a meiga Maria de Fátima sumiu, evaporou-se, tomou Doril, escafedeu-se, deixando-nos literalmente na orfandade (deve ter havido algo de sério e grave, que jamais saberemos).
Hoje, apesar de casado (em processo de separação) e com dois belos filhos já adultos, tal qual os William Bonner da vida não cansamos de (mentalmente) perguntar: onde anda você, Maria de Fátima ???
Quantas saudades...

domingo, 11 de dezembro de 2011



"Eu vou tirar voce desse lugar" - José Nilton Mariano Saraiva

"Eu vou tirar você desse lugar" - José Nilton Mariano Saraiva

Qual o homem que nunca se apaixonou por uma mulher da "zona" (cabaré) ???
A ponto, sim, de prometer ... "tirar você desse lugar" (já passamos por isso - e foi uma paixão brabíssima - daí essa nossa homenagem àquelas "profissionais").
Por onde andará a meiga Maria de Fátima ???

sábado, 10 de dezembro de 2011

Valeu !!! - José Nilton Mariano Saraiva

Agora, que a poeira baixou, que a vida voltou à normalidade, que as nuvens negras no horizonte escafederam-se, que a quietude se faz presente, não poderíamos deixar de expressar de público o nosso comovido reconhecimento pela cadeia de solidariedade de que fomos alvo no decorrer de um momento difícil e conturbado do dia-a-dia (foram postagens, comentários, telefonemas, e-mail e por aí vai) .
É gratificante saber que, além de figuras já conhecidas, pessoas com as quais nunca trocamos uma só palavra pessoalmente (mas que vamos conhecer, sim) de repente manifestem preocupação com o nosso estado de espírito, com a nossa saúde, com o (não) evoluir do problema, apontando-nos alternativas, sugerindo rotas, identificando possíveis soluções.
Preferimos não citar nomes, porquanto poderíamos cometer algum lapso imperdoável, mas, independentemente, queremos que todos se sintam abraçados, que todos recebam a nossa palavra de agradecimento.
Valeu !!!
Estamos vivos !!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Renovação


A Renovação na casa de Caçulino Viriaga terminou por se transformar num divisor de águas, nos eventos produzidos em Matozinho. Invariavelmente ,as renovações, por ali, mantinham um padrão quase que imutável. Convidava-se meio mundo de gente e o outro meio terminava indo mesmo sem convite. Pintava-se a casa previamente, com uma demão de cal virgem: a casa que ficava nova e reluzente. Os convivas compareciam com as melhores roupas: aquelas guardadas no fundo do baú para a missa do galo. A casinha atapetada de gente , dentro e fora, inchava mais ainda ante a sucessão de fogos que varavam o céu e explodiam numa algazarra danada, convocando mais gente para a festividade. Os santos na parede da sala vestiam-se de flores do campo e a imagem de Santa Genoveva , na mesinha da sala, aguardava pacientemente a entronização . O clima de festa era puxado pela bandinha cabaçal de dois pífaros, uma caixa e um zabumba. De repente o silêncio era exigido para o início dos trabalhos religiosos. D. Tudinha , a beata mais importante da vilazinha, debulhava, com ar circunspecto, os mistérios do terço, entremeado ainda de “Salve-Rainhas” e “Creio em Deus Pai”. Terminada a longa reza, após a entronização, os músicos eram os primeiros convidados ao jantar. O cardápio, invariável, trazia as inúmeras opções locais: porco na rola, galinha à cabidela, muncunzá e um aluá conservado em pote grande com fins de manter a geladíssima temperatura. Uma ou outra garrafa de mendraca terminava por aparecer de contrabando e a bandinha mantinha o rela-bucho, no terreiro batido, até altas horas.

Caçulino, naquele ano, sobre a influência de Federalina Gouveia, a esposa, resolveu modificar o padrão. A mulher tinha andado na capital, recentemente, e voltara embebida de ares grã-finos. Fora comprar umas bugigangas da china para vender numa banquinha de feira e contaminara-se com aquele importância besta. Começou logo modificando o nome do evento: Renovação soava muito brega. Avisava ao povo para ir a uma Festa de Arrepiar. Ouvira na capital um tal de Happy Hour e resolveu matozinizar o termo para facilitar o entendimento daquela ingrizia. Avisou ainda que a roupa tinha que ser passeio completo. Federalina danou-se quando os convidados lá chegaram de calça e camisa caquis, chapéu atolado até as orelhas e chinela currulepe : era essa a maneira que sempre completamente se vestiam para passear. Caçulino ,também, alijou a banda cabaçal da festividade e contratou uma bandinha com violão, reco-reco, bateria e mantiveram –sabe-se lá porque— os dos pifeiros. Tudinha também foi dispensada e chamaram um beata de Bertioga , carismática de carteirinha, D. Miralvina , para comandar a solenidade religiosa. Os santos na parede eram também totalmente estranhos : São Raimundo de Penaforte, Santa Gema Galgani e São Félix de Cantalice e entronizariam uma Nossa Senhora de Aquiropita.

Quando Miralvina começou a solenidade, a diferença era gritante. Cantava, gritava, cantarolava, mandava as pessoas botarem as mãos para cima , saltarem e dançarem. Um labacé danado. E mais, a solenidade, ou o showvação, se prolongou muito. Já eram quase dez horas quando Miralvina , enfim, puxou as Ave-Marias. Um Padre Nosso e uma Ave-Maria para a alma de fulano, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria para a alma de Beltrano. Quando por fim terminaram todas as almas conhecidas, começaram as orações para todos os parentes e aderentes que tinham ido para São Paulo. Os convidados, com fome e sono, já estavam impacientes. Lá pras tantas Miralvina, pensativa, já sem opções puxava:

--- Um Padre Nosso e uma Ave-Maria para a alma de....

Jojó Fubuia, impaciente e melado como visgo de jaca, já gritou de lá:

--- Dos seiscentos mile cão ! É só quem tá faltando receber oração das almas do céu, inferno e do purgatório ! Vôte !

Terminado, por fim, a Showvação de Miralvina, todo mundo já estava de língua de fora. Uns três velhos já tinham dado pilôra , com fome : gente acostumada a jantar por volta das quatro da tarde. Encetou então aquilo que Caçulino já definiu com dificuldade e que cabra de língua engrolada não pronunciava: o Show Pirotécnico. Uns foguinhos de artifício, misto de lágrimas, busca-pés, pichites , rasga-latas e bufas-de-velhas. Após a pirotecnia de Caçulino , a Big Band ( assim ele a definiu) foi chamada para o banquete. Aí estourou uma outra surpresa, o Menu : um tal de Strognoff. Segundo o velho Balbino Silvestre ( um dos acometidos pela pilôra) era uma gogoroba danada: parecia um chouriço misturado com carne, só que salgado, como pia batismal. Depois da Banda, o povo entrou abaixadinho no tal de strogonoff, gostaram do tempero do bicho : uma fome canina que já os varava há mais de seis horas.

Quando a banda voltou e tentou recomeçar a festa, notou-se uma diferença substancial. Empacou. Os pifeiros não conseguiam soprar uma nota sequer. Caçulino, agoniado, os cobrou. Queriam música, festa, era prá isso que estava pagando. Só aí os pifeiros, desconfiados, informaram que seria impossível tocar. O quê? Tão ficando doidos? O que está acontecendo? O maestro, então, descobriu o malfeito:

--- Seu Caçulino, quando a gente estava jantando, um sem-vergonha veio aqui e passou pimenta malagueta na embocadura dos pífaros. Nós estamos com os beiços ardendo como se mordidos por maribondo de chapéu.

A confusão estava feita. Quem foi-quem não foi! Desconfiaram de Jojó, mas não existiam provas, nem testemunhas. Uma hora depois, Salustiano Onofre , um funcionário da prefeitura, começou a passar mal. Dor de barriga e vômitos. Terminou na botica de Janjão Cataplasma e quase embarca. Jojó ,comentando depois o acontecido, disse que ele se envenenou porque quis, não foi falta de aviso, o nome da comida já estava dizendo : Estraga Onofre. O certo é que quase todos os convidados se viram acometidos do mesmo mal de Salustiano: faltou moita a redor de duas léguas. Isso porque a timbaúba mais frondosa do sítio já estava reservada para Caçulino e Federalina que passaram a noite toda de cócoras e de sabugo na mão.

O desarranjo foi tão miséria, comentou Jojó dias depois na praça da matriz, que vocês não sabem da melhor:

--- Lembram do velho Gustavo Filomeno? Pois é, o homem é cheio de riquififes, segue uma dieta danada, não come isso, não come aquilo. Tudo faz mal prá ele, até água! Pois bem, foi para a Renovação de Caçulino e lá viu a novidade das comilanças e simplesmente não tocou em nada, nem na água benta!

--- Esse pelo menos escapou, né Jojó? ---Sacou de lá Onofre, de olho fundo, mais magro uns três quilos ! Pelo menos um, né?

--- Que nada, Onofre, que nada ! Não comeu nadinha, mas sentiu o cheiro ! Pois três dias depois, ia subindo a Serra da Jurumenha e foi soltar um peido, pois num cagou nas calças, rapaz?


J. Flávio Vieira

Geraldo Junior e Grupo- Terreirada Cariri 19.11.2011

FÉRIAS NO TERRAÇUS - PRÉ-NATAL

Estamos de férias. Dezembro é um mês mágico, com todas as pessoas em alto astral e no embalos das comemorações natalinas e de passagem de ano. A Sertão Pop Produções está fazendo este evento um dia antes do Natal, o pré-natal, em um sexta-feira que certamente será perfeita. Para isso convidou duas bandas que estão sendo destaque no cenário musical caririense. A Banda Cariri Blues, com o seu projeto "BLUIZ GONZAGA", onde faz uma releitura da obra do "REI DO BAIÃO" em ritmo de blues, um trabalho inédito e super gostoso de ouvir e curtir. A outra banda a deliciosa "LOSTHEOS" que se volta para o rock e o blues tocados com muita criatividade e bom gosto, é um dos maiores destaques da cena alternativa do Cariri, com uma legião de fãs impressionante.
Portanto, essa noite será realmente mágica, como é a magia do encontro, da alegria e da curtição.
Vamos nessa?

OBS: Quer que a logomarca da sua empresa apareça nesse evento? Seja um parceiro nosso. Entre em contato através dos telefones (88) 9666.9666 / 8824.2131 / 3521.5398 ou passe-nos um e-mail para kaikaluiz@gmail.com

Saracura-três-potes - Emerson Monteiro


Várias vezes, aos inícios e finais do dia, ouço o canto melancólico dessa ave ecoar nas encostas da serra onde moro neste Cariri. Também conhecida por saracura-do-brejo e sericóia, quase sempre é mais escutada do que vista, segundo as enciclopédias. Tanto é verdade que só avistei um exemplar numa rara ocasião, às margens do riacho que dá origem ao Rio Grangeiro. Ela vive nas áreas alagadas de mato fechado. O acorde do seu bonito canto forneceu-lhe os nomes pelos quais a denominaram.

Bicho arisco e razoável, a saracura ainda consegue fugir da sanha da nossa civilização que gerou dependência dos quadros da mãe natureza às leis dos países, de comum difíceis de execução.

Pois bem, enquanto o saudosismo não paga dívida e os tempos mudaram, agora ninguém mais se conforma deixar de derrubar as mangueiras para comer a safra, e sobreviver virou artigo de luxo, palavra de ordem nos tempos bicudos das aparências. Conservar por conservar pertence aos milionários desocupados, qual mostra o projeto do Código Florestal em andamento no Congresso brasileiro.

Cambaleiam e agonizam os panoramas ecológicos desde antigamente, quando jamais imaginaram os profetas a velocidade estonteante que dominou acontecimentos da Terra. Fico tanto meio contrariado diante das teses românticas que falam de preservação ambiental em conferências intermináveis de salões forrados com a mesma madeira de lei que defendem e ajudam a eliminar. Creio incoerente festejar derrotas, neurose que dói e sacode os impérios práticos na história continuada.

Gerações e gerações cresceram destruindo famílias e famílias naturais, quando querem salvar o que restou em museus e zoológicos fedorentos, de animais entristecidos, capturados nos ambientes originais ora extintos.

Mais cedo do que imaginava, ouço vagar nos corredores da consciência trechos da bela composição de Roberto Carlos: Seus netos vão te perguntar em poucos anos / Pelas baleias que cruzavam oceanos / Que eles viram em velhos livros / Ou nos filmes dos arquivos / Dos programas vespertinos de televisão.

Ah, mas deixe de lado isso de visão bucólica que, nalgumas horas sujeita relembrar sonhos abandonados na casa do sem jeito, nesse mundo de rascunhos perdidos no ar. Dispense, por gentileza, manias arcaicas que caíram em desuso e servem de alimento sintético às pretensiosas crônicas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O fundamentalismo de cada dia

O fundamentalismo de cada dia 

por Daniel Sottomaior para Folha em resposta a
Integrante da Opus Dei critica o ‘fundamentalismo ateu’ brasileiro 



"Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha ("Fundamentalismo ateu", 24/11), existe uma coisa chamada "fundamentalismo ateu", que empreende "guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã". Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.

Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra "fundamentalista". Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser ótimo!

Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de "católicos não praticantes" e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.

Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como "círculo quadrado".

Gandra defende uma encíclica papal dizendo que "quem não é católico não deveria se preocupar com ela". No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos preocupa-se tanto que chama isso de "ataque orquestrado aos valores das grandes religiões".

Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, "não se preocupem".

Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.

A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.

Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.

O jurista canta loas ao "respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade", mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.

Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.

Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz "deus não existe".

E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós."

FONTE: Paulopes
(Leia mais em http://www.paulopes.com.br/2011/12/sottomaior-responde-gandra.html#ixzz1fxwfac6B)

Mera "similaridade" ??? - José Nilton Mariano Saraiva

Usando de certa “sutileza” (na verdade, de araque), já que intimamente tenta mesmo é nos fazer de idiotas, e aparentemente sem querer, mas, implicitamente, muito querendo (“...não quero dizer que estes personagens infelizes estão sendo castigados”), numa postura vil e flagrantemente desrespeitosa, o Bispo Auxiliar de Aracaju, Dom Henrique Soares da Costa usou a mídia pra tentar (de forma enviesada) “evangelizar” os incautos de plantão, ao estapafurdiamente misturar assuntos tão díspares (tal qual alhos e bugalhos), ao insinuar de forma maliciosa que a grave moléstia (câncer de próstata) que acometeu o ditador venezuelano Hugo Chávez, bem como a derrota nas urnas sofrida pelo primeiro ministro espanhol Luis Zapatero teriam sido motivadas (é vero, senhores, acreditem !!!) porque “...estes personagens demonstraram desprezo por Deus, embriagados de si próprios e se julgaram acima do próprio Deus, como senhores do bem e do mal” (nessa toada, os ateus, descrentes e agnósticos da vida, à frente FHC e sua soberba, que se cuidem, pois pra eles estariam reservados os “quintos dos infernos” e mais alguma sobra).
Agora, aqui pra nós (e pelas barbas do profeta), o que mesmo a (in)religiosidade (ou a presumível ausência da manifestação de crença de alguém num ser supremo) tem a ver com o padecer terreno ou o contrair algum tipo de moléstia grave, à qual todos os falíveis e frágeis seres humanos estão sujeitos ??? Ou será que o simples manifestar de uma crença qualquer (ou o reconhecimento público e às vezes hipócrita e conveniente da existência de um ser superior) configuraria um espécie de bilhete premiado, “passaporte-divino” pra imunidade físico-orgânica, a doença do ser humano ???
Se bem que o tal religioso, ao reconhecer a heresia cometida, ainda tentou tirar o braço da seringa, corrigir as asneiras que professara antes, desdizer o que dissera ou reparar o estrago provocado, ao vociferar que “...não quero dizer que estes personagens infelizes estão sendo castigados. Não! Longe de mim pensar isto, pois gente muito boa, grandes amigos de Cristo também sofrem, perdem eleições e adoecem gravemente”.
Afinal, em sendo assim, como justificar a circulante e lamentável notícia (terá mesmo fundamento ???) de que determinado religioso de uma cidade do interior do Ceará estaria travando uma batalha ferrenha contra a morte, porquanto sofrendo da mesma gravíssima doença que acomete o presidente venezuelano Hugo Chávez ??? Será que é porque ele também se julga “...acima do próprio Deus, como senhor do bem e do mal”, como lá atrás sugerido pelo Bispo Auxiliar de Aracaju ??? Ou será que, aqui, o pau que bate em Chico não é o mesmo que bate em Francisco ???
De nossa parte – e já tornamos isso público sem qualquer constrangimento – pela mesma traumática experiência passamos (e sujeito estamos a uma possível recidiva e outras tantas), e nem por isso mudamos de conceito ou arredamos um milímetro do nosso entendimento (baseado na leitura e pesquisa sobre) de que o “RELIGIOSO” Cícero Romão Batista foi em verdade um grandessíssimo charlatão, e que, ao ingressar na política (por força da sua expulsão da Igreja Católica, em razão da farsa conhecida como o “milagre da hóstia”), aproveitou pra repentinamente tornar-se um dos homens mais ricos da paupérrima e sofrida Região Nordeste do Brasil, sem que até hoje alguém saiba apontar a origem (ou a generosa fonte) dos recursos que lhe permitiram amealhar um patrimônio tão expressivo (e o fato de entendermos assim e de expressarmos publicamente, não configura nenhuma falta de respeito para com os milhares de adeptos do próprio, como tampouco objetiva sensibilizar alguém a empunhar tal bandeira, até porque não temos vocação para a catequese).
Sim, porque objetivamente falando, não existe nenhuma evidência palpável sobre os supostos milagres atribuídos a Cícero Romão Batista (o principal, o tal “milagre da hóstia”, a própria Igreja Católica se encarregou de “detonar”, ao rotulá-lo de embuste), enquanto que relatos em que permeiam a subjetividade e, portanto, sem qualquer consistência ou prova factual, são narrados por seus simpatizantes como prova de “milagres” definitivos, tais quais: a vitória de um filho no vestibular (mesmo que o coitado tenha “se matado” de estudar durante toda uma vida), seria um “milagre”; ou o fato do marido-alcoólatra repentinamente abandonar a “marvada” (conforme depoimento recente de uma devota) seria uma graça ciceriana; ou a cura de uma doença qualquer, apesar do uso de toda uma parafernália científica e do consumo de uma montanha de remédios, se configuraria uma outra proeza de Cícero Romão Batista. Caberia, então, o questionamento: seria a fé (ou o exacerbado fanatismo daí derivante) “irmã-siamesa” da subjetividade ??? Quem se habilita a tratar sobre ???
Uma outra indagação, aparentemente franciscana, mas séria ao extremo e para a qual os adeptos de Cícero Romão Batista viram a face ou fogem como o capeta da cruz (já que de resposta um tanto quanto difícil de ser arquitetada), seria: existiria alguma diferença, mesmo que tênue, entre o “modus operandi” usado lá atrás pelo “POLÍTICO” Cícero Romão Batista e os métodos hoje utilizados pelos Renans, Temmes, Lupis, Sarneys, e Malufs da vida ??? Ou seria mera “similaridade” ??? Afinal (e é necessariamente relevante que se questione), como alguém, oriundo de uma família paupérrima (assim como alguns dos políticos atuais) conseguiu da noite pro dia, “vapt-vupt”, tornar-se um homem “podre de rico”, sabendo-se que a renda auferida por ele, numa atividade não lá muito rentável, o sacerdócio (mesmo que durante anos) jamais guardou compatibilidade com o extraordinário e descomunal patrimônio obtido ??? Seria este o verdadeiro milagre patrocinado por Cícero Romão Batista ???
Além do quê (e tocar em tão “delicado” tema parece ser um “pecado mortal”, passível de punição exemplar pra quem ousar), depõe contra Cícero Romão Batista o fatídico destino da pobre Maria de Araújo, a sua “ajudante-de-ordem” na “encenação” do tal milagre da hóstia, já que ninguém consegue determinar com um mínimo de precisão o motivo da sua “causa mortis”, assim como é difícil se saber a razão ou o “porque” dos paninhos contendo o seu sangue terem sido reduzidos a cinzas, e posteriormente jogadas ao vento.
À famigerada, surreal e esfarrapada desculpa de que tal patrimônio teria sido resultante de “doações voluntárias” (por que não usar a figura do dinheiro não contabilizado, do caixa 2, das sobras de campanha e por aí vai) nos remeteria de pronto a uma figura “expert” no assunto, um tal Delúbio Soares. E aí, teríamos de volta (e com força) a indagação de sempre: seria mera “similaridade” do modus operandi entre os dois personagens ???

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A picada da "mosca azul" - José Nilton Mariano Saraiva

A César o que é de César: ao esforçado desportista Evandro Leitão e sua Diretoria, a instituição Ceará Sporting Clube e sua fiel torcida devem dois momentos diametralmente opostos - o glorioso acesso à primeira divisão do futebol brasileiro e, agora, o deplorável e vergonhoso rebaixamento para a segunda divisão.
Só que entre esses dois momentos, pintou no pedaço a tal “mosca azul”. E o estrago provocado foi grande, já que uma sua inofensiva (???) “picada” (no Evandro Leitão, presidente do Ceará), transformou o “mel” em... “fel”.
Fato é que, quando resolveu dedicar-se à política “full-time”, primeiro na condição de candidato a “Deputado Estadual” (derrotado nas eleições) e depois, na condição de “Secretário de Estado” (convidado), o senhor Evandro Leitão deixou o clube à deriva, ausentou-se por completo e transferiu o bastão para um “neófito” no ramo, o “intocável” Robinson de Castro, que, literalmente, cansou de “pisar na bola” (basta atentar para a sua declaração “ao vivo”, num desses programas esportivos de final de noite, quando, questionado a respeito do jogador Marcelo Nicácio ter-se recusado a viajar com o time para um compromisso fora de casa, respondeu que “a Diretoria do Ceará não pode obrigar nenhum jogador a viajar”; ora, cadê o “profissionalismo”, com seus ônus e bônus ???).
Além do quê, convém atentar que Evandro Leitão (por se achar ausente do clube) deixou que o arrogante técnico Mancini literalmente “desmontasse” o time, por pura vaidade e ciúme excessivo (não admitia que os Geraldos, Yarleis, Everaldos e Andersons da vida idolatrados fossem e vivessem em eterna lua de mel com a torcida). Foram liberados e brilharam em outros clubes.
Pra completar, Evandro Leitão trouxe de volta um técnico incompetente e pé-frio que, meses antes, já houvera fracassado por completo no clube e por onde passou(Estevam Soares), chegando ao cúmulo de pedir-lhe publicamente desculpas por te-lo demitido lá atrás.
Por qual razão os integrantes da imprensa esportiva cearense nunca questionaram isso, é algo a se estudar.
E agora, como fica o tão sonhado e acalentado “projeto” de transformar o clube cearense numa potência ??? Como fazer futebol (cumprir os altos compromissos assumidos e contratar jogadores de qualidade visando voltar à elite), com dinheiro apenas das bilheterias, ainda por cima enfrentado equipes de nível duvidoso ??? E o estratosférico prejuizo oriundo do não recebimento de patrocínios, verbas televisivas,venda de material esportivo e por aí vai, quem ressarcirá ??? Quando o Ceará retornará à “Primeira Divisão” já que, a partir de agora, sem eira e nem beira ???

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vivências do coração - Emerson Monteiro


Transitar nos setores do sentimento importa, pois, olhar os horizontes da paz no silêncio dos momentos eternos. Observar com imparcialidade os termos da experiência que todos carregam, resultado das inúmeras situações vividas e aprendidas pelo caminhar do tempo, estradas longas das oportunidades permanentes. Andar sabendo haver aqui do lado outros exemplares da mesma consciência dotados de iguais instrumentos de percepção face ao Universo maravilhoso. Nisso evitar preconceitos e chamas de egoísmo que sujeitam cedo queimar a esperança dos bons relacionamentos. Respeitar contradições que impedem reconhecimento de tudo de agradável que possuem as pessoas, vozes acesas nas companhias agradáveis a bordo, no longo percurso das jornadas individuais.

O gosto especial do alimento emocional demonstra o tempero da alma de quem deles usufruem. Os movimentos das ondas no lombo dos barcos, que explicam a melodia das águas nos hinos das celebrações, histórias, alegrias em forma de versos e perfumes, nutrição da tranquilidade dos que compreendem sonhar e caminhar próximos sem timidez.

Enquanto uns falam dos deuses, outras agem com as manias da flor da pele, impaciências, contrições e abraços rústicos, quais quem pretende dominar os minutos da força poderosa nas eras indomáveis. Querer, na marra, usufruir o prazer da perfeição nas formas físicas que fogem feito fumaças e pó. Acham aqueles motivos de satisfação em avançar os limites de seus direitos e arrancar os mistérios alheios por capricho e violência. Contudo há uma ordem maior em tudo. Tristes dos que imaginarem recriar a natureza por mérito particular quando saem quebrando as determinações do destino, qual possível fosse assim obter e escapar da justiça sagrada abrangente.

Amar pede, no íntimo, harmonia e habilidade extremas; sabedoria e valores sólidos. Exercitar práticas de virtude com a grandeza dos planaltos virgens, dimensões abertas ao sol dos dias da felicidade; isto oferece ao ritmado coração das pessoas, a cada instante, oficina de carinho e sala de aula de gentilezas. Querer bem permite aos demais também o que se deseja a si próprio. Estender mãos e colher as pérolas do presente nas bênçãos aos próximos de nós, espírito de bom humor e satisfação comum, moldes melhor da pura tranquilidade. Sabor doce vem à tona, leve nas asas dos acontecimentos, água viva que nasce das fontes da dedicação num mosteiro de luz e pavilhões, mais sadias aproximações.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um desejo de Paz - José do Vale Pinheiro Feitosa

Amanhã estarei longe desta tela. Até o próximo carnaval terei poucas oportunidades de retornar a ela. Mesmo tendo o privilégio das velas, em Paracuru tenho tarefas a cumprir e alguns olhares de esguelha para espairecer de papo para o ar. Os conteúdos de tempo ociosos sempre os há.

Aproveito para desejar a todos um bom resultado pelas festas deste mês, desde aquela que festeja o nascer quanto a que se alegra pela passagem. Mesmo que as mensagens se repitam a força da idéia é esta: renascer-se, este movimento, esta passagem para a inovação.

Quem passar por Paracuru e quiser beber um copo de água bem gelada e um cafezinho estarei por lá. Gosto de conversar. Trocar idéias e ter contato com vocês. Esta é a natureza do restante do ano: mover-se na decência da boa convivência.

Por último algumas considerações por esta fase da história. O ano termina sob maus agouros. Todos os dias se reúnem governantes em alguma parte do mundo. As cúpulas se sucedem. As notas conseqüentes destas reuniões apontam coisas graves. O povo está rebelado em várias partes do mundo.

Não podemos cair nesta sonolência que o quadro a quadro do noticiário nos provoca. Esta relativa insensibilidade para captar que algo diferente há. Efetivamente algo diferente há além da crise econômica, há uma crise política e sintomas de guerra com fumaça no horizonte.

Sem querer turvar a mensagem da inovação, o ano de 2011 termina como um barril de pólvora e uma chama que se aproxima transportada por um corredor de maratona. Há nesta visão uma sensação de iminência. As revoltas, as tomadas de ativos, as quebradeiras de ativos em papéis, o assassinato de velhos líderes, ditadores ou não.

A ansiedade dos povos e dos governos se encontra alguns tons acima do último dezembro de 2010. Há uma gritaria histérica que nos remete a insônias e a temer pelos próximos anos. Esta geração pode se encontrar diante de algo que viveram aqueles da infância, juventude e velhice dos anos 30 a 40 do século XX.

Mas como sempre a mensagem é que se o sol fica rubro ao anoitecer, o sereno acompanha as estrelas, os galos anunciam as matinas e o sol ainda sangrando sai para se tornar claro e límpido como sempre pensamos e agimos para a construção da paz. Que prevaleça a paz.

Eu me amo

Diante da falta de discussão nos blogs tem gente apelando para técnicas, digamos assim, solipsistas. O cara escreve o texto e enche a caixa de comentários com seus próprios comentários. Talvez seja melhor dessa maneira. Quando editores de blogs elogiam textos como "exelentes", pasmem, assim mesmo sem o C é porque o negócio tá feio. Por que as pessoas não se contentam em publicar imagens kitschs e copiar textos do Google? Euzinho, por exemplo, jamais ousaria publicar um desenho meu. Fica a dica.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

FMI mudando o discurso?

Examinem com atenção esta declaração da Diretora Geral do FMI Cristine Lagarde. Tão diferente daquela palmatória do ajuste pelo ajuste. Do garrote vil no pescoço dos trabalhadores com a finalidade de fechar as contas. Será que aqui ela diz uma coisa e ali diz outra, ou o FMI está mudando e só a velha Europa repete o chavão do arrocho?

"O desafio agora é encontrar um equilíbrio que permita ao país apoiar o crescimento e conduzir a inflação para a convergência da meta fixada pelo Banco Central. E tudo isso sem deixar de proteger — ou mesmo expandir — seus gastos sociais e modernizar a infraestrutura"

Não é possível ignorar o ovo da serpente. José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando escrevi um texto criticando o comportamento de certos blogs do Crato ao publicarem a ordem de serviço de um subcomandante do exército de um quartel de interior negando o golpe político e defendendo a ação da ditadura militar não era ao sub que me queixava. Queixava-me das pessoas que conheço com as quais convivi de perto ou distante por texto. Com alguns tive o prazer de conversar na minha última estada na cidade.

Estas pessoas estavam atropelando o senso humano e resvalando num estado histérico em que vale tomar à mão qualquer troço que esteja por perto para atingir ao outro. Neste momento estou num projeto difícil de, após ouvir, degravar longas entrevistas com um dos políticos importantes do país. Nele é dramático o que se passou com sua família num momento de pura perversidade dos agentes da ditadura.

Quando vi estas pessoas postando uma aberração daquela, por mero prazer de provocar ou como um troll igual falou alguém num dos comentários, fiquei preocupado com elas. É justamente dos nossos vizinhos, dos nossos entes próximos, de quem convivemos que surge a patologia da perseguição e se tornam partes da perversão humana como mero exercício do ódio que cultivaram ao longo de algum tempo.

Quando pensamos que o debate nos ilumina, nestes amigos, nestes conhecidos, nesta gente com as quais costumamos dialogar, surge um rancor que se avoluma até o extremo da denúncia e entrega na fogueira. A história formal e literária está cheia de denúncias sem causa apenas pela inveja e pelo ódio acumulados em pequenos atropelos do passado.

O que esclareço com mais vigor agora é que não posso conviver com pessoas que resvalam para o temeroso comportamento anti-humano sem ao menos alertá-las sobre isso. Seria uma traição minha às pessoas se não lhes dissesse aquilo que percebo irá redundar numa raiva extrema que nunca deu bons frutos e deixam uma herança maldita como se houvesse uma miséria no viver humano.

Agora retorno com uma postagem de Mouzar Benedito que foi repercutida em vários blogs ao falar do recente livro do Bernardo Kucinski intitulado K. O livro do Bernardo é importante por que cresce no Brasil e no mundo toda uma raiva direitista que se aproxima perigosamente de uma farsa: a farsa nazista. E a farsa nazista não era perversa nas grandes concentrações de Hitler, mas na família comum, vigiando seus vizinhos, denunciando judeus, comunistas, homossexuais, ciganos e todos aqueles que o regime perseguia.

No livro do Bernardo, K um judeu sobrevivente do holocausto nazista, onde deixara muitos mortos de sua família, toma consciência do desaparecimento da filha que era professora da Faculdade de Química da USP. E sai em busca de ajuda para encontrá-la e o que dizem as pessoas: “Mas ela não era comunista?” Como ser comunista justificasse tudo que fizessem com ela. Especialmente quando as organizações que combatiam com armas a ditadura estavam destroçadas. O regime estava nos seus estertores finais e Geisel já articulava a abertura política.

No entanto o aparelho de tortura estava vigoroso em 1974 prendendo, torturando, matando pessoas suspeitas ou mesmo quem em algum momento fora ligada às organizações. Era demonstração de poder para segurar na unha a tal abertura ou sandice paranóica dos agentes fora de controle?

O velho pai passa por martírio que não acaba mais, dura anos, um jogo de desinformação manejado pela repressão que prendeu e matou na tortura não só a filha, mas o marido dela. Comparando a situação vivida no Brasil com a perseguição nazista, ele reflete que pelo menos na Alemanha eles informavam à família que prenderam e mataram as pessoas.

O livro do Bernardo é tão real e de tal força que a historiadora Maria Victoria Benevides na orelha do livro escreve: De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou. Um libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão. Avraham Milgram do Museu do Holocausto de Jerusalém considera que “os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar.

Por isso eu não posso seguir o bom conselho do Darlan Reis quando deveria não repercutir isso para não dar asas ao troll. Infelizmente são pessoas com nomes, nossos vizinhos e com responsabilidade perante todos.

Anda-Já


É difícil nossos olhos avistarem além da fronteira do nosso quintal. O mais comum é que terminemos por ter uma visão bem compartimentada do mundo. Para os paulistas o universo se resume à Avenida Paulista; para os habitantes de Salitre o planeta se encerra antes de Campos Sales. Costumes, hábitos, preceitos morais terminam por ser balizados por essas estreitas fronteiras e é com olhos que mal avistam o nosso pomar que pretendemos depreender toda a complexidade do universo à nossa volta. Essa visão limitada atinge todos os segmentos sociais e termina por se transformar quase numa religião que tem a burocracia como bíblia e o burocrata no papel de sacerdote. Com esse filtro , essa viseira, perdemos a possibilidade de entender holisticamente as nuances infinitas da aquarela universal. Como um menino dentro do quadrado, julgamos tudo dentro dos limites opressivos que nós próprios nos impusemos. Através das grades, o mundo se resume a uma sala, alguns móveis, os brinquedos, a chupeta : só ! Do outro lado da parede, no entanto, sem que ao menos percebamos, fulge um sol brilhante, resplandece uma lua ao anoitecer e a vida tem possibilidades infinitas e inimaginadas.

Há alguns anos, perdemos um juiz exemplar : Dr. Nirson Monteiro. Cratense, trabalhador abnegado, simples, ele não carregava consigo aquele ar de superioridade quase divina que contagia tantos membros do Poder Judiciário. Dr. Nirson tinha ainda uma especial atenção para com os crimes perpetrados contra crianças e adolescentes. Pois bem, contava-me ele que um dia soube de uma prostituta da cidade que criava a filha pré-púbere, no próprio lugar de trabalho: uma Boate ali nas cercanias do Gesso. O juiz achou aquilo um absurdo , um visível risco à integridade física e moral da criança e intimou a mãe a comparecer ao Fórum. Pretendia subtrair-lhe a guarda, protegendo assim a menina. Contou-me ele, no entanto, que, na audiência, terminou por receber uma aula de humanismo e dignidade da prostituta. Quando o magistrado contou-lhe das suas preocupações e seu intuito de afastar a adolescente daquele ambiente pérfido, ela ouviu com atenção e respeito. Depois, calmamente, emitiu uma opinião contrária . Disse ao juiz que tivera outras duas filhas e que as afastara ainda meninotas e as pusera a trabalhar como domésticas em casas de família ricas da cidade. Imaginava que assim, convivendo em melhores ciclos, terminariam adquirindo uma educação mais refinada e teriam maior possibilidade de se tornar gente. Sabia terrível, mais que ninguém, a vida que ela própria levava, mas não tivera outra opção. Miserável , negociava com a única mercadoria que tinha em mãos: seu corpo . Pois bem, as duas meninas tinham se perdido com patrões e filhos de papai aqui do Crato . Assim, seu juiz, ela fica comigo, tem muito mais condições de ser alguém na vida, o ambiente no Gesso é muito mais sadio do que o do resto da cidade! Dr. Nirson, cumprimentou-a e desculpou-se, e agradeceu pela ajuda : acabara de olhar por cima do muro do quintal do seu universo particular.

Há uns dois anos, em uma Escola em Juazeiro do Norte, procedia-se a uma reunião do Grupo Gestor. De repente, entra a merendeira, interrompendo o evento e informa à Diretora: Aquele aluno da oitava série que a mais de dois meses gazeava a aula, na hora da merenda escolar, saltava o muro e vinha lanchar e ainda queria levar um pouco para casa. A diretora proibiu e, mais, mandou chamar o segurança do estabelecimento para pegar o menino. Queria conversar com ele pessoalmente e proibir a irregularidade. Até já tentara antes, mas sempre que avisado o danadinho saltava o muro de volta e fugia em desabalada carreira. Naquele dia, mediante a ajuda do segurança, não teve jeito. A diretora, então, repreendeu o menino e disse , claramente que não era possível. Se ele quisesse merendar que voltasse para as aulas. E, por fim, fez-se categórica : diga a sua mãe e a seu pai que venham aqui que quero falar com eles ! O menino cabisbaixo enxugou algumas lágrimas que escorriam lentamente no rosto e entre soluços informou que o pai não ia poder comparecer. Por quê ? --Argüiu a mestra ç Ele está preso, fessora, já faz uns três meses! A diretora, tomada de supetão , tentou ainda arrematar: peça então a sua mãe prá vir, menino! O rapazinho respirou fundo e, novamente, informou que não seria possível. Por quê? O aluno, envergonhado, concluiu: Ela fugiu com outro homem já faz uns dois meses! Em casa ficamos apenas eu e um outro irmãozinho de cinco anos, não temos ninguém mais nesse mundo, era por isso que eu pulava o muro: para matar a fome e levar um pouquinho para meu mano, fessora ! Impressionante a aula de vida que um pirralho de oito anos terminou por ministrar à diretora que não conseguia enxergar o mundo adiante dos muros da escola.

Se quisermos crescer temos que compreender a velocidade estonteante da vida que acontece como um filme e não se consegue revelar numa fotografia instantânea e estática. E mais: existe um universo fervilhante além das grades opressivas do nosso quadrado e muitos e muitos caminhos a trilhar além do limitado espaço que percorremos com nosso Anda-já.


J. Flávio Vieira

Fortaleza Anos 70 - A primeira viagem comercial à lua - José do Vale Pinheiro Feitosa

Hoje já não me lembro de todos os jornais de Fortaleza nos anos 70 por isso busquei uma lista que imagino histórica: Tribuna do Ceará, Correio do Ceará, Gazeta de Notícias, O Povo, O Unitário, O Democrata, O Estado, O Nordeste, O Jornal. O jornalista Giacomo Mastroianni, que é veterano na imprensa de Fortaleza, talvez precise mais quem estava ativo naqueles idos entre 1969 e 1971.

Aconteceu assim. O almoço fazíamos no restaurante da Faculdade de Medicina, como já citei, ficava distante do campus da Gentilândia, onde ficava o CEU que era o restaurante de toda a estudantada da universidade. Mas de vez em quando saíamos para um almoço no CEU para encontrar quadros de outras faculdades e tramarmos as ações para o futuro.

Convenhamos eram muito mais se mexer no estreito espaço do AI5 e do Decreto 477, do que uma ação de causar dano ao ditador da ocasião. Então a literatura de vanguarda era uma opção revolucionária. Como os textos que precisavam ser lidos no reservado de quatro paredes. Ou as grandes discussões sobre um filme de Claude Lelouch ou a estética estranha de Blow up de Micheangelo Antonioni.

Costumava jantar no CEU. Terminava as aulas na medicina, jantava rápido, não tinha tempo de costurar mais algumas tramas, tinha que ir para as aulas na Faculdade de Economia. Pois é, para compreender melhor a sociedade que desejava transformar entendi por bem estudar economia. Mas convenhamos graduação é dedicação e eu não tinha gás e tempo para as duas faculdades simultaneamente. Além do mais era um estudante de restaurante universitário, morando na casa de uma tia e andando de ônibus.

Mas estou detalhando muito, volto ao fato. Num daqueles almoços coletivos entre estudantes de várias faculdades, o Leite, estudante de jornalismo, uma grande figura que morreu precocemente, propôs uma reportagem. Ele estava estagiando num daqueles jornais da lista lá de cima e tinha por pauta fazer uma reportagem do anúncio da primeira viagem comercial à lua.

Qual era a do Leite? Levar alguns de nós para nos inscrevermos como pioneiros das viagens espaciais, de natureza comercial, à lua, naquele clima festivo da sociedade americana com o pouso no satélite. E fomos: eu, o Tarcísio Baturité, José Jackson Sampaio e Júlio César Penaforte. Iríamos nos inscrever para viajar à lua.

E chegamos ao local da inscrição. Era a representação da PANAM (grande companhia aérea americana que faliu nos anos 90) e o homem de Marketing da empresa já nos recebeu de cenho franzido. Ele teve que fazer cena, pois o Leite fazia anotações e resolveu fotografar a cena da inscrição.

Mas não havia inscrição alguma. Era apenas uma jogada de Marketing da PANAM naquela altura atolada até o umbigo com a BOEING na aquisição e lançamento do JUMBO. A matéria era sobre o Jumbo. Vimos folhetos, maquetes, assentos, a primeira classe e tome Jumbo por propaganda e o Leite anotando.

Naquela altura eu soltava gargalhadas “in pectori”. Nunca tinha viajado nem num teco teco e meu máximo de imaginação de Ícaro era ser como os urubus a planar nos céu azul do sítio onde vivia no Crato. Ria ainda mais pelo marqueteiro ter que nos explicar aquilo tudo como se tivesses diante de um grupo de investidores e companhias de turismo carreando levas de passageiros para o interior do seu Jumbo.

O Leite nos fotografou: o americano em pé apontando os folhetos e os quatro viajantes da lua em volta dele. Todos com risos irônicos. No dia seguinte quando chegamos à Faculdade foi uma festa. Pegaram uma tábua e colaram a primeira página do jornal com a foto extraída da cena acima e a manchete em letras garrafais: Estudantes Cearenses se Inscrevem para a Primeira Viagem Comercial à Lua.

No dia seguinte às gargalhadas enquanto almoçávamos o Leite quase chorando de rir nos contou que o homem de marketing, em estado de pura agonia, avisara que a inscrição não valera. Mas é claro, e nem as viagens comerciais à lua. Tudo era blefe.

Mas nunca ri tanto mesmo com a exoneração da promissora vida de astronauta. Mas foi uma bela gozação com uma grande corporação do império.