TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Arisco



As cidades que se espreguiçam nas bordas da Chapada do Araripe vivem, literalmente, de sombra e água fresca. Os cratenses carregam consigo aquela fatia de preguiça e  de irreverência:  agimos  ainda  como caçadores-coletores,  igualzinho aos nossos avós cariris.  Somos mais afeitos à rede e à preguiçosa do que à enxada e ao moinho. É que trabalhar às vezes é até bom, mas dá uma canseira danada. E, ademais, para que essa  correria toda, se os frutos já pendem das árvores; os passarinhos ligam suas radiolas nos galhos; as fontes nos convidam para seus sonhos molhados e o verde da serra nos ensina, a todo momento, suas lições  de esperança ? Pernas para o ar que ninguém é de ferro !  Terminamos por ser, inexoravelmente,  um pouco a extensão da natureza que nos rodeia. Carregamos um sorriso mais úmido, uma postura mais refrescante, uma leveza de brisa, um líquido fluxo de levadas e cascatas. A placidez do mundo à nossa volta reflete-se no nosso espírito. A vida que palpita à nossa frente nos basta e marca, de alguma maneira, o ritmo das nossas sístoles e diástoles.
                                   A serra nos dá lições de perigo com seus penhascos e suas escarpas. A paisagem, vista da montanha, professa-nos aulas de pequenez. Somos um mero ponto diante da imensidão que se estende desafiadora no horizonte sem fim. Do alto, os homens são pequenos e as coisas minúsculas e salta-nos aos olhos a perfeita escala da nossa perturbadora  insignificância . O ciclo incessante das estações brota no nosso quintal e imanta-nos com sua magia: dias somos outono, noutros veraneamos, e , quase que continuamente , primaveramos , no aguardo dos rigores não tão rigorosos  dos nossos invernos exteriores e interiores.
                                   A vida , do outro lado da montanha, substituiu o concreto pelo verde; o sonho pela gula; as espigas pelos espigões; as flores pelo E.V.A; os frutos pelo isopor. Dizem-se todos fartos e felizes , protegidos pelos  seus muros de T.N.T. . Fartem-se ! A luz incandescente do lago artificial lhes ofusca. A nós , basta-nos o milagre nosso de cada dia : a cascata já empina as turvas águas do Batateiras e os pequis estão florando ali no Arisco e,  logo mais , nas encostas da Chapada. Vejam !

J.  Flávio Vieira

Um "pequeno grande gesto" - José Nilton Mariano Saraiva

E de repente, de uma área não muita afeita a manifestações da espécie, porquanto povoada por “machões sarados”, aparentemente embrutecidos, e ainda por cima praticantes de um esporte onde o contato físico forte e ríspido é uma constante, uma atitude inusitada, um laivo de ternura e afeto, um “pequeno grande gesto”, que parece ter passado despercebido pela maioria dos que o vivenciaram, ao vivo ou via telinha (pelo menos não se ouviu ou se leu nada, a respeito).
Deu-se na frienta noite londrina, no novo e monumental estádio de Wembley, por ocasião de uma partida final da Copa dos Campeões da Europa, quando se enfrentaram as tradicionais e caras esquadras do Barcelona (Espanha) e Manchester United (Inglaterra), dois dos maiores expoentes do mundo futebolístico da atualidade.
Aos fatos.
Quase ao final (aos 43 minutos do segundo tempo) do aguardado confronto que mobilizou adeptos do futebol em todo o mundo, com o jogo já definido e o título assegurado em favor da excepcional esquadra do Barcelona (3 x 1), o técnico Guardiola (ex-jogador do próprio clube), numa atitude de grandeza e desprendimento, resolve prestar uma justa homenagem ao seu correto “capitão”, o marrento e aguerrido zagueiro Puyol, que, lesionado, não tivera condição de adentrar ao gramado, de início; então, faltando dois minutos para o término da pugna, convoca-o a substituir um companheiro, com o claro intuito de, naquele momento maior, no ápice daquela gloriosa jornada, braçadeira de capitão, fazê-lo erguer o troféu de campeão e, consequentemente, aparecer para a posteridade nas TVs de todo o mundo, ao vivo e a cores, e na primeira página dos principais jornais do mundo, dia seguinte.
Providenciada a substituição, daí a pouco o juiz determina o término do confronto. E foi então, no momento da premiação, ante um batalhão de fotógrafos e centenas de canais de televisão de todo o mundo, que se deu o inusitado, o imprevisível, aquilo que denominamos um “pequeno grande gesto”, pela espontaneidade e nobreza do ato: o guerreiro Puyol, evidentemente que fugindo do script armado pelo técnico-amigo Guardiola, mostra toda a sua humildade e excelência de caráter, ao abdicar de tamanha honraria e delegar ao discreto companheiro Abidal (lateral esquerdo), o privilégio de erguer o troféu, como se fora o verdadeiro “capitão” da equipe catalã.
Explica-se: meses atrás, Abidal fora desenganado pelos médicos, em razão da descoberta de uma grave e normalmente letal enfermidade (“câncer” no fígado) e fora afastado sumariamente das atividades esportivas; agora, após um tratamento pra lá de penoso, ali, ante um estádio ocupado por 80 mil pessoas e com a partida sendo transmitida pra bilhões de telespectadores em todo o mundo, além da confiança do técnico Guardiola em escalá-lo e mantê-lo durante toda a partida, agora, Puyol, o “capitão” de todos eles, que entrara ao final do jogo unicamente pra “exercitar o que lhe conferia a patente”, humilde e simbolicamente transferia pra ele, Abidal, o privilégio de erguer o troféu de campeão.
Uma cena de cortar corações e levar qualquer um às lágrimas (embora alguns teimem em afirmar que “homem que é homem não chora”). Pois, acreditem, “abrimos o berreiro”.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"Tição" - José Nilton Mariano Saraiva

Definitivamente, é a inadmissível frouxidão da Justiça que contribui para que a desfaçatez e a cara de pau imperem na arena política brasileira, desde tempos imemoriais. Se não testemunhássemos a impunidade latente há séculos, se os maus feitos fossem punidos célere e exemplarmente, e se a cadeia fosse uma realidade e o destino compulsório para os que transgridem a lei, certamente que as coisas seriam bem diferentes por essas bandas.
Mas, o “lero” é o seguinte: como sabemos, dentre as 184 prefeituras do Ceará, a do Crato é uma das que consta de um relatório onde estão reunidas as 39 em que o Tribunal de Contas dos Municípios constatou a existência de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA e, ainda, foi enquadrada entre as 14 em que deverá ser realizada uma “TOMADA DE CONTAS ESPECIAL” (processo no qual a administração pública exige a restituição de recursos ao patrimônio público ou que os envolvidos apresentem sua defesa), em razão do desvio de significativas verbas públicas em atividades outras, não identificadas pelos auditores daquele egrégio colegiado. Segundo afirmação do promotor Eloilson Landim, do Ministério Público Estadual... “Há improbidade administrativa e crime em todos os 39 (municípios) e acho que em todos a Tomada de Contas Especial vai ser determinada” (jornal O POVO).
Portanto, o novo gestor da cidade, que certamente já ouvira falar, mas que oficialmente tomou conhecimento do fato depois de eleito, tinha como prioritária providência, após tomar posse, imediatamente contratar uma auditoria independente a fim de constatar (ou reafirmar) o óbvio ululante (aquilo que o próprio TCM já anunciara); portanto, pisou feio na bola não o fazendo e, só agora, candidamente, vem a público afirmar que...  "Encontramos uma prefeitura sem estrutura nenhuma. Uma prefeitura que não pode ainda atender às demandas da população. Fechamos, sim, para balanço” (novo prefeito de Crato, Ronaldo Gomes de Matos, do PMDB, segundo o jornal O POVO).
Pois não é que, apesar de acusado pelo TCM, das evidências palpáveis de irregularidades cabeludas encontradas na contabilidade da prefeitura e de sequer ter comparecido à solenidade de transmissão do cargo (saiu pelas portas dos fundos, talvez com receio de ser vaiado pela população) ao ser questionado pela imprensa o ex-prefeito da cidade literalmente sugeriu que os auditores do Tribunal de Contas dos Municípios são uns incompetentes, já que... "Deixei um governo limpo, que inclusive passou pela fiscalização do Tribunal de Contas da União" (Samuel Araripe, ex-prefeito de Crato, segundo ainda o jornal O POVO). É ou não muita desfaçatez ???
No mais, o ex-mandatário deve ter decepcionado certos áulicos, capazes não só de por a mão no fogo por Sua Excelência, mas, ainda, de partirem até para o confronto físico se alguém ousasse criticar sua administração; a esta hora devem andar à procura de atendimento urgente em algum hospital de alta complexidade, especializado em queimaduras graves; as mãos devem ter virado um “tição” só.  
Agora, é de se estranhar – e muito – e bem que o novo mandatário poderia oferecer uma explicação convincente aos seus munícipes, do “porque” de manter na principal secretaria do organograma da prefeitura, naquela por onde teoricamente passa todos os grandes projetos e as polpudas dotações respectivas (a de Infra-estrutura) o mesmo secretário que dava as cartas na administração passada (um parente do atual prefeito, segundo informações).
Como justificar isso ???

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"...das Chagas" - José Nilton Mariano Saraiva

Em 12 de abril de 1961, uma frase – “A Terra é azul” - assombrou o mundo, já que proferida do espaço sideral pelo cosmonauta russo Iuri Alekseievitch Gagarin, naquele momento passageiro solitário da nave Vostok 1, que orbitou o planeta Terra por 108 minutos. O "mignon" Gagarin, com 1,57m de altura e 69 kg, foi o primeiro e privilegiado homem a observar de uma ótica privilegiada o nosso planeta, a 315 km de altura e, naturalmente, mostrou-se extasiado com aquela visão maravilhosa.
Mas, principiando: entre meados da década de 50 e o decorrer da década de 60, quando o comunismo era “comunismo-puro” e não o “comunismo-capitalista” dos dias atuais, URSS e EUA, seus dois principais representantes, quase que iniciaram um confronto nuclear, objetivando mostrar ao mundo quem era quem e, consequentemente, qual dos regimes era mais forte. Foi a chamada “guerra fria”, já que movida pela ameaça nuclear iminente.
A coisa era tão acirrada que a discussão acabou indo literalmente parar no espaço. É que a corrida/exploração espacial dava seus primeiros passos, com russos e americanos querendo mostrar ao mundo quem era detentor da mais avançada tecnologia, capaz até de colocar um homem para orbitar a Terra e/ou até explorar outros planetas. Daí a importância do voo histórico de Gagarin.
No entanto, ao contrário do que se imaginava (que a auto-estima dos gringos fosse lá pra baixo) o fato de a URSS partir momentaneamente à frente serviu foi de estímulo para que os americanos caprichassem ainda mais no uso de sofisticada tecnologia, até porque, como dito antes, se achava em jogo a própria questão ideológica: comunismo ou o capitalismo.
E foi de olho nessa dualidade – avanço tecnológico-ideologia política - que o então jovem presidente americano, John Kennedy, numa reunião conjunta do Congresso, em 25 de maio de 1961, lançou o desafio de, antes de a década terminar, "enviar homens à Lua e retorná-los a salvo"; ano seguinte, em discurso na Universidade Rice, garantiu:  "Nós decidimos ir a Lua. Nós decidimos ir a Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis".
Finalmente, em 20 de julho de 1969 (sem que o presidente Kennedy pudesse participar da festa, já que assassinado em Dallas, em 1963), o americano Neil Alden Armstrong entrou para a história ao ser o primeiro homem a pisar no solo então virgem da Lua.
De volta, Armstrong recebeu muitas e muitas homenagens no mundo todo (assim como em seu tempo Iuri Gagarin houvera recebido), inclusive aqui em Fortaleza, no nosso Ceará, quando um pai batizou o primogênito de Iuri Armstrong.
Pena que, na complementaridade da junção dos dois nomes famosos o sobrenome não ajudasse nem um pouco: Iuri Armstrong... das Chagas.
Nossos dois heróis não mereciam isso. Definitivamente.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O "cara" - José Nilton Mariano Saraiva

Já nos reportamos aqui sobre as “homenagens” aos ídolos do futebol, música e cinema, por parte de pais “torcedores-fanáticos”, através da tributação, preferencialmente ao primogênito, do nome de algum deles. No entanto, um outro tipo de homenagem é muito comum entre genitores normalmente humildes e de parca cultura, e que merece ser lembrada: batizar o rebento com um nome estrangeiro, uma sopinha de letras de difícil pronúncia, capaz de “enrolar a língua” de qualquer um “metido a besta”, simplesmente porque se lhe parecia um nome “bonito”. Não importa a origem do nome, quem o usava (se se tratava de algum marginal ou uma autoridade constituída); enfim, o que valia era a “boniteza” da grafia e, principalmente, a dificuldade que os “analfabetos” tinham de pronunciá-lo.
Pois foi estribado em tais “conceitos revolucionários” que o pai de um nosso colega de trabalho resolveu batizá-lo com o pomposo nome de Zwínglio (aos desavisados, a principal referencia sobre, é o suíço Ulrich Zwínglio, teólogo e principal líder da reforma protestante naquele país; portanto, um nome de peso e com história).
Fato é que, de tanta ouvir o pai se “gabar” com os amigos do nome estrambótico e difícil que tinha posto nele, nosso amigo assimilou “ipsis litteris” e “lato sensu” todo aquele arrazoado laudatório e, ele próprio, a partir de uma certa idade, passou a se vangloriar do nome e, tal qual o nosso rei Roberto Carlos, hoje, a se achar “o cara”; ria às escancaras quando, ao fornecer informações para um cadastro qualquer nas lojas comerciais, observava a extrema dificuldades e a cara de espanto dos seus entrevistadores: “Por favor, senhor, Zu o quê mesmo ???”, lhe inquiriam. E nessa oportunidade, como se fora um paciente professor catedrático, fazia questão de citar, uma a uma, aquelas letras famosas, caprichando na dicção:  Z – W – I – N – G – L – I - O. E se punha a rir com a cara de espanto daqueles “pobres-analfabetos”.
A adoração pelo próprio nome virou mais que mania, tornou-se uma verdadeira obsessão, tanto que, 200 anos antes de casar, ele já decidira que o primeiro filho receberia na pia batismal o mesmo nome do pai (afinal, era uma rara oportunidade de homenagear o avô (seu pai), que mesmo pouco letrado, tivera a idéia brilhante de arranjar-lhe um nome tão “porreta”).
Assim, constituiu-se uma tremenda surpresa o nascimento de uma robusta criança do sexo feminino; e agora, o que fazer, se perguntava atarantado; mas eis que, como num passe de mágica, “fiat lux”: absorveu o choque rapidamente através da  adoção de uma solução simplória - “feminilizar” o próprio nome, trocando o “O” final pelo “A”, daí que a filha chamar-se-ia Zwínglia. Pronto, com ele ninguém podia, era um gênio.
Anos após, evidentemente que quando começou a se entender por gente (ao adolescer), a filha criou verdadeira ojeriza pelo próprio nome, a ponto de ter vergonha de citá-lo, em conversas particulares e, principalmente, em público. Virava uma fera-ferida quando o pai, na ânsia de mostrar ao mundo o que era um nome bonito, a chamava a quatro pulmões pelo nome exótico.  Para ela, seu pai “tava doido varrido ou bêbado” quando decidiu batizá-la com aquela “praga de nome”. Pra encurtar a conversa e já que não tinha mesmo jeito, Zwínglia resolveu que a partir de então seria simplesmente “Zu”. E não admitia tergiversações. Se o pai não gostasse que fosse à PQP. Se possível, sem passagem de retorno.
Enquanto isso, na solidão da sua última morada, Ulrich Zwínglio ainda hoje deve estar se contorcendo e se questionando se merecia tal tipo de homenagem.

VERÍSSIMO - José do Vale Pinheiro Feitosa


O Pavilhão Carlos Chagas, localizado no Hospital São Francisco, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era onde todos os estudantes politizados e preocupados com os problemas de saúde pública iam terminar o curso, se especializar e até fazer mestrado ou doutorado. Foi ali que reencontrei o nosso Patativa do Assaré. Vi em detalhes o Metrô rasgar o chão atrás do Pavilhão e rapidamente começar a transformação da região da chamada Cidade Nova com a destruição do famoso Mangue, que foi um verdadeiro bairro dedicado somente à prostituição e as casas de show. Luiz Gonzaga andou nos começos por lá.

O nosso centro de estudos era diferente de tudo o mais da UFRJ. Além de discussões científicas, convidávamos personalidades que tinham uma visão de mundo diferente do regime político de então. Foi assim que tivemos o Ziraldo, o Paulinho da Viola e o cronista Carlos Eduardo Novaes, que naquela época fazia um grande sucesso no Jornal do Brasil.

Nesta ocasião o Carlos Eduardo criticou um jornalista que se iniciava na crônica montado no sucesso do pai. Era o protótipo daquele nepotismo que ergue méritos por afinidade dos antepassados. De qualquer modo estávamos todos equivocados, pois cada história é a que se conta e não apenas a crítica do presente que pode ser um alerta, mas não a sentença definitiva. Com o tempo saberemos quem tem, de fato, fôlego suficiente para o que se propõe.

E esse novo cronista teve história de sobra, chamava-se Luiz Fernando Veríssimo. Um dos bons escritores do nosso tempo. Um excelente contador de casos. Inteligente, bem informado e, sobretudo, alegre e otimista, mesmo quando faz severas e terminais críticas a certa canalhice humana. Ele é tão presente na vida das pessoas que alguns, se achando geniais, escrevem e dão o nome de Veríssimo à autoria do seu texto só para sentir o sucesso da leitura através do sistema de busca.

Pois nas proximidades de final de ano Veríssimo esteve à beira da morte. Fui informado de que se tratou de uma infecção pelo vírus da Influenza e que é objeto de vacinação especialmente na população idosa. Felizmente se restabeleceu e se encontra em atividade novamente. O jornal o Estado de São Paulo acaba de publicar uma crônica dele falando de como ele se encontrou no elevador da morte. Quem puder, procure no Google que achará a referência.

O talento que sobreviveu não ao inexorável fim de todos, mas à morte prévia no pódio da escala social. Veríssimo vivo é uma grande notícia. Mas ter ele tomado o caminho que tomou é ainda maior.

E assim deixo um abraço em todos. Na primeira quinzena de abril estaremos em contato novamente. Salvo alguns estímulos maiores e eventuais. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

“Hollywood” X “Oleúde” – José Nilton Mariano Saraiva

Ainda sobre as “homenagens” (algumas um tanto quanto “fora do prumo”) prestadas por pais-torcedores aos seus ídolos (principalmente do futebol, do cinema e da música popular), materializadas no batismo do filho com o nome de um deles, vale lembrar uma “sui generis”.
Como sabemos, durante muito tempo o cinema americano não tinha concorrente em termos de convincentes, belos a preparados atores/atrizes (e vamos acabar com essa frescura de que “homem que é homem não acha homem bonito”), qualidade técnica, recursos especiais, direção, produção e o escambau (hoje, outros países já conseguem produzir filmes com a mesma qualidade na direção, na produção e com “artistas” reconhecidamente convincentes na arte de representar). Mas, que foram os americanos que dominaram por muito tempo a “sétima arte”, isso ninguém há de contestar.
E aí quem se destacou foi o pequeno distrito de “Hollywood”, na cidade de Los Angeles, que serviu de abrigo aos grandes estúdios cinematográficos de então, que por sua vez detinham em seus “casts” o supra-sumo ou o filé-mignon na tarefa de representar; assim, os categorizados profissionais do cinema normalmente se vinculavam a um desses estúdios. Portanto, chegar a “Hollywood” (a “meca do cinema”) era o sonho, o ápice, o fim de linha de qualquer “artista” que pretendesse ser reconhecido como tal.
Pois foi para homenagear “Hollywood” ( “ninho” dos grandes atores do cinema) que os humildes e iletrados pais do nosso personagem resolveram dar-lhe o nome daquele pequeno distrito americano. E assim, quando veio ao mundo, o rebento querido recebeu um nome fora dos padrões tão usuais à época aqui no Brasil (José, Raimundo, João, Joaquim, Sebastião, Manoel e por aí vai); além de que, o “nobre” e pomposo nome o diferenciaria dos demais meninos e “mascararia’ a pobreza em que a família vivia atolada até o pescoço.
Só que, em razão da pouca vivência com as letras e do também despreparo do anotador-cartorário de plantão, a homenagem acabou saindo um tanto quanto esdrúxula, esquisita, estapafúrdia até: e assim veio ao mundo o nosso glorioso “Oleúde José Ribeiro”.
Depois de crescido, o agora tonificado e vigoroso negro “Hollywood/Oleúde” virou jogador de futebol e, atualmente, com o alcunha/apelido de “Capitão” tornou-se um suplício e tormento para os atacantes do time contrário, porquanto adotou o estilo-xerifão: “do pescoço pra baixo é tudo canela”.
Além do mais, ele é um “capitão” e, portanto, merece respeito. E tome porrada, a torto e a direito, pra cima e pra baixo. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

De quem são os louros ?



Os Cangatis dominaram a política em Matozinho por mais de quarenta anos. Ligados diretamente à UDN ,  fizeram , por muitos anos, da cidade um feudo. Aos amigos as brechas da lei, aos inimigos sobravam os rigores. Existia, inclusive , um slogan na região :
                        ---“Em Matozinho ou é  Cangati ou coitado”!
                         Naquele ano, no entanto, a coisa estava pegando fogo. Sinderval Bandeira envergara a bandeira do PSDB local, com amplo apoio do  governador, seu correligionário e entraram dispostos a dizimar a dinastia dos Cangatis. Tantos anos de poder haviam viciado a poderosa família que carregava consigo a certeza da invencibilidade. Nem percebiam que o poder desgasta, que se vão criando mais desafetos que amigos e que insidiosamente sempre se vai firmando, na população,  um desejo de se respirar novos ares. Que mudem ao menos os bolsos ! --- bradava Jojó Fubuia , na praça, resumindo as aspirações de mudança dos matozenses. A campanha eleitoral foi tensa e violenta: tripas gaiteiras vazadas, tapa em terreiro dos olhos, cachaços lascados. Abertas as urnas, para total surpresa do candidato Pedro Cangati, Sinderval foi leito com mais de sessenta por cento dos votos.
                        Em cidade pequena, esse filme sempre tem final previsível. Nos  últimos meses do mandato , Pedro  procedeu a um verdadeiro desmonte da prefeitura. Parecia vingar-se daqueles que , no seu entender, o haviam traído. Atrasou salários dos funcionários, cancelou pagamento de contas , suspendeu coleta do lixo, suspendeu distribuição de medicamentos, demitiu sumariamente uma chusma de funcionários. Jojó me dizia que isso é um absurdo, coisa de vila de muros baixos  e acrescentava: em cidade grande, amigos, não é assim , não ! É muito pior !
                        Não bastasse esse desmazelo, na última semana, o prefeito resolveu fazer o rapa no que restava na prefeitura. Encostou um caminhão e providenciou a mudança: móveis, máquinas de escrever, documentos, tudo. Deixou apenas o cofre velho, no meio da sala, mesmo assim sem um centavo furado dentro dele. Fechou o prédio praticamente vazio e ainda jogou as chaves dentro do Rio Paranaporã.  
                        Uns quinze dias antes da posse de Sinderval, Marinaldo Pé de Zamba, um bodegueiro da Serra da Jurumenha, entrou de prefeitura adentro, com um pacote mal enjembrado na mão. Era uma gaiola coberta com papel de embrulho , cheia de furos esparsos, feitos de maneira irregular. Procurou Mundico Bizerra o Secretário de Finanças. Deu entrada na sala do barnabé e explicou o motivo da viagem. Sabia que o mandato atual estava terminando e como estava devendo a Mundico uma dívida refém à dispensa de alguns impostos do seu pequeno comércio, vinha cumprir o prometido . Esticou a embalagem  e colocou em cima do Bureau da autoridade:
                        --- Mundico, tá aqui! Tô pagando o combinado! Sei que agora você , com essa mudança de política, vai ficar mais por baixo de que diferencial de cururu. Pois to pagando homem de Deus, taqui seu papagaio ! O bicho é falador que é danado !
                        Mundico agradeceu pela lembrança, tranqüilo por não ter ninguém na sala para testemunhar o escambo. Resolveu colocar a caqueira com o papagaio no seu gabinete, até levá-lo para casa, nas proximidades da posse do opositor. Pois bem, o danado do louro presenciou todo o combinemos do saque, justamente nos dias que antecederam ao butim. Eram reuniões e mais reuniões. Vamos carregar isso, vamos roubar aquilo, não vamos deixar pedra sobre pedra, vamos  limpar o cofre... No dia do arrastão, a sanha foi tanta que até o papagaio de Mundico foi afanado e levado à casa do prefeito, junto com todo o resto dos pertences públicos.
                        Os pessedistas, no poder, não perderam tempo. Espalharam em todas as bocas difusoras da cidade, o verdadeiro saque cometido pelos Cangatis. E fofoca em cidade pequena é como coceira em macaco: não tem que dê fim.  Substitui com larga vantagem as outras mídias. Pedro Cangati estava sobre acirrado ataque da população por conta da roubalheira explícita. No entanto, o que mais lhe enchia o saco era o velho papagaio que , não parava de repetir, as tramóias que aprendera na Secretaria de Finanças .
                        --- Currupaco... Vou pegar todo o dinheiro do cofre...Currupaco... vou carregar os móveis lá pra casa...Currupaco vou roubar os documentos e queimar...
                        Cangati começou a se invocar com o louro. Não queria aquele testemunha ocular ( ou auditivo) ali, enchendo o saco o tempo todo, como um verdadeiro dedo-duro. Fulo da vida, meteu a mão na gaiola, amarrou o papagaio com um barbante e ameaçou:
                        --- Vai ficar assim uma semana, seu filho da puta, para nunca mais roubar!
                        O louro, todo ingriziado, ficou ali em cima da máquina de costura, sem poder se mover.  Estava ali já há uns dois dias, quando observou, na parede, uma imagem de São Sebastião, naquela pose clássica. Amarrado numa árvore e todo flechado, com o pezinho levantado à Ana Botafogo e um olhar enviesado suspeitíssimo de soldada romana. O papagaio resolveu , então, entabular conversa:
                        --- Ei, mulher ! Tu tá escândalo ! Me diz , há quanto tempo tu tá amarrada aí nessa árvore ?
                        São Sebastião, meio a contragosto, responde:
                        --- Há uns mil e oitocentos anos, pelo menos...
                        O papagaio saltou, quase quebrando os barbantes , e surpreso, quis saber:
                        --- Mil e Oitocentos Anos ? O que diabo foi  que tu roubou ? Tu é deputado ? Senador ? Governador ? Participou do Assalto do Banco Central ? Vôte !

J. Flávio Vieira

Os “Fábio Júnior” que não são “Júnior” - José Nilton Mariano Saraiva

O uruguaio Mazurkiewicz, sem favor nenhum um dos grandes goleiros do mundo (juntamente com o russo Yashin, conhecido por “Aranha Negra” em razão de usar chuteiras, meões, calção, camisa e boné impecavelmente pretos e que pegava “até pensamento”), merece a homenagem que o pai-torcedor lhe prestou, ao batizar o filho com o seu nome. Só que a homenagem saiu um tanto quanto “truncada” (para não dizer “atrapalhada”), já que Mazurkiewicz transformou-se em Mazuquiebe, conforme nos relata com a competência de sempre o Zé do Vale. Isso, no entanto, não deslustra ou invalida a intenção original. O ídolo foi reverenciado, sim.
Lamentável é que a televisão brasileira e a imprensa tupiniquim, ao noticiar a sua morte, não tenham mostrado ou se referido às suas portentosas defesas ou aos verdadeiros milagres operados por Mazurkiewick embaixo das traves, mas, sim, haja priorizado o vídeo e feito comentários sobre duas “presumíveis” falhas cometidas pelo próprio, mas que, na realidade, se concretizaram muito mais em razão da genialidade de Pelé, então no auge da sua forma, do que propriamente por erro do grande goleiro: o “drible da vaca” que quase resultou em gol e o “tiro de meta” cobrado pela goleiro e seguido da imediata “devolução” da bola, do meio do campo em direção ao gol. Momentos antológicos do futebol.
Mas, retomando o fio da meada, uma outra homenagem que merece ser citada teve como autora a mãe do jogador Fábio Júnior (hoje defendendo o América Mineiro) e foi revelada pelo próprio, de forma quase que acidental. É que, ao término de mais uma partida pelo Campeonato Brasileiro, o repórter abordou-o para a tradicional entrevista sobre o resultado do jogo, o gol que fizera e coisa e tal e, ao final, respeitosamente resolveu mandar um abraço para o “seu Fábio”. E aí se deu o diálogo esclarecedor: Jogador: Que “seu Fábio” ???”. E o repórter, surpreso: “Ué, seu pai, você não é o Júnior ???”. O jogador, assustado, retomando a palavra: “Tá de brincadeira, o nome do meu pai é Bastião”. O repórter, abismado; “Como, seu nome não é Fábio Júnior ??? E, aí, veio o esclarecimento definitivo: “Não, cara, é que minha mãe é fã de carteirinha do cantor Fábio Júnior e resolveu homenagear ele me dando o mesmo nome”. O repórter, mais tranqüilo, não perdeu a pose:  “Bem, então dê o meu abraço em seu Bastião, ok” ??? Jogador, rindo: Ok.
A curiosidade é que nenhum dos “Fábios” é filho de nenhum “Fábio”, a fim de ter no sobrenome o “Júnior”: enquanto o que “poderia” ter sido o pai (o cantor) se chama Fábio Correa Ayrosa Galvão (nascido em São Paulo em 21.11.1953 e é filho de William), o que “quase” foi seu filho (o jogador), assina Fábio Júnior Pereira (nascido em Minas Gerais em 20.11.1977 e é filho de Sebastião), ainda hoje continuam a exercer competentemente as respectivas profissões, apesar, evidentemente, da acentuada diferença de idades: nasceram no mesmo mês (11), quase no mesmo dia (20/21), mas, o ano (quanta diferença): 1953 e 1977. Pensando bem, bem que um poderia ser pai do outro, não ???

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Mazurkiewicz que se foi, deixando Mazuquiebe sobre a terra - José do Vale Pinheiro Feitosa


Ladislao Mazurkiewicz nasceu como todos. Expulso do útero materno no ano de 1945. Na província de Maldonado, numa cidade à beira de um mar de sal e o rio da Prata: Piriápolis. Na direção de Punta Del Este, quando se vem de Montevideo. Era o tempo dos rebanhos gordos que fizeram a riqueza do cone sul. A Europa faminta pela guerra tornou as fazendas planas dos pampas em minas de ouro.

Mazurkiewicz cresceu na contramão da maioria. Tornou-se uma das maiores barreiras ao chute dos pés na bola. Com as mãos, saltos olímpicos em busca da bola e um senso infinitesimal de tempo para compreender a trajetória do chute. Um dos maiores goleiros da história.

Aos 67 anos de vida, não é quase nada, mas é muito para esse nosso corpo frágil e rapidamente perecível. Juntou seu porte extraordinário no gol ao mito de um dos mais espetaculares times de futebol da América do Sul: o Peñarol. Que recebeu esse nome de um sujeito que morava na região onde os operários organizaram o time. Era um italiano com sobrenome Pignarolo que evoluiu para Peñarol.

Hoje, quando Mazurkiewicz entrou na ordem do necrológio jornalístico, aqui na terra dos tupiniquins, o resumo do goleiro será os dribles e as bobeiras dele diante de Pelé. Como se tudo sobre Mazurkiewicz se resumisse a ser driblado por Pelé. Essa é uma revelação terrível sobre como os meios de comunicação são parciais e funcionando como mera sonoridade do mesmo a ecoar-se.

Mas eu conheci alguém que assim não pensaria. Era mineiro de corpo e alma e se tornara fã do goleiro pela grandeza que dera ao Atlético Mineiro. O conheci na Favela do Escondidinho, onde trabalhei como médico por dez anos. Fizera uma homenagem ao goleiro pondo no filho mais velho do nome de Mazuquiebe.  

Mazuquiebe, pelo tempo, já deve ser pai de crianças e hoje deve pensar no goleiro Uruguaio. Um encontro no sentido exato das esferas externas: entre Mazurkiewicz e Mazuquiebe. E isso sem necessitar dos dribles de Pelé.  

Estados “produtores” ??? – José Nilton Mariano Saraiva

Particularmente, entendemos que a chancela de “produtor” de petróleo só deveria ser obtida quando da extração do valioso mineral no próprio solo, no momento em que o mesmo fosse “arrancado” do ventre da terra firme, evidentemente que dentro dos limites geográficos que demarcam qualquer ente federativo (estado, cidade ou território), como o são, por exemplo, aqui no Brasil, o Amazonas, a Bahia e o Rio Grande do Norte (estes, sim, na nossa concepção, verdadeiros “produtores”).
Já o produto/riqueza obtido nos cafundós e profundezas do Oceano, dada a inexistência de qualquer delimitação geográfica (e até mesmo porque o “marzão” é uno e indivisível), pertenceria à União, a toda sua população e, pois, sem essa de privatizar ao estado A ou estado B.
Pois bem, é nas profundezas do Oceano Atlântico e bem distante da sua costa (mas dentro do limite das 200 milhas internacionalmente estabelecidas), que começa a ser estruturado o futuro do Brasil. É que com a descoberta das fabulosas jazidas do “pre-sal”, o país tende a alçar vôo rumo à condição de potencia econômica mundial, dentro de pouco tempo. Não que vá ocorrer de uma hora pra outra (embora já se obtenha petróleo de tais jazidas), porquanto as dificuldades serão colossais, os investimentos para obter tal “passaporte” serão de larga escala, assim como necessitaremos buscar parcerias que viabilizem tão acalentado sonho. Mas, que vamos chegar lá, dúvidas não tenham.
Mas, como a descoberta representa muito, mas muito dinheiro mesmo, grana pra se recolher diuturnamente por anos a fio, eis que surge a primeira grande polemica: embora uma gota sequer do petróleo seja extraída do seu solo, mas, sim, a milhas de distância da costa, determinados estados da federação (Rio de Janeiro e Espírito Santo) “inventaram” que o Oceano lhes pertence, por se situar de frente para a parte continental onde ficam encravados e, daí, seriam os estados “produtores” de petróleo e, conseqüentemente, beneficiários privilegiados dos generosos royalties propiciados pela arrecadação do que for extraído.  Os demais entes federativos que se explodam, que procurem viabilizar-se com recursos outros.
Só que a lei nº 9.478, de 6 de agosto d 1997, capítulo V, Seção I, artigo 21, é muita clara:
“Todos os direitos de exploração e produção de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos em território nacional, nele compreendidos a parte terrestre, O MAR TERRITORIAL, a plataforma continental e a zona econômica exclusiva, PERTENCEM À UNIÃO, cabendo sua administração à ANP, ressalvadas as competências de outros órgãos e entidades expressamente estabelecidas em lei. (Redação dada pela Lei nº 12.351, de 2010)”.
Assim, resta evidenciado que a questão dos “royalties” deverá ir parar nos tribunais superiores (cuja maioria dos integrantes não são confiáveis, já que claramente influenciáveis pela componente político), mas o que se espera é que haja seriedade, prudência e razoabilidade na hora de decidir, a fim que não se penalize e se cometa uma tremenda injustiça para com a maioria dos estados (25) da federação; e isso só será possível se houver a determinação para que os recursos gerados pelo petróleo extraído do fundo do Oceano sejam rateados equitativamente entre todos os entes federados.
Já agora, no primeiro “round” da luta, os 25 estados interessados na questão foram severamente castigados, porquanto o Congresso Nacional deixou-se quedar pela balbúrdia provocada propositadamente pelos abusados parlamentares dos dois estados autodenominados “produtores”, ao deixar de examinar o “veto” à decisão presidencial equivocada que privilegia apenas 02 estados.
Vamos à luta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Réveillon na Praia de Copacabana - José do Vale Pinheiro Feitosa


Tudo ordem na grande narrativa e anarquia nas vontades de cada um. Ônibus apinhados de gente. Automóveis entre o pé no acelerador e a brusca freada. Luzes. A árvore de natal da Lagoa muda num ciclo de luzes a roubar atenção. A orla da Lagoa com as pessoas em marcha para a faixa do litoral.

Somos litorâneos e prisioneiros das luzes. Os bares do bairro, não tão distante da orla, todos fechados. É na beira mar que o grande encontro se dará. E quando se chega ao Corte do Cantagalo, aquela fenda aberta na pedra para a passagem entre Copacabana e a Lagoa Rodrigo de Freitas, dois rios de gente fluem em ambos os lados da rua.

Desemboca na Miguel Lemos e já vai tomando o leito da rua, naquela altura os ônibus e táxis ainda permitidos estão deixando de passar. Apenas passagens eventuais. E a massa formada por todos nós é tributária caudalosa do mar de gente na Avenida Atlântica. No encontro de gente e mar.

Tantas luzes. Os apartamentos dos prédios da orla cheios de luzes e apinhados de corpos humanos. Nas salas, nos quartos, passeando nos cômodos um através o outro, de vez em quando se aproximando da janela para se admirar do povo lá embaixo, como se povo não fossem.

Policiais. Ambulantes. Gente carregando garrafas de espumantes. Ambulâncias. Defesa Civil. Corpo de Bombeiros. Os trabalhadores que servem à multidão desocupada. Restaurantes. Bares. Bufês. Barracas da Praia. Gente trepada onde a vista é mais alta. O grosso da gente concentrado perto dos telões do show. A maior parte nas areias até o encontro das marés. Muita gente dentro da água.

As barcas de fogos na penumbra, amadurecendo os ovos de luzes. Navio do tamanho de um Shopping Center. Vários navios tomados de luzes. Iates. Luzes de helicópteros piscando. Subimos ao nono andar de um apartamento na orla, esquina da Sá Ferreira. Da varada uma vista ensurdecedora, uma escuta colorida e música, danças, bebidas e comidinhas.

Quando a meia noite se aproxima, as cabeças com alguns graus acima da lucidez, de repente os fogos disparam, uma música suave no sistema de som é abafada pelos gritos de dois milhões de gente. Que não apenas se abraçam, mas, sobretudo se extasiam com o espetáculo de luzes coloridas, de explosões, de efeitos. Do imensamente grande sobre os seus olhares.

Quando tudo cessa, o fôlego se recompõe um tanto quanto tomado de fumaça. Uma nuvem cinza se manifesta na iluminação da praia. O olfato de pólvora toma conta da ambiência de seis quilômetros e os milhões de pessoas. Os olhares ainda bambos de luz e cor retornam ao interior do apartamento onde um grupo privilegiado de 65 pessoas retorna às bebidas, danças e comidinhas. Aí é que chega a ocasião da lentilha.

Um olhar para baixo o mar de gente começa a escoar pelas ruas vicinais. Rios que escoam o mar ao invés de enchê-lo. Aqueles rios de gente. Um rio que se encanta com as margens de efeitos das luzes dos fogos, mas na verdade quer tão pouco. Tão pouco revelado por ser infinitamente maior a vontade de encontrar-se com seus semelhantes do que as soluções materiais. Isso é a humanidade. Precisa tão pouco em realização material.

Aquele rio de gente é na essência uma subjetividade que pulsa entre si e nós. Quando tomarem conta de que a subjetividade é maior que a psicologia social do consumismo a gente se reconhecerá surpresa por tanto tempo que não o fizera.