TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um "pequeno grande gesto" - José Nilton Mariano Saraiva

Como o Brasil é o “país do futebol”, nos dias atuais a atenção da torcida verde-amarela tem sido a Copa das Confederações, com a seleção brasileira já classificada para a partida final contra a Espanha.
Por conta disso, quase ninguém atentou que já há alguns dias teve início a Liga Mundial de Vôlei masculino, com jogos em diferentes países. A seleção nacional, bastante renovada pelo “garimpeiro” técnico Bernardinho (que optou por dispensar os excelentes medalhões Giba, Gustavo, Serginho, Marcelo e demais), vai bem obrigada, porquanto venceu a Polônia duas vezes e a Argentina idem, lá na casa deles.
Em sua estréia aqui no Brasil, hoje, contra a França, quase que fraqueja, depois de alguns momentos de instabilidade, mas, alfim, venceu por 3 x 2 (amanhã tem mais).
No entanto, o que marcou a partida foi algo inusitado: tal qual já acontecera com a seleção de futebol, quando da execução do hino nacional brasileiro jogadores e torcida “desrespeitaram” acintosamente aqueles segundos padrões determinados pelo protocolo da federação internacional respectiva e fizeram questão de “esticar” a cantoria até pelo menos aquela primeira metade dos versos.
E aí a grata surpresa flagrada pelas câmeras, algo verdadeiramente atípico: dentre os grandalhões jogadores da França, perfilados respeitosamente, um deles, baixinho, o número 5, “ajudava” os jogadores brasileiros, entoando a plenos pulmões, emocionado, o hino do Brasil. Só depois o locutor global colocou os pingos nos is: tratava-se do levantador Rafael, jogador brasileiro com nacionalidade francesa, que fazia questão de demonstrar, ali, todo o seu orgulho de ser brasileiro.

Sem dúvida, um pequeno grande gesto.

Quase... - José Nilton Mariano Saraiva

Pois é, quase entregamos o ouro ao bandido. Sem jogar nada (de novo), beneficiando-se de um gol de “canela” (outra vez) e sofrendo uma pressão terrível ao final do jogo (novamente), a seleção de futebol do Brasil conseguiu passar pelo sofrível time dos velhinhos do Uruguai, com o gol salvador já na fase crepuscular do jogo. Sem contar que o ancião Forlan houvera perdido um pênalti no começo da partida que, se convertido, certamente nos complicaria mais ainda. Destaque (negativo) para as “pixotadas” da nossa zaga: o estabanado David Luiz cometeu um pênalti infantil sobre o outro ancião uruguaio (Lugano), enquanto que o Tiago Silva deu de bandeja o gol de empate ao desprezar a velha máxima “bola pro mato que o jogo é de campeonato”, preferindo sair jogando dentro da área com toquinho comprometedor.
Como de praxe, o queridinho da mídia esportiva nacional (Neymar) não fez nada de produtivo, tanto que para poder aparecer apelou pra palhaçada, ao mandar “beijinhos” para o marcador adversário, quando aquele saia de campo substituído.
Como não comungamos com a teoria de que “o importante é ganhar, não importa como”, vamos torcer (muito) para que o nosso time se encontre e resolva jogar bola na partida final. Partida final que será disputada no Maracanã, Rio de Janeiro, contra a Espanha que, “parada” pela eficientíssima marcação da Itália, só conseguiu classificar-se através da cobrança de penalidades máximas, após desgastantes 120 minutos de um jogo em que por alguns momentos chegou a ser dominada pelo adversário.
Sorte nossa, pois, que vamos pegar o time da Espanha bastante cansado e reclamando uma barbaridade do calor sufocante (para eles) aqui dos trópicos. Claro que temos sobejas condições de ganhar, bastando, desde o começo, adiantar a marcação em todas as linhas e obstar o refinado toque de bola do adversário na saída do jogo (como o fez a Itália). E como os zagueiros espanhóis, os grandões Piquê e Sergio Ramos, são lentos e deficientes no jogo por baixo, jogar em cima deles, em velocidade, pode ser o “mapa da mina” (torçamos pra que o tal do Neymar não trema ou queira ser gentil com os futuros companheiros do Barcelona).
Há que se considerar, ainda, que embora composta de jogadores experientes, a Espanha deverá sentir, sim, os nervos, ao adentrar num Maracanã repleto de torcedores a hurrarem a plenos pulmões o refrão “Brasil, Brasil, Brasil”.

Deve ser um bom jogo e com um adendo estimulador: o mundo todo estará de olho.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Fala do Babaquara - José do Vale Pinheiro Feitosa

O debate político é como uma liturgia: é uma narrativa do mundo com a finalidade de elevar-se do rés do chão. É composto simultaneamente do húmus da terra e das chuvas do céu. É um regar o presente e o brotar o futuro. Aliás nem debate é: na verdade é a construção da história.

Este matraquear de pitbul; esta raiva de dar dentadas em bandeiras que afinal é um pano; o azedume que despeja argumento como uma diarreia incontrolável; aquele ar indignado para atacar o momento em defesa de um passado perdedor; este oportunismo de saber bater apenas para promover o nocaute. Estas coisas todas que ainda dançam de par com as mais defasadas, mentirosas e irreais informações não são política. Aliás, são o mero interesse de que tudo fique e nada mude. Prenda o inimigo para soltar os amigos. Condene o frágil para absorver os fortes.

Todos querem uma melhor saúde e educação. O que mais escuto em certos segmentos da classe média é que a educação no Brasil é um lixo, o SUS uma desgraça, que as políticas de Estado não existem. Para esta microcefalia congênita o dinheiro do mensalão daria para salvar todas as pessoas e permitir a elas encherem os shoppings do mundo e se empanturrarem de pipoca e Coca-Cola. Coca-Cola, Coca-Cola isso faz um bem (uma homenagem aos mais velhos).

Quando escuto certos argumentos não sei se rio, se choro ou dou uma chupeta para o bebê chorão. Aí vem um babão ou um nenê a repetir páginas e páginas do amarelão da indigência intelectual a dizer que o SUS é engodo. E o mantra faz a cabeça das redes sociais e a classe média que paga planos de saúde caros repete a ladainha. Só que para esta gente este Brasilzão de milhões de quilômetros quadrados, a metade do continente sul-americano, é apenas ocupado por eles, o restante das pessoas não existem.

Pois bem os planos de saúde que cobrem ambulatório e hospitais atingem apenas 43 milhões de pessoas, mas a realidade mostra que o mundo é maior: somos 193 milhões de brasileiros. Ô Mané adivinha onde estão atendidos os outros 153 milhões de brasileiros. Explique como a mortalidade infantil caiu como um tobogã (eita imagem antiga), as doenças infecciosas despencaram, o país esteve entre os pioneiros a eliminar inúmeras doenças infecciosas imuno-preveníveis. Adivinha gente boa onde se encontram as vacinas universais, a vigilância epidemiológica e sanitária. Vossa ignorância já leu alguma relatório sobre os números da produção do SUS (exames, internações e consultas) ou sobre o quase 130 bilhões de reais gastos em saúde no setor público? Os milhões de empregos, especialmente municipais, espalhados por todo o Brasil.

Vamos parar com a lenga-lenga e partir para o seguinte ponto: construímos uma coisa fenomenal e uma das maiores instituições de saúde do mundo e podemos tirar melhor proveito dela. Vamos apostar nela, empurrar sua qualidade, seu acesso, sua melhor distribuição. Abandonemos a empulhação e partamos para a conquista que muitas gerações levaram de sacrifício e agora ainda tem que receber esta sandice alienada.

Ia usar o termo que considero de gosto duvidoso: babaca. Fui ao dicionários e a acepção do termo é: ingênuo, simplório, babaquara. Bem para o povo do meu querido Ceará o termo Babaquara até que faz um enorme sentido ao nos relembrar o texto O Babaquara escrito por Antonio Salles desancando a oligarquia atrasada de Nogueira Acioly. Pois é essa a natureza de certas análises que se fazem sobre a educação no Brasil.

O povo Brasileiro por seus educadores, por sua história de educação, pelo nascimento do ensino público, pelos modelos de escola que experimentou, por políticos como Brizola, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, pela Constituinte de 88 e por governos como os de Fernando Henrique (de quem me oponho em convicção ideológica) e de Lula constroem um país e uma educação das mais amplas do mundo. E não pense que estou brincando com eventuais ignorâncias.   

A BBC (aquela inglesa que tem uma edição brasileira) revela o seguinte: o investimento com educação no Brasil passou de 3,5% para 5,6% do PIB brasileiro entre 2000 e 2010. Os padrões de investimento em educação neste Brasil - neste mesmo viu gente - alcançaram a média dos países da Comunidade Econômica Europeia. São 34 países da OCDE e a maioria é de países desenvolvidos incluindo algumas meninas dos olhos dos adjetivados anteriormente: México e Chile.

Considerando a parcela do PIB aplicada em educação (o PIB é a nossa anualidade na economia capitalista): o Brasil aplica maior parcela em educação do que a Áustria, comparável à França e à Grã-Bretanha e eita lasqueira de uma banda a outra: superior aos EUA (com 5,1% do PIB). E tem alguma coisa que incomodará mais ainda o pensamento dos babaquaras: a Argentina aplica um pouco mais que o Brasil, mas o México do novos liberais e o Chile do sonho Pinochetista da livre economia ainda menos (3,9%). Resultado, ali encostado no primeiro lugar que é a Argentina o Brasil vem logo a seguir em segundo lugar na América Latina.

Na quantidade do investimento aplicamos mais em nível superior do que na educação básica em termos comparativos com outros países, mas isso não compromete a qualidade geral do nosso investimento e aponta o caminho de nossas soluções. Segundo o relatório da OCDE: na última década o Brasil melhorou sensivelmente o desempenho dos seus alunos; os recursos federais foram aplicados mais em estados pobres de modo a equipará-los em investimento aos estados ricos (política redistributiva); ampliou a qualificação do professorado, criou índices nacionais de desenvolvimento da educação básica.

Mas para os babaquaras que se informaram com aquelas piadinhas das respostas dos alunos durante o vestibular vai aqui uma informação central: o Brasil avançou em uma década 16 pontos no quesito compreensão escrita, 15 pontos em ciências e 30 em matemática dentro do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). Eis uma coisa que não seria bom os babaquaras entenderem pois isso é a morte desta minoria que se imaginava o “crème de la crème”.

Então eis o motivo pelo qual o Impostômetro, a Prisão dos Mensaleiros, as Páginas Amarelas da Veja, os editoriais dos jornalões além do furibundo horror neoconservador a Cuba e a Hugo Chávez tanto salta da língua bífida do discurso babaquara. Para risco de todos a luta nas ruas vai no sentido de se ter 10% do PIB em educação (superior ao padrão do países nórdicos) e a elevação do investimento em saúde.

Para finalizar este que já reconheço ser um longo texto: ouvindo uma rádio de Paracuru lá estava uma garota revoltada com a morte do avô de 88 anos de idade numa Santa Casa conveniada ao SUS. Ela se queixava do atendimento e da arrogância do atendimento. E foi quando lá pelas tantas ela se deu ares de snobismo: o meu avô não precisava do SUS não. Ele tinha plano de saúde. Aí vem o más que não é um simples más e é o tudo: os planos de saúde não têm serviços em Paracuru para aquele atendimento. Não tem em Paracuru como não tem no Brasil profundo. Plano de Saúde, como todos sabemos, é para o pessoal do sudeste e um pouco do sul, custa caro e só descentraliza meios quando tem muita grana para lucrar. O resto é o impostômetro.



    

Tá devendo - José Nilton Mariano Saraiva

Honestamente, apesar do ufanismo pra lá de exacerbado da imprensa esportiva tupiniquim, não dá pra engolir a rasgação de seda, o oba-oba desmedido, o festival de asneiras que nos querem empurrar goela abaixo, no tocante à seleção brasileira de futebol.
Por exemplo, no jogo com o México, uma seleção sofrível e que encontra dificuldades até pra classificar-se prá próxima Copa do Mundo (tá atrás dos Estados Unidos e Costa Rica), ganhamos com dois gols de “canela” (é só consultar o vídeo), um no começo do jogo e o outro já nos acréscimos, depois de levarmos uma pressão danada em todo o segundo tempo; com a Itália, a rivalidade tratou de acirrar os ânimos, daí a correria desenfreada e o jogo bruto, e findamos ganhando por 4 x 2 com a graciosa ajuda da arbitragem da partida, porquanto dois gols em impedimento (Dante e Fred) e um outro resultante de uma falta que não existiu (Neymar).
Daqui a pouco vamos pegar os “velhotes” do Uruguai (Forlan, Lugano, Maxi Pereira e outros menos votados) e a tendência é que vençamos de goleada e o tal do Neymar pinte e borde (para gáudio dos seus fãs) ante a inexistente defesa adversária (aliás, já está passando da hora dos integrantes da mídia esportiva brasileira pautar a Copa do Mundo de 1950 como prova de que o Uruguai merece respeito; acabemos com essa babaquice jurássica).
Em sendo assim, o pragmatismo da FIFA tende a impor-se, com Brasil e Espanha (deverá vencer a Itália) disputando a grande final, no próximo domingo. E aí, diante de um Maracanã lotado, e com o time (apesar das limitações) entusiasmado por ter chegado até ali, a defesa espanhola (apesar de toda a experiência) tende a claudicar e se adiantarmos todas as linhas e exercermos uma marcação rigorosa, arrebataremos o caneco.

Agora, duro vai ter que agüentarmos as manchetes do dia seguinte...     

terça-feira, 25 de junho de 2013

O "histórico" da Globo - José Nilton Mariano Saraiva

Para os que não conhecem ou simplesmente teimam em ignorar o “histórico” da Rede Globo, aí está o Editorial do jornal “O Globo”, do dia 02 de abril de 1964 (há 49 anos, portanto), apoiando a Ditadura Militar. Depois disso, o Roberto Marinho (dono) foi agraciado pelos generais com canais de TVs, que até hoje são usados (agora pelos herdeiros) de forma a atender as conveniências de quem chegava ao poder. Mas, de repente, surgiu um tal de Lula no caminho e contrariou interesses poderosos, daí a campanha difamatória contra ele e, agora, Dilma.
Reflitam e tentem entender a “razão” da TV Globo ter estuprado sua própria grade (programação) a fim de passar cerca de cinco horas ininterruptas incitando a população contra a presidenta Dilma Rousseff. Se isso não foi tentativa de “golpe”, procurem outra denominação mais apropriada.

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EDITORIAL
“Ressurge a Democracia”
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.
Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.
As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”
No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.
Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”

Beirando ao "anarquismo" - José Nilton Mariano Saraiva

Como até um índio de uma dessas tribos fincadas na mais recôndita área do “Alto Xingu” deve saber, o poder de influência de uma televisão é, indiscutivelmente, algo sério e determinante, porquanto tanto pode alavancar como destruir reputações, eleger um desconhecido ou acabar com o político tradicional que se julgue inatingível, catapultar do anonimato um desconhecido qualquer elevando-o aos píncaros da glória e por aí vai.
Pois bem, depois de tudo o que assistimos nos últimos dias, não há como não desconfiar que, quando uma emissora de televisão do porte da Rede Globo (uma concessão governamental, lembremo-nos), que cobre todo o território nacional, detém a liderança da audiência e onde 30 segundos de inserção comercial custam os “olhos da cara” optou por renunciar a tal receita (suprimindo a veiculação de qualquer propaganda por cerca de quatro/cinco horas ininterruptamente, contemplando inclusive o seu horário nobre) e, valendo-se de todo o seu exército de correspondentes dedicou-se a um único tema (as manifestações, em todo o país), provavelmente buscava atingir a mais sórdida das intenções: um levante popular de peso objetivando estimular um “golpe” contra um governo democraticamente eleito. Ou não foi isso que acompanhamos durante os últimos dias quando da eclosão do movimento paredista que, iniciado em São Paulo e após a entrada em campo “full time” da Rede Globo espraiou-se como um rastilho de pólvora por todo o Brasil, de norte a sul, leste e oeste ???
E aqui cabe uma ressalva: claro que o objetivo primeiro do movimento paredista (barrar o aumento abusivo no transporte coletivo) foi e é perfeitamente justificável, assim como ficou evidente que faltou jogo de cintura às “autoridades competentes” (de São Paulo) que pisaram feio na bola e, conseqüentemente, devem ser responsabilizadas pelo acirramento dos ânimos, ao procrastinarem uma decisão que, ao fim, acabaram por ter de tomar: o recuo do aumento nos preços das passagens de ônibus, trem e metrô.
Pois, foi justamente no vácuo propiciado pela irresponsável demora em decidir, que o movimento paredista engrossou, houve a entrada de oportunistas e irresponsáveis novos atores em cena, pautas outras foram agendadas às pressas e, enfim, se deflagrou o caos, a balbúrdia e por muito pouco beiramos o anarquismo.
É oportuno ressaltar que, apesar dos notáveis avanços, principalmente na área social, obtidos desde o primeiro governo Lula até os dias atuais (reconhecidos aqui e lá fora), em sã consciência ninguém pode concordar com determinadas coisas e situações que aí estão postas, e que figuras abjetas e desprezíveis da estirpe de um Sarney, Renan, Agripino e outros se achem na posição que ocupam; só que não podemos esquecer terem sido ungidos pela vontade soberana do povo e, portanto, temos de suportá-los até que uma ampla reforma política seja providenciada.
E aqui (mesmo que “por tabela”), chegamos ao mérito maior de tal movimento paredista: forçar a que se desfralde a bandeira de uma mudança radical no nosso sistema político, com a inclusão de dispositivos que permitiam ao próprio povo “destronar” aqueles que, postos no trono por ele (povo), não correspondam à expectativa depositada; assim, através de uma espécie de “recall” político, tal medida seria imediatamente efetivada e os “reprovados” dispensados, de pronto. Só que aí teríamos que contar com a boa vontade dos próprios congressistas (votariam contra seus próprios interesses ???), a fim de emendarem a Constituição Federal e/ou convocarem uma Assembléia Constituinte para tratar a respeito.

Não é de estranhar, pois, que a presidenta Dilma Rousseff, que vivenciou tal quadro em sua juventude e conhecedora de onde poderia desaguar tal movimento, não se tenha deixado levar pela “corda” que lhe foi dada pelos próprios manifestantes (reagir de forma impulsiva e violenta) se antecipou e, pacientemente, além de elogiar e reconhecer a legitimidade das manifestações, de par com medidas pontuais (considerar a corrupção um crime hediondo, por exemplo) tomou a iniciativa de sugerir a adoção de um plebiscito popular visando aprovar tal dispositivo (Constituinte exclusiva). Deixou claro, ainda, Sua Excelência, que os excessos a partir de então terão que ser coibidos, porquanto soa injustificável a depredação do patrimônio público, bem como o impedimento do ir e vir das pessoas. 

A Primavera no Inverno Brasileiro - José do Vale Pinheiro Feitosa

Tomando por base a chamada Primavera Árabe (revoltas na Tunísia e Egito) como o manifesto mais evidente e iniciador desta época temos o seguinte: há uma revolta popular, manifesta nas ruas especialmente na Europa e nas Américas, além do Oriente Médio e do norte da África. A revolta tem por base mudanças políticas, sociais e econômicas. Uma parte central dela é a constituição do poder popular (manifesto nas ruas), da centralidade da história na pessoa humana e contra o poder de manipulação de corporações econômicas, governos e pessoas muito ricas. Além, é claro, o desemprego, os serviços públicos e a falta de proteção social.

Parte do conteúdo manifesto nas ruas é uma mistura de agendas de grupos e pessoas insatisfeitas, desde problemas locais até a visão de mundo que têm. Esta multiplicidade confunde por vez os analistas das manifestações, mas a observação geral revela aquela agenda identificada no primeiro parágrafo.

O centro político é a mobilização de pessoas nas ruas e tomadas de praças. Diga-se de passagem historicamente tal não é uma novidade pelo menos desde o povo nas ruas de Paris durante a Revolução Francesa. Mas a tônica central do momento é a mobilização de pessoas gritando e protestando nas ruas.

Estamos vivendo uma transição histórica no que se refere à participação popular na política. Um questão central nesta transição é o fim da hierarquia do modelo produtivo industrial para a horizontalidade da nova economia que tende a funcionar na modalidade de redes e nós de distribuição. A transição significa que uma parte central da agenda ainda é construída de acordo como os meios tradicionais como jornais, rádio e televisão. Neste sentido estes meios ainda possuem um enorme poder de selecionar, construir e conduzir a agenda das ruas.

Na transição as instituições políticas clássicas estão sofrendo transformações e esgotamento acentuado dos seus papéis. Pelo menos em razão das formas clássicas como se organizavam. As principais instituições a sofrerem esgotamento foram os sindicatos e os partidos políticos. Os partidos políticos foram desidratados em representação por se tornarem estruturas burocráticas, prisioneiras do sistema financeiro e econômico além das amarrações do formato da política conduzida pelo Estado que foi capturado pelo poder econômico.  

Desde o fim dos regimes comunistas junto com a primazia do neoliberalismo e da globalização financeira que a política foi aprisionada aos negócios das empresas e o rentismo do sistema financeiro. Juntando tal primazia com o esgotamento político dos partidos tradicionais, vimos uma onda superficial de despolitização a atingir uma juventude especialmente preparada para o consumismo de mercado. A visão era de jovens alienados, vivendo em shoppings, consumindo geringonças eletrônicas e lutando em vídeo games.

Aí veio a grande crise econômica no centro do Ocidente e de sua grande área de influência. Esta é a verdadeira causa de toda a revolta. É a base que conduz as pessoas às ruas para lutarem por uma situação melhor. E lutam pelo que sentem na pele: desemprego, pouca perspectiva de futuro, violência, transportes coletivos precários, cidades entupidas de automóveis, sofrimento para se deslocar, renda caindo e assim vai toda a matriz das revoltas.

A juventude em todo o mundo despertou de seu “sono alienado”. Por isso os partidos não lhe convêm. As instituições clássicas não respondem por seus anseios. Especialmente o parlamento e seu modo covarde de decidir contra os anseios de superação da crise presente em todos.  Uma pesquisa feita durante as manifestações em Belo Horizonte revelou o seguinte: a maioria é de jovens, apenas 26,5% tinha mais de 40 anos e 54,5% tinha menos de 25 anos. Além de terem escolaridade alta (65% cursa ou terminou o ensino superior) e estarem trabalhando (70,7%) e terem renda acima da população em geral (50% tinha renda familiar acima de cinco salários mínimos – obs: isso não significa alta renda, apenas que é maior que do povo brasileiro em média).

Enfim esta é a representação da passeata em Belo Horizonte (embora tenha-se por sentimento que seja o mesmo em todo o país esta amostra só é válida para cidade) diferindo-a, por exemplo, do perfil na Espanha (desemprego da juventude) e na Grécia (corte de salários), pois as lutas são comuns pela crise econômica, mas variadas segundo a incidência da crise em cada povo. Por exemplo, no Egito e na Tunísia foi contra o regime ditatorial, na Espanha e na Grécia foram dentro do sistema democrático eleitoral, inclusive com mudança de governo via eleições livres no meio do processo.

No Chile, por exemplo, a principal revolta é da juventude em busca de ensino superior público e contra a privatização deste ensino. Já no Brasil essa agenda não surgiu. Esta é a especificidade de cada povo, mas a luta é uma só: a mudança em curso e a crise econômica mundial.

O movimento desta juventude brasileira é algo que efetivamente brota em otimismo. Parcela significativa dos manifestantes não havia nascido quando das grandes manifestações como aquelas pelo Impedimento de Collor. Por isso não reconhecem líderes históricos, não sabem das lutas anteriores, mas descobriram a importância de lutarem por uma agenda política que melhore a vida de todos. A juventude brasileira tomou parte da política para si e, portanto, começamos a ter herdeiros se preparando para influir sobre o presente e herdar o futuro.

O jovem brasileiro descobriu a política e majoritariamente descobriu a bandeira do bem comum e de uma sociedade para todos. É claro que fascistas, anarquistas, ultra esquerdistas e até mesmo setores vinculados aos interesses econômicos clássicos (financeiro, grandes proprietários, mídia corporativa etc.) querem ocupar as ruas, mas o grosso do que vemos é o progresso coletivo e democrático.

O momento vivido pelos brasileiros é apontar para o avanço social (saúde, educação, transporte, segurança, mais democracia, etc.) e criar uma agenda popular para tal, mesmo que isso esteja nas ruas confinado às classes médias. Uma coisa podemos aventar: o governo de coalização conduzido pelo PT em nível federal vai passar por fraturas e por mudanças. As próximas eleições serão muito mais disputadas e as bandeiras da esquerda fixada pelo avanço social e da direita aparentemente fixada na luta particular contra a corrupção. Mas isso é especulação pois a mudança ocorrida nestas duas semanas pode revelar novas bandeiras à direita e à esquerda que ainda estão sendo fixadas.   

Retornando aos meios que unem as pessoas como a era da mídia clássica e agora das redes sociais. É preciso pensar que a democracia se multiplique nos serviços públicos de comunicação (como rádio e televisão) e que todos tomem consciência clara da redes sociais pois o jogo de construção da agenda, da mobilização e da urgência é feito nestas redes e isso tem ocorrido em todo mundo. Na questão da mídia clássica e desta nova mídia ainda existem big Brothers a tomar informações para a sua exclusiva finalidade e em detrimento da democracia.  
   


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Setaro's Blog: O Toque do Mal

Setaro's Blog: O Toque do Mal: Orson Welles (numa interpretação inexcedível, obeso, desfigurado, para dar a impressão da configuração da maldade) é Hank Quinlan, polici...

domingo, 23 de junho de 2013

O Poder dos Donos das Redes Sociais - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não vou identificar os donos, os países  e quais são as Redes Sociais isso todos conhecem. Mas quem hoje se mobiliza no ambiente delas além de tomar cuidado com as fontes da boataria que ali corre, assim como das "convocações" deve prestar atenção à fuga desesperada de Edward Snowden, o analista de informação terceirizado pela CIA. Snowden denunciou um sistema de controle de telefone e das redes sociais com fins políticos a serviços do estado, de governos ou de entes privados. Por exemplo: a simples referência ao nome dele neste texto poderia desencadear um "achado" na busca da rede de espionagem.

Não precisamos ir muito longe: estamos neste blog numa ferramenta da Google. Mas a ideia do texto não é criar uma imagem persecutória entre nós. Vou contemplar a questão da informação e da capacidade de ação de quem a controla e quem a tem em primeira mão. Como sabemos a iniciativa da  ação é fundamental para o atingimento de seus objetivos. E quem tem a informação antes dos demais tem todas as vantagens.

Os buscadores como o Google tem em suas bases de computação o nosso perfil automaticamente. Estes perfis inclusive modifica os "achados" de nossas buscas. Nos diferenciam: não vamos achar no Google as mesmas respostas às pesquisas que fazemos quando se tratar de outra pessoa com "perfil" diferente do nosso. Ou seja, o buscador não é universal. Não vai à base inteira e nos ofertará as mesmas respostas. 

O exemplo é apenas para dizer que estas grandes companhias donas das Redes Sociais e seus governos podem simplesmente ter o "diagnóstico" ideológico, de preferências, de críticas, das aversões e das afeições de todos os seus perfis na rede social. De posse dessa informação estas empresas e os governos que as controla podem gerar um boato ou uma convocação com o "conteúdo"  emocional e manipulado para "mobilizar" pessoas para a ação. Na juventude ainda inexperiente em política a manipulação é igual ao que Hitler e os nazistas fizeram com a juventude alemã. Isso é tecnicamente possível e agora desvendado por Snowden em sua busca por uma asilo político.

Por isso quando o "oba-oba" da democracia da mobilização das redes parece tomar conta desta fase da história, é verdade que imediatamente estão surgindo evidências da grande possibilidade de sua "manipulação" por empresas e governos. Isso é o que está por trás da questão do Snowden: o controle  ideológico por uma sutil ação no ambiente que nos pareceu o mais democrático possível. 

A verdadeira autonomia e a efetiva democracia não cresce em ambientes controlados por entes privados e nem por instituições parciais. Construir uma ação para combater esta manipulação não pode ser "dentro" da casa dos manipuladores. É preciso estar fora dele e retirar-lhe a possibilidade de usar o meu pensamento contra minha liberdade de agir e pensar de forma independente. Mas estar fora dele não é necessariamente voltar exclusivamente ao tempo do papel ou da conversa pessoal. É saber que isso existe e fazer parte de quem reconhece como agem. Sem deixar de uma boa mensagem pelos próprios meios além dos privados e terceirizados. 

Enfim: não precisamos, como fez Assange e parece que Snowden está fazendo, nos asilar no Equador até porque em seu território não caberíamos todos. 








Somos mesmos os desprezíveis das manifestações de rua? - José do Vale Pinheiro Feitosa

Caro leitor estamos aqui apenas eu e você. Somos, segundo os infográficos da internet, desprezíveis 0,2% de quem fala nas manifestações que desde há pouco mais de uma semana incendeiam as ruas brasileiras. Os twitters e facebooks da vida arrebanharam 93,3% dos que publicaram, fizeram menções e, claro, leram sobre aproximadamente 1% da população brasileira que foi à rua.

Mas espere aí? Apenas 1% dos brasileiros foram às ruas? Mas pode ser mais, muito mais. Tudo bem que seja 3% da população isso ainda corresponderia a 6 milhões de brasileiros que passaram pelas ruas de todas as cidades do Brasil. Isso é a conta das ruas, na rede o número é imenso, além dos jornais, televisões e rádios.

Mas agora o que temos diante de nós? Em primeiro lugar uma disputa política ampliada ao máximo. Entre quem? Entre progressistas e conservadores; esquerdistas e direitistas; institucionalistas e anarquistas; democratas e fascistas; ordeiros e desordeiros; propriedade e saque (depredações inclusive). Pode inverter a ordem dos contendores e incluir mais algumas disputas que correspondem aos fatos.

Em síntese é este o momento da disputa das ruas e da ação política. Todo aquele papo de apolítico, anti-político é pura enganação. O movimento das ruas é político e cada um quer um resultado político que lhe caiba nos objetivos. A direita paulista quer o impedimento de Dilma, a prisão dos esquerdistas, a volta dos militares e o golpe inicialmente com Joaquim Barbosa do Supremo (lembrar do Paraguai e Honduras). Esse pessoal da direita paulista até imagina outra quartelada igual a 1932 resultando na separação de São Paulo do território nacional.

Haveria alguma disputa internacional neste jogo? Existem muitas evidências que parecem mostrar algo externo. Muitos vídeos do Youtube que serviram para ampliar a disputa nas ruas pelo Brasil foram feitos nos EUA, com falas em inglês e legendas em Português. O Premier da Turquia denunciou um complô internacional contra seu país e o Brasil. Tomemos por base a mesma dinâmica das “redes sociais” que tem levado a mudanças conservadores no mundo Árabe e noutros lugares. Ou seja, a mudanças em torno do mesmo eixo.

Existe algo a se construir com estas manifestações? Claro, falo além do golpe. Falo em ampliação da democracia, do controle social sobre as políticas públicas, reforma eleitoral e política, democratização dos serviços públicos de informação; desenvolvimento social, ampliação de recursos e práticas que ampliem o direito à educação, saúde, segurança pública, mobilidade social e no espaço urbano.

Por qual motivo o povo brasileiro que chegou até aqui iria seguir o caminho do fascismo e do golpe? Quando alguém repete frases de efeito do tipo o SUS e a Educação não existem onde quer chegar? Além da farsa? Quais são os números do atendimento público e privado nestas duas políticas? O Planos de Saúde atendem diretamente a menos de um quarto da população. O SUS atende a 75% além de financiar a segurança sanitária e epidemiológica do país (todo mundo toma vacina). Na Educação os números na educação básica são até maiores no setor público.

Então estamos falando de um país que tem uma estrutura pública municipalizada que mobiliza bilhões de reais, emprega milhões e cobre todos os municípios. Por qual razão digo que não existe? Em síntese a luta não é do fascismo. A luta é outra: se tenho isso tudo então posso ampliar sua eficiência inclusive controlando os excessos de consumismos e fetiches dos meios que geram muitos negócios vantajosos para grandes corporações e empresas.

É a mesma coisa por qual razão precisamos de golpe? Mais um golpe? Mais uma ditadura, mais uma manipulação das forças armadas para resolver as demandas de alguns privilegiados deste sistema ainda perverso? Para o ano esta disputa vai para as eleições e que democraticamente se resolva com todos os brasileiros com direito a voto. O isolamento dos fascistas é o principal caminho para se voltar a pensar na segurança dos brasileiros. De todos os brasileiros, principalmente dos mais pobres e à margem da mobilidade social.


Antes que nós dois voltemos a ser indivíduos só uma ressalva para que não me entenda por outro meio. Não disse que as manifestações eram de fascistas ou golpistas. Apenas afirmo que se trata de uma disputa na rua por ação política. E os fascistas mostraram sua face com toda a nitidez mesmo quando usando máscaras ou tocas ninjas. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

GREENPEACE BRASIL

Por um transporte público acessível

Notícia - 14 - jun - 2013
Leia posicionamento do Greenpeace Brasil sobre as manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público

Em sinal de paz, manifestante ocupa av. Paulista com rosas brancas nas mãos, pedindo redução no preço da tafira de metrô e ônibus. (foto: Brunno Marchetti)
 
 
 
 
 

Pelo direito à manifestação sem violência e pelo transporte público acessível

As manifestações contra o aumento da passagem do transporte público começaram em São Paulo e tiveram rápida adesão no Rio, em Belo Horizonte e em Curitiba. Outras cidades prometem ter manifestações semelhantes nos próximos dias, o que mostra a urgência do tema.
A discussão da tarifa foi apenas o estopim de uma demanda há tempos reprimida: a melhoria e expansão do transporte público nas grandes cidades brasileiras passa por uma revisão de prioridades do governo e vultuosos investimentos em mobilidade, que tornem o ir e vir de todos um direito mais realista.
Com décadas e décadas de incentivo ao transporte individual, as megacidades brasileiras foram cedendo espaços de convivência e de troca social aos automóveis. O que os jovens estão fazendo, agora, é se levantar contra esse modelo insustentável e retomar a rua, espaço que lhes é de direito.
Considerando a questão da mobilidade essencial para a construção de cidades mais sustentáveis, acessíveis e democráticas, pedimos às autoridades que aceitem a pressão das ruas como forma de repensar suas políticas de mobilidade urbana. O financiamento do transporte público precisa ser tratado como uma política nacional. Se a discussão do transporte se concentrar simplesmente no orçamento municipal, não haverá solução.
Precisamos de mais transporte público, de melhor qualidade e mais barato. Também precisamos de políticas pensadas especialmente para facilitar o acesso da população mais carente e de públicos que mais necessitam do transporte e que não têm como arcar com a despesa, como os estudantes.
Também são necessárias medidas que desestimulem o transporte individual e um redirecionamento dos subsídios dos combustíveis fósseis para o transporte público.
Os protestos vão continuar e o poder público precisa estar aberto ao diálogo. É muito perigoso para a democracia quando os governos viram as costas aos anseios da juventude e respondem com métodos típicos dos anos de chumbo. Balas de borracha, bombas de efeito moral e cassetetes são incapazes de calar inconformismos e desejos de mudanças.
O Greenpeace é uma organização que tem em seu DNA o protesto pacífico como forma de cobrar mudanças de atitudes de governos e de corporações. Lamentamos as cenas divulgadas nos últimos protestos e pedimos prudência de ambos os lados. De qualquer maneira, defenderemos sempre o direito à manifestação não violenta, afinal ela é um instrumento da democracia.
O papel da força policial, que representa o Estado, é implementar a lei e garantir a segurança. Jamais usar a violência para coibir a livre manifestação do pensamento e para promover um ambiente de pânico e caos. O governador Alckmin deve se posicionar de forma favorável ao direito de manifestação pacífica e coibir as cenas de violência policial, inaceitáveis num estado democrático.
Marcelo Furtado
Diretor-executivo do Greenpeace Brasil

O "fiel da balança" - José Nilton Mariano Saraiva

Como sói acontecer nas competições esportivas patrocinadas pela FIFA, sob o argumento do tipo “o céu é para todos” sempre figurarão países sem nenhuma expressão no futebol (afinal, têm voto na hora da escolha dos seus dirigentes), mas que, mesmo representando a mediocridade elevada ao cubo na prática do esporte, ao final findam por constituir-se no “fiel da balança”. É o que ocorre na atual Copa das Confederações, quando, representando a Oceania, a exótica seleção do “Tahiti” figura como uma daquelas agremiações destinadas a servir de saco de pancada para os demais componentes do grupo.
Tanto é que na primeira partida contra a Nigéria o extravagante placar de 6 x 1 não refletiu o andamento do jogo, porquanto uma outra “ruma de gols” foram irresponsavelmente desperdiçadas pelos africanos e poderão, sim, fazer falta lá na frente, quando da definição dos dois classificados. É que, embora a seleção espanhola seja a favorita para seguir em frente como primeira do grupo B, deverá encontrar dificuldades no jogo contra os africanos, aqui em Fortaleza (um empate é perfeitamente possível), daí a necessidade de golear impiedosamente o Tahiti, objetivando suplantar a Nigéria no saldo de gols. Tanto é que, humilde e sabedor de tal realidade, o próprio técnico da seleção da Oceania já veio a público implorar aos espanhóis que evitem chegar aos 10 gols de vantagem.

Em assim sendo, por vias tortuosas a FIFA finda por encontrar justificativa para a presença de uma seleção-aprendiz (seus integrantes amadores eram o retrato da felicidade por terem marcado um mísero gol no jogo), num torneio onde o que existe é “cobra engolindo cobra”. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Povo é Povo e Velhaco é Velhaco - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando algo nasce primeiro ouve-se o choro do respirar. Depois vêm os cuidados com a fragilidade do novo. Mas o novo mesmo leva algum tempo até se tornar o presente.

Isso para usar como metáfora sobre o movimento da juventude brasileira que se aproxima dos movimentos mundiais contra a crise do capitalismo e todo o seu conteúdo político: neoliberalismo, corporações econômicas, imperialismo, neocolonialismo, conservadorismo e sociedades a serviço de poucos.

Agora a metáfora não explica a enorme capacidade humana e suas manifestações. Os seres humanos aprendem com a história e sabem utilizar este aprendizado.

O primeiro deles é que a ninguém é dada a liberdade de usar os benefícios que fez a todos para errar sem reparos. O que vale na relação política é a prática em curso. O que não significa o imediato, mas o mediato que se entende como um rumo. Mas só porque acertou não se pode errar, a vaia sempre acontecerá. Principalmente se alguém acabou de assistir à pauleira da polícia em manifestantes e sentiu os olhos arderem com o gás lacrimogêneo.

O segundo é que movimentos sociais e políticos bem estruturados conhecem o rumo de sua luta e aprendeu a ler a realidade nas ruas no calor das refregas. O comandante da polícia de São Paulo, cargo comissionado do governador do PSDB, sugeriu à lideranças do Movimento do Passe Livre, que lidera as manifestações, que usasse a bandeira do pedido de prisão dos condenados pelo mensalão.

O terceiro que para se encontrar na luta das ruas é preciso reconhecer os aliados e os inimigos. O Secretário de Segurança de São Paulo numa desfaçatez de fazer corar até uma pedra de cal fez duas sugestões às lideranças do MPL reveladoras das estratégias da repressão contra o próprio movimento.
Sua Excelência sugeriu que as lideranças avisassem bem antes o roteiro das manifestações. Vamos sair deste ponto, cruzar tal rua, dobramos aqui, seguiremos por lá de tal modo a revelar todo o campo onde a forças de repressão se posicionarão. Assim como preparar um corredor polonês para levar cacetada em fileira.

A outra sugestão do sacripanta foi que os membros do MPL vestissem as mesmas camisetas com as mesmas cores para que a polícia pudesse distingui-los do restante da população. Aí seria mais fácil do que jogar videogame. Era só passando camisetas e os alvos atingidos.


A resposta do MPL para as três propostas do fino da velhacaria foi não. Mas no fundo borbulhava algum palavrão.   

O Salmão - José do Vale Pinheiro Feitosa

O salmão
Entre o céu e a terra há uma estrada de sofrimento e morte. A terra onde eclodem os ovos e se tornam vida no ambiente das nascentes dos rios ou dos lagos gelados das altitudes. E quando a adolescência alonga seu corpo sai das terras altas numa viagem a favor da correnteza até as baixadas marinhas onde o mundo se lhe apresentará como projeto de futuro.

E o futuro se realiza no plâncton dos mares. Nas correntezas sinfônicas da grande narrativa dos oceanos. Tantos semelhantes, muitos predadores, o sentido trocado dos canais ora como El Niño ou como La Niña. De tudo que o universo se contamina do lixo industrial, do arrastar com força de megatons atômicos do casco dos navios petroleiros perturbando toda a dinâmica da costa. 

É uma vida de criação, de solução frente às contradições, um construir na permanente desconstrução. No meio do cardume que protege a individualidade na trama do coletivo, mesmo que alguns membros caiam pelo avanço faminto dos predadores. Mas é uma vida em permanente substituição. Em contínuo apreender as necessidades.

Em permanente aprendizado do movimento dos oceanos. Com seus ciclos naturais e seus desastres ambientais. Aprender sobre o meio em que se desenvolve é a regra da permanência nele, além do contributo, se não em capítulos inteiros, pelo menos a redação da linha de um inciso.

E quando se toma de plenas forças no ambiente salgado dos mares em que vive, vem a necessidade de gerar outros iguais e tudo o mais é esquecido. Abandona a carreira na qual se consolidara e sai em decidido contrafluxo em busca de sua origem, abandona as águas salgadas e migra na renascença da água doce com uma determinação nascida simultaneamente em si e fora de si.

Todos fazem o mesmo. Portanto uma grande necessidade externa ao corpo e ao projeto de vida no mar. Rasga a desembocadura daquele mesmo rio onde um dia desceu e, contra a correnteza e a força de gravidade, toma a sinuosidade do aclive montanhoso como destino.      

Salta corredeiras, com seu corpo sobre as pedras, rasgado pelas lâminas das lascas que a erosão das águas soltam. Enfrenta pequenas cachoeiras, se emaranha no cipoal e galhos que descem pelas águas. E vai em busca de sua origem. Contra sua higidez física. Contra sua migração marinha. Contra a sanidade da vida conhecida e, até então, satisfeita.

Paradoxalmente o Salmão retorna ao lago onde eclodiu e nele libera milhões de ovos que gerarão outros de sua espécie. E se esta dramática vida é a síntese de todos na natureza mutável é, no entanto, o curso determinado com a participação dos atores e neles, apesar da ordem geral, reside a micronarrativa de uma vida.

Mas não os Salmões das multinacionais nórdicas do sul do Chile. Multinacionais que inventaram um falso ciclo que engana esta narrativa. No lago Llanquihue eclodem os ovos e em viveiros fazem crescer milhões num ritmo de granja a engordar e crescer rapidamente. Em seguida põem a todos em imensos tanques e os transportam até as gaiolas na costa do mar.

E aprisionados, mesmo que em ambiente marinho, os salmões não mais fazem o seu projeto de vida, mas o projeto de engordar o preço das ações nas bolsas de valores. Os salmões são ludibriados com a simulação do retorno às corredeiras de origem e assim nidam os ovos necessários ao ciclo do grande negócio.


Os salmões do Chile são como o povo do Chile: uma narrativa para mover o grande capital. Que além dos ovos ainda têm a rica venda da carne do salmão abatido logo após completar sua missão nesta ordem. Tornar a vida do poderoso investidor e do grande executivo numa especial e individualista presença sobre o destino do que resta do sufoco do aumento na passagem de ônibus dos trabalhadores. 

JR - "neo-colonialismo" - José Nilton Mariano Saraiva

Quando já pensávamos que, após 513 anos de vida, finalmente havíamos nos livrado da condição de “colônia” européia, eis que através do futebol descobrimos que não. E a constatação é de uma obviedade siderúrgica, hermética, irrecorrível (como diria Nelson Rodrigues): ao ser apresentado à torcida como novo jogador do time do Barcelona, o jogador Neymar entrou em campo já envergado a famosa camisa bicolor do novo time, só que com um pequeno detalhe: às costas, embora não constasse o número que irá usar (que tal o 17, idade da nova namorada global ???) lá constava a novidade, o JR. Sim, oficialmente agora ele passa a se chamar Neymar JR, embora tenha passado toda a sua vida futebolística brasileira usando apenas o nome Neymar. Não se sabe o “porquê” da mudança, mas, provavelmente, terá sido iniciativa-exigência do novo patrão. Como, "quem paga manda, obedece quem tem juízo..."
Pois bem, eis que agora, para surpresa de todos nós, no primeiro jogo da seleção brasileira pela Copa das Confederações, diante do Japão, aqui no Brasil, tomamos conhecimento da marmota descomunal: é que, além de envergar aquela que a mídia brasileira considera a camisa mais famosa (a de número 10) os “gênios” do futebol brasileiro resolveram repentinamente mudar a grafia do nome do jogador, agregando as duas letras – JR - garantidoras que existe, sim, o Neymar-pai.

Teria sido determinação do novo exigente patrão ??? Ou será que para agradar os europeus a cúpula da CBF resolveu que o que é bom para a Europa é bom também para o Brasil ??? Tal atitude poderia ser rotulada uma espécie de “neo-colonialismo” ???  

Mau começo - José Nilton Mariano Saraiva

Ainda bem que a própria seleção japonesa de futebol resolveu nos mostrar, dentro do quadrilátero gramado, que o ufanismo exacerbado da mídia esportiva brasileira, na tentativa de promover a seleção nacional, jamais se justificou. Bisonhos, inocentes, limitados e ainda por cima extremamente cansados, os nipônicos jamais confirmaram o oba-oba, a rasgação de seda, o verdadeiro carnaval que fizeram a respeito do time: primeira seleção a se classificar para a próxima Copa do Mundo, evolução do biotipo japonês (hoje com um ou outro jogador atingindo 1,80 m de altura) até o fato de ter sido treinada, lá atrás, pelo jogador Zico, então iniciando como técnico (que jamais vingou). Assim, com um gol “acidental” do tal do Neymar (na verdade, o Fred tentou matar a bola do peito e findou, sem querer, dando um passe para ele), aliada à sempre má colocação do goleiro (que falhou ali, assim como no segundo gol) os ocidentais mostraram que ainda têm muito que aprender.
Agora, vem aí a esforçada seleção do México (aqui em Fortaleza), e essa mesma mídia trata de nos lembrar que nos últimos confrontos entre as duas esquadras os jogos foram parelhos, que eles já ganharam uma dessas Copas em cima do Brasil (4 x 3) e por aí vai, sem que se atente que na briga pra participar da próxima Copa do Mundo os mexicanos estão ameaçados de não lograrem êxito, já que atrás dos Estados Unidos e Costa Rica na tabela classificatória.

E o tal do Neymar ??? Continua sem jogar nada e a cair muito (mesmo ante uma marcação frouxa como a japonesa), mas, ainda assim, eleito o “craque” do jogo. Os critérios utilizados ??? O gato comeu.

domingo, 16 de junho de 2013

Os Avatares do Conservadorismo - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os recentes acontecimentos de violência nas ruas de São Paulo têm um mérito incontestável. Aproximar o Brasil de todas as manifestações que acontecem nos países em crise assim como aconteceu com o movimento estudantil de 1968 (falo da aproximação pela mobilização). Além do mais mexe na envelhecida geração de 68 que já não consegue enxergar o momento com tanta clareza quanto via aquele de sua juventude.

A tônica da análise mesmo entre pessoas mais liberais é que o movimento gera uma perplexidade pela falta de bandeiras. Que a liderança não nasceu de organizações políticas, mas das redes sociais e que são muito jovens e “têm aparência frágil”. Que ele é apenas um movimento para expor a “energia da juventude’. Não tem alvo algum, só a sede de “mostrar a cara e participar’. São “avatares das redes sociais sem ideologia”, além de não terem “bandeiras claras” quando as tem não possuem as informações mínimas sobre os determinantes destas bandeiras.

Enfim os liberais esperam que os jovens aprendam com a violência nas ruas que saibam isolar os vândalos (sempre eles) e que tudo isso seja um exercício para formar os donos do futuro político do país. Acrescento por conta e risco: são os futuros líderes paulistanos que carregarão o futuro de todo este país? Não os jovens do Prouni, os egressos do bolsa família do nordeste, mas esta “gente fina é outra coisa”?

Já para os autoritários das direita a visão também é de perplexidade e carregada “in extremis” com a análise desqualificadora dos radicais de classe média. Um parêntese: do mesmo modo que classificavam no passados todos os universitários e secundaristas que fizeram a mobilização contra a ditadura que para este “direitões” eram merecedores da tortura e do extermínio feroz porque defendiam o comunismo soviético.

O que dizem se assemelha no núcleo das ideias aos liberais e se distancia na centrífuga das palavras. Para eles os jovens por todas as ruas do Brasil não têm uma raiz sociológica para chamar-se movimento social, são grupos esquerdistas sem importância política, têm prática fascista porque não têm expressão eleitoral (estão fora do mercado – acrescento por similaridade); encenam a revolução para suas bases que igual aos cristãos estão na eterna espera da queda do capitalismo que nunca vem (e nem virá até ao fim dos tempos).

A direita acrescenta mais alguns retoques ao perfil do Movimento do Passe Livre: o preço da passagem é apenas um mote para que as bases se mobilizem pois razão alguma há para se fazer a revolução contra o capitalismo. Por isso a radicalização destes grupos se retroalimenta com o vandalismo, saques, violência de destruição do patrimônio público e privado. E tem mais: a inteligência deste argumento que parece ter uma certa titularidade acadêmica é de modo tão burra que parece um ato de má fé. Argumenta que hoje não existe razão para fazer qualquer movimento igual a este pois vivemos em plena democracia e não existe semelhança com os anos 60 e 70.

Se este é o tipo de professor nas nossas universidades, estamos todos perdidos. E as democracias americanas, francesas, alemãs e italiana dos anos 60 deram conta da luta pelos direitos civis? Por mais justiça social ou por acesso às universidades? Mais uma vez estamos tomados pela incapacidade de entender o nosso tempo? Talvez não, eles querem a capacidade de atacar as vítimas deste tempo.

As manifestações de rua pelo mundo todo, inclusive derrubando governos, simultaneamente acontecidas na periferia de guerras civis e das guerras imperiais e neocoloniais, além da permanente tensão com as armas nucleares são o espelho desta história. Os avatares das redes sociais e os vândalos não explicam nada. Basta viver nas grandes cidades para se entender que há um abismo entre periferias de baixo emprego e o centro que emprega e que absorve o conforto do dinheiro coletivo. Esta é a contradição que ninguém procura entender. E para entender realidades complexas é preciso despir-se de seus confortos e de suas fés nos modelos vigentes. 

Sinceramente: jamais tivera a consciência tão nítida do quanto o conforto material amolece a consciência de classe (falo dos liberais, a direita de classe média continua igual em todas as idades).


sábado, 15 de junho de 2013

Estrutura, Ação e Práticas da Direita - José do Vale Pinheiro Feitosa

Um paulistano. Igual a estes que correram abaixo da saraivada de balas de borracha, spray de pimenta e gases irritantes das mucosas. Destes paulistanos que foram presos porque portavam garrafas de vinagre para suportarem os efeitos sufocantes do gás lacrimogênio.

Estava vestindo a pele de um turista deslumbrado, ele e a namora numa viagem internacional a uma realidade distinta do seu dia-a-dia. Com a câmara fotográfica à mão, aqueles equipamentos digitais maravilhosos, com lentes de longa distância, fotografando de modo a romper tudo que lhes ensinaram na faculdade de administração e que é o suprassumo da dinâmica empresarial.

Perdera o foco. Não perdera o clic, apenas o foco conceitual, a obrigação de se concentrar no seu negócio e segui-lo como uma batalhão que segue a trilha do objetivo. Fotografava tudo. Quem sabe algum ângulo, um detalhe não lhe desse a expressão de uma fotografia artística ou o registro singular de um momento.

E assim vinha o nosso paulistano como um paulistano de volta para casa ali no centrão da cidade de São Paulo. Pela Maria Antônia, na Consolação, na Augusta ou na Paulista. Vinha pelas ruas de Santiago do Chile, aliás no vazio dos dias de domingo, mas plena da truculência da polícia chilena acostumada a massacrar manifestantes e opositores.

Vinha o Paulistano como um “inocente” que não sabe bem porque a mão do destino lhe dá uma cacetada. Assim como um jornalista da Folha de São Paulo, do Estado ou do Globo andando na calçada estreita entre as manchetes e editoriais de suas publicações pedindo porrada e a porrada que lhes caiu nos olhos, no lombo, cacetadas no pescoço.

As ruas desertas de Santiago eram o prazer da liberdade de poder gastar aquele dinheiro suado numa viagem internacional e as imagens eram o troféu da conquista. Eram mais do que registros, eram os souvenires dos pedaços daquele lugar. E assim o paulistano como um poeta metrificava cada espaço no centro da cidade.

São Paulo com suas mazelas. Suas revoltas e sua ideologia do negócio. As partículas da matéria e da energia são apenas a física do negócio. Tudo que existe é o negócio. Manipule, crie demanda, venda e lucre. A felicidade é o ciclo completo e a civilização a lei da oferta e da procura.

Seja livre e tenha méritos. Eis o discurso ideológico. Esta tua liberdade o levará muito além e a tua “competência” galgará a escadaria luminosa de Jacó. Por mérito sentarás à mão direita de Deus para julgar os vivos que desejam respirar, beber e comer quando por teus critérios eles não merecem isso e sim muito tiverem restara-lhes uma cova rasa e uma placa elucidativa dos desconhecidos.

Ser Paulistano, já com a conquista do status de turista é uma vitória deslumbrante na carreira deste mérito outorgado pelo departamento de RH da empresa. Estava num estágio de superioridade, de domínio do pedaço, assim como os jornalistas que acompanharam na última quinta-feira a manifestação da juventude em prol do passe livre no transporte coletivo.      

Acontece. Ele não é o escolhido. Não pertence à classe privilegiada. Não tem segurança. Não tem direito. Nem cuidados com sua segurança pode ter pois a violência nascida na raiz que lhe inventou se volta contra ele com um furor que reduz suas conquistas a pó. Uma lama que nem privada mais o é. É lixão de todas as pessoas excluídas desta “civilização” que corre mundo em todas as cidades com seus exércitos e polícias violentos.

O paulistano se admirou daquele carro da polícia repressiva do Chile pronta para massacrar algum estudante que viesse à ruas reivindicar universidade pública e gratuita. O carro era blindado, tinha chapas por todos lados e grades de ferro à frente dos vidros e das portas. Era uma imagem muito diferente para o paulistano. Ele nunca o vira antes e o fotografou.

O mundo desabou sobre ele. Foi cercado por soldados fortemente armados, vestindo roupas blindadas, bombas, armas pesadas, máscara de proteção, capacete e uma determinação de arrasar quarteirão. Frente ao nosso paulistano frágil, de carne e osso, afinal compreendendo não ser nada na engrenagem empresarial dos negócios, dos focos e dos objetivos.

Não teve a dignidade do seu corpo lanhada em pancadas como seus conterrâneos estão tendo, mas sua honra, sua liberdade, suas vitórias, sua dignidade psicológica viraram um nada diante da “mão invisível” do capitalismo sul americano. Mas antes de tirar o paulistano das ruas de Santiago e remetê-lo no voo para sua conflagrada São Paulo é preciso dizer que no mesmo dia em que corria sangue do rosto de pessoas na cidade brasileira, em Santiago igualmente corria.

Com invasão da Universidade pela polícia, o massacre de professores, pais e aluno. E não deixa de ter a face lisa, cruel e cínica de um Piñera ou um Alckmin no dois lados dos oceanos sul americanos justificando o massacre.