TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ingrizias sebastianas



                      
J. Flávio Vieira

                        Mais de três anos sem cair um pinguinho sequer. Os poços do rio Paranaporã já tinham batido a piaba há mais de dez meses. Matozinho estava mais seca que língua de papagaio. De bicho de quatro pés só havia restado tamborete e de  avoador : pipa. Verde, na cidade, só se via em solenidade da prefeitura quando hasteavam o panteão nacional, mesmo assim era um verde velho desbotado mais puxado para cinza. Ah, havia, ainda, um outro raro remanescente  da antiga esperança : o  pano da sinuca do Bar do Godô. Quem chegasse de fora, ficaria encafifado como era possível sobreviver em meio àquela catástrofe. Não se lia, no entanto, nos olhos dos matozenses, nenhuma aflição descabida. Estavam acostumados ao ciclo natural das intempéries. Angustiavam-se quando viam os animais serem dizimamos, em série, pela fome e pela sede, mas lia-se ,no fundo das retinas,  um longínquo verde de esperança, cover daquele que um dia já havia engalonado as árvores e as vidas.
                                   Afonso Caititu morava no alto da Serra da Jurumenha nas cercanias de Matozinho, uns quatro a cinco quilômetros mais perto do céu. Nos últimos dias, havia procedido ao inventário final pós hecatombe. O que restava ainda para se desfazer e transformar em víveres ? Deu , então, com um velho Rádio SEMP, ainda alimentado a válvulas. Lembrou, então, que naqueles dias terríveis se celebrava, por ali, a festa do santo da capelinha : São Sebastião . Havia um vuco-vuco danado de gente indo e vindo para as novenas. Do alto de seus conhecimentos de Marketing de pé-de-serra, teve uma idéia genial. Aproveitaria a festa religiosa e promoveria um bingo do rádio, dava para arrecadar uns reais e transformá-los em farinha e rapadura por mais alguns dias, até que outro santo , Pedro, resolvesse colaborar.  
                                   A casa de Caititu ficava na saída do arruado. Ele , então, providenciou os preparativos. Varreu todo o terreiro, espalhou cadeiras disponíveis , posicionou o oratório, do lado de fora, com a clássica imagem de São Sebastião amarrado e trespassado de flechas ; contratou alguns meninos para fazerem a propaganda de  boca em boca e melhorou a iluminação com algumas lamparinas subsidiárias, movidas a querozene jacaré. De noitinha, postou-se defronte, com o rádio colocado numa mesinha, em local bem visível, as cartelas, a cumbuca e pedras em ponto de bala para o início do jogo.
                                   Afonso havia planejado tudo , detalhadamente. Escapou-lhe, no entanto, um fato importante. Um vizinho --  Francalino  Bemtevi – tivera uma idéia parecida e pertinho dali promoveu um Forró numa latada improvisada, com o grande Sanfoneiro da região : Cotozinho dos Oito Baixos. Eram eventos de sobra para um arruado tão pequenino, mesmo envenenado com o turismo religioso. Caititu postou-se em frente à casa, esperando, pacientemente, a clientela. Alguns meninos e curiosos ficaram pelas beiradas esperando o desenrolar das coisas. Aos poucos começou a chegar a freguesia, mas passava direto para o Forró. Entre as cartas e o rela-bucho preferiram o esfrega coxa. O tempo foi passando e, pouco a pouco, iam se dissolvendo as esperanças do nosso promoter. De início, Afonso ainda tentou se convencer que as coisas mudariam, mas , por volta de nove horas, caiu-lhe a ficha e o orelhão todo na cabeça. Afobado, desistiu e começou a colocar as coisas para dentro de casa, numa penosa desprodução. Enquanto ia e vinha, percebeu, entre os  curiosos  que por ali ainda permaneceiam curruchiado. Estavam, cuidadosamente, mangando dele. Numa das viagens , no leva-leva de coisas, trouxe, consigo, a velha espingarda soca-soca. Firmou-a no chão, observou a platéia meio desconfiada e ameaçou:
                        --- Tô botando as coisas tudo pra dentro. Mas tô avisando! O primeiro filho da puta que armar um risinho de canto de boca , zonando comigo, eu meto bala. Querem ver ?
                        Ninguém queria, ao menos ali, defronte ao cano da soca-soca. Foram saindo rápido. Caititu, no entanto, ficou ainda mais fulo da vida, quando ao longe, ouviu as gargalhadas que se soltavam já fora da alça da mira. Quando pegou por fim a imagem de São Sebastião, sobrou a raiva para  o santo guerreiro:
                        --- Vai timbora pra dentro de casa! Num fica olhando pra mim , não ! Devia ter vergonha : com esses olhos pidão, revirados pra riba, como quem procura rola voando!  Pezim levantado, munheca e rejeito moles, todo flechado... Tome jeito de homem! Tu é loiça, é ? Num zone , não ! Tu nem pode correr todo ingriziado  de imbiriba pra todo lado! Num venha não, seu fresco  !Te lasco chumbo no rabo!
15/11/13

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quinta Cultural com os Irmãos Aniceto, em Crato



QUINTA CULTURAL 
DIA 14/11, 19 HORAS 
MEMORIAL DA IMAGEM DO SOM 
INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI/ICC 
(EM FRENTE AO PARQUE DE EXPOSIÇÕES - CRATO)

O "laboratório' - José Nilton Mariano Saraiva

Meses atrás, numa das grandes lojas de departamento de Nova Iorque, localizada em plena 5ª Avenida, uma determinada e emergente atriz global foi presa em flagrante (já na boca do caixa), ao ter a bolsa que carregava devassada pelos fiscais (que haviam sido alertados pelos seguranças), onde foram encontrados alguns itens não apresentados para pagamento. Levada à delegacia, a inusitada e surreal desculpa: na verdade, estava apenas e tão somente praticando “laboratório”, por determinação da emissora global.

Destrinchando: é que fora escalada para a próxima novela do horário nobre, onde deveria fazer o papel de uma audaciosa ladra, daí a necessidade de exercitar antecipadamente as ações pertinentes (ou seja, o “modus operandi” de como roubar) a fim de bem cumprir o papel para o qual fora escolhida; e, numa prova do quão respeitava a fama de Nova Iorque, de como aquela fervilhante metrópole mundial lhe era cara e lhe causava admiração, a tinha escolhido para “laboratório”.

Mais realista foi a então jovem e esfuziante Vera Fischer que, após ser eleita missa Brasil, fora contratada pela emissora global e inserida no seu restrito ”cast” de celebridades, embora sem nenhuma experiência na arte de repreentar: e então, em pleno auge da fama, no apogeu da carreira, quando esbanjava sexualidade por todos os poros e era desejada por meio mundo e mais uma banda de homens, ao ser entrevista por uma emissora concorrente foi incisiva e contundente: pra chegar até ali (na Globo) ainda tão jovem, tivera que “freqüentar a cama” de diversos graúdos da emissora (na verdade, perdera até a virgindade). Não citou nomes, mas forneceu a senha.

A reflexão acima nos remete ao atual folhetim global do horário nobre, onde a mulher do melhor amigo do marido vive enfurnada num motel com o próprio, enquanto o marido não faz nenhuma cerimônia em freqüentar o mesmo ambiente com a esposa do melhor amigo; ou seja, a troca de parceiros se dá com a mesma naturalidade de como se troca uma camisa, numa degradação e promiscuidade de costumes que assusta. Na seqüência, quando um chega em casa, o outro já lá está e, após as desculpas esfarrapadas e tradicionais, ambos, alegando cansaço, se deitam de costas um para o outro.

Vida que segue, mais tarde, após o final da novela, normalmente acontecem as separações e ajuntamentos, tal qual o encenado no folhetim global. E então, consultados, sobre a influência da televisão, autores e diretores alegam que nada mais fazem que levar a “vida real” pra dentro de casa (se alguma adolescente resolver “adotar” tal postura, problema dos pais).

Como se vê, não é de hoje que o eficiente “laboratório” global funciona a todo vapor, daí a impressionante “rotatividade” de parceiros no meio artístico. Comenta-se, até, que entre eles vige o conceito de que ser “chifrudo” é questão de “status”. 


Você, aí do outro lado da telinha, gostaria de ser assim catalogado ???

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Signo de Caranguejo



J. FLÁVIO VIEIRA


"Não há nenhum pensamento importante que a
burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados
 e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém,
tem apenas um vestido de cada vez e só um
caminho, e está sempre em desvantagem." (Robert Musil)


                                               O Crato, amigos, é mesmo uma cidade sui generis. Esta semana conseguimos por abaixo  dois paradigmas históricos. O primeiro profundamente cratense, do nosso Quixadá Felício : “Nesta terra há lugar para todos os homens de boa vontade” e um outro nacional , ditado por Pero Vaz de Caminha, na sua carta: “Nesta terra em se plantando tudo dá! Acabamos de provar  que não há boa vontade neste mundo que suporte a burrice de alguns nossos conterrâneos e que, ao contrário do que pensava nosso escrivão, nesta terra em se plantando, tudo fenece.  A pretensa cidade da Cultura  já não tem um Cinema, não possui um Teatro sequer, não tem mais nenhum Jornal, o Instituto Cultural deixou de publicar há mais de 20 anos sua Revista Itaytera,  o Museu do Crato está com instalações deterioradas e parte do acervo desapareceu. Neste exato momento em que a Mostra Cariri das Artes foi cancelada na nossa cidade, a Câmara Municipal foi invadida , a Reitoria da URCA sofreu outra invasão e a centenária Diocese do Crato está envolvida em processos judiciais de estelionato e formação de quadrilha.  Tínhamos, por outro lado, este ano, um interessante alinhamento de planetas.  Foi coisa botada ? Costuraram a boca de um sapo e botaram ali no Muriti ? A melhor explicação deste azar reiterado vem do nosso compositor Abidoral Jamacaru. Segundo ele, o Crato faz aniversário em 21 de Junho , deve ser  pois do signo de Caranguejo, assim,  astrologicamente se justificaria esse nosso destino de dar um passo para frente e dois para trás.
                                   O certo é que complexados como todos os cratenses já vivem, pulularam inúmeras versões e teorias conspiratórias nas Redes Sociais e rodinhas de praça,  tentando culpar vários atores políticos e sociais nesta derrocada derradeira. Afinal as Mostras SESC  , nos seus quinze anos, se tornaram o mais importante evento de todo o Sul do Ceará, formando platéias e imantando de diversidade cultural o Cariri, promovendo encontro de artistas e estimulando um interessante intercâmbio.  O holocausto da Mostra SESC por aqui envolve, na polêmica, basicamente três principais atores : A Prefeitura do Crato, a FECOMÉRCIO e a Guerrilha do Ato Dramático. Pretendo, aqui, refletir sobre cada uma das partes para tentar entender, depois do dilúvio, o motivo do afogamento generalizado. Quase impossível se entender a tragédia quando, este ano, tínhamos um interessante alinhamento de planetas : Dane de Jade, nossa fabulosa Secretária de Cultura, veio de dentro do SESC e foi uma das mentoras da Mostra, por outro lado, nosso Vice-Prefeito, Raimundo Filho, sempre teve uma ligação fraterna e umbilical com a FECOMÈRCIO, a grande patrocinadora da Mostra. Só nosso caié eterno mesmo para explicar a tragédia acontecida !  
                                   O SESC/Crato,nos últimos quinze anos, é bom que se entenda, funcionou como a Secretaria de Cultura da Cidade. A ele devemos não só as Mostras, mas espetáculos freqüentes do Palco Giratório e do Sonora Brasil, lançamentos de livros, shows musicais principalmente através do Armazém do Som , leituras de Cordéis na Feira e um interessante calendário de exposições de Artes Plásticas. As Mostras sempre aqui se instalaram  com praticamente nenhuma ajuda dos Governos Municipais, além da cessão de alguns espaços públicos para que acontecessem. E chegaram a trazer mais de 700 artistas, englobando, só em Crato, mais de dez salas de espetáculos funcionando ininterruptamente. Aqui chegaram espetáculos fabulosos como “Cassandra”, “Gota D´água” , “O Círculo de Giz Caucasiano”, para citar apenas alguns.  Vários dos mais importantes grupos teatrais do país  e do exterior como Argentina, Portugal, Uruguai, França aqui estiveram, sem falar em shows musicais  de importantíssimos artistas brasileiros : Nação Zumbi, Chico César, Jorge Mautner- Nélson Jacobina, Naná Vasconcelos e muitíssimos outros. Os artistas da região, nas suas mais multifacetadas formas,  participaram intensamente dos eventos. As Mostras sempre trouxeram uma imersão cultural importantíssima para o Crato, sem se falar sequer na injeção de economia, na nossa  cidade, aluguéis de espaços,  com restaurantes , lanchonetes, hotéis abarrotados. Isso sempre sem nenhum ônus, praticamente, para o município. O SESC, pois, tem amplas razões quando reclama do boicote por parte da gestão municipal à XV mostra. Vá lá que não se apóie, mas criar empecilhos, construir barreiras, não é demais ?
                                   Quanto à Guerrilha do Ato Dramático, ela surgiu há mais ou menos cinco anos por grupos de teatro do Cariri insatisfeitos com a seleção de espetáculos e, também, com a política de cachês. Estes grupos, é bom que se frise, fazem um trabalho incrível de resistência. Imaginem vocês, fazer Teatro Amador ou semi-profissional, no interior do Nordeste !  Batalham dia a dia contra todas as adversidades, órfãos quase sempre de apoio governamental. É preciso tirar o chapéu para eles. É claro que podem ter surgido radicalizações de parte a parte. Sempre entendi que a Guerrilha fazia-se sempre contra todas muitas  adversidades e não contra a Mostra SESC em si. Faltaram, possivelmente, negociadores para dirimir as arestas. Podia-se, por exemplo, negociar para os dois eventos não acontecerem simultaneamente. Já temos tão poucos no calendário !  Corre-se sempre o risco de uma cobra engolir a outra e a outra engolir a uma e as duas desaparecerem, como na historinha de Trancoso, risco que se corre agora. A questão dos cachês, claro, podiam ser revista, sempre lembrando , no entanto, que não é a qualidade do artista mas o próprio mercado que a determina. Luan Santana, por exemplo, tem um cachê infinitamente maior que o de Ednardo ou Gilberto Gil. Não acredito, de sã consciência, que os guerrilheiros tenham sido os causadores diretos pelo problema que ora vivenciamos. Até porque, sem a presença da Mostra, sem o seu clima, eles serão diretamente atingidos.  Não , são apenas coadjuvantes. As decisões maiores vêm do Generalato e não dos soldados rasos.
                                   A Prefeitura Municipal vem tentando, reconheço, recolocar o Crato novamente no cenário da região, ao menos em discurso. Jogou, de imediato, a culpa de tudo, na intransigência da FECOMÉRCIO que teria fechado questão contra a Guerrilha, numa espécie de  “Ou eles, ou nós, escolham!”. Sinceramente não acredito nesta versão, até porque os dois eventos vinham acontecendo simultaneamente há muitos anos. Um dos grandes pecados foi não terem ouvido Dane de Jade, a Secretária de Cultura dos sonhos de qualquer município nordestino! Eu mesmo queria levá-la para Matozinho. Dane vem de dentro do SESC, foi uma das mentoras da Mostra e tem uma vivência fabulosa nesta área. Temo até que utilizem este triste acontecimento, do qual ela não teve participação direta, para fritá-la politicamente.  Já estamos no subsolo de tudo , amigos, não merecemos este último golpe de misericórdia!  Sem Dane fecham-se praticamente todas as perspectivas de se retomar o vultoso passado Cultural da Cidade de Frei Carlos.  Percebo ( e tive informações privilegiadas sobre tudo) que , como sempre , as causas vieram de uma briga de  generais e não de simples samangos. Uma disputa de espaço político envolvendo vários atores graúdos da  política local e estadual.  Bate boca na Casa Grande termina, invariavelmente, em paulada na Senzala.
                                   Perdemos uma batalha ou fomos vencidos definitivamente? A hecatombe de hoje diz respeito apenas a 2013 ou nunca mais teremos a Mostra em Crato  ? Como a questão é basicamente de política partidária cabe uma grande mobilização da Cidade ( Estudantes, Clubes de Serviço, ICC, Fundação Mestre Elói, CDL) no sentido de intermediar estas  delicadas pendências, nas próximas edições.  Já vestimos todos os trajes da burrice nos últimos anos, não merecemos utilizar todo o enxoval. Aqui não já foi o paraíso dos homens de boa vontade ?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

"Catinga insuportável" - José Nilton Mariano Saraiva

Até que enfim o Crato chegou às manchetes, jornalísticas e televisivas. Pena que de uma forma nada positiva, não merecedora de encômios, nem um pouco edificante. É que o ex-prefeito da cidade, sentindo-se traído por um vereador que houvera sido seu aliado durante todo o tempo em que esteve no trono (nos últimos oito anos), resolveu fazer-lhe uma “visita amigável”, em companhia de um outro membro do legislativo cratense. Pois bem, durante o encontro, conversa vai conversa vem, ao tempo em que o incitava a fazer declarações comprometedoras (possível corrupção) contra o atual prefeito da cidade (seu adversário político), o ex-prefeito acionava um gravador a fim que a conversa registrada ficasse para a posteridade.

Nos dias seguintes, devidamente editados e vazados a conta-gotas, trechos da conversa gravada foram liberados para a imprensa, objetivando mostrar um suposto “modus operandi” mafioso do atual mandatário da cidade (compra de votos). Então, a coisa fedeu e uma “catinga insuportável” tomou de conta das ruas, praças, bares, clubes sociais, igrejas, bancos, consultórios, lotéricas e por aí vai, já que ao ouvir a própria voz num programa de alta audiência numa das emissoras da cidade e constatar que houvera sido enganado de forma humilhante pelo ex-amigo, a única e esfarrapada desculpa brandida por Sua Excelência (???) foi a de que naquela oportunidade havia “tomado umas e outras” e estava “fora de si” (sic), daí ter falado o que não devia. Assim, a se confirmar a fala do parlamentar, o ex-prefeito teria se aproveitado de uma pessoa em adiantado estado de embriagues a fim induzi-la a fornecer informações que comprometeriam um adversário político (e isso é bastante grave).

A propósito, é de domínio público que o ex-prefeito do Crato é um dos herdeiros de um dos maiores cartórios de Fortaleza (deixado pelo pai para a família) e, conseqüentemente, até por dever de ofício deve saber que qualquer gravação feita sem a autorização da justiça, além de não ter qualquer valor jurídico constitui-se crime grave, passível de punição. E é difícil acreditar (diríamos até impossível) que a Justiça conceda autorização para que uma pessoa física (ou mesmo qualquer autoridade) bisbilhote a vida de quem quer que seja, sem que haja um motivo relevante e de interesse coletivo (picuinhas, então, visando beneficiar-se pessoalmente, nem pensar). Assim, caso se sinta prejudicada, basta que a parte ofendida procure a Justiça em busca da competente reparação, cabendo até a impetração de processo e a conseqüente indenização por danos morais.

Agora, aqui pra nós, independentemente do desenlace de tão lamentável e vergonhoso imbróglio, que só serviu para manchar ainda mais o nome da cidade em nível nacional, o que se pode concluir é que as partes envolvidas (ex-prefeito e diversos vereadores) demonstraram não ter nenhum apreço pela ética, qualquer consideração para com o cargo para o qual foram guindados, nenhum respeito para com os que os elegeram.


Como estamos às vésperas de mais uma eleição, é bom atentar para isso, porquanto já se comenta que o ex-prefeito pretende se candidatar a Deputado, no próximo ano. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

"Mistério" - José Nilton Mariano Saraiva

Terá feito alguma viagem transcontinental e esquecido o danado do notebook em casa ???  Ou estará curtindo “adoidado” a noite parisiense e esquecido do Crato ??? Avançou um pouco e perdeu-se na imensidão da gélida Sibéria ??? Ou empreende uma sofrida escalada ao Monte Everest, objetivando quebrar algum recorde ??? Decidiu se auto-exilar por uns tempos ???  Ou estará com alguma doença que não lhe permite aparecer ???  Terá sido seqüestrado por algum fã incondicional e ardoroso ???  Ou recolheu-se voluntariamente a fim de elaborar alguma obra literária monumental ???  Resolveu dá um tempo, a fim de testar o Ibope ??? Ou foi contratado por alguma organização ultra-secreta, objetivando elaborar uma vacina contra a corrupção ??? Enfim, por onde andará ??? Mas, que mistério danado é esse ???

De concreto, o que se sabe é que já há cerca de quase três meses os “diaristas” dos blogs cratenses “No Azul Sonhado” e “Cariricult” não têm tido o prazer de acessar e se deleitar com os textos fabulosos do conterrâneo Zé do Vale Pinheiro Feitosa, sem favor nenhum (junto com o Zé Flávio Vieira), um dos dois “monstros sagrados” dos blogs caririenses na arte de colocar o preto no branco (e antes que algum apressadinho de plantão emita algum “juízo de valor” equivocado, que fique bem claro: não, não o conhecemos pessoalmente; mas, algum dia vamos ter, sim, tal privilégio).

Fato é que nunca uma ausência foi tão sentida; nunca a constatação de uma ausência foi tão reclamada; nunca foi tão fácil constatar que os dois blogs do Crato perderam em substância e qualidade devido a uma “não presença”.

E como quem promete não pode faltar, tá na hora de voltar, Zé do Vale.    

terça-feira, 5 de novembro de 2013

ADEUS !

MOSTRA SESC / CRATO

CONVITE ENTERRO 

* 1998     + 2013  

O "babaca" - José Nilton Mariano Saraiva

Falastrão e flagrantemente desequilibrado emocionalmente quando sob pressão, o senhor Ciro Gomes viu-se rejeitado pelo povo em mais de uma oportunidade em suas tentativas de ascender politicamente ao cargo majoritário da nação, claro que por achá-lo inabilitado e despreparado para tal mister (já pensou uma figura dessas num foro internacional, discutindo algum tema delicado de interesse da nação).

Assim, retornou ao Ceará, onde o irmão, mandatário maior do Estado e presidente do PSB, arranjou-lhe uma “boquinha” ao nomeá-lo “assessor especial” do partido (sem que até hoje se saiba quais as atribuições pertinentes e o salário pago). Tanto é que, irrequieto por não ter o que fazer e por ter sido relegado ao ostracismo (decerto uma situação dolorida para quem houvera se acostumado às manchetes), forçou a barra e conseguiu ser designado Secretário de Saúde do governo, aonde já chegou fazendo barulho, como se fora o salvador da pátria. Só que, acostumado a mandar e desmandar por onde andou, vem se constituindo uma incômoda pedra no sapato do Governador-irmão, por conta da descabidas interferências que dia-a-dia patrocina, tanto que já há quem questione quem realmente manda no governo, se ele ou o mano querido.

Sua mais recente “travessura” deu-se na cidade do Iguatu, quando o irmão teve a infeliz idéia de incluí-lo na comitiva governamental que cumpriria uma série de compromissos naquela urbe. É que, chegando à cidade antes do governador, deparou-se com uma manifestação de estudantes da Universidade Regional do Cariri-URCA, protestando contra o estado caótico em que se encontra a educação não só naquela universidade como também em todo o estado do Ceará (enquanto vultosas verbas são destinadas a projetos de utilidade duvidosa).

E aí (claro que na tentativa de voltar às manchetes por cima de pau e pedra), o senhor Ciro Gomes deu um jeito de armar seu circo particular: cercado pelos áulicos de plantão e de parrudos seguranças (e eles nunca desgrudam do próprio, estão sempre lá na cola, dispostos a até baixar o sarrafo) bateu boca com os estudantes, chamou-os de “babacas”, investiu contra um deles, tomou-lhe o cartaz que portava e rasgou-o acintosamente, como se fora o “valentão do pedaço”.

Pergunta que se impõe: quem é mesmo o “babaca” dessa história, aquele que de forma democrática exerce seu direito de lutar por melhorias que contemplem todo o universo de uma atividade essencial (como a educação), ou essa figura menor, recorrentemente desequilibrada, que se julga o “messias” do mundo contemporâneo???


Quem é o “babaca” ???   

domingo, 3 de novembro de 2013

5ª GUERRILHA COMEÇARÁ DIA 5 DE NOVEMBRO


5ª GUERRILHA DO ATO DRAMÁTICO CARIRIENSE
Troféu Juscelino Leal Lobo Júnior
Crato | Cariri | Ceará | Brasil | 5 a 20 de novembro de 2013


PROGRAMAÇÃO GERAL

Trincheira Rua
Praça Siqueira Campos

Dia 5 (ter)
19h – Abertura 
20h – PELEJAS DE UM CORAÇÃO (Livre, 40 min, Grupo Cícera de Experimentos Cênicos, Juazeiro do Norte)

Dia 6 (qua) 
20h – O BAÚ DE HISTÓRIAS (Infantil, 50min, Cia. Arte e Cultura de Teatro, Crato) 

Dia 7 (qui)
20h – APAESHOW - RESGATANDO TRADIÇÕES E VALORES DE NOSSA GENTE (Livre, 50 min, Cia. de Artes da APAE, Juazeiro do Norte)

Dia 8 (sex) 
20h – O BAILE DO MENINO DEUS (Infantil, 50min, Grupo de Teatro Zaíla Lavor, Juazeiro do Norte)


Trincheira Palco
Teatro Municipal Salviano Arraes Saraiva

Dia 9 (sab) 
17h – O BOI DA CARA PRETA (Infantil, 50min, Grupo de Teatro Zaíla Lavor, Juazeiro do Norte)
19h – O HÓSPEDE (12 anos, 50min, Cia. Mandacaru de Artes e Eventos, Juazeiro do Norte)
20h30min – QUANDO AS GALINHAS GEMEM (14 anos, 40min, Grupo Teatro em Película / Núcleo Cariri, Crato)

Dia 10 (dom)
17h – PIMPÃO, O PALHAÇO TRAPALHÃO (Infantil, 50min, Cia. Kanoistraveisdinovo de Teatro, Crato) 
19h – A DONZELA E O CANGACEIRO (Livre, 60min, Cia. Brasileira de Teatro Brincante, Crato)
20h30min – MARCAS (12 anos, 50min, Trupe dos Pensantes, Crato)

Dia 11 (seg)
19h – A COMÉDIA DA MALDIÇÃO (Livre, 60min, Cia. Brasileira de Teatro Brincante, Crato)
20h30min – REMINISCÊNCIAS (16 anos, 60min, Grupo de Teatro Ganimedes, Juazeiro)

Dia12 (ter)
19h – O EVANESCENTE CAMINHO (12 anos, 50min, Cia. Engenharia Cênica, Juazeiro)
20h30min – MEMÓRIAS DE UM CABARÉ (12 anos, dança-teatro, Cia. de Dança Vidar’t, Projeto Nova Vida, Crato)

Dia 13 (qua)
19h – ESPERANDO COMADRE DAIANA (Livre, 60min, Cia. Livremente de Teatro, Juazeiro) 
20h30min – MAIS PERTO (14 anos, 50 min, Grupo de Teatro Centauro, Crato) 

Dia14 (qui)
19h – AVISEM QUE FAZ MAL (14 anos, 50min, Coletivo Dama de Vermelho, Juazeiro) / QUERO COMER SEU CORAÇÃO (14 anos, 50min, Grupo de Teatro Duavesso, Crato) 

Dia 15 (sex)
17h – LINDO BALÃO AZUL (Infantil, 40min, Grupo de Teatro Centauro, Crato) 
19h – MALENTENDIDO (14 anos, 50min, Cia. Kanoistraveisdinovo de Teatro, Crato) 
20h30min – AS IRMÃS CASTANHOLAS (12 anos, 80min, Cia. Mandacaru de Artes e Eventos, Juazeiro do Norte)

Dia 16 (sab)
17h – A LIÇÃO MALUQUINHA (Infantil, 50min, Grupo Ninho de Teatro, Crato) 
19h – E AGORA NÓS? (12 anos, 50min, Grupo Teatral Loa, Fortaleza) 
20h30min – # HAMLET MÁQUINA (18 anos, 50min, Grupo Plantas Embaixo do Aquário, Crato) 

Dia 17 (dom)
17h – O REINO MALUCO DE BRANCA DE NEVE (12 anos, 50min, Cia. Mandacaru de Artes e Eventos) 
19h – OS 3 PORQUINHOS (Infantil, 50min, Cia. Teatral Anjos da Alegria, Crato) 
20h30min – UMA ÚLTIMA VEZ (18 anos, 65min, Cia. Arte e Cultura de Teatro, Crato) 

Dia 18 (seg)
19h – QUANDO NOS ENCONTRAMOS FOI TARDE DEMAIS (14 anos, dança-teatro, 50min, Grupo Cícera de Experimentos Cênicos, Juazeiro do Norte)
20h30min – EMBRIAGADA (14 anos, 50min, Cia. Teatral Moreira Campos, Fortaleza)

Dia 19 (ter)
19h – (S)EM MIM (14 anos, dança-teatro, 40min, Inspire Espaço de Dança, Juazeiro do Norte)

Dia 20 (qua)
19h – O MENINO FOTÓGRAFO O MENINO FOTÓGRAFO (10 anos, 50min, Grupo Ninho de Teatro e Cia. Engenharia Cênica, Crato e Juazeiro)
20h30min – RETRATO (Livre, 50min, Cia. Yoko de Teatro, Crato) 


POLÍTICA CULTURAL E FORMAÇÃO
Teatro Municipal Salviano Arraes Saraiva

RODA DE CONVERSA
- POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A CULTURA NO CONTEXTO DA GUERRILHA
Dia 6 (qua), 15 às 17h (Com Cacá Araújo | Ação Pró-Cooperativa de Artes Cênicas do Cariri) 


MESA REDONDA
- LEGISLAÇÃO DO ARTISTA E AÇÃO SINDICAL
Dia 9 (sab), 15 às 17h (Com Oscar Roney e Itami de Morais | SATED-CE) 

OFICINAS
- CANTO, CENA, CORPOMENTE – PREPARANDO O ATOR/BAILARINO/CANTOR 
De 6 a 10, das 15 às 18h (15h/a | Coordenação de Márcio Rodrigues)
- PERFORMANCE: O CORPO COMO ELEMENTO DE REFLEXÃO SOCIAL
Dia 7 (sex), das 14 às 17h (03 h/a | Com Alexandre Lucas | Coletivo Camaradas)
- AQUILO QUE EU LEMBRO FAZ CORPO EM MIM: OUVINDO A VOZ DOS MOVIMENTOS CORPORAIS
Dias 15 e 16, das 14 às 18h (08 h/a | Grupo Cícera de Experimentos Cênicos) 


RELEASE:

A Guerrilha do Ato Dramático Caririense é um evento reconhecido no calendário da cultura nordestina e de profunda significação para o desenvolvimento das artes cênicas no Cariri cearense, fruto que é da vitalidade e pujança das companhias aqui sediadas. 

Realizamos quatro edições (2009, 2010, 2011 e 2012), mobilizando, incluindo e difundindo quase duas centenas de espetáculos de teatro, dança e circo, produzidos e realizados por cerca de 30 companhias em funcionamento na região e prestigiados por milhares de espectadores de todas as idades. Em 2013, com 32 espetáculos que traduzem o talento dos artistas caririzeiros, mais uma vez faremos brilhar os céus de nossas almas. 

Somos um movimento de afirmação e resistência cultural que procura estimular e fortalecer a produção regional em artes cênicas, valorizando artistas e grupos locais como importantes na consolidação da nossa identidade e preparando a região para intercâmbio que não exclua o valoroso patrimônio cênico de nossas gentes.

Cacá Araújo
Idealizador e Coordenador da Guerrilha do Ato Dramático Caririense

sábado, 2 de novembro de 2013

O "berço" - José Nilton Mariano Saraiva

Inserta lá no meio dos versos de Joaquim Osório Duque Estrada, que alfim compõe o Hino Nacional Brasileiro, a frase aparentemente inocente e comodista - “deitado eternamente em berço esplêndido” - durante muito tempo serviu para que os pessimistas de plantão tratassem de afinar o discurso negativista, tentando ridicularizar e achincalhar o próprio país, porquanto retrataria com fidelidade uma espécie de “estado de espírito” omisso e acomodado dos seus dirigentes. Daí a perspectiva de um futuro desalentador e sombrio, profetizavam. Só que, ao longo dos anos, trabalhando com denodo e em silencio, nos bastidores, o Governo Federal paulatinamente conseguiu inserir o país no tabuleiro desenvolvimentista, via projetos bem estruturados, criteriosos e consistentes (inclusive apoiando de forma decisiva a iniciativa privada), daí o Brasil figurar, hoje, como um dos cinco emergentes que no futuro (que tá logo ali na esquina) se firmará, sim, como uma potência mundial. Pois bem, nessa bendita arrancada que já iniciamos rumo ao primeiro mundo, um dos insumos basilares que faz a “roda girar” é, sem sombra de dúvida o petróleo (apropriadamente cognominado “ouro negro”) em razão da miscelânea de utilidades que incorpora, daí sua conseqüente e necessária presença em tudo que represente alavancagem, progresso, desenvolvimento. Em qualquer idioma e rincão do planeta Terra. E então, “fiat lux”: por obra e graça do petróleo, no Brasil houve como que um despertar repentino, de sorte que o “deitado eternamente em berço esplêndido”, tão criticado e achincalhado pelos negativistas, se transfigura e nos apresenta uma outra conotação, um outro horizonte, uma outra faceta: sim, senhores, nosso país literalmente repousa, desde tempos imemoriais, num portentoso reservatório de petróleo, que poderá transformá-lo num dos maiores produtores-exportadores do produto, com tudo de bom que isso representa. É que a competente estatal brasileira Petrobrás, expertise na exploração em águas profundas, depois da descoberta de imensas reservas petrolíferas nas profundezas oceânicas do pré-sal (Bacia de Campos), agora anuncia um outro feito capaz de nos catapultar rumo ao primeiro mundo, verdadeiro passaporte para se adentrar no seleto grupo de países preferenciais: o recém-descoberto campo de Libra guarda algo em torno de impressionantes 15 bilhões de barris de petróleo (como se não bastasse, logo após a descoberta de Libra, aquela estatal e o governo de Sergipe anunciaram a descoberta de uma monumental nova reserva do mineral, no litoral de Sergipe-Alagoas, ainda maior em termos de área (2.418,77 Km²) do que a de Libra. Claro que a extração de toda essa riqueza do fundo do oceano é por demais complicada e onerosa, mas não faltarão parceiros dispostos a alocarem os recursos necessários, via aceitação da “partilha” proposta pelo governo brasileiro (que ficará com 75% do que for extraído) daí a tendência a que nos tornemos um dos maiores produtores-exportadores de petróleo. E inquestionáveis serão os reflexos na alavancagem desenvolvimentista e sustentável propiciada. Fato é que, se vivíamos “deitado eternamente em berço esplendido” (mesmo tendo como colchão um mar de petróleo), agora o gigante não só despertou, mas levantou, e tende a ocupar lugar de destaque no conceito das nações. Evidentemente nossa geração não alcançará o apogeu disso tudo, mas, olhando em termos macros, nos conforta saber que nossos descendentes (filhos, netos) hão de usufruir das benesses de um país que o mundo há de respeitar. Alguém duvida ???

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Tá Russo !



J. FLÁVIO VIEIRA


                               Jonathan Swift ( 1667-1745)  , escritor irlandês, viveu naquele período que antecedeu, diretamente à Revolução Industrial.  Vivendo em Londres, testemunhou a cidade se apinhando de pobres diabos , em meio às profundas migrações do meio rural para uma ainda nascente metrópole. Juntos se avolumavam  todos os problemas de ordem sanitária, habitacional, econômica  que, inclusive, tinham dizimado grande parte da população , na Grande Peste de Londres, um ano antes do nascimento do escritor. Swift foi, certamente, um dos maiores sátiros da Literatura Universal. Em 1729, ele escreveu uma das suas pérolas : Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país e, para as tornar benéficas para a República”. No folhetim, Swift propunha, vendo a terrível situação de mendicância das crianças dos humildes  no Reino Unido,  que elas fossem vendidas a peso, por volta de uma ano de idade, e transformadas em carne para consumo humano. Segundo sua tese , os benefícios seriam enormes : a tenra carne de criança, teria grande aceitação; os rendeiros mais pobres, cheios de filhos, teriam um grande capital a negociar; pela grande quantidade de pequerruchos a serem postos no mercado, haveria uma grande injeção de capital, no país; seria ainda um grande incentivo ao casamento, já que os filhos vindouros renderiam grana; aumentaria o cuidado das mães pelos filhos, antevendo o lucro; os homens passariam a gostar tanto de suas mulheres na gravidez, quanto das suas éguas prenhes e , muitas outras vantagens são citadas, corroborando a tese aparentemente estapafúrdia do autor. Swift, de forma drástica, queria denunciar a terrível situação social  numa Londres e Irlanda  com olhos fitos , diretamente, no capital e no seu lucro. Deixar os bebês morrerem de moléstias, fome e inanição, seria menos perverso do que fazer valer sua Proposta ?
                               Lembrei Swift, amigos, justamente porque, justamente 284 anos após sua autodenominada “Modesta Proposta”, apareceu, no Brasil, um discípulo do mestre Irlandês. Em Piraí, Rio de Janeiro, o vereador Paulo Carvalho de Oliveira, conhecido popularmente por “Russo”, apresentou um projeto polêmico na Câmara. Propõe, abertamente, cassar o voto dos moradores de rua. Em discurso inflamado na tribuna defendeu sua teoria, com veemência :                                            -- "Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz nada. Ele não tem que tomar atitude nenhuma. Eu não dou nada para mendigo. Não adianta me pedir que eu não dou. Se quiser, vai trabalhar”.  
                               Em seguida, olhos esbugalhados, babando pelos cantos da boca,  citou o texto que, como por encanto, o pôs numa máquina do tempo e o aproximou de Swift que dorme , há três séculos na Capela de São Patrício em Dublin :
                               ---  “Aliás, acho que mendigo deveria virar comida para peixe !”
                               Definitivamente, as nossas Câmaras de Vereadores andam passando por momentos difíceis. A de Juazeiro mereceria ser barrida do mapa e a de Crato poderia, sem grandes problemas, ser transformada numa Casa de Leilões. Quem dá mais ?
                               Na visão do Russo , mendigo não é gente, enfeia a cidade, não quer trabalha, e não pode exercer seu direito de cidadão, mesmo de última classe. E ele, inclusive, tem uma espécie de Solução Final para o problema, inspirado mesmo de viés, no grande escritor irlandês. Na verdade, Paulo Carvalho tem, pasmem todos, uma visão que não é muito diferente de muitos e muitos meninos de classe média alta deste país e que já se haviam  antecipado na resolução desta crítica mancha  urbana, quando tocam fogo nos pedintes que dormem nas praças públicas  e  criaram um prato especial : o indigesto  “Churrasco de Mendigo”.
                               Observando bem, Paulo de  Carvalho e Swift estão separados não só por três séculos. A proposta do vereador de Piraí , por incrível e absurda que possa parecer, é real, saiu da sua cabeça como verdade e necessidade insofismáveis. E mais, ele não está sozinho, ele representa um enorme segmento da nossa mais refinada sociedade. Este grupo entende os mendigos como a borra , a lama da sociedade e que só servem para poluir visualmente as cidades. Os eleitores de Carvalho defendem pena de morte e, para eles,  a pobreza é sinônimo de preguiça e de furto. Swift, como todo grande artista, montou sua sátira para alertar uma Sociedade adormecida das profundas injustiças sociais que pululavam à sua frente. Paulo de Carvalho apresenta uma tese que orgulharia Eichmann , Mengele e Hitler.
                               O vereador poderia, muito bem, se preocupar com os terríveis e milenares problemas que continuam devastando a humanidade. Este outro, Paulo, já está resolvido. Todos nós, Russo,  eu,  você e os mendigos que você pretende dizimar, temos um banquete marcado prá daqui a pouquinho. E seremos servidos  todos como prato principal, não aos peixes, meu amigo, mas aos vermes.

Crato, 01/11/13