TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Natais




J. Flávio Vieira

                               A casa  , meio enterrada na depressão do terreno da fazenda, com sua  capela em vis à vis e seu pé de fícus  frondoso,   acolhendo a calçada alta e os longos bancos  de madeira, carregava um certo ar de magia e mistério.  Tingia os olhos deslumbrados do menino com tintas de acolhimento e medo. Durante o dia , o casarão quase nem sequer se delineava ante a imensidão do quintal, as delícias do pomar, a líquida lâmina da lagoa logo abaixo. À noite, no entanto, avolumava-se a casa, agora sem concorrência, embebida nas suas majestáticas sombras , só penetradas , aqui e ali, pelo fraco foco , em pino, dos candeeiros a querosene. As paredes  dir-se-iam mata-borrões prenhes de passado, de fantasmas, de sonhos , desejos e  (des)ilusões alimentados por muitas e muitas gerações.
                         Na salinha da frente , que se abria logo após à porta principal , a grande mesa com seus tamboretes parecia acolher anfitriões novos e pretéritos. A cozinha ,de um lado, com seu enorme fogão de lenha, com o teto negro de pucumãs , olhava desconfiada para o sótão, no alto, que avaro guardava o milho, o arroz e o feijão em palha,  da última safra. Do outro lado,  a casa se estendia num largo corredor que  se abria para vários quartos, como um rio que desaguasse em seus afluentes. O primeiro, à direita, era o do avô, com uma pequena cama de casal , um baú de pregaria e uma janelinha que se abria para a vista privilegiada  da calçada frontal , do fícus e da capela.Na parede , uma velha espada da Guarda Nacional.  O outro era a do tio padre que ali não morava,  mas que se guardava com desvelo quase arqueológico, intocável, esperando as cada vez mais raras visitas. Defronte , uma sala enorme, com uma infinidade de armadores  , postos frente a frente ,nas duas mais largas paredes, prontos a suportarem o peso de incontáveis redes. A cozinha e a sala maior possuíam portas que as ligavam ao vasto quintal da fazenda.                               Nas férias , a algazarra dos netos, como uma praga de gafanhotos,  tomava  conta  daquele vasto universo, para o desespero dos pássaros, das fruteiras, dos fantasmas, do avô e da avó. A gurizada vinha da cidade, de casas apertadas, onde as ruas já tinham sido engolidas pelos carros, sujeitos ao freio de mão dos pais e professores. Na fazenda eram como  graúnas sem as tariscas da gaiola.
                        Durante o dia, os meninos se espalhavam nos vastos horizontes da fazenda: o sítio, a lagoa, a caça, a pesca.  À noite, aquietavam-se ante o cansaço e o poder hipnotizador das sombras. Talvez, por isso mesmo, detentores dos mistérios da ressurreição, o Natal nunca lhes pareceu uma data especial. Carregavam consigo já a magia do renascer . Ademais, o Papai Noel  sempre se mostrara uma figura urbana e que não gostava das pequenas chaminés impregnadas de fuligem e pucumãs. Os meninos, por isso mesmo, nunca precisaram daquele velho distante e preconceituoso, aprenderam a se virar sozinhos, teciam seus próprios brinquedos : o pião , o triângulo, a peteca, a bola de meia, o carrinho de rolimã . Não bastasse aquela existência colorida que já era uma dádiva da natureza, se autopresenteavam.
                        Naquele ano, no entanto,  aquela regra imutável foi quebrada. O menino , na inocência dos seus seis anos, acordou, no Natal, com um presente colocado abaixo da rede em que dormira no grande corredor da casa de fazenda. Uma garrafinha de uma bebida sofisticada e nobre : um Guaraná Champanhe. Sobrenadava a garrafa num mar de urina : o menino ainda tinha aquela mania feia de urinar na cama. Rápido o guri lavou-a com a água do pote e ,com ajuda do avô, abriu-a. Degustou o refrigerante, em temperatura natural , como um sommelier que apreciasse um Bordeaux de ótima safra. 
                        Desde aquele dia que o meninozinho procura  o inefável gosto daquele guaraná nos outros muitos sabores que a vida lhe tem ofertado. Sem sucesso. Talvez porque as noites tenham pouco a pouco ficado mais longas e os dias mais curtos;  as sombras  agora já não flutuam , mas se balançam nas redes; os Natais vão tomando nuances de sexta-feira santa .  E o menino, ao contemplar-se no espelho, percebe que lhe cresceu, inexplicavelmente, uma grisalha barba como a do Papai Noel e tem ficado cada vez mais ranzinza e parecido com o avô.
Crato, 19/12/13

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Nota da Assessoria de Imprensa da Diocese de Crato




   Nem o clima natalino fez recrudescer a campanha midiática – na prática um verdadeiro “estrondo publicitário" – contra a honrada figura de Dom Fernando Panico, bispo diocesano de Crato.

   “O Estado de S.Paulo”, jornal que se edita na capital paulista, publicou – na edição do último domingo, dia 15 – notícia requentada com velhas acusações, todas destituídas de fundamento. A nota do “Estadão” é atribuída ao “correspondente daquele jornal em Genebra, na Suíça”, embora o linguajar lá constante seja típico do utilizado pelos conhecidos adversários da Diocese e do Bispo de Crato, a exemplo da surrada expressão: “D.Fernando, um italiano naturalizado brasileiro(SIC).

    A nota do Estadão, em síntese, requenta aleivosias já esclarecidas e foi focada nesta frase: “O bispo da diocese de Crato, d. Fernando Panico, de 67 anos, entrou no radar do chefe da igreja em Roma depois de inquérito aberto pela Polícia Civil em sua cidade por causa de uma polêmica em torno da venda de casas da diocese e até por acusações de estelionato” (SIC).

     Nada mais falso. Em contato mantido na manhã de hoje com a Nunciatura Apostólica, em Brasília, Dom Fernando Panico recebeu a informação de que nem o Santo Padre, o Papa Francisco, nem qualquer órgão do Vaticano examinam denúncias sobre a venda de imóveis da Diocese, assunto já devidamente esclarecido à opinião pública e ao Senhor Núncio Apostólico no Brasil e à Santa Sé. Ademais, o Bispo de Crato nunca foi convocado, pelo Vaticano, para prestar informações sobre a venda dessas casas, já reincorporadas ao patrimônio da Diocese. Aguarda-se para os próximos dias o pronunciamento da Justiça sobre essa denúncia. Por oportuno, esclarecemos que nas duas vezes que esteve pessoalmente com o Papa Francisco, (ambas as audiências foram solicitadas pelo Bispo de Crato), a tônica da conversa entre os dois foi o pedido de reabilitação canônica do Padre Cícero Romão Batista, a introdução da causa de beatificação de Benigna Cardoso da Silva e assuntos pastorais desta Igreja Particular.

      A Diocese de Crato lamenta o fato de a campanha de mentiras contra esta instituição e o Bispo de Crato – que vem sendo feita há mais de dois anos por motivos escusos, – tenha encontrado guarida num órgão do porte de “O Estado de S.Paulo”. Nesta data um advogado da Assessoria Jurídica da Diocese de Crato está se deslocando à capital paulista, com o objetivo de manter contatos com a diretoria daquele jornal, buscando o direito de resposta, previsto na Lei de Imprensa, uma vez que as partes ofendidas – no caso a Diocese e a pessoa do Bispo Diocesano – não foram ouvidas antecipadamente sobre as acusações. Quando for oportunizado o direito de resposta a Diocese e o Bispo de Crato comprovarão – com farta documentação – a falsidade dessa velha, e agora requentada, acusação.

    Com a serenidade e equilíbrio que sempre caracterizaram suas ações, Dom Fernando Panico aguarda o desfecho de mais uma falsa acusação, na certeza de que ao final a verdade continuará prevalecendo.

Crato, 16 de dezembro de 2013.

Assessoria de Imprensa da Diocese

Deu no "Estadão" (15.12.13)

Papa questiona contas de bispo do Ceará

D. Fernando, de Crato, já foi convocado pelo Vaticano para dar explicações sobre acusação de irregularidades em venda de imóveis (15 de dezembro de 2013 | 2h 06 - Jamil Chade, correspondente / Genebra - O Estado de S.Paulo)

Um bispo no Brasil está na mira do papa Francisco, que vem marcando seu pontificado com a luta contra a corrupção, a reforma da Cúria e a exigência de posturas exemplares por parte dos religiosos. O bispo da diocese de Crato, d. Fernando Panico, de 67 anos, entrou no radar do chefe da Igreja em Roma depois de inquérito aberto pela Polícia Civil em sua cidade por causa de uma polêmica em torno da venda de casas da diocese e até por acusações de estelionato.
Fontes no Vaticano confirmaram ao Estado que Francisco ainda não tomou uma decisão sobre o que será feito e espera a conclusão das investigações da Justiça. Mas Jorge Bergoglio não gostou do caso. O número de acusações contra d. Fernando Panico não é pequeno. Mas, acima de tudo, fontes no Vaticano revelam que é justamente a atuação de uma diocese como negociadora de imóveis que desagradou ao papa. As investigações foram abertas depois que o bispo foi acusado de ter continuado a cobrar aluguéis das casas de prioridade da diocese, mesmo depois de elas terem sido vendidas. Outra acusação era de que a venda dos imóveis ocorreu sem que os moradores tivessem a opção de compra. O bispo acabou sendo convocado para depor.
O caso chegou até Roma e, em outubro, Panico esteve reunido em duas ocasiões com o papa no Vaticano. Oficialmente, as audiências tinham como meta debater o processo de reabilitação canônica do padre Cícero (1844-1934) e sobre o processo de beatificação de Benigna Cardoso da Silva, mártir da castidade (1928-1941).
Mas um dos temas centrais da conversa foi justamente a cobrança do papa para que Panico desse explicações sobre as denúncias de estelionato e formação de quadrilha. Um primeiro encontro ocorreu com outros participantes, no dia 9 de outubro. Cinco dias depois, o bispo voltou a ser convocado, desta vez para uma audiência a portas fechadas.

D. Fernando, um italiano naturalizado brasileiro, ordenou-se padre em 1971, em Roma. Chegou ao Brasil em 1974 e está à frente da diocese do Crato desde maio de 2001.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Não sei como esse assunto é tratado aí na cidade, mas me surpreendi com a notícia que saiu publicada no blog Diário do Centro do Mundo (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-papa-avisa-que-nao-e-marxista-investiga-um-bispo-do-ceara-e-mostra-que-e-mais-pragmatico-que-programatico/). A matéria não tem como objetivo explorar a questão da cidade, mas põe o assunto como um exemplo do perfil do Para Francisco. Na verdade a matéria deseja tirar do colo do papa as acusações feitas por setores conservadores dos EUA em razão do que disse o papa sobre o capitalismo.

O PAPA AVISA QUE NÃO É MARXISTA, INVESTIGA UM BISPO DO CEARÁ E MOSTRA QUE É MAIS PRAGMÁTICO DO PROGRAMÁTICO.


Numa entrevista ao jornal italiano “La Stampa”, o papa foi questionado acerca das críticas que recebeu dos ultraconservadores americanos. Eles se sentiram ultrajados ao ver Francisco criticar o capitalismo em sua última exortação, Evangelii Gaudium. Um líder do Tea Party afirmou que “Jesus Cristo está chorando no céu ao ver que cristãos estão adotando uma filosofia socialista que criou sofrimento e pobreza ao redor do mundo”.
O jornalista Andrea Tornielli perguntou qual era a sensação de ser chamado de “marxista”?
“A ideologia marxista está errada”, disse o papa. “Mas eu conheci muitos marxistas na minha vida que eram boas pessoas, então não me sinto ofendido”.
“A parte mais forte da exortação é quando ela se refere a uma economina que ‘mata’”, continua Tornielli.
“Não há nada na Exortação que não possa ser encontrado na doutrina social da Igreja. Eu não estava falando de um ponto de vista técnico, o que eu estava fazendo era pintar um quadro sobre o que está acontecendo. A única citação específica que usei foi aquela que menciona as teorias que presumem que o crescimento econômico, encorajado pelo livre mercado, vai inevitavelmente trazer mais justiça social e inclusão para o mundo. A promessa era de que, quando o copo ficasse cheio, ele iria transbordar e beneficiar os pobres. Mas o que acontece, ao invés disso, é que, quando o copo está cheio, ele magicamente se torna maior e nada chega aos pobres. Esta era a única referência a uma teoria específica. Eu não estava, repito, falando de um ponto de vista técnico, mas de acordo com a doutrina social da Igreja. Isso não significa que eu seja um marxista”.
Chamar Francisco de “marxista” é palhaçada paranóica. Com sua agenda e a pregação contra a desigualdade social, ele obliterou completamente seu antecessor, Bento XVI. A opção pelos pobres está declarada desde o início de seu papado. Ele anda num carro dos anos 80, recusou o Palácio Apostólico e está tentando moralizar o Banco do Vaticano. Um homem prático.
Num sermão em novembro, disse o que Jesus faria com um corrupto que rouba dos pobres. Citando São Lucas: “Seria melhor para ele se colocasse uma pedra ao pescoço e fosse atirado ao mar’. Em sua administração, já afastou o alemão Franz-Peter Tebartz-van Elst, apelidado “bispo do luxo”, de Limburgo, depois de ele gastar 35 milhões de euros na construção de sua casa (a obra incluía uma banheira de 15 mil euros).
Agora um bispo brasileiro está sendo acompanhado de perto. Dom Fernando Panico, do Crato, no Ceará, é acusado de vender casas da diocese num esquema. Responde por estelionato e formação de quadrilha.  Panico esteve com o papa em outubro, oficialmente para discutir a “reabilitação canônica” do padre Cícero e a beatificação de Benigna Cardoso da Silva. Fontes no Vaticano afirmam que o papa estaria analisando o que fazer com Panico.

Francisco é mais pragmático do que programático.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os Ucranianos Ergueram a Estátua de Lênin - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não fiquei maluco de vez. E nem uso a linguagem da novilíngua do Orwell ao se referir à ditadura de Stalin. Fisicamente os manifestantes antigoverno da Ucrânia derrubaram a estátua de Lênin. Mas vivamente, na pele, no sofrimento, no desemprego e na falta de uma saída, ou melhor, por uma tentativa de uma ampla porta de saída: os ucranianos erguem a estátua de Lênin.

Vladimir Ilich Ulianov Lênin foi, ao lado de Trotsky, Stalin e muitos outros os líderes da revolução bolchevista que mudou os rumos da Rússia Imperial. Era um momento de grave crise na Rússia: estruturas sociais em franca decadência, ambiente econômico no fosso, as despesas com a participação desastrada na primeira guerra mundial.  

o russos se rebeleram como o povo da Ucrânia hoje se rebela. A rebelião é isso mesmo: um levante. Depois é que a disputa dentro da rebelião definirá os rumos que serão tomados. O quadro em transformação não é apenas uma enxurrada em que tudo se confunde. No meio da grande confusão trilhas secas vão surgindo e por aí se caminha.

Também o caos não advém só dos fatores que revoltam. O caos transformador vem porque há uma utopia diante das pessoas que diz que não é possível permanecer, que é preciso mudar. Essa passa a ser o mapa do caminho a ser seguido. Com todos os dramas e destruições que a história tanto mostra.

Acontece que a Europa Oriental está sem rumo. A crise da Europa rica, financeira, globalizada e industrial é mais cruel no oriente. No levante o peso da desgraça é maior e as pessoas sofrem mais. Mas vêm a prosperidade do ocidente (vá lá que capengando) e para lá querem fugir já que intrafronteira nada muda.

Por isso os Europeus “bem-de-vida” não são tão solidários hoje quanto o foram com a revolução laranja na Ucrânia do passado recente. Os Europeus sabem que levas de jovens e adultos ucranianos vêm para cima de suas fronteiras em busca das já escassas oportunidades para os da casa. Os ucranianos nessa altura vão se transformando numa ameaça que os tornam cada vez mais parecidos com os africanos afogados na travessia do Mediterrâneo. Enterrando suas carcaça na ilha de Lampedusa.

Os Ucranianos derrubam a estátua de Lênin enquanto simultaneamente erguem a estátua do desespero. E hoje a Ucrânia confirmou o acordo com a Rússia. Imaginando a falta de produtos e do gás para aquecer o seu frio inverno. 


POLEIRO DE PATO
J. Flávio Vieira

                                               Existe coisa , neste mundo, mais suja que folha corrida de político ? Só poleiro de pato ou cara de guri comendo chocolate. Imaginem, vocês, isso numa cidade como Matozinho , perdida no meio das brenhas, onde a única tênue ligação com o resto do planeta se fazia pelo fio telégrafo ? Ali político casava e batizava, totalmente imune ao Tribunal de Contas e à Responsabilidade Fiscal. Ajudava na blindagem uma razão óbvia: a Prefeitura era a grande empregadora da Vila : substituía o comércio pífio e as indústrias inexistentes. Matozinho , como na Divina Comédia, tinha seu céu( os correligionários do prefeito), seu purgatório ( os indecisos)   e  o inferno ( a oposição). Havia uma só arma de grosso calibre que furava a impenetrável blindagem política : a corrosiva língua do povaréu. Aquela sempre se consumara como a defesa única dos oprimidos e espoliados: a fofoca, a intriga, o disse-me-disse, o penicado eterno de oratórios. A maior parte das vezes, claro, as histórias eram verídicas , os escândalos reais, apenas acrescidos de um pouco de Fermento Royal nas praças e nas rodinhas de esquina. Em caso, no entanto, do jornalismo não ajudar, a ficção sacava-se  prontamente como recurso necessário e imprescindível e a cada conto se ia, claro, acrescentando um ponto, até que toda a trama estivesse urdida.  As fofocas eram sempre sussurradas  nos becos e bancos: Andaram me contando... Dizem as más línguas... Vendo o peixe pelo preço que comprei... Esta história tem que ficar aqui, é segredo , se disserem que eu disse eu nego mais que Pedro na Santa Ceia...Quem lá tinha coragem de enfrentar de peito a máquina forrageira da prefeitura ?
                                   As regras , no entanto, mudaram naquele dia em Matozinho, devido , se acha, a alguns fatores depois devidamente arrolados. Jojó Fubuia assistira no Rádio Cliper velho do Bar de Godô ao destempero  de um tal de Joaquim Barbosa que saíra , como um soldado de volante , na captura  dos cangaceiros do Mensalão. O homem cuspia fogo pelas narinas como dragão e aquilo impressionou Jojó que sempre teve nariz meio virado para direiteza demais, honestidade excessiva. O certo é que,  depois de umas meropéias, saiu ataiando frango do bar e investiu-se, imediatamente, de virulência judicial , de  super-poderes barbosianos. Na calçada,  já debulhou, com alarido,  todo o feijão com casca do prefeito Sinderval Bandeira:
                                   --- Sinderval, ladrão de galinha ! Devolve o dinheiro do povo que tu anda tomando emprestado, seu miserável ! Pensa que o cofre da prefeitura é teu bolso, é ? Vai pastorar tua mulher , pra ver se diminui teus chifres, seu infeliz ! Tu é como galo, desgraçado, tem chifre até nos pés !
                                   Enquanto, perigosamente, sem nenhum cuidado,  atirava no ventilador o que o povo de Matozinho comentava por debaixo dos panos, Jojó foi cambaleando em procura da Praça da Matriz. Sinderval, àquelas horas, já estava usufruindo aquele sono mais profundo do que o dos justos: o sono dos impunes. Num dos bancos da praça, no entanto, estava esparramado , com alguns amigos, o velho Pedro Cangati, um dos mais antigos chefes políticos da vila, agora na oposição, após a ascensão de Sinderval. O passado de Cangati não tinha sido menos devassado pelo povo que o do atual prefeito. Diziam-no larápio convicto, respondera processo por estupro de uma adolescente que emprenhara dele e, comentava-se , com cuidados mais que redobrados :  depois de velho começara a vazar corrente e deu para andar com rapazinhos  a quem presenteava  com tênis e bicicletas.
                                   O certo é que Jojó, no meio da sua imprecação contra Sinderval, topou num indigesto vis-à-vis com o ex-prefeito Cangati, aboletado no seu banco. Pedro preparou-se para a reação pronta e imediata, caqueando o vazio, em busca da jardineira de doze polegadas. Fubuia fitou-o com aqueles olhos de bêbado --melosos a meio pau-- ,  e, não perdeu a pose. Arrancou, embasado nos argumentos do Domínio do Fato e da Presunção de Inocência, os únicos elogiosos possíveis de se fazer a um político no Brasil:
                                   --- Sinderval, seu safado ! Você devia era se espelhar no exemplo do grande  Pedro Cangati ! Ele pelo menos é um ladrão honesto, um baiotola macho, um estuprador donzelo !

Crato, 13/12/13

"Gratificação" - José Nilton Mariano Saraiva

Todo mundo sabe que o atual prefeito de Fortaleza não passa de um fantoche da família Ferreira Gomes. Que ganhou a eleição em razão do jogo bruto e pesado do atual Governador do Estado, Cid Gomes, que gastou uma fortuna para viabilizá-lo no cargo. Então, agora tá tudo dominado, capital e interior.

Claro que isso teria que ter um preço mais à frente. E está sendo pago desde o dia em que o “afilhado” assumiu o trono da capital cearense. Agora mesmo, por exemplo, tomamos conhecimento que nesses onze meses de gestão os cargos comissionados da prefeitura de Fortaleza saltaram de 3.618 para 4.600; e que nesse mesmo período houve um aumento de 49 para 669 (ou 1.365%) do quantitativo daqueles que recebem da prefeitura gratificação extra mensal de até R$ 5.000,00 (atentem bem para o detalhe: R$ 5.000,00 é só a “GRATIFICAÇÃO” de cada um dos servidores municipais).

Enquanto isso, nesse mesmo período a taxa de homicídios em Fortaleza experimentou um avassalador crescimento geométrico, o povo pobre pena nas portas dos hospitais sem ter quem lhe dê guarida, enquanto os professores da rede municipal vivem em permanente estado de penúria e sofreguidão.

A pergunta é: em termos de "custo-benefício", esses R$ 5.000,00 de gratificação pagos a um exército de servidores que nada fazem, não seriam melhor empregados se direcionados a uma das carentes áreas acima citadas.  
  



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

"Fator de Verticalização" - José Nilton Mariano Saraiva

A novidade em Fortaleza é que a Prefeitura já anunciou: a partir de janeiro/14 a planta do valor venal do imóvel será reajustada com índices variando entre 17,5% e 35,0%, dependendo da localização, tamanho e por aí vai. Feito o reajuste, aplicar-se-ão índices (de 0,6%, 0,8% e 1,5%) a fim de se calcular o valor do IPTU a ser pago pelo contribuinte. 

Só que, como 2014 será um ano eleitoral, pra reforçar o “caixa” da prefeitura (e por tabela, o do Governo Estadual, seu aliado), os gênios do mal sacaram da cartola um tal “fator de verticalização” que tá dando o maior rebu e certamente irá provocar muitas demandas judiciais.

É que os técnicos do município já decretaram, compulsoriamente, partindo do pressuposto de que quem gosta de “trepar” (morar em andares superiores de um edifício qualquer) deve tem um maior poder aquisitivo, por via de conseqüência terá que ter seu IPTU bi-tributado, dependendo da altura (andar) em que mora.

Assim, progressivamente, a partir do segundo andar, a taxa de 35,0% será reforçada com mais 1.0%, por andar. Por exemplo: como moramos no 22º andar, vamos ter que pagar os 35,0% normais (aplicado sobre o valor do imóvel) + 21,0% referente ao “fator de verticalização”, totalizando 56,0%. Isso é ou não é bi-tributação ???

A coisa promete “feder” muito, só que os vereadores (“cordeirinhos”) aliados do prefeito e que lhe dão sustentação na Câmara Municipal, tendem a aprovar a proposta da prefeitura, independentemente na grita generalizada da população (em São Paulo, onde não existe o tal “fator de verticalização”, o simples reajuste do IPTU em 35.0% foi obstado pela Justiça).


Apelar pra quem ??? Pro pop-star papa “Chico” ???

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"MANDELA" - José Nilton Mariano Saraiva

Como os homens nascem livres e teoricamente iguais entre si, provavelmente não existirá castigo maior que repentinamente se vê privado do seu direito de ir e vir, da sua liberdade. Principalmente se tal pena advier ou lhe for imposta em razão exatamente da defesa intransigente de tal princípio: ter direito a ser tratado em igualdade de condições com o seu semelhante, sem qualquer espécie de distinção.
  
Pois foi justamente por sua tenaz luta em acabar com essa excrescência chamada “apartheid” (segregação das populações negra e branca) que o negro africano Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua, numa África onde então vigia exatamente o mais tenebroso dos preconceitos: a distinção de raças (viajar num mesmo ônibus não podiam, freqüentar os mesmos locais, algo impensável). Chegou, inclusive, a ser rotulado de “terrorista”, por professar sua crença de que pretos e brancos eram iguais e, pois, mereceriam o mesmo tratamento das autoridades constituídas.

Pois bem, depois de longos 27 anos atrás das grades (acusado de traição, sabotagem e conspiração contra o governo), durante os quais, do lado de fora, os ânimos chegaram ao clímax da insatisfação e da violência generalizada, eis que a pressão internacional sobre o governo africano redundou na liberação daquele que houvera lutado pelo anseio de toda uma nação: igualdade.

Em situações análogas, normalmente os que perderam parte da vida entre quatro paredes (sem nenhuma razão lógica), voltam dispostos a cobrar com juros e correção pelo injusto castigo sofrido, via exacerbação da luta contra os responsáveis pelo ato vil. E para isso, basta valer-se do carisma e da influência para insuflar as massas, pregar a desforra, exigir retratação, humilhar quem o houvera humilhado e por aí vai.

E foi justamente aí que Nelson Mandela se afirmou perante todo o mundo, ao mostrar sua face generosa, sua humildade, seu lado humano, sua porção estadista, ao pregar a conciliação, o diálogo, à convivência pacífica entre negros e brancos, objetivando uma causa maior: o bem estar e o progresso da nação.

Assim, liberto, reverenciado e idolatrado pelos conterrâneos, foi eleito Presidente da República da sua querida África e, após quatro anos no poder, embora tivesse uma tranqüila reeleição garantida, recusou-se a permanecer no cargo, numa mostra de que seu “projeto nação” era superior ao “projeto pessoal”. Sua contribuição houvera sido dada e um outro tocaria o barco dali pra frente.

Por decisão manifesta ainda em vida, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz (1993), o advogado e líder rebelde Nelson Rolihlahla Mandela, por se considerar apenas “mais um” na população, será sepultado não num panteão de “heróis”, não num cemitério reservado às “autoridades”, não num recanto paradisíaco qualquer, mas, sim, na humilde aldeia onde nasceu – vila ascestral de Qunu, em uma propriedade de sua família, no interior da sua querida África.


Querem exemplo maior de simplicidade, dignidade, desapego e humildade ???