TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sábado, 12 de dezembro de 2015

É POUCO, MUITO POUCO - José Nilton Mariano Saraiva


Até que enfim o Procurador Geral da República Rodrigo Janot se manifestou.




Falta, porém, o mais importante: colocar Eduardo Cunha atrás das grades.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

"PALHAÇOS-ENGRAVATADOS" - José Nilton Mariano Saraiva

Porque comprovadamente foram cooptados por uma “merreca”, subtraída do vultoso e ilegal valor que o meliante Eduardo Cunha recebeu de “propina” dos bandidos que assaltaram a Petrobras, os “palhaços-engravatados” que o apoiam (dizem ser quase duas centenas), não têm o mínimo de pudor e escrúpulo em protagonizar a chanchada deprimente que atualmente levam a cabo no plenário da casa, bem como no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, da Câmara dos Deputados.

Assim, obedecendo cega e bovinamente ordens do “chefe” (Eduardo Cunha), transformaram os respectivos ambientes em um picadeiro de circo mambembe de periferia, onde reina a palhaçada de quinta categoria e, por consequência, o desrespeito aos mínimos princípios da moralidade, da ética e da seriedade, que ali deveriam se fazer presentes. Daí, a procrastinação ad eternum do andamento do processo de cassação do mandato de Eduardo Cunha, por falta de decoro parlamentar (roubou, mentiu e sonegou), já por seis vezes levado a plenário.

O escárnio é tamanho, que o país literalmente encontra-se parado simplesmente porque o bandido Eduardo Cunha resolveu “peitar” a corte maior do país (Supremo Tribunal Federal) por ter esta cometido a suprema “ousadia” de barrar o rito processual que ele houvera imposto de forma aleatória, imperial e absoluta, na tentativa de (junto com sua quadrilha) viabilizar o impeachment da Presidente Dilma Rousseff; assim, o legislativo federal somente reunir-se-á para decidir sobre qualquer coisa (e a pauta é extensa) após o STF determinar como deverá se processar a querela, daqui a uma semana. Até lá, os “palhaços-engravatados” estarão livres para transgredir e conspirar.

O mais estranho nisso tudo, contudo, é que, apesar das muitas e contundentes provas em seu poder (documentais, telefônicas e verbais) de repente a “agilidade” do Procurador Geral da República Rodrigo Janot, esvaiu-se; a “coragem” do juiz Sérgio Moro, escafedeu-se: a “determinação” do ministro Teori Zavaschi desapareceu, porquanto assistem passivamente ao festival de arbitrariedades perpetradas por um reconhecido e audacioso bandido de alta periculosidade (teria havido até ameaça de morte).

Estariam tais sumidades receosas de que contra elas Eduardo Cunha acionasse alguma resquício-comprometedor da sua “pauta-bomba” ??? Teriam rabo-preso ??? Ou simplesmente torcem para que ele toque fogo no país de vez, acabando com a normalidade democrática tão duramente conquistada faz tão pouco tempo ???

Por qual razão o Poder Judiciário não se manifesta, determinando a César o que é de César ???

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O "EXTERMINADOR"

Relator que contrariou Cunha diz que foi ameaçado e teve medo de morrer

ameaca
Do Valor, agora há pouco, sobre o país do faroeste legislativo:
“Eu cheguei a pensar que eu poderia morrer, sim”.
Assim o deputado Fausto Pinato (PRB­SP), em seu primeiro mandato, resume as pressões que passou a sofrer desde que foi escolhido como relator do processo de cassação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB­RJ), no Conselho de Ética da Casa.
Nesta quarta­feira, quando o parecer de Pinato pela abertura do processo iria ser votado no conselho, Cunha fez uma manobra junto à mesa diretora para destituir o deputado do cargo. Pinato afirmou que sofreu ameaças de morte e registrou um boletim de ocorrência confidencial junto à Secretaria de Segurança de São Paulo.
Diz que também fez uma representação ao Ministério da Justiça. Segundo ele, sua família estava usando um carro blindado e um policial militar passou a dormir em sua casa para fazer sua proteção.
“Fui abordado em aeroporto, o meu motorista foi abordado, recebi alguns recados em aeroporto de pessoas desconhecidas. Sofri todo tipo de pressão que você pode imaginar”, disse em entrevista à imprensa. E detalhou: “Falaram para pensar na minha família, que eu tinha filho pequeno, filha pequena, irmão pequeno”. Segundo ele, foi por causa das ameaças que o deputado resolveu apresentar antes do prazo seu parecer a favor da admissibilidade do processo contra Cunha. “Eu protocolei, sim, antes, porque eu fiquei com medo de morrer”, afirmou.
Ele declarou, contudo, que não tem como dizer de onde partiram as ameaças. Pinato disse ainda que os aliados de Cunha na Câmara, sem citar nomes, também lhe pressionaram, sugerindo “aconselhamentos” em favor do arquivamento. “Recebo recados dia e noite de que estaria brigando com um exército de 200 e tantos deputados”, contou.
A conclusão de Pinatto: “o único relator que consegue sobreviver hoje no Conselho de Ética é um relator que arquive o processo”
Viva a “normalidade institucional”, não é , Dr. Temer? Não é, Dr. Janot?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A GRANDE VAIA - Demóstenes Gonçalves Lima Ribeiro (*)


Algum tempo depois do golpe militar, Castelo Branco visitou aquela cidade. Na época não havia hotel adequado e ele se hospedou na casa do promotor, a melhor do lugar. O ambiente era festivo, aos vencedores dava-se tudo e tudo se solucionava.

Assim, não mais faltaria água e, entre as homenagens ao marechal, um moderno serviço de abastecimento seria inaugurado. O prefeito não sabia mais o que fazer para agradar à nova ordem. Uma solenidade cívica e grande concentração popular marcariam o apreço do povo pelos salvadores da pátria. Os estudantes perfilados agitavam bandeirinhas, os sinos badalavam, o tiro-de-guerra desfilava, a banda de música tocava e no palanque se comprimiam as autoridades civis, militares e eclesiásticas.

Sim, vivíamos outro Brasil e com os novos tempos, repetiam os oradores, nunca mais faltaria água. E no discurso final, quando o prefeito dissesse que “graças à revolução, esse líquido precioso e cristalino não mais faltará nas pias, nos banheiros e em todos os lares,” Artuliano abriria uma grande torneira no palanque e a água jorraria aos borbotões, coroando a festa. Ele, sarará cabeçudo e grandalhão, segurança e faz-tudo do prefeito, estava ensaiado e confiante.

Mas, quando os alto-falantes ecoaram “esse líquido precioso...”, os fogos espocaram e a banda tocou mais forte, a água não apareceu. O prefeito disse, sussurrando, Artuliano, abre a torneira, e, nada! Mais uma vez, a voz trêmula, e não veio a água. Então, pálido e suando em bicas, sob o olhar feroz do ditador, ele gritou desesperado, Artuliano, filho da puta, abre a torneira, satanás! Aí explodiu a vaia imensa e desmoronou a farsa.

Ninguém contava com aquilo e da torneira, completamente aberta, não saiu uma só gota. A vaia foi num crescendo e mil pedras foram atiradas. Algumas feriram o bispo e por pouco não atingiram o marechal. As freiras choravam e os seminaristas não sabiam o que fazer. O juiz sumiu. Ouviu-se abaixo a ditadura, começou a pancadaria e o corre-corre, a polícia e os agentes secretos dispersaram a multidão.

Bateram em pessoas humildes e prenderam os comunistas de sempre, mas não identificaram os culpados. No dia seguinte acharam pedras e cimento fechando a tubulação. Ao encerrar o inquérito, concluíram que, apesar do vexame, tudo não passou de um mal-entendido da política local, fruto de antiga rixa entre coronéis do interior fiéis aos militares.

Na verdade, um grupo de estudantes fez a ação na tarde anterior e à noite tomou o ônibus. Só depois de chegar ao Recife, eles souberam do desfecho e comemoraram a operação, às gargalhadas.

Lindas férias de julho – cerveja, festa, namoro e a ditadura humilhada por uma grande vaia. Eram todos adolescentes sonhadores e ingenuamente não imaginavam a longa noite de terror que aos poucos se anunciava.



(*) Médico-Cardiologista, natural de Missão Velha e atualmente morando e exercendo o ofício em Fortaleza.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

UM OLHAR DIVERGENTE

Nas ruas. Posso ser encontrado além desta tela pelas ruas do Rio. Assim como a Senhor dos Passos. E não passo direto. Vou ao Cedro do Líbano, dizem uma das melhores cozinhas árabes do Rio e, no entanto, pertence a espanhóis há mais de quarenta anos.

Enquanto mastigo com olhares circunvagando pela casa, um olho me fixa. E desvio o meu para não encarar alguém que não conheço. Mas o olho se encontra fixo e, no entanto, ele conversa e come com toda atenção à mesa em que se encontra.

Um olho fixo tem muitos efeitos. Parece acusador e todos os nossos erros, pecados e desvios se tornam réus. Tem imensa força espionaria, querendo desvendar nossas vestes, a idade, os cabelos que não mais se repõem, as rugas que dobram o tempo. Como os promotores da Lava Jato ou o Japonês da Federal, nos vendendo para a manchete que renderá glórias ao repórter e dividendos aos sócios da empresa.

Aquele olho fixo, de estrabismo divergente tinha um ponto em mim e outro no prato. Um ponto no sabor e outro num carro perfurado de balas. Cinco jovens comemorando o primeiro emprego de um deles, metralhados porque é para isso que servem as armas. Destruir vidas.

Jovens favelados. Que não terão a cobertura da mídia tal qual o médico esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Que não terão justiça porque as metralhadoras continuam soltas apenas num lado da cidade. Lá onde podem disparar sem culpas e punições. Onde o olho fixo da Lei não os atinge e por certo um Pezão cobrirá os rastros da maldade.

E no ônibus um longo papo do passageiro com alguém que muito estica ou se deixa esticar na narrativa que se expõe a quem se encontra na proximidade. Após recomendações para vencer na faculdade e escolher os melhores caminhos da Engenharia, desde a Mecânica, sempre necessária, apesar da economia até ser especialista em cálculos para achar petróleo em águas submarinhas.

E foi aí que, de olhar fixo na outra direção, enquanto ouvia a conversa, surgiu a favela e um jovem médico da equipe de Saúde da Família numa “comunidade” da região, ali por perto onde o ônibus se emperrava no engarrafamento. O jovem médico que adorava o que fazia e ficava além do seu tempo para atender às pessoas e saberem como elas vivem.

“Sabe, ele é meio maluco. Meio doido. Está até pensando em alugar uma casa na comunidade para viver integralmente a realidade da favela. Até se candidatou a ir morar no Amazonas. Lá para bem longe. ”


E o olhar divergente da nossa imensa e desigual humanidade brasileira.  

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Balada para uma abalada Paris



Paris é uma festa (Scott Fitzgerald dixit). E bela, muito bela. Contudo, o que mais me impressionou,  maravilhando-me,  foi à "meia-noite em Paris" poder andar sem medo pelas ruas ao lado de velhos, jovens e crianças; comprar um vinho em uma quitanda com suas prateleiras inclinadas expostas nas calçadas, repletas de frutas e verduras reluzentes; conhecer um simpático migrante muçulmano em um típico restaurante turco. Tudo em plena madrugada.

Paris nem precisaria de Champs-Élysées, da Torre Eiffel, do Arco do Triunfo, do Louvre, de Notre-Dame. Bastaria suas ruas tranquilas com suas quitandas e seus cafés, o Sena e Montmartre. Bastaria que sob a Cidade da Luz jamais caísse treva alguma, e não corresse sangue pelas suas charmosas calçadas e suas ruas calçadas de pedra.

Fiquei triste e abalado com mais esse atentado em Paris. No momento, lembrei, imediatamente, uma canção que compus recentemente. A letra é um poema de Geraldo Urano, que consta do seu livro Vaga-Lumes. No original, Geraldo não fala em Paris, apesar de Paris ser recorrente em sua poética. Ele cita Detroit. Mas intuitivamente troquei Detroit por Paris. A canção agora é, para mim, emblemática. Por isso acrescentei um subtítulo - Balada para uma abalada Paris. Um trocadilho bobo. Um clichê. Um pastiche. Mas é, para o momento, por demais sintomático, e, pelo menos agora, necessário.

Precisamos, pois, cantar a paz. O mundo não precisa mais de Vietnãs, dos mil Vietnãs pretendidos por Che, mas de mil Ilhas de Wight, mil Nashvilles, mil Monterreys Pop, mil Woodstocks.

A LETRA

Me procure em seu coração
Este é o endereço mais próximo
Onde você pode me encontrar

Na sua cidade eu apenas nasci
E o mundo tem muitas cidades
Como o céu tem muitas estrelas

E como o vento estou sempre em movimento
Posso estar agora no planalto central
E logo mais em Paris

Por isso me procure em seu coração
Onde você pode me encontrar


A CANÇÃO

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Quando um grupo de jovens, aparentemente do Rio e São Paulo, usam a rede social para exprimir preconceito racial algumas dúvidas se apresentam. Primeiro onde este pessoal incorporou  um atraso deste, quando tudo no país avançou em termos de direitos sociais e respeito cidadão. 

Os pais teriam alguma razão, aquele discurso preconceituoso contra o ex-presidente Lula, o Bolsa Família, o nordestino parasita e outros venenos mais. Estou falando do grupo de jovens que com perfil fake manifestaram preconceito contra a atriz Taís Araújo.

Então pela coincidência de nomes surgiu esta montagem:


terça-feira, 3 de novembro de 2015

LEMBRANDO DO CRATO - Demóstenes Gonçalves Lima Ribeiro (*)


Solenemente, o velho sentou no banco da praça, fechou os olhos e reviveu a época breve em que morou no Crato. Naquele tempo, aos quatorze anos, he’s leaving home. O primeiro a deixar o ninho, ele jamais esqueceria o choro da mãe e a esperança do pai e teria uma vida inteira a disfarçar certa tristeza e solidão.

Aliás, era um domingo, havia muita gente na Siqueira Campos ou tomando sorvete no Bantim. O Cine Moderno exibia “A Noviça Rebelde,” mas ele preferiu o Cassino e “O Professor Aloprado” – nessa noite, Jerry Lewis seria melhor pro coração.

Quando voltou à pensão, as horas passaram devagar, lágrimas no travesseiro e o tic-tac na parede madrugada afora. De manhã, o Diocesano. Haveria que ser forte e organizado nessa luta desigual. E nos fins-de-semana, de ônibus ou de trem, ia e voltava de casa. No jogo de botão, Fechine, saudoso amigo, sempre ganhava, mas ele reforçaria o time, treinaria mais e da próxima vez venceria o campeonato.

O choro da mãe e a certeza do pai... O trem chegando, a cidade quase deserta, o silêncio da noite, o medo invadindo tudo e ele andando rápido: Praça da Estação, Rua da Vala, João Pessoa, Miguel Limaverde, entrava na pensão e adormecia amando loucamente a namoradinha de um amigo seu. Amanhã, aulas de novo, a vida seguindo o próprio rumo, the long and winding road se fazendo devagar. Recife era uma miragem e precisava estudar cada vez mais.

Nem telefone, nem TV, nem internet, mas a pensão era uma festa. A Araripe e a Educadora tocavam Jovem Guarda, “Aline” e “Os Verdes Campos do Meu Lar.” No final da tarde, uma volta na livraria. Pelos jornais do Rio, dois dias atrasados, Lacerda, Jango e Juscelino iriam formar a “Frente Ampla” e derrubar a ditadura. Outras tardes, na Escola Triunfo, aulas de datilografia com a Dona Soledade. A mãe achava importante, o Banco do Brasil era uma opção e ele guardou o diploma, não se sabia o que futuro iria aprontar.

E, sem nenhum rancor, lembrou-se da adolescente do Santa Teresa que acintosamente o ignorava. Ele era desajeitado e feio, até lhe faltava um incisivo, mas por que a humilhação? Onde estavam os pais e a Madre Feitosa que não deram educação a essa menina? Deixou pra lá... Aproximava-se a festa da padroeira e as suas colegas aparentemente o respeitavam. Houve um ensaio de jogral na Praça da Sé e elas cantaram “A Banda.” Pela primeira vez ele ouviu falar em Chico Buarque e tornou-se mais um admirador fanático desse gênio brasileiro incomparável.

E aí, veio a Miss Ceará, exuberante, desfilando de maiô no Tênis Clube, sob a música envolvente do Hildegardo. Ela sorriu, sentou no seu colo e sussurrou que o chalé do Granjeiro já estava acertado. Mas, um maldito “paredão de som” logo lhe acordou, disparando Ivete Sangalo. Alucinado, se deu conta de que estava só, saltou do banco, abriu os braços e explodiu furioso num gritou revoltado: só no Crato.


(*) Demóstenes Gonçalves Lima Ribeiro (médico cardiologista, natural de Missão Velha, e apaixonado pelo Crato, atualmente reside e exerce o ofício em Fortaleza)