TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sábado, 12 de setembro de 2020

GLORINHA - DR. DEMÓSTENES RIBEIRO (*)

 Glorinha – Dr. Demóstenes Ribeiro (*)

Sim, eu também tive um tempo feliz. Foi quando era menina sapeca na fazenda são Francisco, querida pela madrinha Sinhá e pelo coronel Assis de Almeida, mas o tempo destruiu tudo.

Pouco a pouco Seu Assisinho esquecia do mundo, e a família se mudou para a cidade. Já mocinha, eu fui junto. Estudaria para professora e cuidaria do coronel. Ele, cada vez pior. Vivia nos médicos, muitos remédios, e não tinha melhora. A noite era um inferno: não dormia e ficava cada vez mais agitado.

Havia um sofá ao lado da sua cama e decidiram que eu dormiria lá. Seu Assisinho se acalmava um pouco quando eu fechava a porta, sentava ao seu lado e alisava os seus cabelos brancos. Tempos depois, era a sua mão passando pelo meu rosto, descendo pelos meus seios, e a casa adormecia.

A todos surpreendia essa melhora. Agora, os remédios estavam certos, as noites eram de paz, e o velho cada vez mais assanhado comigo. Abria a minha blusa, soltava o meu sutiã, sugava o meu seio e caia em sono profundo como um neném amamentado. Prá mim pouco importava aquela boca desdentada, se isso era o preço por uma noite de paz.

Mas, num Natal, Josefina, a filha solteirona e histérica, de repente abriu a porta do quarto, acendeu as luzes e nos surpreendeu no ritual. Foi um escândalo: Glorinha, sua vagabunda, puta de idosos, vai ver onde você vai morar!

O jipe parou no cabaré de “Peituda”, eu chorava, eu a minha mala jogadas na calçada. “Peituda” abriu a porta e acostumada com aquela situação, tentava me consolar: “minha filha, vá dormir, não fique assim, “Peludinha” vai lhe trazer um chá...” No dia seguinte, Seu Assisinho morreu – como é triste esse tempo de Natal.

Quando o dia nasceu e lhe contei a minha história, “Peituda” prometeu me ajudar. Logo eu acharia um marido, seria professora e, se ficasse loura, tudo seria mais fácil. Ela oxigenou os meus cabelos e mudou o penteado.

Dias depois, um viúvo veio me conhecer. Um homem gordo e suado, de chinela japonesa e pedalando uma bicicleta apareceu por lá. “Coquinha” era barbeiro, se apaixonou mim e me levou prá sua casa. Ele queria exclusividade, mas pelo meu sonho de professora, não se importava que eu desse aula pra alguns meninos interessados enquanto ele trabalhava.

Pois bem, durante muitos anos, no final da tarde, cinco ou seis mocinhos esperavam pacientemente em frente à casa a aula individual. Ao escurecer, já com a turma debandada, “Coquinha” chegava bem cansado. “Loura” – ele falava – com as suas aulas e a barbearia, qualquer dia a gente tem geladeira e fogão a gás.

De saia justa e batom vermelho, loura e de salto alto, quando eu saía pela cidade os homens enlouqueciam e me comiam com o olhar. Até que um dia, o meu barbeiro não acordou e o mundo acabou prá mim. De novo, estava sozinha, não era mais a “loura do Coquinha”, chorei muito, não tinha amigas e fiquei desesperada. “Peituda” tinha se amigado com um sargento em Pernambuco e “Peludinha”, com um fazendeiro em Goiás.

Aos poucos refiz as forças, dei aula extra e juntei uns trocados. Fiz empréstimo e mudei de cidade. Voltei a ser Glorinha. Hoje sou uma empresária da alegria nessa terra de beatos. Várias meninas moram comigo, elas se dão bem e pela minha boate já passaram todos os figurões da sociedade.

Às vezes, eu fico triste e lembro “Cinzas de Amor”, cantada por “Chico de Zé Namorado”, e ontem Seu Assisinho me apareceu em sonho. O sem-vergonha andava doido por uma mamada.

Mas, hoje é a festa do município e não há lugar para saudade. Vou receber gatinhas de Recife, Salgueiro, Campina Grande e de outras cidades mais. Vai ter “baile de debutantes” e um vereador fará um discurso como no tempo chique do soçaite.

Apostei num futuro de sucesso, sou influente, todos gostam de mim e tenho certeza que quando o “Coquinha” voltar prá me levar, Glorinha ainda vai ser nome de rua nessa cidade.

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(*) Dr. Demóstenes Ribeiro é médico-cardiologista, natural de Missão Velha, residente e atuante profissionalmente em Fortaleza-CE 



quinta-feira, 10 de setembro de 2020

UM "NEGÓCIO DA CHINA" - José Nilton Mariano Saraiva

Entorpecida por alguma promessa ou vantagem não detectável pelos mortais comuns (ou até mesmo por visceral desonestidade), a mídia tupiniquim deu quase nenhum espaço para um dos grandes escândalos da atualidade.

Referimo-nos à operação pactuada entre o Banco do Brasil e o Banco BTG PACTUAL, onde aquela estatal governamental cedeu por R$ 300.000.000,00 (trezentos milhões de reais) àquele representante privado, sem nenhuma transparência, toda uma carteira de créditos de (teoricamente) difícil recuperação, orçados em R$ 3.000.000.000.,00 (três bilhões de reais). Em português claro e cristalino: para se apropriar de vez daqueles títulos o BTG PACTUAL pagou ao Banco do Brasil o correspondente a dez por cento (10,0%) do seu valor de face.

Para os que desconhecem, o BTG Pactual foi fundado por Paulo Guedes e corriola e, muito provavelmente, nos dias atuais um seu “laranja” deve fazer parte do controle acionário do mesmo.

Aliás, o que não falta do BCG PACTUAL são “cobras criadas” que não dão murro em ponta de faca, já que verdadeiros "abutres" do sistema financeiro, porquanto acostumados a extorquir e se aproveitar de situação análogas e, claro, não meteriam a mão em cumbuca suspeita.

Como a “folha-corrida” do senhor Paulo Guedes não é das mais recomendáveis no mercado financeiro (há fortes suspeitas de ter metido a mão em alguns fundos de pensão das estatais, quando prestou assessoria a alguns deles, anos atrás), não seria de se estranhar que, na condição de Ministro da Fazenda, (ao qual o Banco do Brasil é subordinado) tenha oportunisticamente “vazado” para os sócios do PTG PONTUAL o “negócio da China” que seria a aquisição dos referidos títulos, a preço de banana (evidentemente que deve ter recebido uma boa comissão por isso).

Estranhável é que os “experts” em finanças, que pululam nos periódicos tupiniquins, não hajam se dado ao trabalho de uma simples análise do “porquê” de tal transação, já que de valor superlativo e claramente danosa aos cofres públicos. 

 


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O "MENSAGEIRO DO CAOS" - José Nilton Mariano Saraiva

Se no começo dessa “longa noite de terror” que a humanidade atravessa por conta da tal “pandemia” tivéssemos, aqui no Brasil, alguém com responsabilidade, competência, respeitabilidade e discernimento no comando da nação, certamente que medidas sanitárias preventivas e urgentes teriam sido adotadas visando pelo menos minimizar o caos que se prenunciava e que atualmente experimentamos.

Afinal, em pleno mundo globalizado, impossível que num átimo de segundo não se saiba o que acontece do outro lado do planeta e, consequentemente, se possa prevenir da sua iminente chegada por essas bandas.

E, no entanto, nos seus primórdios, o “traste” que está presidente da nação, ao se referir ao coronavírus (que àquela altura já migrara da China em voos de primeira classe e invadira toda a Europa, provocando um estrago monumental e letal face à agressividade), irresponsavelmente rotulou-o de “resfriadinho” e “gripezinha”, ao tempo que estimulava a população a não obedecer às determinações da Organização Mundial de Saúde e cientistas de todo o mundo, no sentido de adotarem o isolamento social, permanecerem em casa, evitarem aglomerações, objetivando pelo menos amenizar seus efeitos.

E então, para mostrar não temer o que já estava às portas, para dar a impressão de coragem e destemor, para parecer ser o dono da verdade, o irresponsável convocava e reunia-se com simpatizantes, participava de reuniões, abraçava e beijava pessoas (inclusive crianças) para, ao final, na condição de “mensageiro do caos”, apelar para a população sair às ruas, gozar a vida normalmente, não ligar para os pseudos exageros insistentemente veiculados pela mídia, porquanto mais importante que a própria vida era a economia do país (já em braba recessão) não estagnar de vez (afinal, afirmava a plenos pulmões, todos nós, inevitavelmente algum dia pereceremos).

E como os milhares de “bovinos” que a ele obedecem cegamente fizerem exatamente o que lhes foi pedido (saíram às ruas, confraternizaram, farrearam e, enfim, atenderam de bom grado à criminosa convocação do “traste”) temos aí 126.000 mortos e 4.100.000 casos registrados até aqui, com tendência de se chegar a cerca de 250.000 óbitos até o final do ano e o dobro dos casos registrados (otimisticamente).

E, no entanto, em recente pesquisa de um desses institutos que pesquisam de tudo, ao responderem se o presidente tinha algum culpa pelo atual quadro, irresponsavelmente a maioria o eximiu, numa prova inconteste de “memória curta”, descompromisso com a nação ou mesmo alheamento ante a morte sofrida de tantos irmãos.

Assim, como pessoas de bem e preocupadas com o destino dessa nação, não podemos olvidar que a absorção pela massa ignara das recomendações do MENSAGEIRO DO CAOS foram determinantes, sim (e como), para que chegássemos a uma situação tão dolorosa e sofrida. 

sábado, 5 de setembro de 2020

DESIDERATA (Max Ehrmann)

Siga tranquilamente o seu caminho, entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que HÁ SEMPRE PAZ NO SILÊNCIO.

Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha-se em bons termos com todas as pessoas que o cercam. 

Fale a sua verdade, mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm a sua história para contar. 

EVITE AS PESSOAS AGRESSIVAS, AGITADAS E QUE FALAM ALTO; ELAS AFLIGEM O ESPÍRITO. 

Se você se comparar com os outros, acabará se tornando presunçoso ou magoado, pois sempre encontrará alguém superior ou inferior a você. 

Desfrute as suas realizações, bem como os seus sonhos e mantenha-se interessado em sua carreira, por mais humilde que seja, pois ela é um ganho real, na sorte mutante dos tempos. 

Tenha cautela nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não se torne cético, porque a virtude existirá sempre. Muita gente luta por altos ideais e por toda parte a vida está cheia de heroísmos. 

Seja você mesmo, sobretudo não simule afeição nem seja descrente no amor, porque, mesmo diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão eterno quanto a relva. 

ACEITE SERENAMENTE OS ENSINAMENTOS DO PASSAR DOS ANOS, RENUNCIANDO AOS HÁBITOS PRÓPRIOS DA JUVENTUDE.

Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários: O MEDO NASCE DO CANSAÇO E DA SOLIDÃO. 

A despeito de sua disciplina rigorosa, seja gentil consigo mesmo; afinal, você é filho do universo, irmão das estrelas e das árvores e tem o direito de estar aqui. E, quer se aperceba disso ou não, não tenha dúvida que o Universo segue na direção certa. 

Portanto, ESTEJA EM PAZ COM DEUS, COMO VOCÊ O CONCEBA e, quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com sua própria consciência. Pois, apesar de todas as falsidades e sonhos desfeitos, este ainda é um mundo lindo e maravilhoso. 

Seja cauteloso. Lute para ser feliz.


ACIDENTES DOMÉSTICOS - José Nilton Mariano Saraiva

Anos atrás, quando no exercício do mandato de Deputado Federal, em Brasília, Roberto Jefferson, ao depor numa certa CPI, desafiou o então todo poderoso Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao afirmar que este lhe despertava “os instintos mais primitivos”.

Semana depois, Roberto Jefferson apareceu em horário nobre, nos principais jornais televisivos, com um dos olhos arroxeado e bastante inchado e, instado a revelar a causa, afirmou candidamente que batera com a cabeça em um móvel doméstico, daí a grave contusão.

Embora todo mundo imaginasse, até com certa razão, que tal história não tinha nenhum fundamento, a mídia tupiniquim, corrupta, covarde e safada, simplesmente não procurou se inteirar da questão (e ficou valendo a versão do “desonesto” e mentiroso Deputado, de que sofrera um acidente doméstico).

A reflexão é só pra lembrar que, dias atrás, foi noticiado pela mesma mídia corrupta, covarde e safada, que o atual Presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, houvera sofrido um vulgar acidente no recinto do lar.

Só que, dia seguinte, a ilustre personalidade foi transferida às pressas para um daqueles caros e luxuosos hospitais de São Paulo, a fim de tratar da contusão sofrida (dentro de casa, lembrem-se).

Passados alguns dias de internamento (quem pagou a conta ???), eis que o ministro Dias Toffoli nos aparece na TV, em horário nobre, com uma enorme cicatriz no meio da testa, o que nos leva a imaginar que não deve ter trombado com algum inocente móvel dentro de casa (como Jefferson) mas que a coisa foi bem mais séria, e fora de casa (como Jefferson).

E a nossa corrupta, covarde e safada imprensa não move uma só palhinha pra esclarecer à sociedade o que teria acontecido com uma das autoridades institucionais do país (mas, pelo "talho" na testa no ministro, parece mais coisa de milicianos profissionais, pagos ou não).

 

Acidente doméstico ??? 

 

Vôte... 


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Depois da noite, a aurora raiará ?

“Gramsci deixou escrito o retrato fiel

daquilo que eu sou: «Pessimista pela razão,

 otimista pela vontade». Isso diz tudo”.

                                              José Saramago

 

                                   


Se há uma profissão que se viu terrivelmente abatida nesta epidemia foi a de astrólogo. Nostradamus nenhum, de final de ano, adivinhou o cangapé que o mundo daria neste 2020 ! O Tarô deu xabu, os búzios ficaram tan-tans, as bolas de cristal opacificaram-se.  Faço-me, também, profundamente pessimista com aqueles que imaginam que surgirá um novo mundo pós-covídico. A história tem mostrado que as mudanças, após os cataclismos, são muito mais de superfície que de essência. A história das pandemias mostra, claramente, que a ciência evoluiu sobremaneira, mas o comportamento humano é muito menos moldável e mutável.  As mesmas fases repetiram-se , com quase nenhuma alteração, desde a Peste de Atenas, há mais de dois milênios e meio, a Peste Negra do Século XIV e a Covid-19. A fase de NEGAÇÃO que leva a figuras importantes subestimarem a gravidade da praga: “É só uma Gripizinha!”. A CULPABILIZAÇÃO : diante da tragédia é preciso encontrar , rápido, um culpado para perseguir. Em Atenas gritou-se:  “Foram os estrangeiros que trouxeram a peste !”  Na Peste Negra a responsabilidade foi lançada em cima dos judeus, dos bruxos e dos hansenianos. Na Epidemia de Cólera de 1862-64, aqui no Cariri, os judeus foram imputados como responsáveis e, na praga do Tracoma, os ciganos. Aos Alemães se imputou o aparecimento da Gripe Espanhola e na Covid-19, jogou-se o ônus em cima dos chineses e pululam teorias conspiratórias mundo afora. A REVOLTA CONTRA MEDIDAS SANITÁRIAS  também se repete no curso da história, como na Revolta da Vacina no Rio em 1904 e agora contra o confinamento,  proibição de aglomerações  e contra a vacinação, novamente, pelo governo brasileiro. A  POLITIZAÇÃO das epidemias, também, tem um histórico recorrente, minimizando-se quase sempre os efeitos da tragédia, maquiando e escondendo dados estatísticos. A profusão de CHARLATÃES e de remédios miraculosos é uma outra praga repetitiva como as próprias epidemias. A Cloroquina preconizada oficialmente pelo Ministério da Saúde, que nenhum efeito tem para o Covid, já havia tido seu princípio ativo sido prescrito, da mesma maneira, no Cólera e na Gripe Espanhola. Sem falar na INVULNERABILIDADE, aquela sensação que , em determinados momentos, toma de conta de algumas pessoas que, como possuidores de superpoderes, sentem-se imunes às pragas: “Comigo não acontece !”

                                   O mundo, passada a nuvem covídica, voltará a ser o que sempre foi: pouco solidário, cego quanto as distorções sociais, adepto do  Darwinismo Social  do “quem for podre que se quebre”. Ficam, no entanto, algumas lições  claras e insofismáveis. A primeira é a importância da Saúde Pública  estruturada na minimização dos efeitos terríveis das pestes. Sem Saúde Pública organizada, não se combate a contento as pandemias ( riqueza só não basta, vejam os EUA). Por outro lado, as desigualdades sociais catapultam as pestes e levam de roldão pobres, ricos e remediados, embora os descamisados e descuecados sejam as vítimas preferenciais. Há que se lutar por um mínimo de recursos e vida decente para todos. Em terceiro lugar: o Meio Ambiente tão atacado e vilipendiado no Brasil tem uma importância fundamental na explosão e progressão de epidemias: 60% de todas as doenças são zoonóticas ( Ebola, AIDS, Influenza Suina e Aviária, Febre Amarela, Dengue, Chikugunya, Zica, só para citar algumas). Aos cientistas, a quem o governo brasileiro imputa de causadores de balbúrdia e fumadores de maconha, cabe a possibilidade de cura com novos medicamentos e de prevenção com as vacinas ( estas também tão perseguidas , acusadas de malefícios e difamadas) . E, mais que tudo, o chamado Estado Mínimo ( mas Máximo para alguns) mostrou-se totalmente ineficaz em trazer um grão de segurança social em tempos críticos como os que vivemos.

                                   As lições aí estão para os olhos que quiserem ver. Passada a nuvem sombria, todos esquecerão que um dia fez-se noite. Tudo retornará como dantes no quartel dos governantes. A ciência andou de Boing nas últimas centúrias e a humanidade montada em casco de tartaruga. A razão nos sopra nos ouvidos lições de pessimismo, mas é imprescindível que umedeçamos nossa vontade com os ventos do otimismo e da transformação.

Crato, 03/09/2020

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

EXCENTRICIDADE - José Nilton Mariano Saraiva

Recorrente - mas ainda assim impressionante - como aqueles que atingem certo destaque em alguma profissão, principalmente os que lidam diretamente com o público, se transmutam da noite pro dia, tanto em termos comportamentais como em termos visuais. Dentre estes se sobressaem, justamente pelo contato mais próximo com o povo, jogadores de futebol e cantores dos mais diversos estilos (bregas, sertanejos, românticos e por aí vai), sejam nacionais ou internacionais. 

Os primeiros (jogadores de futebol) normalmente oriundos de famílias paupérrimas, quando finalmente “chegam lá” fazem questão de ostentar, de exibir, de ser “diferente”, como a querer mostrar que não são inferiores a ninguém, compensando de certa forma a “vida-de-cão” que levaram no passado. Assim, visando mandar para o espaço o complexo de inferioridade enrustido durante tanto tempo, além dos carrões, roupas de grife, joias caras e mansões luxuosas, adotam os mais esquisitos e ridículos cortes de cabelo, que de pronto passam a ser adotados por seguidores fanáticos (que o diga o tal do Neymar e seu estilo moicano ou aquele horroroso corte exibido pelo tal Ronaldo Gordo Nazário, no final da Copa do Mundo do Japão, onde o Brasil foi vencedor).

 

Já no tocante aos cantores que se destacam a coisa é mais “seleta, refinada e eclética”, a saber: uns, embora teimem em falar e pregar a “humildade”, nos seus shows exigem dos patrocinadores uma determinada marca de água mineral importada (preferencialmente de um país distante); frutas, preferencialmente aquelas oriundas dos cafundós do planeta Terra; não dispensam uma bebida de primeira qualidade, evidentemente que também de outras plagas; já um outro só faz o show se o camarim for decorado unicamente na cor azul, com móveis confeccionados de uma madeira tal, e outras extravagâncias. 


Tempos atrás, um deles nos apareceu com uma exigência que, muito mais que excentricidade, poderia ser confundida com “frescura pura” (e não é pelo fato de ser reconhecidamente um homossexual assumido); fato é que o renomado (e bom) cantor britânico Elton John exigiu para uma certa turnê (Follow the Yellow Brick Road), que empreendeu no Brasil, mimos que chegaram às raias do absurdo.


Assim, além do cachê altíssimo que recebeu, exigiu dos patrocinadores do seu show (aqui em Fortaleza), dentre outros itens: 01) que, toda a Arena Castelão, onde foi realizado o evento, fosse climatizada a 19 °C; (assim, embora normalmente a temperatura ambiente da Arena Castelão seja de 35/40°C, em todas as áreas por onde ele fosse circular, a temperatura não poderia passar dos 19 graus e PT saudações); 02) que, no seu camarim fosse instalado um telão de alta definição, a fim que pudesse assistir a canais esportivos; 03) que, fosse criado o “Espaço Elton John Hospitality” (espécie de sala de visitas) com ornamentação de plantas naturais com pelo menos 1,80 metro cada, preferencialmente palmeiras e fícus; e 04) que, para comer, estivessem disponíveis saladas de frutas, de legumes e sopas vegetarianas (aqui, até que não foi muito exigente). Descartou, entretanto, qualquer proteína animal. 


Será que os patrocinadores do evento conseguiram atender a todas as exigências do bom, mas já decadente cantor ??? E se não o fizessem, será que o mesmo recusar-se-ia a cantar para seus adeptos do Ceará ??? 


No mais, para os que se dispuseram a ir ao show, foram colocados à venda 40 mil ingressos (a “preços de banana” em fim de feira, na mais recôndita periferia), a saber: gramado cadeira ouro (R$ 600), plateia inferior direita (R$ 140), gramado cadeira prata (R$ 460), gramado cadeira bronze (R$ 360), camarote vip open bar (R$ 500), camarote privativo (R$ 800), plateia inferior esquerda (R$ 140), plateia superior especial (R$ 300), plateia superior esquerda (R$ 110) e plateia superior direita (R$ 110). 


E aí, você foi um dos que lá compareceram ???

 

CARTA A UM JOVEM BRASILEIRO (Rogério Cezar de Cerqueira Leite)

 

CARTA A UM JOVEM BRASILEIRO

(Rogério Cezar de Cerqueira Leite)

Eu gostaria de escrever-lhe uma carta sobre poesia, embora sem o talento do alemão Rainer Maria Rilke, sobre a importância da literatura, das artes, do conhecimento; enfim, sobre tudo o que enriquece a humanidade. Mas eis que nossos líderes agridem tudo que alicerça a cultura de um povo, tal seja a filosofia, a sociologia, a história.

Eu queria escrever-lhe sobre a dádiva da natureza ao brasileiro, sobre as nossas matas, os nossos rios, a nossa fauna e a nossa rica e bela biodiversidade. Pois bem, nossos dirigentes não apenas corrompem as providências para amenizar as inexoráveis e trágicas consequências do aquecimento global como também incentivam o desmatamento e a poluição da atmosfera.

Eu queria falar-lhe, jovem brasileiro, da dignidade do trabalho e da necessidade de conhecimento para enfrentar a dinâmica implacável do progresso tecnológico. Entretanto, esse novo governo asfixia nossas universidades com cortes de verbas e obtusa perseguição.

Eu queria falar-lhe de ciência e tecnologia, da consequente industrialização do nosso país e dos benefícios sociais e econômicos que adviriam de investimentos em pesquisas. Mas esses nossos governantes continuam a desindustrialização começada nos governos Collor e FHC, cortando recursos para ciência, tecnologia e formação pós-graduada, sem o que não haverá industrialização possível já em futuro próximo.

Eu queria escrever-lhe sobre o valor da cidadania, da liberdade, sobre a decência do homem de bem. Porém, “esses arremedos de déspotas” que presidem sobre esta nação liberam a posse de armas, cooptam e protegem milicianos, homenageiam extorsionários e torturadores, estimulam a violência.

Eu gostaria de poder falar-lhe sobre nosso país, sobre nossa história, nossa arte, nossos escritores, nossa música, nossas conquistas. Mas não posso. Nosso país se curva aos interesses imperialistas dos EUA.

Eu queria falar-lhe do ideal de justiça, da solidariedade. Contudo, só vejo ostentação, narcisismo. 

JUÍZES VIVENDO EM PALÁCIOS "NABABESCOS", SERVIDOS A LAGOSTAS, PAGAS COM O SUOR DO TRABALHADOR BRASILEIRO. O QUE UM JUIZ DO SUPREMO COME DE LAGOSTA E BEBE DE VINHO IMPORTADO, DIARIAMENTE EM UMA ÚNICA REFEIÇÃO, EQUIVALE AO QUE COME POR MES UMA FAMÍLIA QUE VIVE COM SALÁRIO-MÍNIMO. 

E, ao contrário de suas excelências, o cidadão brasileiro paga por suas refeições. Eu pensava em conversarmos sobre seu futuro, seus sonhos. E olho para nossos congressistas, supostos guardiões da cidadania e de seu porvir. E só ostentam escandalosa cupidez. 

Confesso que eu queria inculcar-lhe, jovem brasileiro, uma certa compulsão por justiça social, um certo interesse pelo próximo e pelo distante, um pouco de civilidade enfim. Mas seria um esforço perdido, tendo em vista a dominação intelectual e ideológica desse governo por um farsante, obsceno e fascista, uma espécie de Rasputin de bordel.

Eu gostaria de encontrar alguma palavra de alento para apaziguá-lo. Eu não queria ser cínico ou parecer desalentado, derrotado. Seria talvez bom se eu pudesse fingir, mentir um pouco. Mas não. Só posso pedir-lhe que me perdoe, e a todos aqueles das gerações que precederam a sua, pelo que lhe subtraíram e talvez também pelo que lhe ensinaram.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

O BRASIL QUE SABER - José Nilton Mariano Saraiva

 

Por qual razão o “integro”, “honesto” e “insuspeito” Presidente da República se exaspera quando lhe fazem uma pergunta tão simples:

 

"Presidente @jairbolsonaro, por que e para que sua jovem esposa, Michelle Bolsonaro, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz e esposa ?"

 

Por qual razão os integrantes do Supremo Tribunal Federal se negam a participar de tão grave questão, questionando-o oficialmente ???

domingo, 23 de agosto de 2020

A "MUTRETA" DO TAL VALE-REFEIÇÃO - José Nilton Mariano Saraiva

Criado através da Lei 6321 de 15.04.1976, o vale-refeição (adstrito às estatais), ao contrário dos que muitos pensam não se trata de nenhuma “benevolência” da empresa para com o seu funcionário, ou de um gesto de magnanimidade do governo federal.

Na verdade, aqui se aplica magistralmente aquela história do “dar com uma mão e tirar com a outra” e, claro, beneficiando sempre o patrão (empresa), em detrimento do empregado.

É que, a posteriori, quando for prestar contas ao fisco ao final do exercício fiscal, a empresa poderá deduzir, do lucro tributável para fins de imposto de renda (das pessoas jurídicas, evidentemente), o dobro das despesas realizadas em programas de alimentação do trabalhador (o tal vale refeição).

Além do que, como tal valor é excluído do conceito de “salário in natura”, nele não incide o custeio da Previdência Social e o do FGTS (ou seja, a empresa ao subsidiar a refeição do seu servidor, se beneficia de um quádruplo benefício fiscal).

Confira, abaixo, os artigos 1º e 3º da tal lei:

Art. 1º As pessoas jurídicas poderão deduzir, do lucro tributável para fins do Imposto sobre a Renda, o dobro das despesas comprovadamente realizadas no período-base, em programas de alimentação do trabalhador, previamente aprovados pelo Ministério do Trabalho na forma em que dispuser o Regulamento desta Lei.

Art. 3º Não se inclui como salário de contribuição a parcela paga "in natura" pela empresa, nos programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho.

É isso aí; vivendo e aprendendo.