TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010



Os meios acadêmico, jurídico e intelectual caririenses perderam, na tarde de ontem, uma das mais ilustres e queridas figuras deste século: Dr. Raimundo de Oliveira Borges (foto).
A comunidade CaririCult expressa aqui seu sentimento de tristeza e deseja que os seus familiares tenham serenidade para superar tão irreparável perda.

O Crato é um torrãozinho de açúcar?

Lendo Contardo Caligaris na FSP entendi perfeitamente o que significa deixar sua cidade: "Tudo bem, viajei muito. Várias vezes, ao longo da vida, mudei de língua e país, mas o que importa aqui não são os acidentes de minha história. A modernidade se define pela viagem, pela decisão de não aceitar que o lugar onde nascemos seja nosso destino -por exemplo, pela vontade de deixar o campo e ir para a cidade". Muita gente faz o "movimento" contrário, permanece parado em seu torrãozinho de açúcar. Como tudo na vida deve existir vantagens e desvantagens nas duas posições. O que me irrita são os extremismos burros. Algumas pessoas acham que devemos manter, entre outras coisas, o sotaque do lugar de onde viemos como se isso fosse uma profissão de fé e não uma escolha como muitas outras. Por que não posso achar irritante certa forma de falar do lugar de onde vim? Por que não posso abominar certo padrão de comportamento muito comum, dadas as circunstâncias, do pedacinho de terra onde brotei? Desse apego irracional às raízes estou fora. Também sou contra o mimetismo impensado que alguns se submetem, por baixa auto-estima, quando vão morar num lugar maior, mais rico.
Seria muito fácil, bancar o nostálgico e o ardoroso defensor da terrinha. Os bairristas, numa terra que viveu grande parte de sua vida em disputa com o seu vizinho Juázeiro, aindam deve ser maioria entre os filhos do lugar. Lembro que como disse Samuel Johson "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas". Bairrismo = Patriotismo. Mas uma coisa me intriga. Sempre vi relatos apaixonados de ex-moradores do Crato. E fico me perguntando será que não sou tão apaixonado assim pelo "cratim de açúcar tijolo de buriti" porque sou diabético? Pode ser. Antes que os bairristas fanáticos me chamem de traidor gostaria de dizer que acho Crato uma cidade simpática e com algum charme. Mas como o José de Drummond não posso me angustiar e querer ir para o Crato. Crato não há mais! O meu, é claro!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010



NOEL ROSA
Parte I

“O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim”.

Positivismo, Noel Rosa, 1933.

Por Zé Nilton

Muito já se falou e se fala como igualmente se cantou e se canta Noel Rosa.
A atualidade de sua música se deve, a meu ver, pela expressividade das letras e seu perfeito encaixamento melódico, formando um todo bem arrumado, seja nas músicas de gozação, nas paródias ou nas de puro lirismo e seriedade. Tudo muito bem ao gosto do povo e aos ouvidos mais requintados.

Diz-se que a permanência por gerações ad eternum das músicas dos Beatles se deve ao estilo pop, letras simples e harmonia de fácil execução, embora prazerosa a todos os gostos. Em Noel é tudo isto e, por ser coisas nossas, o estilo é samba, ritmo culturalmente assimilado pelo povo.

Noel Rosa viveu pouco, mas viveu intensamente o universo musical de seu tempo. Suas raízes musicais vieram do Nordeste, com João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense e demais músicos chegados à Capital Federal, nos começos da década de 1920.

Suas primeiras composições estão de acordo com essa premissa, e vamos encontrar o poeta da Vila criando emboladas, cateretês e outros ritmos sertanejos, tão em voga naqueles tempos de uma cidade com profundas feições rurais.

O samba havia assumido o status de música urbana, como resultado de uma mistura de ritmos que vinha se processando deste os fins do século 19, havia pouco tempo, e a área cultural de seu domínio ficava longe, mais para o centro da cidade.

Paulatinamente Noel vai palmilhando o caminho do samba e, para tanto, muito contribuiu o Bando de Tangarás, grupo do qual fez parte, formado por músicos de outros lugares do Rio, como Almirante (Henrique Foreis Domingues), Carlos Braga (Braguinha), Henrique Brito (inventor do violão elétrico), e outros.

A partir de 1908, até a década de 1930, vários grupos musicais vão alicerçar a MPB, agregando-a valores de todas as tendências, resultando num complexo cultural de corpo e alma bem brasileiros. Um dos mais antigos era os Oito Batutas, à frente o grande Pixinguinha e seu irmão; Os Turunas Pernambucanos (comandados por Jararaca e Ratinho); os Turunas da Mauricéia (a frente Augusto Calheiros), entre outros. Os grupos iram se refazendo e muitos músicos passaram por vários deles como Donga, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Caninha...

Em apenas 10 anos de total dedicação à música, à bebida, à boêmia e à falta de cuidados com sua saúde debilitada desde a infância, Noel constrói uma obra exemplar na História da Música Popular Brasileira.

Em Compositores do Brasil desta quinta, 28, no primeiro programa de uma série de três, vamos falar e ouvir Noel Rosa. No primeiro e no segundo apresentaremos suas canções e os motivos de sua inspiração; no terceiro, as músicas que ele fez para seus amores correspondidos ou não, os que lhe trouxeram alegria e sofrimento.

Abriremos a primeira sequencia com:

Minha viola – de Noel Rosa, com o Bando de Tangarás.
Nega, de Noel e João de Barro (Braguinha), com o Bando de Tangarás
Lataria – de Noel, Almirante, com o Bando de Tangarás
Com Que Roupa , de Noel Rosa, com Doris Monteiro
Malandro medroso, de Noel Rosa, com Roberto Paiava
Eu vou pra Vila, de Noel Rosa com Roberto Paiva
Gago Apaixonado - João Nogueira, de Noel Rosa
Cordiais saudações, de Noel Rosa, com Noel Rosa e o Bando de Tangarás
Até amanhã, de Noel Rosa, com Almirante
Vitória, de Noel Rosa, com Roberto Paiva
Cem mil Réis, de Noel Rosa e Vadico, Chico Buarque e Luiza Buarque
Qual foi o mal que eu te fiz, de Noel Rosa e Cartola, com Chico Alves
Positivismo, de Noel Rosa, com Noel Rosa
Filosofia, de Noel Rosa, com Chico Buarque

Quem ouvir, verá!

Programa Compositores do Brasil
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Todas as quintas-feiras, às 14 horas
Rádio Educadora do Cariri
Apoio. CCBN

Show no Clube dos Democráticos!



Oi pessoal!

Hoje, dia 27/01 tocaremos na Quarta Democrática!

Beto Lemos, Ranier Oliveira, Geraldo Junior, Filipe Muller, Francisco Gomide, Marcelo Muller e Cláudio Lima!

Apareçam!

Abraços

Convite show



Lançamento do cd "Cosmópolis" da Banda Sétimo Selo




A banda Sétimo Selo se apresenta no Centro Cultural BNB no IV Festival Rock Cordel lançando seu novo trabalho intitulado "Cosmópolis". O cd tem como proposta mostrar que fora das grandes metrópoles, apesar da influência uniformizadora das mesmas, existe vida e existe arte. Em outras palavras, a idéia do novo cd é mostrar que apesar da massificação imposta pela globalização, que causa alienação cultural e marginalização aos povos não "cosmopolitizados", existe toda uma cultura que precisa ser conhecida, incentivada e divulgada.
O cd já está a venda nas lojas Amilton som e Trilha Sonora na cidade de Crato.


A banda é formada por: Luis Carlos Saraiva (guitarra); Marciel Franklin (contra-baixo); Thiago Bantim (bateria); Micaelson Lacerda (voz e teclado); Manoel Botelho (guitarra).

Local: Centro Cultural BNB - Juazeiro do Norte
Dia: 28/01/2010
Horário: 18:30
Entrada franca

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Marcada para morrer


Marcada para morrer

Por Lúcia Rodrigues
 

"Geralda Magela da Fonseca, a irmã Geraldinha, pode ser a próxima vítima do terror imposto pelos latifundiários que querem impedir o avanço da reforma agrária no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do país. A única plantação de alimentos que existe em Salto da Divisa é a do acampamento do MST. No restante das terras, só capim e poucos bois.
 
A luta pela terra no Brasil ainda representa risco de morte para quem defende sua divisão. Reforma agrária são duas palavras que quando conjugadas se tornam malditas nos rincões controlados pelo latifúndio. O poder dos coronéis é lei nesses lugares. Domina tudo: desde a política local à rádio que veicula as notícias. Tudo, absolutamente tudo, é subjugado à lógica de uma oligarquia rural que atravessou séculos intacta e permanece com praticamente a mesma força discricionária do passado.
 
A pequena Salto da Divisa, município localizado no nordeste mineiro do Vale do Jequitinhonha, é o exemplo gritante dessa realidade. Latifúndio e terror se conjugam contra aqueles que ousam se levantar em defesa da reforma agrária. O pavor de retaliações fez com que vários entrevistados pedissem para não ter os nomes revelados. A reportagem acatou a solicitação e decidiu atribuir nomes fi ctícios a todos os entrevistados ligados ao MST, menos a Geralda Magela da Fonseca, a irmã Geraldinha, ameaçada de morte pelo latifúndio.
 
A freira dominicana que vive há mais de três anos no acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) Dom Luciano, onde residem 75 famílias, se transformou no alvo preferencial dos latifundiários. É dela a principal voz que se ergue para denunciar as arbitrariedades dos donos da terra na região. A atitude corajosa rendeu a ira dos que teimam em perpetuar a situação de injustiça.
 
Irmã Geraldinha convive há meses com o medo de ser assassinada a qualquer momento. No princípio, as ameaças chegavam pelo celular. Em um único dia, recebeu três ligações no aparelho. Do outro lado da linha, a pessoa não identifi cada transmitia sempre a mensagem de morte. O terrorismo psicológico fez com que a freira quebrasse o chip do celular. Agora poucos possuem seu novo número, e as ameaças deixaram de ser feitas por via telefônica. Chegam por companheiros que moram no acampamento e que ouvem dizer na cidade que ela está marcada para morrer.
 
No latifúndio brasileiro, ameaça de morte é quase a certeza de concretização. Foi assim com Chico Mendes, irmã Dorothy Stang, Margarida Maria Alves e tantos outros que tombaram na luta por justiça social no campo. Como nos outros casos, o medo não afugentou a freira da resistência aos poderosos. Apenas a fez mudar seus hábitos Irmã Geraldinha não repete, por exemplo, o pernoite no mesmo barraco. Alterna o sono em vários locais dentro do acampamento, para impedir que o inimigo invada sua casa e a torne presa fácil da morte. A reportagem de Caros Amigos acompanhou a via crucis da freira durante quatro dias. Dividiu com ela, inclusive, os mesmos barracos."
 

ARTE POSTAL II







lugar que não existe

Precisava de solo
e tu me deste asas.

Quando abri a porta
tu me lançaste aos olhos
pó de borboleta.

Não fiquei cego.

Ao contrário,
hoje minha vista
dobra horizontes
cruza céus.

Eu só queria paz.
E tu me forjaste um ventre
sempre bule com chá quente.

Não me faltam ancestrais
sentados à mesa

trocando estranho silêncio
nos olhares de outro mundo.

Tu és meu algoz
com pinta de bom mocinho.

Aqueles olhos penetrantes.
Aquele sinal no lábio esquerdo.

Por vez acordo ciente do meu fim,
então tu gargalhas e jogas as chaves
do quarto secreto.

"Só tens três minutos."

Eu enlouqueço:
O que posso salvar de um incêndio
em três minutos?

O primeiro desenho do meu filho?
Meus sete últimos poemas?

Tu sabes como renovar a coragem de um homem.
Como tornar sóbrio o olhar de um Lunático.

Meto-me quarto secreto adentro.
Queimo os braços, antebraços, rosto, cabelo.

Tudo que consigo é mais suor na língua.
É mais frio na nuca.

Não durmo bem,
não me alimento.

Só admirando a repentina euforia.
Tristeza em algum lugar.

Causas atuais da violência - Por Emerson Monteiro

Vive-se período extremo de criminalidade violenta, isso em todo o mundo, com ênfase nos países mais atrasados, dentre eles o Brasil e toda a América Latina. Antes, o motivo alegado se voltava para as chamadas revoluções libertárias, na época da chamada Guerra Fria.
Hoje, no entanto, qualquer motivo preenche as justificativas das convulsões sociais. Desde a delinquência juvenil até o tráfico de drogas, passando pelos chamados bolsões de pobreza e guerras tribais, lutas raciais, lugares onde o padrão da cultura humana indica descompasso de perversidade e miséria.
Houve tempo quando seria mais fácil encontrar as razões de tanta insegurança. O atraso das mentalidades, as conquistas coloniais, disputas imperialistas, domínio feudal das terras, fanatismo religioso. Tudo servia de pretexto, no decantado anseio de o homem ser lobo do próprio homem. Ou de se querer a paz e se preparar para a guerra.
Acham as autoridades que o problema se revolveria mediante a ampliação dos órgãos de segurança, aquisição de armamentos, modernização e ampliação das penitenciárias, maior remuneração dos efetivos policiais, etc., etc.
Contudo, a questão possui raízes mais profundas. Suas causas reais merecem outros detalhamentos, porquanto procedem vêm de origens as quais acumulam estudos e pouquíssimo, ou nenhum, tratamento.
Conceitos do tipo de que falta educação ao povo, que a tradição nacional dos degredados, escravos e índios, povos sem amadurecimento suficiente, formaram país esdrúxulo, por si só não justificam a famigerada violência das ruas, clima tenso em que se transformou o sonho brasileiro.
De suas causas mais evidentes cabe citar o desemprego que cresce, sem esperança de colocação para a juventude que, todo dia, chega ao mercado de trabalho; a excessiva concentração da riqueza nas mãos dos poucos de há muitos séculos donos dos bens; e a pobreza infinita da cultura de massa.
Enquanto sofre a nacionalidade esse atraso crônico de ética, moralidade e competência, responsáveis pela administração das instituições públicas, em todos os segmentos, jamais se comprometem com mudanças substanciais e inevitáveis.
Como se não bastassem ditas origens, persiste, na macro-estrutura mundial, um conceito voltado aos interesses das nações ricas que investem pesado na preservação do poder, através dos sistemas mundiais de exploração financeira. Gastam fortunas na elaboração de técnicas requintadas de manutenção da ordem injusta. Financiam sucessivos governos serviçais, nos países periféricos.
Portanto, para neutralizar o tal clima superlativo desse drama, outras atitudes cabem aos que precisam urgente se livrar das nuvens escuras dessa história burocrática, quais sejam: criatividade individual; maior comprometimento da participação coletiva, nos grupos sociais prejudicados; união das classes exploradas; e conscientização política.
Abrir o olho e ver que só a educação traz mudanças significativas, após largos esforços da sociedade e seus governantes, eis o instrumento da democracia através do voto que fala alto nestes assuntos, desde que assim pretendam os eleitores, bola da vez na decisão de cada pleito.

seis horas

É agora
que desabo:

os ossos contra o teto
a carne na bandeja de prata.

Os sinos são todos
irmãos mais velhos
torturando o caçula.

Já não basta o longo corredor escuro?

Seis horas é um breve arrastar de chinelos
em que se deve ter muito cuidado.

Não envergar demais as asas.
Não acolher tantas lembranças.

Ninguém está a salvo
de uma artéria fraca.

As lágrimas damos um jeito.
Mas se o coração pifa é morte na certa.

A HORA E A VEZ DO NOSSO FUTEBOL

Por Pedro Esmeraldo

Todos os desportistas cratenses se encontram radiantes, alegres, apresentando um quadro vibrante de contentamentos devido o bom desempenho de sua equipe no campeonato estadual da primeira divisão cearense.

Queira Deus que esse quadro não venha mudar de ritmo já que estamos enfrentando uma série de perseguições, causando baixo desempenho de sua equipe, pois a FCF tem como objetivo favorecer outros times em detrimento do Crato, visto que o futebol que estamos esbanjando causa desespero entre as outras equipes, fracas, incompetentes e que não apresentam um bom desempenho futebolístico. O pior é que as nossas autoridades não reagem diante desse descaso, deixam tudo correr frouxo, à revelia, sem esboçar nenhuma reação.

Por isso, o Crato está sendo abençoado por Deus e vem sempre de espírito elevado e consegue êxito, dando mostra de que temos coragem e força suficiente para enfrentarmos o batente e não fugirmos da luta quando aparece qualquer obstáculo.

Houve época em que o Crato possuía grandes craques e que mostrava raça e apresentava bons desempenhos, com jogadas técnicas, pois tinham originalidade e causavam inveja em outras localidades onde se apresentavam, pois tinham originalidade que causavam inveja em outras plagas quando apresentavam magia em suas jogadas céleres em seu magnífico futebol.

Lembramos muito bem desses craques como: Enock, Senhor, Antonio da Pensão, Anduiá, o goleiro Ângelo, o médio Mundinho, o Avante Doutor Ossian, o zagueiro Moacir, o atacante Bebeto, os médios Kleber, Braz e muitos outros, como o armador Peixe e o goleiro Zé Albanito. Deixamos de mencionar outros nomes por falta de espaço.

Agora mesmo, esses valorosos craques do passado merecem figurar no quadro de honra na sede da liga cratense de desportos.

Queremos lembrar que consideramos essa época, como sendo a época de ouro do futebol cratense, já que possuímos os melhores craques mas não tínhamos estádios à altura do nosso futebol, consequentemente jogava em estádios improvisados, causando-nos transtorno para formar uma estrutura digna á altura do Crato.

Em tempos passados no final na década de setenta para o início da década de 1980, um grupo de desportistas organizou e solicitou ao então governador Virgílio Távora a construção do estádio do Crato a altura e que seria a redenção do futebol cratense.

O então governador prometeu e construiu o Estádio com muita ênfase, dando estímulo aos desportistas para que praticassem toda meta de esporte, com intuito que a juventude saísse do vício da embriaguez através da prática do esporte.

Infelizmente, um prefeito cafona, pertencente à era trogloditiana, porque não gostava de esporte, ansiava acabar com o estádio, dizendo ele que o seu sonho era transformar esse majestoso estádio num cercado de gado vacum, retirando esse sonho do povo cratense que há tanto almejava.

Graças a Deus e ao bom senso de alguns prefeitos, esse estádio foi sendo recuperado aos poucos, atingindo a sua glória como atual prefeito que se dedicou de corpo e alma à sua reforma, estimulando a prática esportiva até o Crato conseguir a sua glória.

Crato, 22.01.2010

Humilde Espantalho

Talvez o tempo dure
mais de vinte e um dias

para que o meu sangue limpe
e eu consiga andar sozinho.

Não se preocupe com minha alma.
Esqueça aquela onda:

"cadê minha cervejinha,
cadê meu baseado?"

A única prerrogativa
é a verdade

que vejo tremer
nos seus cílios.

Sei que não tem volta segura
como também sei que o meu lar
é sempre adiante.

Pois alcançado
o estágio

em que a loucura
é um lindo berçário

de boas lembranças
e algum silêncio.

Talvez a eternidade
adormeça nos meus versos.

A alma fora do corpo
dentro do espantalho

em cujos ombros
há tempo não pousam
os corvos

distantes,
apenas observam

a brisa da noite
fechar meus olhos

e a minha boca
entreaberta
suspirar o indizível.

Cultura terá maior orçamento da história; R$ 2,2 bilhões

O Ministério da Cultura (MinC) terá pouco mais de R$ 2,2 bilhões para utilizar em 2010. É o maior orçamento da história do ministério. O montante consta na peça orçamentária aprovada pelo Congresso Nacional e representa mais que o dobro do que foi aplicado efetivamente pelo órgão no ano passado. Em relação ao montante previsto no projeto também aprovado pelo Congresso para 2009, o valor é 64% maior (veja a tabela). Os dados não incluem as aplicações da Lei Rouanet.

De acordo com assessores do ministro da Cultura, Juca Ferreira (foto), o aumento da verba da pasta é resultado da necessidade de atingir recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU) de destinar, no mínimo, 1% do orçamento do país à cultura. “Este orçamento corresponderá, estimativamente, a cerca de 0,7% das receitas totais de impostos da União neste ano. Em 2003, quando o governo Lula assumiu, a Cultura recebia exíguo 0,2% dessa receita. Constitui-se, assim, em um ensaio que se aproxima do patamar mínimo para a cultura”, diz a assessoria.

Além disso, informa o ministério, o salto orçamentário decorre da efetivação, em 2010, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado em 2009, e que implanta a gestão em rede dos museus sob responsabilidade federal. Outro ponto que, segundo a assessoria, justifica o aumento dos recursos é o reforço de orçamento em unidades e programas cujos recursos têm sido “flagrantemente desproporcionais” à sua importância para a cultura e as artes brasileiras.
O principal programa tocado pelo MinC é o “Engenho das Artes”. Em 2010, cerca de R$ 612,2 milhões serão destinados ao programa, cuja finalidade é implantar e modernizar espaços culturais em todo o país, capacitar artistas, técnicos e produtores de arte, fomentar projetos, estudos e pesquisas em cultura, etc. No ano passado, dos R$ 273,8 milhões previstos para o programa, metade foi efetivamente desembolsada, incluindo os “restos a pagar”: empenhos não pagos até o fim do exercício e rolados para o ano seguinte. Se considerados os empenhos (reservas em orçamento), 73% da dotação autorizada foi comprometida.

A assessoria do MinC destaca dados do IBGE, que apontam falta de cinema, teatro ou qualquer tipo de espaço multicultural em 90% dos municípios brasileiros. Sobre a execução do programa “Engenho das Artes”, a assessoria afirma que, em 2009, do orçamento autorizado – R$ 273,8 milhões – foram liberados efetivamente R$ 210,6 milhões. “O ‘orçado’, obviamente, representa uma figura financeira idealizada, enquanto o ‘liberado’ retrata o efetivamente disponibilizado para gastos. Destes, R$ 208,8 milhões foram empenhados, o que corresponde a 99%”, assegura a assessoria, em contestação às informações oficiais registradas no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), apresentadas pela reportagem (veja a tabela).

Outro programa que deve ter grande parte dos recursos do ministério é o “Brasil, Som e Imagem”. O programa deverá receber R$ 204,3 milhões para aplicar em ações de modernização de centros técnicos, instalação de escritórios regionais da Agência Nacional do Cinema (Ancine), capacitação de artistas, técnicos e produtores na área de audiovisual, fomento à distribuição e comercialização de obras cinematográficas no país e no exterior, entre outras. No ano passado, o programa aplicou 94% dos R$ 218,9 milhões autorizados no orçamento.

Nos últimos anos

Em média, a verba desembolsada pelo MinC nos últimos sete anos representou 68% do orçamento autorizado para a pasta nos exercícios. Em 2003, por exemplo, dos R$ 634,6 milhões autorizados para o órgão (em valores atualizados), 58% foram aplicados, incluindo restos a pagar. No ano passado, do R$ 1,4 bilhão previsto, 76% foi efetivamente gasto – melhor desempenho desde 2001 (veja a tabela). Nos últimos nove anos, a Cultura já desembolsou R$ 5,8 bilhões.

As despesas globais do ministério com pagamento de pessoal, despesas correntes (água, luz, telefone, etc.), investimentos (execução de obras e compra de equipamentos), entre outros, cresceram 191% desde 2003, primeiro ano de governo Lula. A pasta viu suas aplicações saltarem de R$ 366,2 milhões, há sete anos, para R$ 1 bilhão em 2009.

Não foram considerados os valores investidos pelas empresas estatais (Petrobras, Correios, Banco do Brasil, etc.), que não informam, no Siafi, suas aplicações. Também não estão incluídos os gastos efetuados por estados e municípios e os decorrentes da Lei Rouanet, que canaliza recursos para o desenvolvimento do setor cultural por meio de incentivos fiscais a pessoas físicas e empresas interessadas.


Milton Júnior
Do Contas Abertas
26/01/2010

Diálogos

O espírito não tem massa.
É igual a macarrão debaixo da língua.

Não ocupa espaço.
Some.

Só assim se explica
o acúmulo de gente morta

em outra vida
céu ou inferno.

Mas se atravessam paredes
meus fantasmas

quem me garante
que desencarnado
não vou eu querer
atravessar papéis
escrever versos?

Se o meu espírito
é de fato um fiapo
de macarrão mole
entre os dentes

então posso ficar tranquilo:
resolve um cafezinho quente.

cadeira de rodas

De tantos poemas escritos
muitos são apenas vértebras.

Mas há um poema
que é a sétima.

Lá se toca
e fica o poeta
paraplégico.

CONCEPÇÕES DE UMA POÉTICA ...de WILSON BERNARDO...

O CONFLITO DOS PREDADORES!
Indiguinado o cupim devorador
Tira satisfações com a coméia.
O porque da Timbauba está
Com gosto tão amargo.
Satisfeitas por nãoter nada
Com a confusão as Formigas
Estocam para o inverno
O desperdicio da intriga...
O amargo farelo doce de ilusãoes.

Wilson Bernardo(Poema & Desenho)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

No Coração da Gente - Jacinto Silva


Idealizado por Edson Barbosa e com direção geral de conteúdo e produção de Tiago Araripe, o CD “Jacinto Silva. No Coração da gente”, já está em fase final de produção e deve ser lançado após o carnaval. O CD produzido pela Link e Estúdio Muzak (Candeeiro Records) reúne 16 músicas do repertório de Jacinto Silva. O projeto gráfico é assinado pelo diretor de arte Marcelo Barreto e tem como mote a Feira de Caruaru. Não poderia ser diferente. Jacinto, alagoano de nascimento, morou boa parte de sua vida nessa cidade do Agreste pernambucano, terra também de um dos seus mais constantes parceiros: o compositor Onildo Almeida.

O álbum dá continuidade à tradição da Link em produzir sempre uma peça cultural para comemorar o início de cada ano. Exemplares do disco serão distribuídos aos clientes e amigos da Link, à família de Jacinto Silva e à unidade do centro espírita que o músico frequentava.

Confira as faixas e intérpretes do CD:

1- Aboio de um vaqueiro (Jacinto Silva) - Spok

2- Aquela Rosa (Jacinto Silva) - Margareth Menezes

3- Teste para cantador (Jacinto Silva) - Jacinto Silva e Silvério Pessoa

4- Minha professora (Jacinto Silva) - Targino Gondim

5- Cante cantador (Jacinto Silva/João Silva) - Flávia Wenceslau

6- Moleque de rua (Manoel Alves/Agenor Farias) - Caju e Castanha

7- Plantação (Jacinto Silva/Janduhy Finizola) - Maciel Melo

8- É tempo de ciranda (Onildo Almeida) - Isaar França

9- Justiça Divina (Onildo Almeida) - Tiago Araripe

10- Coco de praia (Jacinto Silva) - Flor de Cactus

11- Filosofia do forró (Jacinto Silva) - Josildo Sá

12- Pisa maneiro (Jacinto Silva) - Xangai

13- Gírias do Norte (Jacinto Silva/Onildo Almeida) - Elba Ramalho

14- Coco do gago (Jacinto Silva) - Tom Zé

15- Imaginação (Jacinto Silva/Idevaldo Nunes Marques) - Petrúcio Amorim

16- Fonte de Luz (Jacinto Silva/José Roberto Souto Maior) - Aurinha do Coco


Resumo da biografia de Jacinto Silva, conforme o site Dicionário da MPB, onde também pode ser encontrada sua discografia completa.

Discípulo de Jackson do Pandeiro. Iniciou a carreira em 1942. Seu trabalho serviu de inspiração para bandas pernambucanas como a Cascabulho. Em 1962 gravou na Mocambo seu primeiro disco com o baião “Justiça divina”, de Onildo Almeida e a moda de roda “Bambuê bambuá”, de Joaquim Augusto e Luiz Plácido. No mesmo ano, teve o rojão “Moça de hoje”, parceria com Ari Lobo gravado na RCA Victor pelo próprio Ari Lobo. Em 1963, na mesma gravadora gravou de sua autoria o coco “Coco trocado” e de Onildo Almeida, a moda de roda “Chora bananeira”. No mesmo período, registrou de Genival Lacerda e Antônio Clemente, o rojão “Carreiro novo”.

Em 1964 gravou dois dos últimos 78 rotações da série 15.000 da Mocambo com a moda de roda “Aquela rosa”, de sua autoria e o coco “Na base do tamanco”, parceria com José Maurício. Na ocasião, os discos foram divididos com Toinho da sanfona, que gravou no lado B. Em 1966 lançou o LP “Cantando”, pela gravadora CBS. Emm 1973 participou do disco “Forró na palhoça” lançado pela CBS no qual interpretou “Tarrabufado”, de sua autoria e Isabel Biluca e “Flor de croatá”, de João Silva e Raimundo Evangelista. Em 1974 lançou pelo selo Tropicana-Cantagalo o LP “Eu chego lá”, que na época recebeu calorosa crítica do jornalista José Ramos Tinhorão, que a respeito do disco afirmou: “… desfilam toadas agalopadas como “Flor de Croatá”, cocos como “Coco do pandeiro”, mazurcas nordestinas como “Eu chego já”, baiões de ritmo acelerado como “Tentar esquecer”, sambas-baiões como “Concurso de voz”, gêneros desconhecidos como mineiro-pau: uma estranha mistura que lembra ao mesmo tempo o ritmo do calango e, mais longinquamente, dos sambas de partido alto cariocas.”

Lançou pela Manguenitude, em 2000, o CD “Só não dança quem não quer”, produzido por Zé da Flauta, com participações especiais de Chico César, Vange Milliet, Mestre Ambrósio, Marcos Suzano, Toninho Ferraguti e Bocato. Destacaram-se no disco, “Fumando mais Tonha”, “Coco trocado”, “Chora bananeira” e “Abaio de vaqueiro”. Ao longo da carreira gravou 24 LPs e dois CDs.

Em 2001 recebeu um tributo do cantor e compositor Silvério Pessoa, ex-líder do grupo Cascabulho, no CD “Bate o mancá”, com músicas de Jacinto Silva, que aparece em algumas vinhetas ao longo do disco. Foram selecionadas 14 músicas do compositor e cantor alagoano, entre as mais de 200 de sua autoria.

Postado por Malu Oliveira no Blink (linkpropaganda.com.br/)

ARTE POSTAL

Versos Ralos

Cortei as unhas.
Mas não tirei a barba.

Não tenho anéis.
Nem cavanhaque.

Meus dentes amarelos.
Meu hálito estonteante.

Ocupo-me basicamente
com a renovação do meu harém:

lagartixas se foram,
agora flerto um besouro.

Sou vândalo, pois sim.
Encostado ao canteiro
meu pégaso come capim.

Já mudo de pele.
Deixo o verniz dos sonhos
sobre os ombros do roedor.

Lá vai o esquilo
com minha muda
em volta do pescoço.

Os sapos uivam,
os lobos coaxam:

tarde da noite
na floresta
quem sabe
do poeta?

Cortei as unhas.
Mas não passei esmalte.

O cheiro lembra
meu primeiro ópio.

E eu sequer sabia
que a mentira reina
e o mundo não é distante.

A cultura totalitária

Casimiro De Pina 20 Janeiro 2010
Artigos - Cultura


O totalitarismo não só não acabou como está, em muitos aspectos, muito mais forte.O problema é que muitos não sabem o que é o totalitarismo. Uma das confusões mais deliciosas da "geografia política" cabo-verdiana é a ideia espúria e linear de que o totalitarismo acabou em 1989, com a derrocada dos antigos regimes comunistas da Europa do Leste. Mikhail Gorbachev, com as suas célebres reformas, fechou, pensam as boas almas, o ciclo da tirania que pesava sobre tantas nações. Num ápice, tudo acabou. The game is over...
Por uma espécie de mistério santificante, o totalitarismo seria apenas, para a nossa completa felicidade, uma névoa do passado, resquício irrecuperável após o brado da multidão enfurecida de Berlim, naquele Outono memorável de sonhos e delícias! O imaginário popular alimenta-se, curiosamente, desta visão. Os partidos políticos, cegos pela conjuntural luta de cargos, vão atrás. Totalitarismo na era do Facebook? Não, impossível! Um como que "consenso tácito" e generalizado legitima, pois, a penetrante confusão. A mentalidade revolucionária, com o seu cortejo de iniquidades e destruição, "já não tem" lugar na História. Adeus, Estaline! Adeus, camarada Fidel Castro! Doravante, a disputa política será um acto de puro cavalheirismo, segundo a mais fina tradição democrática britânica, dir-se-ia, com os partidos a esmerarem-se, cada um mais do que o outro, na concretização mundana dos belos ideais da ética e da fraternidade! Infelizmente, essa crença, tipicamente burguesa e alimentada pela mídia bem-pensante, é falsa. E bastante perigosa. O totalitarismo não só não acabou como está, em muitos aspectos, muito mais forte. O problema é que muitos não sabem o que é o totalitarismo. Para aqueles que identificam o totalitarismo com a antiga União Soviética, é claro que a coisa "acabou". É um conforto, aliás, saber que "já não há" mais pesadelos no mundo! Repristina-se, deste modo, a velha ideia de Saint-Simon e Auguste Comte: o progresso é "inevitável". Quando aparece, digamos, um Hugo Chavez a perturbar a marcha da tranquila teoria, recorre-se à ladainha reconfortante: "Aquele tipo é um louco; está a dar cabo da economia". A atitude do ditador de Caracas fica, todavia, sem qualquer justificação. As boas almas, por manifesta incapacidade, recusam-se a pensar a política. É que o comunismo, lembram-se?!, "acabou" em 1989. Na época da "purga estalinista", que custou milhões de vidas e muito sofrimento, muitos intelectuais e políticos do Ocidente recusavam-se também a aceitar a verdade, limitando-se a dizer, num gesto patético mas tranquilizante, que aquilo não existia, era tudo invenção, "teoria da conspiração", anticomunismo primário, etc. e tal! Dura praxis, sed praxis. É o medo de enfrentar as questões que gera todos os monstros, de Hitler a Ahmadinejad. Mas o totalitarismo não é a União Soviética. Não é um império político. Não é uma ditadura em concreto. O comunismo é apenas uma face da cultura totalitária. O totalitarismo (ou talvez melhor: a mentalidade revolucionária) é, pelo contrário, uma forma de pensar, uma cultura, a qual, tendo raízes na Antiguidade, conheceu, porém, um progresso admirável com as seitas gnósticas da modernidade, com a sua mistura de ateísmo militante e absolutismo político. Terá começado, segundo Olavo de Carvalho, no séc. XV e atingido a sua maturidade nos finais do séc. XVIII, desembocando, depois, nas tragédias políticas do séc. XX. A negação de um fundamento transcendente é o primeiro passo para a tirania política. A cultura política totalitária visa atingir o "blueprint" de que falava K. Popper, ou seja, a reconstrução da sociedade e dos costumes de acordo com uma pauta artificial e revolucionária, em nome de um futuro hipotético, libertador e indefinível. Durante o Partido Único em Cabo Verde (1975-1990), o grande objetivo do regime, de pendor claramente marxista, era o de alcançar o famigerado "homem novo", refazendo, para isso, a estrutura social tradicional, de alto a baixo. A sociedade cabo-verdiana, mediante uma experimentação agressiva induzida pela elite revolucionária no poder, entrou, pois, num perigoso processo de perda de valores. Nenhuma instituição ficou de fora. A única moral válida, proclamavam os oráculos do sistema, era "a moral revolucionária". A família, a escola, a polícia, a imprensa - tudo estava ao serviço do partido e do seu estranho ideal de reconstrução social. Já não havia, nem podia haver, qualquer "capital social". O que contava, doravante, era a "palavra de ordem" do partido. A escola, veículo fundamental de formação do cidadão, foi transformada num recinto de doutrinação política, com a finalidade última de inculcar, nos alunos, os valores materialistas defendidos pelo marxismo-leninismo. Não se tratava, desenganem-se, de um mero discurso circunstancial ou apaixonado. Era, antes, um programa político, consistente e sincronizado. E tinha valor de Lei. As Resoluções do III Congresso do PAIGC estabeleciam, já em 1977, que "...a Educação deverá ter um conteúdo e uma forma inteiramente de acordo com as opções e princípios traçados pelo PAIGC e orientar-se no sentido da prossecução dos seus objectivos". A Portaria n.º 76/80, de 23 de Agosto, impunha a chamada "concepção materialista do mundo" e a obrigação estrita de os professores formarem os alunos nesse espírito ideológico. É claro que isso obrigava os professores a ignorar certos cânones tradicionais de convivência, substituindo-os, no fragor do processo revolucionário, pela ideologia "progressista" imposta pelo partido dirigente. A anomia, no sentido proposto por E. Durkheim, é a conseqüência lógica desse tipo de regime. No Leste europeu, que nos servia de referência ideológica, sucedeu o mesmo fenómeno de destruição da "sociedade civil". O partido ocupava todos os espaços, com os seus rituais e a sua ordem hierárquica, numa encenação portentosa e simbolicamente magnífica. Tudo parece funcionar na perfeição, quando a polícia política e os demais aparelhos de repressão impõem, a la carte, a "norma totalitária". Quando o regime entra, porém, em decadência, realiza-se a profecia de Marx: "Tudo o que é sólido desfaz-se no ar". As pessoas percebem que não havia, afinal, ordem nenhuma, nem tampouco justiça, mas sim uma espessa fachada de arbitrariedades e um conjunto de políticas forçadas que destruíram a fibra moral da nação e a noção tradicional do certo e do errado. O "homem novo", proposto inicialmente pela Utopia, é, afinal, um homem corrupto, sem valores, sem espiritualidade, potencialmente delinquente, que abusa dos cargos públicos e despreza o mais elementar sentimento de justiça e dignidade humana. Não conhece nenhum horizonte além do seu radical egoísmo. O "homem novo" é um ser infeliz que não acredita em Deus; um ser desprovido de qualquer sentimento de respeito e piedade. Totalitarismo é sinônimo de niilismo, e nisto Leo Strauss tinha toda a razão do mundo. Entre nós, o processo não foi muito diferente. A sociedade cabo-verdiana entrou numa longa, e ainda não superada, Crise de Valores, mediante a introdução de um "código (a)moral" que desrespeitava, francamente, o seu modo de ser e as suas aspirações de liberdade e tolerância. A reconstituição do "capital social" é um processo difícil e doloroso. Estamos, enquanto sociedade, à altura dos desafios? Quem ousa enfrentar a pesada herança da Cultura Totalitária? O primeiro passo é, naturalmente, este: compreender o que se passou. Esquecer isto é fazer o jogo daqueles que, ontem, tentaram o "blueprint" em Cabo Verde.