TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 22 de julho de 2007

Craterdã




Geraldo Mérkur



Regente japonês, guardião do Japão. Saúde para o ocidente sorrir. Singelo. Festagrafável pelo oriente. E viva o charme do siamês telepático. Torquathermeto cabralclaro. Pequim dourada. Formosanjo Erda. Terra Virgem Constelaçante ou Constelação de Virgem. Brasil, agora! Arara polar e pingüim tropical. Samambaia e mambo e samba e rumba. E reze uma Ave-Maria ardente para Janis Joplin em novembro. As seis da tarde na hora do Ângelo. Na quinta ou na sexta. Ou na segunda. Sucesso Imortal do Espírito.

Nota: Texto de Geraldo Urano que, na época, meados de 1983, assinava Mérkur. Publicado na página 6 do primeiro número do Jornal Folha de Piqui. Ilustrado por Edelson Diniz.

coisas pra dividir com meus irmãos kariris


Por que os homens escrevem, contam, lêem, vêem, ouvem, encenam e filmam histórias? Que necessidade é esta que os impulsiona desde remotas eras, quando as ásperas paredes das cavernas constituíam a única superfície segura de escrita, de pictóricas formas? O filósofo espanhol Ortega y Gasset disse certa vez: "A nota mais trivial, porém ao mesmo tempo a mais importante da vida humana, é que o homem não tem outro remédio senão fazer alguma coisa para manter-se na existência. A vida nos é dada, visto que nós não a damos a nós mesmos, senão que nos encontramos nela de uma hora para outra e sem saber como". Na existência nos puseram e com ela e a ela devemos nos conformar, por mais infelizes que sejamos. Ou fazemos isso ou optamos pelo suicídio.Um dos "remédios", uma dessas "coisas" a fazer "para manter-se na existência" que não solicitamos e que custamos a absorver, é precisamente a ficção, essa irreprimível propensão humana a contar histórias, naturalmente uma defesa, ou mesmo um "drible", uma remediação por parte do indivíduo, que, tanto mais exilado quanto mais vive, é talvez filho do acaso. "Desde que nasci, ainda não despertei", brada Pio Baroja num dos seus contos, intuitivamente flagrado pela consciência do caráter absurdo da existência humana, que, exatamente por se assemelhar a uma dádiva para a qual o homem não estava preparado, é melhor aceita se tomada por um longo sonho cujo despertar é a morte.
Este drible do indivíduo sobre a existência concretiza-se mediante o desejo comum a todos os homens de viver outras vidas. É uma concessão que se permite a cada nova história, nova aventura. Uma só vida, num único corpo, é pouco para o homem. Mais que prisão, significa dor, impotência. Logo, ao menos em imaginação, ele precisa sofrer sua metamorfose. É o que lhe sobra, pois tudo o mais é mistério. O Dom Quixote, de Cervantes, cuja primeira parte veio a público em 1605, já constitui, com larga antecipação e alta carga de ironia, uma expressão desse desejo humano: de tanto ler histórias de cavalaria, um homem se presume também um cavaleiro e sai em busca de aventuras. Torna-se outro em vida. Confere a si mesmo outra existência, possível para todos, mas improvável para a grande maioria dos homens, confinados que estão aos seus afazeres diários, à própria necessidade de viver ou, em alguns casos, de sobreviver.
A mais exata manifestação narrativa de nosso tempo, o cinema, que instaura o outro em sua forma mais viva, quase sem diferenças, não se furta nunca a essa vontade. Pelo contrário, sempre a tem em vista. Quanto mais realista um filme, mais nos sentimos dentro dele, a viver, muito próximos da plenitude e da verdade, a aventura que move aquelas pessoas resumidas a movimento e luz. Através do cinema, portanto, tornamo-nos muitos seres em uma única vida apenas, que é a nossa e que só a custo arrastamos, pois viver, se pararmos para pensar profundamente no assunto, por um minuto que seja, é insólito, sem sentido, se não um peso excessivo, uma punição, um confinamento. Mas, se quisermos, poderemos nos tornar trezentos, três mil! É o que acontece, a cada novo filme: variamo-nos, ficcionalizamo-nos. O filósofo francês Clément Rosset define o cinema mais ou menos sob essa perspectiva: "Por estar tão próxima do real, a imagem cinematográfica faz com que vejamos um outro que é quase o mesmo. Na sala de projeção não abandonamos o mundo; estamos quase num universo diferente, que se encontra, porém, no nosso espaço-tempo. Há uma magia propriamente real neste passeio sem custos". O cinema permite, portanto, a instauração do outro, que, no entanto, não deixa de ser o mesmo, de continuar a vida, a humana vida.
Um representativo exemplo literário de fixação do desejo humano de viver outras vidas é o relato do romancista francês Julien Green, cujo título, Se eu fosse você..., já dá a medida e intensidade do seu assunto. Fabien é um jovem insatisfeito com a sua existência. Um belo dia conhece Brittomart, um subalterno do demônio, que, mediante uma fórmula verbal, lhe confere o poder de mudar de vida, viver a existência de outra pessoa. Daí por diante, Fabien perpetrará um círculo de experimentais transformações sem jamais se dar por satisfeito: torna-se um homem rico, depois um outro dotado de imbatível força física, ocupa mais tarde o corpo de um fervoroso servo de Deus e, por fim, se transforma num homem de irresistível beleza. Sua insatisfação, contudo, não se dissipa. A cada transformação, seu desejo de mudança se renova. No fundo, o que ele busca é a perfeição, e esta é impossível. Quando afinal se decide por voltar a ser ele próprio, descobre que já não é senhor de sua vontade, nem de sua vida, nem de seu corpo, que pertencem agora ao demônio. Fabien pagou um preço à altura do poder que lhe foi conferido. E tarde demais descobriu que a melhor vida, a verdadeira, é a nossa própria, por constituir a única que possuímos.
O motivo por que as pessoas se permitem sucumbir ao fascínio das histórias, ocupando sem agravo tanto o papel de emissores quanto o de receptores, está intimamente ligado ao prazer que alcançam em experimentar, de longe, num envolvimento casual porém desejado, novas realidades e outras consciências, as quais as destacam de seu cotidiano fastidioso e precário. Através da ficção nossa vida se torna diversa, e nos acrescentamos experiências que necessariamente não viveremos, mas que, assim mesmo, nos enchem de luz e sentido. Todos os homens almejam uma outra vida e, no fundo, ainda que inconscientemente, a procuram. Isso é certo, pois nunca estão satisfeitos, o dia-a-dia monótono os sufoca; querem sempre algo mais, uma fração de "outra coisa", mais benéfica ou, se não isso, mais trágica. Mesmo porque, como bem disse o escritor húngaro Dezsö Kosztolányi: "Não há no mundo homem inteiramente feliz. Não há, nem pode haver". Portanto, é por "mudança" que os homens se entregam de corpo e alma às histórias: para se sentirem outros, aos quais a felicidade sorria ou o desatino faça sofrer. No breve e quimérico espaço de um relato ficcional a existência humana, por um tempo, se transforma, passa a outra coisa, subverte a dolorosa imposição do acaso – ou de Deus.
MAYRANT GALLO. Ensaio publicado no Correio da Bahia, em 14/12/2003.

A vida por um Fio




A cadeira de espaldar derreava-se na varanda da casa grande.O varandado : uma bocarra sorrindo escancaradamente para o mundo. De longe, a casa erguida estrategicamente, no alto, parecia um observatório privilegiado. A cadeira como que aguardava, tácita, um astronauta, pronto a tomar assento, para uma viagem espacial. A paisagem adiante : um sertão marciano pleno de crateras, um mar da tranqüilidade acoimado pelo cinza . Ao canto um fícus teimava em emprestar um pouco de verde à insípida xilogravura natural. A vida imersa na sinfonia de uma só nota : Sol!
Sem que a crua unicidade da paisagem se turve, a mulher refestela-se na cadeira e fita o horizonte com olhos vagos que mergulham mais no insondável abismo interior que na brusca infinitude do universo. Cabelos longos caindo à cintura , mechados pela aquarela do tempo.Brota-lhe uma quase imperceptível inquietude: como uma mosca num centro cirúrgico.A aridez, a sequidão exterior transpareciam ser apenas uma extensão do deserto que lhe incendiava as entranhas. O mesmo saara descomunal engolia a fauna,lambia a flora , empalhava as almas. Num esgar mecânico, as mãos trêfegas dedilharam alguns fios do longo cabelo que numa cascata irregular lhe caia ao colo. Pertinazes , como que debulhando religiosamente os mistérios do terço, os finos dedos, marcados por unhas de um vermelho opaco, sem viço, terminaram por escolher, aleatoriamente, um longo fio da mecha . Os olhos, súbito, contraíram um brilho estranho e se fixaram, hipnoticamente , naquele fiozinho. Diria-se tratar-se de uma revelação: como Maria bafejada pelo Anjo ou Carter frente a Tutancâmon.
Dedilhou , cuidadosamente, o fio como se tocasse uma ária numa intangível flauta transversal. Aos poucos, o mundo ao derredor se foi esmaecendo. Seguiu o fio que lhe desvendava , estranhamente, meandros da sua existência, de há muito esquecidos. O rolo de um filme se foi projetando a sua frente. A tortuosidade do fio , na raiz do cabelo,já enovelado um dia em feitio de trança, a conectou com a visão da praça da matriz, fervilhando de gente. Como arrancou aquela imagem da infância e, mais, colhida de cima da roda-gigante ? Um pouco adiante, aquela discretíssima pinta acaju, a fez saltar, como mocinha, para o portão da casa grande, em noite de lua cheia: ainda umedeceu os lábios ao sentir o beijo adoçado pelo tesão e pelo medo. Ah! E este esgarçamento quase que imperceptível aqui um pouco adiante? O filho lhe chorava inconsolável nos braços e a porta semi-aberta, esperando alguém que jamais retornaria.Deteve-se , algo maravilhada, percebendo um discreto tom jambo, no fio e ainda , cerrando um pouco o olhos, dançou os últimos acordes de “Only You”: lá fora chovia , uma chuvinha anunciadora de bonança e temporal. A partir daqui, vejam, respingos de névoa teimam em salpicar o cabelo. As imagens, acompanhando o brusco orvalhar do fio, já se projetam em flashs quase que estroboscópicos: a rua deserta, o suor que escorre, o decúbito dorsal, a lágrima rubra, a solidão, o entreabrir estonteante do girassol. Stop ! Uma mão oculta apertou a tecla do controle remoto do tempo. Do finalzinho do fio brotou a imagem que lhe paralisou a retina. Uma folha de manacá se desprega do galho e, em vertiginoso rodopio, mergulha para o abismo. Os dedos da mulher se contorcem e o fio se desgarra da raiz como que imitando o vôo da folha.O vento carrega o fio, mas leva lhe junto estilhaços de vida. Ela percebe , claramente: Ariadne lhe cortou os caminhos e veredas e agora estará ali, indefesa: a mercê das circunvoluções do labirinto e da voracidade do Minotauro.

Sinto que o mês presente me assassina


Sinto que o mês presente me assassina,

As aves atuais nasceram mudas

E o tempo na verdade tem domínio

sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,

Corro despido atrás de um cristo preso,

Cavalheiro gentil que me abomina

E atrai-me ao despudor da luz esquerda

Ao beco de agonia onde me espreita

A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina

E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas

De apóstolos marujos que me arrastam

Ao longo da corrente onde blasfemas

Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,

Há luto nas rosáceas desta aurora,

Há sinos de ironia em cada hora

(Na libra escorpiões pesam-me a sina)

Há panos de imprimir a dura face

À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,

Os derradeiros astros nascem tortos

E o tempo na verdade tem domínio

Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio

Amen, amen vos digo, tem domínio

E ri do que desfere verbos, dardos

De falso eterno que retornam para

Assassinar-nos num mês assassino.
Mário Faustino

Saudade mata a gente? O caralho que mata!! Se bem que machuca valendo.

Oh yes, estou no trampo, uma lata de cerveja esfria minha mão. Porra, é domingo. Bem que minha mãe dizia: - estude! -.

Tô aqui hoje, e o rio que querem transposto corre... meio urina, meio lixo, quase esgoto.

Penso: A quem interessa esse rio morto? Poetas não querem. Mas não fazem nada.

E os engravatados de Brasília saúdam a entrada triunfal de ACM no inferno. O diabo em pessoa veio recebe-lo, com todas as honras de um chefe de estado. Saudade é foda. Estou com saudade dos caras daquela foto que o Rafael colocou, de punta de la sierra... quero um Jack daniel´s, quero ouvir um poema de Geraldo urano, escutar as fofocas de zada sobre quem tá dando, beber uma... dose tão absolutamente escrota, que me coloque de novo na cloaca do tempo. Quero tudo de novo.

Now.

Saudade é foda.

sábado, 21 de julho de 2007

Notícias do RIO PAN 2007 !

A cubana Regla Torres (esta belíssima que me abraça na foto) é uma das poucas jogadoras de vôlei - ao lado de suas companheiras de equipe: Mireya Luis Hernández, Regla Bell, Lilia Izquierdo, Marleny Costa e Idalmis Moya - a ganhar três medalhas de ouro olímpicas (Barcelona-1992, Atlanta-1996 e Sydney-2000), além de dois títulos mundiais. Nascida em Havana em 12 de fevereiro de 1975, Regla começou a praticar vôlei quando tinha apenas oito anos, incentivada pela mãe. Suas excepcionais condições físicas a levaram para a seleção cubana aos 14 anos de idade. Estreou nos Goodwill Games de 1990, em Seattle. Junto a sua companheira de equipe, Mireya Luis - outra atleta superdotada - foi a estrela de uma equipe cheia de jogadoras talentosas. Atacante por vocação, sempre se destacou nas quadras pela garra e a disciplina com que encarava os jogos e os treinamentos. Na sua estréia olímpica, em Barcelona-1992, ainda inexperiente, teve que assumir a difícil tarefa de substituir outra atacante histórica da seleção cubana: Mercedes Calderón. A opção do então técnico cubano, Eugenio George, de deixar Calderón no banco, se mostrou acertada. Regla Torres entrou na final contra a CEI e decidiu a partida. Com isso, tornou-se a mais jovem jogadora de voleibol a ganhar uma medalha de ouro olímpica.Um ano depois, integrou a equipe cubana no Mundial de juniores, disputado no Brasil. Comandou a equipe que venceu a Ucrânia por 3 a 0 na final. Seguiram-se vitórias no Mundial de 1994, na Copa do Mundo de 1995, e as medalhas de ouro nas Olimpíadas de Atlanta e Sydney, além de vitórias no Grand Prix de 1993 e 2000. No ano 2000, a Federação Internacional de Voleibol (FIVB) a escolheu como a melhor jogadora do século 20. Paralelamente à sua carreira de jogadora de vôlei, trabalha como modelo nas tradicionais Festas do Charuto realizadas anualmente em Havana. Atualmente, apesar das múltiplas lesões no joelho, continua na ativa preparando-se para sua quarta Olimpíada.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Band on the Run


Quem são eles?

Uma dose de Jack Daniel's para quem acertar

A Idade da Loba

Definitivamente
Não dá pra servir a dois senhores
Não dá para agradar a todos ao mesmo tempo
Se a mãe quer sorvete
Os filhos querem boliche
Gregos e troianos
Em uma guerra que parece não ter fim
Somente um cavalo-de-pau
Bem grande e com um apelo irresistível
Pode forçar uma derrota mas nunca uma rendição
Vivemos, pois, a terrível era do lobo
Onde o homem e sua loba
Devoram-se mutuamente

O anão triste

Hilda Hist

De pau em riste
O anão Cidão vivia triste
Além do chato de ser anão
Nunca podia meeter o ganso na tia nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:O porongo era longo feito um bastão.
E quando ativado virava... a terceira perna do anão.
Um dia ... sentou-se o anão triste numa pedra preta e fria.
Fez então uma reza que assim dizia:
Se me livrasses, Senhor, dessa estrovenga
Prometo grana em penca pras vossas igreja.
Foi atendido.
No mesmo instante evaporou-se-lhe o mastruço gigante.
Nenhum tico de pau nem bimba nem berimbau pra contá o ocorrido.
E agora
Além do chato de ser anão sem mastruço, nem fole
Foi-se-lhe todo o tesão.
Um douto bradou: ó céus! Por que no pedido que fizeste
Não especificaste pras Alturas que te deixasse um resto?
Porque pra Deus, o anão respondeu,
Qualquer dica é compreensão segura.
Ah, é, negão? então procura.
E até hoje sentado na pedra preta
O anão procura as partes pudendas...Olhando a manhã fria.

quinta-feira, 19 de julho de 2007


cult´s cariris

exilados com montanhas no lugar do coração

chora tanque em meus olhos

cachoeiras de missão velhíssima em meus vômitos de vinho e anfetaminas poderosas

saudade

sé na craterdã adolescente e minha

bebo cariri

fumo cariri

ad infinitum.

Até que enfim!

Eu te procurei no meu coração e não te encontrei. Aí... montei meu blogspot e você veio no primeiro download.A gente estava perdido ou andávamos em paralelas? Bom mesmo é que mesmo sem o cheiro, o toque, os gritos e sussurros e tudo e mais... Enfim, sobrevivemos às intempéries desse tempo invocado (os loucos sobrevivem!) e nos prometemos um pouco mais de arte e poesia pela vida a fora.

Fim de Semana em Craterdã (Final dos Anos 80)


Para Luiz Carlos Salatiel e Calazans Callou

Que tal, esta noite, ouvir uma jam session, com Normando e Nicodemos, no Batente, sob o luar?Antes, porém, vamos tomar uns tragos, na Praça da Sé, no Silvanir Bar. Lupeu, com certeza, estará lá, depois de uma cansativa semana de trabalho, depois de cumprir exemplarmente o seu digno ofício de carteiro. Quem sabe, ele trará Catarina! E eu darei a ela um bottom de Elvis Presley, feito por Jerry, aquele que tem um pai que tem uma deliciosa aguardente envelhecida numa ancoreta de pau-vermelho. Desceremos a serra direto para o Xá-de-Flor. Lá vamos encontrar toda a rapaziada celebrando a noite ao som de um repertório quase tão antigo quanto o velho casarão que abriga antigas rapaziadas. Amanhecendo, na minha Yamaha TT amarela, vamos amenizar a ressaca, com um terapêutico banho na fonte da Pedra da Batateira, reviver um ritual de ancestralidade cariri. Para recuperar as forças e o sono perdido. Dormiremos um pouco, ainda, aturdidos, equilibrando-nos nas ruínas do Tancão, lugar sagrado para os guerreiros da tribo. Mais do mesmo, vamos tomar um sonrisal no Bar do Wilson, no sítio Rosto. Não tendo mais para onde ir, sempre resta um lugar: a casa de Luís Cláudio e Ana Rosa, jogar umas partidas de xadrez, com cerveja e tira-gosto. Eles estarão sempre lá, hospitaleiros, esperando os comensais costumeiros . Mas não há tempo para cochilos. A tarde avança. Estamos novamente ébrios: in vino veritas. Um compromisso nos chama: ensaio da banda Lerfa Mu, ao fim-da-tarde, na Oca de sala e banheiro, Praça da Sé, Altos, defronte à praça, decorada com uma bandeira verde com o v no meio. Tragos iniciais, riffs de guitarras, tambores incessantes marcando o ritmo de Lupeu escrachando: cassetetes elétricos, quebrando lombras, ossos, sonhos!


(Intervalo)

Descem todos para o Silvanir Bar. Molhar a garganta. Espiar a paisagem urbana e ouvir outras músicas urbanas. Mais uma noite mergulha no vale. Mais uma noite tranqüila de sábado. O melhor, talvez, é ir descansar. De preferência em braços companheiros que nos abraçam sorrateiros...

Tristeza de Passarinho

de Geraldo Urano

Nas asas de um passarinho
Eu vi a morte chegar

Nunca mais cantou direito
Sumiu, mergulho no mar

Das rosas da minha roseira
As pétalas todas caíram

No deserto do meu peito
O sol nunca mais surgiu

Por causa do passarinho
Velho amigo que partiu




(poema musicado por LCSalatiel)

Dama da Noite

Caio Fernando Abreu
Para Márcia Denser
"E sonho esse sonho que se estende em rua, em rua em rua em vão."
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão? Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me dil que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

A Namorada



Manoel de Barros


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa porum cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

Texto extraído do livro "Tratado geral das grandezas do ínfimo", Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, pág. 17.HA

Canção de Mim


Walt Whitman

1
Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim,
E o que assumo, tu assumes,
Pois todo átomo pertencente a mim
também pertence a ti.
Vagueio e convido minha alma,
Me curvo e vagueio à vontade e observo uma haste de grama do estio.
Minha língua, todo átomo de meu sangue, formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais daqui, e seus pais também,
Eu, trinta e sete anos, em perfeita saúde inicio,Esperando não cessar até a morte.
Credos e escolas suspensos,Recuando um momento satisfeito com o que são, mas nunca esquecido,
Ancoro para o bem ou mal, permito falar sob todo risco,
Natureza sem controle com energia original.
...

O véi mané sinhô!



(fragmento da peça " A Terrivel Peleja de Zé de Matos...", de JFlávio Vieira, encenada pela Cia. Oca de Teatro, com mais de 30 apresentações nos palcos do Ceará, sucesso de público e crítica e que ainda não recebeu qualquer convite para apresentação do Teatro Municipal do Crato. Por que?)




Entra em cena, assombrado, o velho vaqueiro Mané Senhor, contando uma história complicada que tinha visto um bicho enorme na serra do Araripe e que por pouco não o comeu.


Mané Senhor:

Me acuda seu Zé de Mato,
Eu tava na serra do Crato,
Caçando lá uns tatu,
Quesado que Deus me deu !
Pois um bicho apareceu
E quase me come cru.


Um Bêbado :

Temos aqui dois artistas,
São uns dois especialistas,
E vão fazer um favor,
Quesado e Zé de Mato,
Que bicho foi que de fato
Quaje come o véi Senhor ?


Luiz Quesado :

O Véi Mane Sinhô
[1]
Tava no mei do deserto,
Dormindo de cu aberto,
Chegou um bicho e entrou.
Saiu e depois voltou,
Ficando nele encerrado,
Esse bicho era pelado,
Chato, ocado e rombudo,
E tinha o pé cabeludo.

Zé de Matos :

O bicho não é de osso, 2
De carne também não é,
Não tem perna mais tem pé,
Não tem braço e tem pescoço,
Ora está fino ora grosso,
Tem capa mas anda nu,
Não tem rabo ele é suru,
Carrega os ovos num saco,
Em falta de outro buraco,
Ele se esconde no cu.

Luiz Dantas Quesado :

O bicho é feito de mola,
[2]
E traja chapéu de couro,
Não come e vomita soro,
E tem a cabeça de sola.
Se alguém seu nome ignora,
Diz o Braz italiano,
Que passando em Pacatuba,
Viu alguém por lá chamando,
Este bicho de Manjuba.

Zé de Matos :

Vomita o que não engole, 2
Fica triste quando come,
Eu não sei dizer-lhe o nome,
Mas disse a veia Chica,
Se a capa for de pelica,
Formado por natureza,
Pode afirmar com certeza:
Que o nome do bicho é pica.


O Velho Mane Sinhô sai revoltado, sob os apupos gerais e finda a segunda estripulia.

[1] Oitava de autoria de Luiz Dantas Quesado, citada por Jurandyr Temóteo O Cômico, o satírico e o erótico na literatura do Cariri, de 1986.

[2] - Oitava do poeta Pio Carvalho, citada por Jurandyr Temóteo O Cômico, o satírico e o erótico na literatura do Cariri, de Jurandyr Temóteo- 1986.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Eu e o Teatro

Como de hábito, eu me antecipo aos horários marcados e fico monitorando a chegada de todo o grupo - o que não me deixa mais tranqüilo. No adiantado da hora aproveito para checar toda a bagagem que envolve diretamente o espetáculo: figurino, material cenográfico, adereços, etc. Tudo certo! São quase dez da noite e ainda faltam dois atores e um dos músicos. O espetáculo envolve quinze pessoas entre atores, músicos e técnicos. Até que enfim partimos já perto das onze. O ônibus é bem confortável, com ar-condicionado e cadeiras reclináveis, bem apropriadas para esta viagem de dez dias com o espetáculo em apresentações pelo interior e capital do Ceará. “O Zé de Matos...” é um grande espetáculo! Uma ode ao poeta Zé de Matos e ao Crato! É muito bom ter o reconhecimento do público e da crítica, o que nos motiva para tais enfrentamentos com um cachê mínimo. Tudo pela arte! Foram, pelo menos, dois anos entre as primeiras leituras do texto original e a montagem definitiva. Um tempo de experiências trocadas, encontros, desencontros, tensões, psico-dramas, êxtases, sublimações e tudo o mais que envolve uma “saudável guerra” de egos entre os atores e a direção do espetáculo. A viagem promete. Muitas horas de viagem nos separam de Sobral, nosso primeiro palco. Nas primeiras tudo é festa: o repertório de piadas imorais é aberto; muitas cervejas são tomadas; entoam-se algumas músicas do espetáculo até que o sono chegue já de madrugadinha. Eu continuo ansioso e insone. Tudo bem. Aproveito o momento para ativar algumas lembranças dessa minha vida que a cada dia se parece mais com um espetáculo sem roteiro pré-escrito, mas representado diuturnamente. O que fiz da minha vida (ou o que a vida fez de mim?) até aquele exato momento em que me vejo apreciando um céu estrelado e uma lua crescente através do vidro fumée da janela de um ônibus com esta trupe da OCA-Cia de Teatro em excursão pelo interior cearense.
Devaneio. Anos 50. Lá em casa, no Araripe/CE, lembro-me bem dos ensaios de pequenas dramatizações que minha mãe fazia com alunos do Grupo Escolar Neomísia Nogueira de Lima, onde era diretora, e, em especial, um número musical do “Meu chapéu tem três bicos, tem três bicos o meu chapéu..., etc.“. Eu achava muito engraçado quando, no final, murmurava-se a música e os gestos se destacavam. Eu tinha apenas quatro anos de idade e já prestava atenção nas “esquisitices” tão próprias da arte.
Em 1959, nossa família (pai, mãe e dez irmãos) migrou para a terra do “meu padim, padre Cícero”. Meu pai fora nomeado inspetor da Sul América Seguros e teve que montar escritório em Juazeiro do Norte. Eu já tinha cinco anos. Com sete tive a minha primeira experiência como “ator”: representei um dos porquinhos daquela fábula que tem o lobo-mau como grande vilão, numa encenação de fechamento do ano letivo no Grupo Escolar Pe. Cícero, onde fiz o primário. Daí em diante, o fascínio pelo teatro tomou conta da minha vida e foi preponderante na formação de minha personalidade. Aquela manhã mágica e numinosa carrego sempre comigo todas as vezes que adentro o palco.
Adolescente ainda, aos quinze ou dezesseis anos, já fazia parte do meu repertório representações de textos de Bertold Brecht, Ariano Suassuna, Luiz Carlos Martins Pena, Millôr Fernandes e outros, ao mesmo tempo em que cantava Geraldo Vandré, Edu Lobo, Chico Buarque e recitava Ferreira Gullar, Tiago de Melo, no Grupo Desafio – integrado por adolescentes que se utilizavam da arte como meio legal de protestar contra os tempos de exceção em que vivia. Ainda, sem negligenciar os afazeres escolares, conseguia ser crooner da banda de baile The Hunters.
Depois, residindo no Crato, com a grande amizade, parceria e a poética de Geraldo Urano escrevi esquetes de teatro com temas pacifistas, representadas em creches e ambientes católicos da cidade. Nos Festivais da Canção do Cariri que juntos idealizamos - celebrações de amor à música, à liberdade e à paz que integravam as diferentes gerações da Região do Cariri, ao Sul do Ceará e levados a efeito pelo Movimento de Juventude e depois pela SCAC - Sociedade de Cultura Artística do Crato - fomos muitas vezes premiados com o grupo O Cacto e com ele o reconhecimento como grande intérprete, ou seja, um ator que sabia cantar.
Outras experiências foram somadas às anteriores. Curiosa, entretanto, foi a minha participação num curso de férias da Pro-Arte, em Teresópolis-RJ em 1974. Dirigido por um diretor carioca, Nino, que fazia parte da Cia.de Procópio Ferreira, pai da fabulosa Bibi Ferreira, fui Yokannan na peça Salomé de Oscar Wilde. A minha interpretação impressionou tanto que recebi convite para aquela companhia de teatro. Eu só tinha vinte anos e não tinha nenhuma autonomia para tomar decisão de tamanho porte; no Recife, trabalhando no BB e cursando Arquitetura (1976), empenhei-me em musicar a peça Canção de Fogo, de Bráulio Tavares; em Fortaleza(1980/81), produzi, montei e atuei, com Javan Franco, o espetáculo Dois Homens na Mina, do colombiano Henrique Buenaventura e com Rosemberg Cariry articulamos o jornal e movimento Nação Cariri; no Rio de Janeiro, administrando com eficácia o meu tempo de trabalho no BB, freqüentava as oficinas para ator no Circo Voador (anos 80) e foi nessa época que eu e minha amiga Sônia Oliveira, estudante de teatro da Unirio, concebemos o texto teatral Sonhos Crescentes e Minguantes numa Noite de Lua Cheia, texto premiado pela SBAT- Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, por merecimento, e representado em algumas praças cariocas.
De volta ao Cariri, mais precisamente ao Crato/CE, já no final dos anos 80, as minhas incursões no teatro se deram nas oficinas que promovemos na OCA - Officinas de Cultura e Artes & Produtos Derivados. Este trabalho resultou na montagem do espetáculo musical Soy Loco por ti América Latina, escrito e protagonizado por mim e que, sem dúvida, teve na performance teatral o grande diferencial e real motivo do tocante sucesso no interior e na capital cearense.
Mais uma vez, ao lançar o meu CD Contemporâneo com um show ainda em circulação, tomo emprestado do teatro a luz, o cenário, a musicalidade e um texto vigoroso que dá amplitude ao meu trabalho de ator. Em novembro de 2004, com o grupo de teatro da OCA, surpreendemos o caloroso público da Mostra SESC de Teatro/2004 na impagável leitura dramática do texto A Terrível Peleja de Zé de Matos contra o Bicho Babau nas Ruas do Crato, de J. Flávio Vieira. Esta atuação favoreceu a publicação do texto e propiciou esta nossa montagem do espetáculo e, por conseguinte, esta pequena tournée.
Estreamos na Mostra Cariri das Artes, novembro 2005, o público ficou surpreso com o formato do espetáculo. Estréia impactante! Fomos aplaudidos de pé e...
Ainda embevecido pelos aplausos, acordei. O ônibus já estacionava de frente ao Teatro São João de Sobral. Ao trabalho!

En(tarde)ser

Retratos do tempo mofados pelas lembranças
Uma Luz que penumbra a vida quer escapar de nós


Profundo silêncio moldura a imensa tristeza




E a solidão
Que ora abraça o meu coração
No entardecer desse dia tão cansado
Ai! Minha alma devota
Reza e pranteia a tua ausência
Desencanto no cristal dos meus olhos refletido


Suspiros de tempo
Tempo não há! Tudo é: tarde ser!




(poema já musicado)