TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sábado, 26 de janeiro de 2008

A Chave


Herman Hesse, nascido na Alemanha em 1877, partiu deste mundo em 1962, aos 85 anos. Ele deixou uma vasta e sólida obra literária que o levou ao Nobel de literatura em 1946. No vendaval de mudanças dos anos 60, sua arte teve uma profunda sintonia com a geração libertária do pós-guerra. Romances como “Sidharta”, “O Lobo da Estepe” e “ O Jogo das Contas de Vidro”, tornaram-se verdadeiras bíblias dos hippyes, dos beats e dos estudantes. Lembrei-me de Hesse neste sábado que finaliza uma semana mais triste que as habituais, embora , estranhamente , preceda ao período momino. O que preenche uma vila, imantando-a de uma alma ? Os poetas, os loucos, os boêmios. Quem lhe forja no entanto o caráter e a personalidade são seus educadores. O professor tem nas mãos a possibilidade única de construir o futuro, de moldar os dias que virão. E ele não consegue isto ensinando. Ensinar é apenas uma pequena face do complexo polígono que é a educação. O verdadeiro mestre tem a divina capacidade de apertar os interruptores das habilidades e vocações dos seus alunos. Adolescentes na encruzilhada de suas vidas, ante todas as intempéries e vicissitudes do futuro que se lhes abre sensualmente à frente, de repente percebem, as placas de trânsito que sutil e anonimamente lhes vão sendo colocadas nos caminhos e veredas por seus mestres. Percebo claramente que se hoje exerço bem ou mal a Medicina devo isto a uma das minhas mestras do ensino médio. Pensei tantas e tantas vezes em seguir outras carreiras como : jornalista, engenheiro ou professor como meus pais. Devo o médico que sou nos dias atuais à professora Ivone Pequeno que me abriu os horizontes encantadores da Biologia e terminou por me levar a seguir os rumos da Saúde. Pois bem, Hesse veio-me à mente por uma das suas mais famosas frases e que tão perfeita e visionariamente explica a verdadeira arte que é ensinar : “Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.”
Herman Hesse, hoje injustamente esquecido, renasceu no meu espírito quando , com toda consternação deste mundo, observamos o vôo de pássaro do querido professor Aguinelo Damasceno. Todos que o tiveram como mestre se recordam das mais fortes facetas da sua personalidade. Organizadíssimo, preparava as aulas com um esmero inimaginável. Tinha mapa de classe, numa época em que sequer se havia pensado nesta geografia pedagógica. Comprometido com sua árdua profissão, nenhum aluno seu consegue registrar uma única aula vaga do mestre e até mesmo um simples atraso. Trabalhava na escola pública com um vigor e uma determinação que não se vê nem nos colégios pagos. Além de tudo mostrava-se sincero ao extremo com seus pupilos, qualquer questão que por acaso não tivesse uma resposta pronta na hora, simplesmente informava da impossibilidade de solucioná-la naquele momento , mas na próxima aula traria a correta resposta à pendência, o que cumpria de forma britânica. Talvez por isto mesmo fosse tão respeitado e estimado por todos seus discípulos. Conseguia de forma doce e cordial ter a necessária autoridade sobre hostes de jovens acicatados pelos hormônios da adolescência, sem ter necessidade, em nenhum momento, de se fazer autoritário. Muitos engenheiros cratenses hoje despertaram para arte pelas mãos sábias do professor Aguinelo Damasceno. Ele envelheceu com a placidez beneditina dos sábios e soube com a mesma sapiência com que colheu os opimos frutos da juventude, juntar as folhas ressequidas da vida e com elas fazer o fogo que veio arrefecer o frio inverno da velhice. Talvez a mais duradoura imagem que nos fique do professor Aguinelo seja justamente o da pasta maravilhosa que trazia para todas as aulas. Parecia a cartola de um mágico e ali colecionava um sem número de utensílios. Alguém se acidentava , ele sacava esparadrapo e gaze. A cadeira de alguém quebrava, o professor tirava da pasta mágica martelo, parafuso e chave de fenda. A luz da sala queimava, ele tirava uma outra da bolsa encantada. Para os roucos : pastilhas; para os assanhados: pentes e grampos; para os famintos : frutas e biscoitos; para os nauseados o plasil; para as dores de barriga: constipantes. O mestre sequer percebia que suas artes de Mandrake iam bem além dos simples utensílios e ferramentas. Dali de dentro ele tirava as chaves que abriram muitos e muitos caminhos e luzes que iluminaram o mundo de tantos. Ele conseguiu tornar nítidas e visíveis as mais coloridas imagens que existiam na alma de um sem número de discípulos. Seguindo os preceitos de Hesse, o professor Aguinelo exerceu suas artes de ilusionista e sem que ninguém se apercebesse foi pouco a pouco nos dando aquilo que havia de melhor em cada um de nós. O mundo fica mais pobre de perspectivas e ilusões quando agora se fecha o zíper da sua pasta miraculosa.

J. Flávio Vieira

Enquanto a bandeira imperial tremulava ao sabor dos nossos ventos...


Castro Alves

I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço Brinca o luar — dourada borboleta; E as vagas após ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro... O mar em troca acende as ardentias, — Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano, Azuis, dourados, plácidos, sublimes... Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas, Veleiro brigue corre à flor dos mares, Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora Sentir deste painel a majestade! Embaixo — o mar em cima — o firmamento... E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros, Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem, livre poesia Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, E o vento, que nas cordas assobia... ..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano, Tu que dormes das nuvens entre as gazas, Sacode as penas, Leviathan do espaço, Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço, Donde é filho, qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor, Lembram as moças morenas, As andaluzas em flor! Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente, — Terra de amor e traição, Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso, Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio, Que ao nascer no mar se achou, (Porque a Inglaterra é um navio, Que Deus na Mancha ancorou), Rijo entoa pátrias glórias, Lembrando, orgulhoso, histórias De Nelson e de Aboukir.. . O Francês — predestinado — Canta os louros do passado E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos, Que a vaga jônia criou, Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou, Homens que Fídias talhara, Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu ... Nautas de todas as plagas, Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra, E após fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N'alma — lágrimas e fel... Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas, Das palmeiras no país, Nasceram crianças lindas, Viveram moças gentis... Passa um dia a caravana, Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus ... ... Adeus, ó choça do monte, ... Adeus, palmeiras da fonte!... ... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso... Depois, o oceano de pó. Depois no horizonte imenso Desertos... desertos só... E a fome, o cansaço, a sede... Ai! quanto infeliz que cede, E cai p'ra não mais s'erguer!... Vaga um lugar na cadeia, Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d'amplidão! Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm'lo de maldade, Nem são livres p'ra morrer. . Prende-os a mesma corrente — Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão. E assim zombando da morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!... Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa... chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Não é só a bandeira....

Ainda por conta da nota postada pelo prof. Océlio Teixeira, sobre a atual bandeira do Brasil, deixamos aqui uma enquete:
Qual o Escudo de Armas do Brasil mais bonito? o atual, da República (com a estrela) ou o antigo, da Monarquia (com a coroa )?
A resposta pode ficar só para você mesmo...


Clique aqui para ver ampliado!







DUAS CRÔNICAS DE PEDRO ESMERALDO

Crato precisa de novos líderes

Em priscas eras, Crato foi bafejada pela sorte. Seus filhos ilustres exerceram papel relevante na esfera sócio-político do país. Desempenharam com habilidade e bravura todas as causas referentes a independência e a liberdade. Deram a esta cidade destaque em ampla região nordestina. Iluminados pela força de energia positiva trouxeram melhoramentos, galgando com muita ênfase de um progresso acentuado.
À custa de seu trabalho ativo conseguiram trazer pequenas indústrias, enlarguecendo o caminho do emprego, que foi o pilar do adiantamento favorável ao crescimento equilibrado.
Anteriormente, esta cidade foi grande produtora da cana de açúcar apoiado, pelo reforço do trabalho de seus filhos, manteve-se o centro de apoio comercial da região do Cariri.
Hoje, não temos mais aquela energia física e mental, tudo isso causado pela fraqueza dos nossos líderes, pois com a queda da cana de açúcar já que não souberam orientar os agricultores para modernização técnica de fabricação da rapadura. Daí então Crato caiu no esquecimento político.
Observamos que devemos partir para outras atividades, após a queda da rapadura, devemos substituir pela criação do gado leiteiro. Para isto, basta empurrar o barco, que seremos contemplado com a força do trabalho. Com toda certeza sairemos desta dificuldade. Por certo, aliviaremos a economia afastando-se da pobreza com o fantasma do desemprego.
Se assim fizermos, com força de vontade, afastaremos essa velharia antiquada de nossa administração, substituindo por pessoas dignas seguindo com dignidade avançaremos uma economia ativa, cobrindo de glória, evitando o desequilíbrio financeiro desta região.
Afirmamos que ultimamente, temos muita dificuldade, tudo isto causado pelo desequilíbrio de alguns políticos que permanecem numa acefalia que não é bom falar.
Contudo não há motivos de esmorecermos, temos de lutar e partir para a guerra, com fé e perseverança chegaremos lá.

22/01/2008


Mensagem de Otimismo

Soltamos fogos após o encerramento da apuração de conjunto de votos que o eleitor cratense depositou nas urnas no ano de 2004. Vibramos pela queda de uma oligarquia arcaica que assolava esta cidade.
Por sua vez, voltaremos a repetir esse mesmo ato de rebeldia, se este prefeito continuar com alguns secretários indiferentes, ficando alheio ao desenvolvimento, prejudicando a administração no seu bom desempenho.
Observamos o povo revoltado e desanimado com essa equipe que, até agora, nada fez pelo desenvolvimento do Crato, Suas ruas esburacadas e calçamentos defeituosos impedem o trânsito livre e satisfatório. Para se ter uma idéia da situação dessas vias públicas, há ruas abertas e calçadas pelo ex-prefeito Ariovaldo Carvalho. Queremos afirmar que esses dignos chefes políticos fazem vista grossa e não cuidam de solucionar os problemas com determinação e equilíbrio de força.
Toda administração deve perceber que o bom andamento do seu trabalho depende de sinceridade e qualidade social. A nosso ver, o bom administrador deve ser assessorado por bons secretários, que sejam dignos e tenham amor ao trabalho e consideração aos seus correligionários.
Não esqueceremos jamais das diabruras do secretário de educação que, por pirraça, fechou a escolinha Maria Amélia do Sítio São José. Essa referida escola foi construída pelo ex-prefeito Pedro Felício, serviu de elo cultural de jovens e adultos livrando o pessoal do analfabetismo. Por isso esse secretário deveria ter mais atenção e procurar solucionar o problema, dando condições àquelas crianças estudarem em sua própria localidade.
Por essa razão, queremos lembrar ao ilustre homem público que devem ser colocados para assessorá-lo pessoas capacitadas e versáteis em sua área e não gente vindo de outra parte, sem entender nadinha “no assunto escolar”.
É necessário que haja uma mudança no quadro administrativo, extinguindo algumas secretarias, pois assim poderemos respirar melhor e elevar o Crato com o trabalho sério, determinado, avançado principalmente na educação e na saúde.
Infelizmente, esse prefeito prometeu mudar a face do Crato, mas não teve sorte na escolha de alguns secretários. Esperamos melhores dias, substituindo os mais fracos e que traga desempenho com trabalho eficiente.
Temos que dar condições favoráveis ao trabalhador cratense, trazendo pequenas indústrias que aliviem o homem do fantasma do desemprego.
Faça isso, senhor Prefeito, pois temos certeza de que, com coragem, futuramente alcançará grande alegria.

Crato-CE, 22.01.2008

A atual bandeira do Brasil é feia?

Para atiçar mais lenha à fogueira - quanto a nota publicada pelo prof. Océlio Teixeira sobre a atual bandeira do Brasil - transcrevo abaixo dados sobre a Bandeira do Brasil Império.




Bandeira do Império (1822-1889)


Bandeira do Império, adotada em 1822

Nesse dia - um sábado de céu azulado -, recusando-se obedecer as ordens das Cortes Portuguesas, D. Pedro, às margens do riacho Ipiranga (Rio Vermelho - do tupi), em São Paulo, proclamou a emancipação política do Brasil. Depois de proferir o brado de "Independêcia ou Morte!" e de ordenar "Laços Fora!", arrancando do chapéu o tope português, exclamou: "Doravante teremos todos outro laço de fita, verde e amarelo. Serão as cores nacionais".

No dia 18, D. Pedro I firmou os três primeiros atos oficiais do Brasil independente.
No segundo decreto, decidiu criar um novo tope nacional e ordenou: "O laço ou tope nacional brasileiro será composto das cores emblemáticas: verde de primavera (cor da Casa de Bragança) e amarelo de ouro (cor da Casa dos Habsburgos, da Imperatriz Leopoldina)...."

Escudo do Brasil Império, com os ramos de fumo e café, as
estrelas/províncias, a cruz de Cristo e a esfera armilar lusitana


Escudo do Brasil Império, com os ramos de fumo e café, as estrelas/províncias, a cruz de Cristo e a esfera armilar lusitanaO terceiro decreto, publicado em 21/9/1922, criou a Bandeira Nacional: "... hei por bem e com o parecer do meu Conselho de Estado, determinar o seguinte: será, dora em diante, o escudo de armas deste Reino do Brasil, em campo verde, uma esfera armilar de ouro, atravessada por uma cruz da Ordem de Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abraçados por dois ramos de plantas de café e tabaco como emblemas de sua riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte inferior pelo laço da nação. A bandeira nacional será composta de um paralelogramo verde, e nele inscrito um quadrilátero romboidal cor de ouro, ficando no centro deste o Escudo das Armas do Brasil".


A visão pendular da história

O megaespeculador George Soros

No subentendido do histórico jornalístico, inclusive do detalhismo dos debates diários, encontramos a idéia que ocorre um efeito de pêndulo nas diretrizes da vida prática das sociedades. No passado remoto pelos mares da velha Albion o liberalismo econômico expandiu-se, foi sucedido pelo dirigismo estatal, retornando ao mercado livre, aplicado o Keynesianismo estatal para mover a economia estagnada e depois o neoliberalismo. Agora mais simbólico, porém extremamente contundente para a vida social. Simbólico posto que o neoliberalismo é monetário (financeiro) e nada é mais mitológico que o dinheiro, assim como não se encontram escritas gráficas na natureza, a moeda é imagem humana, eles, e se estiverem em acordo, acreditam nela. Mas a história avança, pela própria recriação das essências determinadas pela existência, assim como pelo "metabolismo" da natureza em busca de novo equilíbrio por ação humana ou não.

Se a história avança, não temos como pensar em efeito pendular, pois tal movimento subentende a materialidade imutável do próprio pêndulo. Isso, numa abordagem de primeira linha, pode significar apenas a forma como os mecanismos institucionais criados pelo capitalismo funcionam. Do ponto de vista institucional o capitalismo nasceu dual: estado e sociedade. O estado, embora uma organização para sustentar o capitalismo, tem grande impacto que se forma com burocracia, formação e aplicação de regras e depois com acúmulo de riquezas pelos impostos. Na outra ponta, a que de fato faz mover o mecanismo pendular, se encontra a sociedade. Que é ponto pacífico, não é homogênea, se organiza em classes sócio-cultural-econômicas. A energia que leva o pêndulo para um lado ou outro, mais ação do Estado ou não, se encontra no entrechoque das classes.

No capitalismo, até os dias de hoje, existiram rupturas profundas em decorrência do entrechoque, mas tudo indica que um salto realmente revolucionário, superando o pêndulo do capitalismo, ainda não tenha ocorrido. Ocorrerá um dia? Certamente que sim. A questão, por ora, não é saber-se quando, mas compreender a qualidade efetiva da mudança revolucionária. Que compreensões (vejam que não reduzo a parâmetros ou medidas, ou indicadores) se têm da sociedade capitalista e quais mudanças podem ocorrer em que ela deixa de ser o que é. Muitos pensadores do século XIX e XX pensaram no assunto e enunciaram tal compreensão, mas sempre é necessário observar o movimento pendular do capitalismo para ampliar seu entendimento.

O neoliberalismo, além de ser um movimento do pêndulo, não foi, no entanto, um mero movimento mecânico, como os outros também não foram. A cada movimento deste as instituições são modificadas, a sociedade se reorganiza em novas demandas, novas formas de trabalho e distribuição dos produtos do trabalho. Por isso o capitalismo se modifica, não é meramente uma adaptação, é o próprio curso da história quando o retorno do movimento não será mais nas mesmas regras. O próprio neoliberalismo é uma formulação para universalizar o capitalismo, atingir a antiga URSS, a China e a Índia. Uma reformulação das instituições da guerra fria e dos acordos econômicos do pós-segunda guerra mundial. Os EUA, Europa e Japão passaram por enormes modificações nestes últimos anos e agora com a efetiva globalização a conta do capitalismo é de toda a humanidade.

Por isso, em plena crise de crescimento, o governo americano, para desespero das almas ultraliberais, acaba de decretar seu bolsa família (distribuição de cheques para famílias consumirem mais). E um banco francês quer nos levar a crer que um único operador dele, com um salário de menos de 100 mil euros realizou operações no mercado financeiro internacional que levaram a instituição a ter prejuízos na casa de 4 bilhões. Por essa e outras mais o Megaespeculador George Soros pede um XERIFE para o sistema financeiro internacional. No dia seguinte o arquimilionário Bill Gates pede um novo capitalismo que resolva as desigualdades entre os paises e as pessoas. Ou seja, o mais desigual dos homens, da torre de Babel em que se encontra, no horizonte algo que sentimos o calor mas ainda não enxergamos a fornalha.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

FESTA DA BAIXA RASA

Amanhã, dia 25, acontece a tradicional Festa da Baixa-Rasa na Floresta do Araripe. Trara-se de uma festa de cunho religioso/turístico. Pela manhã realiza-se uma missa na capela do Lameiro e em seguida um desfile de vaqueiros sobe a serra onde acontece rezas e festejos com comidas típicas, apresentações de grupos folclóricos e outros entretenimentos. A festa já faz parte do calendário turístico do Crato. Vale conferir.

CAVALGADA DE VAQUEIROS
REZAS NA FLORESTA
Fotos: Pachelly Jamacaru
"Direitos reservados"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Sapiência de cada sapo

O passado é uma xícara quebrada.
Não sinto falta do objeto,
Lembro-me da porcelana.
Textura valiosa,
Louça rara.
Devo ter mais cautela.
Afinal, meus dedos não são de fada.

Pim-Pim

Meu filho agora dorme.
Não velo seu sono.
Escrevo ouvindo sua tosse.
Meu coração não descansa:
A cama alta,
As paredes duras,
O chão implacável.

Temporal

Os ovários da esposa
Todo final de mês
Espinham.
Seu humor piora.
Tempo de embalsamar
meus espermatozóides.

DN: Bandeira do Brasil é eleita a 4ª mais feia

Amigos do Blog, vejam esta matéria. Tudo bem que nossa bandeira não seja lá uma maravilha de beleza, mas ficar em quarto lugar é demais. No final, coloco o e-mail do Sr. Josh Parsons, para quem quiser enviar pra ele diretamente seus comentários.

Wellington. Um professor de filosofia neozelandês fez em sua página da internet um ranking um tanto quanto polêmico: elegeu as melhores e as piores bandeiras do mundo, levando em conta apenas o valor estético.

Para ele, a bandeira brasileira é a “mais feia entre todas as nações independentes”. Já a bandeira da Argentina é considerada bela, com “boa escolha de cores”. A das Ilhas Marianas do Norte, que ficou em último lugar, “parece feita de um clip art”, disse. Para fazer sua classificação, Josh Parsons usou critérios como o fato de usar frases e mapas (o que ele considera abominável em uma bandeira) e misturar cores que “não combinam”.

O professor deu notas de 0 a 100 e conceitos que variam de A+ a D - para cada bandeira. As quatro mais bonitas e as quatro mais feias consideradas de acordo com os critérios dofilósofo neozelandês estão expostas abaixo.


Informações: Josh Parsons é doutor em Filosofia pela Universidade Nacional Australiana. mailto:josh.parsons@otago.ac.nz

DN: 23/01/2008

Eleições em Crato - Candidatos que usam cédulas de 50 reais como Papel Higiênico...

Foto Abaixo: Papel Higiênico ?



Meus amigos,

As eleições estão às portas.
Como se dará o derramamento de dinheiro neste ano? Haverá isso ?

Uma coisa que nunca consegui entender direito foi o porque tanta gente pobre ( eu diria os mais pobres ), no dia anterior à eleição, ficam esperando em bairros como o Alto do Seminário, e outros até de madrugada para que carros em alta velocidade passem distribuindo os famosos envelopes contendo cédulas. Entender que isso é compra de votos, todos sabemos. Mas como entender aquele que "vende o seu voto" ?

Isso é um fato curioso de se observar, e creio que é praxe, não deve acontecer somente no Crato. Mas as pessoas precisam entender de uma vez por todas, que todo aquele que vende o seu voto, não tem mais direitos de reclamar depis, uma vez que ele já está pago.

As eleições estão aí.
CANDIDATOS MILIONÁRIOS...Grandes Conchavos de Milionários com outros mais Milionários ainda...aqueles que antes se matavam hoje estarão no mesmo palanque...
Candidatos tão ricos que seguramente poderam usar cédulas de 50 ou de 100 reais como papel higiênico.
...
Mas, e o povo ?

"Ah, o povo, a gente compra..."

Minha gente, ao escolher um prefeito para o Crato, pensemos na cidade. Na sua vocação histórica. Na sua tradição cultural. Procuremos aquele candidato que seja mais preparado para gerir os destinos da cidade. Procuremos aquele qualquer candidato que tenha formação e boa vontade de trabalhar para esta cidade. Procuremos aquele candidato que seja capaz de entender que o crato precisa de um administrador que esteja à altura da sua história, presente, passado e futuro. Não escolhamos candidatos arbitrariamente. O tempo de pensar, é agora!

Procurem ver o que seu candidato pensa a respeito dos assuntos cruciais do município.
Procurem ver o passado do seu candidato, o que ele já fez em benefício do crato, ou se é um mero aventureiro.
Procurem ver o que de bom este candidato tem para a cultura desta cidade.

E acima de tudo, trabalhem no sentido de denunciar toda e qualquer compra de votos.
Nesta eleição nós estaremos atentos, estaremos fiscalizando, estaremos DENUNCIANDO a compra de votos e o derramamento de dinheiro.

Os candidatos milionários não se enganem!
Dessa vez, haverá pedras dentro dos seus sapatos.
podem até comprar votos, mas enfentarão uma parada muito dura quando o assunto for aqueles envelopes de último dia e de última hora...

E acima de tudo, um recado ao eleitor:

"Não Venda Seu Voto. É sua única Arma"

.

Jangada aérea



Geraldo Júnior


Não me negue vento
Onde anda o meu amor
Que numa brisa foi embora
E ainda não voltou
Tenho medo vento agreste
Que num sopro pro além-ar
O meu bem tenha se ido
E não saiba mais voltar
Vou fazer uma jangada
Que navegue pelo vento
E desbravar os sete ares
Que nos céus vivem suspensos
Pois se ela estiver nas nuvens
Perdida no firmamento
Vou seguir meu astrolábio
E encontrá-la a qualquer tempo
Vou fazer uma jangada e pelo ar eu vou
Desbravar os sete ares pra encontrar o meu amor

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

MARCHINHAS, CARNAVAL E BRASIL


As marchinhas de carnaval traduziam o Brasil a cada ano. O que se tornava um traço da cultura, um evento marcante, o diálogo dos contrários da vida pública, aparecia nas marchinhas. O mais importante de tudo, apesar de escandalizar algumas famílias e setores religiosos, as marchinhas perfuravam o cinismo social com mais força que bala de canhão. Por isso mesmo evoluíam. A cada período tinha um foco, era uma forma geral de se comunicar. Era uma forma em que a comunicação não era tão privada, tão como agora por blogs, chats, colunas de jornais, era aquilo que nem mais o Jornal Nacional da Globo consegue: ser universalmente brasileira.

Eram temáticas. O tema da ocasião. Poderiam começar pelo próprio carnaval: " faz um ano que eu conheci você, foi pelo carnaval, foi pelo carnaval, e desde então fiquei sabendo o por quê, de todo o meu mal, de todo o meu mal". O compositor quase sempre era homem e como é de se esperar, o tema era a mulher: "Anoiteceu eu sinto no ar, um cheiro de mulher, é o cheiro de flor". Qual brasileiro não ouviu esta e com freqüência a cantou a plenos pulmões: "Até amanhã, se Deus quiser, se não chover, eu volta pra te ver, oh mulher." E por falar em mulher tem a do compositor e tem as outras e como fica na hora de decidir? "em cima da hora, nega não chora que eu vou me embora. A batucada me chamou, a lua no céu brilhou, é o samba que manda eu vou, eu vou." Mas claro que poderia ir com ela: "Quer ir mais eu vamos, quer ir mais vambora, vambora, vambora sem demora, deixa a roupa na corda que não vai chover agora".

Um compositor achou um tema. Explodiu na avenida e tomo mundo pegou o trem: "Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar, dá a chupeta, dá a chupeta, pru bebé não chorar". Alguém fez o retorno: " andas muito grande, para implorar, mamãe eu quero, eu quero, eu quero mamar. E não te dou a chupeta não adianta chorar". O tema infantil entrou definitivamente no carnaval: "Não chora bebé, não chora bebé, que a vaca preta desta vez dar café". "Eu vou de toca de chupeta e camisola, ai ai mamãe, ai ai papai, eu vou bancar beber garape eu vou berrar até ganhar um cadilac." "Bicho papão, bicho papão, segura esta pequena que roubou meu coração. Roubou meu coração e botou juntinho ao seu, misturou o meu e o dela e eu não sei qual o meu." Ou então: "Menina chorona, , , o que foi que aconteceu, , , tua mãe te bateu, o papão te papou, gato preto te mordeu, teu amor te abandonou." E põe duplo sentido nisso tudo.

Uma mistura vertebral. De raiz como dizem. Do cerne da questão que mistura samba, cabrocha, morena ou mulata: "Para fazer meu samba, não tirei diploma. Cabrocha bonita, na vila, na roça, tem aroma". E até a elite nas páginas de O Cruzeiro, sem contar Di Cavalcanti descobriram a mulata: "mulata você é nacional, produto inesgotável da nossa capital. Pela mulata da nossa terra, o Brasil inteiro declara guerra". "Nero botou fogo em Roma, você incendiou meu coração. Dizem que Nero era louco, por você mulata fiquei louco de paixão". "Cuidados com esta morena, que ela não sopa não, zombou do meu amor, sorriu da minha dor, não teve pena do meu coração". "Quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso gostar de alguém, ai morena, deixa eu gostar de você". "Por um carinho teu minha cabrocha eu vou até ao Irajá, que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar."

Mas o Brasil, da cor de anil, múltiplo como uma policromia cantava as outras mulheres: "Paulistinha queridinha qual é tua cor, que tanto disfarça com teu de arroz, não és loura e nem morena, nem tens nada de mulata, paulistinha querida, a tua é cor é "trinta e dois". No carnaval era a vez da Loura: "Lourinha, Lourinha, se esqueceram de você, cantaram a branca, a morena e a mulata, mas eu resolvi não lhe esquecer". E veio o genial Lamartine e faz o nonsense: " o ó Loura, lourinha. o ó Loura, lourinha, pois este ano passaste o na moreninhal".

Num determinado ano as balzaquianas se tornaram moda. A mulher dos trinta foi exaltada em prosa e verso. Foi cantada tanto em canções do meio de ano como no carnaval: "Não quero broto, não quero, não quero não, não sou garoto para viver mais ilusão. Sete dias da semana eu preciso ver minha balzaquiana. O francês sabe escolher por isso ele não quer qualquer mulher, papai Balzac dizia, Paris inteiro repetia, Balzac tirou na pinta, mulher depois dos trinta."

E de repente a juventude das mocinhas dos bailes do municipal matava os homens de tanto amor até quarta feira de cinzas: "Prá onde você for eu vou atrás, seu rebolado é bom demais". "Olhe o rebolado que ela faz. Não posso mais eu vou atrás, pra ver." "Garota você é uma gostosura, foi proibida pela censura. Sai de perto de mim, olhar pra você eu não posso, me segura que vou ter um troço". "O que é meu é teu, o que é teu é meu. Tu és Julieta e eu sou Romeu. "Garota do Ipê, eu vou pular com você. Se você chegar rouxinha, no meu carnaval, eu vou tirar casquinha, de você no Municipal". "Ulá Ulá você é mais você com o umbiguinho de fora garota de Saint Tropez. Laranja da Bahia tem um umbiguinho de fora, por que é que você Maria, escondeu o seu até agora".

Afinal o carnaval era como a vida todo mundo "Sassaricando, Sassaricando, todo mundo leva a vida no arame, sassaricando a viúva o brotinho e a madame, o velho na porta da Colombo, é um assombro, sassaricando".

Os rapazes mudam de porte, mais porção mulher, ousam na cabeleireira e no ano seguinte a marchinha noticia: "Olha o boi! Da cara preta. Olha o boi! Da cara preta. Coitado do Valdemar. Tá dando o que falar. Comeu carne de boi, falou fino e deu para se rebolar". "Sapato sem meia, calça apertada, cabelo de lado, esse cara é transviado". "Olha a cabeleira do Zezé será que ele é. Será que ele bossa nova, será que ele é Maomé, dizem que ele é transviado, mas isso eu não sei se ele é. Corte o cabelo dele, Corte o cabelo dele". Esta fez um sucesso em moto perpétuo e logo alguém falou no tema: "Deu cupim na cabeça do . Deu, Deu. O azar não é meu nem seu, mas o cabeçudo que é, quer, quer, uma mulher pra fazer cafuné".

E os costumes como é que ficavam? O lança perfume corria solto nos salões e logo começou a questão de se controlar os costumes na brincadeira. Alguém estimulava: "Oi abre alas que eu quero passar, eu sou da turma do bota pra quebra". "Cutuca, cutuca, cutuca, vamos todos cutucar. Cutuca, cutuca, cutuca, quem não gosta de brincar". "Jogaram de mico no salão, hei, que confusão, eu pulo, pulo, pulo, digo até não sei o quê, eu sei que pulo, pulo, e não danço com você". E a repressão se instalava: "Me dar um lenço Mandarim. Bote um pouquinho deste cheirinho prá mim. Bote, bote, bote mais um bocadinho, com este cheiro eu vou pru céu devagarinho". "O Coronel não quer que a gente cheire, sua excelência tem razão como ninguém, mas eu peço Coronel que não se zangue se eu der um cheiro no cangote do meu bem".

Como é que fica? Sempre a mulher. Agora com nome próprio e uma paródia para dar curso ao decurso. "Se você fosse sincera, ô, ô, Aurora. Veja que bom que era. Ô, ô, Aurora". "Maria cachucha com quem dormes tu? Eu durmo com um gato, um gato que come urubu". "Zazá mora num apartamento num apartamento na avenida Mem de Sá, e vi que oi morena, mas dizem que não sabe amar. Zazá não gosta fumar, mas tem um cinzeiro na sala de jantar. No seu apartamento tem tudo de primeira, tem rádio, kitnet, geladeira, mas todo mundo quer saber o que é quecom o cinzeiro da Zazá". Duplo sentido, como se viu, é coisa velha. "Janete, Janete, Janete, chega de fita venha me ver, eu sou também dos filmes do Maurice, oh Janete, Maurice Chevalier". "Brigitte Bardot, Bardot, Brigitte beijou, beijou, dentro do cinema todo mundo se afobou. Bebê, Bebê, Bebê, porque é que todo mundo olha tanto pra você. "Eu vou mandar prendar esta negra Rigoleta que me fez uma falseta e me desacatou por que não lhe dei o meu amor. Isso é conversa pra doutor". "Sou eu sou eu que vou batendo surdo, de porta estandarte é a Rosalina que vai, mas vou prevenir se eu não sair, Rosalina também não sai".

E os amores perdidos. Aqueles que tão se esforça para conquistar. Tudo isso é carnaval: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Eu hei de me bater, até me pertencer, o coração, desta criatura". "Juro, nunca mais tive alegria, depois daquele dia, em que abandonei, quando eu me vi sozinho, sofri tanto sem o teu carinho". "Eu fiquei naquela base, depois que ela me deixou". "Ai não posso mais sofre, ai não posso mais amar, aquela que me acompanhava na minha jornada partiu para onde, não sei, como vou chorar, se eu nunca chorei". Nesse meio tempo um samba do Lupicínio Rodrigues fez sucesso e no carnaval foi cantada e decantada como estes dois: " vem você me falar daquela mulher que lhe abandonou". "Você não tem razão para reclamar por causa daquela mulher nós não vamos brigar. Se ela é sua, pode levá-la consigo, prefiro perder a mulher do que perder o amigo".

O triângulo amoroso entre Arlequim, Pierrô e a Colombina penetraram profundo o carnaval brasileiro. São símbolos gerais da humanidade e um roteiro de expressão teatral que vem desde a renascença italiana. Passou pela comédia francesa se tornou nos amores passageiros do carnaval. "Colombina, Colombina, o seu primeiro amor abandonou. Triste, chorando na rua, o pobre Pierrô ficou". "Ai que saudade que eu tenho, do Arlequim, do Pierrô, da Colombina fingida, do tempo em que a vida era sempre uma flor"r. "Um pierrô apaixonado que vivia cantando, por causa de uma Colombina, acabou chorando, acabou chorando. A Colombina entrou no botequim, bebeu, bebeu, saiu assim, assim, dizendo Pierrô cacete vai tomar cacete com o Arlequim".

O morro carioca. No carnaval foi e é o local de sua realização. O canto no mundo em que o Brasil e suas marchinhas aconteciam, seu grito de dor, seu grito de vida por que não? "Aquele mundo de zinco que é Mangueira, desperta com o apito do trem. Uma cabrocha, uma esteira, um barracão de madeira, qualquer malandro em Mangueira tem". "Ai barracão pendurado no morro e pedindo socorro à cidade aos seus pés. Ai barracão tua voz eu escuto, não te esqueço um minuto, por que sei que tu és, barracão de zinco tradição do meu país, barracão de zinco pobretão infeliz". "Se a rádio patrulha chegasse aqui agora, seria uma grande vitória, ninguém poderia correr. Agora que eu quero ver, quem é malandro não pode correr". "A minha vida é bem fácil de contar, um abraço no almoço, outro abraço no jantar. E mais a tarde natural bem que eu divido natural que eu divido. Quando a fome tiver insistido".

As diferenças sociais. Aqueles que enriquecem sem que se saiba como e nem de onde vem. Ao lado disso o pendura geral da vida do pobre e da classe média: "Você diz que tem um carro, que tem casa e geladeira, tudo a custa do batente. Me contaram diferente". "Trabalhei o ano inteiro, juntei algum dinheiro e dei entrada do papel na caixa, pra ver se saia a minha casa própria, mas esta vida é um mistério, casa de pobre nem no cemitério". "Eu tenho inveja dos mocinhos da avenida, de ombros largos e elegância nos quadris, roupa lavada, casa, luz e até comida, tudo de graça oh que gente tão feliz. Infelizmente eu trabalho muito. Infelizmente eu trabalho muito".

O carnaval era crônica e a narrativa da vida nacional. Política, social e econômica. Vejam a pérola desta marchinha feita algum tempo antes da revolução de 30 relatando o movimento dos personagens: "Quando eles viram que o Barbado não dormia, deu-se a melódia, na minoria, Antonio Carlos quando entrar não podia, para o mineiros então dizia, Harmonia, harmonia, chamem o Getúlio que é uma ducha de água fria. Harmonia, harmonia, chamem o Getúlio que é uma ducha de água fria. Enquanto isso, seu Getúlio escrevia, tudo às avessas, Virgem Maria, Escrita em turco aquela carta parecia, Nas entrelinhas é que se lia. Harmonia, harmonia, Quer o Catete, mas fingir que não queria. Harmonia, harmonia, Quer o Catete, mas fingi que não queria. Bonifácio não perdeu ainda a mania De que é o barbado da confraria. Toca pro pau, mas o paulista que o espia. bem de cima, baixo assobia. Harmonia, harmonia, Quer o São Paulo casadinho com a Bahia. Harmonia, harmonia, Quer o São Paulo casadinho com a Bahia. Eles pensavam que a pimenta não ardia e que seu Júlio não se mexia. Mas vendo Júlio com um bruta maioria Getúlio Vargas lhes repetia: Harmonia, harmonia, Dezessete contra três é covardia. Harmonia, harmonia, Dezessete contra três é covardia.

Eis a prova de que situação e oposição são intercambiáveis em práticas e discurso. A diferença se resume ao ponto em que estão. Quando a UDN finalmente viu pelo prestígio popular de Jânio Quadros a oportunidade de vencer as eleições, saiu esta marchinha que é um primor do cinismo nacional. Cinismo do tipo aos amigos tudo aos inimigos a lei: "O homem da vassoura vem , sei pra onde vou com a família. Eu queria, eu queria, ver o homem da vassoura em Brasília".