TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

GANHE UMA PASSAGEM PARA MARTE SE ADIVINHAR O NOME DA NAÇÃO QUE AMEAÇA SEUS VISITANTES ASSIM

Caro Leitor: uma promoção de páscoa. A seguir apresentaremos a lista de sujeições que um cidadão terá ao entrar numa determinada nação do mundo. Ao final responda a três perguntas e se acertá-las ganhará uma passagem ida e volta a marte, de uma estação de discos voadores secreta. A única referência é que a estação é verdadeira e localiza-se num alto do Vale do Rio Batateira, onde os Urubus costumam ir dormir. Vamos às exigências:

* É preciso deixar as impressões digitais dos dez dedos ao entrar no país;

* Um funcionário da alfândega pode pedir que você ligue o seu laptop e tem cobertura legal para bisbilhotar o conteúdo, inclusive exigindo que você forneça a senha para arquivos confidenciais. No extremo, pode confiscar o seu computador.

* Se ele suspeitar que você tem ligação com algum grupo terrorista, você pode ser preso independentemente da apresentação de indícios e provas.

* Se você entrar no país e por acaso for considerado suspeito, o governo pode ouvir as suas conversas telefônicas sem autorização judicial e a companhia telefônica tem imunidade se você decidir processá-la por invasão de privacidade.

* Se você for declarado "combatente inimigo", não tem direito a habeas corpus e, no extremo, pode ser interrogado pela "Iteligência Nacional" com o uso de um método de tortura chamado de waterboarding, ou afogamento simulado.

* Nesse caso, você não poderá conversar privadamente com seu advogado e todo o correio e as anotações feitas por ele podem ser requisitadas pelo governo. Se o governo tem uma acusação contra você baseada em informações que considera confidenciais, tem o direito de sonegá-las a você e a seu advogado.

Agora vamos às perguntas:

a) Por tais exigências a que conclusão você chegou sobre o regime desta nação? É uma democracia, uma ditadura, uma monarquia ou um estado terrorista?

b) Dependendo da conclusão a que você chegou sobre o regime. Pergunta-se: a) As pessoas estão protegidas em seus direitos de ir e vir? b) o Estado pode acusar você injustamente? c) o único risco é você xingar o nome do soberano? d) Você pode ser recrutado para combate ao terrorismo?

c) Após responder às duas perguntas procure nomear a provável nação moderna que exige tais normas. a) Cuba na era Fidel; b) Afeganistão atual; c) Venezuela de Chavez; d) Os EUA de Bush. e) a Bolívia de Morales, f) o Brasil de Lula, g) O Iraque sob ocupação estrangeira.

Responda na sessão comentários que a comissão organizadora premiará os vencedores.




Rosário e seu diário ...


O sol ...
Quando a sua luz pode explicar o infinito?
Diário...Sempre inrrepetível!
Noturno...Sempre escondido!
Nasce, brilha, possibilita vida!
Foge do olhar que se apaga...
Queima a planta do destino que se corta
Ilumina no céu, almas que viajam.
Põe-se no horizonte , mar , nuvens
Verdeja a flora que enfeita a casa.

Foram dias vazios e longos . Esperei-te diante da TV, assistindo filmes ou cenas de novelas. Esperei-te em luz, nos finais de tarde. Esperei-te em imagens, em cada aurora que escutei. Falei contigo, só como as loucas encontram os ditos... Até que achei, no canto do meu silêncio, a essência do nosso sentimento, e meu coração aquietou-se !

Acredito na paisagem depois das curvas, nas terras depois das águas, na vida depois da morte, no tempo que nunca é passado! Maria é essa figura, que você indaga amiudamente... ”Que mulher é essa, que chegou, inesperadamente?” Achou-me num batente de rua, e comigo viveu madrugadas e tardes, mesmo de forma sonolenta...

O arrumar de coisas (querendo nada esquecer), a crescente excitação detonada pelo relógio , enquanto o clarão da lua cheia de agosto, exacerba a emoção. Mistos de sentimentos... Um caos no coração! E eu te acompanho pelas ruas, pelos becos. Hoje eu fico , enquanto você some, como fumacinha de avião. Teu olhar se aparta do meu, teu cheiro de mato volta pro pé de jasmim, nem sei de qual jardim... E teu riso , se esconde na estrada, onde a minha mão te solta!

É a vida? É assim? Terá volta? Quem sabe nos envelhece, ou quem sabe nos renova?
Girei nos canteiros da praça... Aqueles mesmos cheiros de pipocas, de filhoses...Sem você sou cega sem guia. Tenho que enxergar teu vazio, e senti-lo em peso!Mas um dia tudo volta... A separação é como um giro numa roda. Se eu conseguir não enlouquecer de saudades, meu amor será teu mais tarde !

Rosário é uma boneca cínica. Minha dor não a comove. Sabe que a nossa casa é uma gaiola sem portas: que as tuas coisas, se acomodam aqui e ali, penduradas como ela... Querendo que o meu olhar as encontre. Aspiro a poeira dos teus sapatos, ainda perto da cama!

Dia comprido. Recebi recadinhos com gosto de mel. Vi a rosa do céu com teu olhar , sempre apressado e astuto. Ouvi teu “tique, taque”, congelando a beleza, apesar de saber que ela é solta ,aberta, nua, e tua! À noite capotei nos sonhos, querendo que os dias corram como atletas. Até você voltar, posso comer tudo devagar, e fazer de conta que na vida o que conta é ter alguém pra contar!

Estou sem gosto e sem cheiro. Estou sem vontade de música e imagens. Estou querendo tua voz perfurando a minha carne.Abri mão de todas as luas e sóis. Ganhei um olhar descondicionado. Precisamos que tu nos aprove. Aprove e prove , a umidade do meu corpo, que a tua lembrança chove!Menino dos meus olhos ,tenho um rosário de beijos pra mordiscar , nesta noite , teu coração estrangeiro!

Ainda é domingo. Chuvisca. A lua é clara e disforme. Desajeitada na luz, ela desloca minha saudade, pro sono chegar. O céu é claro, mas não vejo estrelas. Mudaram todas para enfeitar teus cabelos. Por isso , tanta prata? Teus pezinhos não se arrastam pela casa. Sinto falta dos teus braços madrugados ,cheiro no pescoço, já caído pelo sono ...
Respira palmeira do terraço, ao som de uma noite calada...
Só escuto o motor do ventilador.

Manhã chuvosa. Não avistei Aurora. Acordei com cantigas de galo, pássaros , e o som de vassouras, rastreando folhas dos quintais da quadra. Teu olhar enxergaria os calos, nas mãos femininas das mulheres, jovens e velhinhas, que cheiram a alho, pó de café, lavanda e água sanitária. Acho que vou buscar pão: aquele que tem a crocância do gergelim. Provavelmente, prolongue passos até a feira, e olhar aquela misturada de coisas sem fim. Preciso de uns metros de chita, uns pauzinhos de canela, frutas doces, ver pessoas...
Procurar teus cachos ,nas bananas, nas espigas de milho, nas uvas, nos molhos de acácias. Quem sabe cruzo com o teu olhar, no moço que debulha o feijão; no azul pálido do céu; no chão pingado de lama, ou nos olhos de uma gato?

Teu dia também começa... O meu muitas vezes foi assim: ruas e rostos estranhos até o olhar harmonizar formas e cores.Bom dia, mi amor!Aperte os olhos. Teu clique vai começar... Num olhar e andar solitários, o que se esconde e parece invisível para todos, pra ti vai descortinar!

Noite de segunda-feira. Ufa! Que dia! Que ginástica danada para vê-lo passar sem angústia ou ansiedade. Final de tarde, assistindo clássicos do cinema... Adoro! Audrey Hepburn, Mel Ferrer, Henry Fonda... Jovens e lindos!

A praça começou a fazer zoada. Escuto fogos, cantorias na igreja, e sinto a poeira do povo. Noutros tempos era dia de comprar pano novo. As costureiras usavam seus dedais, literalmente, para pouparem os dedos. O que eu mais gostava era o caráter de virgindade das roupas. Tinha um só cheiro... (inesquecível!) o cheiro das roupas novas!A partir de amanhã, quem sabe , encontre piedade, pra rezar aos pés da Penha; aspirar aos cheiros do Boticário espalhados no povo... Noutros tempos era “Magriff” ou “Madeira do Oriente”. Os tecidos eram de renda francesa. Não tinham esses fios rústicos que a gente tanto gosta. Adquirimos formas irreverentes de vestir e calçar, ao longo dos anos...
Lembro dos meus saltos , meias desfiadas, bracelete egípcio , aliança de tucum ...
Bonecas de pano...Rosário e eu !


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

VIVA LA REVOLUCIÓN

As revoluções do século XX foram tão frequentes quanto as guerras de natureza geopolítica. As lutas de libertação nacional, de queda de estruturas que atrasavam a necessária ampliação da vida material e intelectual dos povos foram mundiais. Em todos os continentes as revoluções ocorreram. Na América Latina, inclusive, as ditaduras militares fortemente influenciadas por uma aliança das elites locais com os poderes imperiais no período da guerra fria. Isso é o contexto do mundo real.

Não cabe, neste momento, da renúncia de Fidel um discurso ideológico, de natureza reacionária, como se tudo se resumisse a uma discussão de torcedores de futebol. Não cabe ao regime castrista aquela velha cantilena de um catolicismo conservador, prisioneiro aos ditames da guerra fria, pois setores importantes da igreja, dita católica, pensaram diferente. Não cabe a mera discussão genocida, pois isso se resumiria a contagem de um lado e outro das trincheiras de torcedores fanáticos.

Fidel e Raul Castro são filhos de um latifundiário muito rico e que, embora não descendentes de dinastias desta natureza, tinham uma vida material muito confortável e estudaram nos colégios da elite da ilha. Fidel e Raul, portanto, estão mais para o tipo de classe média intelectualizada, de esquerda, que, diferentemente da maioria que vive no conforto, ao largo dos conflitos armados, optaram por essa via. Muitos jovens da América Latina, Europa, África e Ásia fizeram o mesmo. Fidel e Raúl pertencem a um tradição cubana de defesa nacional que se origina em José Marti, a maioria vinculada às raízes espanholas. Os pais de Fidel e Raul eram galegos. Fidel, para quem não for preconceituoso, revela no livro Biografia a Duas Mãos (dele e Ignacio Ramonet) um sujeito mais influenciado intelectualmente e disciplinarmente pelos Jesuitas que por Marx.

Entender a aversão cubana de ser um anexo do EUA é uma grande lição de história. Isso não impede que parte da elite cubana, que fugiu de Cuba junto com Baptista e continuou fugindo não ache que isso seja melhor para os cubanos. De qualquer forma é uma cegueira política e histórica não observar que parte da América Latina luta com um império que tentou controlar a vida material, cultural e ideológica do subcontinente.

Por último: como se vê na associação do Samba do Crioulo Doido entre Fidel (um classe média latinfudiário), Chavez (militar de classe média) e Lula (um operário) a verdade da luta não se encontra em Cuba. Ela se encontra bem aqui, no Brasil. Isso é um discurso imperial e antinacional por princípio. Por variação, pode apenas ser um sentimento vago de aversão política muito comum nos dias de hoje. Apenas um detalhe: a aversão ao outro, ao contrário, não costuma construir democracias verdadeiras.

Fidel sai de cena...

Sei que vou mexer num vespeiro...Mas, como o Cariricult é um bloco democrático, que abriga colaboradores com opiniões e ideologias divergentes, arrisco-me a publicar minha opinião abaixo...
(Foto: ADALBERTO ROQUE/AFP)

Aqui se faz, aqui se paga?

por Armando Lopes Rafael

Consagrados pelo uso, popularizados em todas as camadas sociais, os ditados populares são apresentados como verdades inquestionáveis. É o caso do tão conhecido “Aqui se faz, aqui se paga”. Será?

Vejamos o caso do ditador Fidel Castro. Na última 3ª feira, 19 de fevereiro, ele renunciou à presidência de Cuba, a qual exerceu por quase meio século. Deixou o poder devido aos problemas de velhice, pois é um ancião com 81 anos de idade e com a saúde abalada. Não será julgado pelos crimes cometidos no seu governo genocida, que passará à história como a mais longa e sanguinária ditadura do continente americano. Fidel Castro foi responsável por traições, crimes, torturas, exílios forçados e, principalmente, pela miséria na qual se acha mergulhada a população cubana que não conseguiu fugir da ilha.

Traição: ao assumir o poder, em 1959, Fidel traiu antigos companheiros de armas que não aceitaram a troca de suas promessas de democracia por uma ditadura comunista de partido único. Foi o caso de Jesus Carrera (um dos chefes da guerrilha que levou Castro ao poder), fuzilado na prisão com dezenas de antigos companheiros.

Crimes: por ordem de Fidel, milhares de pessoas foram fuzilados no “Paredón” pelo simples fato de não concordarem com o novo regime imposto ao povo cubano. Muitas morreram gritando: “Viva Cristo Rei, abaixo o comunismo”.

Torturas: milhares de cubanos foram condenados a longos anos de prisão e sofreram (muitos ainda sofrem) torturas nas masmorras da ilha-cárcere. Foi o que aconteceu a Huber Matos, Carlos Franqui e ao jovem universitário católico Armando Valladares. Este último, depois de 22 anos de cárceres e torturas, foi solto por pressões da Anistia Internacional e outras entidades defensoras dos direitos humanos. Livre, Valladares escreveu o livro “Contra Toda a Esperança”, onde consta a seguinte dedicatória “À memória de meus companheiros torturados e assassinados nas prisões de Fidel Castro e aos prisioneiros que atualmente agonizam nelas”.

Exílios forçados: melhor sorte teve dois milhões de cubanos que conseguiram fugir para os Estados Unidos, na maior diáspora dos tempos modernos. Infelizmente, nessas fugas, um número sem conta morreu, em alto mar, devido à fragilidade das balsas utilizadas na busca pela liberdade.

Depois de tudo isso, o decrépito Fidel Castro aguarda, na cama – recebendo visitas e loas dos presidentes Hugo Chávez, Evo Morales e Lula da Silva – cercado de todo conforto e assistência médica, a inevitável morte. “Aqui se faz, aqui se paga”, diz o ditado popular.

Será?

Beco vivo beco. Chove beco merda mijo gala beco. Beco chove beco chove chove chove. Rala chuva na luva do rio. Rio beco. Sobe marrom e engole pontas de cigarro. Engole fumantes passivos e ativos. Engole viados e putas multicoloridas. Engole beco baba beco bole beco baba. A cortina da retina fecha no beco. Fade in. Beco. Out. outdoor do beco é beco. Antigos espíritos do rio amaldiçoam meninos maconheiros: comerão das latas. Amarão nas latas. Morrerão secos. Secos no beco. Seus corpos adubarão plantações de uva e melão.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

PROFESSOR ITALIANO CRIA BLOG PARA HOMENAGEAR OS 60 ANOS DE MORTE DE JOÃO PERNAMBUCO

Abra seu navegador da internet e se direcione para o www.joaopernambuco.com e se emocione com dois eventos ao mesmo tempo: um professor italiano que aprendeu português por conta própria fez um blog dedicado a João Pernambuco.

Angelo Zaniol, nasceu em Veneza em 1937, ensinou Língua e Literatura Francesa e depois se especializou em Organologia e História da Banda Desenhada na Universidade de sua cidade. Na juventude fez por muitos anos estudos particulares de harmonia, contraponto, composição, piano e violão clássico com os melhores mestres de Veneza, o que hoje lhe permite compor e arranjar qualquer tipo de música com segura competência. Nos anos 1976-1991 dedicou-se também, com êxitos notáveis, à (re)construção de cópias fiéis de numerosos instrumentos históricos, quer de sopro quer de cordas. Entrou em contato com a música brasileira em 1947 assistindo aos filme de Walt Disney e Carmen Miranda, quando ouviu Apanhei-te Cavaquinho de Ernesto Nazareth. Na década de 50 tomou conhecimento de Waldir Azevedo através de dois long plays.

Por volta de 1957 assistindo a um concerto de guitarra clássica, ouviu pela primeira uma música de João Pernambuco e tratava-se de Sons de Carrilhões. O compositor brasileiro sempre fez parte do repertório dos grandes violonistas europeus. Na verdade o Brasil e seus músicos necessita aprofundar-se nos conhecimentos do chorinho, pois lá é que se encontra a expressão mais substantiva de uma matriz nacional. Assim como os americanos se abeberaram nos grandes compositores europeus dos séculos XVIII e XIX, os brasileiros que se expressaram melhor, internacionalmente, através de Villa Lobos, devem saber que o mesmo aconteceu aqui. João Pernambuco foi um gênio de sua época em que muitos gênios fundaram uma expressão musical nova e universal.

Para que todos saibamos: a genialidade de um expressão não é matéria de apenas um gênio, é um leito volumoso de artistas criando e recriando seus próprios temas. Por isso, artistas do Cariri, nunca achem pouco o que fazem, não se envergonhem da falta de estilo de salão, e nem achem que o folclore é uma mesmice congelada no tempo.

Pra quem estiver em Feira de Santana

(clica na imagem pra ver melhor)


GEORGE GARDNER : A LONGA ARTE DE UMA VIDA BREVE ( Final)

A Morte Prematura

Foi na casa de repouso Neuria Ellia, residência de Lord Torrington, em Kandy, a então capital do país, que seu falecimento aconteceu. Ele chegou ali no dia 10 de março de 1849, por volta das 3 horas da tarde e, depois do almoço com Lord e Lady Torrington, retirou-se aos seus aposentos para descansar, enquanto o seu anfitrião e o Dr. Fleming foram cavalgar. No dia seguinte, o grupo devia ir a uma excursão as planícies Horton. Lord Torrington e o médico não haviam ido muito longe, quando foram chamados às pressas. Gardner havia sido tomado por um severo ataque de apoplexia. Tudo o que a ciência médica sugeria nesses casos foi feito mas sem efeito. Ele morreu às 23 horas, cercado por um círculo de amigos profundamente pesarosos.

Foto 20 – Monumento em homenagem a Gardner, no Herbário de Peradeniya em Kandy, no Sri Lanka.

Estava no apogeu de sua vida, com apenas 37 anos e, como disse Lady Torrington durante o almoço, nunca tinha estado com tão boa saúde e disposição. Ele foi conhecido a vida toda por sua abstinência intransigente à bebida. Mesmo durante os três anos de viagens constantes, de irregularidades e fadiga, explorando o interior do Brasil, não bebia nada mais forte do que chá, de que ele havia assegurado um bom suprimento antes de sair de Pernambuco.
Lord Torrington, ao comunicar este aflito acontecimento a Sir William Hooker, assim calorosamente elogiou o caráter do falecido:
“ Posso honestamente dizer que a colônia e o público em geral, experimentaram uma perda severa neste homem excelente e talentoso – que era amado por todos – nunca vi uma pessoa tão amiga, tão benevolente e sempre pronto para compartilhar informações com todos aqueles que pedissem.”
Assim a ciência da botânica viu-se privada de um estudante entusiasta, um expositor hábil, no auge de sua vida e do vigor do intelecto. Acreditam aqueles que melhor o conheceram, que seu final foi precipitado pelo trabalho mental excessivo. Entre seus manuscritos, existe um já terminado, que ele estava prestes a enviar para ser impresso, apontado como um trabalho elementar de botânica da Índia e, como declarou Sir W. Hooker ao noticiar sua morte no “Jornal de Botânica”, que ele havia feito vastas coleções sobre uma completa “Flora Zeylanica”. Como fato de interesse geral, não é desnecessário informar que Gardner conseguiu uma patente para preparação da folha do café, conseguindo assim uma bebida, por infusão, “formando um artigo de dieta nutritivo, refrescante e agradável.”

O Testamento

De acordo com o testamento de Gardner, seus livros e o herbário foram oferecidos ao governo do Ceilão para formar parte do estabelecimento em Peradynia; e se não fossem aceitos, deveriam ser enviados a Sir W. Hooker, seu administrador na Inglaterra. O governo, ao declinar da oferta, colocou automaticamente à disposição de Sir William.

O Palíndromo

Como no palíndromo latino, Gardner conseguiu colocar o Cariri cuidadosamente na sua órbita. Hoje é impossível lançar uma visão clara sobre nossa região, sem utilizar um pouco da luz e da clarividência do nosso mais importante naturalista. É através do olho de mágico de Gardner que conseguimos entender as nuances caririenses, 170 anos depois.

Agradecimentos:

Prof Jairo Starkey - Pela tradução do inglês do texto básico biográfico
Prof Glauco Vieira(URCA) - Pela revisão e idéias
Prof Armando Rafael (URCA) - Pela pesquisa subjacente e incentivo
Mister Craig Brough do Information Services Librarian Library, Art & Archives
Royal Botanic Gardens, em Kew, Richmond, pela pesquisa iconográfica sobre Gardner


J. Flávio Vieira


Bibliografia :

Pinheiro, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza, Imprensa Universitária, 1963.

Gardner, George. Viagem ao Interior do Brasil. São Paulo, Livraria Itatiaia Editora Ltda. , 1975
Carvalho, Alfredo de, Um Botânico Inglez no Ceará de 1838 a 1839. Revista do Instituto do Ceará - ANNO XXVI , 1912
Brígido, João. Ceará ( Homens e Fatos). Fortaleza, Edições Demócrito Rocha, 2001.


Sites :
http://www.electricscotland.com/history/other/gardner_george.htm
http://www.institutodoceara.org.br/Rev-apresentacao/RevIndiceJoseHonorio/JH-G.html
http://www.srilankaleisureguide.com/botanical_gardens.html
http://www.chadwickorchids.com/Cattleya/laelialobata.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/George_Gardner
http://www.institutodoceara.org.br/Rev-apresentacao/RevPorAno/1912/1912-UmBotanicoIngleznoCeara.pdf
http://www.agridept.gov.lk/NBG/RBG.htm
http://www.agridept.gov.lk/NBG/herba.HTM
http://www.electricscotland.com/history/other/gardner_george.htm
http://books.google.com/books?id=3rQEAAAAIAAJ&pg=PA711&lpg=PA711&dq=Neuria+Ellia++Lord+Torrington&source=web&ots=0Ys1jvlw79&sig=ylP9IerkRQuwgJbHvfIR8H5l_G4
http://educacao.uol.com.br/atualidades/ult1685u297.jhtm
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000300007&lng=in&nrm=iso&tlng=in
www.flickr.com/photos/studentnetwork/383039729/
http://www.gutenberg.org/files/21324/21324-h/21324-h.htm
http://www.institutodoceara.org.br/Rev-apresentacao/RevPorAnoHTML/1912indice.html
http://www.philadelphia-reflections.com/topic/13.htm
www.hunterian.gla.ac.uk/.../index.shtml
http://apps.kew.org/herbcat/gotoCollectorsPage.do

As asas lindas de Tiago Araripe



Da internet, a facilidade que encontramos para localizar esta entrevista esclarecedora do Tiago Araripe para um site (veja o link jaguadarte.zip.net/arch2004-08-29_2004-09-04.html).

Para muitos, os anos 80 podem ser chamados de “a década perdida" da música brasileira. Discordo. E cito, no contrapé, um exemplo que basta por si só: o da Lira Paulistana. Tantos são os artistas e grupos de peso ligados ao movimento, e tamanhas são as diferenças estilísticas entre eles (Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque) que a tendência é, injustamente, lançar para a ala dos invisíveis craques com o cearense Tiago Araripe. E olhe que a batalha desse extraordinário cantor e compositor já vinha de longe: desde 1973 ele estava em São Paulo, para onde fora atrás de uma vaga na escola de música criada por Tom Zé. A escola já não existia, mas o mais cosmopolita dos músicos nascidos no sertão da Bahia o recebeu de braços abertos e violão na mão. Daí surgiram canções como “Conto de Fraldas”, muitos toques, participações em shows e a oportunidade de convívio com outros nomes importantes da cena cultural paulista. Com Décio Pignatari, Tiago inclusive compôs as músicas “Teu Coração Bate, o Meu Apanha” e “Drácula”. De Augusto de Campos, ele recebeu, de presente, uma bela versão de “Little Wing”, que figurou no repertório de “Cabelos de Sansão”, de 1982, um LP de canções compostas, cantadas e tocadas num idioma poético-sonoro próprio. Repleto de pequenas jóias, é um disco maduro, de um artista sensível e competente que já contabilizava muitas horas de vôo, sozinho ou integrando grupos como Papa Poluição. No apoio, uma constelação rara de se ver e ouvir: os guitarristas Felipe Ávila e Luiz Brasil, o baixista Cid Campos & mais uma penca de músicos que é até sacanagem não citar. Vale a pena garimpar nos sebos, enquanto não sai a reedição em CD. Leiam o que conversei, por e-mail, com Tiago Araripe, hoje de volta ao Ceará.

Você participou ativamente da Lira Paulistana. Que avaliação faz daquele período?

A chamada Vanguarda Paulistana foi um período exuberante e pouco difundido fora da cidade de São Paulo. A convergência se dava principalmente no Lira Paulistana, pequeno teatro na Praça Benedito Calixto. Por lá passaram trabalhos inovadores e de qualidade: Grupo Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, Papa Poluião e muitos outros. O meu disco, “Cabelos de Sansão”, foi o segundo produzido pelo selo “Lira Paulistana”, depois do ótimo “Beleléu”, do Itamar.

Há quantos anos você está vivendo no Ceará e o que tem feito aí?

Estou no Ceará desde dezembro de 1995, depois de 23 anos em São Paulo. É a primeira vez que moro em Fortaleza (sou de Crato). Fiz algumas apresentações musicais na capital, tenho um filho cearense que estará com sete anos ainda este mês, sou diretor de criação de uma agência de publicidade. Há uma composição de minha autoria prevista para abrir o novo filme de Rosemberg Cariry – “Cine Tapuia”, em produção.

Como estão os planos para o relançamento de “Cabelos de Sansão”?

Imaginei uma nova roupagem para o disco, lançado originalmente em 82. O CD terá inclusive novo nome: “Diogo quer brincar”, uma das faixas mais recentes, gravadas no Ceará e produzidas por Manasses. Há um texto de apresentação do Zeca Baleiro, que tem uma relação forte com velho LP “Cabelos de Sansão”. Mas o CD enganchou na gravadora Atração, de São Paulo. Foi masterizado há bastante tempo, tem capa criada e ainda está sem lançamento definido. Depois de muitas cobranças à gravadora, sem maiores resultados, resolvi ficar “zen” em relação ao assunto. Agora é ver para crer.

Conte como foi que “Little Wing”, de Hendrix, virou “Asa Linda” nas mãos de Augusto de Campos.

Eu costumava cantar “Lttle Wing” ao violão. Tenho uma boa ligação com essa canção. Na época eu morava em Vila Madalena, em Sampa. Algumas pessoas se reuniam no apartamento onde eu e a Mônica (mãe de minhas filhas) morávamos, na rua Girassol. Uma noite recebemos as visitas de Augusto de Campos, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola e Kledir (ou seria o Kleiton?). Rolou um violão, cantei “Little Wing”, e o Augusto, no ato, disse que faria a versão, parecendo adivinhar um velho desejo meu. No dia seguinte, manhã cedo, toca a campainha e lá estava o Augusto com a versão pronta. Cantei a nova letra, ele fez mínimos ajustes. Foi assim.

“Como pôde a perna andar/ sozinha/ se imaginando duas?” Esse fragmento de “Redemoinho” mostra o seu cuidado com as palavras. Como é sua relação com a poesia?

Você tocou em um ponto que prezo muito. E escolheu uma das músicas pelas quais tenho especial carinho. Minha relação com a poesia se dá sob esse prisma da palavra cantada, da busca de uma linguagem para a canção. Algo que numa determinada fase chamei de “Canção Sideral” (aquele leão no meio das estrelas não foi por acaso). Em “Redemoinho” e “Cine Cassino” se pode perceber isso. São canções com imagens fortes, sugestivas, que ampliam as possibilidades de percepção. Essa que você cita busca uma nova forma de falar da solidão. O arranjo de cordas foi inspirado em “Eleanor Rigby”, dos Beatles.

Sua voz – aguda, cristalina – também chamou muito a atenção quando você surgiu. O próprio Augusto, num ensaio, faz referência ao seu timbre peculiaríssimo. Você estudou canto?

Estudei apenas um ano, em São Paulo, com Cláudia Mocchi, talentosa professora de Ná Ozetti, Suzanna Salles e Virgínia Rosa. Mas isso já foi bem depois de “Cabelos de Sansão”. Diz a lenda familiar que eu comecei a cantar antes de falar, e que no primeiro aniversário entoei o baião “Calu”, sucesso na voz de Luiz Gonzaga...

Você continua compondo? Mantém contato com os músicos com quem fazia parceria nos anos 70 e 80?

Continuo compondo. Fiz uma série de músicas tendo como tema importantes cidades cearenses, em um projeto para o governo do Ceará. Para mim soa como um resgate dos sons regionais que me marcaram desde a infância. Fiz parcerias com o Zeca Baleiro, que espero gravar no momento oportuno. Tenho contatos eventuais com Tom Zé e com Chico César, bem como com José Luiz Penna, parceiro de quando tínhamos o Papa Poluição, e Jorge Alfredo, com quem fiz “Coração Cometa”.

E a cena de música no Ceará? Tem muita coisa interessante por aí?

É impressionante quantos valores existem à margem da mídia, essa senhora decrépita, vesga e meio surda que não cansamos de cortejar. Há um grupo performático da região do Cariri, o Dr. Raiz, que mescla raízes populares da cultura e sons contemporâneos. Vi apresentações emocionantes de Abidoral Jamacaru, cearense do Crato, e do sempre renovado Fausto Nilo. O Ceará tem grandes músicos. O violonista Manassés, instigante. Acordeonistas como Adelson Viana, Waldonis e Ítalo Almeida. Uma cantora excepcional – Fátima Santos, que veio do Rio Grande do Norte. Tem o Graco, David Duarte, Kátia Freitas, Mona Gadelha... Isso sem falar no acervo cultural em que todos nós podemos nos abastecer: as bandas de pífanos, os reisados, os penitentes, as cantadoras de coco...

Não Sei

Cora Coralina

Não sei... se a vida é curta...
Não sei... não sei...
Se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja
nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira e pura...
enquanto durar.

(Este poema vai para Carlos Rafael Dias e Geraldo Urano, que me emocionaram com o blogvagalumes.blogspot.com)

GEORGE GARDNER : A LONGA ARTE DE UMA VIDA BREVE ( Parte IV)

Rumo ao Ceilão

Ao chegar ao Ceilão ( hoje Sri Lanka), sua primeira providência foi toda dedicada ao Herbário de Peradeniya , onde foi Diretor no período de 1844-1849.

Foto 14 – Localização do Ceilão ( Sri Lanka)


Foto 15 – Colombo, no Ceilão, na época da chegada de Gardner

Ele o consertou, reaparelhou-o e fez grandes melhorias. Então ele começou a fazer excursões na ilha, enriquecendo assim o jardim com os frutos de suas jornadas. Ele os enviava também para os jardins botânicos da Inglaterra, especialmente o de Kew, obtendo em troca produtos de outros lugares - América do Sul, Índias Ocidentais, etc. – para o jardim do Ceilão. Durante suas caminhadas ele descobriu a “upas” (Antiaris toxicaria (Upas ou Ipoh), que anteriormente não se sabia existirem no Ceilão. Um escritor em um dos jornais do Ceilão, cujo artigo foi copiado para o “Chamber’s Journal” diz:
- “Quando retornamos a Komegalle, tivemos a sorte e o prazer de ter em nossa companhia o Dr. Gardner, o eminente botânico, em cuja companhia a mais insignificante planta ou flor passa a ganhar um interesse de nossa parte em relação a ela, pois ele sempre tem algo instrutivo sobre a mesma para nos transmitir. Na nossa jornada de volta a Kandy, ele descobriu a “upas”, que crescia a poucas milhas de Komegalle. Ela não era conhecida antes de crescer no Ceilão.”(


Foto 16 – Kandy no Ceilão , antiga capital, onde Gardner viveu.

O Livro
A posição e eminência de Gardner como botânico o levaram a uma extensiva correspondência sobre suas funções oficiais , ajustando-as de tal maneira que fosse possível, logo depois de sua chegada no Ceilão, terminar a organização dos seus escritos sobre o Brasil, que foram publicados em Londres pela Reeves Brothers em 1846. O trabalho, de 562 páginas e 8 volumes, é intitulado “Viagens ao interior do Brasil, principalmente pelas Províncias do Norte e Distritos do Ouro, durante os anos de 1836-41.”


Foto 17 – Fac- Símile da aprimeira edição do “Travels...”

Foi muito favoravelmente recebido, sendo muito popular em seu estilo, interessando aos leitores em geral, não desapontando assim, as expectativas deste homem de ciência. Republicado em inglês em , 1849 e em 1973.
Lord Torrington, governador do Ceilão, provou ser um amigo gentil e patrono de Gardner, dando-lhe grandes condições de divulgar seus trabalhos botânicos; assim também o fez Sir James Emerson Tennent, o secretário. Esses honrados nomes são constantemente mencionados com grande sentimento em suas cartas.
No Brasil a parte relativa ao Ceará, de seu livro “Travels in the interior of Brazil (1846)”, foi publicada na Revista do Instituto de Ceará (1912), graças a uma tradução de Alfredo de Carvalho. A primeira tradução completa só viria apenas em 1942, traduzido por Albertino Pinheiro, com o título “Viagem ao Interior do Brasil”. (São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942. 468 p.)


Foto 18 – Capa da primeira edição brasileira (1942)

e reeditada em 1975, pela Editora da Universidade de São Paulo, numa tradução de Mílton Amado(Foto 19).



Foto 19 – Capa da segunda Edição ( 1975)

J. Flávio Vieira

O sol apareceu na preguiça. Fico imaginando um cara de um filme, que acordava o sol com um solo de saxofone. Ele deve ter dormido demais. Lembrei do filme, “um trem pras estrelas”, música do cazuza, do caralho. O filme fala de pessoas. Só existem pessoas nos filmes, é bem verdade. Até por conveniência, é mais fácil olhar pras pessoas como números amorfos de uma estatística. Tantos por cento morrem de fome. Tantos por cento são atropelados. Tantos por cento são assassinados pela poderosíssima força policial brasileira. A porcentagem não faz ninguém chorar. Não emociona. Não tem trilha sonora. Um amigo diz que cansou de receber salário mínimo, ele quer agora é o tal salário máximo. Então, vote ni mim! Vou pintar uma camisa com uma frase serena: o lado negro de deus é letal. O lado negro de deus cruza as mãos nas costas, ri e diz vitorioso: lembra? Vingança. Então deus é tão malvado quanto eu. Então eu digo aos meus meninos e meninas: parem de ler, de ouvir, de falar. Nada servirá de bálsamo. Ninguém trazendo em uma mala dourada as respostas certas. Ninguém pra dizer da estrada segura. Ninguém pra acender a luz e falar do batente. O castelo de cartas construído em cima de nada, fica ruindo, rindo de quem tenta colocá-lo de pé. Tudo que guardado, é real, quando exposto, vira quimera. Como tudo. Passo mal com tudo. Por isso meninos e meninas, lhes digo: todos os bomdiaboatardeboanoite são aleatórios. Ninguém deseja nada. Nem bem nem mal. Ninguém tem culpa da taça quebrada. Ninguém precisa ouvir o segredo do totem. Medos não se dividem como lennonsmccartneys. Os restos de um filho cabem no bolso. Em uma propaganda de hollywood. Os restos de um sonho não cabem em lugar nenhum. O lado da faca que passa a margarina no pão de ontem é o mesmo que se enfia costela a dentro, em busca de um rim, de um coração. Uma bomba explode no oitavo andar do coração de um poeta. E seca a mão do poeta. E seca a planta no vaso. A lua cheia ontem... um trem pras estrelas. No meio da rua, um poeta chuta seu coração calcinado e assovia uma canção dos antípodas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Amar verbo incondicional

eu amo teu olhos baços,

não como lembrança do brilho de outrora,

amo as luzes finas,

penumbras que traduzem detalhes,

pupilas que escondem universos,

pálpebras pregueadas de resguardos,

amo teu olhar lento,

penetrando o irrevelado,

e assim me deixa leve,

leve de palavras não ditas.

como amo tuas rugas universais,

cada trajeto de tuas veias tortas,

as vigas musculares de tuas mãos,

as manchas solares de teu corpo,

amo a trajetória no tempo,

a longa espera dos espaços,

amo a delicadeza de tua pele frágil,

cada detalhe da superfície de teu mundo,

este mundo ao qual gravito.


amo teus cabelos opacos,

a rebeldia dos fios esquecidos da cor,

cada mecha que diz até aqui vivi,

o modo displicente que parece pouco,

quando na verdade foram muitos anos,

e tantos que parecem evocativo sésamo,

sobre os ombros como se nunca houvesse fim.


amo tua coragem de viver,

pois a beleza não é estética plástica,

é um pouco de forma, um tanto conteúdo,

como uma fera que teima sobreviver,

uma criança que se deita no colo para sonhar,






amo tua virtude de envelhecer,

sendo outra a cada passo e a mesma no horizonte,


amo teu ardor de viver,

pois a beleza não é grade de juventude,

ela é o que meus olhos amam,

como amo teu olhos baços,

tuas rugas universais,

teus cabelos opacos,


subterfúgio para amar tua coragem.



GEORGE GARDNER : A LONGA ARTE DE UMA VIDA BREVE (Parte III)

A Viagem
No verão , em 14/03/1836, partiu de Glasgow e já no dia 20, Gardner embarcou de Liverpool (Foto 8) a bordo do barco “Memnon”.

Foto 8 – Liverpool na época de Gardner

Depois de uma travessia sem maiores atribulações, aportou no Rio de Janeiro em 23 de Julho do mesmo ano(Foto 9).


Foto 8 -Rio de Janeiro quando Gardner
desembarcou em gravura de Debret.


A beleza natural da cidade logo o cativou e escreveu para casa com termos ardorosos , descrevendo suas primeiras impressões. No meio de um cenário tão tentador para um naturalista, Gardner não ficou muito tempo inativo. Ele fez excursões freqüentes nos arredores do Rio e especialmente à Serra dos Órgãos. Nestes passeios, ele foi freqüentemente acompanhado pelo Dr. Miers, um cavalheiro residente no campo, de cuja bondade ele sempre falava nos melhores termos. Sua primeira coleção de plantas, sementes e espécies do herbário, foi extraída principalmente desta área. Esta coleção foi trazida para a Inglaterra em excelente condição e mostrou-se altamente interessante. Continha muitas orquídeas(Foto 10), (liliaceae?), palmeiras, etc.

Foto 10 - Catleya walkeria , orquídia descoberta por Gardner.

Subseqüentemente, ele foi ao interior e passou um tempo considerável explorando as regiões dos diamantes. Ele foi infatigável em sua missão, e suas longas e cansativas jornadas apresentavam freqüentemente aventura e perigo. Cinco anos – de 1836 a 1841 –foram passados no Brasil.
Antes de seu retorno em 1841, ele fez uma visita de despedida à serra dos Órgãos, cujo objetivo, conforme ele narrou em uma de suas cartas, foi para “fazer uma coleção de alguns arbustos finos e plantas herbáceas que eram encontradas nos níveis mais altos”, daquela escalada e levá-las vivas consigo. Depois de ir para o interior, ele encontrou dificuldades em enviar estas plantas sem sofrer algum tipo de danos. Mesmo assim, ele continuou a preservar grandes coleções para o herbário, que, com as sementes e plantas vivas podiam suportar a viagem pelo interior e seriam enviadas assim que houvesse uma oportunidade. Algumas das Melastomaceae, como a Pleroma benthamianum e a multiflora podem ser mencionadas entre o número das que ornamentam toda grande coleção de plantas que coletou.

Fósseis e Medicina
Apesar da botânica ser, naturalmente, sua busca principal, Gardner tinha sempre um olho no que seria de interesse a outros departamentos de história natural – portanto suas coleções foram acrescidas com minerais, conchas fossilizadas ou recentes, peles conservadas de pássaros, peixes, etc. ao mesmo tempo, ele não negligenciou as aquisições de espécies relativas à Medicina. Nas suas jornadas longas, ele sempre carregou seus instrumentos cirúrgicos e fez várias cirurgias importantes com pleno sucesso, as quais não somente melhoraram suas finanças, mas também lhe deram bons amigos – assim assegurando um grau de respeitabilidade, conforto e, em alguns casos, segurança entre as tribos nativas.Imaginem a importância de uma espécie rara como um médico no interior do Brasil, na maior parte das vilas, certamente, terá sido o primeiro esculápio a aportar por ali, até 1789 ( meio século antes da sua chegada ao Rio) o Brasil todo só possuía quatro médicos. Enquanto cuidava de seus trabalhos variados, ele mantinha sua correspondência com regularidade surpreendente, escrevendo freqüentemente para Sir William Hooker e Mr. Murray e ocasionalmente para os mais destacados botânicos estrangeiros da atualidade. Muitos dos seus trabalhos e cartas foram publicados por Sir William no “Jornal de Botânica”. Em um desses trabalhos, datado de 3 de setembro de 1840 e enviado da Província de Minas, ele refere-se à morte do seu generoso patrono, o Duque de Bedford, evidenciando a profunda gratidão pela qual ele foi movido. Nem negligenciou declarações elogiosas à conduta do benfeitor, em sua carta, como também demonstrou muito apreço em relação aos seus amigos de juventude tais como o Dr. Joseph Hooker e a família do Sr. Murray.

O Itinerário

Foto 11- Itinerário de Gardner

Gardner desembarcou no Rio de Janeiro e explorou a Serra dos Órgãos, embarcando depois para Salvador, Recife, Alagoas e para a desembocadura do Rio São Francisco. Partiu então para o Ceará onde desembarcou em Aracati, seguindo em lombo de burro para Icó , Lavras da Mangabeira, chegando no Crato em setembro de 1938 e tendo permanecido explorando a região até janeiro de 1939.Seguiu então para o Piauí, percorrendo parte do Maranhão, de Goiás, Tocantins, Minas Gerais ( Diamantina e Ouro Preto) e finalmente chegando ao Rio de Janeiro. Em março de 1841 procedeu ainda à outra excursão à Serra dos Órgãos que durou mais de um mês. Em maio de 1841 retomou o percurso de volta à Inglaterra com uma escala exploratória em São Luiz do Maranhão. Gardner percorrera , no Brasil, cerca de 10.000 Km, visitando regiões inóspitas, sujeito a moléstias tropicais, ataques de índios, aos rigores climáticos , à total falta de infra-estrutura de estradas, trilhas, mantimentos, víveres.

De Volta à Inglaterra
Gardner embarcou a bordo do navio “Gipsey” em 06/05/1841, tendo ainda parado no Maranhão, para carregamento da embarcação, só prosseguindo viagem em 08 de Junho. Chegando por fim à Inglaterra em 18/07/1941, após quase cinco anos de viagem. Em 1842, não muito depois do seu regresso, Gardner foi eleito professor de botânica na Universidade Andersoniana.(Foto 12)


Foto 12- Herbário de Kew , onde Gardner trabalhou após sua volta

Trouxe um rico herbário de mais de 6000 espécies. Enquanto isso, ele se ocupou preparando material para o seu diário sobre o Brasil, com intenção de logo vê-lo publicado. Porém o trabalho ainda estava incompleto, quando, em 1843, ele foi indicado pelo governo colonial do Ceilão( hoje Sri Lanka) como botânico e superintendente do jardim botânico existente ali. Esta indicação deveu-se à influência de seu infalível amigo Sir William Hooker, que havia sido anteriormente promovido ao posto de diretor geral dos Jardins Reais em Kew (um bairro de Richmond upon Thames, no sudoeste de Londres). É famoso por ser a sede dos Jardins Botânicos Reais de Kew, do Palácio Kew e dos Arquivos Nacionais do Reino Unido). Ainda em Londres, recebendo instruções antes do embarque, ele foi tratado com muita bondade por Lord Stanley, agora Conde de Derby. De 1842 a 1848 ele publicou no London Journal of Botany, dirigido por Hooker, sua “Contributions towards a Flora of Brazil”. Gardner ,tendo visitado regiões não exploradas por Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) , em muito contribuiu com material e observações para a publicação do clássico definitivo, considerado uma das maiores obras de Botânica de todos os tempos: “Flora Brasiliensis” de Martius ( publicada paulatinamente de 1840 a 1906).


Foto 13 – Von Martins (1794-1868)

Gêmeos

Dizem que não aprecio as cidades. Pura invenção. Já gostei de caminhar pelos bairros antigos do Recife como quem percorre as galerias de um museu. Ia da ponte mais distante sobre o rio Capibaribe até a rodoviária. Nunca mais fiz esse percurso. A rodoviária mudou-se para longe e prefiro o interior seguro de um carro com ar refrigerado. Deixo de ver cenas inesquecíveis, que se mostram apenas aos que andam a pé. De carro, não veria a anã sentada no caixote, em frente a um pardieiro. As casas ainda possuíam entrada lateral, um pátio onde se plantavam romãzeiras que não cresciam além das flores. Romãs e tâmaras, pura nostalgia de um passado oriental, de mascates sírios e libaneses.
A anã recostava-se na parede de uma casa de porta e janela. Não lembro se cantarolava cantiga de roda, enquanto esperava por alguém. Suponho que sim, do mesmo jeito que suponho ter visto, numa cama desarrumada, dois gatos se enroscando entre lençóis puídos. Ou seriam dois bebês, um preto e um branco? Não eram. Os bebês eu vi numa outra casa do bairro, numa festa carnavalesca, quando atravessei os corredores de um sobrado ameaçando cair. Os amigos afirmam que eu sofri uma alucinação, pois sempre fui dado a visagens. Mas, eu garanto que vi.

Os dois meninos lembravam os santos Cosme e Damião. Mais tarde, quando investiguei a mitologia dos orixás, compreendi tratar-se dos Ibejis, os gêmeos travessos que brincam com fogo. Na casa, praticava-se a religião africana e com certeza os dois estavam de visita. Até a morte eles enganaram, quanto mais um sonhador como eu.

Alguns carnavalescos abriam suas residências para os blocos que desfilavam no Recife. Ofereciam comida e bebida farta. Nenhum dinheiro em troca, apenas o regalo da festa. Para a dona da casa, uma negra criada no culto nagô, a motivação também era o prazer. Da terceira linhagem de escravos libertos, que ainda guardava na memória a fala ritual de sua gente, ela cantava e rezava em nagô, mesmo sem saber a completa tradução do que repetia.

Estou no círculo mais distante da mesa de comidas. Tento alcançar uma fatia de melão. Os brincantes suados e bêbados me empurram para bem longe dos manjares. As melancias se afastam de mim, os bolos se transformam em saliva na boca. Mais gente entra na sala de repasto. Sou empurrado para longe. Desisto. Viro as costas para a mesa e encontro um corredor longo e estreito. Quartos de ambos os lados, portas abertas e fechadas, armários, cadeiras, trastes indecifráveis na sombra. Numa cama velha de casal, dois bebês engalfinhados, um preto e um branco. Sete passos adiante, três pretas velhas bebendo aguardente.

- Quer?
- Não bebo cachaça.
- Não sabe o que perde.

Perco o Recife de alumbramentos, fechado no meu carro blindado.

- Quem são os dois meninos?
- O senhor viu?
- Vi.

Elas gargalham e entornam a aguardente goela abaixo. Riem de minha cara, como rio da anã, sentada no caixote. Também espero os acontecimentos no beco estreito, onde os mascates expunham peças de damasco e tafetá de seda, e as mulheres trocavam temperos de uma cozinha para outra, estendendo os braços nas sacadas: pimenta por cravo da índia, noz moscada por alecrim, cardamomo por sálvia.

Sento no meio fio. Ninguém estranha meu gesto. O nariz rastreia cheiro de merda por debaixo dos extratos de mijo. Sou um arqueólogo de sensações, investigo a propriedade que possuem os corpos de emanar partículas voláteis, capazes de afetar o olfato do homem. Aspiro o cheiro de santidade e latrina com o mesmo fervor.

- Já comeu?
- Comi - respondo mentindo.

As pretas velhas se referem à mesa posta para os brincantes do carnaval, frutas e carnes, abundância de culinária na casa nagô transformada em sede de bloco carnavalesco.

- Então, beba.
- Desculpem, não bebo cachaça.
- Nem oferece ao Santo?
- Não sou devoto.
A mais gorda ri.
- Mas vê coisas. Imagine se fosse.

A anã se mexe no assento improvisado. Nem observei que entrou em casa e trouxe uma garrafa de cerveja. Sem pressentir, ela move uma palha nos meus pensamentos, no projeto de chegar à rodoviária e enviar encomenda para a cidade de interior onde nasci.

- "Queridos pais, segue..."

Mas não contava com a interdição do caixote, a cena que me paralisa mandando ao inferno os deveres de filho responsável.

- "Queridos pais: saí de meu apartamento decidido a enviar os remédios da avó, que vocês me pediram para comprar aqui, porque o preço é bem mais em conta. Atravessei ruas de casas que já foram habitadas por famílias e se transformaram em comércio, vocação de mascatear que Recife possui desde que foi fundado. Passa das sete da noite, as portas de ferro baixaram com estrondo, pelas janelas entreabertas avisto retardatários arrumando mercadorias. Não sei em que pensam. Sinto-me perplexo andando no meio de frutas apodrecidas, esgotos, lixo e cães vadios. Não consigo avançar um passo além da linha divisória de um caixote em que uma anã sentou-se, como se fosse rainha do mundo. Reconheço, aterrorizado, uma grandeza que antes me escapava. Minhas pernas tremem."

As três mulheres sentadas em volta da mesa bebem copos de aguardente como se bebessem água. Avisto nas paredes velhos estandartes de carnaval, de clubes e blocos. Num nicho, uma vela acesa.

- E o que faz aqui?
- Vim atrás do bloco.
- E saiu bisbilhotando a casa?
- Desculpem, é um vício de menino.

Estacionou um automóvel numa casa vizinha à da anã. Uma senhora sai da casa, entrega um pacote ao motorista e recebe dinheiro. O automóvel vai embora explodindo o escape. A senhora cumprimenta a anã. Ouço perfeitamente a pergunta:

- E ele?
Um estampido mais alto não me deixa ouvir a resposta.

Descubro que as casas são habitadas por pessoas ocultas. Elas reinventam a arquitetura antiga, improvisam cozinhas, salas, quartos e banheiros.

- E o Recife adormecia...

Escutei perfeitamente. A anã cantarola entre um gole de cerveja e uma baforada de cigarro. Olha para o meu lado, mas não é a mim que espera.

A porta de uma casa se abre e um homem acompanhado de um cão bota sacos de lixo na calçada. Entra na casa de volta e fecha a porta. Sinto-me mais sozinho. Se levantar-me e caminhar ligeiro, ainda alcançarei o ônibus para minha cidade. Mas não consigo transpor a linha imaginária que delimita o espaço desse mundo marginal em que eu e a anã nos sentamos esperando alguém.

Ouço passos logo atrás de mim. Não deve ser ele. Nunca o imaginaria chegando sorrateiro, oculto na sombra dos paredões. Ele chegará de frente, cansado e feliz. Já de longe sorrirá para a anã, que o reconhece pelo cheiro de graxa da roupa, pelo assobio fino, pelo caminhar macio.

Será mesmo ele que chega igual a todas as noites? Levanto-me como no cinema, antes do beijo da última cena. A anã também se levanta do caixote, vai ao encontro do homem e estende a mão. Se fosse mais alta enlaçaria sua cintura. Passo por eles sem cumprimentá-los. Se caminhar ligeiro, chegarei à rodoviária a tempo. Olho uma última vez para trás. Vistos de costas, os dois formam um casal tão amoroso que mais parecem gêmeos.


Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens. Assina coluna na revista Continente.

O que dizer?


A tí o que dirias se não fosse um tímido?

Falarias a princípio de mim, de minhas angústias

Das iras tatuadas no íntimo

De minh'alma, ou de minhas tolas astúcias?


Falarias de filosofia, literatura, o que enfim?

Nada disso sou eu, sou simples apenas

Com a alma em cárcere, de bolsos sem rublos

Prisioneiro da dor e do desejo que condena


Desejo, fome, talvez sede, não hás de saber

O que quero nas carnes, nos líqudos dos beijos

Nos corpos a arder


Haverias enfim, de matar-me a fome?

Dar-me-ia o que comer? a vis desejos?

Usando a carne, o corpo e próprio nome?


Quem sois na bruma que o vento impele

Em que páramos ardentes achar-te-ia

A que alturas celestes eu subiria

Para ver-te, sentir-te ho Gabrielle


Quais sentidos porventura aguçaria

O tato, audição,olfato, visão.O que?

Quais deles eu teria,

De verter em fatos para notar você?


Serias sim um cândido espectro

Simbiose da alma e da carne infame

Alma sublime, amor seleto


De ígneo aspecto que meu coração inflame

Sendo você o bálsamo, um divino inferno

Um vício, um luxo nunca tido antes.

GEORGE GARDNER : A LONGA ARTE DE UMA VIDA BREVE ( Parte II)

George Gardner - Uma Breve Biografia

GEORGE GARDNER, nasceu em maio de 1809 em Ardentinny(Foto 4), na Escócia, onde seu pai , nativo de Aberdeen, atuava como jardineiro para o conde de Dunmore.


Foto 4- Ardenttiny

Quem sabe o sobrenome Gardner não tenha se somado ao da família por conta da atividade profissional do seu genitor? Ele era o segundo filho de uma família humilde. Em 1816 seu pai tornou-se jardineiro em Ardrossan ( a 36 Km de Glasgow e 45 Km de Ardentinny) e lá Gardner freqüentou a escola paroquial até o ano de 1822, quando seus pais mudaram-se para Glasgow( Foto5).



Foto 5 – Glasgow, High Street, Século XIX

Subseqüentemente, ele foi ao interior e passou um tempo considerável explorando as regiões dos diamantes. Ele foi infatigável em sua missão, e suas longas e cansativas jornadas apresentavam freqüentemente aventura e perigo. Cinco anos – de 1836 a 1841 – foram passados no Brasil.
Antes de seu retorno em 1841, ele fez uma visita de despedida à serra dos Órgãos, cujo objetivo, conforme ele narrou em uma de suas cartas, foi para “fazer uma coleção de alguns arbustos finos e plantas herbáceas que eram encontradas nos níveis mais altos”, daquela escalada e levá-las vivas consigo. Depois de ir para o interior, ele encontrou dificuldades em enviar estas plantas sem sofrer algum tipo de danos. Mesmo assim, ele continuou a preservar grandes coleções para o herbário, que, com as sementes e plantas vivas podiam suportar a viagem pelo interior e seriam enviadas assim que houvesse uma oportunidade. Algumas das Melastomaceae, como a Pleroma benthamianum e a multiflora podem ser mencionadas entre o número das que ornamentam toda grande coleção de plantas que coletou.
Fósseis e Medicina
Apesar da botânica ser, naturalmente, sua busca principal, Gardner tinha sempre um olho no que seria de interesse a outros departamentos de história natural – portanto suas coleções foram acrescidas com minerais, conchas fossilizadas ou recentes, peles conservadas de pássaros, peixes, etc. ao mesmo tempo, ele não negligenciou as aquisições de espécies relativas à Medicina. Nas suas jornadas longas, ele sempre carregou seus instrumentos cirúrgicos e fez várias cirurgias importantes com pleno sucesso, as quais não somente melhoraram suas finanças, mas também lhe deram bons amigos – assim assegurando um grau de respeitabilidade, conforto e, em alguns casos, segurança entre as tribos nativas.Imaginem a importância de uma espécie rara como um médico no interior do Brasil, na maior parte das vilas, certamente, terá sido o primeiro esculápio a aportar por ali, até 1789 ( meio século antes da sua chegada ao Rio) o Brasil todo só possuía quatro médicos. Enquanto cuidava de seus trabalhos variados, ele mantinha sua correspondência com regularidade surpreendente, escrevendo freqüentemente para Sir William Hooker e Mr. Murray e ocasionalmente para os mais destacados botânicos estrangeiros da atualidade. Muitos dos seus trabalhos e cartas foram publicados por Sir William no “Jornal de Botânica”. Em um desses trabalhos, datado de 3 de setembro de 1840 e enviado da Província de Minas, ele refere-se à morte do seu generoso patrono, o Duque de Bedford, evidenciando a profunda gratidão pela qual ele foi movido. Nem negligenciou declarações elogiosas à conduta do benfeitor, em sua carta, como também demonstrou muito apreço em relação aos seus amigos de juventude tais como o Dr. Joseph Hooker e a família do Sr. Murray.

Na nova cidade ele foi matriculado na escola gramatical, e, no curso dos seus estudos, adquiriu um bom conhecimento do latim. Logo cedo, ele havia absorvido, provavelmente devido à ocupação do seu pai, um gosto pela botânica, mas foi talvez mais por acidente do que por desígnio que ele, subseqüentemente, devotou a sua vida a esta ciência.

A Medicina
Ele começou seus estudos em medicina na Universidade Andersoniana de Glasgow, e continuou, durante as aulas de verão e inverno de 1829 a 1832 dedicando-se aos seus estudos com zelo e grande perseverança. Terminou por auferir honras acadêmicas de alta distinção. Em 1830 ele entrou para a Sociedade Médica de Glasgow e, durante esse ano, e 1831-32, a sua presença na Real Enfermaria foi muito assídua.

A Botânica
Ainda no meio desses árduos estudos, ele encontrava prazer para entregar-se à sua inclinação primeira : a Botânica. Seus primeiros rudimentos de ciência foram obtidos do Dr. Rattray e continuou a melhorar fazendo passeios de estudos botânicos pelos campos e visitas freqüentes ao Jardim Botânico, junto com o curador deste, o Sr. Stewart Murray com o qual ele criou um elo de amizade que durou até o dia da sua morte. Através do Sr. Murray, descobriu em um dos seus passeios, a rara Nuphar minima ou pulima, no lago Mugdock e tornou-se conhecido de Sir William J. Hooker(Foto6), o eminente professor de botânica da Universidade de Glasgow.



Foto 6 – William Hooker

Então ele passou a freqüentar as aulas de botânica de Sir William que o teve em alta estima, percebendo seu caráter ímpar e seu talento. Como aluno, ele fez várias excursões botânicas às Terras Altas (Highlands) com o professor e sua turma; e a essa intimidade com o professor pode-se atribuir a mudança importante na sua carreira futura.

A Formatura
Gardner obteve seu diploma como cirurgião pela Faculdade de Médicos e Cirurgiões de Glasgow com alta distinção em 1835.



Foto 7 – Universidade de Glasgow
Enquanto isso ele havia se familiarizado, também, com as plantas e flores da Escócia e estudado botânica criptogâmica com tanto sucesso que, em 1836, ele editou um trabalho, intitulado “Musci Britannici ou Herbário de Bolso de Musgos Britanicos”, classificados e nomeados de acordo com a “British Flora” de Hooker. Este trabalho foi recebido com encômios e mostrou-se de grande valor para os estudiosos de musgos. As espécies são graciosamente classificadas e o trabalho alçou importância científica, já que Gardner não só teve acesso livre à esplendida biblioteca de Sir William Hooker, como também alcançou o benefício de sua assistência pessoal.

A Expedição
Uma cópia do “Musci Britannici” havendo chegado às mãos do Duque de Bedford– muito conhecido pelo interesse que demonstrava pela ciência botânica – este se tornou um espécie de Mecenas e encorajou fortemente a sua ambição em proceder a uma missão exploradora no exterior. Após a morte do botânico Drummond, cujos trabalhos no Texas e em partes da América Central haviam enriquecido grandemente o Jardim Botânico Real, os diretores dessa instituição com fins de promover a ciência, se viram na necessidade de empreender acordos e arranjos para excursão de Gardner ao norte do Brasil, a fim de explorar a rica botânica daquele país. Como no caso de Drummond, Sir William Hooker responsabilizou-se em procurar interessados na empreitada, tanto para arcarem com os gastos da missão, como para a receptação das espécies que seriam coletadas. O curador, ao mesmo tempo, concordou em subdividir com equidade as sementes e plantas vivas que seriam enviadas para o país. Muitos jardins botânicos públicos, como também nobres e cavalheiros se fizeram patrocinadores, e assim, por uma quantia irrisória tiveram suas coleções imensamente enriquecidas. Dentre outros, o Duque de Bedford fez-se um contribuinte generoso. Tendo se cumprido todos os trabalhos preliminares para a partida de Gardner, Sua Graça não apenas ofereceu o seu filho, Lord Edward Russel, comandando a estação americana, em seu benefício, como lhe assegurou uma passagem grátis em um dos navios de Sua Majestade . Gardner, porém, educadamente declinou, preferindo a privacidade maior de um navio mercante, onde ele teria o prazer de estudar e, especialmente, melhorar os seus conhecimentos de espanhol e português. Longe de estar ofendido, o duque, magnânimo, enviou um cheque de 50 libras para cobrir a passagem.


J. Flávio Vieira