TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sábado, 22 de novembro de 2008

Oportunidade perdida

A nota abaixo foi postada no site www.blogdojuaonline.rg3.net/


O presidente Lula perdeu a melhor oportunidade de defender a reabilitação dos direitos sacerdotais do Padre Cícero Romão Batista. O presidente do Brasil, em sua visita ao Vaticano, conversou com o Papa Bento XVI por longos 24 minutos. Numa feliz iniciativa ele ofereceu ao pontífice uma belíssima peça do genuíno artesanato da Região Nordeste. Nela o artista retrata uma família de retirantes nordestinos.O processo de reabilitação sacerdotal do Padre Cícero, considerado santo por milhares de brasileiros, especialmente do sofrido Nordeste, está em andamento por iniciativa do Papa. Ele é quem deseja por fim a uma ruptura silenciosa de mais de cem anos. O Pontífice sabe o quanto isso representa para a fé de um povo que sofre as humilhações e escárnios, mas se resigna de joelhos, no torrão seco da terra natal com a certeza que as suas orações chegarão ao ouvido do Pai por intermédio de quem, como eles, passou por iguais sofrimentos.Como nordestino, o presidente Lula não poderia ter dado ao Papa presente melhor. Porém, faltou-lhe a esperteza para explicar a sua santidade o significado da peça artística. “O povo nordestino só abandona o seu torrão quando o sol queima a ultima folha de capim, quando seca a ultima gota de água, quando a vaquinha mimosa tomba sem forças. Aí ele pega o jumentinho ajeita as coisas coloca o menino mais novo no lombo do bicho e toca pra cidade”.O retirante não procura as grandes capitais. Vai para Juazeiro do Norte. Cidade santa do nordeste, terra do Padim Padre Cícero, que não desampara os fracos e sofredores. É nos arredores da cidade, assistindo as missas e rezando, recebendo o bocado da generosidade popular e as benções de Deus por intermédio do Padre Cícero. Fica lá até quando chove aí então volta pra casa e começa tudo de novo.A devoção ao Padre Cícero não é só a esperança é certeza de acolhimento e solidariedade. É a reanimação das forças para acender a fé e confiança e poder caminhar amanhã. Ele é o santo do povo. Ali no santuário ninguém quer saber o que aconteceu naquele distante 6 de março de 1889. Ali o povo fala do que acontece agora. O milagre se faz agora e não é nada de extraordinário. É a certeza de um cordeiro que se imola por todos os brasileiros e nordestinos irradiando a alegria própria dos escolhidos.O Papa sabe disso, sente isso com o seu povo. Mas essa era a oportunidade que o nordestino Lula teve para falar do sentimento mais puro e profundo dos seus conterrâneos. Fica o alerta. Os juazeirenses, daqui pra frente precisam ficar atentos. (Por José Leite de Souza,juazeirense radicado em Ilhéus, Bahia)


Postado por DANIEL WALKER

Natureza

Foto: Emerson Monteiro


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Eu também sou de Crato.

Vida há em que a correnteza diária é todo o panorama possível. Mas há aquela em que o debulhar da vida é como uma árvore. Que se finca na terra em busca da água e dos minerais, com um tronco concêntrico em camadas de tantas eras, galhos folheados que se abeberam da luz solar e as flores que a todo tempo resultam em frutos de outras iguais vidas. É segundo esta natureza que digo, eu sou de Crato. Do profundo dos sertões, tão longe do litoral que as brisas vêm das quebradas, serrotes, feijão de corda e carne seca. Uma fome de desesperar a alma, roendo um pequi ainda cru, sorvendo um abacaxi azedo como se mel do paraíso. Ali onde vi um punhado de farinha jogado na boca seca, uma mordida na rapadura e o gole de água barrenta.

Há nesta vida uma porção de outras vidas, mas jamais um saudosismo que negue a realidade contemporânea. É que no Crato, antes como agora, a vida é severina. É como cascavel do lajedo, árido, espinhoso e religioso. Só nesse oásis do nordeste se compreende a fé desesperada desta vida que termina antes de tardar e amanhece quando ainda é madrugada. Mas não se resume o Crato, o Cariri, às levas migratórias de ida e vinda, pois não somos apenas desprovidos da terra natal. Pelo contrário. A terra natal é a providência que oferta sentido aos pronomes pessoais. A todos nós.

Quando ainda hoje tenho o desejo irrealizado de ter o mesmo Cadilac Rabo de Peixe que pelas ruas do Crato circulou com Cândido Figueiredo, é que não é o carro que me satisfaz. É a ousadia de Cândido Figueiredo, alegre, otimista, com suas gargalhadas de abrir as encostas do vale. Em que pesem interpretações, de quem trombou com o personagem, mas ninguém supera o destemido, sempre no limite do perigo, até mesmo em sua possante motocicleta através das noites do Crato. Agora falei de Alcides Peixoto do qual presenciei uma cena de bate boca no bar do Nenen quando, no limite do entrevero, ele deu uma tapa tão possante no ouvido do outro no qual este girou, para surpresa de todos, como um trapezista no ar.

E os sabores. O doce de leite de Isabel. Gerações fizeram desta iguaria uma adoração ao sublime. Pode ser, mas jamais encontrei, mesmo em Minas Gerais, um tijolo de leite igual ao de Joaquim Patrício. No ponto, não era açucarado, mas era tijolo, tinha uma consistência de caramelo, mas caramelo que se dissolvia na boca. Pode ser que seu Cícero Beija Flor tenha deixado de herança, em algum guardado da sua descendência, amostras das cadernetas de apontamento das compras das famílias da cidade. Se alguém achar algumas destas, faz uma tese de mestrado sobre o consumo de então.

E o Moacir no seu armarinho. Se provocar o Morais e o Carlos Esmeraldo, milhões de pequenas gafes surgirão. Como a freguesa que procura, com muito cuidado para não se expor à curiosidade pública, saber o preço de uma calcinha. Acha o preço salgado e sai. Nisso o espírito mascate do bom comerciante que é o Moacir sai de porta a fora, em pleno e intenso movimento, grita em busca da freguesa: EI DONA MARIA DA CALCINHA. Sim, na mesma rua o salão ABC. O espelho inconfundível, universal, a matriz pela qual se tira o todo do que é um salão de barbeiro. Toda a vida da cidade correndo pelo poder da voz humana, alguma revista para as horas de folga, a sonolência do freguês ausente, o ventilador, tesoura, pente, espuma, navalha e máquina de corta a zero.

Não esperemos que por esta rua nos fuja o maior contra-senso da minha afeição de criança. Era uma das alternativas do caminho de casa. Seguir pela ladeira velha, atingir a matança e daí para a Batateira. Passar em frente àquele pobre ponto comercial. Desprovido da variedade de outros pontos, na verdade tão somente cachaça. Eu tinha simpatia por aquele estado quase franciscano das suas instalações. Mais ainda pela sua freguesia. Pois não foi que um dia ouvi um verdadeiro discurso político contra o seu dono. Uma voz acusatória da desgraça familiar, evocando o respeito pela integridade humana à luz da religião. Fiquei confuso, afinal o acusado se tratava de um quase nada em face dos que eram quase tudo. Era Iô Iô, cujo bar era assim chamado e, dizem, que sujeito a tremendas imprecações se ousasse atraso na abertura comercial, pois os tremores antes da primeira ficavam insuportáveis.

Pois, então, a minha vida é esta árvore. Tem Socorro, Claude, Zé Flávio, Emerson, Morais, Carlos Esmeraldo, Rafael, Armando e Salatiel. E por outras floradas o Lupeu, Leonel, Rios, Domingos Barroso, Pachelly, Glória, Sávio, Ludgero, o Dihelson, Nijair, Melgaço. E a Amanda, quem dela tem notícias? O Glauco, o Tarso e tantos outros muito mais e maior que esta pequena lista.

Como um músico da cidade que campeia nas elaboradas frases que atormentam todos os compositores e dele ouço uma Morena Samba. Com esse olhar de vem pra cá. Pecando com o corpo, um calor de entrega, requebrando, requebrando. E segue como prova da negação do saudosismo resguardado, em que nada muda apenas a chama de uma saudade de fim de tarde.

Interblogs: a poesia alada de Aeronauta

ACALANTO

Não tenhas medo. Cedo ou tarde
A noite virá ao nosso encontro.
E sem espantos te aguardarei sorrindo
Como se estivesses em outro mundo.

Te aquieta. Não te preocupes.
As fadas dormem, por enquanto.
E os mantras que agora canto
São para ouvir o teu sono imenso.

Mas chegará a noite, eu te garanto.
E te acalentarei a contento:
No teu peito a minha alma nua
Voará inteiramente.


http://wwwaeronauta.blogspot.com/

A CONSCIÊNCIA DO EXPLORADO

No que se refere aos séculos do capitalismo, muitos adjetivos foram agregados. Especialmente em razão dos efeitos sociais e culturais de sua economia. Os adjetivos foram aplicados em momentos históricos definidos, mas hoje se fundiram numa mesma massa conceitual. Oprimidos, perseguidos, explorados, discriminados, exterminados, dominados e tantos que se encontram no nosso imaginário. Afinal o efeito da fome, os famélicos da terra, tomando consciência de sua situação na escala real do mundo. Na escala dos arranjos econômicos, a escala nas quais tomam consciência de serem explorados.

Não interessa que seja esta a consciência de um negro discriminado, de uma mulher jogada pela janela por um macho dominador, uma criança de rua apedrejada. Da mesma massa conceitual se encontra a consciência de ser índio como resposta a este rolo compressor que soma uma falsa idéia do progresso humano com as motoserras a gerar vazio. Afinal são todos os efeitos de uma mesma e única forma universal de gerar riquezas e acumular capitais.

Não se imagine que uma consciência seja um simples lampejo. Que de repente assoma a percepção do oprimido. Pelo contrário, a pedagogia do oprimido, a pedagogia que supera a opressão, é um processo que envolve simultaneamente o fim do opressor externamente e no interior do oprimido. O opressor se agrega ao comportamento do oprimido, não como consciência crítica, mas como aceitação de uma espécie de realidade imutável. Por isso, dias nacionais que refletem a consciência da opressão, da discriminação, fazem parte de um processo de superação que se diga é histórico e pleno de subterfúgios.

Se observarmos a realidade das lutas contra a segregação racial nos EUA durante os anos 60, no seu eixo se encontravam os direitos sociais. Aliás, os direitos sociais, uma grande conquista da era das revoluções sociais na Europa, dos partidos comunistas e trabalhistas, agregaram à democracia um valor novo, de universalidade, bastante compatível com uma sociedade complexa, industrial e urbana. Isso é tão profundamente importante que o atual conceito de democracia já inclui os direitos sociais como essenciais a ela.

Quando se levantam dúvidas a respeito das questões da discriminação, do explorado, do oprimido, há por trás, sempre, uma visão política de mundo. Baseada na permanência e não na superação das desigualdades. Por isso mesmo é que no mesmo diapasão da bulha contra os direitos humanos se encontra a crítica aos direitos sociais. Esse é o processo em si de superação histórica de um país como o nosso em que o oprimido carrega a opressão em sua alma; o preconceito e o desconhecimento desfoca a realidade.

Mas nada impede que amanhã uma voz ainda vocifere contra os direitos humanos dos bandidos e contra as cotas raciais para negros. A alternativa é ampliar a consciência social da igualdade humana.

Vem aí o 5º Berro Cariri



Na foto ao lado, abertura do 2º Berro Cariri,
realizado em 2005. Da esquerda para a direi-
ta, o então Reitor da URCA, André Herzog, o
Governador do Ceará, Lúcio Alcântara e o
criador do evento, Prof. Francisco Cunha.

A cidade de Crato será sede – no período de 4 a 7 de dezembro – no Parque de Exposição Pedro Felício, a quinta edição do Berro Cariri, uma feira que vem sendo realizada desde 2004 objetivando incrementar o setor da ovinocaprinocultura regional.Serão priorizados as cadeias produtivas da ovinocaprinocultura, apicultura e mandiocultura. A novidade deste ano fica por conta da introdução de bovinos e de pequenos negócios rurais. Agentes financeiros, como Banco do Nordeste e Banco do Brasil estarão com agências para financiar venda de animais e produtos agrícolas.
A 5ª edição do Berro Cariri será aberta às 17 horas do dia 4 de dezembro, com apresentação de retreta com a Banda de Música Maestro Azul do Crato. Na programação cultural estarão ainda, apresentações de reisados, festival de violeiros e shows com Joãozinho do Exu, Flávio Leandro, Epitácio Pessoa e Herdeiros do Rei.
A razão do nome
O nome BERRO CARIRI foi idéia do saudoso Monsenhor Francisco Murilo de Sá Barreto. Este, ao ser comunicado – pelo Prof. Francisco Cunha, em 2004 – da iniciativa da Universidade Regional do Cariri–URCA em promover uma Feira Regional da Ovinocaprinocultura, lembrou uma carta do Padre Cícero Cícero (dirigida ao deputado Floro Bartolomeu) onde o sacerdote dizia: “O Cariri precisa continuar “berrando” na busca da solução dos seus problemas”...
O prof. Cunha não teve dúvidas: O nome da Feira será BERRO CARIRI! E assim foi da 1ª a 5ª versão que será realizada de 4 a 7 de dezembro de 2008,
O Cariri
A Região do Cariri é um verdadeiro oásis, encravado nos adustos sertões do centro nordestino. A diferença altitudinal da Chapada do Araripe, associada a Massa de Ar da Zona de Convergência Intertropical garante uma maior precipitação pluviométrica, que associada a solos férteis, permite o desenvolvimento de uma agricultura e pecuária com grande potencial de crescimento.As condições edafoclimáticas são propícias ao desenvolvimento de uma pecuária de pequeno porte, onde a ovinocaprinocultura se apresenta como uma alternativa de grande potencial para a região.

O DIA DA CONSCIÊNCIA BRANCA !

.

Esse título lhe causou impacto ou indignação, não foi?
Já se perguntou se esse impacto não foi exatamente por causa do seu preconceito interno e involuntário contra os negros? Estava eu aqui a ler as notícias do Brasil e do Mundo, vendo o que devo postar no Blog do Crato, nesses dias por ocasião do dia da Consciência Negra: Consciência Negra ?? E o que vem a ser "consciência Negra" afinal ?

Porque se no Brasil não existe preconceito em relação aos negros, já perceberam que toda vez que se fala dos negros já é uma espécie de discriminação ? Nunca pararam para pensar ?
Por exemplo, vagas especiais nas escolas para os negros. Isso não já é um tipo de preconceito, de separação ?

E as piadas ?
Se eu começasse uma piada dizendo: "outro dia vi um bando de brancos que estavam num bar quando..." nada aconteceria, porque branco não se importa com nada. Muitas vezes não é o branco que tem o preconceito. O que existe é um resquício, um ranço criado pelos próprios negros em torno do problema, pelo fato de negros serem minoria. E toda minoria sofre com esse tipo de problema. No mesmo exemplo supra-citado, se a piada começasse assim "outro dia vi um bando de pretos que estavam num bar quando..." Aí sim, seria a maior celeuma! Iam acusar de piada discriminatória, preconceituosa etc e tal... perceberam aonde quero chegar ? Voltando ao caso do já famoso "Dia da Consciência Negra", acho que quando se elege um dia para as minorias já é um tipo de preconceito. Por exemplo, o dia do Índio. O dia da Mulher, O dia da Consciência Negra, o dia do aleijado, essas coisas assim. Porque todo dia é dia de branco, todo dia é dia de gente normal e ninguém se importa. Então porque criar-se esses dias especiais para homenagear as minorias? Puxa vida! que me perdoem os que pensam o contrário, mas acho que a discriminação começa logo daí. Porque quem está por cima, não está nem aí se tem o seu dia ou não... Ah, é dia dos negros ? Os brancos aplaudem também, sem nenhum problema, sem nenhum preconceito!



Agora, que tal criar o DIA DA CONSCIÊNCIA BRANCA ? Ah! não, isso é coisa da KU KLUX KLAN, é pecado, é satânico...é preconceito desafiando os negros! Existe uma banda musical chamada "So preto sem preconceito" . Já pensou se alguém criasse a banda "Só Branco sem Preconceito" Iria ser processado...

Existe uma musiquinha que acho altamente preconceituosa chamada "Black is Beautiful" ( O Negro é Lindo ). E quem falou que não era ? Se alguém criasse uma música "White is Beautiful" iriam chamar de Nazista!

Pois é: E eu pergunto: Quem é que faz esse preconceito afinal ? Conheço brancos que têm a consciência negra e negros que têm a consciência branca. Mas o que importa afinal, é que não haja qualquer tipo de discriminação entre QUALQUER raça, etnia e cor. Salve todas as etnias sem qualquer preconceito! Principalmente aquelas que não geram preconceito entre os seus.

Por: Dihelson Mendonça
( by the way, Moreno ).

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Imaginação

O mal em deixar pequenas lagartixas
abancarem-se sob o mesmo teto
é que crescem e viram assombrações.

Espero que tenha sido um rato
aquela sombra trem-bala a disparar pelo piso.

Que a esposa não morra de susto
nem o pequeno mije na zorbinha
presente de aniversário.

Vulto

Minha mente exaurida
pede penico.
Joga a toalha.
Clemência.
Mas doutor um comprimido resolve.

Minha mente sorrateira
engana até o pôr do sol
que ultrajado me ataca atrás da nuca.

Quisera no meu quintal tivesse árvores frutíferas.
Uma jaca enorme
a despencar do alto no meu espinhaço.

Solstícios e Equinócios


O mundo se refizera, magicamente, com a chegada das primeiras águas. As árvores trajavam vestido novo. Os pássaros anunciavam aos quatro ventos a chegada da boa nova, num canto de anunciação. Os semblantes molhavam-se também do verde da esperança. O velho recolhido na concha da rede, súbito, ressuscitou com a natureza. Juntou um pouco do ar que lhe restava e sussurrou aos filhos, telegraficamente, aquelas que se prenunciavam suas últimas palavras:
--- Basta! ... parem os remédios...façam minha vontade...me levem para o Mocotó !
O menino, sorrateiramente, se escondia por entre as bananeiras, enquanto ouvia um bulício , uma algazarra para o lado do açude da fazenda. As folhas úmidas das últimas chuvas lhe encharcavam o corpo ternamente. Baleadeira a tiracoclo, umas duas rolhinhas no embornal, se foi serpenteando por entre as folhas e flores. O jasmineiro incensava o mundo com um perfume inconfundível. Finalmente, por trás de um cambuí, conseguiu observar a imagem que nunca mais lhe saiu da lembrança. Meninas púberes, com seios rijos e os primeiros pelos enegrecendo os delicados montinhos , saltitavam no meio das águas. O menino , embevecido, teve sua primeira revelação : descobriu que o prazer é líquido.
O homem contemplava a vida ao derredor com um ar desesperado. Aquilo que um dia tinha sido uma aquarela, hoje, tomara um tom gris, transformara-se em nanquim. Um único juazeiro, à beira do rio totalmente seco, teimava em manter o verdor passado. Só. Carcaças da criação, ossos reluzentes, tremulavam ao sol inclemente, decorando de forma irregular o chão da fazenda . Couros espichados em varas faziam-se bandeiras desfraldadas da morte. Recendia por todos poros do universo um distante ar de decomposição. Dissolvia-se a paisagem, fundiam-se faces esquálidas, como bonecos de neve expostos ao sol. Na sala da casa da fazenda um caixão de um azul celeste abrigava um anjinho no seu último leito. Duas velas procuravam atônitas o acompanhamento de algumas lágrimas que escorriam languidamente de olhos cansados de dissolução. O homem mal percebeu o contraste. Em meio à paisagem áspera e ressequida, a vida refazia-se amorfa e gelatinosa.
As árvores se despiam das suas folhas e lançavam suas vestes por sobre os caminhos , atapetando as veredas e trilhas com uma colcha de retalhos multicolorida. O sensual strip-tease arrebatou o rapazinho. As visíveis mudanças do tempo se antenavam com suas profundas transformações interiores. A natureza estendia seu tapete que como que lhe abrindo estradas inúmeras e possíveis a seguir, a trilhar. Teria, como a Chapeuzinho Vermelho, que escolher entre o caminho da floresta , o do rio ou tantos, tantos outros igualmente inseguros e arriscados e sempre com o encontro inevitável com o lobo, no final. Trazia ainda na boca o gosto do beijo da namorada e nos dedos a memória olfativa do passeio por relevos e depressões úmidas, aquele cheiro tesudo que jamais evaporaria de suas mãos, emprenhando sua vida de vontade e cio. Olhou ,detalhadamente, o manto colorido das folhas e seguiu o canto da sereia. A existência, mais que nuca lhe pareceu firme, sólida, como o falus que carregava incomodamente entre as pernas.
O velho fitou delicadamente a promessa de paisagem verde que se estendia, a não mais se ver, da varanda da casa do Mocotó. Repolteado numa preguiçosa, contemplou o cajueiro fartamente florido e comentou a abundância da safra vindoura. O bem-te-vi lhe entoou um canto familiar de alvíssaras. O pequizeiro já pendia com os frutos pequeninos e a boca se encheu de água na perspectiva do baião-de-dois futuro. A chuvinha fina da noite umedecendo o esterco no curral reacendeu no mundo aquele cheiro de campo. Os bezerros amarrados aos pés das vacas, na ordenha , preenchiam a fazenda com seus berros pidões. Num esgar de felicidade, os olhos do velho enevoaram-se .Aos poucos, ele foi percebendo o caráter volátil e gasoso da vida que ciclou, como toda natureza, entre solstícios e equinócios.

J. Flávio Vieira




A Rua Senador Pompeu - Anos 60



Lili Moreira , na esquina da Usina
com seus tangos , em contra-ponto
com os hinos da Igreja.
"Mano a Mano"...
"Oremos Deus " !
A distinta família Calou
Seu Calasans , Dona Mariquinha
e a prole numerosa ,
que eu adotei como minha :
Kleber ,Ênio , Chico , Flaviano ,
Fernando,Carlotinha ,
Salete , Sônia ,
Helenice , Socorrinha ,
Míriam e Verinha.
Bem pertinho dessa casa ,
o salão Paroquial ...
E o Instituto São Vicente
um centro educacional.
Dona Anilda ,Dona Alda...
Lapidando com jeitinho
ensino fundamental.
Celebrando a alegria
tinha o Pe.Frederico
- Um mito !
Distribuía balas e pitos...
Sermões em brados e risos
Naquela escola-modelo ,
todos nós nos conhecemos ...
Por um tempo ,ou por uns anos ,
enquanto dura , a infância !
Os filhos de Dr. Anibal ,
de Eneida Figueiredo,
De Jeferson Albuquerque
e Letícia Figueiredo.
Dona Almina , Dr. Borges,
Raimundo Maia , Teresinha Pirão,
Hermano Teles , Paulo Frota,
Derval Peixoto , Ossian
Chico Alencar , Moreirinha
Seu Hubert, Edméia , Nemésio,
Os Teixeiras e os Higinos...
e outros que eu não lembro.
Quem não amaria uma escola
com parque de diversão,
campinho pra jogar bola e
piscina ?...
Mergulhos na ilusão !
Professoras como
Almerinda e Lúcia Madeira
Dona Célia e Nadir Brito
Severina Calou ( tão bonita !)...
Todas muito competentes,
nos ensinaram que a vida,
depende da base feita !
No expediente noturno
Adultos tinham sua vez
Um sacrifício bendito
apostado no saber.
As festas de São Vicente ,
glorioso padroeiro,
Tinham quermesses e bingos...
Bebidas acondicionadas ,
no monstro das geladeiras,
que eram à querosene.
Sinto o gosto desse tempo
me animo nas lembranças
coloridos celofones,
envolvendo algumas prendas ,
que seriam leiloadas,
para apurar o dinheiro.
Valia tudo :
galinha assada, bolos,carga de rapadura,
cachos de banana ,sacas de arroz ,
e a voz de Célio Silva,
que bem se fazia ouvir.
No pedaço dessa rua ...
o oitão da nossa Igreja ,
e os famosos Oitis ...
A sombra da nossa paz ,
brincadeiras e folguedos,
e o gosto de ser feliz !
Um Hotel familiar ,
vizinho a Seu Pitias...
Pai de Dr.Dalmir,
de Derval e Seu Delcy.
Vizinhos da minha casa
moravam Seu Antonio Leite,
Maria e Dona Expedita...
Tia Didita ,como a chamava
Salete e Vera Leite.
De noitinha , a calçada
de gente se apinhava
Cadeiras enfileiradas,
acolhiam os namorados,
que namoravam direito!
A meninada , se esbaldava ...
na macaca , na corda,e na roda ...
parecia que sabia
que o tempo passa ligeiro!
Em frente à Juarez Távora ,
uma pequena concentração
de personalidades...
Rosa Amélia , Seu Orestes ,
e a pensão do Misael.
Misael era famoso
pelas mentiras contadas
Mas tudo inofensivo...
Mal a nada,nem fazia ...
Estórias de pescador,caçador ...
A gente nunca confia !
Mais na frente ,o antigo Clube Social ...
e a feira da rapadura ,da corda , e do sisal.
Casa do gerente das Pernambucanas ...
Sons de Charanga ...
Cadê Henrique,minha gente ?
A velha Pasteur,
sem olhar para o Banco do Brasil ,
e desconhecendo totalmente,
a Pague Menos e a Gentil!
Dona Mundinha Saraiva,
na cadeira de balanço,
quando era de tardinha ...
Parecia bem quietinha !
Siqueira Campos...
-A praça dos nossos sonhos !
Que inveja dos Lins...
Fernando , Luiza , Isavan ...
Moravam na sua beira ,
de longe ,a gente via !
Enfim , o quarteirão dos mais societes:
Dona Nadeje ,as Arraes...
Altanita Brito ,Ramiro Maia .
Seu Alfredinho , Seu Pierre ...
A formusura das gatas ...
ou era das garças puras ?
A Penitenciária ...
A Praça da Sé ,
e a rua acabava . ..
Um pouco de tudo
de uma ponta a outra ...
A vida se mistura
Como o melado da cana,
numa salada de frutas !

Somos todos filhos da cópula

Tiquinho. Onze anos. Ruivo como um Viking. Sardas por todo o território corporal. Enferrujado e, sem qualquer preconceito, enfezado até com a sombra. Tal, em face de um espírito muito desconfiado. Provavelmente tenha adquirido tal desconfiança pelo seu estado diferenciado entre tantos mamelucos. Mas todos sabiam que a matriz estava no próprio apelido: tiquinho. Apelido: este coroamento social que nos aplicam, sem que queiramos a monarquia. E o apelido chegou a Tiquinho por uma incompreensão de Bobôco.

Bobôco, lápis de carpinteiro por trás da orelha, óculos fundo de garrafa e uma surdez de fazer inveja a uma porta. E tudo ocorreu numa roda de adultos quando Tiquinho, ainda não tinha esta alcunha. Acontece que Antonio da Bibia, enquanto dava umas baforadas em seu lasca peito, olhava para um menino à época com seis anos, brincando numa agitação que só ele possuía entre os outros. Vendo aquele menino dourado, até nas sobrancelhas e cílios, Antonio comentou: este menino é igual um periquito. Não qualificou o pássaro todo, mas todos entenderam que era um periquito australiano. Nisso, Bobôco que tentava pescar algum retalho da conversa, se admirou do que Antonio tinha chamado o menino e na sua interpretação de mouco perguntou: prequitinho? Todo mundo caiu na gargalhada e aí o primeiro patamar do enfezamento de Tiquinho.

A situação ficou tão difícil, foi tanto menino com roncha das pedradas de Tiquinho que, afinal, uma convenção entre pais e as demais crianças evoluiu o Prequitinho para o Tiquinho de hoje em dia. Não que Tiquinho gostasse mais do nome, preferia o seu original Elvis, todos sabemos em homenagem a quem, embora se tenha em contas que se os pais tivessem consciência histórica o chamaria de Erik, o Vermelho ou algo assemelhado. Mas Tiquinho deu para a adaptação social do menino ocorrer, embora não sem atritos. Como este que segue.

Tiquinho chegou em casa mais vermelho que o seu dourado ruivo. Vinha suando muito, com aquele exalar de cheiros que só os ruivos têm. Entrou de casa adentro como se buscasse a arma de uma vingança. Nisso o avô percebe o vulcão e pergunta o que houve. O menino esbraveja com todas as imprecações que o dicionário guardara por tantos séculos. O avô tonto de tanta sinonímia, afinal consegue uma explicação. Valdir, um vizinho, tinha dito que Tiquinho era filho de uma cópula (isso para amenizar os leitores, pois disse mesmo foi outro sinônimo para tal palavra). Aquilo era uma desfeita com a mãe dele, com ele e com toda a família. Agora ele tinha que honrar a dignidade familiar com uma grande vingança.

O avô, sábio com os entreveros do tempo que trabalhou nos seringais da Amazônia, foi acalmando o neto com alguns detalhes. Descascando o assunto como se faz com uma cana. Primeiro procurando que o neto verbalizasse o que entendia por aquele xingamento. Depois procurando universalizar a situação, afinal somos todos filhos de cópulas. Aí Tiquinho, muito envergonhado tempera com o avô se naquela generalização havia o prazer, o gozo que tanto o catecismo cristão criticava através dos sete pecados capitais. Afinal, ficou claro que o pai de Tiquinho copulava com a mãe dele e que aquilo ao invés de luxúria era uma bonachisse do Pai Eterno pelos termos do crescei e multiplicai-vos. Situação resolvida? Nem tanto.

No dia seguinte chega a reclamação de olho inchado em Valdir. O avô cobra aquela atitude de Tiquinho. Este responde: isso é para nunca mais ele me deixar em dúvida.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

TEMPO PARA MAIS UM PECADO


Sempre tenho tempo para mais um pecado
Sempre tenho muito tempo para contar cada brisa
Sempre com os pulsos firmes para levantar as saias
E se mesmo assim as fadas não me quiserem
Não há como não me deixar voar

Mesmo que não haja mais o galope
Haverão meus passos sobre a estrada
Mesmo que os anjos nos abandonem
Resta-me a minha própria luz
E mesmo que haja a rejeição das fadas
Ainda há o lupanar do céu
E as estrelas como cada meretriz que me seduz
Foto: Tuta - Site Olhares

AINDA ASSIM



A espera do crepúsculo, do alto da torre
A sangria imensa dos faróis vermelhos
A turba gigantesca a buzinar
A bruma cinzenta sobre os carros
E daqui de cima eu a tragar o rum
E lançar no ar a fumaça do cigarro


O traseunte cego pelo delírio do ter que chegar
Cego e não vê as vidas que por ele passam
Cego ao por do sol, a água como prisma
Cego ao lento e leve vôo do pássaro
O Condutor cego pelos cristais da chuva
Cego pela ira em ter que esperar
E mesmo parado ninguém espera
E ainda assim esperam ver o mundo mudar...
E ainda assim esperam ver o mundo mudar...
Foto: Mariis

Ócio bacana

Sou um exímio cavaleiro
montador de minotauros e pégasos.
Mas não sei nadar nem andar de bicicleta.
Levo a vida a rastejar
embora minhas asas brilhem na calçada.
Meu melhor amigo é uma lagartixa taciturna
que fez abrigo debaixo de um vaso de planta.
Minha flatulência é o meu incenso orgânico
perfeito para essas tardes solitárias.
Creio que é hora do meu cafezinho quente.
Lembrar à minha alma que cafeteira é gente.

Fuga

Se não bebo café na tua xícara,
se não lavo o rosto com teu sabonete
é porque tu me feriste.
Careço agora
correr ao bar da esquina.
Não te preocupes:
Seu Bilu, o engraxate,
trará de volta meus despojos.

Mansidão

Minha carcaça é costurada
por fios de ouro
e adornada com lantejoulas.

Abre bem as narinas.
Sente o perfume
que exala do meu ventre:
vísceras, pétalas, patchouli.

Olho de cachorro louco

Perdôo as mazelas cotidianas
não por santidade.
É uma estratégia:
estreito laços e cumplicidade
com a mente alheia.

Dizem que tenho olho
de cachorro louco.
Não imaginam eles
como brilham meus caninos.

O mar está revolto
mas vejo golfinhos
às cambalhotas.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O outro lado do oceano

Não ouse enfrentar a ventania.
Nem pégaso consegue.
Por mais apedrejado
sorrio dissimulado.
Meu espírito insone
não bebe nem usa droga.
Mas, meu deus, como é infernal.
Não me deixa dormir,
não larga dos meus dedos.
Tenho dó do galo
que morreu sufocado
da própria angústia.
Cantava tanto de madrugada.
E nenhum lunático se compadecia.
Agora é minha voz perdida.
Ouço tambores pelos terreiros.

Dor

Nessas horas tortuosas
é uma dádiva não ter em casa
um revólver.
O gatilho é leve e frio
feito uma patinha de rã.
E a loucura
hospedeira do mal
nunca dorme,
nunca dorme.

Nessas horas patéticas
quando pessoa é animal
é uma graça não ter em casa
uma espada de samurai.
A ponta da lâmina encanta.
O ventre suplica para ser rasgado.
E a loucura
hospedeira do mal
nunca dorme,
nunca dorme.

Nessas horas tristes
é uma vida que morre.
Sem gatilho apertado,
sem espada cortante.
E a loucura
hospedeira do mal
nunca dorme,
nunca dorme.