TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Projeto Brasiliana de cara nova

V 11.jpg


O site da Brasiliana, criado pela área de História da USP, está com cara nova. Recebi mensagem do Prof. Dr. Pedro Puntoni anunciando que nesse dia 25, a partir das 14 horas, o site da Brasiliana vai poder ser acessado com as inovações. 
Segundo a mensagem,  


"Está mais fácil acessar os livros digitais e o visual do site foi alterado.




A nova versão, que chamamos de 1.1, ainda é uma versão de testes. Ela oferece ao usuário um acesso mais fácil ao conteúdo da Brasiliana Digital.


Antes, era possível baixar cada livro em duas versões: alta resolução ou baixa resolução. Os arquivos em alta resolução (300 dpi) eram maiores, por isso o tempo de download era longo. Entretanto, eram arquivos melhores para impressão. Os arquivos em baixa resolução (100 dpi) eram mais leves e adequados para serem lidos na tela do computador. Utilizando um novo software de compressão dos dados, foi possível diminuir incrivelmente o tamanho destes arquivos (95% em média), mantendo-os todos em alta resolução (300 dpi). Agora você não terá mais de escolher – terá a melhor qualidade de imagem e mais rápido.


Além disso, alteramos o visual do site. Agora ficará mais fácil navegar pelo conteúdo da Brasiliana Digital (apresentações críticas e blog da brasiliana) e também conhecer o projeto Brasiliana USP. O campo de busca está sempre presente. Os novos lançamentos estão anunciados e os comentários e sugestões continuam bem-vindos. Se você quiser, poderá seguir nosso twitter e estar sempre ligado nas novidades da Brasiliana Digital"





Muito Claro

É claro, é muito claro
Que as hastes das rosas envergam
Quando os ventos sibilam nos prados
Que os olhos reluzem como o orvalho
Em prisma, quando olhos outros
Farejam e fitam o mesmo olhar.
É claro que o tato, que a pele-veludo
Sente o toque, o lábio pousado no lábio
Como conchas que se fecham
Para nascer à pérola do toque das línguas
No côncavo e o convexo dos beijos.
Tão claro é que os cheiros dão pistas
Para os faros atentos, que cercam
As peles, os cabelos ao vento,
Ao perfume que lateja no ar...
É claro que ainda te vejo,
No aroma do café que eu bebo,
No vôo do pássaro,
E em lágrimas que por vezes
Insistem em brotar.

Imagem: Claudia Morais

Crato nasceu do carisma de São Francisco – por Armando Lopes Rafael


Em 1641 (para alguns historiadores) ou 1642 (para outros), alguns frades franciscanos, foram aprisionados pelos calvinistas holandeses – na costa da Guiné, próximo à África – e levados para Pernambuco. Ali, foram entregues a Maurício de Nassau, governador do Brasil holandês.
Esses filhos de São Francisco conduziam uma pequena imagem de Nossa Senhora da Penha – confeccionada na França – que permaneceu em Recife de 1642 a 1745, quando foi enviada à Missão do Miranda (atual cidade de Crato) onde pontificou como padroeira dos cratenses até 1938.

Abaixo, dois textos do livro “Capuchinhos em terra de Santa Cruz nos séculos XVII, XVIII e XIX, de autoria de Frei Fidelis Maria de Primério, O.F.M.CAP, editado em 1940, que comprovam nossa afirmação acima:

“A versão geral acerca dessa prodigiosa imagem, é que ela foi trazida para Pernambuco por cinco missionários capuchinhos, que se dirigiam para Guiné e foram, no litoral africano em 1641, atacados e presos pelos corsários holandeses, calvinistas que infestavam aquelas águas. Os missionários foram mui maltratados pelos corsários e por fim entregues aos holandeses que dominavam Pernambuco.

Esta tradição geral, que bem desposa com a história dos novos missionários, apresados nos galeões espanhóis, quando rumavam para a Guiné, explica-se facilmente porque os missionários puderam conservar consigo o precioso tesouro, que intentavam levar às tribos africanas, qual estrela de salvação, e ao invés veio para terras pernambucanas. Os corsários holandeses apresavam para levar à sede, Pernambuco: o interesse exigia-lhes que respeitassem a presa, ainda que não condissesse com suas crenças”.

“A preciosa imagem de Nossa Senhora da Penha, que fora respeitada pelos próprios hereges, tornou-se a santa de preferência do povo pernambucano, que lhe ergueu um majestoso templo. O culto da mesma Senhora fez com que se obliterasse o título da Capela que a acolheu em 1641, a qual estava dedicada ao Divino Espírito Santo, e que passou a chamar-se “capela” e depois “igreja da Penha”. A pequena imagem dos franceses foi em 1745, por Frei Carlos de Spezia substituída pela atual, feita em Gênova, modelada pela antiga”. (página 51)

Corroborando as citações acima, em artigo publicado na Revista Dom Vital (nº. de agosto/setembro de 1955) sob título “Resumo Histórico”, páginas 7/8, consta ali:

“Em 1733, o Prefeito da Missão Frei Boaventura de Pontremoli ampliou a antiga capela, resolvendo seu sucessor Frei Carlos José de Spezia, em 1745, substituir a vetusta imagem dos franceses por uma nova estátua, feita em Gênova pelo escultor Maragnoni que a modelou artisticamente sobre a primitiva, logo depois enviada para a Missão do Miranda no Crato” (grifo meu).

Crato nasceu do ideal franciscano

Os historiadores são unânimes em reconhecer que, antes de 1740, já possuía o Vale do Cariri certa densidade demográfica, embora não existisse ainda nenhum aldeamento ou povoado considerável. Por volta de 1741, surgem os primeiros registros de um aldeamento dos índios Cariús, pertencentes ao grupo silvícola Cariri. Era a Missão do Miranda, fundada por Frei Carlos Maria de Ferrara, religioso franciscano, nascido na Itália. Este frade ergueu, no centro da Missão, uma humilde capelinha de taipa (paredes feitas de barro) coberta com folhas de palmeiras, árvores abundantes na região. O santuário foi dedicado, de maneira especial, a Nossa Senhora da Penha, a São Fidelis de Sigmaringa e à Santíssima Trindade.

Em volta da capelinha, ficavam as palhoças dos índios. Estes, além de cuidarem das plantações rudimentares, recebiam os incipientes ensinamentos da fé católica, ministrados por Frei Carlos. Aos poucos, nas imediações da Missão, elementos brancos foram construindo suas casas. Era o início da atual cidade do Crato.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, Padre Antônio Gomes. A Cidade de Frei Carlos. Crato (CE): Faculdade de Filosofia do Crato, 1971.

LÓSSIO, Rubens Gondim. Artigo “Nossa Senhora da Penha de França, Padroeira do Crato” in revista “Itaytera”, ano VI, nº. VI, órgão do Instituto Cultural do Cariri. Tipografia A Ação, Crato (CE) 1961, páginas 49 a 51.

Texto:Armando Lopes Rafael

domingo, 24 de janeiro de 2010

Oráculo

Quando o fogo queima
não te assustes

é apenas por fora
a casca.

Quando a água molha
não te encolhas

é apenas por fora
a camiseta.

Nem o fogo salva
tampouco a água renova

se alimentares o medo.

Beija teus próprios pés
curva-te diante dos teus olhos
sem pressa.

Tua morte te espera
última chamada
na escadaria.

Não ouses fugir
por favor, sem trapaças.

A morte é fina
como uma chuva
fugindo da memória.

Mas a morte também é densa
feito a última seringa
cheia de coágulos.

Galeria de Chagas no Flickr

CHAGAS, já conhecido nestas paragens como poeta de fôlego e muito e sagrado fogo-poético, depois de ser presenteado com uma máquina fotográfica pela filha, resolveu começar a fotografar e brindar aos navegadores do Flickr com suas fotos. O resultado é surpreendente para um amador iniciante (será?).

Aqui, uma pequeníssima mostra do seu talento de escultor de imagens, começando por um auto-retrato e cenas do cotidiano de São Paulo, cidade cosmopolita por ele escolhida para suceder a sua querida e cósmica Crato.
Para acessar a Galeria de Chagas no Flickr clique AQUI.

CONCEPÇÕES DE UMA POÉTICA ...de WILSON BERNARDO...

O MISTÉRIO DAS PROIBIÇÕES.
Pular o muro feito gato
Em busca do cio
Rosnar feito cão.
Dormir em teu quarto
Disfarçado de amante...
E acordar com a sensação
De que o proibido é a razão.
Wilson Bernardo(Poema & Fotoartgrafia)

sábado, 23 de janeiro de 2010

SOPA DE LETRAS


Um canto de passarinho num domingo de manhã

. O que seria poder criar uma pessoa à sua imagem e semelhança, só as mães, mães são deusas, modelam personalidades. Diante de um filho pequeno o ser adulto está puro, o mérito de ser pai e mãe é não ter que fingir entre os seus, prova-se na transparência do cotidiano compartilhado, o bom ou o ruim diários. Pensou que um dia escreveria sobre um personagem feminino com filhos, e sua forma de criá-los a partir do antagonismo. Aprende-se ao contrário, ela acreditava. Seria uma mãe permissiva, liberal, meio infantil, amoral, livre e transviada. Teria filhos distanciados do seu perfil, acreditava. Deixaria voar sem estarem prontos para que realizassem o que queriam, não lhes negaria os desejos, cuidaria dos ferimentos depois. Ou foi por isso que a natureza lhe negou filhos. Não arriscaria se repetir numa segunda visão de mundo misturada às escolhas e experiências próprias da pessoa com vida autônoma, mil influências ao redor, não sairia perfeito seu plano de criar um ser. Nem através do antagonismo - pais loucos, filhos sãos - era apenas uma idéia de um personagem. Não queria ver-se refletida com seus defeitos inclusive. Certamente que seriam incorporados de alguma maneira naturalmente, como dito, adultos estão límpidos diante das criancinhas, e se lhe mostrariam diante dela seus defeitos neles, seria só uma questão de tempo. Os filhos retalhos de si. Pondera, poderia costurar bem costurado, corrigir, convence-se: daria muito trabalho correr como uma louca com uma vassoura na mão a varrer para fora deles o que ia percebendo de si negativo surgindo neles, reproduzindo. Lembrou-se que bruxas não têm filhos, pelo menos nunca soube.

Ela cantaria como um passarinho até os filhinhos dormirem, soltando de sua mão a mão molinha de sono profundo, e iria deitar cansada e satisfeita. Teria pouco tempo para si, ficaria sonolenta de tanta ocupação e a alma estaria, por conseguinte, indolente. Nunca, disse um dia para si num espelho, - diga falando para ouvir sua voz, dissera alguém, ela ignorou. A última decepção em que provocou cólicas para extirpar um pequeniníssimo embrião. Não lhe custou qualquer remorso. Vê que o que é reprovável socialmente não afeta absolutamente de frente, pousa a mão sobre o ombro depois, ela se vira, é obrigada a olhar pra trás, é obrigada. Já aprendeu a olhar pra trás sem nem sentir a mão que toca(ria) seu ombro. Então poder resolver assuntos que pareciam correntes arrastando atrás de si. Sua conduta às vezes em detrimento do coletivo, naquilo que lhe promove um bem, nenhum mal a ninguém, exemplo nenhum pra ninguém, não quer ser Jesus. Se ele está vivo é nas palavras. Letras não morrem.

Algum tempo atrás enquadrar sócio-politicamente parecia-lhe pernóstico, mas era bobagem, os enquadrados têm muito mais vantagens. Resolveu pensar sobre ou mais além de suas teses sociológicas, e intui que já sabia há tempo. Urge então confeccionar umas máscaras adaptadas, devidamente adaptadas, pendurar nas paredes do seu labirinto. E até escrever usando uma delas. E não. E o sangue é do dono. Depois da hemorragia controlada, alegrou-se em saber que estava tudo bem de novo, aquela sensação indefinível de quem acabou de resolver um problema.

(A Zilda Arns)

AS CONCEPÇÕES POÉTICAS de WILSON BERNARDO

FRITAR OS OVOS NO CALOR DE TERESINA.
Teresina é uma flor de menina
Agreste tardinha de noites molhada de verão.
O teu corpo ensebado de lágrimas
O peito suado na lambida do orgasmo.
Flores matutinas na relva
Um sol vestido de luzes infernais
Quarenta e cinco de temperatura vaginal.
Teresina amanhecida é doce e angelical
Faz calor nos teus olhos
Saberemos degustar a saliente fruta
Caju
Cajá
Cajuina com pães de fornalha
No entardecer das palavras amancebadas
Teresina uma gota de relva no beijo dos olhares.
Wilson Bernardo(Poema & Fotoartgrafia)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sonhos de Poesia

Na contabilidade dos sonhos,
Os medos, as rédias e os freios
Farejam nos calcanhares dos sonhadores.
O sonho no voo da bailarina,
No passo do dançarino,
Na pincelada sensível na tela
Estão os passos que marcam
As pegadas da evolução do homem na terra.
O poema vibra no estalar
Das vagas que se fazem em espumas
Como rendas no ocre da praia.
O sonho está onipresente,
E a poesia vaza seus versos
Em qualquer lugar.

Foto: Rui Pedro Queiróz

cartum por


Apuração parcial - Por Emerson Monteiro

A porta se abriu e de repente lufadas auspiciosas de vento escorrem na face metálica das superfícies, materiais enferrujados em volta das fábricas imaginárias de transformação inevitável, envolvendo tudo com a seda suave do gesto universal da natureza, em ondas insinuantes e repetitivas. Prazer adocicado que não existia poucos instantes passados, contato alegre de mudanças impetuosas na atmosfera e nos sentimentos. Gosto de viver contagiado de pura felicidade avassaladora, nas formas penetrantes através das mesmas frestas da memória que administraram a excitação muscular original, proveniente de épocas da infância, de quando, ao menor gesto, as fibras do coração renovavam cada história dos pensamentos reconstruídos nas tantas outras possibilidades que ninguém o destino. Seres alados das histórias fantásticas invadiam, cinematográficos, as alamedas do espírito, no ímpeto de circuitos mecânicos, precursores da plenitude, euforia inexplicável de roupas drapejando ao sol das manhãs, nas marcas de tempos amarelecidos nas velhas canções italianas que revigoravam o instinto de amor nos corações dormentes dos jovens esperançosos.
Contudo, diante das notícias recentes de terremotos, temporais e programas de televisão que dominam as individualidades, mostrando ao vivo recônditas furnas da consciência, ilustrada folhas vespertinas deste período da aventura humana, há pontos circulando suspensos no ar que aguardam maior discernimento. A velocidade nas estradas e o transbordo das gangues de periferia, ou do centro administrador do sistema, impõem conclusões apressadas, aciduladas, aos filósofos e poetas. Ao menor sinal, drásticas interpretações, no entanto, chegam aos analistas políticos, sempre audazes em permanecer no plantão das ocorrências, fiéis ao princípio da livre iniciativa das massas em franco amadurecimento, abertas a novas perspectivas milenaristas.
No trâmite natural da superposição de liderança, a cada turno eleitoral essa vontade superlativa de sonhar com elementos pouco elaborados nos bastidores da moral dominante.
A quantidade de letras e números bem que ultrapassa com fartura o mérito de tanta gente sonhar acordada perante uma crise quase característica da espécie dos primatas ilustrados, veteranos burgueses convencidos. A civilização capenga, engendrada nos becos e cavernas, estremece nos trilhos das facilidades com o erário público nas mãos, ao sabor das farras e dos batuques nos terreiros da fantasia. Raros, raríssimos, estoques de manufaturados sem data de vencimento chegam e saem dos portos numa seqüência de cartas devoradoras. Pontes metálicas, turbinas supersônicas, guarda-chuvas nucleares, ogivas atômicas, suaves mergulhos de plataformas intercontinentais, portas usb e tontos atores às primeiras horas da manhã, nesse gosto de azinhavre na boca do estômago. Suave murmúrio do teu suspirar, diz a lição dos efetivos doutores da ética.
Só louças quebradas em profusão; cantigas de final de festa, embriaguez das poucas notas musicais das vendas dos botecos em alta e algumas bolsas que oscilam, quando leves chegam as primeiras chuvas do verão sertanejo.

Passional

A fragilidade das noites em claro
após baques poderosos
reconheço através do coração acuado
aos pinotes.

Tu aproveitas.

Lanças sobre minha mente
sapos com bocas costuradas.

O castigo vem a galope
quando sonho:

milícias de sátiros cavalgando
sobre teu dorso em brasa.

E os teus risinhos diabólicos
entram por meus ouvidos de anjo.

De fato, sou um anjo.

Senão ao acordar
puxaria do armário
a velha faca de cortar pão
e sangraria teu sinal do peito.

Antes, é claro, limparia todas as tuas verrugas
de um golpe só em forma de círculo.

Mas não te preocupes.
Eu sou um anjo.

Apenas ao meu corpo
suspiro açoites.

E à minha alma
canto o inferno.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Época Passada

Qual o marujo que não é tragado
pelo canto infernal de uma sereia pervertida?

Assim o poeta lunático
de uma forma mais dolorosa
é atraído não pela lua cheia

mas pelo brilho da espada de São Jorge
e pelo escuro sangue do peito do dragão.

Convenhamos,
sereias pervertidas, luas cheias, dragões:
melhor lavar meu coração com sal grosso e amianto.

...


Minto pros que amo. Escondo as sombras que acobertam meu olhar – providenciais segredos e acertos de contas vencidos; fossos de incompreensão do que acontece na rotina exasperante. Converto esse amor numa mentira, enquanto ouço o ronco do velho no quarto abafado. Penso numa garota que sumiu entre brumas que só serviram para dar o tom de um poema inacabado.

É hora de dar um final indigno para quem me fez esmurrar as paredes, onde fotos anunciavam uma felicidade de gesso: a matarei num poema raivoso.

Fumo meus cigarros brutos, enrolados escrupulosamente na mesa de jantar já vazia. Dou braçadas em piscinas sujas pela manhã, na intenção de me igualar aos tontos; na incansável busca de manter um elo com o que se considera normal.

Escuto a música dos trovões futuros. E percebo que os outros se recolhem em casa com medo. O suor que me desce a coluna é prenúncio de uma noite longa, assombrosamente produtiva quando o assunto é largar faíscas no teclado – digito o que me surge em convulsão, tento reter o segundo, a existência, o pequeno caos particular. Mastigo o resto de fumo entre os dentes e esqueço que ser bucólico é algo impraticável pros que já nasceram sem sonhos prontos.

Onde está meu rock and roll, meu quinhão de sonho? Onde estará minha utopia reluzente e cálida?

Invento-a. De qualquer jeito. Desesperado por sacar que o tempo, coisinha abarrotada de promessas, não cede. Invento o que posso: um amor, o passado confuso, as tatuagens idealizadas tomando o corpo, o silêncio. Leio Maiakovski no coletivo e evito encarar uma tesuda que me ri de soslaio, pra que ela não se coloque à frente do universo que crio enquanto as avenidas fervem e os camelôs vendem o trabalho escravo de chinesinhos desesperançados.

Reduzo tudo à alguns takes confusos. Uso a camisa amarela do poeta russo. Adquiro o cinismo dos antiquados futuristas, enquanto reafirmo meu ódio aos boçais bucólicos e desprezo, com vigor, as linhas mortas dos Campos. Sigo radiante na Praça da Piedade, onde velhinhos blasfemam com as dentaduras frouxas. Sacando que eles não sabem que irão ser meros figurantes sem importância. Assim como você, assim como os que finjo amar de forma convincente nas noites em que escuto os tais trovões que ainda nascerão.

VER com os olhos livres


Em briga de pedra...


Ínvias e tortuosas as veredas do coração. Pascal já se adiantara sobre a relatividade do bom senso e da razão quando diante da imprevisibilidade do sentimento. Entre a sístole e a diástole coexiste todo um universo de percepções desfocadas, como se a realidade sofresse um fenômeno de refração. Talvez tenha sido uma dessas pegadinhas do evolucionismo a cegueira temporária, a loucura transitória, a lombra pontual causadas pelos enlevos da paixão. Defeitos terríveis tornam-se invisíveis, feiúras aterradoras se banham de uma beleza inexplicável , burrices se travestem de ares de inteligência e até a liseira ganha ares de charme e desprendimento. Tentar acordar alguém encantado pelas setas do Cupido é tarefa inglória e perigosa, como se buscássemos despertar a pessoa de um sonho dourado e encantador. Vá lá que é sonho, mas quem diabos prefere a chatice da vigília de todas as horas? Pois aqui vou contar algumas dessas histórias de quem mete os pés pelas mãos e chega carregado de bom senso no terreno pantanoso dos sentimentos, querendo sacolejar e despertar amantes do seu doce e inebriante lombra.
Anos atrás, um querido tio, olhava atravessado para o namoro de um primo. O rapaz se enrabichara de uma coroa meio fuçada e pobre e que ainda carregava do lado o pai velho e cego. O namoro já se arrastava por quase uma década e se prenunciava acabar da pior maneira possível : no altar. Bem, um belo dia correu a notícia que tinham terminado tudo, depois de uma briga de somenos importância. Meu tio se apressou em procurar o primo e abraçá-lo, cumprimentando-o pelo desenlace.
---Parabéns! Finalmente você se livrou daquela coroa enfadada e lisa e , pior, falada na praça , mais rodada que o carrossel do Parque Maia. Não bastasse isso, levava ainda do lado um velho pobre e cego.
Dias depois, para sua surpresa, passa o casal abraçado, do outro lado da calçada. O tio, surpreso, pergunta aos amigos: Oxente, eles voltaram o namoro? Qual não foi o desespero quando ouviu deles a verdade impactante : --- Não , casaram ontem! E aí, como tomar chegada agora , depois das admoestações inconseqüentes?
Outra. Zé Barbosa era casado com Minervina há já uns trinta anos. Trabalhava como um touro no roçado e, como ninguém é de ferro, era chegado a uma caninha nas horas vagas. Num desses dias de feira em Matozinho, voltou a casa mais cheio dos paus que caixa de fósforo. Recolheu-se ao quarto com Minervina e , bêbado como uma cabaça, começou a atacar a esposa, todo infuluído como um garanhão no cio. Minervina o refutava certa do trabalho que teria em realizar o milagre do levantamento de membro anestesiado. Sai Zé! me deixa Zé! O diabo é que casa de pobre não tem lá toda esta privacidade. Paredes baixas e a meio pau, portas finas e semi-abertas. Na sala ao lado, o filho adolescente do casal, Laurentino, ouvia toda a pendenga e começou a se inquietar com o assédio despudorado de Barbosa à sua santa mãezinha. Lá pras tantas, em meio ao “Chega Miné!, Vem cá Minèzinha!” , ele não se agüentou e gritou a todos pulmões:
--- Ei pai, pára com isso ! O Senhor ta querendo é ofender mãe? É , seu tarado?
Laurentino, metia o bedelho em matéria melindrosa. Nem imaginou que estava tentando apagar o fogo que um dia tinha acendido a chama da sua vida.
E , para terminar, vou mandar uma outra história sobre a perigosa arte de meter a colher na sopa quente que envolve homem-mulher. Nos arredores de Matozinho morava Agripino , numa pequena fazenda da sua propriedade. Dessas em que , ano a ano, as roças são tão pequenas que anum atravessa de um só vôo. Casado já quase em bodas de ouro com D. Quitéria, tiveram uma récua de filhos que foram ganhando o mundo e , agora, só restava Isabel com eles, a caçula. A mocinha vinha namorando há uns três anos com Jaime, um gari, funcionário da prefeitura. Agripino começou a se inquietar com o comprimento do namoro e, um dia, colocou o genro na parede, no famoso “é-pra-casar-ou-pra que-é”. Jaime explicou que tinha a melhor das intenções, mas que ainda estava construindo a casinha de morada e , por isso mesmo, ainda não a levara ao altar. O velho, então, do alto da sua experiência, fechou o firo. Ele poderia muito bem marcar o casamento e vir morar, por enquanto, com ele e Quitéria, já que a casa tinha mais de um quarto vazio. Seria até bom para eles que assim teriam alguma companhia por mais algum tempo. As intenções de Jaime para Isabel , de fato, eram as melhores, tanto que o noivo aceitou de bom grado o convite e, dois meses depois, subiram ao altar. Terminada a festinha, Jaime e Isabel se recolheram para a esperada noite de núpcias que naquele tempo ( vejam que coisa mais esquisita) acontecia depois do casamento. Existe coisa mais retrô ? Pois bem, passados alguns minutos, os gemidos de Isabel começaram a ecoar mais forte e se faziam totalmente audíveis através das meias paredes dos quartos. Agripino e Quitéria tentaram conciliar o sono, mas como? Era um ai-ui-ui danado vindo do quarto ao lado , parecia que a lua de mel era de um casal de gatos em cima do telhado. O pai, então, ciente que não conseguiria dormir, resolveu utilizar sua autoridade e acabar, de vez, com a histeria da filha. Levantou-se, dirigiu-se até a porta do quarto ao lado e falou grosso para Isabel:
--- Menina! Que latonia miserável é essa! Se não podia com o pote pra que pegou na rodilha! Acabe com essa besteira, esse ui-ui-ui e resolva logo isso de vez, Zabé!
Lá de dentro, em meio aos soluços e as lágrimas , ouviu uma voz baixinha e chorosa:
--- É... de longe é fácil... num é no cu de pai...!
Como bem dizia D. Quitéria, no dia seguinte, comentando a sinuca de bico de Agripino: Em briga de pedra, garrafa não entra !




J. Flávio Vieira

o meu relicário

É uma pena
que tenha aberto
as portas da matéria
e não se preocupado
com o que acontece
subitamente
além do vazio e do nada.

É uma pena que tenha vivido
a bajular os orixás lhes dedicando
rituais sinistros, tais como:
"uma colher, um torrão de açúcar e água."

Depois só ver a alma
mordendo a própria língua.

É uma pena que sempre se valha
de uma palavra debaixo da língua.
Assim nunca será um santo epiléptico.

É uma pena que tenha se assustado com o aneurisma
tão somente nas horas de impasses e espasmos.

E não praticado
quando convinha
meditação e piedade.

É uma pena que a morte
nunca lhe chega aos pés.
Nunca lhe assombra as noites.
Nunca lhe cinge de vez os cílios
com a remela dos enfermos.

É uma pena o seu suspiro
assemelhar-se tanto a seu soluço.

Enlouqueço não saber
se é cansaço
ou tristeza.

É uma pena
que não tenha tido
uma companheira
que entendesse:

seus ossos
ainda que exumados
cheiram bem.

Kaika Luiz no Programa Cariri Encantado


O carnaval é um dos mais típicos festejos do Brasil. Do Oiapoque ao Chuí, essa festa popular, feita pelo povo, para o povo e de povo, é celebrada com alegria e descontração contagiantes. No Cariri não é diferente, apesar de já termos tidos carnavais mais brilhantes em tempo outrora.

Mas, tudo que é legítimo e representativo, pulsa e resiste. Há alguns anos, existe toda uma movimentação visando resgatar os saudosos carnavais da região. No Crato, esse movimento tem como uma das suas principais lideranças, o promotor cultural Kaika Luiz, um dos produtores do carnaval da Saudade, realizado no sábado magro de carnaval, no tradicional Crato Tênis Club. O baile está prestes a completar sua quinta edição consecutiva e se constitui num dos principais símbolos da retomada do carnaval cratense.

O Programa Cariri Encantado une-se a esses entusiastas idealistas e nesta sexta-feira fará ecoar o grito de carnaval já incontido no peito dos foliões locais. Para tanto, contará com a presença de Kaika Luiz que falará sobre a produção do baile Carnaval da Saudade e as perspectivas de realização de uma grande e alegre programação momina na região.

O programa Cariri Encantado é levado ao ar todas as sextas-feiras, das 14 às 15 horas, pela Rádio Educadora do Cariri AM 1.020, com retransmissão pela Internet através do site cratinho.blogspot.com. Apresentação de Luiz Carlos Salatiel e Carlos Rafael Dias e apoio do Centro Cultural Banco do Nordeste.

Se ligue!

COLAGENS DE UMA POÉTICA de WILSON BERNARDO...

A LITERATURA DOS FATOS.
Poemas...
De onde menos se espera´
É que se faz poesias.
O olhar triste de um cão
Em busca de afagos
Ou nos olhos de fúria
De quem foi traído pelo
grande amor de cama.


Wilson Bernardo(Poema & Colagens)