
TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE
sábado, 29 de maio de 2010
A nossa "Celebração do Encantamento" é hoje!

sexta-feira, 28 de maio de 2010
Rumores
sei que não bato bem do juízo.
Há uma mola, parafuso, pino
fora do encaixe.
Da mesma forma que poesia
não é prerrogativa da natureza.
Ou seja,
pôr do sol,
chuvinha fina,
estrelas.
Encontro poesia com frequência
no meu cotidiano entre objetos
e bichinhos caseiros.
Raramente me debruço
sobre o parapeito da varanda
a suspirar por uma lua cheia.
Meus chinelos marcados
pelo suor dos dedos
a toalha mofada
sobre o cesto de roupa suja
o prato debaixo do pingo da torneira
é tudo uma paisagem poética
tão grandiosa que me causa
falta de ar e falta de apetite.
Sem respirar fica impossível escrever.
Sem comer uma pizza o sujeito não vive.
Então prossigo minha ventura.
Roubando do inanimado alma.
Aplicando serotonina nas paredes.
A cueca
a mesma cueca.
Não por falta.
Tenho no guarda-roupa
todas as nuvens de algodão
do firmamento.
Digamos que me sinto místico
usando a preta.
Oh, cueca preta
que frêmito fervor.
Três dias.
E uma lua.
O perfume adocicado
pela virilha.
Uma espécie de maçã
com sabor de pera.
Três dias a mesma cueca preta.
Digamos que me sinto
supersticioso galã de cinema.
Por onde passo deixo um rastro
de beatitude e volúpia.
Pressinto pelos olhares melosos
das colegas de trabalho
e das anciãs na calçada.
Traição
na varanda do vizinho.
Nem sempre ouço.
Mas sei que canta.
O passarinho me pede
por telepatia
que lhe salve
da gaiola.
Sou um covarde.
Sorrio para o vizinho
e até lhe agradeço
pelo canto do passarinho.
Deveria mesmo cravar-lhe
uma chave de fenda
no pescoço.
Mas sou um covarde.
Calo-me.
Sequer esboço
olhar de censura.
Chego ao cúmulo
de elogiar os sagrados hinos
que ecoam da sua varanda.
O vizinho se enche de orgulho.
Diz que todos os seus passarinhos
bem tratados com água doce
e farelos pão de mel.
Ouço sua voz de gralha.
Enquanto minha vontade
é lhe esmurrar a cara.
Quebrar-lhe os dentes.
Mas sou um covarde.
Estendo-lhe a mão.
Disfarço.
"até logo, vizinho,
seus passarinhos uma joia..."
Conchambranças

Balduíno , entrado nos anos, arranjou um quebra-galho. Fora casado, pusera no mundo uma récua de filhos que se espalharam pelo Brasil, tangidos pela necessidade. O casamento acabou por decurso de prazo. Ele e a mulher mantiveram-se debaixo do mesmo teto, por mera formalidade. Arrefecidos os ânimos mais exaltados e o fogo que um dia já havia incendiado as caldeiras das entranhas; resolveram, por economia de recursos e de solidão, dividir a mesma casa, a mesma mesa e multiplicar apenas as camas. Comunicavam-se através de uma gama básica de palavras, geralmente monossílabos e dissílabos. Evitavam as interrogativas. A esposa , mais lépida, juntava-se a umas outras tantas colegas da mesma geração: na igreja, no SESC, em atividades físicas no Corpo de Bombeiros. Balduíno, aposentado, carregava o fardo da melhor idade (?) nas rodinhas de praça, nos bares, num joguinho de gamão. Pois, sabe-se lá como, apareceu de chofre aquela novidade de todo inesperada. E bota inesperado nisso!
Os colegas caçoavam : Balduíno, na verdade era um kit de encostados no INSS. Carregava ele mesmo e mais um outro aposentado no meio das pernas. Parece que tudo começou por conta do sonho misterioso. Uma noite, ele sonhou dirigindo uma camionete carregada de jaca. Ele mesmo era o motorista e andava quilômetros e quilômetros de ré. Pela manhã, saiu com aquela imagem pregada como chiclete. Lembrou, então, de fazer uma fezinha no Jogo do Bicho. Procurou uma cambista: D. Imeuda. Explicou-lhe a revelação onírica e ela rápido matou a charada. Camionete carregada de jaca, andando de ré : Jaca-ré ! Balduíno fez a pule : lascou dez reais na milhar e deu jacaré na cabeça . Ficou tão feliz com o prêmio de R$ 20.000,00 que deu R$ 5000,00 para a mestra na dificílima arte de interpretação do sonho.
O acompanhamento do sorteio e os preparativos para recebimento do prêmio fizeram com que D. Imeuda e Balduíno se aproximassem. Sabe-se lá como, rolou um clima. E aí vem um outro fato inesperado. Ela era mais velha do que a esposa do aposentado. No entanto, ainda conservada e fogosa carregava aquele olhar de lince de outrora, escamurçava como veado à aproximação ainda que distante da onça. E mais: Imeuda estava totalmente desimpedida, separara-se do marido há alguns anos e não tinha filhos.
Balduíno começou pelas beiradas como quem come sopa. Aproximou-se ,devagarzinho, como se tomasse chegada pra atirar em passarinho. De repente, desembestou um namorico que percorreu, provando que o amor é cego, todo o alfabeto Braille. Em pouco, mergulharam na mesma cama e a experiência parece ter sido, de lado a lado, prazerosa. Só um pequeno contratempo. Imeuda , apesar dos anos, mostrava-se quentíssima na cama, tinha, no entanto, o hábito de gritar como uma louca na hora do orgasmo. Este costume trouxe para Balduíno enormes dificuldades. Se por um lado aquilo massageava seu machismo, por outro , toda a vizinhança dava notícia das intimidades do casal. Uma vez, no Motel, terminaram por chamar o Ronda do Quarteirão imaginando que se tratasse de um crime passível de enquadrar-se na Lei Maria da Penha. Mesmo quando buscavam lugares mais recônditos para o namoro, como a serra, um matagal distante, terminavam por causar celeuma. Pessoas que passavam, mesmo longe, punham-se a correr imaginando tratar-se de alguma alma penada. Aos poucos, Balduíno começou a ficar cabreiro com os comentários jocosos que iam tomando conta das rodinhas e se foi afastando discretamente de D. Imeuda. A propaganda em demasia, também, acabou por criar várias admiradoras à performance aparentemente imbatível do nosso D. Juan. E ele , na verdade, não estava com essa bola toda: a pelota do velho Balduíno já vazava pelo pito, tinha já uns quatro remendos e andava meio murcha.
Anos depois, Balduíno encontrou-se com o ex-marido de D. Imeuda e ele explicou que suas agruras tinham sido piores que a do amante. Todos o olhavam com olhos de chacota e sussurravam piadinhas pelo canto da boca. A gota d´água, no entanto, tinha sido o apelido que lhe haviam posto : “Tampa de Caixão”. Para um Balduíno incrédulo, ele decodificou a origem do epíteto que pegara como catarro em parede:
--- Você não já viu um velório? Antes do corpo chegar na casa do decujos , os familiares ficam ali pelos cantos chorando baixinho como se tivessem chupando cana : snif... snif... snif.. De repente, chega a funerária com o defunto na urna, aí o povo todo de se agita, num é? Então, tiram a tampa do caixão de repente... E a gritalheira toma de conta do mundo Ai, ai, ai! Oh! Oh!Oh! Ui! Ui!Ui ! . Pois eles diziam que era eu que tirava a tampa do caixão de Imeuda, nas horas das conchambranças...
J. Flávio Vieira
Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio - Noel Rosa

Feitio de oração
Composição: Noel Rosa e Vadico
"Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade,
Meu pobre peito invade
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na Penha
Vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração
O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração."
Na aba - cantada por Martinho da Vila
NA ABA (LETRA DE PAULINHO CORREA / TRAMBIQUE, cantada por MARTINHO DA VILA)
Na aba do meu chapéu você não pode ficar
Meu chapéu tem aba curta, você vai cair e vai se machucar (BIS)
Como vai se machucar?
Eu compro a cerveja,
Você pede um copo, que bebe logo.
Eu compro um cigarro, você pede um, você pede um.
Mando ver um salgado, o senhor come tudo, parece que nunca comeu.
Pega tudo que vê, tu és um sete um, um tremendo sete um!
Eu não nasci pra coronel, coronel. Saia da aba do meu chapéu,
Não nasci pra coronel, eu não nasci pra coronel, coronel
Saia da aba do meu chapéu. Na aba...
REFRÃO
Como vai se machucar? você passa por mim e pergunta zombando,
Passa zombando e diz: Uns e outro maneiro, como é que é?
Como é que é? Para o seu bem estar, fique logo sabendo:
Olha, seu coisa ruim, é que lá no Macaco não tem Zé Mané. Não mora Mané.
Lá na vendinha do Zé do Caroço, será que o senhor não se lembra?
Paguei a despesa e ficaste com o troco, até hoje não me devolveu.
Olhe bem que a massa está te sacando, onde está?
De repentemente o bicho ta pegando, como o bicho ta pegando.
É que eu sou do bairro de Noel, seu nome é Vila Isabel.
Vá saindo da aba do meu chapéu.
É que eu sou do bairro de Noel, seu nome é Vila Isabel.
Vá saindo da aba do meu chapéu.
REFRÃONa contramão da História - Por: José Nilton Mariano Saraiva
Viver e dialogar - por José do Vale Pinheiro Feitosa
Outra questão é sobre a necessidade do debate. Ele é central, a contradição das idéias, das visões de mundo, a contraposição dos elementos e assim por diante. Inclusive é preciso que não se extraia daí a idéia de paz, pois o debate é movimento de contradição. Que é mais virtuoso quando consegue construir uma “realidade” que represente todas as contradições.
Seja qual tenha sido a interpretação filosófica, o confronto nas contradições guarda a idéia de superação dele e a síntese ou dinâmica dialógica das contradições. Então, em que pese ser doloroso, o embate entre idéias, o que significa pessoas, ele é inerente à dinâmica social e política.
Quando o Salatiel e o Rafael promovem o encantamento do cariri, não apenas fazem uma síntese pacífica da nossa realidade. Muitos não serão lembrados, alguns lembrados não serão bem vistos, assim como a própria Rádio Educadora do Programa Cariri Encantado pode ser questionada por não ter cumprido esta ou aquela promessa.
Algo bem pacífico como o Programa do Zé Nilton, escolhendo um grande compositor brasileiro e desenvolvendo um argumento que explicita estética e história da MPB já trás em si uma abordagem do tema. É exatamente na realização do programa, quando o ouvinte o escuta, que o processo se sintetiza, com todos os contraditórios que existem.
Quando o pianista Dihelson Mendonça executa sua obra musical, o Pachelly expõe suas fotografias, a Socorro faz um poema, a Claude um texto, a Edilma a Stela e todos nós postamos estamos num ponto ao mesmo tempo pacífico e exposto. Nisso estamos fazendo o que é necessário e contribuindo para uma dinâmica maior.
Agora não existe como superar o primarismo, a infantilidade, a grosseria ou outra prática qualquer que não seja apenas pelo exercício da exposição como ponto pacífico. Apenas ela nos ensinará a clamar por normas e práticas éticas para que tudo flua com maior liberdade e clareza.
Apenas posso superar a minha própria vaidade se expô-la aos outros e estes a colocarem na margem em que a própria se excede. Apenas posso entender a fragilidade das minhas idéias se as anunciar. Não existe como superar dificuldades no mundo sem as outras pessoas. Por isso prezo tanto estes blogs daqui.
Desmanchando Uma Mentira - Por: Dihelson Mendonça
O Senhor José do Vale escreveu, com o alvoroço que lhe é característico de querer julgar-se acima dos mortais como crítico sobre qualquer coisa, sobre o Blog do Crato que:"Anoiteceu e não amanheceu uma postagem do Zé Flávio que não passava do que já era conhecida na grande imprensa, uma matéria do Le Monde."
É uma deslavada MENTIRA que eu enquanto administrador teria apagado tal artigo por contrariar aquilo que acredito ou que tenha "batido o martelo" sobre a postagem. A bem da verdade, o referido artigo do Zé Flávio jamais foi apagado por mim. Ele deve estar na segunda ou terceira página a essa altura. E em cima desse argumento falso, o Zé do Vale construiu todo um artigo falacioso em nome da chamada "liberdade" entre aspas de opinião em que não observa a possibilidade do caos em uma sociedade sem leis e sem órdem. É bom que se fale sempre a verdade das coisas. É sempre bom ter certeza de tudo antes de atacar alguém e escrever bobagens. Só pude ver essas postagens maldosas hoje, pois tive algum tempo para ler os outros Blogs do Cariri.
Quanto à decisão tomada por mim enquanto administrador do Blog do Crato de baixar uma resolução proibindo a veiculação de PROPAGANDA POLÍTICA VELADA e ANTECIPADA, disfarçada de comemorações, ostentações de partidos, etc, foi simplesmente para se tentar evitar ao máximo problemas na Justiça com propaganda eleitoral antecipada ( que já tivemos no passado ) e a preservação das amizades. Temos tido no Blog do Crato inúmeras brigas por causa de politicagem com p minúsculo oriundas de pessoas que antes eram bastante amigas. Quantas amizades já não foram desfeitas por causa disso! Todos os esforços e pedidos no sentido de reduzir esse tipo de postagem e as consequentes confusões ( em que alguns falaram em procurar a justiça ) foram feitas. Não conseguimos bons resultados. A única solução que me restou agora para que pudéssemos gozar de alguma PAZ no Blog foi proibir durante o período eleitoral aquele tipo de matéria, sendo permitida a livre expressão nos comentários. Mas as injúrias, as calúnias e as difamações continuam sendo proibidas e desestimuladas. Nunca prometi que o Blog do Crato seria um Mar de Rosas. Prometi que faria o possível para tornar o lugar o ponto de encontro do Crato na Internet, e minha mediação visa a promoção da Cidade no Brasil e no Mundo. E isso temos conseguido a duras penas, muito trabalho, muito esforço para atingir o equilíbrio.
Portanto, se chegamos a esse ponto de termos que proibir a veiculação de matérias eleitoreiras, há que considerar-se primeiramente todo um passado de muita confusão, de brigas, maldades e malícias. Causa-me ESPANTO e ASCO quando alguém que não reconhece o nosso trabalho, que não vê o quanto temos feito pela cidade parte para considerações totalmente mentirosas e grotescas. São 04:23 agora. Não dormi ainda, arrumando as matérias de hoje, que sei que muitos irão ler, e faço isso com toda a certeza de que estou fazendo um serviço para esta cidade que tanto amo e que na realidade, merece esse esforço.
“A alma não tem segredo que o comportamento pessoal não revele” – Lao Tse
Dihelson Mendonça
CARIRI ENCANTADO DESTA SEXTA FEIRA, 28 DE MAIO!

Não pode ser diferente, o programa tratará da festa " a Celebração do Encantamento" que comemora o primeiro ano de vida no nosso especial programa radiofônico e que acontecerá no próximo sábado, dia 29, no salão nobre do Crato Tênis Clube.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Morgana
deixar-me sem fala:
levante os braços
faça um cacho nos cabelos.
A alma boquiaberta sabe
da loucura que me habita.
Sou capaz de perder a decência.
A timidez infantil.
Avançar com a boca trêmula
a língua fora de órbita
beijar, lamber
as axilas.
Se deseja a mulher
transformar-se em bruxa
(a verdadeira natureza)
basta levantar os braços
fazer um cacho nos cabelos.
Não serei um bom moço.
Serei inconveniente.
Um bandido.
Se não ataco na hora
mais tarde invado sua casa
pela janela.
Dormindo não tem graça.
Não tem magia.
Hei de acordá-la
e lhe pedir: "por favor,
faça um cacho nos cabelos".
A CELEBRAÇÃO DO ENCANTAMENTO
FESTA CELEBRAÇÃO DO ENCANTAMENTO LANÇA LIVRO SOBRE FOTOGRAFIA E CINEMA!

Gonzaga de Oliveira
Dentro da “Celebração do Encantamento” , a festa que comemora o primeiro ano de vida radiofônica do programa “Cariri Encantado”, no Crato Tenis Clube, neste sábado, 29 de maio, a partir das 19 horas, acontecerá o lançamento do Livro “IMAGENS- Cento e Vinte e Cinco Anos com a família Gonzaga de Oliveira” , uma pesquisa do cineasta Jackson Oliveira Bantim, o Bola, e texto de Luiz Carlos Salatiel.
O livro “IMAGENS- Cento e Vinte e Cinco Anos com a família Gonzaga de Oliveira” é um primoroso e depurado relato histórico da fotografia e cinema ligados afetivamente ao Crato, a partir de Luiz Gonzaga de Oliveira ( o Gonzaguinha), passando por José de Oliveira e Sousa até Audisio Oliveira e Souza, e assim por diante, quando a tradição dos Oliveiras na fotografia e Sétima Arte chega até Jackson Oliveira Bantim.
LUIZ GONZAGA DE OLIVEIRA (ou Gonzaguinha) que foi casado com Dona Dasdores, e dos três filhos nascidos batizou-se uma com o nome de Maria de Lourdes de Oliveira. Gonzaguinha, ainda muito jovem, demonstrou talento formidável para captar o cotidiano da nossa cidade em sua Kodak Full Screen e tornou-se o primeiro fotógrafo profissional do cariri cearense, com uma atuação proficiente que durou de 1885 até 1930. Muitas das suas fotografias são hoje encontradas em exposição no Museu Histórico do Crato e outras, bem guardadas no relicário da família Oliveira feito preciosas jóias, como são as fotos históricas do Cassino Sul-Americano e Seminário São José, que até hoje impressionam. No álbum de família constam “portraits” que muito mais se assemelham a obras de arte de pintores renascentistas. Fotografou também personalidades e famílias ilustres do Crato daquela época em que viveu.
Os que se interessam por fotografia e cinema devem adquirir este livro recheado de informações e imagens reveladoras.
Contatos:
Jackson.bantim@urca.br
O grande negócio da saúde - por José do Vale Pinheiro Feitosa
Isso acontece nas coisas do “espírito” como a cultura e as artes. Absorve as normas gerais da sociedade como a ética e atinge quase toda a subjetividade que seria o território do indivíduo. A vida, desenvolvida por meio da troca mercantil é uma redução a preços e renda. Quem tem renda, pode pagar o preço; quem não tem, está fora.
Além de tudo, com o “espírito selvagem” do acúmulo monetário, uma subjetividade travestida de realidade, estabelece-se, como em compartimentos definitivos, as classes dos que podem e não podem. A competição como regra, gerando o mais capaz, apenas diz isso que a frase diz: seleção do mais capaz. Em absoluto não fala do mais ético, do mais solidário, da maior irmandade ou da mais perfeita humildade. Fala tão somente da capacidade de ganhar, acumular e daí impor sua vontade aos demais. Portanto é antidemocrático.
A falácia do mais capaz se camufla com a “fama”, o “sucesso”, a “hegemonia”, o “domínio”. Todas são características do autoritarismo, do totalitarismo e da agressividade sobre os demais. Portanto falamos do estímulo à violência, à canalhice, ao comportamento predatório. Por isso ao gerar este tipo de gente, a dinâmica origina inimigos da população, senhores da exploração do trabalho, rebaixamento dos valores éticos e morais e submete, como todo totalitarismo, toda a religiosidade remanescente, especialmente a institucional das igrejas estabelecidas.
Uma das críticas mais agudas é o que resultou na medicina mercantil. Modelo adotado no Brasil, inclusive por força Constitucional. Esta medicina é um grande campo para exploração das multinacionais da tecnologia de base científica. Tem os seus “capitães do mato” com uma voracidade desmesurada para o lucro, transformando qualquer erisipela num perfeito objeto de exploração e vantagens. O fetiche da mercadoria na saúde se tornou um dos mais cruéis possíveis. Assemelha-se muito àquele do Complexo Industrial Militar.
O objeto da medicina moderna é o procedimento, é este medidor de preço que move toda a ação. O velho termo “paciente” da medicina liberal cai como perfeição à exploração mercantil. O paciente está no centro cirúrgico – calcule os lucros -, se encontra no CTI – multiplique as cifras -, é mero procedimento ambulatorial – invente outros procedimentos adicionais. O modo como tudo anda, especialmente o Brasil, este continente dividido entre a “ética” européia e a americana, a “venda” é mais importante que a saúde.
O mais grave é que mesmo numa situação em que uma geração de profissionais de saúde que lutaram por um modelo mais Social-Democrata, que dirige o Ministério da Saúde, ainda não foi capaz de regular profundamente o uso da tecnologia em volúpia de lucro. Não existe nada que enfrente o atual modelo de exploração por procedimentos e isso é tão intensivo que tornou a Saúde Pública feita pelo Estado e a Saúde Suplementar financiada por fundos mútuos privados, em coisas absolutamente iguais. Os consultórios, as emergências, as enfermarias e os compartimentos de alta complexidade são iguais no SUS e na Saúde Suplementar. Aliás, tem uma pequena diferença na Saúde Suplementar: grandes “armários” vestidos de paletó preto com rádios transmissores na lapela, dispostos em portarias, portas de elevadores e corredores.
E tem uma coisa mais grave e que os partidos políticos não enfrentam. Os trabalhadores com carteira assinada caíram na grande rede do fetiche da mercadoria. Até mesmo o atual Presidente da República não consegue enxergar o problema. A verdade é que sindicatos cada vez mais negociam Planos de Saúde em substituição a ganhos em salário. A inversão da pauta é perfeita: ao invés de um imposto universal para financiar uma saúde pública nos termos primários da Constituição, os trabalhadores deixam de ampliar sua renda pessoal, em benefício do grande negócio da saúde.
Grande negócio cuja finalidade é o lucro. Nem marginalmente se pode considerar como “produtor” de saúde esta dinâmica mercantil.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
As botas
quem cuidará das minhas botas?
De onde estiver juro
enviarei boa energia
ao valente sujeito
que calçar minhas botas.
As botas silenciosas
em um canto do quarto
sabem da minha caduquice.
Ninguém humano
olhou-me como me olha
as minhas botas
encostadas à parede
com as meias dentro.
As meias (coitadas)
vivem mergulhadas no abismo
mesmo com o fim da batalha.
Meu par de botas é um casal simpático.
Senhor e senhora discretos.
Polidos.
Intocáveis.
Mas ao andar sobre calçadas
do alto dos céus as nuvens
tremem de inveja.
Minhas botas verdadeiros mestres
em pisar vidro,
pontas de cigarro,
chiclete.
Creio que seja amor o que sinto
pelo senhor e senhora botas.
Quem cuidará das minhas botas
quando eu for enterrado
com o sapato bico fino?
COMPOSITORES DO BRASIL

ROSIL CAVALCANTI
O menestrel dos Cariris Velhos
Por Zé Nilton
De muitas histórias a região dos Cariris Velhos. Atravessada pela Serra da Borborema há, como aqui, nos Cariris Novos, geografias contrastantes. Ora lugares verdes, pegando a Zona da Mata, ora frio, no cimo dos chapadões. Mas também ambientes de pouca chuva, de quase total estio.
É desses lugares que temos ouvido referências musicais pelas veias poéticas e melódicas de um Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o Venâncio, e de seu parceiro, Manoel José do Espírito Santo, o Corumba. É da dupla a regravadísssima - O Último Pau de Arara.
A minha geração cresceu ouvindo esse hino dos retirantes, além de outra música de forte clamor sertanejo – O Meu Cariri, de Rosil Cavalcanti e Dilú Melo. Ambas são da década de 1950.
Rosil de Assis Cavalcanti foi fiel à vida do nordestino e cantou suas tristezas e alegrias. Pintou em Aquerela Sertaneja as agruras desse povo sofrido; mas, desenhou a alegria esboçada no rosto desse mesmo povo na música Festa do Milho.
Começou a sua vida artística nos anos quarenta, quando passou a trabalhar em emissoras de rádio, igualmente a quase todos os grandes músicos e compositores daquela época.
Na Rádio Tabajara, em João Pessoa, nos idos de 1943, formou dupla com Jackson do Pandeiro. A dupla Café com Leite fez muito sucesso e firmou uma grande amizade entre Rosil e Jackson. Aliás, muitas coincidências entre os dois. Ambos casados sem filhos. Ambos morreram dos males do coração no mesmo dia e mês – 10 de julho.
No programa COMPOSITORES DO BRASIL desta quinta feira, um pouco da história e das músicas de Rosil Cavalcanti. Na sequencia:
A FESTA DO MILHO, de Rosil Cavalcanti e Luiz Gonzaga com Luiz Gonzaga
AMIGO VELHO, de Rosil Cavalcanti e Luiz Gonzaga com Luiz Gonzaga
CABO TENÓRIO, de Rosil Cavalcanti com Jackson do Pandeiro
COCO DO NORTE, de Rosil Cavalcanti com Jackson do Pandeiro
FORRO DO ZÉ LAGOA, de Rosil Cavalcanti, com Anastácia
FORRO NA GAFIEIRA, de Rosil Cavalcanti com Fúba de Itaperoá
MEU CARIRI, de Rosil Cavalcanti e Dilú Melo, com Ademilde Fonseca
MOXOTÓ, de Rosil Cavalcanti e Dilú Melo com Jackson do Pandeiro
NA BASE DA CHINELA, de Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro com Jackson do Pandeiro
Ô VEIO MACHO, de Rosil Cavalcanti e Luiz Gonzaga com Luiz Gonzaga
QUADRO NEGRO, de Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro com Alceu Valença
SAUDADES DE CAMPINA GRANDE, de Rosil Cavalcanti, com Marinês
SEBASTIANA, de Rosil Cavalcanti com Jackson do Pandeiro.
Quem ouvir verá!
PROGRAMA COMPOSITORES DO BRASIL
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Às quintas-feiras, de 14 as 15 h.
Rádio Educadora do Cariri
Apoio Cultural: CCBN-Cariri
Retransmitido pela rádio web: cratinho.blogspot.com



