TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 23 de dezembro de 2012

O Papa e o Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Os romanos absorveram a palavra “laikós” do grego que significava “do povo” e depois o Latim Vulgar evoluiu para “leigas” que derivou para o hoje leigo. E a palavra “leigo” se desdobra em dois significados principais: que não pertence ao clero ou aquele que é ignorante em relação a um determinado assunto ou profissão. Os sacerdotes como senhores do feudo espiritual, pretendentes a porteiros da eternidade, reduziram as almas aflitas ao estado da secularidade. Aquele que vive apenas no tempo, no século.

Tome-se na espiritualidade, na materialidade e na eternidade a trindade que une a carne frágil ao evoluir do cosmo e perceba o quanto a narrativa cristã original era mais ampla, livre, universal e igualitária. Cabia a todos neste mito do nascimento regular do “Natal” e na renovação da fertilidade no “Ano Novo” que restabelece o calendário do fim do tempo.

Esteja na leitura que contigo estou. O evoluir etimológico é um assunto por vezes árduo e enfadonho, igualmente parece o estudo da genealogia familiar. Mas como ocidentais, que somos desaguadouros da civilização greco-romana e da narrativa mesopotâmica dos semitas, perceba o quanto a tua ligação ao cosmo é germinação secular, do tic-tac dos segundos e do foguetório dos séculos. Do leito e da mesa do teu lar ao planeta com suas desigualdades territoriais.   
  
Por isso o leigo, a realidade do mundo, posto que humana e do povo, se contrapõe à elite sacerdotal, à igreja, à formação de feudos e de senhores. Enquanto o leigo amplia, a ordem eclesial recolhe-se entre muros de castelos ou burgos a restringir todos a regras seculares de ritos e mitos. A ordem feudal que abafa a circulação da difícil união entre a carne e o cosmo.

Entendo que nesta altura pergunte-se a respeito por que te ofereço estes parágrafos. O Papa em mensagem ao fieis resolveu fechar mais janelas na livre relação entre todos. Ao condenar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não apenas demonstra o quanto ausente se encontra a igreja da ordem laica do Estado como nada mais há que se opor ao espírito de mediação entre as pessoas e o cosmo. Mediação que se encontra nas leis que não apenas são removíveis como também se movem pela própria relação com o tempo e o espaço.

Ao chegar ao limite dos muros do Vaticano o Papa lança pedras de fogo sobre as ruas e praças urbi et orbi apinhada de gente. Praticamente o sacerdote máximo da Igreja Católica não defende os fieis, mas ao contrário, convoca os fieis a combaterem a oxigenação dos seres humanos, essa espécie tão dependente deste gás. Amanhã quando Irmandades Católicas se radicalizarem quais outras “irmandades” muçulmanas ou judaicas as ruas e praças estarão interrompidas para a relação entre o ser humano e o cosmo.

A radicalidade feudal das religiões, em pleno tempo da universalização e da igualdade, tem o dom da sufocação. Da tortura e do ódio. Da perseguição e da crucificação. Mesmo que católicos atentos aos seres e ao cosmo não façam essa leitura, é inegável que a história recente mostra tal radicalidade nas ruas do Cairo, na Líbia, na Síria, na Europa, enfim onde o humano existe por necessidade de ser no mundo.      

sábado, 22 de dezembro de 2012

Parabéns homi de Deus!

O grande escritor, cronista, poeta, contador de causos, dramaturgo que um dia simplesmente entendeu de ser um dos mais notáveis médicos do Cariri, comemorou ontem nas dependências do requintado Buffet, “Sergio Buffet”, entre amigos e admiradores, os seus quinze aninhos. O rapazote estava descontraído, moleque, cheio de vida e fez valer a data. O Mundo não acabou. Para nossa alegria 21 de dezembro de 2012, há de ser lembrado como o dia em que Zé Flávio Vieira deu uma festa de arromba celebrando 60 calendários Maia! E que o mundo acabe que acabe sempre assim... Na maior alegria, na maior festa! Parabéns, homi de Deus! Muitas felicidades, muitos anos de vida! E como diz sobrinho do capitão, Zé estava (Sex(agenário)! rs rs rs
Libério, um monstro sagrado e os Magistrais "Os Águias", fizeram a festa!
Pê Pererê pê pê pê pê, (Com uma perna só, olha aí!!!)
E como nos tempos da Polaróide... Oh! Poli minha amiga, assim não ó, assim menina ó, como nos tempo da brilhantina e das velhas e boas tertúlias!
Carnavalizando corações! Zonaram aê com o Zé hein! rs rs rs
Nós marcamos presença, dentre tantos artistas presente!
Ele nos fez Rir!
"Sergio Buffet", Show de detalhes!
Amor pra toda a vida!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Caboclo de Asas: Lentes

Caboclo de Asas: Lentes:


Lentes

Depois de tanto, tempo
Observando seu rosto,
Vi que algo estava diferente
Não era o olhar, impreciso
Nem a boca sorridente
Talvez a estabilidade dos sonhos
De cara, imaginei, estranhamente:
-Quem é essa que aqui está?
Que corpo é esse em minha frente?
Essa alma também mudou de cor...
A luz nela refratada é diferente
A sua voz também mudou ao que parece
Ouço, vejo, firmeza e segurança é o que se sente
Poderia ser óbvio, a idade, a experiência
A própria distancia, a estrada, tantos sentimentos
As paixões, os amores, quem sabe

Mas, tinha a certeza que algo mais profundo e inesperado
Era o que havia me surpreendido, arrebatado, simplesmente

Vi que realmente ela estava diferente
Mas esse não era o caso pertinente
Porque no fundo, ela sempre fora isso em minha mente
Então percebi! A situação é que eu também havia mudado
Agora, outros ângulos e dimensões e culturas, me eram lentes
A questão não era ela, é que eu também havia mudado. Sim...
E meu olhar estava diferente.

Caboclo de Asas: Lentes

Caboclo de Asas: Lentes:


Lentes

Depois de tanto, tempo
Observando seu rosto,
Vi que algo estava diferente
Não era o olhar, impreciso
Nem a boca sorridente
Talvez a estabilidade dos sonhos
De cara, imaginei, estranhamente:
-Quem é essa que aqui está?
Que corpo é esse em minha frente?
Essa alma também mudou de cor...
A luz nela refratada é diferente
A sua voz também mudou ao que parece
Ouço, vejo, firmeza e segurança é o que se sente
Poderia ser óbvio, a idade, a experiência
A própria distancia, a estrada, tantos sentimentos
As paixões, os amores, quem sabe

Mas, tinha a certeza que algo mais profundo e inesperado
Era o que havia me surpreendido, arrebatado, simplesmente

Vi que realmente ela estava diferente
Mas esse não era o caso pertinente
Porque no fundo, ela sempre fora isso em minha mente
Então percebi! A situação é que eu também havia mudado
Agora, outros ângulos e dimensões e culturas, me eram lentes
A questão não era ela, é que eu também havia mudado. Sim...
E meu olhar estava diferente.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Fim do Mundo Decidido na Bocanha - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quando a coluna de mercúrio subiu aos 35 graus, as pessoas derretiam perto das onze horas, nas sombras da Praça Siqueira Campos. E este tempo seco que licencia o sol a desidratar os corpos de água, promove a vontade por amenidades e copos de líquidos gelados.

Por isso Alguém que não digo quem aproximou-se do Outro que pingava em suores e comentou:

- Macho vai tudo se derreter. O melhor da noite não baixa a temperatura dos 23 graus e nuvem no céu só se for na desembestada. Até terça feira nem um frescor de pingos de chuva.   

- E nós aqui feito padeiro sem arredar o pé da boca do forno.

O calor evapora e dispersa em gases, mas também é a busca de soluções. Fulano viu Alguém e o Outro e chegou para eles com voz de rebeldia: olhe a primeira siriguela do pé lá de casa! Vamos tomar uma?

O Outro: só se for agora.

Alguém vai além: vamos chamar Sicrano que tem uma camionete de ar condicionado e vamos prá Zé Pajé refrescar a vida. Dito e feito: formaram uma guerrilha de cinco, pois incluíram Beltrano. A guerrilha:  Alguém, Outro, Fulano, Sicrano e Beltrano.

Na latada mesmo do bar na beira da estrada, muitos graus de temperatura a menos além duma brisa que se pensa nasçam nas palmas dos buritis. O primeiro foi Alguém que abriu a enxurrada aos borbotões de uma cerveja tão gelada que a barriga do homem quase congela. Só não congelou porque todos sabem que mulher, dinheiro, futebol e política são discursos gerados no chiado do gás escapado pelo abridor de garrafas.

E as garrafas vazias se deitam ao lado, na areia da latada do bar e o conteúdo deste precioso fermento se destila em grandes descobertas, teorias complexas, exaltações de enrubescer o objeto exaltado e críticas de derrubar a República. De Monarquia não se fala. Ali os cinco são reis. Ninguém é súdito, menos ainda da ordem estabelecida.

Linguiça frita vinda de Granito. Carne assada de bode de Serrita. Farinha da serra em parcimônia para não entupir a sede de cerveja. E imaginem o extremo do sabor na volúpia daquela bem geladinha: uma tripa de porco, crocante, com sal no ponto para virar o dia.

E quem disse que esse mundo é ruim? – abrindo os braços como um pastor aos fiéis, Beltrano sorria de um canto a outro das orelhas.

E foi aí, que a discussão do por do sol se abriu para as incertezas da escuridão da noite. Sicrano foi lembrar que amanhã é o fim do mundo. E as teorias da iminência da fatalidade se multiplicaram em radicalidade assim como o noticiário e os partidos políticos querendo por um aos outros na cadeia. 

Tinha de tudo. Piedosos querendo perdoar as safadezas dos outros se esquecendo de pedir o perdão para as próprias. Os justiceiros querendo o rito sumário para as condenações dos pecadores já imputando habeas corpus para as decisões contra si. E assim se atravessou o argumento dos amigos de Jesus já contando com o conhecimento do merecido respeito ao seu passaporte para o melhor. Naquela altura as garrafas vazias já eram material suficiente para materializar a torre de babel do desencontro temático.

Foi aí que Alguém, que ficara calado ao longo do profícuo debate, abriu a voz e vaticinou.

Eu sou é comunista!

Uma sentença inesperada emudeceu o zoadento debate. Todos esperaram a explicação do grito revolucionário.

Eu sou mesmo é a favor do fim do mundo. Só então toda essa canalha vai entender de igualdade.

Acabei de ouvir a sentença enquanto comprava um pacote de biscoito na bodega em que os cinco se reuniam e corri para relatar antes que a meia noite deste dia 20 de dezembro chegue.   
   

Caboclo de Asas: Alma Cigana II

Caboclo de Asas: Alma Cigana II: Vida de cantador é na estrada Varando o tempo com su'alma cigana Um terço dela é de partidas Uma outra parte é de chegadas E o que nos ...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Por todos no nascedouro - José do Vale Pinheiro Feitosa


Olhe a palha. O leito. A cocheira geradora de dois mil anos. Tantas estrelas guias. E homens que trouxeram do nascedouro semita da mesopotâmia, pelas águas do Mar Vermelho, ou em camelos pelo braço hoje rasgado pelo canal de Suez a mirra, o incenso e o ouro. A imortalidade, a espiritualidade e a materialidade.   

E tudo repousava sobre a palha do nascedouro. E ali mesmo a imortalidade, a espiritualidade e a materialidade se fundiram na mensagem única: o amor. Tão gasto, repetido como apenas sons, sem que o metabolismo fisiológico, ideológico e político possa transformar em continuidade de cada fragmento da respiração e dos batimentos do coração.

O amor se perde na narrativa cotidiana do viver e se reencontra na revelação de cada ato ou ação. Assim como ele se banaliza no dicionário e suas inúmeras acepções, rubricas, derivações e diacronismos. Mesmo os romanos que fundaram a palavra não conseguiram traduzir o significa do amor como nascido naquela palha de berço.

É que as palavras não são apenas um tijolo estático, elas guardam a dinâmica do desenrolar dos fatos. E Herodes em sua mortalidade frágil e enciumada ao matar crianças, transformou o símbolo da homenagem adivinhadora dos magos numa ação de amor.

A rota da fuga dos pais de Jesus desde Belém, hoje com 30 mil habitantes, e encravada no centro da Cisjordânia, até a cidade do Cairo. Pelos desertos, margeando o Delta do Nilo e chegando ao Cairo. Era o Império Romano, mas lá Herodes não tinha força de mandar cassar o mandato dos fundadores do cristianismo.

O amor é a humanidade transformada numa seiva perfumada. É o estrato de seu modo de ser no mundo. Mesmo se corrompido por alguma regra do tempo, o amor tem a regra universal e imorredoura das pupilas abertas para o aqui e agora e tem na retina a impressão de sua seiva como parte inseparável e necessária do mundo. E a humanidade não se divide em partes individuais, o indivíduo só pode se conceituar como humano.

Mas hoje os evangelistas do amor não mais poderiam mover-se em livre circulação. Um muro cerca a Cisjordânia. A Sagrada Família é barrada todos os dias por altas muradas que as trombetas de Josué são incapazes de por abaixo. Os soldados armados de Israel jogarão bombas de efeito moral e levarão preso ao carpinteiro José por desobediência e ameaça ao Estado de Israel.    

Pela festa do Natal, juntamos nossas recordações e nosso amor ao nosso povo:

José do Vale Pinheiro Feitosa, Tereza Maria Piccinini Feitosa, Raul Piccinini Feitosa, Ruy Piccinini Feitosa, Sofia Guimarães Feitosa, Laura Guimarães Feitosa, Claudia Guimarães e Dyrce Bittencourt Piccinini. 

Tudofel: Uma infância feliz

Tudofel: Uma infância feliz: Graças ao meu bom Deus, até o momento, posso me considerar um sujeito de sorte. Todas as fases da minha já longa existência (afinal 4...

SUPREMO CASSA CONGRESSO QUE CASSA SUPREMO - José do Vale Pinheiro Feitosa


Toda a minha adulta vida social, econômica e profissional é fruto do Rio de Janeiro. Bem verdade que pela estrutura do Governo Federal. Isso posto me coloca numa esquina em relação ao assunto dos Royalties do Petróleo. Mas numa esquina ventilada, onde os ruídos das ruas que a formam chegam simultaneamente.

Muita gente confunde o assunto como mero imposto, mas os royalties são mais arcaicos ainda em relação às sociedades modernas. A palavra deriva de “royal” que se refere aquilo que pertence ao rei: por exemplo as pessoas para transitavam nas estradas reais ou nos cursos de água dos reis haviam de pagar um pedágio de circulação. Por isso o termo se adequa tão bem ao direito autoral: em tese só posso usar este programa para escrever estas palavras se pagar direitos de royalties à Microsoft.

Por isso os royalties são pagos ao governo e a particulares. A exploração de recursos naturais como minérios e a água redundam em pagamento de royalties aos governos federais, estaduais e municipais, a depender de quem seja o recurso. As patentes e o franchising, por exemplo, são royalties pagos ao setor privado.

Portanto estamos vendo que a partilha dos royalties do Petróleo por todos os estados e municípios como esta MP em debate no Congresso Nacional tem a natureza da inerente da discordância, além da manutenção de privilégios. O petróleo e seus derivados são bens de consumo universal, mas seus estoques não se disseminam em todo o território. O Petróleo se localiza em alguns estados e neste em alguns municípios onde é extraído e depois transportado para o exterior para ser refinado ou trocado por um petróleo de cadeia mais fina ou para outros estados que possuam refinarias.   

Todo o imbróglio se origina em duas questões que têm a ver com o futuro imediato e com o futuro mediato. O futuro imediato é restabelecer a posse pública das reservas do Pré-sal, a maior reserve de petróleo já descoberta no país. O futuro mediato é retirar dos ganhos deste capital mineral, riquezas que podem ser aplicadas em políticas universais como o caso da educação.

Em outras análises os royalties com a questão do pré-sal, de algum modo, deram um pulo Federalizante: deixaram de se circunscrever meramente a municípios e estados produtores e passaram a serem partes justas de todos os entes da federação. E como partes de todos, isso implica em partilha segundo as regras de toda a partilha das verbas federais (mesmo que tenha regras específicas de partilha, a estrutura partilhada é semelhante).

A outra ponta, até para se evitar o mero acúmulo de riqueza privada em empresas, famílias e indivíduos, como acontece nos grandes produtores de petróleo deu-se a esta cobrança o caráter redistributivo: o dinheiro seria aplicado na Educação universal (esse aspecto está a perigo tendo sido vetado pela Presidenta).

O Rio de Janeiro briga no congresso e no Supremo Tribunal Federal contra a imediata aplicação da redistribuição dos royalties por todos os estados. O Rio é privilegiado neste aspecto por ser um grande produtor agora e no futuro. Mas no meu entender, a Judicialização militante que emergiu no julgamento do Mesalão indo em contramão às prerrogativas do Congresso Nacional vai dar problema com o Supremo.

A recente medida cautelar do Ministro Luiz Fux, carioca da gema, proibindo o Congresso de votar os vetos da Presidenta Dilma pode andar no fio da navalha da crise ontem estabelecida por cinco dos nove ministros que querem atropelar a Câmara de Deputados com a Cassação do Mandato de Deputados Federais condenados no Mensalão.

Resultado: hoje o Senado prepara a pronta resposta ao STF e esse embate democrático é ponta de uma doença de conflito institucional que o supremo teimou em bancar.   

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Padim Pedro - José do Vale Pinheiro Feitosa


Padim Pedro foi um vulcão com comportamento de cachoeira. Tinha uma força permanente de expressão telúrica e por ser permanente não era apenas um vulcão. Ainda na mocidade, nas quebradas de Cariutaba, fez seu próprio carrossel para ganhar dinheiro nas feiras e quermesses. Como todos tinha a ambição do plantio e da criação, mas na realidade tinha mesmo era espírito de gato de botas. Seu momento estático era romper léguas de distância a vender coisas. Pegar nas vizinhanças equatoriais e vender até aos trópicos.

Quando enviuvou, deixou meia dúzia de filhos no Ceará e mudou-se para o Rio de Janeiro no início dos anos 30 onde se casou pela segunda vez aumentando a densidade demográfica em mais oito vidas. Comprando ouro no Juazeiro e vendendo desde a calha do Amazonas até o Rio de Janeiro, Padim Pedro, se não fosse a injustiça nacional, já teria a patente de Almirante por tantas vezes que atravessou a costa brasileira.

Para compreender a personalidade de Padim Pedro além daquela corrida magmática, lembro dos sustos que nos deu. De repente lá chegava ele na porta de casa falando alto, contando coisas, pedindo água para matar a sede e abrindo mala para tirar os chinelos do repouso na cadeira espreguiçadeira. O mundo se desdobrava: Padim Pedro era avô de todos nós e já tinha mais de dúzia de bisnetos.

Sim é sobre os sustos que nos dava. De repente ele soltava um gemido de abalar a foice da morte e todo mundo vinha socorrê-lo com a fatalidade na ponta da pergunta sobre que mal lhe passava. E Padim Pedro respondia: nada! É que eu acho bom demais gemer. A paz reinava e se preparava a refeição antes do descanso do viajante.

Lembro como se estivesse acontecendo aqui na minha frente. Padim Pedro estava no céu do sabor, nas vizinhanças de sua alma cearense comendo a mais legítima culinária da terra. Satisfação maior só pode existir no outro mundo. Padim Pedro, sem cerimônia, enchia o gafo, levava à boca e logo estava com ele pegando mais outra porção. Eu só me lembrava dos trabalhadores enchendo um caminhão de areia no eito de sucessivas pás de material.

Tudo as mil maravilhas e para satisfazer mais ainda o meu querido avô Padim Pedro resolvi lhe ofertar a mais alvissareira das novidades. Padim Pedro na abordagem inicial queria mesmo era misturar sabor com boa conversa, de modo que o gafo não parou de viajar enquanto a mastigação triturava rápido e a faca cortava a carne na velocidade de uma máquina. Apenas o olhar de banda me dava certeza de ouvir as novidades.

O senhor vai ficar mais alegre ainda. Nasceu seu tetraneto!

Menino que susto mais veloz nunca tive. Padim Pedro largou o gafo e a faca sobre a mesa e desceu com os dois braços estrondando a mesa com tanta força que o prato dançou com comida e tudo e os talhares suspenderam-se no ar para retornar ao repouso da mesa fazendo uma cruz.  

Homem não me diga uma coisa dessas! – a voz de Padim Pedro era como um trovão de estalo.

E o que foi Padim Pedro?

Ô meu Deus do céu porque eu fui fazer um acordo desses? Agora danou-se tudo! Tô acabado! Mas que negócio mais mal feito eu fui fazer. – E repetia as lamúrias do acordo desvantajoso que fizera. Eu nem podia ligar uma coisa com a outra e perguntei que negócio fora esse.

O acordo que eu fiz com os santos que eu só morria quando nascesse o tetraneto. E ele nasceu. Eu agora vou morrer. Que acordo mais besta foi esse e eu não posso desmanchar.

E menos de 48 horas após lá saiu Padim Pedro passando pela casa de cada filho. Rodou vários cantos desse Ceará, foi encontrar mais outro que morava em Belém do Pará. Catou cada descendente que há nesse mundo para se despedir. Inclusive os outros filhos que moravam no Rio.

Quinze dias depois do retorno ao Rio, Padim Pedro tomava pouso na casa de Tio Gustavo, filho dele, e assim como os acordes finais de uma melodia fechou os olhos numa poltrona na qual descansava após o almoço. E desse modo aquela continuidade telúrica não mais manteve a erupção.

  

domingo, 16 de dezembro de 2012

Atos de Ofício com Roupagem de Atos Falhos - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quem escreve com frequência e é lido, tem alguns defeitos: fazer frases que mudam o sentido do que desejaria dizer, além dos atos falhos, ou frases mal construídas que levam o leitor, com razão, a concluir exatamente ao contrário do que ele queria dizer. Hoje o papa Bento XVI é autor de uma frase extremamente infeliz uma vez dita a uma multidão de fieis, se é que o erro não tenha sido da tradução. Vamos à frase: “fiquei profundamente entristecido pela violência sem sentido de sexta-feira, em Newtown, Connecticut.”

Então para o espírito cristão, que se acredita seja a Igreja Católica, é aceita a violência? Se é que existe violência sem sentido, alguma com sentido há de ter. Historicamente a nossa tendência é concluir que o Papa não tenha errado em sua frase, afinal a Igreja sempre aceitou a violência e até mesmo a praticou institucionalmente.

Meio bilhão de reais (R$ 518,6 milhões). Algo como 6% do gasto total com os dois braços da transposição do São Francisco e toda a infraestrutura desta transposição. Esse meio bilhão é quase a mesma coisa dos R$ 676 milhões de recursos extras para combate à seca nos municípios, aprovado recentemente pelo Senado com a Medida Provisória 583. Esse meio bilhão foi gasto no hoje inaugurado Castelão.

Desenvolver é criar infraestrutura e abrir oportunidades econômicas. Diante da soma gasta temos dois problemas centrais. Numa vulnerabilidade de seca como é o nordeste a prioridade é essa mesmo? E quais as oportunidades econômicas abertas com o novo Castelão? A resposta à segunda pergunta ajuda a argumentar sobre a primeira, uma vez que mesmo que gere oportunidades, continua em questão o quanto a subtração desses recursos subtraem oportunidades de proteção das cidades em situação de seca.    
  


Território, Saúde e Município - José do Vale Pinheiro Feitosa


Uma das características humanas mais marcantes é a territorialidade. É substancial na nossa identidade ser parte de um território e que vai muito além do ambiente geográfico, isso se compreendermos o geográfico como apenas espaço. Milton Santos foi mais além e elevou essa ciência à geografia humana e política e desse modo explicitando a relação humana com o espaço.  

Nenhuma análise séria sobre Políticas de Saúde pode desconsiderar que o substrato do chamado processo saúde-doença é o território. Quando falamos em progresso humano praticamente falamos em território. Nas sociedades mais rurais igualmente o homem vivia a sua territorialidade de um modo mais interdependente com o espaço em volta, mas nas sociedades urbanas essa interdependência adquire relações territoriais externas.

Viver na cidade é viver num território de atendimento integral das suas demandas, inclusive de emprego e renda, mais ou menos dependentes de outros territórios, por vezes até estrangeiros. Vou tomar o caso da atenção de saúde no município de Crato.

A quantidade de insumos, financeiros e formação de recursos humanos dependentes de multinacionais, recursos financeiros externos e estruturas de ensino a quilômetros de distância são imensos. Pegue esse aspecto da territorialidade urbana do Crato e memorize enquanto passo ao outro aspecto da territorialidade.

A integralidade do atendimento da demanda é o padrão ouro de sustentabilidade do território. E mais ainda a percepção desse padrão pelos cidadãos, embora uma construção local, é enormemente influenciado por esta vitrine de mídias e viagens que nos compara com outros territórios. A Constituição Federal trás o esqueleto desta tradução do necessário no território por meio do fundamento da República Federativa do Brasil, que é um Estado de Direito Democrático ao explicitar nos seus fundamentos a dignidade humana.

Atender a alguém num território é buscar a sua dignidade e isso é muito bem pautado pela própria constituição nos direitos e garantias essenciais; nos direitos sociais e políticos; nas ordens sociais e econômicas e na organização do Estado. Daí se vem que desenvolver uma política de governo é atender integralmente às demandas territoriais naquela pauta constitucional.

Por isso as questões ambientais, habitacionais, de saneamento, de uso do solo, de exploração econômica, de transportes, de renda, de combate à fome e à extrema pobreza, do trabalho e da educação têm tanto peso sobre o processo saúde-doença. Esse processo é um processo territorial. Ponta da Serra e Dom Quintino, por exemplo, são territórios cujos processos podem guardar certa semelhança de demandas, mas não são iguais dadas as diferenças que caracterizam cada um deles.    

Para buscar a equidade territorial no espaço de um município é preciso sustentar-se na pauta constitucional, manifestar a vontade dos territórios, fazer intermediação externa intensa e a mediação permanente com as contradições no interior do território. Vou pegar o exemplo da saúde pública com a qual tenho maior familiaridade.

A pauta constitucional é que todos têm direito à saúde e que esse direito é um dever do Estado mediante políticas sociais e econômicas que reduzam o risco de doenças e outros agravos e o acesso universal e igualitário a ações e serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde. E mais ainda esse dever do Estado é descentralizado e sua base é municipal. Nada mais próximo do território no sentido da mediação em senso exato com o espaço do que o município.

Como vemos a própria ciência da administração pública deveria ter dado um enorme salto organizativo para responder ao problema de saúde com ações matriciais que envolvam várias secretárias municipais de acordo com o desenho administrativo atual.  A própria estrutura orçamentária deveria se modificar para que o financiamento obtivesse o máximo resultado com recursos que são pulverizados em diversos projetos, programas e setores para os mesmos objetivos de atenção integral das demandas territoriais.

É impossível estabelecer uma atenção integral territorial sem construir uma vontade política própria. E a vontade política é como uma vontade eleitoral: há que se mobilizar, formular e construir uma bandeira de transformação que se deseja em sentido da pauta constitucional e da atenção integral ao território. Em certo sentido o controle social já é  reconhecido pelas normas do Estado e deve ser plenamente exercido  mas elevando o conceito de controle para o da construção de vontades. Considero que não é mera questão vocabular, a vontade é muito mais do que apenas criticar ou exigir soluções como sugere o controle. A vontade é a formação de um poder político mediado no território.

Quanto à questão da intensa intermediação externa. Os agentes do Estado, com sua instância política representativa, no caso do Prefeito e a Câmara de Vereadores, devem se preparar para a realidade da dura e intensa intermediação externa. Por exemplo, no caso da atenção às doenças, especialmente na média e alta complexidade: a demanda territorial expressa por sua vontade não pode se confundir com os interesses de uma tendência profundamente mercantilizada nestes setores. Esses setores não se estabelecem como causa em si, mesmo quando se trata de complexas e sofisticadas tecnologias, mas como consequência da atenção integral e promoção da saúde.  

O caso explicitado é apenas um no processo saúde-doença, outros mais também guardam muita importância como a questão do financiamento da saúde. Seja pela escassez de recursos de um lado ou pela profusão de ingerências burocráticas federais. Quem abrir o Orçamento de uma cidade como o Crato irá se admirar o quanto é grandemente constituído por repasses da União e do Estado. E nesse momento a intermediação externa tem que ser no sentido de garantir a vontade territorial, não transformando o governo municipal em apenas uma instância burocrática federal ou estadual de execução de programas definidos externamente.

A quarta e última ação para equidade territorial é a mediação das contradições no interior do território. Vivemos em uma sociedade de classes. Com alguma frequência o consenso até pode sair na fase de formular vontades, mas quando esta vontade se expressar como poder surgirão inúmeras contradições. Aí o poder Municipal tem que agir para mediar os problemas e avançar rapidamente para que as soluções aconteçam.       

sábado, 15 de dezembro de 2012

Troca de e-mails - José do Vale Pinheiro Feitosa


Primeiro envio:

Não tive como adiar o envio sobre o centenário de Seu Luiz. Afinal se trata de uma data.

Bom final de semana.

José do Vale.

Resposta:

A FESTANÇA  CONTINUA POR AQUI.
NÃO É MERA COINCIDÊNCIA SER UM ANO DE SECA “BRABA”. COM CARRO PIPA TRAZENDO ÁGUA POTÁVEL  DO PIAUI PARA  AIUABA E SEUS DISTRITOS. CADA LATA DE 20 LITROS CUSTA R$1,50. POR LÁ  AINDA HÁ UM POUCO DE  ÁGUA NOS AÇUDES, MAS  O GADO  EMAGRECENDO. QUEM PODE, COMPRA RESIDUO PARA AS VACAS, PRINCIPALMENTE PARA AQUELAS DE BEZERRO NOVO. E HAJA ESPERANÇA  EM SANTA LUZIA, NO DIA 13 DE DEZEMBRO, JUSTO NO ANIVERSÁRIO DO VELHO LUA.
QUANDO CHEGARÁS POR AQUI?

ABRAÇOS.

CARMINHA.

Segundo Envio:

Carminha,

A seca continua maior que nossas barragens. Que barram a solução dos nossos problemas históricos com a firmeza de barro frouxo. Agora fica claro que as águas que correm nos grandes rios do Brasil precisam irrigar o semiárido nordestino e os grandes trogloditas espumam apenas pela transposição do São Francisco que afinal parece que estacionou em alguma empreiteira. Mas é preciso trazer água dos grandes rios da Amazônia para que, na falta das nuvens, o sertanejo e suas cidades não se tornem o que é o solo dos rios secos: a rachadura da integridade do fundo do leito.

Prima é comum que alguém no clima de um bom ar condicionado olhe como uma obra de arte as fotos das carcaças do gado morte de fome e sede. Esse alguém que derrete nos trópicos sonhando com a fantasia friorenta dos natais do hemisfério norte, não sabe o que aquelas carcaças significam. Aquele couro furado pelo bico dos urubus, cada osso em processo de tornar-se despojo do solo arruinado do sertão, é a marca da magreza dos sertanejos. Cada osso do gado morto que surge ao sol das máquinas fotográfica dão mais um ponto nas costelas magras do nosso povo.

E tome atraso na escola dos filhos. Os prefeitos cuidam de se lamentarem e não cuidam de abastecer, basta perceber que dez latas de água já levam 2% do salário mínimo. E se a situação permanecer além do dia de Santa Luzia, e o dia de São José passar sem nuvens, a lei da oferta e da procura irá disparar o preço da lata de água. Disparar sobre as costelas magras dos nossos fazendeiros.

Por isso água permanente para os sertões é uma grande revolução no nordeste. E estamos vendo que as barragens não são seguras para o futuro. E precisamos ter consciência que o aquecimento global é uma realidade em curso e isso provocará modificação geral no clima do planeta. Quando seu Luiz cantou os versos de Zé Dantas com a volta da Asa Branca ainda sonhava com o relampejar do norte. Agora precisamos dos canais dos rios do norte e não apenas do São Francisco que vem do sudeste.

Beijos,

José do Vale.     



CRATO: "IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA" - José Nilton Mariano Saraiva

Meses atrás, o Zé Flávio nos deu ciência do atraso no pagamento dos servidores lotados nos órgãos da saúde do município do Crato, assim como se reportou à falta de material/equipamentos básicos nos postos de saúde do município (coincidentemente, o problema aconteceu antes das eleições municipais, levando muita gente a imaginar que o dinheiro faltante teria sido desviado para finalidades outras).
Em resposta, o pessoal da Prefeitura da cidade resolveu transferir a culpa para o Governo Federal, porquanto teria atrasado o repasse de determinadas verbas para o setor.
Pois bem, hoje, com base em informações do Tribunal de Contas dos Municípios, o jornal O POVO (que não circula na cidade), publica matéria onde a prefeitura do CRATO é citada pela prática de “IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA” e onde deverá haver uma “TOMADA DE CONTAS ESPECIAL”  (processo no qual a administração pública exige a restituição de recursos ao patrimônio público ou que os envolvidos apresentem sua defesa).
Aos fatos.  
Detectadas “irregularidades graves” em 14 municípios
O Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) determinou Tomadas de Contas Especial em 14 das 39 prefeituras cearenses que foram fiscalizadas depois do período eleitoral deste ano. Conforme O POVO já havia antecipado na edição de ontem, irregularidades foram constatadas em todos os 39 municípios e a análise do que foi constatado nas visitas dos inspetores continua.
Por isso, o resultado é apenas parcial e a Tomada de Contas Especial deverá ser direcionada também a outros municípios nas próximas semanas. “Há improbidade administrativa e crime em todos os 39 e acho que em todos (a Tomada de Contas Especial) vai ser determinada”, afirma o promotor Eloílson Landim, do Ministério Público (MP-CE)
O balanço da Operação Antidesmonte foi divulgado em coletiva na manhã de ontem, na sede do TCM. Os relatórios do tribunal são repassados à Procuradoria de Crimes Contra a Administração Pública (Procap). A análise desses relatórios nos próximos dias poderá culminar no bloqueio de contas ou afastamento de gestores, a exemplo do que já ocorreu em outros municípios.
“Agora, cabe ao Ministério Público, através dos promotores das respectivas comarcas, agilizarem as ações de improbidade administrativa e, à Procap, atuar no campo criminal”, afirma o promotor Luis Alcântara. Segundo ele, certamente as investigações em curso no momento resultarão em operações do MP em várias cidades, durante 2013, a exemplo do que vem ocorrendo este ano. “Nosso trabalho está apenas iniciando e irá ter continuidade durante os próximos quatro anos”, complementa o procurador Maurício Carneiro.
Embora a situação verificada no fim deste ano seja melhor frente ao que ocorreu em outros períodos de fim de gestão, a procuradora de contas do TCM, Leilyanne Feitosa, aponta que houve também um “refinamento” das práticas irregulares. “(Os gestores) pensaram o que pra eles deve ter sido forma brilhante de desviar o dinheiro, só que nós também temos mentes brilhantes do lado de cá”, advertiu, acrescentando que “muita gente” será atingida ao fim das investigações.
Municípios onde foi determinada Tomada de Contas Especial:
Acopiara /Antonina do Norte / Barroquinha / Baturité / Coreaú / Crato / Granja / Ibiapina / Icó / Itaitinga / Pacajus / Santa Quitéria / Uruburetama / Uruoca
Saiba mais
Tomada de Contas Especial é processo no qual a administração pública exige a restituição de recursos ao patrimônio público ou que os envolvidos apresentem sua defesa.
Em conseqüência da ação do TCM e do MP, a Justiça já determinou o afastamento de alguns gestores. O primeiro a ser afastado como resultado da Operação Antidesmonte foi o prefeito de Granja, Hélio Fontenele Magalhães, acusado de improbidade administrativa. Também foi afastado o prefeito de Uruburetama, Giuvan Nunes (PPS), e suas secretárias de Educação e Ação Social.
O presidente do TCM, Manoel Veras, frisou que, apesar das irregularidades constadas, o cenário atual é bastante diferente (para melhor) se comparado aos últimos pleitos. Segundo ele, isso se deve ao trabalho de prevenção e fiscalização do TCM, em parceria com o MP e a Justiça.

TIros em Nwwtown Atingem o Alvo do Teu Futuro - José do Vale Pinheiro Feitosa


Logo que a notícia de mais um atirador massacrando estudantes nos Estados Unidos da América veio para a mídia internacional, emissoras de televisão brasileiras passaram a fazer transmissão direta com aquele país. A Globo News entrevistou um brasileiro que mora na vizinha cidade do massacre e ele traçou um perfil do morador daquele distrito de Connecticut. O perfil da cidadezinha Newtown onde o massacre ocorreu: é uma cidade pacata, ocupada por pessoas de alta classe média que trabalha em Nova York. Gente muito educada. As crianças são educadíssimas, muito respeitosas e preparadas.

E foi esse perfil que gerou um jovem que matou a mãe, matou 20 crianças entre 5 e 10 anos e mais outros adultos. Temos três coisas a considerar: a) como esta patologia bio-psicossocial surge; b) qual a causa desse massacre tomar as dimensões que toma; c) como isso funciona na psicologia social humana, especialmente no EUA.

Apesar dos estudos que analisam padrões do surgimento desses assassinos que geralmente vão ao ato do suicídio a verdade é que do ponto de vista do seu controle, incluindo detecção precoce, tratamento e ajuste à sociedade, ainda deixa muito a desejar. Pelo menos é o que notícias como essa levam à conclusão.

Mas isso tem um viés central: muito da percepção vem da tragédia pela extensão dos massacres. E não estamos apenas falando em controle de indivíduos com esses padrões. Não estamos porque uma causa central da extensão do problema é a arma de fogo. Basta comparar com casos ocorridos na China que parecem semelhantes em comportamento patológico, mas a extensão é mínima quando a arma do ataque no máximo é uma faca.

O EUA tem praticamente uma arma para cada cidadão. Isso é uma sociedade que possui uma máquina de morte para cada um e por consequência, todos estão armados contra todos. É uma ilusão que iremos proteger a vida quando as lanças apontam para o peito de todos. Vamos é produzir mais mortes do que se não existisse todo esse arsenal.

A evidência é tanta que comparando estados que têm algum controle no porte de arma, existem menos assassinatos por tais armas do que aqueles que tão têm controle nenhum. E a situação americana se eleva ao padrão político: o filme “Tiros em Columbine” do diretor Michael Moore expõe claramente o lobby das armas nos EUA e de modo patético para minha geração, expôs o papel negativo do ator de cinema Charlton Heston.      

E como tudo funciona na psicologia social da humanidade e em especial dos americanos? Antes, basta não esquecer o episódio de Realengo aqui no Rio de Janeiro quando um jovem de 24 anos matou onze estudantes. O que fica de efeito é o terror em estado bruto. Enquanto os carros bombas e os assassinatos seletivos geram ação política e revolta para um discurso político, esse que aconteceu ontem leva ao terror sem ação. Ele essencialmente transforma o ser humano em bicho do ser humano.
O mais dramático é revelar a compulsão de final dos tempos: jovens matando crianças na primeira infância. Quando as crianças são aniquiladas não existe mais futuro. É equivalente à sensação de fim de mundo. É desesperançador. E tudo toma ares de impotência quando um dos políticos mais importantes da atual civilização, Barack Obama chora frente à rede mundial de comunicação demonstrando sua total fragilidade humana.

Mas é engano. A fragilidade é a contradição com os lucros da indústria de armas de fogo. Se for impossível detectar todos aqueles com compulsão de morte, é possível lhes tirar o poder de massacrar em grande número. Ou não é por isso que basicamente apoiamos o controle das bombas atômicas?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Os Padeiros do Pão Amargo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Nóis num sabe tudo, mas nós né besta não!

Sete e meia da manhã e a classe média (os trabalhadores há muito já se encontram pendurados em alguma condução ou andando a pé para o trabalho) faz o seu “breakfast” com dentes arreganhados de raiva frente ao Bom Dia Brasil. Miriam Leitão, Chico Pinheiro e Renata Vasconcellos apresentando o “absurdo” dos impostos no Brasil. Os empregados da Globo são os padeiros daquele pão amargo.   

Qual o absurdo? Altos impostos, baixa escala de produção, custo da mão-de-obra (incluindo os gastos com os trabalhadores como assistência de saúde, condução e outros benefícios trabalhistas que eles acham que deveriam ser do Estado), a má infraestrutura pública e, claro, a Presidenta da República. Os padeiros recebem pronto o chavão para sintetizar o fermento diretamente dos donos da farinha de trigo.
E sabem o quê me veio pelo peito acima? Um fermento mais poderoso ainda: vamos combinar a transparência total. Se as notas fiscais me informarão o que pago pelos impostos, qual o motivo de também não vir discriminado os custos da produção, o quanto pagam de salário, qual o lucro dos produtores e quanto a rede de comércio leva naquele preço?

Quem poderá achar injustiça que se saiba o valor do que estou pagando em toda a cadeia de produção do mesmo? Quanto os juros oneram esse preço? Quanto os operários recebem direta ou indiretamente, os “executivos”, os acionistas, os atravessadores e assim por diante numa total transparência com a qual me sinta bem informado sobre o que pago.

E isso não vem porque aí mora o segredo maior do “crime” virado para a janela. E esse pessoal que se acha tão sofisticado na verdade mesmo conta é com a nossa besteira. Querem diminuir impostos e querem que o governo assuma as despesas integrais com a saúde dos empregados. Eu acho que a Constituição diz é isso mesmo, mas tudo bem senhores da “razão do venha a nós tudo”, é fácil fazer a transferência: tirem de suas despesas diretas os 84,48 bilhões de reais faturados pelos Planos Privados de Saúde e repassem para SUS que vocês verão o ânimo que isso provocará na atenção de saúde.

E digo mais: na gestão pública esse dinheiro, ao contrário do ralo dos Planos Privados de Saúde, teria muito mais eficiência (custo benefício). A lógica pública é de menos lucro e mesmo que malfeitores andem nas suas beiradas, estarão fora da lei, enquanto no setor privado isso é o sacrossanto direito ao lucro e ao intenso mercantilismo da medicina, transformada em produto de consumo, bem precificado e abusado pelo cliente e pelo profissional.

Os padeiros são todos bobos de balcão, mas os donos da farinha não. O argumento da escala de produção é uma balela especialmente nos últimos 15 anos com a moeda estável, equilíbrio fiscal, distribuição de renda e crescimento econômico. A indústria automobilística dizia que o carro brasileiro era caro por baixa escala de produção e como explicar o preço hoje quando somos o quinto maior mercado produtor e o maior comprador de veículos em 2010?

Esta pétala do argumento já pode ser jogada fora.

E os impostos altos? Vamos compreender uma coisa: quem fala em redução das despesas públicas como tese generalizada, quem deseja cortar gastos e zerar impostos na verdade ataca com alguma dose de cinismo ou por mero eco ideológico, os direitos humanos e a integridade territorial da nação.

Todos sabemos que cortar bens materiais é sempre uma luta política e social. Os tesoureiros do corte sempre pensam cortar os benefícios do vizinho e manterem o seu integralmente. É igual a essa discussão dos fazendeiros com o código florestal: é mais fácil defender a idéia sendo da cidade e não sendo fazendeiro. Mas no exemplo da indústria automobilística os impostos dos carros caíram nos carros médios e nos modelos flex.

Aqui no Brasil todos aqueles “adventures, cross, sport, eco” da vida são maquiagens de outros modelos, com acréscimo de 5 a 7% nos custos de produção, mas vendidos com aumento de 10 a 15% a mais. Aí se encontra uma das maiores malandragens da produção capitalista: as maquiagens de produtos para vendê-los muito mais caro. Na tecnologia de saúde isso é largamente utilizado pelos produtores e usam os profissionais de saúde na cadeira de imposição dos produtos.  

Uma análise feita comparando o preço do Honda City fabricado aqui no Brasil e vendido no México por um preço muito inferior ao praticado aqui, levou à conclusão que a margem de lucro da montadora e sua cadeia produtiva aqui no Brasil era acrescida de 38% em relação ao lucro por ela praticado no México. Tudo leva a crer que o alto preço praticado no Brasil se deve ao que os produtores consideram: valor percebido pelo cliente. Se o consumidor paga o que se pede, porque baixar o preço?
Agora imaginem onde esta engenharia de comunicação social começa? Quem cria o mito da bolsa Luis Vitton e diz que ela vale tudo o que vale e faz com que os outros fabricantes sigam a mesma política de vender pelo que o consumidor paga de qualquer modo. Aí temos que fazer um programa da verdade com os donos da farinha de trigo. Da farinha de trigo do pão amargo.  

E aí um brasileiro ouvinte do Bom Dia Brasil vai concluir que tudo isso foi imposto.

E foi mesmo!

Imposto pela montadora e pelos donos da farinha de trigo.  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Maias




                                                               Embora negue ,peremptoriamente, consta que teria partido de Valdenor aquele projeto genial. Depois do big-bang,   fica difícil juntar os cacos do quebra-cabeças e descobrir quem  teria assoprado o lume do estopim. Como sempre, as grandes idéias surgem, meio por acaso, sopradas pelo bafejo de algum anjo de luz ou sussurradas no pé do ouvido pela língua ofídica de algum dos decaídos . E o diabo é que a tragédia tinha acontecido simultaneamente com dois amigos de infância e adolescência, mas que agora, tangidos pelas vicissitudes do destino, estava cada um ( ado-ado-ado) no seu quadrado, tendo de ganhar a vida e arranjar algum alpiste para alimentar os bruguelos, cada um em  planeta diferente.
                                               Valdenor , passados os sonhos dourados  da juventude, teve que antecipar o casamento por conta de um emprenhamento prematuro da namorada. E eram tempos de “casa ou morre”. Na sinuca de bico, preferiu a morte a crédito: casou, deixou de lado os projetos estudantis e passou a trabalhar como vendedor numa concessionária de automóveis. Orlando fora seu amigo inseparável nos tempos de escola , de bailes e de farras homéricas. Firmou-se nos livros, terminou um curso de odontologia em Recife e vivia de boticão em punho no Crato há mais de vinte anos. Seus caminhos cruzavam-se,  esporadicamente, na rua, numa farmácia, no comércio. Não mais que isso.
                                               Pois bem, neste 2012 --- e pululam explicações catastróficas sobre esta coincidência ---  as aparentes paralelas, descobriram-se  semi-retas e voltaram às intersecções. Meio do ano, no último final de semana da Expô/Crato, os dois --- cada um por  razões diversas --- tiveram que viajar. Valdenor fora convocado para uma reunião de avaliação de desempenho da sua Concessionária em São Paulo e Orlando  partia para  um Congresso científico, no Rio. Viajavam ambos meio a contragosto, tendo que abandonar os dias mais virulentos das festividades de meio do ano. Mas que jeito ? Manda quem pode e obedece quem tem juízo !  E não era , simplesmente, o desassossego de abandonar a cidade em tempos tão festivos. Orlando  era muito supersticioso e ficou cabreiro quando um tio seu, o velho Júlio Maia, lhe alertou, no dia anterior, que tinha tido um sonho muito ruim: vira no delírio onírico, com aqueles olhos que a terra haveria de lanchar,  uma avalanche de troncos de madeira descendo ladeira abaixo e caindo em cima do sobrinho. E Valdenor, embora não tenha contado a ninguém, andava também com uma pulga detrás da orelha. Ele tinha uma vaca que chamava carinhosamente de “Maiada” e que dava uns quinze litros de leite todo dia, pois depois que marcou a viagem, ela  botou para secar os peitos e , de repente, não caiu mais um pingo. O vaqueiro do sítio o alertara que aquilo não era sinal de  bom augúrio.
                                               Por peripécias do acaso, iriam se encontrar no aeroporto. Estavam meio emburrados com a necessidade de viajar em dias tão pouco propícios. Tinham chegado ali com a ajuda das esposas que se despediram de cada um deles , após o check-in. Toparam um com o outro já na sala de embarque, enquanto reviviam os bons tempos, perguntavam por colegas da época e pelo destino das meninas mais charmosas da turma. Tinham comprado, embora não soubessem, passagens no mesmo avião. A coincidência chicotou ainda mais a curiosidade sobre os bons e  antigos tempos. E conversa puxa conversa, fofoca exuma fofoca, nem perceberam que a aeronave não chegara no tempo previsto e no quadro já não havia previsão para o embarque. Passadas uns sessenta minutos da hora prevista, finalmente,   o pessoal de terra avisou que o vôo 1899 para São Paulo, com escala no Rio, por problemas técnicos estava suspenso. Sabiam que só haveria agora vôo no dia seguinte e ficaram chateados com o contratempo.
                                                É neste exato momento que as versões divergem. Quem teria dado a idéia cabalística ? Reza a crença que Valdenor teria bolado o plano. Eu, como simples relator dessa história é que não vou enfiar minha colher neste consumê . O certo é que , independente de quem foi o Thomas Edison, os dois concordaram. Oras, não havia outros passageiros conhecidos. Deixariam as malas no Malex do Aeroporto, comprariam um chapéu para disfarçar e partiriam direto dali para a Expô/Crato. Na hora prevista de chegada aos seus destinos originais , cada um ligaria para a esposa informando que a viagem foi ótima , que estava tudo bem e que iriam descansar um pouco para  o início dos trabalhos mais tarde. Virariam a noite, na maior farra desse mundo e , no outro dia cedinho, pegariam um taxi, se despediriam das catraias que tinham arranjado e partiriam , finalmente, para Rio e São Paulo para os eventos previstos, com a desculpa mais que justificável de falha da Companhia Aérea.
                                   Seguiram à risca o plano. Sentiram-se voltando no tempo e gazeando a aula de Educação Física para ir ao Cabaré. Chegando na Expô/Crato foram direto para aquele lugar recôndito chamado inferninho. Primeiro porque ali é sempre mais reservado e privativo e, depois, porque existiam informações mais que abalizadas dizendo que lá , apesar do nome, se tratava do Nirvana. Tinha até as onze mil virgens, só descobririam que elas já tinham perdido de há muito esse atributo. Encheram a cara, dançaram o dia todo e à noite, ainda deram uma escapadinha e desceram para o show de uma Banda de Forró de nome apetitoso: “Cheira meu tabaco e desmaia”.  
                                   Ainda bêbados e grogues, de madrugadinha , já de táxi previamente contratado, partiram para o Aeroporto, com aquela cara de menino que acorda em dia de natal. Só não esperavam pela surpresa. As duras esposas estavam lá os esperando, de bote armado. Apanharam que só galinha pra largar o choco. Só depois souberam que houvera uma mudança no horário do novo vôo e a Companhia tinha ligado para suas casas avisando de mais esse contratempo. As jararacas pegaram o fio da meada, descobriram rapidamente a tramóia e partiram para lá, prontas para flagrar os recém-ressuscitados boêmios. O julgamento foi sumário, a peia comeu no centro, o papelão revelou-se publicamente e a pena executada fora em praça pública.
                                   Alguns dias depois, ainda de caras inchadas e reclusos, em silêncio obsequioso, Valdenor ligou clandestinamente para Orlando. Na defesa , um tinha colocado a culpa no outro e, certamente, quando o tempo os absolvesse , ficaria um ranço danado de cada uma das esposas com o amigo do marido. Mas que jeito ?   Orlando, o mais supersticioso, fatalisticamente disse ao colega que deviam ter prestado mais atenção aos sinais premonitórios da catástrofe. Tudo estava escrito!
                                   --- Veja só, Valdenor ! Tio  Júlio MAIA disse que eu não viajasse;  sua vaca MAIAda secou os peitos e a o diabo da banda da Exposição, você lembra?  “Cheira o meu tabaco e desMAIA” . Pois todos esses Maias tinham razão ! A calendário dos Maias estava certo,  nós é que nos abestalhamos, o Mundo tinha mesmo que se acabar neste 2012 !

J. Flávio Vieira