TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A VERDADE DA HISTÓRIA - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ontem saiu o relatório final da Comissão da Verdade sobre torturas, mortes e desaparecimentos de cidadãos e cidadãs brasileiros sofrendo por ordem e ação do Regime de Exceção que derrubou o governo constitucional de João Goulart. Antes de mais nada este relatório não fala para os algozes e vítimas do período, fala para cada um no tempo de hoje. No tempo de hoje e nossas perspectivas de vida em sociedade.

Com a ressalva que na missão dessa Comissão esteve o período até 1950, mas é importante que se tenha como referência o Primeiro de Abril de 1964 quando de modo sistemático as Forças Armadas, financiadas por empresas e mobilizadas por lideranças civis começaram a mudar a ordem constitucional vigente e atacar os adversários do dia anterior.  

Quando, de modo disfarçado, por vezes nem tanto, alguns começam a lembrar a suposta disrupção do Governo Goulart, a marcha revolucionária de natureza cubana, entre outros argumentos, estamos diante da justificação da ditadura. Esta é que é a verdade histórica. Justifica-se hoje, como ontem, apoiavam mortes, torturas e desaparecimento.

Além do mais é importante que se tenha em mente que as “ordens”, os “atos institucionais” e as “ações” da ditadura durante 21 anos não foram pontos pacíficos. Sempre houve divergência dentro e fora das Forças Armadas, dos empresários e das lideranças civis. Especialmente aquelas que efetivação praticaram a disrupção franca do processo democrático em curso.

Castelo Branco foi eleito pelo Congresso vigente e só o foi pela força do PSD e esta força significava Juscelino Kubistchek. A eleição indireta, pelo Congresso Nacional, aconteceu em 11 de Abril sob “égide” do Ato Institucional nº 1 lançado pela Junta Militar (Marechal Costa e Silva, tenente-brigadeiro Francis de Assis Correia e Melo, Almirante Augusto Hamann Rademaker).  Em junho Juscelino estava cassado.

Jânio Quadros foi cassado, Ademar de Barros em junho de 1966 e Lacerda em 31 de dezembro de 1968. Bom nesta altura já estavam cassadas todas as grandes lideranças políticas que deram motivação ao golpe. Como é lógico todos os adversários já o tinham sido perseguidos e presos desde o primeiro momento da disrupção. Somente figuras importantes, mas secundárias em termos de liderança nacional ficaram para sustentarem o longo manto cerimonial da ditadura em curso (Pedro Aleixo, Milton Campos, Magalhães Pinto, etc.).

Ao mesmo tempo surgiram “lideranças” para em sua “juventude” com o quadro desimpedido fazer suas “carreiras” sob as asas da “ordem” tipo José Sarney, Antonio Carlos Magalhães, Hugo Napoleão, Marcos Maciel e assim seguiu a lista. A presença a americana para armar e disparar o golpe é inegável, a nação foi amiga e companheira, mandou exércitos para a República de São Domingos e fez o papel do anticomunismo inerente por toda guerra fria. Eis o quadro.

Agora a verdade. O poder mesquinho dos desafetos, a arrogância humana sem normas sociais, o poder da corporação, a ganância de capitalistas e donos da terra, puseram uma máquina de torturar, matar e desaparecer em curso. Esta máquina tomou as suas próprias decisões e fez o papel sujo nos porões, mentindo para a sociedade e se escondendo numa trama abjeta.


Agora a verdade. Quando a política é a eliminação do contraditório a única linguagem possível é o curso virulento de ódios, temores e maldades que são inerentes ao processo. Mesmo que alguns agentes sejam dotados de uma psicopatia, o método e o curso da ação é que é causa. Portanto segue toda a cadeia de origem e o comando, desde o Presidente, passando por Ministros e chefes militares e líderes civis.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A LEI "ANTICORRUPÇÃO" - José Nilton Mariano Saraiva

Se hoje os grandes “tubarões” (empresários de alto coturno) das maiores empreiteiras brasileiras estão “encanados” (presos e vendo o sol nascer quadrado) em razão do pagamento de propinas a “executivos-bandidos” da Petrobrás, credite-se à Lei 12.846, de 01.08.2013 (vide Diário Oficial da União de 02.08.2013), também conhecida por “Lei Anticorrupção”, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff.

Isso porque referida lei trata da responsabilização administrativa e civil das pessoas jurídicas, por atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira. Aliás, não custa lembrar que antes havia como que um enorme vácuo nessa esfera, por onde trafegavam livres, leves e soltos os mafiosos de colarinho branco (de acordo com o Ministério Público, na Petrobrás isso já ocorria há anos, contemplando vários governos).

A operação Lava Jato é, pois, o corolário do combate sistemático à corrupção, que se iniciou a partir do momento em que à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal foram dadas condições e liberdade de ação para investigar e prender bandidos de alta periculosidade da área financeira. E a prova irrecorrível está na frieza dos números: enquanto entre os anos de 1995 a 2002, no governo tucano de FHC (responsável por “abrir a porteira”, literalmente, ao dispensar o processo licitatório na Petrobrás), a Polícia Federal realizou 48 operações, com média de “TRÊS” A CADA SEIS MESES; já entre 2003 e agosto 2014 foram realizadas 2,3 mil operações, (média de “CEM” A CADA SEIS MESES) com a prisão de 23 mil pessoas. Além do que, durante os oito anos do governo Lula da Silva, 3.088 funcionários do Poder Executivo foram expulsos e entre 2011 e 2013 na gestão Dilma Rousseff, 1.570 tiveram igual destino, totalizando 4.658 banidos.

No entanto, como no Brasil quem tem “bala na agulha” (grana, muita grana) geralmente consegue levar o desenlace do processo até o Supremo Tribunal Federal, cujo “histórico” não é dos mais animadores no tocante à penalização dos poderosos e políticos corruptos, por sempre encontrar uma brecha qualquer para liberá-los das acusações (vide Daniel Dantas solto pelo ministro Gilmar Mendes e Paulo Maluf liberado pelo então ministro Carlos Veloso), há o receio de que haja marmelada ao final.

E o exemplo de tal beneplácito nos foi ofertado agora mesmo e sem maiores delongas, quando o ministro do STF Teori Zavascki mandou libertar o tal do Renato Duque, tido e havido pelo Juiz Federal Sérgio “seletivo” Moro como um dos principais beneficiários da propina que correu solta na Petrobrás durante todo esse tempo (dizem que a fortuna que tem em bancos europeus é algo impressionante, e que agora poderá ser livremente movimentada).

Em conseqüência da soltura do mafioso, bancas advocatícias pagas a peso de ouro pelos grandes “tubarões” já manobram para tentar levar a decisão para o Supremo, onde certamente a chance de livrá-los de uma penalidade mais severa é bem maior (lembremo-nos que quando se viu envolto numa série de falcatruas (posteriormente confirmadas), Daniel Dantas recomendou aos seus bem remunerados advogados que cuidassem dos seus problemas junto às instâncias jurídicas inferiores, porquanto em chegando ao Supremo  não haveria problemas – como restou comprovado, com a ordem de soltura emitida por Gilmar Mendes.

E assim, embora que por vias tortuosas (originalmente não se imaginava chegar a esse ponto), lamentavelmente a operação Lava Jato, que tem tudo para representar um definitivo “passar a limpo” o Brasil, corre o risco de frustrar a todos, ante a real perspectiva de que haja um tratamento “diferenciado” a partir do momento em que Excelentíssimos Ministros do STF começarem a julgar os processos envolvendo não só os poderosos, mas também os políticos mafiosos com assento no Congresso Nacional (que todos sabemos constituir o que há de mais abjeto e desprezível, daí a absoluta falta de credibilidade da classe política ante à população).

Mas, em sã consciência, a verdade é que independentemente de filiação partidária (PT, PSDB, PMDB, PDT e demais) ou do foro privilegiado (julgamento pelo STF), a torcida de todos os brasileiros engajados e de boa fé é que os envolvidos nesse esquema monumental sejam  rigorosamente penalizados, seus nomes dados a conhecer à sociedade, além do banimento da vida pública, e que sejam obrigados a devolver o que roubaram.

Essa é a hora. A “Lei Anticorrupção” assinada pela presidenta Dilma Rousseff foi elaborada objetivando debelar de vez esse tumor maligno que de há muito dilacera com a nação. É agora ou nunca. Que o Judiciário (STF) se não ajudar, pelo menos não atrapalhe.


Não é farsa. É o mesmo processo! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quem gosta de examinar fatos acontecidos na política brasileira encontra vasto material digitalizado dos jornais brasileiros e dos Diários do Congresso Nacional. Os jornais foram digitalizados pela Biblioteca Nacional e os “Diários” pela Câmara dos Deputados.

Nos referidos acervos podemos examinar o vasto material dos embates políticos após o fim do Estado Novo e, durante o período democrático, entender como as forças agiram. Isso é importante porque muitas semelhanças existem com as posições adotadas pela oposição ao atual governo federal.

Embora sejamos uma Federação, o papel centralizador da União é muito forte de modo que as grandes questões políticas sempre envolvem a disputa neste nível. A conquista do governo da União tem um peso político muito grande em questões dos direitos de propriedade, das formulações econômicas e fiscais, dos estímulos estratégicos, das alianças locais, do desenvolvimento e crescimento relativo.

A famosa frase que a história apenas se repete como farsa não foi bem compreendida por muitos. Quando se fala em repetição a referência são os saltos qualitativos da história que implicam em novas fases, novas forças produtivas, novas relações de classe, e assim por diante. Não se trata de repetição os acontecimentos dentro do mesmo estágio de sociedade, pois apenas são continuidades das forças em disputa.

Quando aconteceu a Revolução de 30 e uma parcela muito forte da sociedade resolveu que iria incluir segmentos essenciais das classes sociais no desenvolvimento do país sem optar pelas duas fórmulas então postas na mesa (comunismo e fascismo), adotando a chamada fórmula democrática, criou um novo problema. E esse foi a luta entre os setores privilegiados pela estrutura econômica existente e pelo Estado contra enormes segmentos de trabalhadores, camponeses e pequena classe média em busca de novas oportunidades.

Esta luta, diga-se de pronto, tinha como referência ideológica o modelo americano de progresso individual e o modelo europeu (pós-guerra) de desenvolvimento social. Não se tratava da luta contra o comunismo ou a favor desse, mas da luta de um segmento privilegiado de referência individualista e patrimonial e da grande massa em busca de um progresso inclusivo.

O segmento privilegiado, compondo sempre a minoria, envolvia setores da igreja católica (e sua estrutura de educação privada), grandes latifundiários, setores industriais e financeiro, a estrutura de comunicação social (de pessoas e famílias), segmentos tradicionais da classe média tradicional com grupos atrelados ao aparelho de estado. O segmento de massa, compondo a maioria política, já citei a sua formação e foi aí que a política a partir de 1945 funcionou.

Vale dizer que após 1945 o papel das grandes empresas multinacionais, especialmente no campo do petróleo (Shell, Esso etc.) e do governo americano foi fundamental para criar uma “psicologia” anticomunista para justificar a quebra do processo democrático e assim atacar a luta da maioria. A minoria (União Democrática Nacional à frente) nunca conseguiu vencer democraticamente o governo da União.

Um parêntese. Getúlio Vargas criou uma fórmula política genial de formar a maioria: a união Partido Social Democrático (PSD) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Enquanto esta maioria política não rachou a UDN fez um jogo político violento na sociedade, no governo e no parlamento. Mas nunca levou no voto.

A luta da minoria (UDN à frente) se compunha de algumas forças: o dinheiro dos grandes capitalistas, do setor financeiro e dos Estados Unidos da América (pelas suas instituições e empresas), a aliança com as grandes empresas jornalísticas e setores reacionários do aparelho de estado (Poder Judiciário, Forças Armadas, etc.) e todo o segmento social privilegiado (que lutava desesperadamente para não perde-lo). E foi esta fórmula que criou toda a virulência da luta da minoria e da manutenção de seus privilégios.

O que vivemos hoje é esse mesmo processo. A minoria com quase os mesmos atores, juntado novas forças surgidas, politicamente ainda conduzida pelo PSDB, a grande mídia familiar, grandes empresas com negócios no aparelho de Estado, setores reacionários do agronegócio, dos bancos e os mesmos setores reacionários do aparelho de estado (a referência no judiciário é Gilmar Mendes a serviço de um partido político). Do outro lado a esperança da maioria que tudo melhore dentro de um projeto que tem à frente o PT em aliança com o PMDB que faz o papel assemelhado ao que o PSD tinha nos anos 50 e início dos 60.

Esta é a luta. Não tem comunismo no meio, não tem fascismo. Tem apenas o processo democrático no qual se tenta melhorar a vida da maioria em contraposição aos conservadores de classes privilegiadas. Agora a verdade é que as classes privilegiadas quando sentem que não podem mais sustentar politicamente as suas posições logo partem para a manipulação e quebra do processo democrático. Aquele que a rigor é realizado pelo voto e pela participação social.

Ideologicamente vão lembrar as velhas fórmulas de propaganda do passado. Mas essas já não possuem referências no mundo. Por isso o jogo continua. Embora estejamos vendo que na América Latina já foram dados golpes pelo judiciário. Vejamos o papel de Gilmar Mendes e sua reperc

domingo, 7 de dezembro de 2014

Momento Taiguara - José do Vale Pinheiro Feitosa

Fragmentos de vários vídeos publicados no youtube com a música cantada por Taiguara. Não escolheria estas imagens, mas ficou mais fácil editar assim. 

A verdade é que o pragmatismo burguês não comporta os sonhadores. Olhados à distância com um riso de desprezo no canto da boca, os senhores das posses e do dinheiro não acreditam que o mundo seja a eternidade agora. Aliás eles acreditam na perenidade de seu capital sempre com ratoeiras dentro dos bolsos com medo que os ladrões levem sua eterna vigilância.

Os sonhadores que questionam esta divisão de ambições. Esta particularidade que levanta muros, a fé inabalável na ordem vigente. Os sonhadores que, por momentos, sabem os empecilhos do amor entre as pessoas, mas entendem que o ódio também é passageiro.

Os sonhadores perseguidos, censurados, torturados, mortos, desaparecidos. Os sonhadores banhados, a cada dia, pelos ácidos que corroem todos os seus sonhos de felicidade e paz. Os sonhos que se acabam porque outros sonhos precisam começar.

E por isso esse momento do canto mais censurado da história do Brasil. Foram 68 canções engavetadas pela intolerância de uma ordem que uma canalha enraivecida deseja renascer. Nem um disco gravado em inglês pôde ser lançado no Brasil. Nem seu disco gravado no Brasil em 1975, Imyra, Tayra, Ipi com a fina flor da música instrumental brasileira (Hermeto Paschoal, Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Noveli, Zé Eduado Nazário) pode ser lançado. A censura não deixou.

Na semana que passou na Globo News, com Chico Pinheiro este pessoal relembrou Taiguara. Que me lembre foi uma das únicas vezes nos últimos anos que vi tão gente de primeira tocando junto. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ballade pour ma mémoire - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ballade pour ma mémoire - Michel Legran e Francis Lai - voz Liliane Davis

Sexta feira. Da solidão da noite onde as vozes silenciaram, os meus olhos passeavam sobre o cinza da borda do canavial e, lá na linha do alto, via as luzes da cidade. Tudo vida. Tudo continuação. E mais do que isso: a música para nossos corpos se amarem.

Como esta balada pela minha memória. As luzes atrairiam as pessoas para as mesas, garrafas embriagariam esta faina da responsabilidade servil, os cabelos delas brilhariam como um visgo perfumado. E a música um cupido a soltar flechas que realizam o encontro.

Un homme et une femme - Michel Legran e Francis Lai.

Un homme et une femme olhares a dissolverem estas regras da interdição. Cílios que enfeitiçam e todo aquele lago castanho é lenha acesa a desdobrar cada sentido ao colar-se ao outro. Estes cheiros de perfume e corpo, esta mão suave, a cintura que divide hemisférios, a erupção que abrasa este encontro.

Uma luz suave a acolher toda a expressão que fecunda quereres. Inunda lagos e promove a aproximação oculta entre o cais e o barco a abrir as velas da privacidade. Afinal apenas os dois existem. Sem gêneros. Mas, sobretudo números e graus. Muitos graus.

Un perfum de fin du monde - Michel Legrand e Francis 

Afinal somos um perfume. Um perfume dos limites do mundo. Um extrato final dos motivos essenciais que contemplam este encontro da sexta feira. Uma sexta feira para dar graças ao olfato, para levantar os braços aos céus por toda esta força seminal.

Por nossos olhos, por nossas bocas. Pela febre de tua face. Por esta música que encena todo este momento.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Lá no meu pé de serra - José do Vale Pinheiro Feitosa

Zé, Luiz, Santana, Socorro, Zabelê, Biô, Pinga, Fila, onde é que nossas substâncias estão e para onde elas vão? Sempre estou contando as sementes das vagens a perguntar se estas substâncias são o ovo do chão ou a fecunda obra das nossas imaginações.

E sei que a semente é algo tão evidente que esta dúvida não deveria existir. Mas é que somos flor do tempo. Brotamos e murchamos. E tudo que é divino, porque assim entendemos, logo pensamos seja todo o universo, que se alue o tempo todo, mas nunca deixa de abraçar além do tempo.

Meu constitutivo essencial. Sabe gente. Estas questões ilusórias, crentes ou radicais, agradam por mover emoções, orações e sentenças. Mas fica sempre aquele grão inexplicável e onde estão nossas substâncias e para onde elas vão?

Bom, vamos fazer um exercício qualquer. Jamais do nosso peito uma canção falando da morada no alto da serra. Lá no topo do mundo como os serranos se acham. Nós não!  


Nós somos é pé de serra. Só vamos ao topo para apanhar piqui, descascar abacaxi e beber um suco de maracujá peroba.  

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A "coisa" vem de longe - José Nilton Mariano Saraiva

Desde a derrota em 26.10.14, quando foram atropelados por um transatlântico de votos, a “tucanalhada” – à frente o aloprado e apoplético “playboy do Leblon” (Aécio Neves) e o gagá FHC - insiste em instituir uma espécie de terceiro turno da eleição presidencial.

Só que o mote usado - que os malfeitos na Petrobrás começaram em 2003 com a ascensão do PT ao poder - é no mínimo cínico e desonesto. O próprio ladrão-delator Paulo Roberto de Souza, funcionário de carreira da Petrobrás desde 1978 (e que começou a ocupar cargos de Diretoria ainda na gestão FHC), foi muito claro em depoimento à CPI, ontem, ao afirmar peremptoriamente que desde o governo Sarney, passando pelos governos Collor, Itamar e FHC, a prática era corriqueira naquela estatal. E já que emprestam tanta credibilidade para o que ele diz, atenção: segundo o próprio, em outras instituições governamentais a “coisa” também vigora e... no Brasil todo.

O detalhe, e todo mundo já tá careca de saber, é que naquela época não havia disposição para se investigar, não havia coragem de cortar na própria carne, resultando que tudo foi varrido para debaixo do tapete, daí o monstro ter criado musculatura.

Portanto, querer fazer crer que o que acontece hoje trata-se de uma “novidade”, não cola: é sim, uma lamentável “recorrência”, mas que agora tende a ser enfrentada, depois de uma lei específica sancionada pela Presidente Dilma Roussef, que permite alcançar corruptos e corruptores (e aqui um parênteses: segundo ainda o ladrão-delator, Lula da Silva e Dilma Roussef são sabiam de nada, ao contrário do que foi desonestamente divulgado às vésperas da eleição pela revista VEJA-ÓIA).

A propósito, lá no distante ano de 1989 (há 25 anos, portanto) o competente jornalista Ricardo Boechat, da Rede Bandeirante, foi agraciado com o Premio Esso de Jornalismo exatamente pela denúncia pública de roubo na Petrobrás, daí sua indignação com a recente declaração de FHC de que sentia vergonha com o que estava acontecendo naquela estatal.

Com a palavra, pois, o Boechat:

Acho que ele [Fernando Henrique Cardoso] está sendo oportunista quando começa a sentir vergonha com a roubalheira ocorrida na gestão alheia. É o tipo de vergonha que tem memória controlada pelo tempo. A partir de um certo tempo para trás ou para frente você começa a sentir vergonha, porque o presidente Fernando Henrique Cardoso é um homem suficientemente experiente e bem informado para saber que NA PETROBRÁS SE ROUBOU TAMBÉM DURANTE O SEU GOVERNO. “Ah, mas não pegaram ninguém!” Ora presidente! Dá um desconto porque só falta o senhor achar que na gestão do Sarney não teve gente roubando na Petrobras. Na gestão do Fernando Collor não teve gente roubando na Petrobras. Na gestão do Itamar Franco não teve gente roubando na Petrobras. A Petrobras sempre teve em maior ou menor escala denúncias que apontavam desvios. EU GANHEI UM PRÊMIO ESSO EM 1989 DENUNCIANDO ROUBALHEIRA NA PETROBRÁS.  […] A Petrobras sempre foi vítima de quadrilhas que operavam lá dentro formada por gente dos seus quadros ou que foram indicados por políticos e por empresários, fornecedores, empreiteiras. Então, essa vergonha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é sim uma tentativa de manipulação política partidária da questão policial”.  (o que a “tucanhalada” tem a dizer, a respeito).

No mais, convém registrar que das 09 (nove) empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato, 06 (SEIS) financiaram a campanha do “playboy do Leblon” (Aécio Neves) – e é igualmente fundamental observar que 05 (CINCO) delas dividiram as obras da Cidade Administrativa, uma obra faraônica, absurda e desnecessária que Aécio empurrou sobre os mineiros, num custo superior a 2 BILHÕES de reais, em vez de investir em obras de infra-estrutura que realmente beneficiariam o estado. Aliás, estranhamente dois prédios IDÊNTICOS acabaram sendo construídos por dois consórcios DIFERENTES, o que é inexplicável.

Teria o “playboy do Leblon” (Aécio Neves) alguma justificativa para tamanha excrescência ???
  

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Eu sei que vou te amar - José do Vale Pinheiro Feitosa

Eu sei que vou te amar - Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes - Canta Maysa 

Prometeu sexual, sem tormentos, esvaziamentos ou o renascer para depois esgotar-se. Não é assim como uma sentença. É uma nascença como a alvorada e o entardecer de todo o universo sobre o panorama que a paisagem da terra me oferece.

Prometeu, a forma da atração, a deidade que é a pele que reveste todos os sentidos, os terminais sensitivos que confessam a sensualidade. A força da gravidade que precipita matéria, energia e o insensível um ao encontro do outro. Esta inconfessável individualidade em plena negação através de um exercício aos píncaros do esgotamento. Um exercício de fusão absoluta.

Mas o abutre não é isso. Nem isso é o fígado de Prometeu. É outra coisa e tantos pela vida pensam que não é. Mas não adianta dizer que é amor. Eu sei que vou te amar. Por toda a minha vida eu vou te amar. Por tanta bile secretada nestas etéreas relações que murcham, se esvaziam, como folhas soltas nas soleiras das portas fechadas.

Tudo é outra coisa. Diferente do cansaço da lida. Das amarguras, desconfianças e traições. Das negações, da covardia, do muito que era e do pequeno que se mostrou. Tudo é diferente porque é o Prometeu Sexual.

A repetição desta maravilhosa fusão que antes do anoitecer parece se esgotar e não se esgota nunca. Recomeça como esta força da consolidação. Da qual civilizações apareceram, o futuro se constituiu e as forças se multiplicaram por todos os continentes.

Por todos os continentes como o conteúdo único dentro deles. A gravidade que funde. 

Manuel Audaz - José do Vale Pinheiro Feitosa

Manuel Audaz - Fernando Brant e Toninho Horta - canta Jane Duboc

Esta pluma que as correntezas levam. Pelas montanhas de Minas. Curvando pelas estradas labirínticas destes cortes de passagem entre morros. E vamos audaz numa ânsia infinita por novas porteiras. As vacas pastando nas encostas como se estivessem coladas a elas.

Uma beira de cerca. Um velho jirau onde os bules de leite foram deixados pelos caminhões afluentes das cooperativas. Pedaços de chão rachado pelas águas das chuvas. Um capim fora do cercado. O cupim criando morrotes como pequenos bolos de barro na paisagem.

E audaz, este jipe vai fundo no nível mais baixo dos vales, ciranda a beirada dos riachos, pula nos buracos da rodagem, veloz ao encontro do requeijão mineiro. Uma broa de milho. Um café da tarde, uma conversa temperada a silêncios, uma varanda para olhar o mundo se escarafunchando lá nas coisas que acontecem.

E risca com seu rangido de molas enferrujadas bem no terreiro da casa. Os bichos se espantam. O cão late, a vaca responde, o pavão ecoa, e lá os de casa vão apertar as mãos dos viajantes que descem do Manoel Audaz. Uma cachaça de rolha para esquenta a satisfação da boa chegada.

E afinal a que tanta viagem neste passo audaz. Velha amiga eu volto a nossa casa. Já não a encontro sempre pronta. Os corredores emudeceram. As fotografias amarelaram. Os quartos estão vazio. E tu não te encontras ao pé do fogão.

O fogão é só continente. Nem mais um resto do pó das cinzas dá última vez que gerou trabalho.
Velha amiga eu volto à nossa casa. 

Diana - Fernando Brant e Toninho Horta - canta Boca Livre

domingo, 30 de novembro de 2014

DONA - Sá e Guarabira - Cantada pelo grupo Roupa Nova

Cheiro Mineiro de Flor - José do Vale Pinheiro Feitosa




A corrida para as cidades foi de repente. A porta se escancarou e deixou a casa abandonada. Uma flor murcha. A lagartixa nas brechas do reboco. O borralho ainda quente da última panela que alimentou aqueles que fugiram no rumo das cidades nem bem o meio dia chegara.

E ficaram ali mesmo pela periferia das cidades. Não havia lugar nas casas de ruas calçadas, água servida, luz nos postes e passeio montado. Ali mesmo entre um papelão, uma folha de zinco, uma tábua por arranjo. Um teto que filtrava estrelas assim como borbotava as chuvas geladas que inflamavam os pulmões.

Não se teve nem tempo de pensar antes sobre os passos da corrida. Um saiu, depois outro, mais acolá alguém, um a um os botões foram afrouxando, depois preso a uma única perna de linha e finalmente caindo de suas casas. E a camisa da vida desabotoada deixou uma sensação tão grande de desamparo a mover as pernas sem que os braços entendessem o motivo.

Se tivesse uma noite mais, talvez o canto soturno do bacurau lembrasse que por vezes a pouca luz é mais propícia que o lume do meio dia. Mas os becos enlameados, os monturos de lixo, o fedor entranhado das valas por onde as ratazanas pulam de uma margem a outra, são o fim da corrida.

E só restou uma viola a lembrar aquele cheiro mineiro de ser. Aquelas cores inteiras de ver. Aquelas melodias maneiras de se encantar. Aquele jeito de lembrar o lugar de onde se veio. O veio soterrado por estas camadas urbanas de ser.


Este cheiro mineiro de serra. O beija flor. Este cheiro mineiro de flor. 

A MARCHA DESTRUTIVA DA SOCIEDADES OLIGÁRQUICAS - José do Vale Pinheiro Feitosa

Na última postagem apontei o quadro da civilização que gera incertezas humanas profundas. Hoje apontarei três coisas extremamente graves pois apontam para uma civilização comandada por uma elite embriagada pelos negócios. Uma elite que vive numa era de grande desenvolvimento do conhecimento e que se identifica cada vez mais com as deidades gregas. Poderosas, eternas e auto protegidas.

A primeira delas é a que explica a incerteza. A concentração absurda da renda, gerando uma desigualdade econômica e social nunca sentida na humanidade. Especialmente com tendência totalitária pois que engendrada por grupos que o tempo todo operam “cientificamente” para manipular toda a realidade a seu favor. Não vou repetir os números, o livro Capital do Século XXI de Thomas Pikkety é suficiente para desnudar esta realidade. Além dos estudos feitos na Suíça onde se demonstrou que um grupo muito pequeno controla a maior parte das operações das grandes corporações financeiras e produtivas.

O outro ponto foi o recrudescimento da corrida armamentista. Especialmente revelada nesta fase pela crise da Ucrânia, envolvendo EUA, Rússia e a Europa. Estamos revivendo o velho clima em que o espírito dos cavaleiros do apocalipse retorna aos céus da humanidade. Tudo em benefício de uma plutocracia mundial que em falta de identidade com as gentes, resolve matar as que existem.

Olhem só algumas loas às armas retornando aos caninos sangrentos. Estamos vivendo o “êxtase” de admiração das vítimas potenciais ao enorme poder de morte e destruição. Lembra aqueles “pequenos” que salivavam de prazer ao descrever a guerra de blitzkrieg de Hitler com suas armas fabulosas.

Vejamos esta vitrine dos russos. Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs) que viajam a incríveis 18 Mach, armados com MIRVs, que são Veículos de Múltiplas Entradas, capazes de carregar até 8 ogivas nucleares (ou outra bomba) que se dirigem a alvos diferentes. Mísseis Iskander que voam a velocidade Mach 7 com autonomia de 400 Km, capazes de carregar ogivas de 700 Kg e com precisão de alvo de 5 metros.

Uma vitrine mortal de mísseis terra-ar como o S-400 e o S-500 capazes de criar uma barreira a qualquer avanço aéreo. Aviões supersônicos cada vez mais sofisticados e capazes de penetrações profundas destrutivas no território inimigos. É um arsenal dos deuses do Olimpo.

A ficção científica ou as projeções científicas, não tenhamos dúvidas, fazem parte da estratégia de domínio e congelamento do futuro. Agora com empresas privadas correndo em disparada, igualmente às armas destrutivas, em busca da sintetização de DNAs que possam gerar todo tido de seres novos em benefício da elite, para solver problemas exclusivamente delas, inclusive matando em escala, os indesejados.

Os controles privados já anunciam a era da “evolução dirigida pelo homem.” A evolução pós darwinista, não mais natural. John Craig Venter  (aquele que correu na busca de desvendar o DNA humano de modo privado) já conseguiu digitalizar em computador um DNA, depois sintetizá-lo em laboratório, em seguida extrair o DNA original de um ser vivo e introduzir o sintético.

Teremos a criação artificial de vírus capazes de promover pandemias que cessarão mediante soluções privadas de combate. Agora mesmo pegaram um vírus da H5N1 que apenas se transmitia entre aves e que passaram a se transmitir entre mamíferos.

Aí vem a novidade plutocrata: este “domínio” será capaz de fazer avançar a evolução humana, permitindo que alguns ultrapassem o problema do envelhecimento, doenças crônico degenerativas regridam, já se identificam células tronco capaz de substituir tecidos e órgãos humanos com fisiologia “errada”. Vem aí a fina flor para madame e o senhor todo poderoso da bolsa de valores.

Eles poderão num futuro próximo, enriquecer laboratórios que operarão no mesmo modelo de negócio do desenvolvimento de softwares, capazes de desenvolver uma medicina personalizada ou de precisão capaz de digitalizar modelos moleculares dos genes, proteínas e comunidades bacterianas de cada pessoa. Claro aquela elite que pode pagar estes vorazes entes privados.

Mas acontece um detalhe: mesmo que essa “ficção” aponte a imortalidade, a invulnerabilidade continua em causa. Como por exemplo, os mesmos valores que estão no segundo ponto, a corrida armamentista. Aquela que se encontra no mesmo diapasão de sustentação das plutocracias globais.

Enfim todos estes três pontos respondem pela ditadura totalitária dos Deuses Gregos. Raivosos. Brincalhões. Enamorados por mortais escolhidos e vingativos com quem lhes causa incômodo. A sociedade plutocrata é a ditadura em Estado Pleno. E os liberais imaginaram que tudo se espelhava apenas no Comunismo Soviético.  

sábado, 29 de novembro de 2014

Distúrbios Mentais Fruto Desta História - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os problemas continuam os mesmos: incerteza, privações e não saber o que o futuro pode trazer.” Dr. Nader Alemi, médico psiquiatra afegão.

Durante a reunião do G20 na Austrália aconteceu uma série de reuniões paralelas para apontar questões para a humanidade. Afinal o G20 é um grupo de nações procurando ajustar as questões globais. Entre os debates paralelos um foi sobre saúde e ali se destacou a questão: os distúrbios mentais eram grave problema de saúde pública, que a Organização Mundial da Saúde não valorizava e apontava a enorme deficiência de profissionais habilitados numa realidade em que tais distúrbios tendiam a crescer.

Frases do tipo mal do século mostram a perplexidade e, por isso, não explicam bem as questões. E temos um conjunto de “novidades” que faz do momento uma “instabilidade” permanente no desenvolvimento humano em termos culturais, econômicos e sociais.

O primeiro deles é urbanização praticamente universal em toda a humanidade. As comunidades estão desaparecendo, a família de parentela é substituída pela família nuclear, esta mesma numa fragilidade permanente e tendendo a se tornar a solidão (individualização). A língua e as tradições estão constantemente esbarradas por elementos contaminantes.

A vida laboral é ultra explorada, instável, fragmentada, alienada, tediosa, frágil como a teia da qual é parte sem entender nem a tessitura ou a malha inteira. Para suportar o estado permanente de fragilidade é induzido ao aporte químico permanente (tabaco, café, cocaína, álcool etc.) para se manter em estado eufórico, atento e vigilante porque a qualquer momento um fragmento da realidade irá soltar-se e destruir a história que tenta construir.

A privação de todos os meios de suporte à vida atinge milhões de pessoal e elas são vistas como estorvos ao processo em curso. Examinem conscientemente a questão da Doença Provocada pelo Vírus Ebola, a destruir a vida dos africanos, enquanto a fina flor da ciência permanece a serviço do capital que não se interessa por esta gente. Os organismos multilaterais nem arranham a casca ideológica desta realidade.

Um estado deste é arrasador da confiança no outro. Não se pode confiar num semelhante com a vestimenta de um predador. Ao mesmo tempo que expõe todos os povos aos nichos no meio da floresta, uma brigada tribal emerge na clareira para decepar todas as vontades, toda a escrita que aponte horizonte e luzes. A clareira é o campo apropriado para estreitar a realidade a uma brecha pela qual nunca se enxerga a diversidade desta realidade.  

De autor e sujeito da história, tornou-se objeto do consumo, capital humano, técnico de algum parafuso da engrenagem, expectador do teatro que deveria ser ator, peça descartável do tempo em curso. A angústia antecipatória da próxima decepção, da expulsão do jogo, de permanecer na reserva, mas fora do campo. Ser apenas uma unidade na massa que espera uma oportunidade nunca vinda.

O Dr. Nader Alemi durante os anos em que os Talibãs governaram o Afeganistão, atendeu milhares destes combatentes. E todos sofriam distúrbios mentais graves em decorrência das incertezas de suas vidas. Não tinham controle do que estava acontecendo com suas vidas. Na linha de frente por tantos anos, numa vigília de vida e morte, vendo gente explodir, parte permanente da violência.   

Agora as grandes nações do ocidente estão em crise econômica e social. A juventude absolutamente sem horizonte, uma incerteza contínua de cada medida do tempo. As tensões violentas estão crescendo. Só no Brasil num ano foram assassinadas mais de 50 mil pessoas, a maioria jovens e negros. E não somos um caso isolado. Somos a regra do modelo de civilização que vivemos.   


Por isso a frase do Dr. Alemi continua sendo verdade no Afeganistão, mesmo depois dos talibãs. A guerra não é a exceção, ela é a constituição do modo capitalista de reprodução na história em todo o mundo.  

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Enchendo linguiça

J. Flávio Vieira

                                               Uglino Petico era feirante do ramo de miudezas. Vivia naquela vida nômade de mascate: domingo em Matozinho, terça em Bertioga, quinta em Serrinha dos Nicodemos, sexta em Ananás Florido , sábado em Jurumenha Mirim. Chegava, em geral, numa D-20 velha, apelidada de “Jega Zonza” . Aportava, sempre,  na noite anterior , na cidade agendada,  para a organização do evento. Escolhia o estratégico ponto, que mantinha geográfica e religiosamente há mais de vinte anos, estendia a lona puída no chão e, madrugadinha, arrumava , em cima,  a troçada toda :  armadores de rede; correntes ; martelos;  cordas;  ferrolhos; dobradiças; serrotes; cabos de enxada, de foice, de machado; traves de porta e janelas; imagens de santos; meizinhas como  arnica, boldo, hortelã, bicarbonato, jurubeba; temperos que inundavam o mundo com seu cheiro : colorau, pimenta do reino, cominho, alho, louro...

                                                Cedinho já começava a vender a toda matutada e varava o dia neste ofício. Tardezinha, recolhia tudo, arrumava na velha caminhonete e partia para uma outra Vila a fim de começar tudo novamente. Vidinha cansada, atribulada, mas divertida.  Depois de tantos anos,  já conhecia todos os companheiros de ofício e terminara por criar uma fiel freguesia. A noite que antecedia à feira , onde todos os comerciantes ambulantes se reuniam para arrumar os picuaios a serem vendidos no dia seguinte, passada canseira do arruma-arruma, se transformava sempre numa festa. A zinebra corria solta, sempre havia alguém com um pé-de-bode e, como por encanto,  apareciam um violão, um triângulo , um pandeiro. Altas noites, a cumplicidade da escuridão fazia  os casados se arrumarem  e os solteiros arranjarem um cobertorzinho de orelha para varar o frio da noite. Com tantos anos de estrada, os casais se iam formando naturalmente. Uglino tinha mulher em Matozinho, mas usava, no meio do mundo, como refil, o corpo morno de Dorinha Manzape, uma vendedora de filhóis, charutos e quebra-queixos.  O colete  já durava mais de dez anos e , contava-se a boca miúda,  pelo menos os cinco últimos filhos de Dorinha contaram, certamente, com a participação especial de Petico, seja como ator principal, seja como coadjuvante.
                                               Estes rebentos de Dorinha vinham  se juntar com mais doze que Uglino produzira com D. Estelita , sua fiel companheira, recebida em pé de padre, há mais de trinta anos.  Petico , comentava-se, era uma espécie de jumento de lote e esta história vazara de fontes mais que confiáveis : das amplificadoras quengais  da Rua do Caneco Amassado. Tinha o homem  fama de touro reprodutor e, também, comentava-se  uma outra similaridade que o aproximava do jerico: portentoso nos países baixos, era gigante pela própria natureza.  Mais de uma neófita da mais tradicional das profissões já havia refugado  ante a visão  daquela arma aterradora que parecia o pau da bandeira  nas quermesses de Matozinho. Enfrentar aquela surucucu, não era empreita para amador, mas obra para profissional com curso no  Butantã.
                                               À medida que os filhos foram surgindo, um a um, Uglino notou que , com a entrada de Dorinha em campo, começou uma certa disputa entre as duas mulheres, cada qual querendo ser mais fértil que a outra. Petico tentou até fazer com que as duas utilizassem algum método anticoncepcional, mas instalada a corrida da fertilidade, notou que seria impossível entregar esta tarefa à Dorinha e Estelita. Buscou, então, o Posto de Saúde e um Programa do governo chamado de  BEMFAM. Lá, a D. Veneranda,a mais antiga enfermeira da vila,  tentou orientar o paciente. Ela  se mostrava visivelmente constrangida. Era uma das últimas virgens sacramentadas dali e acreditava que se nunca tinha traçado e cortado o baralho não devia lhe caber a função de dar as cartas. Mas que jeito ? Olhos fitos no chão, cara de acerola, indicou, cheia de dedos,   o uso da camisinha. Era método prático, tranquilo e, o melhor, ficaria completamente sob controle dele.  Informou, então,  de forma muito genérica sobre o uso da estrovenga.
                                               --- Você já viu , no mercado, o magarefe enchendo linguiça ? Pois é daquele jeito, viu ? Só não precisa  picotar a carne, né ?
                                                Petico fez-se meio renitente, por muitos motivos. Aquele papelzinho deixado em cima do caramelo, tinha tudo para tirar o gosto do bom-bom. Depois, pensou consigo: já madurão, vestir aquele negócio, bimba acima,  parecia perigoso. Aquilo era coisa para adolescente , arisco,  bastava triscar que a juriti levantava voo. Na  idade dele, botar aquela vestimenta,  poderia enganar um Bráulio já meio sonolento e o bicho, meio bambo,  poderia interpretar aquela indumentária como touca  e botar-se pra  dormir imediatamente. Mas o certo é que  Veneranda tinha poder de convencimento e conseguiu, mesmo com todos arrodeios possíveis,  derrubar  os seus temores. Iria correr tudo às mil maravilhas, logo ele se adaptaria e conseguiria, por fim, pôr os dois times em disputa , fora de jogo.  Basta de tanto crescei e multiplicai !
                                               Na semana seguinte, depois da via sacra de feiras,  Uglino volta ao Posto preocupado. Procurou D. Veneranda que, ocupada, estava aplicando algumas vacinas numa récua de meninos. Com aquela voz tonitruante de camelô de feira , ele gritou, ainda da porta , sem se incomodar com a plateia :
                                               --- Enfermeira ! A tal da camisinha não deu certo , não !
                                               D. Veneranda,  com cara de urucum, se fez de mal entendida.
                                               --- Deu , não... ? E o que aconteceu , meu senhor ? Rasgou ? Estas costureiras de hoje...
                                               Uglino, quase berrando,  relatou um sério defeito de alfaiataria :
                                               ---  Não ! Ficou foi pegando marreca !


Crato, 28/ 11/ 14

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Raimundo Cabirote - José do Vale Pinheiro Feitosa

Onde se encontra a raiz do nome Cabirote? Não se acha com facilidade. No dicionário há capirote que é uma espécie de pequeno capuz usado por meninos e donzelas. E, também, o vocábulo capiroto (ô), que é de uso informal no Nordeste para designar diabo, que se atribui seja uma variação de capirote. Mas que Cabirote seja um diabinho nas capoeiras e margens do Rio Siupé, lá isso muita gente tinha por observação.

Aquele menino que viveu solto e nu até onde as pernas alcançavam e até onde as braçadas no rio iam. No contraponto de toda vergonha conhecida, pois era justamente quando vestia um camisolão para que o menino ficasse apresentável às visitas de outros lugares, que o desejo de esconder havia. A nudez era sem timidez, mas a roupa humilhava.

Todos os seres das matas, vindos dos antecedentes mais ancestrais que por transmissão oral houvesse, faziam parte do continente e conteúdo do menino Cabirote. Raimundo Gomes de Lima, que adora um cará bem tratado, feito na água grande, um caldo quente a borbulhar, farinha na tigela e uma colher de encher a boca. E o suor pingando.

Jogo de bola no campinho da vazante do rio. Nunca se deixando intimidar pela valentia de quem quer que seja, já que valentia não é fruto de dar em árvore. Ela é como uma narrativa, acredita nela quem quiser. Cabirote não teme as madrugadas pelas ruas desertas de Fortaleza na solidão de sua bike, circunvagando o anel mais extenso da cidade.

Onde o “progresso” do Ceará ergue uma monstruosidade industrial junto ao porto do Pecém, Cabirote é um ícone a mover todos os músicos e, por isso mesmo, todos os artistas que são porque são, e não apenas porque a circunstância lhes permite. Nas ruas do Pecém, nos palcos do Siupé, na praça de São Gonçalo, nos bares de Paracuru ou sob as estrelas de um restaurante rural na localidade do Capim Açu, nas franjas afastadas de Paraipaba.

E como um Eloi Teles nas ondas da Rádio Araripe na cidade de Crato, Cabirote na Rádio Mar Azul FM (www.radiomarazul.com.br), de Paracuru, todos os domingos, a partir das 8 horas da manhã vai carregando a cultura nordestina até ao meio dia. E aí o segredo do povo: ele é tão querido na redondeza que muitos o têm como da altura de um gigante. Um ser salvador da nossa alma cultural.

Mas o segredo deste homem não está no palco. Na audiência de terceiros. Ele é uma das mais legítimas companhias das noitadas de música. E que música! A memória descomunal que este homem evoca. Em bem afinada voz, um violão tão brasileiro como as noites de boemia que são apenas nossas. Não estão nem em Paris e menos ainda nos becos de Buenos Aires. Alguma referência a Lapa de outrora, a de hoje é bela, mas é outra coisa. Mais espetaculosa.

Deixe-se ficar nas horas passadas, uma canção após outra, uma interpretação que vai ao miolo da questão. Deixe-se ficar ao som da melodia sentindo a intimidade da madrugada, a singularidade das estrelas respeitosas, das nuvens silenciosas que são vultos para não atrapalhar a singeleza do viver como se deve viver a vida.

Raimundo Cabirote. Um artista sem limites de tempo, estilo e qualificações. Um artista como bem resumiu o compositor Fausto Nilo ao ouvir o canto de uma canção dele: “mas que voz mais linda!”
  


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sai caro ao cobrador e ao pagador - José do Vale Pinheiro Feitosa

Leiam esta frase pronunciada por um jovem, de menor idade legal, a respeito do assassinato de outro jovem do qual foi partícipe: “O crime cobra caro, enquanto uns matam, outros morrem”.

Não especulo a sensação que a frase provoca em vocês. Mas sei que na televisão a edição a traduziu como a frieza de um assassino sem causa. A maldade em estado puro.

Antes de retornar à frase aqui no meu íntimo, vou levantar uma postagem feita nas redes sociais onde uma alemã, nascida na segunda guerra, estranha o avanço de neonazistas a hostilizar trabalhadores migrantes em busca de oportunidade.

E mais alguma coisa no nosso baú. Pesquisa realizada na Espanha evidencia que 6 em cada 10 jovens pretendem migrar do país em busca de melhores condições. E tudo isso termina por alargar o mal além de sua pureza, de algo subjetivo para entender a substantivada crise econômica. Ela, conforto ou desconforto de nossa consciência está na realidade que nós mesmo ajudamos a manter.

Olhem como os dois últimos parágrafos se chocam: o jovem espanhol migrante pode bem ser o hostilizado dos neonazistas alemães. Do mesmo modo que os nordestinos são dos paulistanos.

Fábio de Oliveira Ribeiro postando sobre a ânsia de vômito que sentiu a alemã ao observar os neonazistas escreveu: “Os jovens nazistas alemães e os fascistas brasileiros não aprenderam sua ideologia com os velhos nazistas e fascistas europeus....Eles não têm história e este é o verdadeiro abismo que os separam dos seus governantes. O vazio histórico destes restolhos do totalitarismo e do autoritarismo é um fato e pode se transformar numa tragédia caso esses jovens resolvam usar a violência para impor sua vontade aos alemães e brasileiros. Eles não causam temor aos seus respectivos Estados, que têm homens treinados e armados para lidar com terroristas. É óbvio, porem que devemos temer por eles, pois o mal que eles podem sofrer é bem pior do que aquele que podem causar.”  

Agora retornando à frase inicial. A natureza tende a agradar-se, evitar as pontas agudas, a evitar tempestades, maremotos e terremotos. A natureza não gosta de desperdiçar sua matéria e sua energia. Especialmente a economia não gosta do preço alto. A cobrança cara é instável e tende a baixar o preço.

Especialmente quando este preço é A prática alternada dos mesmos personagem entre o dedo no gatilho e o impacto da bala. A redenção é humana. Não é apenas moral, mesmo que esta possa servir de guia. O preço daquele exercício é incompatível com a existência do autor. E quando o autor não sobrevive, a autoria desaparece. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CATÓLICOS EM CONTRADIÇÃO - José do Vale Pinheiro Feitosa

Com a chegada da modernidade, passadas crises do capitalismo e guerras mundiais, incluindo o nascimento da Guerra Fria, a monolítica igreja católica da romanização regional vinda do século XIX, ultrapassou os limites dos novos tempos. E ao assim agir, continuou o que sempre foi: uma partição tensa que ia do mais puro e violento reacionarismo ao mais intenso revolucionário.

Nas fileiras dos que se calam nos claustros ao peso institucional, não é possível esquecer as doutrinas imanentes dos seus fundamentos religiosos (pelo menos para aqueles que a compreendem). A crucificação do “logos” não veio para provar as más escolhas humanas e nem a perversidade inerente às suas almas. Ao contrário: a mensagem era da salvação.

E nas fileiras, aquele silêncio opressivo da instituição, também eles também compreendem outra coisa. A salvação não era a vida após a morte. Ao contrário: era a superação da morte em vida. O céu nunca foi depois. O céu nunca foi apenas harmonia constitutiva. O céu é o curso de cada um sobre o solo, num barco navegando, num objeto voador, na luz plantando, fabricando e criando.

E por isso a fragmentada igreja católica, apenas tinha o papa como governador, o resto todo é de dúvidas, conclusões e adoção militante na política do mundo. Afinal tudo, bem lá no fundo, abaixo desta ordem a serviço das elites econômicas e política da instituição religiosa, é a superação da morte em vida.  

Vamos ao caso brasileiro. Alguns jovens nascidos nos “claustros” familiares católicos, tão logo se viram diante do fabuloso mundo do renascimento ocidental, do excedente industrial que excedia em muito o que sobrava das colheitas agrícolas, da racionalidade iluminista e da ciência, entraram em profunda crise.

Uma crise que, ao invés de resolverem pela dialética de seus fundamentos em choque com a modernidade, se atolaram num vazio existencial e de ordem moral insuperável em seus “arcaicos” espíritos. Tiveram “salvação” no leito arrumado às pressas por pensadores com Jacques Maritain e tantos outros.

Daí surgiram fervorosos pensadores católicos brasileiro como o indez deste ninho que foi Jackson de Figueiredo. Um sergipano magno que explica muito bem que não importa a genialidade do invólucro argumentativo, mas o conteúdo deste. E no calor dos anos em negação do liberalismo político, as partições entre fascistas, comunistas e alguns liberais inundaram o debate nacional. Esta corrente sempre namorou o fascismo por ter um ódio constitutivo ao comunismo.

Mas entenda-se que este ódio ao comunismo pouco havia de contraponto ao marxismo, ao contrário, foi sempre a ameaça moderna às estruturas familiares patriarcais herdadas dos latifúndios que há pouco tempo havia libertado os escravos negros. E sendo, então, um movimento contra a modernidade, o caminho intelectualizado da espiritualidade católica pela via Maritain, terminou por gerar dois tipos destes intelectuais.

Um é bem representado por Gustavo Corção, um pensador católico, de texto exuberante, autor de contos e romances, mas um dos mais agressivos colunistas do jornalismo brasileiro a favor da ditadura. Corção esteve na argumentação do Golpe Militar, depois apontava os comunistas (opositores) como alvo da repressão, apoiou todas as medidas repressivas e por último exaltou o endurecimento do regime com o AI 5, a tortura e morte dos opositores ao regime. Tudo no mais irracional, acusatório e com as trevas inquisitoriais.

O outro é o liberal Alceu Amoroso Lima, que também fez esta viagem entre o vazio sentido da modernidade em oposição à estrutura familiar e a intelectualidade católica justaposta ao drama pessoal de sua juventude. Portanto, com muita influência de Jackson de Figueiredo. Alceu Amoroso foi crítico da ditadura e pautou em seus textos uma sociedade mais democrática. Aliás nesta mesma linha esteve o famoso advogado Sobral Pinto.

Bem apenas para concluir sobre os fragmentos: no auge do fascismo no mundo, quando Hitler e Mussolini eram o exemplo de melhor governo, aqui no Brasil Plínio Salgado, emergiu daquele mesmo caminho citado e chegou ao seu integralismo. Muitos padres jovens entre os anos 30 e  40 formaram fileira com os integralistas, como o Padre Hélder Câmara, um dos maiores líderes da oposição à ditadura militar brasileira. Um exemplo de fundada evolução histórica.


E sempre houve, desde muito antes, os religiosos e pensadores católicos que optaram pela luta democrática, por ampliar o progresso material de toda sociedade em oposição às estruturas que atrasavam este progresso: latifúndios, concentração patrimonial, privilégios de classe, a situação degradante dos camponeses, os miseráveis das cidades etc. O máximo desta vertente foram os frades Dominicanos: Frei Betto e o Frei Tito de Alencar.  

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A JORNADA DE FHC - José do Vale Pinheiro Feitosa

Vamos à metáfora. Temos uma longa jornada. Passaremos no interior de florestas úmidas, infestadas de insetos, animais peçonhentos, predadores humanos, matagais intransponíveis (ou quase para possamos continuar). Em seguida virão desertos sedentos, abrasadores, de cansativo areal e dunas altas a ultrapassar. Andaremos sobre a neve. Beberemos em grandes lagos. Sorveremos a lama quase ressequida de poças infectas. Uma longa jornada.

Mas resistiremos. Chegaremos ao destino. Mesmo que seja apenas para o descanso eterno como gostam aqueles que apaziguam seus corações temerosos. E chegaremos ao destino porque aprendemos a viver nos vários ambientes. Teremos conhecimento para formular normas, regras, éticas, solidariedade entre todos. Assim nós atravessaremos e quem sabe até nos fixaremos em alguns destes ambientes. Afinal tudo parece uma passagem.

Mas nada é de passagem. Tudo carrega uma sensação de plenitude que uma vez exposta ao avançar cronológico, se traduz como eternidade. Mesmo quando distante destes ambientes habitados, nascidos, gerados, eles, pelas partículas da anti-cronometria, se alojam na memória como uma loja viva do continuo.

Por isso sempre temos duas mãos a ponderar o conjunto da jornada. Numa a coerência com a realidade e o outro ser humano e noutra a revisão do conhecimento porque a realidade se transforma. Portanto, sendo coerência e revisão ao mesmo tempo, avança sobre a mudança preservando o corpo que se move nesta jornada. Isso é válido desde a metodologia do conhecimento como passo inicial até o passo mais geral que é a política.

Não se pode ter a pessoa como exclusivo alvo crítico de grandes deformações. Isso é perder substância crítica. As grandes questões são coletivas, são ideias, são comportamentos, preconceitos, manipulações, artimanhas, enganações e outras tantas de igual sentido. Por mais que admire alguém num intervalo, se ele se apega a tais práticas merece a reparação crítica por representar a soberba de querer da jornada apenas a melhor parte.

Igual a Fernando Henrique Cardoso que, Presidente da República, chamou os pobres aposentados da Previdência Social de vagabundos. E hoje, numa insanidade argumentativa foi capaz de responder ao seu avantajado salário de aposentado com a seguinte argumentação:

Todo mundo reclama de salário, que é baixo. Acho o meu razoável. Comparado com o que se ganha no setor privado, aí significa muito, porque a aposentadoria do INSS é muito baixa. Não é a USP que é alta, o outro que é baixo”.  


FHC tem a aposentadoria de R$ 22.151,00. 

domingo, 23 de novembro de 2014

ANDANDO PELAS RUAS E O NOVO MINISTÉRIO DE DILMA ROUSSEF - José do Vale Pinheiro Feitosa

Andando pelas ruas. Desta imensa teia humana. Idosos cambaleantes pelas irregulares e estreitas calçadas. Crianças sonolentas com a marcada mochila às costas. Uma jovem, de cabelos louríssimos (naturais ou artificiais), masca, nervosamente, a borracha do chiclete, epilepticamente com o dedo indicador sobre a tela touch do palmtop.

O chiclete e a tela somam a alienação do mundo que imediatamente a cerca. À frente um jovem adulto, em roupa social, lentamente vai ao compromisso de trabalho, passos do preguiçoso despertar, cabelos rarefeitos no topo da cabeça, anda com a mão esquerda enfiada no bolso da calça e o outro braço fazendo o movimento auxiliar do caminhar.

A teia humana não é apenas um espaço urbano. É a trama do organizar-se para ser no mundo. É o papel carbono que primeiro gera uma cópia, se multiplica como mimeógrafo, uma gráfica, uma xerox e a viralização das redes sociais. Como outro jovem, de abundante cabeleira, tão plena que a repartição do penteado não fica ao lado, mas bem para o centro da cabeça. Anda acelerado, em roupa social, com a mão esquerda enfiada no bolso da calça e outro braço fazendo o movimento auxiliar do caminhar.   

E pronto! A agricultura nacional foi entregue à Kátia Abreu. Deu um nó no MST, nos eleitores de Aécio e em todos os admiradores ufanistas do nosso agrobusiness. Sonham com a morte cruel da agricultura familiar e com o incêndio de todos os acampamentos do MST. Os fabulosos latifúndios produtores de commodities terão seus interesses garantidos. Não igualmente à era escravagista da cana, tabaco e café, mas algo parecido, muito parecido.

Não agora. Na próxima semana. A equipe econômica anunciada. O capitalismo estará salvo. Personagens comensais da elite do dinheiro estarão sobre o comando da fazenda nacional, do planejamento estratégico e do banco central. Todos os lobbies para fazer “a” ou “b” agora se calam e se sujeitarão às forças “indicadoras” dos seus prepostos. Acrescente-se um Ministério da Saúde que se estreitará ainda mais com o “mercado” do Planos Privados de Saúde, uma educação superior com o PROUNI, saídas para fundir-se na mesma lógica fiscal o público e o privado.

E temos o escândalo da Petrobrás que vai mexer em dóis ícones da sociedade nacional: a mídia e as empreiteiras. A sequência de escândalos é o atendimento de reinvindicações estrangeiras para que o mercado se abra para empresas destes setores. Com todo mundo sendo pego no flagrante da mamata no Tesouro agora é que os “interesses nacionais” receberão de fato a concorrência internacional. Aliás a TV a Cabo já está dando conta do recado. O inglês domina os programas infantis. Até personagens com o nome de ROSE são escandidos num forçado sotaque.

 Assim o PT afinal chega aos termos da modernidade capitalista. Real. Tendo que atender à demanda de uma sociedade cada vez mais sofisticada. Com expectativas mais elevadas. Seguindo o modelo de outras sociedades que já chegaram por lá. E agora vamos gozar as benesses do tempo prometido e jamais cumprido, que é viver plenamente os sabores de um capitalismo avançado.

E avançado de tal maneira que logo mostrará o contraditório de seu espírito animal. Da busca incessante pelo lucro e acumulação. Onde os direitos trabalhistas estarão sob ataque. Pela terra feita de uma realidade afinal pronta e acabada, onde ilusões não serão mais cabíveis, onde o futuro não estará lá para nos entreter. Estaremos todos vivendo às margens do “Muro de Berlim” aquele que separa com pedras e armas a divisão entre pobres e ricos.

A realidade do capitalismo, afinal pronta, é a senha teórica da luta política pela superação do muro, para a luta pelo socialismo. E pensar que tanta gente, achava que votar na Dilma e não em Aécio, também era uma aposta do avançar, ao invés dos acordões da velha sociedade brasileira. Acontece que o reacionário brasileiro sempre teve esta característica anticapitalista. Armínio Fraga, que Aécio embandeirou, não passa da velha elite privilegiada, que precisa aplicar seus capitais em rentáveis negócios, anticapitalismo financista.  

Afluentes e efluentes do grande e estagnado lago do latifúndio, do emprego estatal, do clero patrimonialista, das forças armadas, da exploração infinita dos pobres e de uma tradição fortemente atrelada à memória escravagista, os reacionários têm horror à evolução capitalista. Isso não é contraditório, nem apenas brasileiro, toda a América Latina, setores atrasados nos grandes centros capitalistas, na África e na Ásia. É a luta entre o século XIX e o século XXI. Aliás certas bandeiras e argumentos são tão arcaicos que lembram a idade média com sua monocracia coroada.

E ao falar de anacronismo, não se tenha por certo uma ação política absolutamente irracional. Este reacionarismo brasileiro sabe pegar as mais avançadas bandeiras do capitalismo para consolidar a grossa capa oxidada de sua realidade. O liberalismo é uma teoria capitalista da primeira ordem. Uma dinâmica em que tudo seria virtuoso (sabemos que não) no mais avançado que se pensou para esta. No entanto, o neoliberalismo é mais anticapitalista das práticas reacionárias. Com ela os privilégios se tornam inamovíveis. Eternidade é o desejo de toda doutrina em processo de mortalidade.

Vejam agora as bandeiras neofacistas pelas ruas das capitais. Agora o neoliberalismo brasileiro, “aeciano”, “fernandohenriquiano”, do além, muito além de tenebrosas negociações, não pode mais se travestir de luta capitalista. Não precisa o PT, o PSB e tantos tributários mais, já o fazem com mais vigor e mais senso de oportunidade. Resta agora, a “face negra” deste neoliberalismo adotando a bandeira do privilégio de classe com as capas das revistas Veja e “outras mumunhas mais”, do mais atrasado que o atraso paulista já conseguiu formular em matéria de pensamento.

Por isso tudo, Dilma e o PT prometem o capitalismo pleno. É a vez dele. Com suas virtuosidades inclusivas até os limites impostos pela acumulação. E como esta acumulação que cria o “Muro de Berlim”, já está em curso, agora é o início da formulação de suas contradições e superação de suas incapacidades. A grande materialidade da luta pela solidariedade humana, pela racionalidade evolutiva, pelo progresso redistributivo, pelo socialismo. 


  

Você é Linda! - José do Vale Pinheiro Feitosa



Em qual hélice do meu cromossoma, teu hálito se alojou feito um vírus? Que se reproduz a cada vez que os dias nascem como o novo.

Pergunto por que o dourado nascente é a cor que diz eternidade até sangrar de saudade de ti, no entardecer deste eterno renovar-se. E, serenamente, sentindo a brisa de Paracuru, com as notas das marés, chamando pelo brilho das primeiras estrelas.

Você é linda. Não por apenas ser este raio do amanhecer. É por todas as constelações desta infinidade que supera o design do meu consumo conspícuo. É linda além de muito bela. Além dos limites. Amada.

E se os olhos não constam, teus odores amanhecem o prazer. Os ouvidos despertam com os sentidos de te escutar. As pontas dos dedos incendeiam tramas infinitas ao toque de tua pele.  

E nas praias desertas. Plenas de toda a universalidade, a paralaxe zero entre o sol e o teu corpo. Tudo é equilíbrio, harmonia, unidade na identidade inseparável deste momento em que sou, apenas, a parte observadora.

Tudo é tão claro. Tão limpo. Tão dourado infiltrado de azul. De nuvens garças, que flutuam como acréscimos de uma inspiração agradável, de todo o conteúdo das estrelas, dos céus, do mar e da terra.


Suavemente. Lentamente. Como se nunca houvesse termo. Fim. Saudade.