TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Caleidoscópio 70: Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais celebram um tempo que não quer ser esquecido
Foto: Kathylene Furtado
Texto: Carlos Rafael Dias
A estreia do show Caleidoscópio 70, ocorrida no início deste mês fevereiro, durante o VI Festival de Música Cordas Ágio, em Crato, suscitou algumas ponderações, das quais eu julgo importante comentar duas delas.
Em primeiro, a realização de um espetáculo carregado de forte simbolismo e protagonizado por um artista igualmente emblemático, poderia ser interpretada como um sinal de coroamento de uma longa e profícua trajetória artística. Mas não o é. Luiz Carlos Salatiel, esse ‘tal artista’, está prestes a completar 50 anos de vida artística, cuja marca principal é a obsessiva capacidade de surpreender, nunca aceitando a busca de uma carreira consolidada pelos cifrões do sucesso ou pelas críticas favoráveis veiculadas na imprensa. Essa trajetória, que já surpreende pela longevidade, alcança ainda maior expressividade se atentarmos para o fato dela acontecer praticamente em solo nativo, distante dos centros detentores e monopolizadores dos holofotes midiáticos tidos como necessários para a consagração de uma carreira artística. A segunda reflexão é sobre o conteúdo do espetáculo, ou seja, o repertório praticamente garimpado na parceria que Salatiel manteve com Geraldo Urano, um dos mais importantes e reconhecidos poetas nascidos no Cariri.
Metaforicamente, a aproximação de Salatiel com Urano nasceu de uma colisão cósmica entre dois astros que irradiam luz própria, destinada a provocar alguns cataclismos de efeitos invertidos nessa nossa terra-mãe. Ambos nasceram praticamente sob o mesmo céu astrológico, no ano da graça de 1953, influenciados talvez pela sincronicidade histórico-cultural que prenunciava a ocorrência de um iminente turbilhão universal. O rock’n’roll dava seus primeiros acordes e os poetas da geração beat desafinavam “o coro dos contentes”, aplainando o terreno para o encontro físico dos dois, que viria a ocorrer no início da década de setenta, no seio do Movimento de Juventude do Crato - MOJUCRA, braço ativo da Pastoral de Juventude da Igreja Católica. Este era o espaço possível de participação para uma geração sufocada pelo establishment perverso que vigorava na época, tendo à frente o aparelho repressivo do regime militar instaurado pelo golpe de 1964. Foi sob essas condições que Salatiel e Urano idealizaram o Festival da Canção do Cariri, realizado em Crato de 1971 até 1978, quando surgiu toda uma geração de músicos compositores regionais, como Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Luiz Fidélis, José Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru e poetas como Rosemberg Cariry e José Flávio Vieira, dentre outros. Concomitantemente, iniciou-se também a parceria musical da dupla, gestada no ‘útero eletroacústico’ da banda Cactus, vencedora daquele primeiro festival. Por isso, segundo Salatiel, “o show poderia ter sido feito nos anos setenta. Se não foi possível lá é porque era para ser feito agora com a mesma irreverência, timbres e cores caleidoscópicas daqueles loucos e apaixonantes anos”.
A parceria entre Salatiel e Urano, além de profícua, foi longa, pois durou enquanto o poeta viveu e a amizade fraternal entre os dois permaneceu. Por isso, ela trata de um leque de temas sintomáticos de uma época marcada por extremos paradoxos; uma época que pode ser resumida na frase que o violinista Yehudi Menuhin disse para descrever o século XX como um todo, “[um tempo] que despertou as maiores esperanças já concebidas pela humanidade e destruiu todas as ilusões e ideais”.
As esperanças despertadas, notadamente entre os anos sessenta e oitenta do século XX, podem ser traduzidas pelas radicais transformações impulsionadas pela revolução contracultural protagonizada pela juventude, acenando para a possibilidade de a humanidade ser redimida dos males que lhe são intrínsecos, sob a marcha iniludível da própria civilização que se construía. As desilusões, no entanto, também triunfaram sob o tropel dessa mesma civilização que se mostra temerosa das radicalizações inerentes às transformações sociais imprescindíveis ou inexoráveis. Essa gangorra existencial, que para muitos, em ambos os lados das trincheiras, encarnam a maniqueísta luta do bem contra o mal, marcou com profundidade a produção cultural daquele período e, por isso, permeia as composições assinadas pela dupla caririense.
Salatiel e Urano cantam a dor e o contentamento de terem vivido esses duros, urgentes e delicados tempos. E o fizeram com base na arte, ao mesmo tempo, engajada e diletante, mas sempre provocadora de catarse. Tal como o filósofo Nietzsche fez, elegeram a música e seus significados para a afirmação da vida: amor, liberdade, fatalismo e morte. Daí o tom de tragédia e celebração que o espetáculo Caledoscópio70 carrega na sua concepção e interpretação. Em outras palavras, o verso uraniano: seja feliz mastigando o seu chiclete.
Canções de amor e resistência – O repertório do espetáculo, como se disse, reflete notadamente os sonhos e os pesadelos vividos em terras sob o Trópico do Equador: Brasil profundo, anos de chumbo, caleidoscópio setenta, ‘profundezas que cintilam constelações’. São canções de amor e resistência cantadas, gritadas e sussurradas sob/sobre uma muralha sonora construída, tijolo a tijolo, pela competente banda Los Fractais, integrada por Vinícius Saravá (teclados), Stênio Alves (Guitarra), Thiago Leonel (contrabaixo) e Remy Oliveira (bateria). A propósito, a relação entre Salatiel e a ‘garotada’ da banda é de puro mutualismo: eles se retroalimentam de experiência, sabedoria e energia. Assim, a pegada roqueira dos jovens músicos, com direito a citação de Voodo Child (Jimi Hendrix Experience) não encobre o ecletismo das influências por todos sofrido, vide igualmente as citações de O Guarani (Carlos Gomes) e de repentes de violeiros de feira -, que, ao lado do domínio de palco de Salatiel, fortemente influenciado pelo teatro de Antonin Artaud, são exemplos de virtuosismo e sacação para reafirmar o universalismo que sempre foi a marca da parceria desses que são considerados os glimmer twins caririenses.
Contradizendo um verso de uma das mais representativas canções do repertório – nada de novo pelos corações modernos -, o espetáculo Caleidoscópio 70, é uma prova de que, sim, há novidades no front da cultura brasileira. Novidades inteligentes e de qualidade e que podem nos abstrair um pouco do lixo que assola o nosso pobre e ao mesmo tempo multimilionário showbiz. Em meio à profusão de ‘vittars’ e ‘anittas’ da vida, Caleidoscópio 70 pode funcionar como uma ‘vittamina’ (oh, infame trocadilho!) para a mente e o espírito, olhos e ouvidos dos deserdados amantes da boa música. Nunca os versos cáusticos e ferinos, mas às vezes docemente românticos de Geraldo Urano, e a performance desabusada e instigante de Salatiel, emoldurados pelo som encorpadamente psicodélico dos Los Fractais, são tão indispensáveis como agora.
Contatos para show
Facebook: www.facebook.com/ocaleidoscopio70/
E-mail: ocaleidoscopio70@gmail.com
Telefone: (88) 9 9806-4693
Produtor executivo: Edmilson Alves
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Longa vida, ágeis mãos...
“Eu sou uma parte de tudo, tal
como a hora é uma parte do dia.”
Epicteto
Nestes
dias comemoramos uma história de vida que, simplesmente, quebra a
inexorabilidade desta regra. O percurso de um desses raros visionários que cedo
entendeu : diante de uma tragédia social reiterada, planejada meticulosamente ,
sempre era possível fazer a nossa parte, mesmo ante as crônicas cegueira e
surdo-mudez dos governos instituídos. O Padre Ágio Moreira escolheu o trabalho
social como intensificador de sua existência. Intuitivamente, despertou para as
forças libertadora e transgressora da Arte e foi assim que, há 50 anos, fundou
a SOLIBEL -- Sociedade Lírica do Belmonte -- aqui em Crato. Inserida numa
comunidade periférica e rural, de pequenos e pobres camponeses, a Música ,
simplesmente, mudou destinos, transformou mentes e corações, imantou gerações
com novos valores e novos encantos, abrindo horizontes e perspectivas. É que a
Arte tem esse poder único de conectar espíritos e de inseri-los como peça única
e insubstituível da grande colcha de
retalhos universal. E imaginar que a música erudita, tida sempre como de elite
e inalcançável aos mais humildes, seria
capaz de enfeitiçá-los e enebriá-los ! Emociona-nos ver, hoje, a nobreza aplaudindo os humildes camponeses
que provam que é possível manejar tão bem a enxada e a foice como o violino e o
violoncelo ! Parece claro que todas as nossas diferenças são uma questão inerente ao acesso e à
oportunidade.
Quebrando
todas as normas, o brilho do nosso sacerdote o fez longevo, fazendo com que sua
missão ultrapassasse uma centúria e, ao contrário do que seu nome pareceria
indicar, não recebeu lucros da sua messe e do seu trabalho hercúleo nunca
auferiu nenhum ágio.
São
estas pequenas e individuais ações que movem as catracas do mundo. A evolução
da humanidade sempre dependeu de visionários que conseguem enxergar para além dos
muros do seu pomar. Melhorar um pouquinho o colorido do meu retalho faz com que
toda a colcha fique mais bela e mais fulgurante. Que país construiríamos, se a caridade fosse substituída pela justiça
social e se os governos instituídos gozassem da mesma força e sensibilidade do
nosso Padre Ágio Moreira ?! A SOLIBEL ,
apesar de todas as desesperanças e percalços dos últimos tempos , ensina-nos
todo dia a música e a coreografia de novos tempos que se prenunciam.
Crato, 02/02/18
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
COISA COM COISA.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
12:33
Dia destes estive conversando com uma criança, atividade de que gosto muito. É um menino inteligente e muito perspicaz. Depois de algumas brincadeiras linguísticas, utilizando rimas, ritmo, e um pouco do imaginário infantil, no meio da conversa ele parou, pensou um pouco e disse num tom entre sério e debochado: "Ele não diz coisa com coisa!" Outro adulto que estava presente repetiu a frase como quem confirma e aprova a expressão. Fiquei triste e bastante preocupado. Um adulto pensar assim, é até natural, mas uma criança de cinco anos com sintomas dessa natureza?
Tudo bem que um gato seja um gato e um passarinho seja um passarinho... Mas com um pouco de imaginação, um gato pode querer voar e cantar como um passarinho, ou um passarinho aprender a miar e conversar com o gato. Como diria um amigo meu, o mundo das fábulas é fabuloso!
Enquanto poeta, transito livremente entre o estreito universo da razão e as infinitas possibilidades da transcendência. Afinal, poesia é transcendência.
Uma criança de tão pouca idade, olha e vê o mundo com espanto, onde tudo é novidade. Um caramujo no jardim, uma borboleta sobre a flor, uma fileira de formigas... Tudo isso é ao mesmo tempo real e fantástico. Partes de um mundo a descobrir e reinventar. A lógica binária dos computadores não chega nem a arranhar o verniz destas realidades tão profundas e, por isso mesmo tão simples, quando tenta explicá-las.
Sou irmão umbilical das metáforas, das metonímias, enfim da metalinguagem. Assim, acredito e tenho fé, que a Verdade - com "v" maiúsculo e a Beleza -idem- só podem ser alcançadas por esta via. Entenda-se como metalinguagem todas as formas de linguagem que transcendam aos estreitos limites racionais, incluindo as não verbais.
Não que eu despreze a Razão e o conhecimento que dela decorre. Afinal toda esta conversa (para muitos, chata) está firmada em argumentos plenamente razoáveis. Prefiro considerar que a razão e suas ferramentas sejam como pedras num caminho pantanoso, onde devamos pisar com segurança para dar um próximo passo. E ainda que nos arrisquemos pisando no desconhecido, as pedras da razão devem ser nossas referências, nosso porto seguro entre um e outro movimento.
Vejam que não posso abrir mão da metáfora, mesmo pra pensar a razão. Então vamos imaginar que a casca do ovo, em sua pequena espessura, contenha o universo racional. Toda a razão e todo o conhecimento racional ali estão contidos. Com este conhecimento é possível abarcar todas as realidades racionais. Tudo que existe no universo racional, contido na espessura da casca de um ovo.
Admito que isso seja suficiente, para a maioria das pessoas. Acontece que no interior desta casca imaginária, no interior deste ovo-metáfora, existe mais um universo de fenômenos e possibilidades, totalmente desconhecido e inatingível pelas ferramentas do mundo racional. E como não bastasse, existe ainda o exterior deste ovo imaginário, que não compreende nem sua casca (o mundo racional) nem o seu interior.
Ao descobrir-formular este pensamento tenho um susto imenso, quase um surto, e percebo que a Verdade e a Beleza são muito maiores e mais plurais do que poderiam supor nossos parcos recursos racionais.
Penso com Leonardo (Boff) que a transcendência seja uma das necessidades humanas; assim como o alimento, o abrigo, a procriação; e se não fosse esta necessidade de transcender nossa condição humana, de buscarmos o além-de-Nietzsche, não teríamos supra-humanos como Leonardo (o Da Vinci); a Terra teria a forma de uma bolacha e seria o centro do universo; o espaço seria plano e Einstein e Deus estariam errados, e...
Sinto muito pelos meninos inteligentes que são forçados a dizer coisa com coisa. Sinto por eles e por toda a humanidade.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
12:33
Dia destes estive conversando com uma criança, atividade de que gosto muito. É um menino inteligente e muito perspicaz. Depois de algumas brincadeiras linguísticas, utilizando rimas, ritmo, e um pouco do imaginário infantil, no meio da conversa ele parou, pensou um pouco e disse num tom entre sério e debochado: "Ele não diz coisa com coisa!" Outro adulto que estava presente repetiu a frase como quem confirma e aprova a expressão. Fiquei triste e bastante preocupado. Um adulto pensar assim, é até natural, mas uma criança de cinco anos com sintomas dessa natureza?
Tudo bem que um gato seja um gato e um passarinho seja um passarinho... Mas com um pouco de imaginação, um gato pode querer voar e cantar como um passarinho, ou um passarinho aprender a miar e conversar com o gato. Como diria um amigo meu, o mundo das fábulas é fabuloso!
Enquanto poeta, transito livremente entre o estreito universo da razão e as infinitas possibilidades da transcendência. Afinal, poesia é transcendência.
Uma criança de tão pouca idade, olha e vê o mundo com espanto, onde tudo é novidade. Um caramujo no jardim, uma borboleta sobre a flor, uma fileira de formigas... Tudo isso é ao mesmo tempo real e fantástico. Partes de um mundo a descobrir e reinventar. A lógica binária dos computadores não chega nem a arranhar o verniz destas realidades tão profundas e, por isso mesmo tão simples, quando tenta explicá-las.
Sou irmão umbilical das metáforas, das metonímias, enfim da metalinguagem. Assim, acredito e tenho fé, que a Verdade - com "v" maiúsculo e a Beleza -idem- só podem ser alcançadas por esta via. Entenda-se como metalinguagem todas as formas de linguagem que transcendam aos estreitos limites racionais, incluindo as não verbais.
Não que eu despreze a Razão e o conhecimento que dela decorre. Afinal toda esta conversa (para muitos, chata) está firmada em argumentos plenamente razoáveis. Prefiro considerar que a razão e suas ferramentas sejam como pedras num caminho pantanoso, onde devamos pisar com segurança para dar um próximo passo. E ainda que nos arrisquemos pisando no desconhecido, as pedras da razão devem ser nossas referências, nosso porto seguro entre um e outro movimento.
Vejam que não posso abrir mão da metáfora, mesmo pra pensar a razão. Então vamos imaginar que a casca do ovo, em sua pequena espessura, contenha o universo racional. Toda a razão e todo o conhecimento racional ali estão contidos. Com este conhecimento é possível abarcar todas as realidades racionais. Tudo que existe no universo racional, contido na espessura da casca de um ovo.
Admito que isso seja suficiente, para a maioria das pessoas. Acontece que no interior desta casca imaginária, no interior deste ovo-metáfora, existe mais um universo de fenômenos e possibilidades, totalmente desconhecido e inatingível pelas ferramentas do mundo racional. E como não bastasse, existe ainda o exterior deste ovo imaginário, que não compreende nem sua casca (o mundo racional) nem o seu interior.
Ao descobrir-formular este pensamento tenho um susto imenso, quase um surto, e percebo que a Verdade e a Beleza são muito maiores e mais plurais do que poderiam supor nossos parcos recursos racionais.
Penso com Leonardo (Boff) que a transcendência seja uma das necessidades humanas; assim como o alimento, o abrigo, a procriação; e se não fosse esta necessidade de transcender nossa condição humana, de buscarmos o além-de-Nietzsche, não teríamos supra-humanos como Leonardo (o Da Vinci); a Terra teria a forma de uma bolacha e seria o centro do universo; o espaço seria plano e Einstein e Deus estariam errados, e...
Sinto muito pelos meninos inteligentes que são forçados a dizer coisa com coisa. Sinto por eles e por toda a humanidade.
João Nicodemos .
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Acordado: show de Luciano Brayner no VI Festival de Música Cordas Ágio
Show que promete animação com reflexão
Será do músico Luciano Brayner o privilégio de abrir uma série de expressivos e aguardados shows que acontecerão no Espaço Padre ágio, na da Vila da Música, bairro do Belmonte, em Crato, durante o VI Festival de Música Cordas Ágio. O show de Brayner, intitulado “Acordado”, será nesta quinta-feira, dia 1º de fevereiro, as 22 horas. Gratuito e imperdível.
Luciano Brayner, cantor, compositor e instrumentista pernambucano radicado no Cariri, apresenta um trabalho que estabelece um rico diálogo entre a musicalidade nordestina com suas tradições e outras vertentes presentes na música popular brasileira. O resultado se traduz numa música eclética, marcada por influências de vários gêneros e estilos. Com forte presença de palco e com uma voz com grandes recursos expressivos, Brayner nos oferece um repertório autoral de muita originalidade em interpretações de grande vigor e apuro estético. Samba, cabaçal, ijexá, bossa nova, baião e maracatu são alguns dos muitos gêneros que se harmonizam na expressão musical desse artista, cujo trabalho demonstra, cada vez mais, a qualidade e a diversidade da música popular independente produzida no Cariri e no Nordeste atualmente.
Acordado, afiado e aceso – No show, Brayner se expressará com toda a sua versatilidade - além de cantar e tocar violão, flauta, sax e pífano, assina todos os arranjos - e será acompanhado de uma banda formada por alguns dos mais talentosos músicos da região. O repertório é composto por canções inéditas em conjunto com outras já conhecidas, presentes em seu primeiro disco, Casa de Badzé, com novos arranjos elaborados especialmente para o Festival Cordas Ágio, valorizando a presença e as sonoridades de cordas friccionadas.
Num dos momentos que promete ser um dos mais marcantes da noite, Brayner interpretará a canção Bárbaras palavras acesas, composta em homenagem ao poeta cratense Geraldo Urano, um dos maiores ícones das vanguardas artísticas no Cariri, falecido em fevereiro de 2017. Outro momento de destaque e que constitui uma oportunidade de reflexão política dentro do show, é o samba inédito Ai loviú Rintintin, onde de forma bem-humorada e crítica o artista comenta aspectos da atual situação política instaurada no país. Passeando por repertórios alheios, Brayner fará uma releitura tanguística da canção Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que dialoga em seguida com o belo e lírico tango de Astor Piazzolla, Vuelvo a Sur.
Ao final, como de costume, com seu pífano afiado e acompanhado apenas por percussão, de forma totalmente acústica, encerra o show em grande estilo, em clima de terreirada, no meio da plateia, numa evocação que celebra a cultura musical do pífano e das bandas cabaçais, inspiração e influência bastante presente na sua trajetória artística e marca maior da sonoridade tradicional do Cariri.
SERVIÇO
Show Acordado, com Luciano Brayner e banda
Local: Espaço Padre Ágio, em frente à Vila da Música, distrito do Belmonte, Crato
Data: 1º de fevereiro (quinta-feira), as 22 horas
Livre e gratuito.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
Caleidoscópio70: show celebra parceria musical entre Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano
Luiz Carlos Salatiel & Geraldo Urano: os glimmer twins caririenses
(Foto: Pachelly Jamacaru)
(Foto: Pachelly Jamacaru)
Carlos Rafael Dias
Estreia neste sábado, 3 de fevereiro, no Festival Cordas Ágio, em Crato, o show Caleidoscópio70, que traz o cantor e compositor cratense Luiz Carlos Salatiel à frente da banda Los Fractais. Porém, o detalhe de que o show é totalmente composto de composições de Salatiel em parceria com o poeta Geraldo Urano torna o evento muito maior do que um mero espetáculo de entretenimento artístico. Será a celebração de uma profícua e genial parceria interrompida definitivamente há exato um ano, com o falecimento de Geraldo Urano, após uma longa e dolorosa doença psíquica adquirida em meados dos anos 80, época de maior produtividade da dupla. No entanto, desde a década anterior – os caleidoscópios anos 70 que inspiraram o título do show – que a dupla mantinha uma amizade fraternal e artística, responsável por momentos que engrandeceram a cena cultural caririense. Só que o encontro dos dois parece ter ocorrido bem antes. Na verdade, metaforicamente, essa aproximação nasceu de uma colisão cósmica entre dois astros que irradiam luz própria, destinada a provocar alguns cataclismos de efeitos invertidos na nossa terra-mãe.
Ambos nasceram praticamente sob o mesmo céu astrológico, no ano da graça de 1953, influenciados talvez pela sincronicidade histórico-cultural que prenunciava a ocorrência de um iminente turbilhão universal. O rock’n’roll dava seus primeiros acordes e os poetas da geração beat desafinavam “o coro dos contentes”. Mas o encontro fisico entre os dois só se deu mesmo no início dos anos 1970, na cidade do Crato, na emblemática região do Cariri cearense, no seio do antigo Movimento de Juventude do Crato - MOJUCRA, braço ativo da pastoral de Juventude da Diocese do Crato, espaço possível de participação para uma geração sufocada pelo establishment perverso que vigorava na época, tendo à frente o aparelho estatal repressivo instaurado pelo golpe militar de 1964, apoiado localmente pela tradição católico-provincial.
Anos setenta - Como informa o press-release do espetáculo, Salatiel e Urano, como membros do MOJUCRA, foram os responsáveis pela idealização dos inesquecíveis festivais da canção realizados no Crato entre os anos de 1971 e 1978, quando surgiu toda uma geração de compositores, como Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Luiz Fidélis, José Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru e poetas como Rosemberg Cariry e José Flávio Vieira, dentre outros. A parceria Salatiel e Urano iniciou-se por essa época, gestada no ‘útero eletroacústico’ da banda Cactus, integrada, além da dupla, pelos irmãos Alberto (Louro) e Abidoral Jamacaru e mais Hobert e Xico Carlos, que depois seria o baterista do Papa Poluição, banda de pop-rock formada, em meados dos anos 1970, por músicos cearenses radicados em São Paulo. Por isso que, segundo Salatiel, “o show poderia ter sido feito nos anos setenta. Se não foi possível lá é porque era para ser feito agora com a mesma irreverência, timbres e cores caleidoscópicas daqueles loucos e apaixonantes anos”.
A trajetória desta parceria foi em parte interrompida ou limitada por conta de problemas de saúde que começaram a atormentar o poeta a partir de 1987 e que o acompanharam até sua morte, em fevereiro de 2017. Portanto, o seu sofrimento foi longo, se agudizando com o passar do tempo. Em todo esse período, Salatiel foi um amigo constante, visitando-o periodicamente, buscando estimulá-lo a continuar a escrever, coisa que Urano infelizmente parou de fazer nos últimos anos de vida.
Este show traz, pois, um recorte da produção musical realizada por dois parceiros que se irmanaram como almas gêmeas moldadas pela arte que se engaja na busca da vida em toda sua plenitude, com a intenção, também, de consagrar e perenizar a obra dos dois: a genialidade poética de Urano e a musicalidade performática de Salatiel que, no palco, sempre foi um dos grandes intérpretes do Cariri.
Um show para ver, ouvir, sentir e viver, deslocando-se para uma época onde o lema era simplesmente ‘paz e amor’, tudo o que hoje estamos cada vez mais precisando.
SERVIÇO
Estreia do show Caledoscópio70, com Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais - Vinícius Saravá (teclados); Stênio Alves (Guitarra); Thiago Leonel (contrabaixo) e Remy Oliveira (bateria)
Data: 3 de fevereiro de 2018, as 22 horas
Local: Espaço Padre Ágio, Vila da Música, Belmonte, Crato.
Livre e gratuito.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
A
PALAVRA DO PROMOTOR
“Aliás,
nesta ditosa “República de Curitiba”, de prodígios
imensuráveis, nada há que não nos espante.
Nos
lugares solitários, onde toda a vaidade humana se apaga, pendurados
nos locais de costume, encontram-se em fartura e esplendor papéis
higiênicos ilustrados com o Artigo 5º da Constituição da
moribunda República Brasileira.
O
papel assim estampado, prestimoso amigos das horas aflitas, está ali
à disposição e limpeza das intocáveis e impolutas nádegas dos
notáveis juristas desta excepcional jurisdição”.
Fuad
Faraj (Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do
Paraná).
A PALAVRA DO PROMOTOR
"ALIÁS,
NESTA DITOSA REPÚBLICA DE CURITIBA, DE PRODÍGIOS IMENSURÁVEIS,
NADA HÁ QUE NÃO NOS ESPANTE.
NOS
LUGARES SOLITÁRIOS, ONDE TODA A VAIDADE HUMANA SE APAGA, PENDURADOS
NOS LOCAIS DE COSTUME, ENCONTRAM-SE EM FARTURA E ESPLENDOR PAPÉIS
HIGIÊNICOS ILUSTRADOS COM O ARTIGO 5º DA CONSTITUIÇÃO DA
MORIBUNDA REPÚBLICA BRASILEIRA.
O
PAPEL ASSIM ESTAMPADO, PRESTIMOSO AMIGO DAS HORAS MAIS AFLITAS, ESTÁ
ALI À DISPOSIÇÃO E LIMPEZA DAS INTOCÁVEIS E IMPOLUTAS NÁDEGAS
DOS NOTÁVEIS JURISTAS DESTA EXCEPCIONAL JURISDIÇÃO".
FUAD
FARAJ (PROMOTOR DE JUSTIÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO
PARANÁ).
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
O
MINISTRO E OS DONOS DO DINHEIRO – José Nílton Mariano Saraiva
Aécio
Neves, Daniel Dantas, Roger Abdelmassih, Jacob Barata, Ike Batista,
José Riva, Anthony Garotinho, Adriana Ancelmo, Beto Richa e Benedito
Lira, dentre muitos outros (a lista seria infindável), têm alguma
coisa em comum: 01) trafegaram na ilegalidade por anos e anos e,
portanto, são comprovadamente marginais; 02) têm muito dinheiro;
03) depois de roubarem estratosféricas somas de dinheiro foram
liberados da prisão por decisão monocrática do excelentíssimo
senhor ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.
E
como na lista do Gilmar Mendes não figura um só pobre, sequer um
remediado da classe média, o que metade do mundo e a outra banda
pode pressupor é que, por caminhos que o mortal comum desconhece, o
tal ministro deve receber, sim, algo em troca. Não no Brasil, mas,
provavelmente, lá fora. O quê, fica a critério de cada um emitir
algum juízo de valor.
Fato
é que, embora já houvesse um certo ar de “desconfiômetro” da
população em razão da postura ousada do ministro, agora temos uma
outra grave denúncia pública de um juiz federal com atuação na
cidade de Campos, no Rio de Janeiro, tratando da liberação do
Anthony Garotinho por Gilmar Mendes, a saber:
“Em
um vídeo estarrecedor, o juiz Glaucenir Oliveira, que prendeu de
forma extremamente polêmica – e, para muitos juristas, ilegal –
o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, decidiu atacar
o ministro Gilmar Mendes, que determinou a libertação do político
nesta semana; na mensagem, o magistrado acusa Gilmar Mendes de ter
recebido dinheiro em troca de decisão favorável: “a mala foi
grande”, afirmou. Gilmar soltou Garotinho, apontando que não havia
qualquer elemento que justificasse a prisão preventiva; procurado
pela reportagem, o juiz Glaucenir ainda não se manifestou.” (ipsis
litteris).
Arrogante,
sarcástico e prepotente, Gilmar Mendes já humilhou advogados em
sessões do Supremo Tribunal Federal, assim como “peitou” os
colegas daquela Corte (em mais de uma oportunidade), por “ousarem”
questionar suas bravatas (lembremo-nos que em um embate duríssimo,
no recinto do STF, o ex-ministro Joaquim Barbosa o acusou de
“coronel” e de destruir o Judiciário brasileiro).
Não
esquecer, também, que nos dias atuais Gilmar Mendes funciona como
principal “conselheiro-orientador” do ilegítimo presidente, e
que, coincidentemente, sua esposa (do ministro) foi aquinhoada com
uma polpuda remuneração (fala-se em mais de R$ 30.000,00) para
funcionar como membro efetivo de um dos Conselhos da Itaipu
Binacional.
Pode
até não ter nada a ver, mas tudo isso nos faz lembrar o grande e
sempre atual Nelson Rodrigues, ao afirmar que: “Se os homens de bem
tivessem a ousadia dos canalhas, o mundo estaria salvo.”
sábado, 23 de dezembro de 2017
NOS
TEMPOS DA “BRILHANTINA” - José Nílton Mariano Saraiva
Localizada
ao oeste do estado do Rio Grande do Norte, quase que na fronteira com
o Ceará, Pau dos Ferros era (à época) uma dessas agradabilíssimas
minúsculas cidades interioranas (mudou bastante e hoje é uma
espécie de “cidade-pólo”, maior que o Crato em todos os
aspectos), em razão, principalmente, da índole receptiva do seu
povo e de um detalhe não tão comum em cidades interioranas: a
“beleza brejeira” e ao mesmo tempo esfuziante das suas mulheres,
aliada ao extremo bom gosto e requinte com que se vestiam. Até
parece que os famosos estilistas de moda, antes de lançarem suas
revolucionárias coleções em Paris, Roma ou Milão, faziam de Pau
dos Ferros uma espécie de “passarela-laboratório-experimental”
às suas criações (como luxavam aquelas jovens e belas mulheres
pau-ferrenses).
Vivenciamos
tudo isso em meados da década de 70, quando para lá nos deslocamos
a fim de cumprir adição de 90 dias no Banco do Nordeste do Brasil
S/A (BNB), então a única agência bancária da cidade; e, embora
realmente o trabalho fosse intenso (a ponto de se trabalhar de 10 a
12 horas por dia), a “diária” que se recebia compensava
plenamente, além do que havia uma espécie de “cumplicidade”
entre os que compunham a equipe beenebeana e a população da cidade.
O
dia-a-dia.
Ao
final da diária jornada de trabalho, a parada obrigatória era a
“Sorveteria do Sales” (próspero comerciante local), onde
sorvíamos uma “geladérrima”, ao tempo em que as paqueras se
sucediam, furtivas ou abertamente, num clima leve e sadio. Os
fins-de-semana, então, eram literalmente uma festa: num deles, por
exemplo, tínhamos a escolha da “miss olhos” (obviamente uma
amistosa disputa entre aquelas moçoilas adolescentes maravilhosas,
para se avaliar quem tinha os “olhos” mais bonitos); na outra
semana, a escolha do casal que melhor dançava; na outra, a escolha
daquela que melhor desfilava, e por aí vai. Era uma festa
permanente. E tudo dentro da mais pura inocência e simplicidade. O
certo é que a “coisa” era tão legal e gostosa que, não mais
que de repente, o tempo voou, os 90 dias exauriram-se e tivemos que
voltar para Fortaleza (houve uma tentativa de prorrogação da
adição, infrutífera).
Antes
da volta, entretanto, foi firmado um compromisso, uma profissão de
fé, um autêntico pacto de boêmios: sempre que houvesse uma festa
que compensasse, seríamos acionados, tempestivamente. E assim, todos
nós (mesmo os casados), que por lá passamos na condição de
“adidos” (uns seis colegas, não necessariamente no mesmo
período), findamos por voltar várias vezes.
Os
ônibus que faziam o percurso Fortaleza-Pau dos Ferros eram os
famosos “pinga-pinga” que, além de terrivelmente
desconfortáveis, eram desprovidos de banheiro. Pois foi numa dessas
viagens que o “inusitado” pintou no pedaço.
Já
saímos da rodoviária de Fortaleza um tanto quanto “melado”
(muita “birita” para – vejam só que desculpa mais esfarrapada
- poder ter coragem de enfrentar a buraqueira, já que parte da
estrada era de piçarra). Na chegada a Pau dos Ferros, seis da manhã,
os notívagos “recepcionistas” (colegas do Banco) já estavam a
nos esperar, à porta do ônibus, com um churrasquinho no ponto e
aquela cervejota “fumacenta de gelada” (é que a “agência do
ônibus” ficava estrategicamente localizada frente a um bar, que
aos finais de semana funcionava 24 horas por dia, ao som maravilhoso
de um Paulo Sérgio, Jerry Adriane, Carlos Gonzaga, Reginaldo Rossi,
Valdik Soriano e por aí vai).
Os
“trabalhos”, então, se iniciavam ali mesmo, sem nem escovar os
dentes. De lá e durante todo o dia de sábado, os encontros,
reencontros e novas amizades, na Sorveteria do Sales, na Churrascaria
do Anísio e/ou no meio da rua, com aquelas mulheres monumentais.
À
noite, após uma passada na “república” a fim de tomar um banho
caprichado, vestir a “CAMISA VOLTA AO MUNDO” e a “CALÇA DE
TERGAL”, passar uma “BRILHANTINA” no cabelo e colocar o perfume
“LANCASTER”, o objeto de desejo: a esperada festa no único clube
da cidade, que se prolongava até o sol raiar. Dali, depois do famoso
“caldo de misericórdia” servido num posto de gasolina, volta à
república pra mudar de roupa e todo mundo se mandava pra “barragem”
(na verdade, o açude que abastecia a cidade e onde existia uma
palhoça que servia “o melhor tucunaré de água doce do mundo”);
e tome “mé”. Aí, já na base do famoso “cuba-libre” –
mistura tanto saborosa como explosiva de Ron Montila e Coca-Cola.
Naquela
tarde de domingo, Rivelino, famoso jogador que houvera se destacado
no Corinthians, faria sua estreia no time do Fluminense (no
Maracanã), jogando contra o… Corinthians. E, mesmo diante de uma
televisão preto-e-branco com uma imagem pra lá de sofrível, na
sala da casa do prefeito da cidade (tricolor roxo) formamos uma
grande torcida do Fluminense (pra agradar o homem, é claro). E tome
“Ron Montila”, acompanhado de uma miscelânea de tira-gostos:
panelada, buchada, tucunaré, torresmo, churrasco, o escambau (era
comida que dava no meio da canela). O certo é que o tempo, de novo,
voou, e de repente chegou a “hora indesejada” do retorno.
E
aí a velha história repetiu-se: já chegamos na “parada do
ônibus” mais pra lá do que pra cá, “puto de raiva” por ter
que voltar no melhor da festa e lá encontramos a colega do BNB
Julieta, que fora adida e também houvera ido passar o final de
semana. Após cumprimentá-la sentamos na poltrona (???) e…
apagamos.
Lá
pras tantas (entre duas e três horas da madrugada) após uma parada
abrupta do coletivo a fim de desembarcar algumas pessoas que moravam
na zona rural ao lado da estrada, “ressuscitamos” e, pior, com
uma necessidade imperiosa e descomunal, de “descarregar”, “arriar
a massa” (lembremo-nos que o ônibus não dispunha do famoso
toilette). Falamos com o motorista e o trocador (existia um, sim,
encarregado de recolher o dinheiro das passagens) e eles sugeriram
que descêssemos o barranco e fizéssemos o “serviço”, enquanto
eles procuravam e entregavam a bagagem do pessoal rural.
E
só deu tempo mesmo de descer o barranco às pressas, arriar a
bermuda e... tome merda, muita merda, merda em profusão, em pleno
estado líquido e em “chicotadas” monumentais, brabíssimas (o
“inusitado” dera o ar de sua graça e o Ron Montila e apetitosos
tira-gostos finalmente cobravam seu preço).
Até
hoje não conseguimos lembrar é se nos deixamos absorver pelo
esplendor da belíssima lua no céu (em pleno meio da caatinga), se
dormimos de cócoras ou, simplesmente, se sentamos em cima do
produto; o certo é que, de repente, milagrosamente conseguimos
“captar” a zoada de um carro acelerando. Ao olhar, desesperado,
pra cima, rumo à estrada, divisamos o ônibus se afastando,
lentamente. Não houve tempo para raciocinar: num átimo, nos
despojamos da bermuda e da cueca, pegamos essa última e passamos de
forma apressada no traseiro, a jogamos fora, vestimos novamente a
bermuda e subimos a ribanceira feito um louco.
Contando
com a providencial solidariedade do pessoal que havia descido (umas
oito pessoas) que se puseram a “urrar” em plena duas horas da
manhã, o ônibus parou mais à frente. Resfolegando, com os bofes
saindo pela boca, suando em bicas por todos os poros, alcançamo-lo
e, evidentemente, reclamamos do motorista e cobrador; eles alegaram
que haviam “esquecido” e pediram desculpas.
Quando
sentamos na poltrona (???), uma réstia da luz da Lua que refletia
pela janela nos permitiu observar que a colega Julieta (ainda
dormindo) imediatamente virou o rosto para o outro lado. Deixamos pra
lá. Sentamos e... apagamos (de novo). Viagem que segue...
Oito
horas da manhã, rodoviária de Fortaleza, sol a pino. A muito custo
e após nos sacolejar bastante, a “dupla-sertaneja” (motorista e
cobrador), consegue finalmente nos “trazer de volta”. De mau
humor, com um terrível gosto de “cabo-de-guarda-chuva” na boca,
doido pra chegar em casa, não ligamos para a cara feia dos dois,
pegamos nossa sacola que estava na parte de cima e saímos.
E
foi aí, ao tentar nos despedir da colega Julieta, que vimos a
“merda” (literalmente) que tínhamos armado: é que ela (e demais
passageiros), não só se recusava a aceitar o nosso cumprimento,
como, também, olhava(m) fixamente para nossa mão estendida. Uma
“palhinha” de sobriedade pintou de repente e, já acometido de um
certo receio, um pressentimento estranho, um friozinho a nos
percorrer a espinha, acompanhamos o mortífero olhar da Julieta e, só
então, entendemos a dimensão da coisa: não só nossa mão, mas
partes do antebraço, coalhadas estavam de fezes, em transição do
estado líquido para o sólido. É que, na imensidão e solidão da
caatinga iluminada por aquela lua belíssima, ao passarmos a cueca
apressadamente no traseiro, ela não dera conta do recado e o
“produto” houvera vazado, em profusão, para a mão e
adjacências.
Nunca
antes havíamos passado por algo semelhante, por situação tão
constrangedora e vexatória. Na verdade, naquele momento a vontade
era de morrer, sumir, meter-se em algum buraco, desaparecer do mapa,
escafeder-se, se autotransportar para o Japão, China, um lugar
qualquer longe, bem longe dali, do outro lado do mundo. Uma tragédia.
Humilhação pra você nunca mais esquecer.
Pra
completar, quando tentamos dá um passo à frente, agora, sim,
sentimos a bermuda um tanto quanto apertada, muito presa ao corpo,
obstando estranhamente nossa locomoção; é que ela simplesmente
houvera “pregado” no traseiro, tal a quantidade de merda e a
extensão da área em que se propagara.
Resultado
??? A vergonha foi tão grande que ficamos “baratinados”,
perdemos a noção do tempo, da razão, do espaço e do ridículo, e
sequer conseguimos atinar que na Rodoviária tinha um banheiro onde
poderíamos fazer uma “meia-sola” (mini-banho) para nos livrarmos
“daquilo”.
E
assim, como nenhum taxista compreensivelmente nos aceitou como
passageiro, tivemos que fazer o razoável percurso do Bairro de
Fátima até o apartamento, no Centro da cidade, no “pé-dois”,
sol a pino, cantando amor febril e sob os olhares desdenhosos dos
transeuntes, que cortavam caminho, tratavam de passar por longe
daquele “lixo-humano” e sua estranha coreografia. É que nos
debatíamos com moscas, um exército de dezenas de moscas, a nos
perseguir insistentemente; a fedentina era tão grande, o odor à
nossa volta tão insuportável, até para a mais das insensíveis
narinas, que poderíamos e merecíamos ser cognominados como uma
“fossa ambulante”.
Quanto
à colega Julieta, passou um certo tempo amuada, cabreira, chateada,
sem querer papo nenhum, intrigada mesmo, pelo que era considerou
falta de respeito e consideração. Hoje, casada, mãe de filhos,
reside em Mossoró. Nas suas raras incursões à cidade de Fortaleza,
nas vezes em que a encontramos, nos saúda efusiva e festivamente,
embora um tanto quanto sui generis, diferente, inusual, esquisito
até: “Diga lá... seu cagão”. E haja risadas, muitas risadas.
Coisas
da vida...
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
MALUF E O VELHO PADRE
O octogenário padre brasileiro, que durante anos a fio tinha trabalhado fielmente e com afinco junto ao povo africano na difusão da palavra do Senhor, voltara debilitado ao Brasil (contraíra o vírus ébola) e, agora, doente e moribundo, internado no Hospital Geral de Brasília, é a notícia e manchete midiática da hora.
Em
estado terminal, já nos últimos suspiros ele faz um sinal à
enfermeira, que se aproxima. - Sim, senhor padre, o que deseja ? -
Eu queria ter a oportunidade de conversar com quatro proeminentes
políticos brasileiros, antes de partir, sussurrou o velho Padre,
ditando-lhe os nomes. - Acalme-se, verei o que posso fazer, respondeu
a enfermeira. De imediato, a Direção do hospital entra em contacto
com o Congresso Nacional e logo recebe a boa notícia: todos, na
condição de católicos, embora não praticantes, faziam questão de
cancelar os compromissos do dia, pois não poderiam perder a
oportunidade de visitar o velho Padre, moribundo.
A
caminho do hospital, na ampla limusine de um deles, Paulo Maluf
confidencia pra Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Agripino: -
Eu não sei porque é que o velho Padre nos quer ver, mas certamente,
dado o seu prestígio internacional e sua popularidade junto aos
pobres deste país, isso vai ajudar, e muito, a melhorar a nossa
imagem perante a Igreja e ao próprio povo, assim como repercutirá
internacionalmente, o que é sempre muito bom. Todos concordaram:
realmente, ali estava uma grande e rara oportunidade para eles
aparecerem e, tanto é verdade, que até fora enviado um comunicado
oficial urgente à imprensa, detalhando a hora e o local da visita.
Quando
ao “quarto” os “quatro” chegaram, com toda a mídia presente
(rádios, jornais, TV, Internet, etc) o velho Padre pediu-lhes para
dele se acercarem e, pousando sua mão direita sobre as mãos de
Jader Barbalho e Paulo Maluf, e a esquerda sobre as mãos de Renan
Calheiros e José Agripíno, agradeceu-lhes aquele gesto magnânimo,
caridoso e cristão.
Houve
um respeitoso silêncio, enquanto câmaras foram estrategicamente
direcionadas aos cinco, já que repórteres televisivos transmitiriam
ao vivo e a cores, em horário nobre, para todo o país, aquele grave
momento; para tanto, aproximaram seus sensíveis microfones para,
quem sabe, captar aquelas que seriam as últimas palavras daquele
santo homem, que estranhamente, apesar de muito debilitado,
apresentava-se com um ar de pureza e serenidade no semblante.
Então,
Paulo Maluf, na condição de porta-voz dos demais (fazendo pose para
as câmaras e imprimindo a devida impostação à voz),
perguntou-lhe, contrito: -Santo Padre, desculpe a curiosidade, mas
porque é que fomos nós – eu, Jáder, Renan e Agripino - os
escolhidos, entre tantas pessoas ilustres das que compõem o nosso
glorioso Congresso Nacional, para estar ao seu lado, neste momento
tão especial ?
O
velho Padre, com um sorriso angelical no rosto, serenamente afirmou:
-Meus filhos, como vocês são testemunhas, sempre, em toda a minha
vida, procurei ter como modelo e seguir à risca, o "Pai
Celestial", Nosso Senhor Jesus Cristo. -Amém, sussurraram, os
quatro, em uníssono. E aí, o velho Padre fuzilou, contundentemente:
“ENTÃO...COMO
“ÊLE” MORREU ENTRE LADRÕES, EU QUERIA PRA MIM O MESMO”.
Ato
seguinte, "bateu as botas"... sorrindo.
(Autor
desconhecido)
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
"CALDO DE BILA" - José Nilton Mariano Saraiva
Independentemente
da raça, cor, sexo, religião, ideologia, credo, preferência
clubística ou política, os milhões de adeptos de uma “geladinha”
(cerveja) ou da “marvada” (cachaça), detêm a exclusividade de
uma certeza: dia seguinte à farra homérica, quando se excedem no
consumo e acordam com aquele terrível gosto de “cabo de
guarda-chuva” na boca, nada mais apropriado pra curar a “ressaca
braba” (que às vezes dá vontade até de morrer), do que “forrar
o estômago” com um revigorante e bendito caldo (de mocotó, carne
moída ou costela de boi), no capricho e tinindo de quente, capaz
não só de matar todos os vermes que “encontrar na descida”,
como também “levantar ou por de pé até defunto”.
Mas... há que se ter cuidado com os “caldos da vida”. Sim, porque existem duas espécies de caldo: 1) o “caldo verdadeiro”, original, genuíno, que é aquele bem preparado, repleto de temperos e condimentos, capazes de lhe dar cheiro, sabor e “sustância”, e ainda operar o milagre de fazer seu usuário “renascer” das cinzas, a ponto de, sob o pretexto de “lavar o peritônio”, tirar o gosto ali mesmo com uma outra geladérrima, recomeçando a farra; e, 2) o “outro caldo”, o caldo falso, o caldo de araque, que é aquele que é só uma espécie de água morna, desprovido de temperos e condimentos, sem gosto, sem cheiro, sem poder revigorante e, enfim, sem nenhuma serventia, capaz até de “bater e voltar”, ou seja, de fazer com que o seu usuário “bote os bofes pra fora”, na hora. Esse, por suas características peculiares, findou sendo designado pelos biriteiros da vida com a alcunha de “caldo de bila” (portanto, quando você ouvir a expressão “caldo de bila”, lembre-se de que é algo fraco, inútil, sem serventia).
E a “expressão” pegou de uma maneira tal, foi tão bem assimilada por gregos e troianos, que quando queremos manifestar nosso descontentamento com algo ou alguém que não corresponde às nossas expectativas, em qualquer competição ou atividade, imediatamente professamos: é “mais fraco que caldo de bila”.
Tomemos como exemplo a Fórmula 1, um esporte por demais admirado no mundo todo e que, para nós brasileiros, num determinado momento da história, foi motivo de orgulho e respeito, quando tínhamos a nos representar nos mais diferentes autódromos dos quatro cantos do planeta os Emerson Fittipaldi, Nélson Piquet e Ayrton Senna da vida.
Afinal,
quem não lembra das manhãs de domingo em que renunciávamos à
praia, clubes, açudes, cinemas ou um outro divertimento qualquer,
só pra ficar por duas horas à frente da telinha, beliscando uma
cervejota com tira-gosto de panelada e vibrando com o “pé-pesado”
ou as ultrapassagens sensacionais dos nossos “homens voadores”,
campeões mundiais em seguidas temporadas ??? Quem não lembra dos
pegas fantásticos e espetaculares entre Fittapaldi X Jack Stuart,
Piquet X Mansel, Senna X Prost, Senna X Piquet, dentre outros ???
Foi então que o destino nos pregou aquela peça terrível, aquele momento dantesco, nos levando prematuramente o Ayrton Senna, numa calma manhã de domingo, durante uma corrida aparentemente tranquila, na Itália, após a quebra da barra de direção de seu carro, a mais de 200 quilômetros por hora.
Imediatamente a TV Globo, em razão principalmente dos milhões de dólares propiciados pela exclusividade da transmissão de cada corrida, e temendo a perda dos exuberantes patrocínios, tratou de “fabricar” da noite pro dia um substituto para o Senna. E como não havia muitas opções naquele momento, literalmente foi “decretado” pela cúpula da Globo e nos imposto goela abaixo, que um jovem piloto paulista, novato na Fórmula 1, seria o novo “ídolo” da torcida brasileira. Foi assim que tomamos conhecimento da existência de Rubens Barrichello, logo batizado pelo chefão de esportes da emissora (Galvão Bueno) de “Rubinho” (certamente que numa tentativa de torná-lo mais “palatável” ante os aficionados da categoria).
Daí pra frente todos nós sabemos a história de cór e salteado: apesar do hercúleo esforço da Globo em alavancá-lo, do generoso espaço lhe disponibilizado, de lhe arranjarem inclusive um lugar na disputadíssima e então imbatível Ferrari (à época detentora dos mais possantes e velozes carros da categoria), o que se via nas pistas era um piloto atabalhoado, lento, medroso, excessivamente burocrático, sem qualquer pegada, além de potencial e exímio “quebrador” de carros, os quais não conseguia “ajustar” nunca (quantas vezes vimos o tal “Rubinho” em desabalada carreira durante as corridas - SÓ QUE A PÉ E NA CONTRAMÃO - em busca do carro reserva ???).
Sem carisma, desprovido de simpatia, sempre com uma desculpa esfarrapada para os recorrentes fracassos nas pistas, inventor de uma comemoração pra lá de ridícula (uma tal de “sambadinha”) quando ocasionalmente ganhava alguma corrida, Barrichello aos poucos foi se eclipsando, sumindo, escafedendo-se.
Na fase crepuscular da carreira, competindo por uma equipe de nível médio (Willians), Barrichello ainda assim conseguiu a proeza de fazer com que a Globo optasse por uma estranha e incrível “inversão de valores”: é que, à falta de resultados (quase sempre ficava lá na rabeira, quando não quebrava), o locutor global tratava de potencializar o fato de “Rubinho” às vezes ficar entre os 10 que obtiveram melhor classificação nos treinos, além de insistir e persistir em nos informar ser ele o piloto que disputou mais de trezentas (300) corridas de Fórmula 1 (olvidando, no entanto e propositadamente, de nos cientificar dos pífios resultados ou da relação entre o número de vitórias obtidas e os grandes prêmios disputados).
Por essa e outras é que poderíamos associar Rubens Barrichello ao nosso famoso “caldo de bila”: não fede, não cheira, não tem gosto, não propicia qualquer serventia ou bem-estar.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
NO TEMPO
Todos os dias a Cascata do Rio Batateira, lá nas encostas da Chapada do Araripe, na parte mais alta além do Lameiro, a água era um forte jorro pareado em gotas peroladas ao sol. Perto havia uma mangueira, de farta sombra onde os boêmios secavam as ancoretas da produção dos engenhos e tinham, em conta, ser este o espaço do “cantor das multidões,” Orlando Silva.
É que mesmo tangido pelo vento do tempo, compreendo ser como a Cascata do Rio Batateira. Por vezes tenho coragem de pular em suas águas, apesar dos blocos de pedras, noutras a contemplação dissolve vontades pela invasão interior de todas as coisas circundantes: a estrada, as flores, as cercas, o canto dos pássaros, o alpendre do bar do “baião-de-dois-com-pequi”.
Ontem, já pelo final da tarde, estava novamente na Cascata, na margem do Rio Batateira, numa complexa alça de espaço e tempo, enquanto corpo na Barra da Tijuca. Abri o celular no facebook e uma “solicitação-de-amizade” (lá nos termos do aplicativo) fez pronunciar o mantra do “Om”, o som do cosmo, não o absoluto, mas aquele do movimento.
Da inseparável matriz do ser havia uma mensagem na distância. Era de Raimundo Feitosa. Um código de área, no Maranhão. Um código de tempo de cinquenta anos. Mais ainda um código de tempo por que Raimundo é um prolongamento secular, sob a forma do território dos Inhamuns, na cidade de Aiuaba e toda a ancestralidade comum. Entre nós.
Aquelas dormidas nas redes sobre a praça barulhenta porque às 4:30 horas éramos soldados e deveríamos estar acordados. Os exercícios de tiro e as pequenas prisões em grupo em face dos cochilos nas instruções ou os arroubos de quem não sabe conter o incontido.
Raimundo Feitosa era um no casarão familiar ali por volta dos anos 60, onde um coletivo de pura juventude se reunia em brincadeiras, violões, histórias e amores. Raimundo andou de cochichos e carinhos com uma das primas daquele coletivo.
Matar uma cobra com uma vara de limpar as telhas do alto casarão. Afinal quem ousaria chegar perto da peçonha que espirra nas presas afiadas feito agulhas de injeção. Raimundo, saibam todos era um homem de imensa coragem.
Capaz de se arriscar ao limite carregando com ele toda a carga do medo. Coragem não se traduz em palavrório e versos de exaltação à mesma. Ela é o exercício daquele pulo com poucos metros entre a água e a pedra.
Raimundo Feitosa lá no Maranhão, num tempo que se localiza no dezembro de 1967, tem o jorro da cascata pareado em gotas peroladas de sol.
domingo, 10 de dezembro de 2017
Vestígios da Itália em Missão Velha - Dr. Demóstenes Ribeiro
Na calçada em frente,
suavemente ensolarada naquela manhã de maio, o Coronel dirigia-se ao
barbeiro. Terno branco, chapéu e guarda-chuva fechado à mão
direita, como se fosse bengala, ele lentamente caminhava. Baixinho e
gordo, um ar feliz envolvia o semblante bonachão, realçado agora
pelo domínio do alistamento nas frentes de serviço do DNOCS. Era a
seca de 58, ele controlava o PTB local e seriam muitas as vantagens
resultantes dessa missão.
A barbearia, parada
obrigatória na cidade, local sempre descontraído e de informação.
Todos a freqüentavam, exceto monsenhor Antonio Feitosa, ao qual o
barbeiro atendia com orgulho uma vez por mês na casa paroquial.
Semanalmente, o Coronel cortava o cabelo. Hipocondríaco, exigia
esterilização prévia da tesoura e da navalha, com álcool, em
chamas. Aliás, tamanho o seu temor de doença, no cinema
sistematicamente levava o lenço ao nariz ao assistir cena de
faroeste com muita poeira, por receio de ficar resfriado.
Sem a truculência de outros
caciques, jamais se ouviu falar de violência da sua parte ou de seus
comandados. Sua força política advinha da fidelidade extrema de uma
família numerosa e de agregados, isolados em região serrana do
município, parte mais alta e amena, onde o pai e antecedentes,
imigrantes italianos, estabeleceram-se em meados do século dezenove.
As urnas da Goianinha decidiam a eleição municipal.
Ao invés do sul do Brasil,
por que esses italianos escolheram Missão Velha, confins do Ceará?
Ao que se fala, emigraram de remota região da Itália, cheios de
sonhos, fugindo de violência e miséria. Ao chegar a Recife, o
patriarca, artesão, mestre na fundição do cobre, encheu-se de
esperança ao saber dos engenhos de cana-de-açúcar no Cariri,
espaço para o seu ofício e a sua arte.
Destinados à Goianinha, pouco
a pouco, a língua, o sotaque, quase todos os hábitos e tradições
foram sufocados pela cultura local. A pobreza nordestina foi mais
forte. Diferente do sul do Brasil, a geografia e o clima pouco se
assemelhavam à velha Itália. Entre outras coisas, sumiram a
culinária mediterrânea e a tradição do vinho.
A família cresceu
miscigenada, mas alguma coisa ficou. Cearenses a conservar modo de
vida que lembra aldeias e cidadezinhas da Itália. Os laços
familiares rígidos, o bom humor, o casamento entre primos, as
residências próximas, as mulheres pequeninas, muitas de olhos
azuis, discretas no vestir e no comportamento, apegadas à Igreja e
quando viúvas, de preto e lamuriosas. Acima de tudo, cordialidade e
alegria de viver contrastando com a agressividade local. Extroversão
expressa em vários deles pelo amor ao jogo de cartas, à diversão,
à bebida e à música popular.
Anos depois, em disputa com um
sobrinho, o Coronel não conseguiu fazer do filho o prefeito da
cidade. A luta pelo poder desagregou a família e ele partiu para a
serra paraibana, local de outros familiares; quem sabe,
inconscientemente atraído pelo clima vagamente parecido ao da
Itália. Todavia, diferente do pai, era, no quase exílio, imigrante
desesperançado, revolta e desilusão.
Envolvido em luta inglória
contra a realidade cruel, findou os dias em um mundo imaginário,
pleno de fantasia e recordação. Na rede, a mamma
entoava uma canção de ninar ou era o irmão Horácio a lhe embalar
o sono com uma ária napolitana de Caruso?
Houve a alegria
irreverente dos filhos no carnaval ou tudo não passou de uma velha
história de Veneza, contada por uma tia idosa na infância? Voltaria
ainda o prestígio dos anos atrás?
Muito tempo depois, o menino
que vira o homem gordo e baixinho, dirigir-se à barbearia, naquela
manhã de maio, observara um missãovelhense discretamente receber a
comunhão na Igreja da Paz. Sequer herdara o sobrenome italiano, mas
no comportamento cordial, reverente e cerimonioso, ele expressava
traços do tio e, talvez, de algum familiar distante, perdido em
aldeia remota da Sicília ou do Mediterrâneo.
Demóstenes Ribeiro -,Médico Cardiologista
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
GILMAR MENDES - por RICARDO
BOECHAT
Temos
um ministro do STF que não teme ser defensor explícito do crime
organizado. Gilmar Mendes nem deveria ser impedido, deveria ser
preso. Os laços de Gilmar e sua mulher com Jacob Barata são de
amizade, comerciais e profissionais. O cunhado do Gilmar é sócio do
Jacob. Jacob tinha o contato direto da mulher de Gilmar em seus
contatos.
Esse
senhor Barata, pelos crimes revelados por vários delatores, vem
roubando diretamente da população mais pobre do RJ, comprando toda
a cúpula e política fluminense e a fetranspor. O senhor Barata
roubou, 10, 20 centavos por dia da população mais pobre do RJ, por
anos a fio.
A
suspeição de Gilmar Mendes teria o efeito de mostrar que ele nada a
tem a ver com esses crimes, que a sociedade do cunhado e que a benção
no casamento, foram coincidências. Mas como ele não se declarou
suspeito, mesmo quando o “rabo abanou o cachorro” e com todas as
manifestações do MP, demonstrando claramente que os elos são
pessoais, comerciais e profissionais, a única opção a crer é que
Gilmar tem muito a esconder tanto nessa relação como nas outras em
que se posicionou de forma imoral.
Jacob
Barata é um bandido violento. Provavelmente está roubando dos
cariocas há 30 anos. É um milagre da Lava-Jato e adjacências que
estejamos trazendo esse esquema à vista, à tona.
O
Judiciário e o MP precisam tratar Jacob Barata de forma especial,
com o peso expressivo da lei, pois ele vai entregar Gilmar Mendes. As
últimas atuações do ministro são claras evidências de obstrução
intencional da justiça, mandando às favas qualquer resquício de
moralidade e racionalidade. Um acinte, um deboche.
Está
muto claro que Gilmar é um infiltrado do “status quo” para
explodir os esforços anticorrupção e redirecionar os entendimentos
do STF para a frouxidão ética e moral, apenas com seus “afilhados
e amigos”.
Derrubar
Gilmar Mences é atravessar uma das últimas muralhas de proteção
do sistema corrupto que moveu a política brasileira, nos últimos,
pelo menos, 30 anos.
Os
brasileiros podem até ser impotentes para derrubá-lo, mas a cada
atuação do ministro, mais gente desacredita no país e faz questão
de não apoiar qualquer movimento de recuperação econômica.
Gilmar
Mendes é a certeza da impunidade, portanto é a incerteza econômica.
Gilmar Mendes é uma ode à concorrência desleal, portanto é um
inimigo da governança e da ética nos negócios. Gilmar Mendes é o
Alien parasita no organismo brasileiro.
Ou
é ele, ou é a nação. Jacob Barata não deve entregar Cabral, que
é outro cadáver político, esse pelo menos não está fedendo em
nossas salas. Tem que entregar Gilmar.
Acreditem.
Gilmar Mendes convence os brasileiros a não lutar para tirar o
Brasil dessa crise. Convence os brasileiros com mais capacidade, mais
recursos e maior grau de empreendedorismo a cogitar seriamente sair
do país. Gilmar Mendes é nosso ministro bolivariano.
Amigos,
entendam a importância de combatê-lo. Não se enganem, é um
elemento fundamental para a manutenção do status quo. Está entre
nós e a esperança.
Assinem
tudo, reverberam tudo, tudo que for contra o Gilmar. Esse cara quase
torna a sonegação de impostos um imperativo ético. Ninguém merece
pagar o salário desse imperador da imoralidade judiciária.
sábado, 2 de dezembro de 2017
HOUVE OU NÃO ??? - José Nílton Mariano Saraiva
No
curso de Ciências Econômicas, e especificamente no estudo da
disciplina “Estatística”, normalmente o próprio professor faz a
analogia entre tal disciplina e o biquíni usado pela mulherada. É
que, segundo se convencionou no recinto da própria Academia, tal
qual o biquíni, a Estatística mostraria tudo, tudo, menos o
“essencial”. O que é “essencial”, na Estatística e na
mulher, fica a critério de cada um elucubrar.
Tal
lembrança ocorreu quando tomamos conhecimento das manchetes
estampadas na grande mídia, nos dias atuais, nos dando conta que o
abusado e arrogante ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar
Mendes, pela terceira vez, em poucos dias, mandou soltar da cadeia o
empresário Jacob Barata, incurso em sérias suspeitas de pagamento
de propina à mafiosa classe politica do Rio de Janeiro, e por isso
trancafiado repetidamente pela justiça daquele Estado.
No
arrazoado divulgado pela mídia, inserto se acha que pesou em tal
decisão o fato do ministro e esposa terem sido padrinhos de
casamento da “Baratinha”, filha do meliante (o que demonstraria
uma sólida amizade entre os dois), além do fato que o noivo seria
sobrinho da mulher do ministro (o que justificaria tal privilégio).
Como,
entretanto, foi a terceira vez em poucos dias que o ministro bate de
frente com o Judiciário do Rio de Janeiro, com todo o desgaste que
isso pode provocar, a mídia bem que poderia questionar não a
amizade ou parentesco do casal com o empresário, mas, sim, se o
ministro teria recebido “propina” para insistir e persistir na
liberação do bandido.
Afinal,
já restou comprovado, em diversas oportunidades, que no Judiciário
brasileiro (principalmente no seu alto escalão) a corrupção corre
solta e desenfreada, e, portanto, o “substantivo” a ser explorado
por uma mídia séria e honesta seria: houve ou não pagamento ao
ministro Gilmar Mendes ???
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
“POBRES
ANALFABETAS” -
José Nilton Mariano Saraiva
Até
certo tempo atrás, eram comuns “homenagens” aos ídolos do
futebol, música e cinema, por parte de pais “torcedores
fanáticos”, através da tributação, preferencialmente ao
primogênito, do nome de algum deles. No entanto, um outro tipo de
homenagem era muito comum entre genitores normalmente humildes e de
parca cultura, e que merece ser lembrada: batizar o rebento com um
nome estrangeiro, uma “sopinha de letras” de difícil pronúncia,
capaz de “enrolar a língua” de qualquer um “metido a besta”.
Não importava a origem do nome, quem o usava (se se tratava de algum
marginal ou uma autoridade constituída). O que valia era a
“boniteza” da grafia e, principalmente, a dificuldade que os
“analfabetos” tinham de pronunciá-lo.
Pois
foi estribado em tais “conceitos revolucionários” que o pai de
um nosso colega de trabalho resolveu batizá-lo com o pomposo nome de
Zwínglio (aos desavisados, a principal referência sobre, é o suíço
Ulrich Zwínglio, teólogo e principal líder da reforma protestante
naquele país; portanto, um nome de peso e com história, mas que o
pai certamente não conhecia).
Fato
é que, de tanta ouvir o pai se “gabar” com os amigos do nome
estrambótico e difícil que tinha posto nele, nosso amigo assimilou
“ipsis litteris” todo aquele arrazoado laudatório e, ele
próprio, a partir de uma certa idade, passou a se vangloriar do nome
e, tal qual o nosso rei Roberto Carlos, a se achar “o cara”. Ria
às escancaras quando, ao fornecer informações para um cadastro
qualquer nas lojas comerciais, observava a extrema dificuldades e a
cara de espanto daquelas moçoilas/entrevistadoras que preenchem as
fichas respectivas: “Por favor, senhor, “Zu...” o quê ???”,
lhe inquiriam. E nessa oportunidade, como se fora um paciente
professor catedrático, todo “cheio de razão”, fazia questão de
citar, uma a uma, aquelas letras famosas, caprichando na dicção: Z
– W – Í – N – G – L – I - O. E se punha a rir com a cara
de espanto daquelas “pobres analfabetas”.
A
adoração pelo próprio nome virou mais que mania, tornou-se uma
verdadeira obsessão, tanto que, 200 anos antes de casar, ele já
decidira que o primeiro filho receberia na pia batismal o mesmo nome
do pai (afinal, era uma rara oportunidade de homenagear o avô (seu
pai), que mesmo pouco letrado, tivera a ideia brilhante de
arranjar-lhe um nome tão “porreta”).
Assim,
constituiu-se uma tremenda surpresa o nascimento de uma robusta
criança do sexo feminino e não um “homem”. E agora, o que
fazer, se perguntava atarantado. Eis que, como num passe de mágica,
absorveu o choque rapidamente através da adoção de uma solução
simplérrima - “feminilizar” o próprio nome, trocando o “O”
final pelo “A”, daí que a filha chamar-se-ia “ZWÍNGLIA”.
Pronto, resolvida a questão, até mesmo porque... com ele ninguém
podia. Era um gênio.
Anos
após, evidentemente que quando começou a se entender por gente (ao
adolescer), a filha criou verdadeira ojeriza, aversão azeda ao
próprio nome, a ponto de ter vergonha de citá-lo em conversas
particulares e, principalmente, em público. Quando absolutamente
necessário pronunciava-o quase sussurrando. Virava uma “fera
ferida” quando o pai, na ânsia de mostrar ao mundo o que era um
nome bonito e charmoso, a chamava pelo nome exótico, em voz alta.
Para ela, seu pai “tava doido varrido ou bêbado” quando decidiu
batizá-la com aquela “praga de nome”. Pra encurtar a conversa e
já que não tinha jeito, Zwínglia resolveu que a partir de então
seria simplesmente “Zu”. E não admitia tergiversações. Se o
pai não gostasse que fosse à PQP. Se possível, sem passagem de
retorno.
Enquanto
isso, na solidão da sua última morada, Ulrich Zwínglio ainda hoje
deve estar se contorcendo e se questionando se merecia tal tipo de
homenagem de um habitante da terra “brasilis”.
Post
Scriptum:
Nos
dias atuais, o pai certamente preferiria homenagear o jogador da
seleção alemã BASTIAN SCHWEINSTEIGER (alguém aí sabe pronunciar
???).
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