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terça-feira, 9 de novembro de 2021

O HOMEM E O MITO - José Nílton Mariano Saraiva

O HOMEM E O MITO – José Nílton Mariano Saraiva


“Em 1893, dois anos depois de deixar o governo, Rui Barbosa estava suficientemente rico para comprar o palacete neoclássico na Rua São Clemente, no bairro Botafogo/RJ, que pertencera ao Barão Da Lagoa”. ( vide livro “Os Cabeças de Planilha”, de Luis Nassif ).

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Não se tem como não interligar o enunciado acima, abordando o ano de 1893, com o que ocorre nos dias atuais, quando o Brasil convive com uma plêiade de ladrões engravatados, com assento no Congresso Nacional.

Afinal, aos 521 anos o Brasil é um país de poucos heróis e muitos bandidos.
Macunaímicos (sem nenhum caráter) ou não, eles (os que se rotulam políticos) estão aí e fazem parte da nossa história. Inadmissível, pois, ignorá-los, fazer de conta que não existem, que tudo não passa de uma mera estória, banal e inconsequente. Só que, ante a perspectiva de maculá-los, evita-se aprofundar estudos sobre os “de cujus”.

Puxando pela memória, sem maiores esforços, quem não lembra, por exemplo, do folclorismo presente na estereotipada figura de D. Pedro, nosso então Imperador, tido e havido como um mulherengo incorrigível, capaz até de abdicar de suas funções ante a presença de um rabo-de-saia qualquer ??? Ou que era um “peidão” inconteste .??? Melhor, pois, não mexer nesse vespeiro.

O mérito do jornalista Luis Nassif, no que se refere à figura do Rui Barbosa, reside exatamente aí. Pesquisador criterioso, de apurado senso jornalístico, sério, metódico e competente, e, por isso, de credibilidade insuspeita e comprovada, exaustivamente enfronhou-se “de cara”, durante meses, numa montanha de documentos oficiais, à procura de detalhes relevantes sobre a atribulada vida do pequenino e cabeçudo Rui Barbosa.

O resultado ??? A despeito da compreensível incredulidade e atarantamento dos nossos nobres historiadores, somos postos à frente de uma realidade que incomoda, que maltrata, que dói.

Há que se notar, entretanto, que em nenhum momento colocou-se em xeque ou procurou-se desqualificar ou desconstruir a figura impoluta e solene do “intelectual” Rui Barbosa, subtrair os méritos do “Águia de Haia” ou negar o valor do nosso herói da infância, até porque seria pouco inteligente, se estaria a navegar contra a correnteza ou indo na contramão da história.

Assim, procurando-se preservar o mito, deixando-o imune à polêmica que decerto geraria, blindando-o hermeticamente até, a minuciosa pesquisa foi feita em cima do “homem”, do “mortal” e, especificamente, na essência do “político” Rui Barbosa.

E o resultado que emerge, que vem à tona, que se nos apresenta com toda a sua cruenta clareza, lamentavelmente não é dos mais animadores, já que chocante; e nos deixa aparvalhados, grogues, embasbacados e desorientados, ante o surgimento de uma figura tão aética e desprovida de caráter, verdadeiro “picareta”, na acepção plena do termo.

E só aí entendemos que, “como na prática a teoria é outra", os belos ensinamentos e magníficas lições do “intelectual” Rui Barbosa sobre a honra, a ética, a moral e os bons costumes, sucumbem inexoravelmente quando necessariamente confrontados com o "modus operandi" mafioso do “político” Rui. Como que a nos remeter à velha máxima: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

De todo o exposto, uma pesarosa constatação advém: Rui Barbosa, o “político”, foi tão ou mais pernicioso e nefasto que a “cambada de picaretas” com assento no congresso nacional nos dias atuais (há exceções, claro): tráfico de influência, malandragem, privilégios a amigos, jeitinho, propinas, favores em troca de vantagens, desonestidade, corrupção, falsidade e improbidade administrativa estiveram sempre presentes no seu cotidiano. Diuturnamente, enquanto no poder esteve e dele se serviu.

Em resumo, o que aqui abordamos “in passant”, nos mostra o outro lado da moeda, ou a até então desconhecida “face oculta” de Rui Barbosa.

Que oceânica decepção !!!

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(*) De tão triste lembrança, ainda hoje a Fundação Casa Rui Barbosa funciona no mesmo endereço (rua São Clemente, no bairro Botafogo/RJ), como a querer perpetuar, ironicamente, os desmandos cometidos pelo patrono famoso.

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