TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Fedorentos – Dr. Demóstenes Ribeiro (*)

     Quem me dera prever o futuro, onde eu quase sempre só encontraria decepção. Terminada a adolescência, o meu pai foi taxativo: volte universitária, para mim pouco importa a vocação, a competência ou a qualificação: volte universitária!   

     Assim, prestei um vestibular pouco concorrido e me formei em Serviço Social. Quase de imediato, consegui emprego e salário no estado. Foi difícil, mas comecei a gostar da profissão.

      Difícil porque nessa vida nunca senti tão profundamente a desigualdade. Sem pai e sem mãe, só Deus por aquelas crianças, era um abandono total. Elas chegavam à antiga Febem ainda tão pequenas e, tempos depois, soltas nesse mundo-cão onde tudo acontece, se marginalizavam.

     Em meio a tudo isso, por muitos anos perdi a esperança na transformação dessa crueldade. Como eu, muitos lutaram indignados e pacificamente, outros sofreram na própria pele e alguns até mesmo deram a vida pela grande mudança que não veio jamais. Está tudo registrado na história.

     Fiz a minha parte e ao me aposentar tive um imenso alívio. Envelhecida, já não suportava conviver diariamente com tanta desilusão. Não me casei e moro sozinha, mas tenho amigas e colegas que me convidam para aniversários e encontros de comemoração. Com frequência me recordo daqueles meninos e, agora que são adultos, imagino como eles estão.

     Também nesse emprego revivi a inocência da infância e confirmei, vez por outra, a impiedade dos jovens.  João Roberto, Zé Wilson, Evangelista... ou “Fedorento, Gambazim e Pau Cagado”, conforme a maldade e o humor negro de cada dia.

     Eram muito amigos, odiavam o banho e foram pra rua na mesma época. “Fedorento” era um mulato gordinho e que suava muito. “Gambazinho”, um baixinho sarará metido a engraçado, e “Pau Cagado”, um magricela desdentado e feio, de odor repulsivo e sorriso insuportável.

     O filme daquele tempo nunca termina até eu adormecer com as minhas preces.  Ontem, porém, foi um dia especial. A filha de uma colega se casou com um ortopedista famoso. Estive na igreja e na recepção. Tudo impecável. A noiva, lindíssima. O pai, um galã de Hollywood. O noivo, um quase artista de novela global. A banda tocava uma balada romântica, eu e todo o mundo morrendo de emoção.

     De repente, quando a noiva ia jogar o buquê de flores, houve tiros e a recepção entrou em polvorosa. São os “Fedorentos”, alguém gritou. Eu já tinha ouvido falar desse grupo marginal que invadia reuniões chiques e importunava as mulheres. A noiva desmaiou. A mãe empalideceu e chorava, e o noivo a tudo assistia petrificado.

    A certa distância, algo me pareceu familiar. Embora confusa, apostei na memória e gritei: “João Roberto, isso é coisa que se faça?” Revólver em punho, ele se dirigiu a mim. Zé Wilson e Evangelista que estavam a curta distância e sob as saias das madrinhas, levantaram-se e se juntaram a ele.

    Naqueles homens feitos, reconheci todas as crianças da Febem. Crescidas, brutalizadas e o mesmo olhar infantil de desamparo. Até mesmo parecia não haver maldade alguma naquele comportamento. 

     Fez-se silêncio no recinto. João Roberto largou a noiva, sorriu e disse em nome de todos”: “desculpe tia, a gente é fedorento, mas também gosta de lamber umas coisinhas cheirosas.” Gargalhando despudoradamente, eles correram e tomaram o carro de um bacana. Agitavam calcinhas como troféus e fugiram a toda velocidade pela cidade afora.

     Os meus meninos... Não machucaram ninguém, não roubaram, e eu nunca esperei reencontrá-los numa situação como aquela.

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(*) Dr. Demóstenes Ribeiro é cardiologista, em atividade, natural de Missão Velha-CE, mas residente e domiciliado em Fortaleza-CE  


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