Fedorentos – Dr. Demóstenes
Ribeiro (*)
Quem me dera prever o futuro, onde eu
quase sempre só encontraria decepção. Terminada a adolescência, o meu pai foi taxativo:
volte universitária, para mim pouco importa a vocação, a competência ou a
qualificação: volte universitária!
Assim, prestei um vestibular pouco
concorrido e me formei em Serviço Social. Quase de imediato, consegui emprego e
salário no estado. Foi difícil, mas comecei a gostar da profissão.
Difícil porque nessa vida nunca senti tão
profundamente a desigualdade. Sem pai e sem mãe, só Deus por aquelas crianças,
era um abandono total. Elas chegavam à antiga Febem ainda tão pequenas e, tempos
depois, soltas nesse mundo-cão onde tudo acontece, se marginalizavam.
Em meio a tudo isso, por muitos anos perdi
a esperança na transformação dessa crueldade. Como eu, muitos lutaram
indignados e pacificamente, outros sofreram na própria pele e alguns até mesmo
deram a vida pela grande mudança que não veio jamais. Está tudo registrado na
história.
Fiz a minha parte e ao me aposentar tive
um imenso alívio. Envelhecida, já não suportava conviver diariamente com tanta
desilusão. Não me casei e moro sozinha, mas tenho amigas e colegas que me
convidam para aniversários e encontros de comemoração. Com frequência me
recordo daqueles meninos e, agora que são adultos, imagino como eles estão.
Também nesse emprego revivi a inocência da
infância e confirmei, vez por outra, a impiedade dos jovens. João Roberto, Zé Wilson, Evangelista... ou “Fedorento, Gambazim e Pau Cagado”,
conforme a maldade e o humor negro de cada dia.
Eram muito amigos, odiavam o banho e foram
pra rua na mesma época. “Fedorento” era
um mulato gordinho e que suava muito.
“Gambazinho”, um baixinho sarará metido a engraçado, e “Pau Cagado”, um magricela desdentado e feio, de odor repulsivo e
sorriso insuportável.
O filme daquele tempo nunca termina até eu
adormecer com as minhas preces. Ontem,
porém, foi um dia especial. A filha de uma colega se casou com um ortopedista
famoso. Estive na igreja e na recepção. Tudo impecável. A noiva, lindíssima. O
pai, um galã de Hollywood. O noivo, um quase artista de novela global. A banda
tocava uma balada romântica, eu e todo o mundo morrendo de emoção.
De repente, quando a noiva ia jogar o
buquê de flores, houve tiros e a recepção entrou em polvorosa. São os “Fedorentos”, alguém gritou. Eu já tinha
ouvido falar desse grupo marginal que invadia reuniões chiques e importunava as
mulheres. A noiva desmaiou. A mãe empalideceu e chorava, e o noivo a tudo
assistia petrificado.
A certa distância, algo me pareceu
familiar. Embora confusa, apostei na memória e gritei: “João Roberto, isso é coisa que se faça?” Revólver em punho, ele se
dirigiu a mim. Zé Wilson e Evangelista que estavam a curta distância e sob as
saias das madrinhas, levantaram-se e se juntaram a ele.
Naqueles homens feitos, reconheci todas as
crianças da Febem. Crescidas, brutalizadas e o mesmo olhar infantil de
desamparo. Até mesmo parecia não haver maldade alguma naquele
comportamento.
Fez-se silêncio no recinto. João Roberto
largou a noiva, sorriu e disse em nome de todos”: “desculpe tia, a gente é fedorento, mas também gosta de lamber umas
coisinhas cheirosas.” Gargalhando despudoradamente, eles correram e tomaram
o carro de um bacana. Agitavam calcinhas como troféus e fugiram a toda
velocidade pela cidade afora.
Os meus meninos... Não machucaram ninguém,
não roubaram, e eu nunca esperei reencontrá-los numa situação como aquela.
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(*) Dr. Demóstenes Ribeiro é
cardiologista, em atividade, natural de Missão Velha-CE, mas residente e
domiciliado em Fortaleza-CE
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