TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


AS CIDADES VIVIDAS – NOVA OLINDA

Nova Olinda se esconde do viajante. Fica numa reentrância da Chapada do Araripe a depender por onde o destino conduz. Ao deixar o litoral e descer pelo sertão central do Ceará, passando na região dos Inhamuns, após algumas serras o andante chega lá.

Quando vem pela região do Cariri o viajante é obrigado a atravessar a Chapada do Araripe e seguir descendo por grotas, alcantilados sedimentares, cortados tão verticais que lembram as paredes de cânions litorâneos. E ali brotam olhos de água doce.

A velha Tapera que fermentou um tempo, ao invés do abandono. Lenta transformação que perdeu o sentido dos propósitos. Numa manhã de inverno atravessava a Ponte de Pedra, no lapso de dois mundos, aquele que vivia para morrer e o que morria para viver.

A velha Casa Grande, nascida dos currais e dos tangerinos atravessando os sertões, até os matadouros e salgadeiras, que maturaram o produto da carcaça em cortes e o transportaram no lombo de animais para, depois de muitas léguas, embarcarem nos mares bravios, aos quais vaqueiros nem imaginavam como eram.   

Alguma parte da carne, tornou-se carne-de-sol no prato do povo da Tapera. Assim como parte do couro foi curtida e ali transformada em sola e amolecida após ser tingida e ao final artesãos a transformarem em selas, arreios, perneiras, gibões, alpercatas, botas e açoites, de muitas tranças, lindas peças que poderiam lanhar a carne do açoitado.

Tudo era uma névoa do tempo. Uma espécie de final de ano que mal recordava o início. Por certo alguém, com as veias circulando do seminário de Olinda deu à velha Tapera o Novo tão distante dos recifes.

E a moda pegou, tem Nova Olinda do Norte no extremo do Amazonas, tem Nova Olinda do Maranhão e até uma Nova Olinda da Paraíba. Afinal não foi por algo distinto, que a vetusta freguesia portucalense, dos Templários e dos bispos poderosos tais qual Marqueses, resultou, em pleno solo úmido dos Cariris, numa Crato substitutiva da Missão original.

O viajante encontra em Nova Olinda três minaretes que coçam o céu da mitologia. O primeiro desanuvia o panorama em sentidos gênicos, sejam animais, minerais ou vegetais. Tudo se move no presente dos vivos e na borda do fantástico simbólico, na analogia das formas rotineiras com aquelas da eternidade mitológica.

Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde transformaram os trapos da história, numa teogonia esplêndida, onde todos os sentidos se voltam aos que nascem, se transformam e se expressam com uma autenticidade nunca antes vista naquela simbologia superada da aldeia abandonada.

Afinal Nova Olinda chegou ao apogeu do seu propósito (de ser uma linda situação para o seu povo). Mas não veio com os versos de cavalaria, na métrica dos poemas dos trovadores. Esta Nova renasceu como uma revelação de Vinhos da Alma, produzido a partir da mistura de cipós e folhas. Portanto, surgiu da relação dos seres mutantes da floresta, com a burguesia rígida das tramas viárias.

Do mesmo modo, fazendo parte da mesma mesquita, o segundo Minarete reflete a esquecida civilização do couro. Uma espécie de reconquista do mundo perdido do profundo sertão, onde o ferro e outros instrumentos eram raros e ao couro se daria toda a serventia do que faltava. Seu Espedito Seleiro continua fazendo do couro as mesmas sandálias que o pai fazia para lampião confundir os “macacos”:  um solado retangular sem dianteira e traseira.

O viajante poderá encontrar uma bolsa num shopping qualquer da alta burguesia, extasiada pelo exótico, sem entender nada dos símbolos que seu Espedito exprimiu nos desenhos quase mouros. E não foi uma aliteração, o terceiro Minarete é o próprio Viajante em busca de um sentido para o vago da globalização incompreendida.    


AS CIDADES VIVIDAS – CARIRIAÇU

Caririaçu é uma visão, uma composição imaginária, assim como uma flor evidente entre inúmeras outras do jardim. Na claridade tropical, próxima ao equador, a acuidade visual não consegue localizá-la, no círculo de serras, que cinturam o Cariri.

Fincada no alto da Serra de São Pedro, na face virada para o Vale, Caririaçu foi criada como aqueles espelhos de bolso, geralmente masculino, redondo, com figuras eróticas ou emblemas de futebol na face irrefletida. Um dia meu primo Eliezer Feitosa caiu do cavalo em disparada, sentiu que quebrara o nariz, com a objetividade sertaneja, tirou o espelho do bolso e repôs o vômer ao lugar correto.  

Disse espelho, mas ela não é um astro que se evidencie no reflexo da luz. Caririaçu é um pequeno ponto luminoso nas noites do vale, quando a alma, desamparada de luz, divaga nas luzes elevadas na serra distante, propícias à expansão do espírito.   

De onde nos encontramos, a cidade parece cantar uma velha melodia italiana a solicitar: diz-me quando tu virás, diz-me quando...quando...quando. E por certo vamos marcando o ano, o dia e a hora em que talvez, numa noite vazia, a beijarei em seu pequenino aceno luminoso.  

Caririaçu fica no gume da Serra de São Pedro. Toda a largura da serra é preenchida pelas suas curtas ruas. A ela sempre se chega subindo e se vai descendo. E todas as vezes que o viajante passa ali, guardará, para sempre, um instante, até quando...quando...quando, de repente a reverá sorridente junto a ele.

Caririaçu não se faz notar na distância para, na proximidade, ser diferente. Continua sendo o mesmo ponto luminoso que orienta o vazio do olhar. E na sinceridade devida a toda fonte de luz, exige que o viajante diga sim, mas revelando o por que, uma vez que não faz sentido para ela, a vida sem a presença física daquele que um dia notou as suas luzes na distância.

É preciso ser um viajante de raiz para perceber a importância de Caririaçu. Três vias principais são alternativas de viagem. Uma sai de Crato, contornando a Serra de São Pedro na direção de Farias Brito, a outra sai de Juazeiro para Barbalha e segue adiante e finalmente aquela que sobe até seu recato urbano.

Aquelas luzes no alto, no ermo escuro da noite, parece nos solicitar que digamos quando iremos, numa emoção latina: diz-me quando....quando...quando.

E nas impressões permanentes da vida os nosso corações serão beijados pela promessa que não a deixaremos jamais.

Jamais.

A sedução de Caririaçu com seu flerte de luz noturna.

AS CIDADES VIVIDAS – JUAZEIRO DO NORTE

O viajante para chegar a Juazeiro do Norte deve incorporar-se às léguas tiranas dos sertões, nos passos das almas em busca de salvação. Um companheiro de jornada, falava, com fervor, da qualidade das cunhas que fixavam as enxadas até nas covas dos legumes plantados em terreno pedregoso.

Dizia ele: é mais importante do que este monte de carne e osso, pois é com ela que alimento o arranjo. É mais importante do que tudo acontecido desde que separaram-me do cordão umbilical que me ligavam às águas da minha mãe. A cunha da enxada bem ajustada é como o palácio de um rei.

Juazeiro é um grande lago de gente, que recebe tributários da totalidade da rosa dos ventos. Na carroceria do “pau-de-arara”, embaixo da lona enfornada, na poeira batida pelo calcanhar da corrolepe, ajustando a carga do jumento, no passo das ladainhas e das cantigas de peregrinos.

E como uma cidade, cuja natureza são os moradores e moradias, pode ser um lago pondo em risco as posses, onde todos vão do modo como podem, do jeito que a fé lhe conduz? Estes são os segredos de Roma, de Meca e Medina. Tudo é igual em trabalho e vida, o que os distingue são as quantidades em atribuições de valor. 

Deste o Arco dos Salesianos, os segredos, os mistérios da fé, os enigmas, os caprichos do destino, os desfechos de vida e morte, na insustentável existência, se fundem nas estações suplicantes e desenhadas como os benjamins da Praça Padre Cícero.
Por onde passe, seja na Igreja dos Salesianos, no Santuário dos Franciscanos, na Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e na subida do Horto, tudo sustenta as multidões que desembocam naquele lago com face de eternidade.

Sei bem que nada sou e nada levo deste mundo. Ninguém me conhece, não tenho nome e nem parentes. Sigo os preceitos da fé dos meus antepassados, aceitando o destino, mesmo escrito por outras mãos que não as próprias. Por isso este lago de gente, no qual sou uma gota, não se rebenta e extravasa. Pelos preceitos e destinos assinalados.  

Hoje levo um terço para Das Dores, um retrato do meu Padim, um pano para Zabé, levo porque é esta mercadoria sagrada que tudo acalma, tudo acomoda, a tudo explica. Acalma as dores do sol consumindo, em chama alta, o meu estoque de tempo. Acomoda o sangue das balas da tocaia, explica porque deixei minha roça no tempo de bonecar. A menina negou-se ao filho do patrão.

Como não tenho outro valor de corpo e alma, ajoelho-me aos pés deste terço, deste retrato e deste pano como se fossem tudo o que resta de valor na vida. E assim ouvindo aquele com quem andei nas estradas de chegada, fomos deixando Juazeiro do Norte pelas mesmas rotas. Levando um desejo de um dia ser tão igual no céu quanto não somos na terra.

Juazeiro do Norte, a cidade onde a voz mais aguda do destino se manifesta, numa fé cantante que sinaliza a dor inteiriça, enquanto a terra não for o amor e a irmandade prometida há dois mil anos. 

AS CIDADES VIVIDAS – BARBALHA

Quem chega a Barbalha, pelas vias principais, sempre atravessa grandes canaviais. São rotas úmidas, com perfume adocicado e algumas fragrâncias fermentadas. Na passagem, a lateralidade é obstruída pelo verde e pendões, restando a esticada rota invadida por palha seca e o céu azul como uma tampa sobre aquela floresta baixa.

Das três contas da joia caririense, Barbalha é aquela que mais se guardou no interior da caixa nacarada que contém a preciosidade regional. Na rota vinda de Juazeiro do Norte, o viajante se depara com um muro, que lembra as cidadelas medievais, onde se escreveu: “alto lá senhores protestantes, Barbalha de Santo Antônio, já foi evangelizada.”

O viajante se defronta com um burgo de castelos e um silêncio de tempo no qual não se ouve os estalidos da modernidade vingativa, que incendeia todas as outras cidades, mas não parece acontecer em Barbalha. Um traço da personalidade da cidade são as moças louras, de olhos claros, diáfanas como um sonho de branca de neve, que nos desperta o desejo de lhes oferecer um naco entorpecente de maçã.

Numa rua de Barbalha todas as casas são patriarcais. Menos a casa de tia Tetê. Era ela uma matrona com olhar de decisão e uma acolhida de relaxar o viajante. Naquela casa, todos os cômodos experimentaram várias gerações humanas. Por isso o mobiliário era centenário, na coleção sempre a lembrança de alguém que já se fora ou de quem ali permanecia. Sobretudo nos habitantes, a postura imperativa com uma aura solene que albergava séculos de histórias d´além-mar.

No labirinto de aclives e declives, das ruas de Barbalha, o transeunte é capaz de ouvir o grito forte do almuadem, anunciando outro conteúdo que não a oração muçulmana. Uma boca eletroeletrônica estonteia a audição anunciando a próxima sessão do Cine Neroli, que tanto resistiu ao tempo, até que foi condenado pela inquisição televisiva com suas novelas em substituição aos dramas cinematográficos.

Na Praça Central, quando em época das festas de Santo Antônio, o padroeiro deu um sentido pleno jamais visto nas outras cidades. Dias próximos ao evento, uma multidão de homens, uma banda cabaçal, panos para os ombros, garrafas de cachaça e os machados cantando no meio da mata. Depois uma procissão, carregando um longo tronco de linheira árvore, até finca-lo no centro da praça. Em Barbalha era o “pau-de-Santo-Antônio”.    

Barbalha é um meio entre a subida e a descida. Ao descer se dilui no imenso canavial e ao subir evola-se pelas encostas da Chapada do Araripe, numa inclinação tal que a respiração fica mais rápida que o suspiro dos motores a vapor dos engenhos. No primeiro anel da marcha, encontra-se a vila do Caldas com sua gruta de águas cristalinas e um silêncio apenas melodiado pelas diversas espécies de pássaros das matas vizinhas.

O ritual mais intenso da solidão, acontece das seis horas em diante, numa calçada alta do Caldas, com tudo escurecendo, os pássaros silenciando e as luzes se acendendo na distância impossível de por lá se resolver. Qualquer que seja a proposta, nunca aceite uma insônia em tal ambiência, quando todos dormem, os lampiões se apagaram e apenas sombras de caibros, linhas e telhas, numa latência que tanto pode implodir o corpo como explodir a alma.

Porém, tudo isso são as impressões dos viajantes por estas cidades vividas. Jamais um natural dali, teria esta calda de angústia que acompanha os cometas andantes do firmamento. 


AS CIDADES VIVIDAS – BARRO DE ZÉ INÁCIO

As rotas dos sertões dos Cariris são amplamente fronteiriças às alternâncias de altitudes do relevo e da divisão política dos estados. Ali a confluência de quatro dos nove estados nordestinos: Piauí, Pernambuco, Ceará e Paraíba. Mas se aconselhando que o Rio Grande do Norte fica bem perto.

O Barro de Zé Inácio não é um território contínuo. A maioria das cidades contínua é, mas o Barro se diferencia. Três pontos espaciais dão significância ao destino, tanto dos que no território nasceram como aqueles que chegam e outros que se vão.

Os três pontos do Barro são o Arruamento, a Serra do Ouricuri e o Riacho do Meio. Os três em conjunto têm um significado espiritual traduzido nas simbologias desde o Vale do Indo, passando pelos corpos hídricos da Mesopotâmia e as civilizações das águas do Mediterrâneo.

Símbolos do movimento da matéria e daquele que nunca se move e tudo cria. O Pai, o Filho, o Espírito Santo. O criador Brahma, o preservador Vishnu, o destruidor Shiva. A arte do encontro com a comunicação, a expressão e a expansão.

Zé Inácio conformado nos determinantes históricos do Arruamento: coiteiro de Lampião, operador militar de Floro Bartolomeu, estabelecido na linha política do Padre Cícero. Ousado, com o desiderato do avanço e da vingança, de fazer filho com as mulheres e de retirar deste mundo, os filhos dos outros.

O Riacho do Meio como vértice do triângulo, é o movimento, a revelação do presente, o sótão do passado e a visão panorâmica do futuro. Da varanda para o infinito sertão, lá onde a vista plena alcança o Serrote do Cachimbo, quando fuma, adiante vem chuva.

A Serra do Ouricuri é híbrida, parece que existe noutra ordem que não a carne da Sede (o poder político) ou do Riacho do Meio (a contagem do tempo). Espiritual, não se explica pelas partículas de matéria e energia, não é um tempo, apenas o simulacro do espaço.

Nas ladeiras da Serra a civilização dos automotores vai ao mundo dos vivos com um langor de dúvidas sobre a realidade da combustão e da explosão que movimenta molhos de ferro, plásticos e borracha. Um gemido contínuo se espalha nos demais pontos do Barro de Zé Inácio.

No Riacho do Meio a criação desperta com o cancão falante do velho Julião e anunciando a história da travessia da África nos porões negreiros. E por isso mesmo ele teve dois filhos idênticos. Um adotou os ritos da masculinidade imposta e outro a feminilidade expressiva em gestos e amores. Ambos migraram ao Maranhão.

A Sede por muito tempo chorou o assassinato de Zé Inácio, fugitivo a conselho do Padre Cícero para Goiás. Ali encontrou seu destino de violência, carregando muito dinheiro, na companhia de Sinhô Pereira e Luiz Padre. A inveja cuspiu chumbo e enterrou o coronel nos sete palmos de profundidade.

O viajante que chegue ao Barro vai encontrar tudo muito diferente em fantasias e escolhas de indumentárias (celulares e esta tela de facebook). Mas se encontrar os três vértices do triângulo, logo compreenderá o significado desta trindade.   


AS CIDADES VIVIDAS – ROSÁRIO DE MILAGRES

Antes de chegar ao destino antropofágico do centro imaginário, quando corpos emagrecidos foram postos a engordar e uma espécime entre todos, fora escolhida por apaixonada donzela da tribo cariri, para uma fuga milagrosa, eis que saindo da “cidade de passagem” toma-se encostas divisadas a belas planícies.

Numa alça da rodagem, declivada em tonturas de velocidade, no destino oeste a leste, à direita de quem segue, bem ao final da curva, um casarão sertanejo, assim dito porque lembra, mas com finalidades distintas, porque é ali o “Café da Linha.”

Um Expresso de Luxo nas bordas do vale do Riacho dos Porcos, afluente do Salgado. Café, leite gordo da vaca mimosa, cuscuz com manteiga feita na casa, queijo de coalho assado, costela de carneiro (ou bode), um rebuliço de gente servindo e outras comendo.   

Depois a vista é só paisagem esticada com a curva de um universo inteiro. Então o passageiro toma à esquerda, ao final de uma rota e a caravana segue na trilha de massapê que dança a condução, jogando a traseira para um lado e outro. Uma dança do ventre típica das épocas chuvosas.

Quando, então, desemboca-se no que se diz, naquelas terras de chuvas temporárias, numa passagem molhada. Uma parede que barra a vazão do Riacho dos Porcos e mesmo o passageiro transitando sobre borrachas e aço, tem a sensação hídrica de uma navegação submarina.

Ao final cai na Vila de Rosário. Um largo como de uma aldeia tapuia, meninos nus pela paisagem ampla, cabras observadas sobre pontas de pequenas pedras, porcas amamentando uma ninhada, índios europeizados e africanizados sentados na estiagem do trabalho. Conversa em cantochão como se numa devoção mariana.

Enquanto o olhar em trânsito observa aquela vila do Rosário em meditação, uma solidão interior abala o passageiro que percebe o ciclo dos três mistérios desde a anunciação dos eventos (gozosos), sua agonia (dolorosos) e sua ressurreição (gloriosos). Sabe o transeunte que a ressurreição é outro estágio, muito distinto do nascimento. Porém muito mais intenso porque Rosário ressurgiu como Podimirim.

As ninhadas de porquinhos, mamando as tetas sem amanhã, dão aos podimirins um sofrimento castigado numa sina de males e balas, de trilhas impedidas, do largo esvaziado, mesmo que com os cariris conversando pacificamente ao tecido da visão passageira. Antes que se atinja o canavial a seguir, o transeunte ver nas nuvens Badzé atendendo aos pedidos de Poditã ensinando os segredos do cachimbo de ervas mágicas e do cauim da jurema preta.

Então estamos em Milagres. Com suas ruas curtas e tortas, seu casario de século XIX e XX, no estilo bem típico de quando os veículos de transporte eram outros, a iluminação caseira de chamas e o fogão em fagulhas. Mas para afago do Vale dos Cariris foi ali que a Companhia Hidroelétrica do São Francisco implantou sua estação de distribuição.

As cidades vividas nunca são uma paisagem de passada. Elas são uma efluência de mistérios e histórias prontas.   


AS CIDADES VIVIDAS – MISSÃO VELHA

Cidades imaginadas ou “cidades invisíveis” como relevou Italo Calvino se transformam noutra ficção quando são vividas. A vida não é uma ampulheta, tão somente a contagem do tempo. Ela a invenção do tempo no espaço das cidades sonhadas que, cobertas por este sonho, se transformam em vividas.

E por isso Missão Velha é uma cidade de passagem, sem que nela desabitem as pessoas e seus modos inerentes de ser. Por lá, nas luzes do espectro do dia, o transeunte sempre compreenderá tudo que nela há.

Por Missão mais antiga se compreenda que a nova ao surgir já ela havia passado na medida da memória. Por ser uma cidade de passagem, assim inventaram uma grande rua que subia um alto após uma depressão e seguia até o final da passagem por altos e vales da encosta da chapada.

Ser de passagem não é apenas um trânsito. Missão Velha tem o dom inerente de revelar, independente da velocidade do transporte ou até mesmo das passadas, todo o conteúdo do seu dia-a-dia. Até mesmo dos fatos esquecidos do passado.

Mesmo sem ser vista na passagem, compreende-se a praça central, a igreja centenária, o comércio, o velho cinema com seu palco no qual de poderia encenar um drama épico dos Cariris. Ali um amor em estágio de maturação, mais adiante uma paixão com todo fervor da descoberta. Um comerciante falido e seus devedores ameaçando.

Na velha igreja o monsenhor que surpreendia por ter uma inteligência rara, mesmo profundo no mundo clássico greco-romano, era um revelador da física contemporânea com uma rara compreensão dos elementos, das combinações e sínteses químicas.

No entanto fosse uma mulher sem mangas ou sem véu à igreja, seria interditada pelo monsenhor de modo grosseiro, houvesse a interdição na entrada ou uma retardatária durante o desenvolvimento da missa. Ele pararia a solenidade e a expulsaria no mesmo ato.

Em Missão Velha a família Linard surpreende com uma fábrica de engenhos a vapor. Ali se encontra toda a força dos séculos da modernidade industrial com suas máquinas de multiplicar forças e trabalho. Ser de passagem é um estado de espírito em evolução.

E antes que a passagem termine, indo de leste a oeste ou ao contrário, corre paralelo à nossa vida, o trem com sua estação de reencontros e despedidas. De passagens para o socavão da chapada, na cidade do Crato ou para a infinita planície marinha de Fortaleza. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019


Quero te riscar toda
Com a ponta da língua
Escrever rabiscos na tua boca
E na beira dos grandes lábios
Fazer as mais importantes anotações
Escrevo em linhas onduladas
Um texto sentido   
Na trepidação entre a  pele e a língua
A gramática do corpo
Vai se compondo no momento
Descomportadamente culta
O texto escrito a dois se dissolve
Como um poema de açúcar.


Alexandre Lucas

domingo, 13 de janeiro de 2019

A "RODOVIÁRIA" DO CRATO - José Nilton Mariano Saraiva


O “componente político” sempre foi, é e será peça primordial para que qualquer urbe “decole” em termos de independência econômica e desenvolvimento social.

Assim, mesmo sob o fogo cruzado de alguns “idiotas de plantão” (e eles estão em toda parte, sempre), durante anos sempre advogamos, aqui neste espaço, que a falta do “componente político” fatalmente levaria o Crato a tornar-se uma cidade-fantasma, cidade-dormitório, cidade “ex-isso-ex-aquilo”.

E mais: que a tal “Região Metropolitana do Cariri” não passava de uma grande fraude, um grotesco embuste, porquanto o objetivo sempre foi privilegiar uma única cidade, ao tempo em que “migalhas” seriam distribuídas com as demais.

Como resposta, os citados “idiotas de plantão” sacaram de um bordão tão cretino quanto irresponsável: que éramos “um só povo, uma só Nação Cariri” e, portanto, não deveríamos nos preocupar com o “privilegiamento” de uma única cidade, porquanto os benefícios se espraiariam pelas demais. Deu no que deu. Enterraram o Crato e o lacraram hermeticamente.

Ou alguém se arrisca a negar que, hoje, lamentavelmente, perdemos o bonde da história ??? E pior: sem qualquer chance de reversão ou retorno, porquanto as grandes “obras estruturantes” (aeroporto, hospital, instituição federais e por aí vai) foram todas implantadas na “cidade-polo” condenando-nos a vagar em sua orbita.  

E o retrato emblemático e pujante da derrocada do Crato, ou daquilo em que transformaram a cidade nos últimos 40 anos (sua própria população) é o Terminal Rodoviário Wilson Roriz, vulgarmente conhecido por “rodoviária”, outrora orgulho de todos nós.

Concluída na administração do então prefeito Pedro Felício Cavalcante (o último grande gestor que tivemos), em meados da década de 1970, por falta de manutenção e cuidados está   superada, decadente, isolada, sitiada e até mesmo abandonada por sua população (particularmente, experimentamos um misto de vergonha e tristeza de mostrar “aquilo” a qualquer um “rodoviário de primeira viagem” que por lá aporte)..

E como já atingimos a “casa do sem jeito”, seria o caso do atual prefeito da cidade mirar em obras pontuais, valendo-se do fato do atual Governador do Ceará ser um cratense (e com quem conviveu durante anos na Assembleia Legislativa), para mostrar-lhe da necessidade urgente de se construir uma nova Rodoviária no Crato, que pelo menos não nos envergonhe tanto.

Arregace as mangas e compre essa briga, prefeito.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

TUDO POR UM FILHO... "DOUTOR" - José Nilton Mariano Saraiva


Desde tempos imemoriais, principalmente no seio de famílias menos favorecidas do interiorzão brabo desse Brasil varonil, o desejo acalentado e inconteste de pais e mães sempre foi o de... “formar um filho doutor” (aqui entendido como o graduar-se em Medicina).

Para tanto, e evidentemente que sem entender da profundidade do tema, muitos pais implicitamente incorriam na famosa “escolha de Sofia” (aquele lance em que, literalmente, haveria de se “sacrificar” um ou mais dos rebentos, em favorecimento do “escolhido dos deuses” ou o “premiado”; no caso, por absoluta carência de recursos necessários à contemplação de mais de um).

E como à época vigia o conceito de que “onde come um, comem dez” e o tal “controle da natalidade” era uma miríade distante (assim como a televisão ainda não havia chegado pra entreter os velhos), o “fazer” filhos era a regra em uma família paupérrima, até mesmo objetivando uma futura e decisiva “ajuda” da meninada na labuta diária pela subsistência (excetuando-se, como explicitado antes e restou provado à posteriori, aquele a quem se destinaria o “olimpo”).

Mas aí, em muitas oportunidades, o próprio rebento “premiado”, depois de ralar muito e ser aprovado no mais concorrido dos vestibulares (Medicina), depois de seis anos de dedicação “full time”, depois de comer o pão que o diabo amassou, visando tornar realidade o sonho dos pais, não mais que de repente “descobre” não ter “vocação para a coisa” e que havia, sim, um meio mais fácil de “se fazer na vida”: o ingresso na “corrupta” atividade política.

Assim, e lamentavelmente (devido à carência de profissionais numa área ainda tão  prioritária) muitos dos que se formaram “Doutor” à custa do esforço sobre-humano dos pais, nunca fizeram um simples curativo, sequer manipularam uma seringa, jamais prescreveram qualquer medicação a algum paciente e, enfim, se mudaram de mala e cuia para o “eldorado” mafioso da política. E, para tanto, aí sim, passaram a usar e abusar da “patente de doutor” a fim de “abrir portas”.

Adstringindo-se à nossa praia (o Ceará) dos dias atuais, além de na capital e interior termos “doutores” no exercício do cargo de prefeito, sem que nunca tenham exercitado a “atividade-fim” da formação acadêmica, pululam nos parlamentos estaduais e federais um outro tanto que adotaram o mesmo “script”.

E assim, o sonho dos pais, acalentado durante anos e anos, jaz esquecido e deixado pra trás, por obra e graça dos encantos e da facilidade que a atividade política oferece de “se fazer na vida” rapidamente, mesmo que por métodos heterodoxos. Definitivamente, os tempos são outros.

Alfim, há que se destacar, sob pena de não o fazendo injustiçá-los, que os “vocacionados” para o mister, aqueles que realmente “vestiram a camisa” desde o ingresso na faculdade e até a pós-formatura, são, sim, dignos e merecedores de encômios e de reconhecimento público pelo verdadeiro “sacerdócio” no dia-a-dia de uma atividade estressante e sofrida. Afinal, além de não os frustrarem, se mantiveram fiéis ao sonho dos pais de um dia… “formar um filho doutor”.

Poderão, mais à frente, após passados na “casca do alho” de uma larga experiência no “laboratório da vida” (o exercício diário da Medicina, principalmente junto a comunidades carentes), ingressar na arena política objetivando melhorar a vida dos menos favorecidos, aos quais acompanharam “pari passu”, diuturnamente.




sábado, 17 de novembro de 2018

MÉDICOS DE CUBA (Ricardo Gondim Freire)


“Mastigadinho” pra explicar para os que tem dificuldade e que não entendem o que é o socialismo: em Cuba, a medicina NÃO É uma profissão liberal. Não tem médico trabalhando por conta própria, não tem médico abrindo clínica, não tem médico em hospital particular. Todo hospital cubano é PÚBLICO, é DE GRAÇA, e TODOS os médicos cubanos são FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS.

Portanto, o Brasil não paga "salário" aos médicos cubanos. Não existe essa porra de "pagar salário integral" que o Bolsonaro diz. O Brasil paga uma MENSALIDADE à Organização Panamericana de Saúde, um órgão transnacional que media a permanência dos médicos cubanos aqui, pra que aqui eles sigam trabalhando. A OPAS recebe essa quantia do governo brasileiro, repassa para o Ministério da Saúde Pública de Cuba, do qual TODOS os médicos são funcionários, e daí uma parte desse monte vira imposto, e uma parte compõe o pagamento dos médicos.

"Ah mas são 11 mil reais e o médico ganha só 4". Claro, porque esta porra NÃO é salário deles. Desses 11 mil reais, a maior parte é imposto, que volta pra Cuba pra bancar inclusive UNIVERSIDADE, formação de mais estudantes de medicina. Lá ninguém paga mensalidade, não existe faculdade Estácio de Sá em Cuba!

O Bolsonaro não tava tentando melhorar nada pros médicos (até porque ele caga solenemente pra eles), ele estava tentando aplicar a lógica de trabalho capitalista a um funcionário de um governo socialista. Fazer os médicos cubanos abandonarem o país que os formou, alimentou, ensinou, tudo DE GRAÇA, e ao qual eles servem, em troca de trabalhar aqui como funcionário brasileiro. É óbvio que isso não ia dar certo, é óbvio que não seria aceito, nem pelo governo nem pelos profissionais, que continuam não sendo empregados do Brasil, mas do ministério da saúde CUBANO.

O percentual que fica com o governo é pra reinvestir na formação de novos médicos , e não pra “COMER GENTE”! Da pra entender?


terça-feira, 13 de novembro de 2018

RESSACA ELEITORAL - José Nilton Mariano Saraiva


O velho axioma nos ensina que a arrogância e a soberba não levam a lugar algum. Essa a principal lição que se poderia extrair ao final das eleições presidenciais recém-findas, com o chororô interminável e recorrente do senhor Ciro Gomes, pela terceira vez rejeitado pela maioria da população brasileira (obteve raquíticos 12,47% dos votos válidos, no primeiro turno, cerca de duas vezes e meia menos que o segundo colocado - 29,28%).

A propósito, não se deve olvidar que, lá atrás, muito lá atrás (conforme ele mesmo confirmou agora), fora convidado para figurar como vice na chapa que seria encabeçada pelo então líder das pesquisas, Lula da Silva, preso em Curitiba, mas recorrendo da sentença.

Mas, como já àquela altura era quase certo que a candidatura Lula da Silva seria inviabilizada pelo conluio imoral e desonesto do juiz Sérgio Moro, Supremo Tribunal Federal e alto comando das Forças Armadas (o próprio comandante do Exército confirmou agora que exerceu pressão sobre o Supremo Tribunal Federal para que não concedesse o habeas corpus a Lula da Silva), a tendência natural seria que Ciro Gomes assumisse a “cabeça-de-chapa”, contando com o apoio irrestrito de um “cabo eleitoral” do peso e porte de Lula da Silva (mamão com açúcar, faca na manteiga, mole mole).

Mas, aí falou mais alto a já conhecida arrogância e soberba de Ciro Gomes, ao imaginar que, como candidato de um partido de aluguel, PDT (como tantos outros pelos quais transitou) conseguiria fazer com que o PT abdicasse de seu passado  de luta e, por consequência, de  uma candidatura própria, para apoiá-lo, em nome de uma suposta “aliança das esquerdas”.

E aí, muito embora experiente e passado na casca-do-alho, Ciro Gomes literalmente pisou feio na bola. Afinal, o racional e lógico, naquela oportunidade, seria que subisse no “cavalo selado” que praticamente parou à sua porta pedindo pra ser montado e daí cavalgasse para o abraço (certamente teria feito cabelo, barba e bigode).

Como não o fez, o PT decidiu-se por Fernando Haddad, que com apenas ínfimos 20 dias de campanha (mas com o apoio de Lula da Silva) conseguiu passar tranquilamente para o segundo turno.

Assim, depois da mancada homérica, só restou a Ciro Gomes acenar para os políticos de quinta categoria do tal “centrão” e outros partidos pigmeus, que o renegaram, preferindo abraçar o insosso Alckmin (que também não ganhou nada com isso).

Fato é que, inexoravelmente derrotado (por erro de estratégia), Ciro Gomes praticamente ajudou, sim, a eleger Bolsonaro, ao se omitir no segundo turno e se mandar para férias na Europa, em plena efervescência do embate final.

Hoje, na ressaca da refrega eleitoral, matreiro e oportunista, e aproveitando o momento difícil da esquerda (como um todo), a “diversão-fúnebre” de Ciro Gomes é desancar do PT e de Lula da Silva, ao sugerir uma grande frente de esquerda já visando as eleições de 2022, evidentemente que com ele comandando e figurando como “cabeça-de-chapa”.

Proscrita desde já, uma possível candidatura do PT, por conta da repentina aversão do messiânico adepto do “bloco do eu sozinho” (Ciro Gomes). 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O QUE NOS ESPERA



QUI, 08/11/2018 - 23:59
ATUALIZADO EM 09/11/2018 - 06:55
 * Uma referência não muito sútil ao filme O Exército de Brancaleone
Talvez o exemplo histórico mais próximo seja o da Torre de Babel. São grupos de pessoas de várias procedências preparando-se para tomar o poder. Ou “O Rato que Ruge”, que conta a tomada de Nova York por um pequeno país, que tinha apenas a pretensão de ser derrotado para ser auxiliado, mas encontrou Nova York em blackout.
Só dentre os “olavetes” (discípulos do filósofo Olavo de Carvalho) há quase dez grupos independentes entre si, que mal se conhecem. Tem mais tendências que os trotskista dos anos 70.
Há os seguidores do padre Paulo Ricardo, reacionário de mão cheia, que juntou uma legião de padres para apoiar a campanha de Bolsonaro.  Há olavetes que detestam evangélicos e olavetes que detestam católicos. O segundo grupo segue evangelicamente os ensinamentos do mestre, que os proíbe criticar o Papa, mas os estimula a desancar a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). São os mais ideológicos, acreditam piamente no liberalismo amplo e irrestrito e no destino manifesto de Bolsonaro, de ser um Donald Trump tropical.
Aliás, para o grupo, é Deus no céu, Olavo na terra, e Trump no mundo. Deu um trabalhão para o general Heleno convencer o pessoal que não bastava pensar como Trump para agir como Trump: era necessário dispor de um exército como o dos EUA e uma economia como a norte-americana para invadir outroS países. E parem com essa bobagem de pensar em invadir a Venezuela!
Pararam.
Vão ser os primeiros a serem engolidos pela real polítik. No início tinham a ilusão de que, pelo fato de Olavo ter fornecido os três grandes motes da campanha – o kit gay, a Venezuela e a liberação das armas – ele seria o grande ideólogo de Bolsonaro. Mas o capitão está mais para os ecos de Olavo – tipo Lobão e Danilo Gentile – que para formulações mais complexas.
Há os youtubers, é claro. E uma profusão de deputados recém-eleitos sem a menor informação sobre o que significa o trabalho parlamentar. Ninguém conhece ninguém. Dia desses, em uma das reuniões dos grupos de trabalho, passou um senhor de terno e gravata e imediatamente vários recém-eleitos pediram que trouxesse água. Não era garçom, mas um deputado bolsonariano.
A única bandeira que os une é a do antipetismo e os gritos de guerra de manter Lula preso ou eliminado. Não há consenso nem mesmo no campo das ideias reacionárias. Por exemplo, como fazer com evangélicos que defendem aborto? Tem que tirar. Mas como?
O único grupo articulado é o dos militares da infraestrutura, comandados pelo general da reserva Oswaldo Ferreira, com a cabeça desenvolvimentista de Ernesto Geisel. Eles têm acesso direto e irrestrito a Bolsonaro e já se constituem em um facho de racionalidade em meio ao caos.
Se fortalecerão mais ainda depois que caiu a ficha de Bolsonaro – e da legião estrangeira que o cerca - sobre o enorme erro de entregar o Ministério da Justiça de porteira fechada para o juiz Sérgio Moro. Especialmente depois que seu modelo, Donald Trump, demitiu sumariamente o Procurador Geral de Justiça, por não concordar com suas ações. Bolsonaro criou um Ministro indemissivel. O que acontecerá quando ele quiser colocar na cadeia algum aliado estratégico de Bolsonaro? Bolsonaro colocou no cargo mais estratégico do governo um Ministro indemissível. E houve quem saudasse o convite como um lance de genialidade de Bolsonaro.
O exemplo de Trump, desde o início atacado pela justiça e pela mídia, consolidou em algumas alas de olavetes a crítica à Lava Jato e ao partido da justiça.
Muitas das batatadas, Bolsonaro deve aos seus gurus internéticos. Já as correções nas declarações estapafúrdias, os fachos de racionalidade – como voltar atrás na questão do Mercosul, do Meio Ambiente ou da embaixada em Jerusalém – são atribuídas aos conselhos dos militares.
Dia desses, no entanto, houve a maior saia justa. O general Oswaldo fez uma longa explanação sobre a necessidade de investimentos nos diversos modais, o ferroviário, o rodoviário, o portuário, o fluvial. Quando ousou dizer o óbvio – nos locais em que não houver investimento privado, será necessário aportar investimento público – foi apartado pelo príncipe Luiz Phillippe de Orleans e Bragança, que teve um chilique, acusando-o de estar sendo influenciado por ideias comunistas.
Partiu dos militares a sugestão de criar uma Casa Civil da Infraestrutura, sob o comando do general Oswaldo, diretamente ligada à Presidência, para coordenar os Ministérios dos Transportes, Minas e Energia e Telecomunicações.
Um ponto de convergência geral, aliás, é a constatação de que o astronauta Marcos Cesar Pontes – nomeado Ministro da Ciência e Tecnologia – é alienígena que vive no mundo da lua. No início, impressionou pelo domínio do inglês. Depois, caiu a ficha que o inglês servia apenas para o astronauta dizer tolices em duas línguas.
Outra decepção foi com o superministro da Economia Paulo Guedes.
No início, os olavetes, os militares, os youtubers, todos apostavam na genialidade de Guedes. Agora,  passaram a vê-lo como um trapalhão. Primeiro, quando foi afrontar o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, demonstrando ignorância em relação ao be-a-bá do orçamento: o orçamento de um ano é aprovado no ano anterior. Ou seja, o primeiro orçamento de Bolsonaro depende da atual composição do Congresso. Por isso não é de bom alvitre afrontar o presidente do Senado.
Depois, quando falou que o Banco do Brasil seria comprado pelo Bank foi America. Guedes não tinha a menor ideia de que um dos aliados mais influentes de apoio a Bolsonaro, o pessoal que garantiu o financiamento privado de campanha por todo o país  – o agronegócio – não vive sem o Banco do Brasil.
Depois que Guedes passou a se desdizer tanto quanto o capitão, as diversas alas bolsonarianas desiludiram-se. Os olavetes deram-se conta da terrível realidade de que o capitão não é  muito letrado nem intuitivo. Não é um um ideológico racional, formulador. Foram, então,  atrás da mediação dos filhos, até cair na real de que os filhos só sabiam mesmo detonar aliados pelo Twitter. Foi o que ocorreu com o infeliz que se apresentou como marqueteiro de Bolsonaro, foi desmentido pelo filho, demitido da equipe de transição e, como bom marqueteiro, anunciou que deixava a equipe para se dedicar a trabalhos voluntários na equipe que o dispensou.
Balaços pelo Twitter é o de menos. Internamente, há uma guerra de dossiês. Basta alguém sugerir um nome para o governo para meia hora depois aparecer um dossiê contra o candidato, em geral apresentando pelo vice-presidente, general Mourão.
Foi um dossiê que derrubou a candidatura a vice do príncipe de Orleans e Bragança, um sujeito ultraconservador, mas de pensamento articulado – que fez a cabeça de Bolsonaro com a brilhante constatação de que o início do fim do país foi a Constituição de 1988. Ah, e o golpe da Proclamação da República.
A candidatura do príncipe soçobrou devido a questões pessoais menores que, em nenhum outro ambiente, seriam motivo para vetos. O que menos pesou foi o fato de, na juventude, ele ter sido skinhead.