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domingo, 16 de fevereiro de 2014

a nata do luxo

 

 fotos Rubens Venancio

Luxo da Aldeia é um bloco de (pré-)carnaval de Fortaleza que busca, através de seu repertório, homenagear os compositores cearenses de nascimento ou de coração. O nome do grupo é citação de um verso da música "Terral", de Ednardo, que considero um hino que simboliza a música cearense a partir da década de 70, gravada em "Ednardo e o Pessoal do Ceará - Ingazeiras", elepê de 1973.

O paraibano Chico Cesar, um cearense de coração, digamos assim bem dito, deu ontem seu auxílio luxuoso na apresentação do grupo no Kukukaya Casa de Show, em Fortaleza. Encontro marcante. 


Luxo da Aldeia é um dos entrevistados para o meu documentário longa "Pessoal do Ceará". Só a nata da aldeia, aldeia, aldeota, onde estou batendo na porta com minha câmera pra lhe aperrear...

sábado, 13 de abril de 2013

Fortaleza ao longe

"não não não aquele mar não é o mar
sequer um postal noturno do mucuripe
enviado por um parente em algum sonho
são luzes, apenas

são meus olhos, apenas

ali não há barcos
nem peixes
nem o rapaz
que namorava
'sem ter medo da saudade
e sem vontade de casar'.”


Certa vez, aqui em Brasília, avistei o horizonte noturno da janela do oitavo andar. Luzes piscavam ao longe como barcos lentos no mar. Por um instante tive a certeza que estava em Fortaleza, que via o Atlântico em Fortaleza, que barcos vinham me buscar para Fortaleza. Eu subiria num pier no Lago Paranoá e ouvindo "Terral" do Ednardo, navegaria até o Mucuripe.

E escrevi esses versos, que estão no livro "A paisagem e a distância - poemas sobre Brasília e outras ilhas".

A saudade tem desses delírios. A saudade cria vontades e imagens. A saudade, ao contrário da música, dá vontade de casar.

Hoje é aniversário da cidade de Fortaleza, 287 anos. A morena desposada do sol - assim prefiro.

Daqui do cerrado meu peito cerrado de lembranças lhe abraça, Fortaleza.

quarta-feira, 20 de março de 2013

nosso choro de Nazareth

O pesquisador musical Luiz Antonio de Almeida, 51 anos, trabalhou 30 anos na biografia do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). O livro está pronto há sete e ainda não foi publicado por total desinteresse das editoras.

Essa informação está na ótima reportagem de capa do caderno Diversão&Arte, edição de hoje do Correio Braziliense. Um dos nossos maiores músicos faria 150 anos nesta quarta-feira. Autor de clássicos que estão no nosso imaginário, como "Odeon", "Apanhei-te cavaquinho", "Brejeiro", "Dengoso", Nazareth é de importância fundamental na história da música brasileira, influenciou gerações, como o exímio violista gaúcho Yamandu Costa, 33 anos, que fez uma definição precisa do mestre: "ele mistura o suingue negro com a música europeia, e daí sai o choro, essa linguagem que caracteriza o nosso povo."

Do que foi publicado sobre o grande compositor, autor de mais 300 canções, conheço o livro de Haroldo Costa, "Ernesto Nazareth - Pianeiro do Brasil", 2005, e o de José Miguel Wisnik, “Machado Maxixe”. In: Sem receita – Ensaios e canções", 2004.
Pelo li na matéria do Correio, creio que o inédito de Luiz Antonio de Almeida, seja a biografia definitiva do compositor, que teve um fim de vida trágico, aos 70 anos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

chegam nessa hora agora

Nesta tarde de quinta-feira recebo uma ligação celular do meu caro Adeilton Lima: só pra dizer que a caminho da casa de sua mãe para uma visita, ouvia no rádio Fagner cantando "Manera Frufru" e lembrou de mim... e como os amigos se pertencem e o universo cuida dessa sintonia, estava justamente dando uns ajustes finais no projeto do longa documentário "Pessoal do Ceará", que devo continuar as filmagens neste ano.

Nesses momentos a vida dá um sacolejo nos seus significados. As boas energias se conectam e "estrela, sol e astro, lua / chegam nessa hora agora / para louvar / santa alma branca / centauro fru fru / fru fru manera...", como diz a letra no disco que, não à toa a coincidência, faz em maio próximo 40 anos que foi lançado.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

meu amigo Firmino

Essa figuraça aí na foto é um dos meus melhores amigos em Fortaleza: Firmino Holanda, pesquisador, crítico e professor de cinema, cineasta, roteirista, músico, tem uma coleção de vinil riquíssima, e um dos papos mais inteligentes e lúcidos sobre tudo.

Desde os anos 70, quando começamos a fazer filmes em Super-8, que nossa amizade se firmou, pra usar aqui um trocadilho com seu nome. Não conheço outra pessoa mais apaixonada por Glauber Rocha. Veneração total. Nas longas horas em que ficávamos conversando e ouvindo música em sua casa, eu brincava dizendo que ele se benzia ao passar diante de um enorme poster do cineasta baiano fixado na seu quarto-biblioteca. Igual a mim, Firmino é um "catador de papel", guardamos pastas e pastas com recortes de jornais e revista sobre cinema, e trocávamos matérias repetidas.

Outra paixão de Firmino é Orson Welles, e por conta disso publicou o livro "Orson Welles no Ceará", em 2001, uma pesquisa que considero a mais completa e definitiva sobre a passagem do cineasta em terras alencarinas para rodar "It's All True". Escreveu ainda "Benjamin Abraão - Juazeiro, cinema e cangaço", em 2000, outra maravilha de leitura sobre o fotógrafo que filmou Lampião.
Ano passado participou na pesquisa para o ótimo "Cartografia do Audiovisual Cearense", organizado por Luiz Bizerril.

Firmino como músico é uma agradável surpresa: faz trilhas que entendo como arranjos secos e ao mesmo tempo minimalistas.

Louco por Frank Zappa, perguntei-lhe uma vez qual o disco que ele mais gosta do roqueiro de Baltimore, ele respondeu: "todos".

O cineasta Petrus Cariry é um felizardo por ter o Firmino em seus filmes, como roteirista e montador.

Firmino não tem Facebook, não usa celular, nem sequer e-mail. Nem viaja. A saída mais longa dele foi de Fortaleza a Juazeiro, ou foi Crato, e faz tempo.
Computador, para escrever, claro. E apenas. Quando quero falar com ele, telefone fixo, ou mando recado por amigos em comum, como agora: mostra a ele esta postagem, Petrus.

Resolvi escrever sobre meu amigo querido e singular porque, pesquisando sobre cinema cearense, encontrei algumas fotos suas, que nem imaginava. Disso ele não pode se livrar: está na rede nem que não queira.

Abraço grande, meu caro!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

a certeza na frente, a história na mão

 
 
"O problema é que você quer falar com Geraldo Vandré. E Geraldo Vandré não existe mais, foi um pseudônimo que usei até 1968." 


É o que diz Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, 75 anos no último dia 12, quando o procuram. O mitológico autor de "Pra não dizer que não falei de flores" continua recluso em um pequeno apartamento em São Paulo, arrodeado de livros e um violão.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a celebração dos balcãs

 
 foto Divulgação
O festival Cena Contemporânea, em Brasília, que começou dia 25 de agosto,  encerrou ontem à noite de forma apotéotica, magnífica!  A apresentação do músico servo-bósnio Goran Bregovic e sua Orquestra Para Casamentos e Funerais, na área externa do Museu Nacional da República, foi um dos espetáculos mais emocionantes a que assisti. Impossível agora calcular a quantidade enorme do público presente, todos em estado de êxtase com a música envolvente desse grande artista.
Foram duas horas de show. O bis foi outro show à parte. Goran e seus músicos não conseguiam sair do palco, "presos" aos aplausos e gritos da platéia.
Goran, autor de trilhas dos filmes de Emir Kusturica, como "Arizona dreams" e  "Underground", sempre foi um dos músicos mais populares do seu país, desde sua banda Botão Branco, lá pelos anos 70.
Graças a ele, a música balcânica foi apresentada ao mundo e influenciou muita gente boa, como os americanos do Beirut, os brasileiros André Abujamra e Móveis Colonias de Acaju e muitos DJs. Ele mescla de forma brilhante a sonoridade da música folclórica balcânica com acordes modernos. Sua orquestra é composta pelo volume de metais ciganos, vozes tradicionais da Bulgária, percursão típica da região montanhosa, cordas e um elegante coro masculino proveniente das igrejas ortodoxas e cristãs. Esse saboroso encontro profano da loucura cigana com o erutido religioso é que caracteriza a singularidade da música de Goran.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Little boy



Lembro-me que em 2007 o Ministro da Defesa japonês, Fumio Kyuma, disse que era “inevitável” que os Estados Unidos lançassem duas bombas atômicas sobre o Japão durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Isso teria evitado que a União Soviética entrasse também na batalha do Pacífico. Mas o que é isso, sr. Kyuma? Pelo amor de Buda!

O cara com seus olhinhos miúdos e raciocínio idem, considerava, e deve pensar ainda, que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki conseguiram “acelerar o fim da guerra”. Essas declarações absurdas repercutiram muito mal entre os sobreviventes e seus descendentes, claro, e incomodaram o primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Há exatos 65 anos, às 8h15 do dia 6 agosto de 1945, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente cem mil pessoas. O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas. E o sr. Kyuma vem com um papo desse!

Do outro lado, onde o império sempre atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta -, as justificativas são igualmente doentias. Ao longo dessas seis décadas do lançamento das duas bombas pelo governo dos EUA, é cada vez mais repudiante a conversa dos americanos para esse genocídio.

Theodore "Dutch" J.Van Kirk, era major-aviador do avião Enola Gay, bombardeiro B-29 que lançou a coisa. Deve está com mais de oitenta anos. Do alto da sua senilidade arrogante, não se arrepende do que fez, e dizia que passou um bom tempo se preparando para o momento, e que "foi uma das missões mais fáceis" da sua vida. Esse senhor do voo da morte, pelo que li recentemente, vive em um luxuoso asilo na Geórgia, lustrando as 15 Medalhas Aéreas que ganhou após a "missão". Deve receber sempre a visita do tal ministro japonês para um chazinho verde com cookies...

O bombardeio sobre o Japão foi o maior ataque terrorista da história. No mínimo 50 vezes mais letífero que o 11 de setembro de 2001. Muitas imagens dos efeitos do cogumelo de fogo ficaram na lembrança de todos. Imagens como essa foto do garotinho chorando entre os destroços. Garotinho, que ironicamente é a tradução literal do nome da bomba.

Vinicius de Moraes traduziu bem o que resultou da estupidez humana em seu poema "Rosa de Hiroshima", que Gerson Conrad, do grupo Secos e Molhados, musicou em 1973:

Pensem nas crianças
mudas telepáticas
pensem nas meninas
cegas inexatas
pensem nas mulheres
rotas alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas
mas oh não se esqueçam
da rosa da rosa
da rosa de Hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atômica
sem cor sem perfume
sem rosa sem nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Assim seja!

 Padrasto Nosso

Elvis Presley que estais no céu
muito escutado seja Bill Haley
venha a nós o Chuck Berry
seja feito som à vontade
assim como Hendrix, Sex Pistols e Rolling Stones.
Rock and roll que a cada dia melhora
escutai sempre Clapton e Neil Young
assim como Pink Floyd e David Bowie
Muddy Waters e The Monkeys.
E não nos deixar cair o volume do som
quando ouvirdes Black Sabath
mas livrai-nos do axé.
Amém!

Pedro Saulo de Souza, poeta brasiliense, em seu livro "Turnê de sentidos"

domingo, 25 de julho de 2010

tudo pode dar certo?

 Woody Allen dirige Evan Rachel Wood e Larry David
foto California Productions
Dizem que Woody Allen é repetitivo, que cada filme é mais do mesmo, que é verborrágico, discursivo sem vírgulas, encucado metido a engraçado.  Não vejo assim. O cineasta nova-iorquino é, sobretudo, original, fidelíssimo aos seus conceitos, não faz manobras para expor seu ponto de vista. O cinema de Woody Allen, principalmente os filmes realizados a partir dos anos 80, trazem um conteúdo filosófico inquietante e admirável. E essas reflexões da realidade são expressas de maneira sensata, divertida, de humor quase negro e indiscutivelmente inteligente.
Woody Allen não é um "comediante", por mais que sua cara deponha em contrário, e mesmo quando não protagoniza seus filmes. Por trás daqueles óculos de lentes grossas (sua marca registrada) de um homem franzino, bate um coração cheio de dúvidas, interrogações e nenhuma resposta. O que Allen questiona em seus filmes são perguntas que necessariamente não precisam de refutação. Seu cinema não é um talk show filosófico, não é um Quiz como teste de conhecimentos sobre a esquisitice da raça humana. Em cada filme o cineasta parte de si mesmo, e desse ponto nevrálgico parte do homem como ser complexo, parte da vida como algo que não faz sentido, ou se sentido há, é sempre movido a perplexidade.
Amor, paixão, sexo, religião, neuroses comportamentais, relacionamentos afetivos e outros precipícios, são temas pontuais nos mais de quarenta títulos de Woody Allen, que tem a sorte de poder realizar no mínimo um filme por ano, e assim pôr à vista seus diálogos analíticos.
Seu mais recente trabalho, "Tudo pode dar certo" (Whatever works), em cartaz em algum cinema que se preze, é mais um belíssimo testemunho de um artista que não cede à passividade, e prefere a crítica mordaz à aceitação do que é só porque assim lhe parece.  No filme um sessentão, ex-professor universitário, separado, solitário, considera-se ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Inicialmente vemos o personagem como um rabugento, mau humorado, grosseiro, e podemos até continuar achando, mas é impossível não sucumbir aos questionamentos colocados de forma espirituosa, e se envolver com as situações que se sucedem ao longo da história. O humor que se observa no filme é refinado e ao mesmo tempo ácido, cru, implacável.  Fundamentalistas cristãos, judeus e evangélicos, ricos e pobres, homens e mulheres, não escapa ninguém, não há perdão para o chato.
Amante do jazz, Woody Allen capricha cada vez mais na trilha sonora. E dessa vez ouve-se "Desafinado" de Tom Jobim e Newton Mendonça, numa versão de Stan Getz, e "Menina Flor", de Luiz Bonfá, por ninguém menos que o grande  Charlie Bird.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

o último choro

Sábado passado, Paulo Moura tocou "Doce de côco" em sua clarineta, ao lado de Wagner Tiso, parentes, amigos, e pacientes da Clínica São Vicente, no Rio, onde estava internado. Foi seu último choro. O nosso continua.



Despedida from Eduardo Escorel on Vimeo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

o silêncio da clarineta

 
 foto Joaquim Branco
Este ano está sendo cruel com as artes... o outro lado de lá levando mais um de nossos artistas. 
Ontem foi embora o grande clarinetista Paulo Moura, aos 77 anos. Tive a felicidade de não somente assistir a vários de seus shows, como de conhecê-lo pessoalmente e tomar uma cachacinha no bar Estoril, templo de muitos boêmios e artistas na década de 70, em Fortaleza. A simplicidade dele foi o que me encantou, como se fosse pouco a grandiosidade de sua música que já tinha me conquistado.
Segundo seu amigo André Vallias, no site do compositor, onde há um comovente depoimento, sábado passado ele ainda conseguiu reunir forças para tocar uma última música - "Doce de côco", de Jacob do Bandolim e Hermínio de Carvalho - com seu parceiro de longa data Wagner Tiso, ao lado da sua mulher, filho, sobrinho, amigos, admiradores, e alguns pacientes da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde 4 de julho, maravilhados com aquela inusitada celebração musical.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

nossos destinos foram traçados

Exatamente hoje quando completam 20 anos de morte de Cazuza, morre o jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, 74 anos, o seu grande amigo, responsável pelo começo da carreira do "Exagerado".

No filme "Cazuza - O tempo não para", de Walter Carvalho e Sandra Werneck, Ezequiel é interpretado por Emilio de Mello.

Um dia vestido de saudade viva

 

Faleceu ontem em Brasília, de insuficiência respiratória, o compositor piauiense Clésio Ferreira, que com os irmãos Clodo e Climério formou o grupo referência para muitos cantores que surgiram na década de 70, como Fagner, que gravou "Revelação", sem dúvida o primeiro grande sucesso do cantor cearense.

Clésio (a da direita na capa do vinil de 1978), tinha 65 anos.