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sábado, 13 de abril de 2013

Fortaleza ao longe

"não não não aquele mar não é o mar
sequer um postal noturno do mucuripe
enviado por um parente em algum sonho
são luzes, apenas

são meus olhos, apenas

ali não há barcos
nem peixes
nem o rapaz
que namorava
'sem ter medo da saudade
e sem vontade de casar'.”


Certa vez, aqui em Brasília, avistei o horizonte noturno da janela do oitavo andar. Luzes piscavam ao longe como barcos lentos no mar. Por um instante tive a certeza que estava em Fortaleza, que via o Atlântico em Fortaleza, que barcos vinham me buscar para Fortaleza. Eu subiria num pier no Lago Paranoá e ouvindo "Terral" do Ednardo, navegaria até o Mucuripe.

E escrevi esses versos, que estão no livro "A paisagem e a distância - poemas sobre Brasília e outras ilhas".

A saudade tem desses delírios. A saudade cria vontades e imagens. A saudade, ao contrário da música, dá vontade de casar.

Hoje é aniversário da cidade de Fortaleza, 287 anos. A morena desposada do sol - assim prefiro.

Daqui do cerrado meu peito cerrado de lembranças lhe abraça, Fortaleza.

quarta-feira, 20 de março de 2013

nosso choro de Nazareth

O pesquisador musical Luiz Antonio de Almeida, 51 anos, trabalhou 30 anos na biografia do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). O livro está pronto há sete e ainda não foi publicado por total desinteresse das editoras.

Essa informação está na ótima reportagem de capa do caderno Diversão&Arte, edição de hoje do Correio Braziliense. Um dos nossos maiores músicos faria 150 anos nesta quarta-feira. Autor de clássicos que estão no nosso imaginário, como "Odeon", "Apanhei-te cavaquinho", "Brejeiro", "Dengoso", Nazareth é de importância fundamental na história da música brasileira, influenciou gerações, como o exímio violista gaúcho Yamandu Costa, 33 anos, que fez uma definição precisa do mestre: "ele mistura o suingue negro com a música europeia, e daí sai o choro, essa linguagem que caracteriza o nosso povo."

Do que foi publicado sobre o grande compositor, autor de mais 300 canções, conheço o livro de Haroldo Costa, "Ernesto Nazareth - Pianeiro do Brasil", 2005, e o de José Miguel Wisnik, “Machado Maxixe”. In: Sem receita – Ensaios e canções", 2004.
Pelo li na matéria do Correio, creio que o inédito de Luiz Antonio de Almeida, seja a biografia definitiva do compositor, que teve um fim de vida trágico, aos 70 anos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

o fôlego marginal

No ar o número 5 da revista Rebosteio, excelente, inquieta, provocante, reflexiva publicação eletrônica editada pelos caros amigos Rubens Guilherme Pesenti, Mercedes Lorenzo e Willian Delarte, figuras brilhantes da cena paulistana.

Temática a cada fôlego, essa edição discute a cultura de rua, a marginal, a periferia, através de reportagens, ensaios, críticas, poemas, fotografias. Vibrante!

E mais uma vez tenho a oportunidade de estar por lá. Escrevi sobre o filme que me impressionou muito, "Eles voltam", de Marcelo Lordello, vencedor do Festival de Brasília ano passado. Inédito ainda no circuito comercial, o longa concorre esta semana ao prêmio Hivos Tiger, no prestigiado Festival de Internacional de Cinema de Roterdã, em Amsterdã.

Leia aqui: http://issuu.com/rebosteiodigital/docs/rebosteio_5_-_web

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

a mulher de longe

Hoje, na Cinemateca Brasileira, São Paulo, pré-estreia do novo filme de Luiz Carlos Lacerda "A mulher de longe", uma reconstituição poética do filme inacabado dirigido pelo escritor mineiro Lucio Cardoso, a partir de imagens originais e diários das filmagens, rodado em 1949.

Sabe-se que o filme ficou desaparecido por quase 60 anos. A Cinemateca localizou os copiões e Lacerda, que em 1971 dirigiu o ótimo "Mãos vazias", inspirado no romance de Cardoso, fez um documentário onde recria toda a história da busca de locações, os problemas com chuvas, equipe e as razões para a desistência do escritor em interromper as filmagens do seu primeiro e único trabalho como cineasta.

Meu caro Bigo, pena que seu amigo aqui de longe não poderá ir a exibição hoje.
Mais detalhes na programação da Cinemateca

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

meu amigo Firmino

Essa figuraça aí na foto é um dos meus melhores amigos em Fortaleza: Firmino Holanda, pesquisador, crítico e professor de cinema, cineasta, roteirista, músico, tem uma coleção de vinil riquíssima, e um dos papos mais inteligentes e lúcidos sobre tudo.

Desde os anos 70, quando começamos a fazer filmes em Super-8, que nossa amizade se firmou, pra usar aqui um trocadilho com seu nome. Não conheço outra pessoa mais apaixonada por Glauber Rocha. Veneração total. Nas longas horas em que ficávamos conversando e ouvindo música em sua casa, eu brincava dizendo que ele se benzia ao passar diante de um enorme poster do cineasta baiano fixado na seu quarto-biblioteca. Igual a mim, Firmino é um "catador de papel", guardamos pastas e pastas com recortes de jornais e revista sobre cinema, e trocávamos matérias repetidas.

Outra paixão de Firmino é Orson Welles, e por conta disso publicou o livro "Orson Welles no Ceará", em 2001, uma pesquisa que considero a mais completa e definitiva sobre a passagem do cineasta em terras alencarinas para rodar "It's All True". Escreveu ainda "Benjamin Abraão - Juazeiro, cinema e cangaço", em 2000, outra maravilha de leitura sobre o fotógrafo que filmou Lampião.
Ano passado participou na pesquisa para o ótimo "Cartografia do Audiovisual Cearense", organizado por Luiz Bizerril.

Firmino como músico é uma agradável surpresa: faz trilhas que entendo como arranjos secos e ao mesmo tempo minimalistas.

Louco por Frank Zappa, perguntei-lhe uma vez qual o disco que ele mais gosta do roqueiro de Baltimore, ele respondeu: "todos".

O cineasta Petrus Cariry é um felizardo por ter o Firmino em seus filmes, como roteirista e montador.

Firmino não tem Facebook, não usa celular, nem sequer e-mail. Nem viaja. A saída mais longa dele foi de Fortaleza a Juazeiro, ou foi Crato, e faz tempo.
Computador, para escrever, claro. E apenas. Quando quero falar com ele, telefone fixo, ou mando recado por amigos em comum, como agora: mostra a ele esta postagem, Petrus.

Resolvi escrever sobre meu amigo querido e singular porque, pesquisando sobre cinema cearense, encontrei algumas fotos suas, que nem imaginava. Disso ele não pode se livrar: está na rede nem que não queira.

Abraço grande, meu caro!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

vermelho azulado

Receber um bom livro, de um grande amigo, com uma dedicatória especial é de iluminar o dia! O escritor Nilto Maciel me manda de minha Fortaleza o seu novo livro de contos, "Luz vermelha que se azula", um belíssimo título, com um projeto gráfico à altura, de Raymundo Netto.

E para completar esta quarta-feira com o Ceará invadindo o meu peito no sertão do cerrado, assisto hoje às 18h a peça "Rá!", de e com Ricardo Guillherme, no CCBB Brasília, na abertura da mostra de teatro Cena Contemporânea.

sábado, 11 de setembro de 2010

é tudo verdade


 - O que você estava fazendo no momento dos ataques às Torres Gêmeas?
Eu estava em casa, lendo "Orson Welles no Ceará", de Firmino Holanda. Minha mulher me ligou dizendo apavorada "liga a tv!". Deixei Orson Welles nos mares bravios alencarinos, continuando o ainda inacabado "It's all true",marcado por uma tragédia nas filmagens: a morte de Jacaré, líder político dos jangadeiros, no início dos anos 40. 
Deixei de lado o cidadão Kane e fui ao seu país, acompanhar ao vivo outra tragédia que mudaria definitivamente o século XX para este em que estamos vivendo sob o domínio do medo, sob a incontrolável ganância de quem detém o poder em seus botões, tempo de partidos, de homens partidos, como diria Drummond.
Meu filho tinha quatro anos e me agarrei a ele como quem se abraça à esperança, como quem suplica a paz. Ele assistia às torres caindo com o mesmo interesse que assistia aos desenhos dos super-heróis americanos. Não entendia bem o meu pavor e eu entendi bem a sua inocência.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

o século passado a limpo

"Se quisermos compreender o mundo do qual acabamos de emergir, precisamos ter em mente o poder das idéias."

Do historiador e escritor inglês Tony Judt, um dos maiores pensadores de todos os tempos, em seu livro "Reflexões sobre um século esquecido - 1901-2000", um conjunto de ensaios, recentemente lançado no Brasil.

O autor faleceu há um mês, depois de dois anos resistindo à terrível doença neurodegenerativa progressiva, a mesma do físico Stephen Hawking.

Outro livro muito bom de Tony Judt é "Pós-Guerra - Uma história da Europa desde 1945", de 2006.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

quando eu me chamar saudade

 "Foi uma sacanagem a forma que me expulsaram do Itamaraty!", disse o poeta Vinicius de Moraes, lá pelos anos 70, a respeito de sua saída compulsória, definitiva e sumária dos quadros do Ministério das Relações Exteriores na época da ditadura. 

Após 26 anos de serviços prestados ao Itamaraty, o poeta foi "aposentado" pelo regime militar em 1968, já como resultado da promulgação do AI-5. O general-presidente de plantão, Costa e Silva, exigia o desligamento do serviço público de "bêbados, boêmios e homossexuais". Brincalhão, Vinicius disse "eu sou o bêbado". O ministro Magalhães Pinto foi curto e grosso: "demita esse vagabundo!".

Com a exoneração o poeta ficou muito magoado e deprimido. Extravasou seus sentimentos na poesia e na música. Na língua nagô a expressão "na tonga da milonga do kabuletê", gravada em 1970 em parceria com Toquinho, significa algo como "vão todos à merda!" Curto e diplomático.

Hoje, em Brasília, o poeta será promovido pelo chanceler Celso Amorim à condição de Embaixador do Brasil, com a presença de parentes e amigos, como a cantora Miúcha. 

Em algum cantinho em bom lugar, o nosso eterno poetinha deve estar curtindo, com seu uisquinho, essa tardia reparação, embora ele nunca tenha deixado de ser o que lhe tomaram, pois dizia-se "eu, o capitão do mato, Vinicius de Moraes, poeta e diplomata."

A benção, meu mestre!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Little boy



Lembro-me que em 2007 o Ministro da Defesa japonês, Fumio Kyuma, disse que era “inevitável” que os Estados Unidos lançassem duas bombas atômicas sobre o Japão durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Isso teria evitado que a União Soviética entrasse também na batalha do Pacífico. Mas o que é isso, sr. Kyuma? Pelo amor de Buda!

O cara com seus olhinhos miúdos e raciocínio idem, considerava, e deve pensar ainda, que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki conseguiram “acelerar o fim da guerra”. Essas declarações absurdas repercutiram muito mal entre os sobreviventes e seus descendentes, claro, e incomodaram o primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Há exatos 65 anos, às 8h15 do dia 6 agosto de 1945, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente cem mil pessoas. O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas. E o sr. Kyuma vem com um papo desse!

Do outro lado, onde o império sempre atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta -, as justificativas são igualmente doentias. Ao longo dessas seis décadas do lançamento das duas bombas pelo governo dos EUA, é cada vez mais repudiante a conversa dos americanos para esse genocídio.

Theodore "Dutch" J.Van Kirk, era major-aviador do avião Enola Gay, bombardeiro B-29 que lançou a coisa. Deve está com mais de oitenta anos. Do alto da sua senilidade arrogante, não se arrepende do que fez, e dizia que passou um bom tempo se preparando para o momento, e que "foi uma das missões mais fáceis" da sua vida. Esse senhor do voo da morte, pelo que li recentemente, vive em um luxuoso asilo na Geórgia, lustrando as 15 Medalhas Aéreas que ganhou após a "missão". Deve receber sempre a visita do tal ministro japonês para um chazinho verde com cookies...

O bombardeio sobre o Japão foi o maior ataque terrorista da história. No mínimo 50 vezes mais letífero que o 11 de setembro de 2001. Muitas imagens dos efeitos do cogumelo de fogo ficaram na lembrança de todos. Imagens como essa foto do garotinho chorando entre os destroços. Garotinho, que ironicamente é a tradução literal do nome da bomba.

Vinicius de Moraes traduziu bem o que resultou da estupidez humana em seu poema "Rosa de Hiroshima", que Gerson Conrad, do grupo Secos e Molhados, musicou em 1973:

Pensem nas crianças
mudas telepáticas
pensem nas meninas
cegas inexatas
pensem nas mulheres
rotas alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas
mas oh não se esqueçam
da rosa da rosa
da rosa de Hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atômica
sem cor sem perfume
sem rosa sem nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Assim seja!

 Padrasto Nosso

Elvis Presley que estais no céu
muito escutado seja Bill Haley
venha a nós o Chuck Berry
seja feito som à vontade
assim como Hendrix, Sex Pistols e Rolling Stones.
Rock and roll que a cada dia melhora
escutai sempre Clapton e Neil Young
assim como Pink Floyd e David Bowie
Muddy Waters e The Monkeys.
E não nos deixar cair o volume do som
quando ouvirdes Black Sabath
mas livrai-nos do axé.
Amém!

Pedro Saulo de Souza, poeta brasiliense, em seu livro "Turnê de sentidos"

sexta-feira, 23 de julho de 2010

cofre

 foto Pomankn

 Quando quiseres
venhas
e gires com as pontas dos dedos
o meu coração.

Encontrarás
teus segredos nos meus olhos abertos.

Guardo no peito
o íntimo
de quem se achega.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 22 de julho de 2010

a excêntrica família Mann



Quem nunca leu Thomas Mann, vai querer depois de ler "Na rede dos magos - uma outra biografia da família Mann", da escritora e socióloga Marianne Krüll, alemã como os famosos retratados em seu livro, um volume de 500 deleitáveis páginas. Não poderia ser diferente. Para abordar a saga, aliás, a rede em que se enreda a família de escritores seria necessário mesmo uma pesquisa de grande fôlego.
O livro é primoroso. Escrito a partir da leitura de cartas, documentos, diários, relatos, fatos, a autora durante nove anos construiu uma obra de análise psicológica e sociológica sobre os membros de uma família cheia de estranheza, e que fazem parte do que há de mais interessante na literatura mundial do século XX. O suicídio de Klaus Mann em 1949, em plena Cannes, na Côte d'Azur, é o tema do capítulo que abre o livro. Klaus era filho de Thomas, que estava em uma conferência em Estocolmo quando soube da notícia.
Li pouca coisa de Heinrich Mann, irmão de Thomas, mas deste tenho na estante e na memória pelo menos cinco bons livros, "Os Buddenbrook", "Doutor Fausto", "Felix Krull", "Cabeças trocadas" e o clássico "A montanha mágica", um dos dez livros que eu levaria se tivesse que me exilar em Marte.
Nas minhas garimpagens por sebos e promoções, encontrei o livro de Marianne Krüll numa dessas Lojas Americanas, por R$ 9,90! Ali, perdido entre livros de culinárias e auto-ajuda. A obra teve sua primeira edição em 1991, na Alemanha. No Brasil creio que sete anos depois é que foi lançada pela Nova Fronteira, e já algum tempo eu não achava nas livrarias invadidas por crepúsculos e eclipses.

Acima, os irmãos Heinrich (D) e Thomas, em foto tirada por volta de 1900.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

futebol é uma caixinha de surpresas


Em tempo de Copa, algumas curiosidades surpreendentes.
Albert Camus dizia que preferia assistir qualquer partida de futebol a ir ao teatro. O grande escritor franco-argelino, autor de obras como "O estrangeiro", "O mito de Sísifo", "A peste", prêmio Nobel em 1957, foi goleiro durante dois anos do Racing de Argel. As crônicas desportivas da época faziam referência à sua bravura e ao seu espírito de liderança em campo. Durante uma palestra no Brasil, na década de 40, pediu que o levassem para ver um jogo de futebol. Só não seguiu a carreira esportiva porque teve tuberculose e foi obrigado a parar.

E essa observação "existencialista" é bastante interessante: Jean-Paul Sartre dizia que no futebol o que complicava era a presença da equipe adversária. Não deixa de ser uma variação atenuada de sua máxima que desenvolvia a tese de que "o inferno são os outros".


Fernando Pessoa viveu dos sete anos de idade até a adolescência na África do Sul, mais exatamente em Durban, uma das sedes deste Mundial. Foi para lá em virtude do segundo casamento da mãe com o cônsul de Portugal. Aprendeu inglês e era visto como um rapaz esquisito. Preferiu voltar para a terra natal, morar com  a avó, criar seus heterônimos e fingir que o poeta é um fingidor.