TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

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sábado, 13 de abril de 2013

Fortaleza ao longe

"não não não aquele mar não é o mar
sequer um postal noturno do mucuripe
enviado por um parente em algum sonho
são luzes, apenas

são meus olhos, apenas

ali não há barcos
nem peixes
nem o rapaz
que namorava
'sem ter medo da saudade
e sem vontade de casar'.”


Certa vez, aqui em Brasília, avistei o horizonte noturno da janela do oitavo andar. Luzes piscavam ao longe como barcos lentos no mar. Por um instante tive a certeza que estava em Fortaleza, que via o Atlântico em Fortaleza, que barcos vinham me buscar para Fortaleza. Eu subiria num pier no Lago Paranoá e ouvindo "Terral" do Ednardo, navegaria até o Mucuripe.

E escrevi esses versos, que estão no livro "A paisagem e a distância - poemas sobre Brasília e outras ilhas".

A saudade tem desses delírios. A saudade cria vontades e imagens. A saudade, ao contrário da música, dá vontade de casar.

Hoje é aniversário da cidade de Fortaleza, 287 anos. A morena desposada do sol - assim prefiro.

Daqui do cerrado meu peito cerrado de lembranças lhe abraça, Fortaleza.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

o fôlego marginal

No ar o número 5 da revista Rebosteio, excelente, inquieta, provocante, reflexiva publicação eletrônica editada pelos caros amigos Rubens Guilherme Pesenti, Mercedes Lorenzo e Willian Delarte, figuras brilhantes da cena paulistana.

Temática a cada fôlego, essa edição discute a cultura de rua, a marginal, a periferia, através de reportagens, ensaios, críticas, poemas, fotografias. Vibrante!

E mais uma vez tenho a oportunidade de estar por lá. Escrevi sobre o filme que me impressionou muito, "Eles voltam", de Marcelo Lordello, vencedor do Festival de Brasília ano passado. Inédito ainda no circuito comercial, o longa concorre esta semana ao prêmio Hivos Tiger, no prestigiado Festival de Internacional de Cinema de Roterdã, em Amsterdã.

Leia aqui: http://issuu.com/rebosteiodigital/docs/rebosteio_5_-_web

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

chegam nessa hora agora

Nesta tarde de quinta-feira recebo uma ligação celular do meu caro Adeilton Lima: só pra dizer que a caminho da casa de sua mãe para uma visita, ouvia no rádio Fagner cantando "Manera Frufru" e lembrou de mim... e como os amigos se pertencem e o universo cuida dessa sintonia, estava justamente dando uns ajustes finais no projeto do longa documentário "Pessoal do Ceará", que devo continuar as filmagens neste ano.

Nesses momentos a vida dá um sacolejo nos seus significados. As boas energias se conectam e "estrela, sol e astro, lua / chegam nessa hora agora / para louvar / santa alma branca / centauro fru fru / fru fru manera...", como diz a letra no disco que, não à toa a coincidência, faz em maio próximo 40 anos que foi lançado.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

meu amigo Firmino

Essa figuraça aí na foto é um dos meus melhores amigos em Fortaleza: Firmino Holanda, pesquisador, crítico e professor de cinema, cineasta, roteirista, músico, tem uma coleção de vinil riquíssima, e um dos papos mais inteligentes e lúcidos sobre tudo.

Desde os anos 70, quando começamos a fazer filmes em Super-8, que nossa amizade se firmou, pra usar aqui um trocadilho com seu nome. Não conheço outra pessoa mais apaixonada por Glauber Rocha. Veneração total. Nas longas horas em que ficávamos conversando e ouvindo música em sua casa, eu brincava dizendo que ele se benzia ao passar diante de um enorme poster do cineasta baiano fixado na seu quarto-biblioteca. Igual a mim, Firmino é um "catador de papel", guardamos pastas e pastas com recortes de jornais e revista sobre cinema, e trocávamos matérias repetidas.

Outra paixão de Firmino é Orson Welles, e por conta disso publicou o livro "Orson Welles no Ceará", em 2001, uma pesquisa que considero a mais completa e definitiva sobre a passagem do cineasta em terras alencarinas para rodar "It's All True". Escreveu ainda "Benjamin Abraão - Juazeiro, cinema e cangaço", em 2000, outra maravilha de leitura sobre o fotógrafo que filmou Lampião.
Ano passado participou na pesquisa para o ótimo "Cartografia do Audiovisual Cearense", organizado por Luiz Bizerril.

Firmino como músico é uma agradável surpresa: faz trilhas que entendo como arranjos secos e ao mesmo tempo minimalistas.

Louco por Frank Zappa, perguntei-lhe uma vez qual o disco que ele mais gosta do roqueiro de Baltimore, ele respondeu: "todos".

O cineasta Petrus Cariry é um felizardo por ter o Firmino em seus filmes, como roteirista e montador.

Firmino não tem Facebook, não usa celular, nem sequer e-mail. Nem viaja. A saída mais longa dele foi de Fortaleza a Juazeiro, ou foi Crato, e faz tempo.
Computador, para escrever, claro. E apenas. Quando quero falar com ele, telefone fixo, ou mando recado por amigos em comum, como agora: mostra a ele esta postagem, Petrus.

Resolvi escrever sobre meu amigo querido e singular porque, pesquisando sobre cinema cearense, encontrei algumas fotos suas, que nem imaginava. Disso ele não pode se livrar: está na rede nem que não queira.

Abraço grande, meu caro!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

você que me diz a verdade com frases abertas

 foto Roach Studio

A amizade não exclui a sinceridade. Uma define a outra.
Amigo é quando a pessoa passa a existir dentro de você.
Se eu não posso falar dos seus defeitos, amigo, posso desconfiar quando você fala das minhas virtudes.
Se confrontar ideias é sinônimo de belicismo e dizer verdades a um amigo é decretar separação, é necessário repensar as amizades, e não recuar ideias e verdades.
Jean Cocteau dizia que "existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las." Eu achava que tinha conquistado esse direito com um amigo, ou "amigo".


Desde criança, quando comecei a assistir  "O gordo e o magro" não era somente a graça, o humor doce, ingênuo, que me fixava aos dois comediantes. O que igualmente me fascinava era o sentimento de amizade entre eles. Mesmo se eu lesse em alguma revista de cinema que os atores Oliver Hardy e Stan Laurel haviam brigado nos bastidores de filmagem, eu relevava, pois a pureza e a sinceridade na relação de amigos que eles passavam na tela eram maior que a realidade ou fofocas. Mas eu nunca soube de brigas da dupla. Eram amigos inseparáveis. 
Na biografia autorizada "Mr. Laurel and Mr. Hardy: An Affectionate Biography" escrita por John McCabe em 1961, há relatos de extrema sinceridade entre eles, um apontando os defeitos do outro, um dizendo o que achava que o outro precisava mudar. A amizade não se restringia a uma idealização dos personagens.
Quando Oliver (o gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC. Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se recuperou da tristeza. Parou de trabalhar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965.
À parte a consternação nos momentos finais dessa relação, o que é comovente é o carinho, o respeito, a tolerância, o desprendimento de orgulho pessoal que uniam dois amigos. 
Essas reflexões acima, e a lembrança dos simpáticos Hardy e Laurel, vieram-me nestes dias por conta de uma decepção que tive com uma pessoa a quem considerava um grande amigo. Mas agradeço a essa pessoa pelo aprendizado. Continuo com o respeito, admiração pelo seu trabalho e  o caráter virtuoso que ele também tem. Mas amizade não é um sentimento de afeição unilateral. É simétrico.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

dois pra lá, dois pra cá

 
Quanto maior o sentimento de antipatia que se tem por uma pessoa, maior o vínculo que se mantém  com ela. O mesmo ocorre com a simpatia. Só que de forma prazerosa.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

manhã de quinta

foto Riztam Telve

Mortal que sou, não posso ignorar nem escapar do tempo. Fui ontem, sou hoje, mas não "tenho" futuro: sou futuro.
É perigoso eu dizer "sou o que tenho". Isso me dá a sensação de que preciso de ter mais, mais, mais...
Sou o que sou.

Cultivar mágoa é como tomar veneno e esperar que o outro morra.

Os pioneiros tendem a ser ignorados no começo. 
Esta manhã de quinta-feira é parcela de minha eternidade. Não haverá outra igual. Eu lapido o meu tempo.