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domingo, 16 de fevereiro de 2014

a nata do luxo

 

 fotos Rubens Venancio

Luxo da Aldeia é um bloco de (pré-)carnaval de Fortaleza que busca, através de seu repertório, homenagear os compositores cearenses de nascimento ou de coração. O nome do grupo é citação de um verso da música "Terral", de Ednardo, que considero um hino que simboliza a música cearense a partir da década de 70, gravada em "Ednardo e o Pessoal do Ceará - Ingazeiras", elepê de 1973.

O paraibano Chico Cesar, um cearense de coração, digamos assim bem dito, deu ontem seu auxílio luxuoso na apresentação do grupo no Kukukaya Casa de Show, em Fortaleza. Encontro marcante. 


Luxo da Aldeia é um dos entrevistados para o meu documentário longa "Pessoal do Ceará". Só a nata da aldeia, aldeia, aldeota, onde estou batendo na porta com minha câmera pra lhe aperrear...

sábado, 13 de abril de 2013

mama mia!



Lançado no Brasil semana passada, o filme "Mama" é mais uma idiotice, digamos, onstruosa, usando um adjetivo adequado. A mídia deu páginas inteiras na divulgação, alardeando como "um novo estilo de suspense", "forte carga de sustos", "clima de terror psicológico", "tenebroso", e outras fraudes publicitárias.
Digirido pelo argentino Andrés Muschietti, coproduzido pela Espanha e Canadá, "Mama" é tipicamente uma mesmice dos filmes hollywoodianos do gênero. Nada de novo debaixo das trevas da falta de criatividade desses roteiristas, no caso, o britânico Neil Cross, que escreveu uma série de thriller na BBC - o que para mim não credencia excepcionalidade nenhuma. E dizem que a concepção desse enredo tolo e vazio, teve inspiração em obras do artista plástico Chet Zar, um californiano de 46 anos, que tem seu trabalho inspirado em filmes de terror, e já enveredou na indústria cinematográfica criando efeitos especiais para "O Chamado", as continuações de "O Planeta dos Macacos" e "Darkman". Não é meu tipo de pintura, não colocaria um quadro de Zar na minha parede, mas as suas criações a óleo em enormes telas são perfeitas, assustadoras, demonstram engenho e técnica de um grande artista. Ao contrário do filme. E para credenciar mais "qualidade" a "Mama", o diretor, numa entrevista, disse que o personagem título, a coisa esquisita lá, uma mãe "angustiada" no além sem o filho no colo, é uma "espécie de pintura de Modigliani deixada para apodrecer..." Mama mia! É muito engodo. Realmente, a figura "assustadora" do filme esboça as características de rostos e pescoços alongados do grande pintor italiano, mas comparar com essa bela criação e deixá-la putrefazer, é uma analogia infeliz, de muito mau gosto.
"Mama" é um mosaico, ou mais apropriadamente, um caleidoscópio de clichês de todos os sustos que já se viu no cinema. E não incluo os arrepios Hitchcock, para não vulgarizar a obra do mestre do suspense. É outra coisa. Incluo os sustos explícitos, os que não sugerem, que precisam de tradução, que não exigem mobilização de raciocínio, que não estimulam os neurônios. São bem feitos, sim. Principalmente depois da tecnologia de ponta. A produção industrial cinematográfica americana e derivadas de outros estúdios, precisam desse público para abastecer os milhões investidos. O cinema com seu poderio torna-se uma máquina alienante. Mas cinema não é somente diversão. É uma arte de reflexão, também. E não falo aqui de “filme-cabeça” , necessariamente. Hitchcock – ele de novo, claro – soube muito bem aliar os sustos com os dramas humanos em entretenimento de qualidade. O que fica para história, “Cortina rasgada” ou “Mama”? 

Que o efêmero e descartável existam como significados desses filmes, mas que não se aspire como inovação e se pretendam obras-primas.
Há quem goste. E gosto não se discute, se lamenta.

domingo, 17 de março de 2013

a vida é um sopro

"Imaginação e realidade têm pouca coisa em comum."

Fala da personagem Anne, magnificamente interpretada por Emmanuelle Riva em "Amour", roteiro e direção de Michael Haneke.

Quem assistiu ao filme sabe a essência do que isso significa, o que representa no seu contexto. Amor e morte. Assim como "Amour", o belo filme do austríaco Haneke poderia intitular-se "Morte". Imaginação e realidade. Poucas coisas em comum entre as duas. Diante da incômoda certeza de uma, a vida é uma imaginação, abstrata, fluida, passageira, um sopro, como dizia Oscar Niemeyer - ele, que burlou a dita cuja por mais de um século.

O filme de Haneke mostra um casal de octagenários no crespúsculo de suas vidas. A doença degenerativa de um torna-se o enlace maior entre ambos, fortificado pelo amor.
E o amor, creio, é incondicional por definição. Quando Anne diz ao marido, em atuação marcante de Jean-Louis Trintignant, que ele deve estar cansado de cuidar dela, do sofrimento infrigido pelas circunstâncias, o marido rebate que não, claro. Mas a câmera de Haneke penetra o interior do personagem, adentra sua alma, e a leitura é outra, pelo olhar, pelo semblante, pela verdade - mais do que pela imaginação. Há o cansaço, mas há o sentimento de predisposição sincero.
Esse é o grande valor de um filme talentoso, de um grande Cinema. O que o olhar da câmera expõe, o que supostamente não está enquadrado. O Cinema sugere o que é fato, o que existe, o que pulsa.

Na abertura de "Amour", o espectador vê a plateia de um teatro à espera do início de um concerto de piano. Câmera fixa no auditório, do ponto de vista do palco. O pianista entra, cumprimenta o público, aplausos de recepção, e começa a música. Rostos atentos, ouvidos abertos. Não há um contraplano do músico chegando, saudando os ouvintes, sentando-se no banquinho, teclando o piano. E nem precisa. Nós vemos tudo isso através do olhar da plateia. O Cinema bem feito permite essa conexão, essa cumplicidade. O Cinema é voyeur.

E assim é toda a narrativa do filme: minimalista em gestos, no desenho de câmera, nos diálogos. E consequentemente grandioso em expressões, significados, questionamentos humanos. Haneke trata o assunto com poesia, com doçura, com o tato das retinas. O que é perverso, cru, implacável, é a verdade do tema, não o tratamento. Podemos discordar do final, da atitude extrema do marido, mas não se pode deixar de compreender o ato. Uma coisa pode não justificar. Mas uma outra coisa pode explicar.

E o que não se justifica, nem mesmo explicações convencem, é Emmanuelle Riva não ganhar o Oscar de Melhor Atriz, e receber uma atrizinha inexpressiva de um filminho idiota.
Imaginação e realidade têm mesmo pouca coisa em comum. Nesse caso, nada.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

festa estranha com gente esquisita

Recuso-me a ficar insone madrugada a dentro assistindo entrega de Oscar: essa festa careta, com suas apresentações pirotécnicas e ocas, com seus apresentadores com piadinhas sem graça, com suas estrelas enfeiuradas com vestidos esquisitos, tudo celebrando um cinema medíocre, previsível, acomodado, salvo raras exceções de um e outro filmes pretensamente ousados, um e outro cineastas estrategicamente desobedientes aos ditames de uma cinematografia acadêmica e dominante.
Na foto, Orson Welles, que só ganhou um Oscar em toda sua ótima filmografia: pelo roteiro de "Cidadão Kane", em 1941. Perdeu Melhor Filme para "Como era verde o meu vale" (muito sintomático!), de John Ford, e ator para Gary Cooper em "Sargento York" (mais sintomático ainda para o bélico público americano).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

o fôlego marginal

No ar o número 5 da revista Rebosteio, excelente, inquieta, provocante, reflexiva publicação eletrônica editada pelos caros amigos Rubens Guilherme Pesenti, Mercedes Lorenzo e Willian Delarte, figuras brilhantes da cena paulistana.

Temática a cada fôlego, essa edição discute a cultura de rua, a marginal, a periferia, através de reportagens, ensaios, críticas, poemas, fotografias. Vibrante!

E mais uma vez tenho a oportunidade de estar por lá. Escrevi sobre o filme que me impressionou muito, "Eles voltam", de Marcelo Lordello, vencedor do Festival de Brasília ano passado. Inédito ainda no circuito comercial, o longa concorre esta semana ao prêmio Hivos Tiger, no prestigiado Festival de Internacional de Cinema de Roterdã, em Amsterdã.

Leia aqui: http://issuu.com/rebosteiodigital/docs/rebosteio_5_-_web

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

chegam nessa hora agora

Nesta tarde de quinta-feira recebo uma ligação celular do meu caro Adeilton Lima: só pra dizer que a caminho da casa de sua mãe para uma visita, ouvia no rádio Fagner cantando "Manera Frufru" e lembrou de mim... e como os amigos se pertencem e o universo cuida dessa sintonia, estava justamente dando uns ajustes finais no projeto do longa documentário "Pessoal do Ceará", que devo continuar as filmagens neste ano.

Nesses momentos a vida dá um sacolejo nos seus significados. As boas energias se conectam e "estrela, sol e astro, lua / chegam nessa hora agora / para louvar / santa alma branca / centauro fru fru / fru fru manera...", como diz a letra no disco que, não à toa a coincidência, faz em maio próximo 40 anos que foi lançado.

a mulher de longe

Hoje, na Cinemateca Brasileira, São Paulo, pré-estreia do novo filme de Luiz Carlos Lacerda "A mulher de longe", uma reconstituição poética do filme inacabado dirigido pelo escritor mineiro Lucio Cardoso, a partir de imagens originais e diários das filmagens, rodado em 1949.

Sabe-se que o filme ficou desaparecido por quase 60 anos. A Cinemateca localizou os copiões e Lacerda, que em 1971 dirigiu o ótimo "Mãos vazias", inspirado no romance de Cardoso, fez um documentário onde recria toda a história da busca de locações, os problemas com chuvas, equipe e as razões para a desistência do escritor em interromper as filmagens do seu primeiro e único trabalho como cineasta.

Meu caro Bigo, pena que seu amigo aqui de longe não poderá ir a exibição hoje.
Mais detalhes na programação da Cinemateca

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

meu amigo Firmino

Essa figuraça aí na foto é um dos meus melhores amigos em Fortaleza: Firmino Holanda, pesquisador, crítico e professor de cinema, cineasta, roteirista, músico, tem uma coleção de vinil riquíssima, e um dos papos mais inteligentes e lúcidos sobre tudo.

Desde os anos 70, quando começamos a fazer filmes em Super-8, que nossa amizade se firmou, pra usar aqui um trocadilho com seu nome. Não conheço outra pessoa mais apaixonada por Glauber Rocha. Veneração total. Nas longas horas em que ficávamos conversando e ouvindo música em sua casa, eu brincava dizendo que ele se benzia ao passar diante de um enorme poster do cineasta baiano fixado na seu quarto-biblioteca. Igual a mim, Firmino é um "catador de papel", guardamos pastas e pastas com recortes de jornais e revista sobre cinema, e trocávamos matérias repetidas.

Outra paixão de Firmino é Orson Welles, e por conta disso publicou o livro "Orson Welles no Ceará", em 2001, uma pesquisa que considero a mais completa e definitiva sobre a passagem do cineasta em terras alencarinas para rodar "It's All True". Escreveu ainda "Benjamin Abraão - Juazeiro, cinema e cangaço", em 2000, outra maravilha de leitura sobre o fotógrafo que filmou Lampião.
Ano passado participou na pesquisa para o ótimo "Cartografia do Audiovisual Cearense", organizado por Luiz Bizerril.

Firmino como músico é uma agradável surpresa: faz trilhas que entendo como arranjos secos e ao mesmo tempo minimalistas.

Louco por Frank Zappa, perguntei-lhe uma vez qual o disco que ele mais gosta do roqueiro de Baltimore, ele respondeu: "todos".

O cineasta Petrus Cariry é um felizardo por ter o Firmino em seus filmes, como roteirista e montador.

Firmino não tem Facebook, não usa celular, nem sequer e-mail. Nem viaja. A saída mais longa dele foi de Fortaleza a Juazeiro, ou foi Crato, e faz tempo.
Computador, para escrever, claro. E apenas. Quando quero falar com ele, telefone fixo, ou mando recado por amigos em comum, como agora: mostra a ele esta postagem, Petrus.

Resolvi escrever sobre meu amigo querido e singular porque, pesquisando sobre cinema cearense, encontrei algumas fotos suas, que nem imaginava. Disso ele não pode se livrar: está na rede nem que não queira.

Abraço grande, meu caro!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

mãe e filha do cinema

 fotos Iluminura Filmes
Vacas que pastam. Vacas que passam. Vacas que mastigam o tempo. O tempo é o sólido personagem de “Mãe e filha”, segundo longa-metragem de Petrus Cariry.  As vacas, que num segundo de percepção podemos fazer uma analogia ao cinema de Apichatpong Weerasethakul, ouso tranquilamente dizer que o cearense Petrus é bem mais um talhador do tempo no cinema do que o cineasta tailandês.  E trago agora a referência de Andrei Takovski e seu cinema esculpindo o tempo. Petrus sabe igualmente com maestria o movimento do cinzel na tela, desde seu primeiro longa, “O grão”, desde seus primeiros grãos germinados nos curtas-metragens.
Depois de uma longa separação, mãe e filha se encontram no sertão, entre ruínas e lembranças. O destino da filha nega o sonho da mãe. O passado é um círculo que aprisiona os vivos e os mortos. A filha quer romper, mas as sombras espreitam – é o que diz a sinopse.  E quando se mergulha nos 80 minutos do filme, vê-se que até no resumo em que o cineasta abrevia a história, ele consegue proporcionar o tempo nas palavras certas. “Mãe e filha” é somente isso e muito mais.
O tempo que se alonga nos planos da filha pelo corredor da casa é o mesmo tempo da mãe caminhando pelas ruas da cidade deserta.  O tempo que se molha na chuva é o mesmo tempo que se queima nas velas que iluminam a solidão da casa e o silêncio das pessoas. O tempo metálico que range no cata-vento que puxa a água do ventre seco do sertão, é o mesmo tempo do dolorido cacarejo final da galinha sangrada pela velha mãe. O tempo aparentemente estático nas fotos antigas dos familiares é o mesmo tempo dos vaqueiros parados logo após o batismo do menino morto. O tempo das luzes que entram pelas frestas das portas e janelas, pelas réstias dos telhados, é o mesmo tempo dos raios de sol cortados pelas lâminas do cata-vento. O tempo que a filha reclama da ausência do pai em sua vida, é o mesmo tempo em que não se sabe do pai do rebento morto. O tempo em que a filha pergunta incerta para mãe se acredita em Deus é o mesmo tempo em que a mãe responde incerta em seu politeísmo “qual Deus?”. O tempo em que a avó batiza o netinho morto na pia encardida é a mesma pia do tempo amarelado em que a filha molda o barro que destinará ao filho. O tempo em que o menino se chama Antonio é o mesmo Antonio que se denomina o avô que se foi há tempos. O tempo que a avó pergunta pra filha “como está” o menino morto, é o mesmo tempo em que ela trata a “indesejada das gentes” como vida. O tempo que a filha sobe numa cadeira para afagar as estátuas santas num armário, é o mesmo tempo que a avó lava e acaricia o corpo da criança morta.  O tempo que a filha junta cacos na igreja, é o mesmo tempo em que ela une e desune os pedaços da fé em ruínas. O tempo em que num belíssimo plano a imagem da avó surge num espelho como um fantasma, é o mesmo tempo em que a filha volta evanescente para casa depois de muitas estações. O celular que a filha tenta ligar e não funciona, é o mesmo tempo moderno que está no passado inútil na camiseta com a estampa de Marylin Monroe.
Em “Mãe e filha” o cineasta Petrus Cariry supera-se sem delimitar-se (ao mesmo tempo) com relação ao longa anterior. Fica difícil apreciar lúcida e criticamente um filme sem observar elementos de outro, porque o diretor não faz filmes: faz Cinema.  Nada falta no centro de “Mãe e filha”, como nada sobra pelas laterais dos enquadramentos. O domínio narrativo no filme tem a precisão de quem sabe recortar o espaço e moldar o tempo com o equilíbrio da razão e a harmonia do coração – ou o contrário, se a destreza é a mesma.
Não há a chamada química entre as atrizes Zezita Matos e Juliana Carvalho: há uma alquimia na interpretação das duas, respectivamente a mãe Laura e a filha Maria de Fátima.  Uma vez o diretor mencionou que seu plano preferido no filme é o da rede em que a avó embala o corpo do neto, numa belíssima composição fotográfica de contraluz na porta da casa.  Eu tentei escolher um de tantos que me agradam, inclusive o citado, e me perdi em vários, e me encontrei no filme por inteiro.  A beleza e grandiosidade dos planos estão em consonância no filme completo, tanto é que parece ser encenação na própria história a inclusão do quadro “Ophelia”, de John Everett Millais.  A obra mais famosa do pintor inglês, do século 19, retrata romanticamente a imagem idealizada da mulher trágica: o amor de Hamlet que se suicida, flutua num lago, de semblante petrificado, emoldurada por uma vegetação melancólica. O clima renascentista da pintura entra no sertão metafísico de Petrus em composição simbólica de forte ressonância com o que se viu em sequências anteriores. E com o que virá.
Um filme bom nunca termina: ele continua pulsando em nossos olhos, encantando e provocando. Depois da fortíssima cena da mãe enterrando o filho, ela anda pela estrada de volta a algum lugar no futuro de si mesma. Solta os cabelos como para libertar-se de alguma expiação. E segue. Com sua mochila nas costas e Marilyn na camisa, a câmera a acompanha pelo chão sagrado.  E depara-se com os quatro vaqueiros (do apocalipse?) barrando-lhe a estrada. E ela dispara em confronto. Escurece a tela. O filme acaba aí, mas não termina lá.

sábado, 27 de agosto de 2011

santo guerreiro

"Sou um artista, não me exijam coerência"

Dia 22 passado fez trinta anos que o santo guerreiro Glauber Rocha se mandou pra outros sertões que viraram mar. Como faz falta sua "incoerência".

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

a última esperança da Terra

Esta cena da foto é o final do filme "O planeta dos macacos". Considero uma das imagens mais impactantes que já vi na história do cinema.  Foi essa  sensação de espanto,  de choque,  de assombro que senti quando, menino, assisti ao filme de Franklin J. Schaffner, em 1968, no magestoso cine São Luiz, em Fortaleza. E essa impressão de pavor ainda me causa quando revejo o filme.

O enredo, baseado no livro de ficção científica de Pierre Boulle, conta a história de uma tripulação espacial, que depois de muito tempo hibernada na nave, pousa num planeta parecido com a Terra, dominado por uma civilização de macacos, já no adiantado e inimaginável ano 3900. Como creio que todos conhecem o filme, não seria estragar a surpresa, e dizer que o planeta é a própria Terra, sem vestígios de seres humanos, e numa curiosa inversão, tem o símios como seres inteligentes, poderosos, e, como nada é perfeito, bélicos.


Charlton Heston, que tinha a minha admiração até me conscientizar do ator cretino que se manifestou com sua adoração às armas, era o astronauta George Taylor,  sobrevivente que enfrentava a raça dos macacos falantes em busca de respostas para aquilo tudo. Heston, que já tinha sido “salvador da humanidade” como Moisés em “Os dez mandamentos”, o lendário herói espanhol  em “El Cid”, o judeu libertário em “Ben Hur”, e em muitos outros filmes, como “A última esperança da Terra”, não foi à toa que a Century Fox o escalou para mais um papel de Messias-reloaded.


Depois de muito embate com os macacos, Taylor numa fuga que extasiava a plateia, em desesperado galope à beira-mar, dá de cara com a estátua da Liberdade, afundada parcialmente na areia, a tocha apagada em suspiro final.
  Repito: é impactante a cena. O personagem ajoelha-se e sucumbe à dor. A imagem resume toda a certeza que a humanidade estava disseminada, coagulada na mais grave desesperança. O que Hollywood, como fábrica mágica de sonhos e pesadelos, explicitou em inúmeras sequências de destruição, em alguns filmes interessantes e muitos outros desprezíveis, “elipsou” o apocalipse numa cena extremamente simbólica, não somente por sabermos da cidade de Nova Iorque acabada e sumida do mapa, mas de toda a população da Terra literalmente enterrada com a estátua presenteada pelos franceses, e, sobretudo, um certificado anti-Guerra  Fria, por que não?


Lembro-me que saí do cine São Luiz pequeno e amedrontado pelas ruas do centro de Fortaleza, querendo chegar logo em casa. Aquilo seria possível? Olho ao redor deste mundão, e não duvido. O planeta explode diariamente em meio a paz que regamos para os nossos filhos. O homem avança na maravilha da tecnologia enquanto diametralmente regride na brutalidade da ganância pessoal, da prepotência imperialista, no desprezo ao próximo. É assustador, sim.


“O planeta dos macacos” teve quatro continuações,  razoáveis, mas sem o mesmo impacto, explorando o mais do mesmo, estendendo-se até em série na TV. Em 2001, o assanhado Tim Burton fez um remake lamentável,  cheio de malabarismos digitais,  mais parecendo um vídeo-game.


Amanhã estréia no Brasil a refilmagem digirida pelo inglês Rupert Wyatt, “Planeta dos macacos: a origem.”  O trailer desperta atenção.  Resta saber em que praia enterraram a Liberdade.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

nem toda sombra na parede é cinema

 "O testamento de Dr. Mabuse", de Fritz Lang, 1932

Um amigo disse-me que não vê filmes no computador. No máximo, em dvd. Eu vejo. Não é uma rima, mas é uma solução. Há uma semana estou revendo a filmografia de Fritz Lang; antes fiz o mesmo com a de Yasujiro Ozu, depois passo pra Tarkovski. Revisitando o Cinema. Não há a mais remota possibilidade de assistir a esses filmes no circuito comercial. Provavelmente - e olhe lá! - em alguma mostra promovida por embaixadas, pelo menos seria assim aqui em Brasília.


Claro que seria bem melhor ver o bom cinema nos telões das grandes salas. Mas onde estão essas salas? Nos multiplexes? A "assepsia"  dessas saletas de shopping  começa na frieza da bilheteria, que separa o funcionário do espectador por um espesso vidro e "comunica-se" por um microfone high tech. Não há calor humano nem nesse momento. E se o filme em cartaz for um 3D a sua "aproximação" com os personagens é uma grande mentira, enganação. O tridimensional entra pelo primeiro coração através de uma boa história, um bom roteiro, uma boa direção, e elenco de atores, não de astros.


Não troco duas horas de um avatar por um plano silencioso de Tarkovski, uma câmera-tadame de Ozu, um ângulo expressionista de Lang, uma sequência humanista de De Sica, um take onírico de Fellini, uma câmera delirante de Glauber, um duelo ao por do sol de Sergio Leone, um susto de Hitchcock, uma verdade-mentira de Orson Welles, um canyon de John Ford, um samurai de Kurosawa,  um contra-plano de Antonioni, uma dissecação n'alma de Bergman, um caso de amor de Truffaut... mesmo na telinha no meu computador, chupando drops de anis...

sábado, 11 de setembro de 2010

é tudo verdade


 - O que você estava fazendo no momento dos ataques às Torres Gêmeas?
Eu estava em casa, lendo "Orson Welles no Ceará", de Firmino Holanda. Minha mulher me ligou dizendo apavorada "liga a tv!". Deixei Orson Welles nos mares bravios alencarinos, continuando o ainda inacabado "It's all true",marcado por uma tragédia nas filmagens: a morte de Jacaré, líder político dos jangadeiros, no início dos anos 40. 
Deixei de lado o cidadão Kane e fui ao seu país, acompanhar ao vivo outra tragédia que mudaria definitivamente o século XX para este em que estamos vivendo sob o domínio do medo, sob a incontrolável ganância de quem detém o poder em seus botões, tempo de partidos, de homens partidos, como diria Drummond.
Meu filho tinha quatro anos e me agarrei a ele como quem se abraça à esperança, como quem suplica a paz. Ele assistia às torres caindo com o mesmo interesse que assistia aos desenhos dos super-heróis americanos. Não entendia bem o meu pavor e eu entendi bem a sua inocência.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

vidas em português

  "Não existe a língua portuguesa. Existem línguas em português."

José Saramago, no documentário "Língua - vidas em português", de Victor Lopes. 

Todos os dias duzentos milhões de pessoas levam suas vidas em português. Fazem negócios e escrevem poemas. Brigam no trânsito, contam piadas e declaram amor. Todos os dias a língua portuguesa renasce em bocas brasileiras, moçambicanas, goesas, angolanas, japonesas, cabo-verdianas, portuguesas, guineenses. Novas línguas mestiças, temperadas por melodias de todos os continentes, habitadas por deuses muito mais antigos e que ela acolhe como filhos. Língua da qual povos colonizados se apropriaram e que devolvem agora, reinventada. Língua que novos e velhos imigrantes levam consigo para dizer certas coisas que nas outras não cabem.

O filme é de 2004, e tem em dvd em alguma locadora que se preze.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

o passado condena


O documentário com o assustador título acima, de Sérgio Muniz, é uma reflexão sobre a atuação do Esquadrão da Morte e do famigerado delegado Fleury, chefe do DOPS em São Paulo. Filmado clandestinamente em 1971, nunca foi exibido por representar risco de vida para a equipe. Na época, os negativos foram transferidos para Cuba.

Desde de 2006, seu realizador exibe sem muito alarde em universidades e mostras sobre direitos humanos. Com uma narrativa ainda atual, o documentário utiliza-se de diversos materiais em sua construção – recortes de jornais e revistas, imagens captadas diretamente da televisão, transcrição de depoimentos de pessoas torturadas e fragmentos das obras teatrais “A resistível ascensão de Arturo Ui”, de Bertold Brecht, no Teatro de Arena,  e “O Interrogatório”, de Peter Weiss, no Teatro São Pedro.

domingo, 25 de julho de 2010

tudo pode dar certo?

 Woody Allen dirige Evan Rachel Wood e Larry David
foto California Productions
Dizem que Woody Allen é repetitivo, que cada filme é mais do mesmo, que é verborrágico, discursivo sem vírgulas, encucado metido a engraçado.  Não vejo assim. O cineasta nova-iorquino é, sobretudo, original, fidelíssimo aos seus conceitos, não faz manobras para expor seu ponto de vista. O cinema de Woody Allen, principalmente os filmes realizados a partir dos anos 80, trazem um conteúdo filosófico inquietante e admirável. E essas reflexões da realidade são expressas de maneira sensata, divertida, de humor quase negro e indiscutivelmente inteligente.
Woody Allen não é um "comediante", por mais que sua cara deponha em contrário, e mesmo quando não protagoniza seus filmes. Por trás daqueles óculos de lentes grossas (sua marca registrada) de um homem franzino, bate um coração cheio de dúvidas, interrogações e nenhuma resposta. O que Allen questiona em seus filmes são perguntas que necessariamente não precisam de refutação. Seu cinema não é um talk show filosófico, não é um Quiz como teste de conhecimentos sobre a esquisitice da raça humana. Em cada filme o cineasta parte de si mesmo, e desse ponto nevrálgico parte do homem como ser complexo, parte da vida como algo que não faz sentido, ou se sentido há, é sempre movido a perplexidade.
Amor, paixão, sexo, religião, neuroses comportamentais, relacionamentos afetivos e outros precipícios, são temas pontuais nos mais de quarenta títulos de Woody Allen, que tem a sorte de poder realizar no mínimo um filme por ano, e assim pôr à vista seus diálogos analíticos.
Seu mais recente trabalho, "Tudo pode dar certo" (Whatever works), em cartaz em algum cinema que se preze, é mais um belíssimo testemunho de um artista que não cede à passividade, e prefere a crítica mordaz à aceitação do que é só porque assim lhe parece.  No filme um sessentão, ex-professor universitário, separado, solitário, considera-se ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Inicialmente vemos o personagem como um rabugento, mau humorado, grosseiro, e podemos até continuar achando, mas é impossível não sucumbir aos questionamentos colocados de forma espirituosa, e se envolver com as situações que se sucedem ao longo da história. O humor que se observa no filme é refinado e ao mesmo tempo ácido, cru, implacável.  Fundamentalistas cristãos, judeus e evangélicos, ricos e pobres, homens e mulheres, não escapa ninguém, não há perdão para o chato.
Amante do jazz, Woody Allen capricha cada vez mais na trilha sonora. E dessa vez ouve-se "Desafinado" de Tom Jobim e Newton Mendonça, numa versão de Stan Getz, e "Menina Flor", de Luiz Bonfá, por ninguém menos que o grande  Charlie Bird.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

o grão do tempo

foto Iluminura Filmes

Há uma cena no filme "O grão", de Petrus Cariry, em que a filha fala para a mãe, "e esse tempo que não passa...". As duas estão sentadas à beira de um rio, de costas para a câmera. O tempo é o grande personagem desse grande filme, dirigido pelo cineasta cearense, que estréia magnificamente no longa-metragem.

Ao contrário do que a garota diz, o tempo passa, sim, nos 88 minutos em que o diretor de forma elegante e poética narra as últimas horas da avó que prepara o neto para o sentimento de separação, a aceitação da perda, o incômodo da dor, contando uma história ambientada bem longe daquele cenário áspero do interior nordestino, sobre um rei e uma rainha, muito ricos e poderosos, que perderam seu único filho e sonham em trazê-lo de volta à vida. Paralelamente, no realismo das paredes caiadas, os pais trabalham com sacrifício para manter a casa, enquanto a filha mais velha almeja o sonho de um casamento de véu e grinalda.
Petrus fez um filme corajoso, acima de tudo. Sem atores conhecidos, sem a narrativa de video-clip, sem malabarismos digitais. Um filme sem concessões. A cumplicidade do diretor é com o cinema. O cinema propriamente dito, na sua essência e dramaturgia.
Como um Andrei Tarkovski do sertão, Petrus Cariry filma o tempo como raramente se vê nas atuais produções brasileiras. Planos longos que adentram não somente a alma de cada personagem, como também se embrenham no cerne e na substância interior da paisagem agreste. O tempo passa, sim, porque é através dessa narrativa criativa, precisa, e, repito, poética, que vemos a pulsação dos minutos, das horas, dos dias. Tudo que envolve e descreve a afirmativa do passado, a intimativa do presente e a estimativa do futuro daqueles personagens. A câmera de Petrus Cariry, num excepcional desenho de decupagem de planos e sequências, com uma belíssima fotografia de Ivo Lopes, debulha o tempo em grãos. Nada no filme sobra ou faz falta. Tudo se compõe no propósito de um trabalho que utiliza a opção de uma linguagem cinematograficamente pura.
Não à toa, a velha avó se chama Perpétua, como uma eternização do ser humano, que não finaliza um ciclo com o incômodo da morte.
Não à toa, a neta, aquela que acha que o tempo não passa, sonha com o casamento e seu vestido branco, como uma transposição para uma outra vida melhor, mesmo que seja na capital Fortaleza e com um marido que conserta bicicletas.
Não à toa, o pai se chama Damião, um dos santos gêmeos do calendário católico, que apesar de se originarem de pais nobres cristãos, no sincretismo, na relação com as religiões afro-brasileiras, significa "o popular", ou ainda, segundo a mitologia grega, tinha o poder de curar doenças e dar filhos às mulheres estéreis. O Damião do filme sustenta a família tangendo bode a 50 centavos de real por cabeça, e com esses trocados tenta curar a miséria diária da fome e manter a esperança naquela terra infecunda.
Não à toa, a mãe se chama Josefa, o que me faz lembrar a lenda da santa negra, que depois de morrer resistindo à violência do patrão que a assediava, do seu túmulo brotava sangue. Josefa no filme resiste à opressão cotidiana da miséria e mantém o equilíbrio da casa com o que circula e emana do seu coração de mãe.
Claro, essas referências até podem não ser deliberadas do diretor e dos roteiristas Rosemberg Cariry e Firmino Holanda. Mas um bom filme sempre está aberto a várias leituras que convergem para uma mesma definição.
Se há Tarkovski na contemplação crítica do tempo, há também Mário Peixoto de "Limite" no barco parcialmente afundado na beira do rio. Assim como há Nelson Pereira dos Santos na célula familiar que faz o percurso inverso, retirantes que são e estão no mesmo espaço, no mesmo chão sagrado. Mais Graciliano Ramos há ainda no cachorrinho, que não é a Baleia, mas tem nome de boi: Mu.
"O grão", produzido em 2008,  tem pré-estréia hoje, em Fortaleza, somente agora entra no circuito comercial. Percorreu festivais e mostras nacionais e internacionais, ganhando merecidamente prêmios.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ípsilon

 foto Island Pictures

Sequência final de "Down by law", de Jim Jarmusch, 1986. John Lurie e Tom Waits seguem destinos diferentes.
A solução para um problema X pode estar na bifurcação do Y.