TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Geraldo Urano homenageado em praça pública

Programa Rapadura Culturarte presta tributo ao poeta-maior de "Craterdã"

Fotos: Carlos Rafael Dias

O programa  Rapadura Culturarte, promovido e apresentado pelo professor Jorge Carvalho, prestou uma singela homenagem ao poeta Geraldo Urano, falecido no último dia 5 de fevereiro.
O evento, ocorrido na manhã deste sábado, 18, na praça Siqueira Campos, centro do Crato, foi prestigiado por um significativo público.
Com a presença de familiares do poeta, diversos artistas celebraram, com música e poesia, a obra e a vida  de Geraldo Urano, conforme se vê pelas fotos abaixo:

 "Varal" com imagens de várias fases da vida do poeta

Prof. Jorge Carvalho, apresentador do Rapadura Culturarte

De poeta para poeta (1): Olival Honor ler crônica para Geraldo

João do Crato e Abidoral Jamacaru na órbita uraniana

  João do Crato canta Urano: do regional ao universal

 De poeta para poeta (2): Lupeu Lacerda recita Geraldo Urano

 João Paulo (violão): o sobrinho-parceiro

 Familiares e amigos de Geraldo: Heron Aquino (cunhado), Ana, Fátima e Claudinha (irmãs), Márcia Figueiredo e Roberto Jamacaru (amigos de infância)
 Mais amigos: Jorge Carvalho, Carlos Rafael, Lupeu Lacerda e Jô Garcia

Márcia Figueiredo, Olival Honor, Abidoral Jamacaru, Victor e Roberto Jamacaru

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Geraldo queria um grande amor



Ribamar Junior

Anoitece em Craterdam e Geraldo deixou a colher cair no prato de estrelas. Rezou uma Ave-Maria ardente para Janis Joplin em novembro e partiu. Colheu sabonete jeans e Coca-Cola na terra Virgem Constelaçante e abriu o ferrolho do abismo. O dia 5 de fevereiro antecedeu o carnaval da rota de Urano e abriu caminho pelas gotas de leite do peito da Via-Láctea.

Conheci Urano por versos, papéis, fotografias e curtos vídeos de viagens do poeta. Conheci Geraldo pelo o que ele queria que eu conhecesse dele. Não olhei nos seus olhos ou muito menos apertei sua mão, ou disse o quanto gostava dos seus versos, ele gostava disso. O ano era 2013 e eu, ao lado das meninas do Estúdio Caravelas, Raquel Arraes, Fernanda Loss e Constance Pinheiro, participaram da produção da exposição Estação Urano na programação do 7º Festival Rock Cordel do Centro Cultural Banco do Nordeste de Juazeiro do Norte. O evento Uma Noite em Craterdam abriu horizontes para dentro do poeta que escreveu O Amor é uma Cãibra.

Eu vi Urano pela primeira vez cruzando o céu, de olhos fechados. A madrugada do dia 6, na sala 2 de velório, quatro pessoas velavam o corpo de Geraldo. O seu sobrinho, com os olhos fundos, também de poeta me recitou alguns versos ainda inéditos e disse que as últimas palavras de Geraldo, na cadeira de rodas do hospital, foi: “Me dê uma Coca-Cola”.

O refrigerante de cola era uma das bebidas preferidas de Geraldo Efe. O sobrinho, que não perguntei o nome, disse que nos últimos dias ele sentia falta de carinhos. Faltava que queria casar e com a primeira mulher que aparecesse. Geraldo queria ter um grande amor. Agora, ele esculpe a Era de Aquário, e apesar de ter ido para Veneza, onde morou, achou Deus e casou pela segunda vez, Urano queria um amor. Urano agora é azul. Não só fala de Nova Olinda como de Nova Orleans, fala do Cariri e entra para história da literatura de uma Crato cósmica.

Fonte: http://revistacharm.com.br/geraldo-queria-um-grande-amor/

Rapadura Culturart homenageará o poeta Geraldo Urano - por Carlos Rafael


O programa Rapadura Culturart, apresentado por Jorge Carvalho, prestará uma homenagem ao poeta cratense Geraldo Urano, falecido no último dia 5 de fevereiro. Será neste sábado, dia 18, a partir das 8:30 Horas, na praça Siqueira Campos, centro do Crato.
A homenagem contará com a presença de amigos e familiares de Geraldo Urano, com recital de poesias e canções interpretadas por Abidoral Jamacaru, Luís Carlos Salatiel, Carlos Rafael, Lupeu Lacerda e Wilson Bernardo, dentre outros. Na ocasião, serão sorteados exemplares do último livro de Geraldo Urano, "O ferrolho do abismo", que reúne grande parte de sua produção poética, incluindo os livros "Vaga-Lumes" e "O belo e a fera", lançados originalmente na década de 1980.
Além do tributo a Geraldo Urano, o programa Rapadura Culturart trará uma mostra de fotografias e letras de marchinhas de carnavais antigos do Crato e do Brasil, além da presença da Banda de Música do Crato, que executará um repertório carnavalesco, marcando o primeiro grito do Carnaval da Saudade, baile tradicional que será realizado na noite deste sábado no Crato Tênis Clube.

"JUIZ DE MERDA" - José Nílton Mariano Saraiva

Muito já se disse, e se comentou, sobre a “parcialidade” (ou, em português claro e cristalino, a desonestidade) de vários dos ministros que integram a nossa Corte Maior (Supremo Tribunal Federal), useiros e corriqueiros em tentar esconder tão requintado “predicado” através de um linguajar/texto rebuscado e prolixo, repleto de citações greco-romanas, inacessíveis ao mortal comum.

Fato é que, após ascenderem àquela egrégia corte por indicação de políticos corruptos e desonestos, não têm nenhum escrúpulo em saírem ávidos à procura de “brechas” em nossas leis e códigos (sempre “acháveis” pelos que conhecem os “caminhos das pedras”), e que lhes permitam atuarem desabridamente em favor dos interesses do “padrinho”, pouco se lixando para as esdrúxulas decisões que tomam; inclusive, até parecem muito se divertir com a dificuldade da “massa ignara” em aceitá-las, passivamente e sem contestação.

O emblemático de tal postura corrupta e mafiosa deu-se agora (de novo, outra vez, novamente) quando o tal “decano” (que babaquice) do STF, Celso de Melo (indicado pelo ex-presidente Sarney), contrariando até uma anterior decisão do falastrão ministro Gilmar Mendes (no caso Lula da Silva), resolveu que o bandido Moreira Franco (citado 43 vezes numa única delação da operação Lava Jato) assuma, sim, uma Secretaria Especial criada pelo golpista sem povo e sem voto que está Presidente da República (Michel Temer), com o explícito objetivo de blindá-lo com o tal “foro privilegiado”, literalmente impedido-o de cair nas garras do onipresente juiz de Curitiba.

Para se entender a falta de caráter e/ou desonestidade do tal “decano” (Celso de Melo), abaixo a narrativa do ex-Ministro da Justiça do governo Sarney, Saulo Ramos, no livro de sua autoria “Código da Vida” (Editora Planeta, 2007):

Quando José Sarney decidiu candidatar-se a senador pelo Amapá, o caso foi parar no STF, porque os adversários resolveram impugnar a candidatura. Celso de Mello votou pela impugnação, mas depois telefonou ao seu padrinho, Saulo Ramos, para explicar-se.
Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do presidente.
Claro! O que deu em você?
É que a Folha de S.Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S.Paulo. Mas fique tranquilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do presidente.
Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S.Paulo noticiou que você votaria a favor?
Sim.
E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?
Exatamente. O senhor entendeu?
Entendi. Entendi que você é um JUIZ DE MERDA”.

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E aí, precisa explicar ou quer que desenhe ???

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"MOTEL FLUTUANTE" - José Nílton Mariano Saraiva

Na inóspita Brasília, um exótico e confortável “motel flutuante”, de propriedade de um dos Deputados da base do golpista que está Presidente da República (Michel Temer), foi o ambiente escolhido para que o indicado pelo próprio para o Supremo Tribunal Federal, o “brucutu” Alexandre Moraes, se reunisse com “íntegros” Senadores da República (citados nas delações premiadas) a fim de, antecipadamente, “ensaiarem” o script de como será a tal sabatina a que será submetido no plenário do covil de corruptos onde têm assento (o Senado Federal), visando sua aprovação para compor aquela corte. Se as “digníssimas profissionais” (prostitutas de luxo) que corriqueiramente frequentam tais ambientes estavam ou não presentes, pouco importa; o que se sabe é que o “scott” rolou solto.

Se, como todos sabemos, o Supremo Tribunal Federal comprovadamente contribuiu para o golpe que derrubou a Presidenta Dilma Rousseff, primeiro ao segurar por cinco meses o pedido de afastamento do marginal que estão presidia a Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha) permitindo-o arquitetar e levar à votação o fraudulento processo de impeachment e, posteriormente, ao negar-se a analisar o “mérito” do referido, adstringindo-se a aprovar o seu “rito”, o que esperar então daquela Corte, agora que temos a perspectiva de ter um Alexandre Moraes lá efetivado com o objetivo primeiro e único de barrar qualquer tentativa de enxotar da vida pública os corruptos que pululam no Poder Executivo, à frente Michel Temer e sua gangue, de par com uma cambada de ladrões que fez do Legislativo um antro de marginais ???

Fato é que, sob a égide de um usurpador sem moral e sem voto (Michel Temer), temos no “motel flutuante” de Brasília o retrato emblemático da depravação que vige hoje na capital federal, quando um notório plagiador de obras de terceiros, e que demonstrou despreparo no exercício da nobre função de Ministro da Justiça (que lhe caiu no colo via indicação presidencial), exercita a asquerosa atividade de “beijar a mão” de notórios bandidos, a fim de garantir um polpudo salário vitalício.

Quando se pensa que meses atrás o Brasil se impunha e gozava de respeito ante o mundo em razão de um projeto governamental do qual o povo era partícipe ativo, e que agora vê desmoronar por obra e graça da quadrilha que se instalou no Planalto, só nos resta a admissibilidade que, definitivamente, temos de volta o velho “complexo de vira lata”. 

Lamentável.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sete dias sem Geraldo Urano - Por Carlos Rafael


Fazem sete dias (número emblemático) que Geraldo Urano deixou de orbitar em volta desta terra. Hoje rezamos pela sua alma eterna e celebramos seu retorno ao Supremo.

Geraldo Urano agora é uma estrela no céu


Texto: Carlos Rafael Dias
Foto: Pachelly Jamacaru

Triste dia para a cultura caririense. O poeta Geraldo Urano faleceu neste domingo, 5 de fevereiro, vítima de de uma parada cardiorrespiratória em decorrência de problemas no pulmão.

 Geraldo Urano nasceu em Crato, no dia 10 de junho de 1953. Na década de 1970 participou dos Festivais Regionais da Canção, onde se celebrizou pelas suas performances vanguardistas, rompendo com o padrão tradicional de participação nesse tipo de evento. Atuou também no grupo de arte Por exemplo, formado por “jovens da pequena classe urbana local” (CARIRY, 2010, p. 107) que desenvolvia atividades artísticas e culturais. O grupo publicava uma revista mimeografada com textos literários e desenhos, onde Geraldo Urano estreou como poeta.

Fermentada no bojo do fenômeno que ficou conhecido Geração Mimeógrafo[1], a produção de Geraldo, apesar de intensa, teve publicação escassa. Foram apenas dois livros solos[2], um em parceria[3], um livro que reuniu pretensamente suas “poesias completas”[4], participação em uma antologia[5], poemas e textos publicados em jornais, revistas e fanzines[6] e um longo poema publicado no formato de folheto de cordel[7], além de letras de música ou poemas musicados em parceria com compositores caririenses e gravados em disco[8].

Nas suas características mais marcantes, como a liberdade, a solidariedade, a universalidade e, ao mesmo tempo, a reverência para com as leis naturais e a irreverência para com as leis sociais, é de Rosemberg Cariry, companheiro nos movimentos artísticos caririenses nas décadas de 1970 e 1980, uma definição aproximada da poesia de Geraldo Urano:

a partir do cariri, terra marcada pelas unhas da história, a poética de geraldo urano criou asas, rompeu cercas, ganhou o mundo, ensaiou o seu projeto de universalidade. [...] na beleza dos seus versos estão os países, as cores dos povos, a semeadura do sonho, a busca da paz, a canção de amor. a poesia de geraldo não tem fronteiras, fala do mundo como quem fala do quintal da sua casa e do quintal da sua casa como quem fala do mundo. em tudo uma marca inconfundível: o verso novo e inovador, a musicalidade das palavras que se entrelaçam como trepadeiras que escalam muros e desabrocham a flor nos cabelos das ruas; a ironia cortante que desaloja a ferrugem; a críticas audaz aos inimigos da vida; o imenso amor que o liga à natureza. sobretudo, seu canto de esperança no homem, sua fé na liberdade e no advento de uma sociedade de coletiva felicidade (CARIRY, 2015, pp. 14-15).

Do Cariri para o mundo. Uma frase que bem poderia ser uma paráfrase do conselho de autoria atribuída ao escritor russo Leon Tolstói - “se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia”. No entanto, confirmando uma característica que é marcante na poética geraldiana - a sua desvinculação a rótulos e a esquemas pré-definidos, Geraldo subverteu essa máxima. Apesar de ter seguido à risca a filosofia dos poetas beats e ter se tornado um andarilho por um período de sua juventude[9], praticamente viveu na cidade em que nasceu. Foi do regional ao universal e voltou ao regional sem nunca, a rigor, ficar preso a fronteiras, geográficas ou imaginária, ou mesmo a convenções de territórios livres. Seu endereço, portanto, nunca foi geográfico, com CEP ou comprovante de residência, conforme ele revelou em um poema da sua safra inicial:

me procure em seu coração
esse
é o endereço mais próximo
e onde
você pode me encontrar
na sua cidade eu apenas nasci
e o mundo
tem muitas cidades
como o céu muitas estrelas
e como o vento estou sempre
em movimento
posso estar agora
no planalto central e logo mais
em detroit
por isso me procure em seu coração
onde é certo você me encontrar
(URANO, 1984, p. 49)

Foi deste seu cordial endereço que Geraldo alçou voos imaginários para cantar o mundo e idealizar sua própria Pasárgada, que ele batizou de Craterdã. Afinal, diabeísso?   Uma possível resposta que começa interrogando: “Craterdã? (assim mesmo, com til), Cratuniversal. Crato cósmica, interestelar, intergaláctica, gêmea de Amsterdã ou Amsterdam, semente plantada e fosforescendo no seio da Mãe Gaya” (REJANE, 2015, p. 7). O neologismo apareceu, pela primeira vez, como título de um poema em prosa[10], mas que acabou virando uma espécie de representação imaginária que a “rapaziada” underground acabou adotando e que foi resgatada recentemente, conforme a poeta Cláudia Rejane registrou no prefácio de O ferrolho do abismo:

Por esses mesmos tempos, andavam pelo vale Raquel Arrais, Constance Pinheiro e Fernanda Loss, nascidas na década de 80, quando Craterdã fervilhava ao som da nossa contracultura, com guitarra elétrica, bateria, pífano e zabumba. As moças entraram em contato com o assombro, a agonia, o delírio e o encanto das uraniversalidades e, reunidas num estúdio sugestivamente chamado de Caravelas, embarcaram na viagem interestelar, geraldeando em 2013 o projeto Uma noite em Craterdam, no intuito de trazer vaga-lumes e outras luminosidades uranianas a público. O projeto foi abraçado pelo CCBNB/Juazeiro do Norte[11] , inserido no VII Rock Cordel e realizado de 15 a 20 de janeiro de 2013 (REJANE, Idem).

O reconhecimento da nova geração, nascida quando Geraldo Urano já estava impedido, por razões de saúde, de manter a sua efervescente “agenda” artística, é uma prova do longo alcance e da perenidade de sua obra. Isso foi possível por conta do exercício profundo e radical pelo qual se revestiu essa produção, fortemente marcada pela conjuntura que influenciou sua formação, tanto artística como existencial, em um sentido bem mais amplo.

As primeiras produções poéticas conhecidas de Geraldo datam do início dos anos 1970, mas sua metamorfose iniciou-se já no final da década anterior, nos ‘loucos’ e revolucionários anos 1960. Por essa época, o Cariri passava por uma onda de intensa e célere transformação, resultado da confluência de forças que operava tanto no plano interno como externo. Desenvolvimento com modernização é a chave para compreender aquelas mudanças que se efetivavam no plano regional, mas com forte influência da conjuntura global.

As utopias juvenis cultuadas em várias partes do planeta naquela época de efervescência, participação e experimentação convergiam em torno da construção holística da ‘Era de Aquarius’, da qual os artistas caririenses, em especial Geraldo Urano, eram entusiastas apologistas.

Pelas temáticas, paisagens e fatos narrados em seus escritos, tem-se a impressão de que Geraldo compensou a sua breve educação formal nas leituras dos livros, além das informações que absorvia por diversos meios, um processo certamente facilitado pela presença da indústria cultural cada vez mais intensa a partir dos anos 1960. Na sua ânsia por novidades, a nova geração local buscou os canais de suas transmissões, não só os meios de comunicação de massa, como televisão, rádio e a grande imprensa, mas outras mídias alternativas, geralmente bens culturais disponíveis, tais como livros e discos que circulavam de mão em mão entre os amigos e filmes não comerciais projetados em cineclubes.

Não se queria somente mudar o mundo, mas principalmente torná-lo melhor. E em um contexto conjunturalmente adverso, por conta da ditadura em vigor, a juventude caririense buscava compatibilizar o prazer de viver com a necessidade de resistir ao ainda enrijecido establishment nacional, com armas e estratégias que não fossem pinçadas apenas de um manual de guerrilha. A arte foi uma das alternativas de participação de um grupo de jovens, pessoas egressas, na sua maioria, da Pastoral de Juventude da Diocese do Crato, que, na época, era chamada de Movimento de Juventude do Crato (MOJUCRA). Foram estes jovens que fundaram o Grupo de Artes Por Exemplo, além de proporem a realização de um festival de música nos moldes daqueles que aconteciam no eixo Rio-São Paulo. Geraldo Urano, que atendia pelo nome de Geraldo Lima Batista, não foi somente um participante dentre os outros, - foi um dos principais protagonistas daquele coletivo de artista. É o que demonstra a citação a seguir:

Em 1971 acontecia a penúltima edição do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e o primeiro Festival Regional da Canção do Cariri, idealizado por Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano, dois da Turma do Parque[12] que participavam do grupo católico Movimento da Juventude. O apoio do Padre Bosco foi fundamental para a criação do Festival, mas a interferência da Diocese não impossibilitou o evento de ser contestador e revolucionário, como deveria. Geraldo, que já havia sido Gandhi, Palitó, Efe e Batista antes de se autodenominar Urano, em uma das edições, foi carregado dentro de um caixão da entrada da Quadra Bicentenário até o palco (CONSPIRAÇÃO, 2014, p.48).

Ou seja, o protagonismo uraniano, extrapolando os versos escritos e publicados, alcançava outros meios, onde o próprio corpo era também um instrumento de expressão. Suas performances no Festival da Canção do Cariri, evento que aconteceu de 1971 a 1978, em Crato, são sempre lembradas pelos detentores da memória deste evento, como pode ser comprovado na citação acima. Assim também, pode-se dizer, foram antológicas as suas ‘intervenções’ nas várias edições do Salão de Outubro, mostra de artes promovida anualmente pelo grupo Por Exemplo, e que repercutia pela significativa representatividade de artistas participantes e diversidade de manifestações artísticas, como também pelo propósito de reunir as vanguardas artísticas e as manifestações ditas populares. Como um artista de vanguarda, Geraldo realizou performances originais e inéditas, para a época e para o meio, a exemplo de, numa demonstração de body art, expor o próprio corpo como parte de uma instalação artística. A cena, recapitulada pela memória de um artista contemporâneo, foi mais ou menos assim:

Corria o ano de 1974. Tempo fechado ainda. Os artistas cratenses driblavam a censura da plena ditadura e a monotonia da província cratense. Reinventavam-se como podia. O Salão de Outubro daquele ano, muito propositadamente, realizava-se nas dependências do antigo prédio que tinha sido um dia a Casa de Câmara e Cadeia. Numa das celas, quase uma masmorra, o poeta Geraldo Urano, exibindo sua magreza existencial e exibindo-se como uma obra de arte, permaneceu todo o tempo em que durou o salão, sentado como um yogui entre cacos de vidro e observando, com uma luneta, o público visitante[13].

Se a produção literária de Geraldo Urano, realizada entre as décadas de 1970 e 1990, tem alguma marca definidora, esta é a da ousadia das experimentações de linguagem, sem que a forma se sobreponha ao conteúdo.  A mensagem é muito forte, visto que ele sempre tem algo a dizer, demarcando espaços e pontos de vista. Neste sentido, o apogeu de sua obra é a década de oitenta, quando lançou dois interessantes livros: Vaga-Lumes (1984) e O Belo e a Fera (1989), além de publicar em jornais alternativos e compor canções em parceria com músicos da região. É dessa lavra a sua preocupação com o que na época se denominava de causa ecológica, onde o poeta denuncia os pesadelos da sociedade industrial contemporânea que são “vendidos” como se fossem itens de conforto:

uma coisa é sonhar
um dia viajar de boeing
outra coisa é pensar
no que vai pelo coração das baleias
em seu coração
sabe que no mundo deles
baleia quer dizer dinheiro
e são capazes de confundir
rodelas de cenoura com moedas de ouro

Geraldo Urano, bem além da perspectiva de militância ecológica que se desenvolvia na época, ainda bastante romantizada, cuja tônica era preservação da fauna e da flora em detrimento do próprio homem e de sua ambiência, - instiga uma simbiose holística, numa viagem ao centro da terra cuja senha é sentir-se um Jonas no interior da baleia. Em outro poema, se condói da desgraça de ser bacalhau nos mares da Noruega, tal como ser negro na África do Sul na época do apartheid. Mesmo assim, são os homens os amaldiçoados:

a lua cheia vagueia no céu de oslo
e nos mares...
lá embaixo os bacalhaus amaldiçoam a Noruega[14]

Ou ainda:

as aves voam e pousam
e voam e comem e voam e dormem
e voam e trepam e voam
e pousam e têm filhotes
e voam e cantam
e morriam
e hoje são mortas
(URANO, 1984, p. 53)

Naquela época ainda havia uma dicotomia entre a militância política propriamente dita e a militância ecológica, que depois seria chamada de política ambiental. A contribuição de Geraldo Urano, entretanto, foi muito além desta questão, visto que a tônica do seu discurso é o de enfrentamento direto ao establishment capitalista.

O bom combate da geração sessenta/setenta era contra um inimigo que, apesar de real, não tem uma única face e uma forma palpável: o velho e combatido establisment. Por isso, a luta a favor da vida e da felicidade vai dar-se em várias frentes, seja contra as ditaduras políticas que se instauram quase como uma regra no Terceiro Mundo, ameaçado que estava por uma onda revolucionária quase que totalmente jovem (tida pelo establishment como subversiva), seja contra aquilo que de mais conservador, no sentido reacionário e reativo às novas utopias, a geração anterior encarnava. Geraldo Urano, no entanto, não vai colocar sua poética a favor de uma militância partidária ou a uma causa política no sentido estrito do termo. Ao cantar Cuba, sua inspiração não foi a revolução encetada pelos ‘barbudos de Sierra Maestra’, mas da Cuba de

[...] homens, mulheres
e crianças
[...]
uma parte do corpo
da terra
como brasil e holanda
[...]
bonita como é bonito
um olho
ou qualquer outra
parte do corpo
por que vou fazer regime...
quando devo
consumir tanta esperança...
(URANO, 1984, p. 73)

Assim é a poesia uraniana: sem rédeas, sem limites, sem fronteiras, sem fim. Por isso, morreu hoje apenas o homem-matéria, pois o homem-poeta-espírito-luz continuará eterno, reverberando seus versos através das gerações e dos tempos.

Geraldo Urano, o mais novo imortal deste espaço-cósmico, que nós hoje, sob as bênção do Poeta, chamamos de Craterdã.

SALUTE, POETEIRO!


NOTAS

1. Geração Mimeógrafo, como ficou conhecida também a Poesia Marginal, foi um movimento literário que eclodiu, notadamente, no Rio de Janeiro na década de 1970, estando ligada ao fato de que muitos poetas recorriam ao mimeógrafo para copiar seus livros em um processo artesanal e sem qualquer tipo de vínculo com editoras, que não se interessavam pela produção dos chamados poetas marginais porque estes subvertiam os padrões literários e artísticos convencionados pela indústria cultural.
2. Vaga-Lumes (1984) e O belo e a Fera (1988).
3. Despretencionismo (1975), em parceria com Rosemberg Cariry (Antonio Rosemberg de Moura).
4. O ferrolho do abismo (2015).
5. Poesia de agora (1981).
6. Dentre outros, Seriará, Nação Cariri, Folha de Piqui e Jornal Sensurado.
7.  A cor do lírio (1986).
8.  Dentre outros, Guerra e Paz (Cleivan Paiva, 1983), Avallon (Abidoral Jamacaru, 1987), Nação Cariri (Bá Freire), Contemporâneo (Luiz Carlos Salatiel, 2004) e Na lata (Nacacunda, 2006).
9. No início dos anos 1970, Geraldo Urano viajou por vários estados brasileiros, deslocando-se através de caronas e sobrevivendo de artesanato, no mais autêntico estilo de vida hippie. Essa informação foi registrada na antologia Poesia de Agora (1981), organizada por Carneiro Portela..
10.  Publicado na edição de estreia do Folha de Piqui Jornal cultural alternativo que circulou no Cariri, em descontinuada periodicidade, na década de 1980.
11. Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri, localizado em Juazeiro do Norte.
12. Turma do Parque era a designação informal do coletivo de jovens artistas que frequentavam assiduamente o antigo Parque Municipal do Crato, hoje Praça Alexandre Arraes, localizada no centro da cidade. Alguns moravam nas imediações, como o caso de Geraldo Urano.
13. Depoimento dado ao autor pelo fotógrafo Jackson Bantim em 3 de agosto de 2016.
14. Trecho de poema publicado na antologia Poesia de Agora, organizada por Carneiro Portela e lançada pela Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, no ano de 1981.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARIRY, Rosemberg. “Todos os caminhos levam ao Massafeira”. In: SOUSA, Ednardo Soares da Costa (Org.). Massafeira: 30 anos Som, Imagem, Movimentos, Gente. Fortaleza: Edições Musicais, 2010, pp. 96-123.

________. Prefácio da primeira edição do livro Vaga-lumes, ano 1984. In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 14-15.

CONSPIRAÇÃO de Aquárius, in: Cariri Revista. Edição 14, Set/Out 2014, pp. 46-51.

MARQUES, Roberto. Contracultura, tradição e oralidade: (re)inventando o sertão nordestino na década de 70. São Paulo: Annablume, 2004.

REJANE, Cláudia. Prefácio In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 6-10.

URANO, Geraldo. Vaga-Lumes. Fortaleza: Nação Cariri Editora / Livraria Gabriel, 1984

_______. O ferrolho do abismo: poesias completas. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Não existe medicina sem ética!


Hipócrates.jpg
Hipócrates: aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém
Sobre a notícia de que uma 'dotôra' do Sírio-Libanês vazou informações sigilosas do diagnóstico de Dona Marisa Letícia - além de outros médicos terem trocado mensagens de ódio sobre o ocorrido em um grupo de Whatsapp -, o Conversa Afiada compartilha o texto do dr. Régis Eric Maia Barros, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre e doutor pela Faculdade de Medicina da USP:

Sem ética, não há medicina


O que seria a arte médica? Seria uma mera busca pela cura dos males que acometem o homem? Não, a medicina é muito mais do que isso. A medicina e o seu agente – o médico – demandam outras coisas que vão além desse olhar simplório e reducionista.
Para exercer a medicina, são necessários outros valores humanos e éticos. Sem eles, não há médico e, muito menos, medicina. A ética é vinculante para que a medicina aconteça. Nessa lógica, a busca pelo agir certo e a necessidade de ser virtuoso, frente ao outro, é imperativo. Esse outro, que se encontra adoentado, precisa ser respeitado em todas as suas dimensões. Esse outro, que espera do médico proteção, nunca poderá ser atacado na sua essência humana. É função inata do médico e da medicina garantir tudo isso. Ser protetor independente de quem esteja necessitando de proteção. Essa condição vem muito antes do diagnóstico e do tratamento. Se essa função não for alcançada, para o que serviriam os atos de diagnosticar e tratar?
O médico não deve, em hipótese alguma, colocar sua vertente ideológica e política diante de um paciente que padece. Isso é um absurdo! Infelizmente, a sociedade vem alimentando isso. Lembremos da pergunta que “viralizou” nas mídias sociais e na internet: “quem você salvaria primeiro? O policial ou o traficante?
A questão não é essa. Na verdade, nunca foi. Contudo, de forma decepcionante, essa tem sido a toada do momento. Se o médico, ao tratar alguém, usar isso como crivo de conduta e de postura, ele não deveria ser médico. Se essa lógica prevalecesse, estaríamos presos ao bizarro. Imaginem vocês que fossem criadas emergências médicas para atender “comunistas” e “direitistas”. E que cada uma não atendesse aqueles pacientes de outra ideologia que chegassem e necessitassem de acolhimento. Imaginem, ainda, que algum médico de ideologia “X” recebesse um paciente importante da ideologia “Y”. Por ser de ideologia oposta a dele, o médico não acolhe de forma adequada esse paciente e acaba por vazar, publicamente, exames dele além de, por meio das mídias sociais, desdenhar e desejar o pior para ele.
Seria isso a medicina? Não, meus caros leitores, a medicina nunca foi, é e nunca será isso. Na verdade, estamos diante de um “fake” pouco ético e equivocado. O médico e a medicina não enxergam pela lente política e ideológica. Eles, simplesmente, enxergam pelos olhos da bondade, do humanismo e, sobretudo, da ética.
Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra

Em tempo: a tal 'dotôra' foi demitida na noite de ontem. Em nota, o Hospital Sírio-Libanês informou “ter uma política rígida relacionada a privacidade de pacientes” e repudiou a quebra do sigilo por profissionais de saúde.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

As "bestas" de jaleco (Luís Costa Pinto – Jornalista)

Outrora uma profissão abraçada por abnegados ascetas, a ponto de ser comparada por muitos a um sacerdócio, a Medicina parece ter se convertido aqui no Brasil a uma seita satânica seguida como profissão de fé por seres grotescos –sem alma, sem cérebro, sem compreensão do mundo, sem dó ou compaixão.
Exagero e tomo a parte pelo todo porque os médicos brasileiros precisam, seja por iniciativas das entidades de classe, seja por eles mesmos atuando individualmente, reagir de forma dura e organizada à ínfima minoria integrada por seres abjetos como a reumatologista Gabriela Munhoz, o cardiologista Ademar Poltronieri Filho, o urologista Michael Hennich e o neurologista Richam Faissal Ellakkis.
Horas depois de Marisa Letícia da Silva dar entrada no Hospital Sírio Libanês, há 10 dias, com um quadro de Acidente Vascular Cerebral grave, Gabriela Munhoz divulgou em grupos de Whatsapp dados do prontuário médico da ex-primeira-dama cuja morte cerebral foi anunciada ontem (2.fev.2017). Não o fez em busca de auxílio. Eram informações sigilosas de uma paciente –fosse quem fosse– e o simples fato de compartilhá-las configura um atentado à ética médica.
O compartilhamento de Munhoz seguiu-se a disseminação dos dados pessoais da mulher do ex-presidente Lula por Poltronieri Filho. A partir dali o urologista Hennich desdenhava da paciente, fazendo piadas com ela. Tudo culminou com a torcida declarada do neurologista Ellakkis para que Dona Marisa, uma mãe carinhosa, avó dedicada, companheira solidária, mulher de rara fibra e militante valorosa de causas sociais e políticas, evoluísse a óbito –para usar o jargão dessas bestas de jaleco.
Esses fdp vão embolizar ainda por cima”, escreveu, em referência ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue em determinado local. “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu Ellakkis, que presta serviços no hospital da Unimed São Roque, no interior de São Paulo, e em outras unidades de saúde da capital paulista, segundo relato de apuração jornalística efetuado por O Globo e divulgado no site do jornal.
Os valores dessa verdadeira quadrilha de médicos que rasgaram seus juramentos aos princípios de Hipócrates e espicaçaram qualquer solidariedade humana podem –e devem– ser comparados aos patéticos protestos contra o desembarque de doutores e doutoras cubanos no âmbito do programa Mais Médicos levado a cabo no primeiro governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Podem e devem, ainda, ser analisados em paralelo com a atitude criminosa de ortopedistas do Distrito Federal que prescreviam cirurgias de colocação de próteses ósseas desnecessárias e introduziam no corpo dos pacientes peças de segunda mão –matando muitos de infecção, restringindo o movimento de outros e assaltando-os abertamente ao superfaturar os procedimentos clínicos e cirúrgicos.
Somam-se os exemplos e os paralelos. Multiplica-se a solidariedade da infâmia, com a corporação protegendo aos seus e deixando a sociedade à mercê da sorte. Abatido pela onda de ódio conservador e primitivo contra os médicos cubanos, o Mais Médicos se liquefez e devolveu à incerteza e à intermitência o atendimento a milhares de brasileiros, sobretudo nas cidades do interior, porque o exercício da Medicina é encarado por essa corja de “doutoras” e “doutores” como Munhoz, Elliakkis et caterva como uma ação entre amigos da mesma classe, do mesmo credo, do mesmo grupo e com o mesmo objetivo.
O vazamento dos dados pessoais da ex-primeira-dama por uma profissional médica do Sírio-Libanês (o hospital já a demitiu) expôs em definitivo uma faceta sórdida da sociedade brasileira. Estamos, talvez definitivamente, divididos pelas opções e opiniões políticas. Isso é raso. Isso é rasteiro. E isso não é vida real. É ódio e, em alguns casos, é também recalque.
Nem a foto da visita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a Lula, com os ex-presidentes fazendo-se acompanhar dos ex-ministros José Gregori (Justiça, FHC) e Celso Amorim (Relações Exteriores, Lula), nem o gesto largo de Michel Temer e do presidente do Senado Eunício Oliveira, que visitaram o líder petista ontem à noite para prestar solidariedade na hora de dor e de perda, parecem capazes de restaurar a cordialidade como atributo essencial do caráter brasileiro.
A ação dos vermes de jaleco que abusaram da agonia de Marisa Letícia não pode ficar impune no meio médico. Caso fique, toda a corporação corre o risco de começar a ser tratada com o desprezo que bandidos assim merecem. E sentirão a dor da discriminação que se dedica a quem vende a alma a seitas de fanáticos. Médicos como os que se integraram a essa corrente da infâmia nascida no Sírio-Libanês são passíveis do desprezo e merecedores de todos os castigos divinos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CASO MARISA: A ÉTICA DA LAVA JATO E DO PCC (LUIS NASSIF)

Caso Marisa: a ética da Lava Jato e do PCC


Qual a intenção  de Sérgio Moro e dos Procuradores da Lava Jato em denunciar dona Marisa? Do ponto de vista jurídico, nenhuma. Jamais comprovaram que o tríplex era de Lula. Mesmo se fosse, não havia nada que pudesse ser impingido a dona Marisa. Ela não participava de discussões políticas, menos ainda de negócios. Limitava-se a cuidar dos filhos e netos e dar amparo emocional ao marido.
A intenção foi puramente política, de bater, bater, bater em Lula, até que arriasse emocionalmente.
Não existe ética na guerra. E não existe a figura do inimigo no direito. A Lava Jato se tornou uma operação de guerra, caçando o inimigo e o direito se tornou instrumento de vingança.
Não viam a figura da mãe e da avó, mas apenas a mulher do inimigo a ser batido.
Expuseram como prova de crime os pedalinhos que dona Marisa comprou para os netos. Invadiram sua casa, entraram em seu quarto, reviraram até o colchão da cama. Levaram seu marido detido, expuseram incontáveis vezes os filhos no tribunal da mídia.
Esse exercício continuado de crueldade, mais do que estilo jurídico, é marca de caráter.
É possível encontrá-lo em diversos personagens e diversas situações, cada qual subordinando-se aos ritos da classe e às prerrogativas da profissão.
No Judiciário, gera juízes vingadores. No Ministério Público, projetos de torquemadas. Cada qual busca a jugular do inimigo valendo-se das armas que lhe foram conferidas institucionalmente. Não lhes exija momentos de educação, respingos de respeito, gotículas de humanidade.
No PCC, há chefes sanguinários que não se contentam com assassinatos de imagem e mortes civis: eliminam fisicamente os adversários.  Na Polícia Militar os soldados que, com um revólver na mão, se consideram donos do mundo e das vidas. No crime, o poder das chefias depende apenas da meritocracia: não há concursos, nem carreiras pré-definidas, com planos de cargos e salários. E eles correm risco, pois não contam com a blindagem do Estado. São cruéis e são valentes.
Em comum, todos eles, os da lei e os fora-da-lei, têm a crueldade de caráter, o gozo infindável de chutar o adversário de todas as formas, de tratá-los como inimigos, os fora-da-lei matando pessoas, os da lei expondo-as ao direito penal do inimigo, desumanizando-as, transformando donas-de-casa em cúmplices, presentes de avó para netos em provas de crime, violando seu quarto, sua penteadeira, suas lembranças.
Hoje, na Lava Jato, o juiz Moro e cada procurador colocarão uma marca a mais no coldre virtual de onde empunham suas armas legais. Que pelo menos tranquem a porta antes de iniciar a comemoração.

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y sem soma

Quando os indivíduos se tornam piores que corvos

Linchamento e quebra-quebra são coisas que saem da racionalidade humana. Por mais sensatos que pensamos ser, muitas vezes, nos envolvemos em linchamentos sem perceber... depois é tarde para voltar atrás.
Lembro, por exemplo, na Inglaterra, quando muitos adolescentes de classe média iam devolver aparelhos eletrônicos roubados de lojas depredadas devido a um distúrbio. Eles não conseguiam sequer explicar por que haviam feito aquilo.
Em nosso caso, quando a poeira abaixar, talvez daqui alguns anos, fico a pensar quantos "bons cristãos" conseguirão confessar que ajudaram a linchar a esposa do Lula.
Mas sei... Já se foi o tempo em que arrependimento matava.
E por falar em bons cristãos, ofereço aos linchadores de plantão uma pequena citação de um bom entendedor dessas coisas brasileiras.
“Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido”. Pe Antônio Vieira – Sermão de Santo Antônio aos peixes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Exposição de fotografias sobre o Crato será aberta hoje na URCA




Será aberta hoje, as 19h30, a Exposição fotográfica “Passado e Presente da Cidade do Crato”, que ocorrerá no Hall  de acesso da Biblioteca Central da URCA, Campus do Pimenta, Crato.
O evento é uma promoção da Pró-Reitoria de Extensão da URCA e do Clube Foto Cariri, com apoio do Departamento de História da URCA, e ficará aberta à visitação até o dia 17 de fevereiro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PERFUME DE GARDÊNIA - Dr. Demóstenes Ribeiro (Cardiologista)

Perfume de Gardênia


No avião, mais uma vez, lembrei de tudo. A casa e o jardim. A minha mãe trazendo a comida caseira, o meu pai - à cabeceira da mesa - e os oito filhos sentados na posição de sempre. Naquela época era assim. Ao anoitecer, o velho na cadeira de balanço, o cafezinho com os vizinhos e as conversas repetidas de um dia-a-dia feliz.

Uma vez por ano ele ia a Recife ou a Fortaleza e fazia uma grande compra para a loja. Numa dessas viagens, trouxe uvas e maçãs, sabor quase desconhecido para mim. Em outra, uma bola de couro e, em uma outra, o dicionário com o reino encantado e soberano das palavras. Contou que no São Luiz, assistiu a “A Ponte do Rio Kwai,” se comoveu com o sofrimento dos ingleses e eu nunca mais esqueceria a melodia do filme. Depois, chegou o grande rádio de pilha e o meu velho sintonizava o Rio de Janeiro. Era um tempo da “Ave Maria” com o Júlio Louzada, do Repórter Esso e do Altamiro Carrilho e a sua bandinha.

Havia o Grupo Escolar e antes da aula as crianças cantavam “terra do sol, do amor, terra da luz...” Na fila, um menino bem arrumado, com gravata borboleta, destoava dos outros. Era criado por uma tia e parecia assustado. Anos depois, o Ginásio e o padre severo, o maior dos benfeitores daquela comunidade.

Na entrada da cidade, a prefeitura imponente e verde. A igreja, a capela de São Francisco, o cinema, a praça principal e a sombra das algarobas. O trem, de Fortaleza ao Crato, interrompia brevemente a tertúlia, mas logo recomeçava a festa. O mundo inteiro era esperança e alegria: tempo de inocência, juventude e fé.

Mas, quando desembarquei, percebi que tudo mudara. O trânsito perigoso e a sinalização inadequada. A usina fantasma e o canavial, quase extinto, não mais ondulando ao vento. E na minha cidade tudo parecia mal cuidado. A prefeitura em um amarelo ressequido, o grupo escolar e a estação ferroviária abandonados. Ruas estreitas e esgotos a céu aberto, mercados desativados e praças descaracterizadas. Na calçada, sem coragem de entrar, observei a casa. Sem flores no jardim, ela parecia menor e oprimida, todos partiram, a sua pintura descascava e não mais havia o menino que ali morara. As casas também sentem saudades?

Antes da volta, entrei no shopping center. Como em todo lugar, restaurantes fast-food e lojas de grife com letreiros em inglês. Antevi um mundo de obesos e a escravidão do cartão de crédito. Suprema heresia, o templo do consumo e da segregação social, o dragão da maldade na cidade da fé. Ali, ninguém sabia do “Boi Mansinho” nem da Beata Mocinha, e nada seria mais exótico do que um romeiro naquele lugar.

Depois, no avião, curvado à realidade cruel e à impiedade do tempo, fechei os olhos e escondi as lágrimas. Cantei baixinho “Perfume de Gardênia,” adormeci e sonhei com o sol nascendo sobre as moças da Beira Mar.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

E o livro saiu: A Outra Face de Sérgio Moro

por Emanuel Cancella




Por que será que o MP, Pedro Parente e a mídia
tentaram inviabilizar o lançamento do livro?

Nossos agradecimentos à brilhante jornalista Fátima Lacerda, sem a qual essa obra não existiria, aos chargistas Mega e Latuff, ao diagramador Stefano Figalo e à revisora Maíra Santafé. A primeira gráfica negou fogo, dizendo que não poderia rodar o livro, mas finalmente o livro está na pista.  Veja o vídeo do lançamento gravado pelos companheiros do Ocupa Minc (2)!

A sede do Sindipetro-RJ ficou lotada nesta sexta, 6/1/17 para receber um livro que a mídia tenta esconder (1). Não publicaram a coletânea de matéria que deu origem ao livro, todas enviadas para possível divulgação e muito menos divulgaram o lançamento. A gráfica só conseguiu 100 exemplares que esgotaram rapidamente, não deu para os que queriam adquirir. A semana que vem a gráfica vai entregar o restante, 1900, notícias sobre local de vendas podem ser encontradas na página do facebook com o nome do livro.

Também faremos novos lançamentos, pois há pedidos em outras partes do Brasil e do mundo. Vamos também disponibilizar a venda pela internet. Cada exemplar custa R$50,00, a renda será toda dirigida para os desempregados em função da operação Lava Jato, cerca de dois milhões de trabalhadores.

O Ministério Público, através do juiz Sérgio Moro, me intimou num claro intuito de me intimidar, e talvez inviabilizar o lançamento do livro. A direção da Petrobrás, através de Pedro Parente, interpelou-me também, com certeza no intuito de me calar e calar a categoria.

O livro é uma oportunidade de a sociedade conhecer o outro lado dos fatos: de como a Lava Jato destrói a Petrobrás; da gestão entreguista de Pedro Parente na Empresa e do papel da mídia nessa história.

Essa obra pertence integralmente aos trabalhadores que estão sendo vitimas desse conluio que visa entregar a Petrobrás aos gringos. O Brasil está perdendo o seu ouro negro; os trabalhadores os seus empregos e a nossa democracia se esvai, já que o golpe está intrinsicamente ligado a essa operação. Ajude-nos na divulgação do livro e você estará ajudando a retomada da nossa soberania e de nossa democracia.  

Rio de Janeiro, 07 de janeiro de 2017