AVISO AOS NAVEGANTES DESTA NAVE CARIRICULT

A gente está no Ano 6 (2007-2011) desta nossa revista eletrônica CaririCult . Uma construção coletiva que nos aproxima através da ARTE que decifra, interpreta e reinventa a POESIA MAIOR QUE É A VIDA. Lembremo-nos que cada colaborador é responsável pelas suas opiniões aqui emitidas nas postagens ou nos comentários.

TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dr. Landim com o seu " O Voo do Zabelê "no Cariri Encantado- Protagonistas!

Hoje, o Cariri Encantado-Protagonistas recebe o Juiz Federal do Trabalho Dr. José Vanderlei Landim, que escreveu “o voo do Zabelê”, um livro de suas memórias de família, seminário, formação profissional, viagens, etc. e que aposentado, mas cheio de gás, dedica parte do seu tempo à Sociedade Lírica do Belmonte-Solibel, a escola de música fundada pelo Mons. Ágio Moreira. A conversa promete.
Então, temos um encontro marcado:  Cariri Encantado – Protagonistas!  A partir das 14 horas pelas ondas sonoras da Rádio Educadora do Cariri. A produção é da Oca – Officinas de Cultura, Artes e Produtos Derivados, Revista Virtual CaririCult em parceria com a Rádio Sociedade Educadora do Cariri, 1020 khz, AM.
Na internet: www.radioeducadora1020.com.br

Messi e Pelé - José do Vale Pinheiro Feitosa

The Best. Eis a bobagem mercantil de um capitalismo que pretende ampliar seus lucros na simbologia e no abstrato ao invés de produtos. Afinal o capitalismo cada vez se aperfeiçoa mais na expansão mercantil do imaginário popular.

A discussão envolve a genialidade do jogador argentino Messi como superior aos gênios tradicionais deste esporte. É preciso repetir “ad nauseam” a cerimônia mercantil do Oscar (aliás, eu sou mais os franceses que dizer Oscár e não Óscar). É preciso encontrar o melhor, do melhor, a usurpar todas as escalas enquanto grana puder ganhar.

Ora o Messi é um baita jogador. Não interessa se ganhará uma copa ou não. Mas pode, ele já é um jogador mais espanhol do que argentino, quem sabe se ele se naturalizar? E se ganhasse passaria Pelé, Maradona, Garricha, etc?

Mas a questão não se encontra no Best ora bando de nomeados em cearensês com o aproveitamento da palavra inglesa. Não tem como superar historicamente o maior sentido que o futebol teve no século XX como o esporte da emergência das colônias e ex-colônias contra o império.

Um amigo que trabalhou na Índia e na África sentiu o prestígio de Pelé se projetando nele como brasileiro. Inclusive quando foi seqüestrado pela guerrilha da Somália, ele teve mais carinho por que era da terra do Pelé junto aos guerrilheiros comuns.

A questão é central ainda hoje: o futebol aliena certa consciência da opressão, mas foi a primeira altivez dos negros e morenos do mundo todo contra a raça branca colonialista. E Pelé foi o símbolo disso. Pelé o talento, o gênio, o Davi que venceu Golias. Como o colonialismo foi fundamentado com o cristianismo as referências bíblicas valem.

Por isso Messi pode ser submetido ao mais alto grau da tecnologia para avaliar o quanto ele é ou será melhor do que Pelé. A questão é outra imbecil!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Anni Settanta - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não existe outra fórmula de testar coisas que podem ser apenas de nossa história pessoal ou da história geral da humanidade, que não aquela pela qual nos fazemos denominador comum. Quando o mundo se divide por nós ou quando invertemos a fração e nos dividimos pelo mundo. E vou usar esta canção que fez muito sucesso no Festival de San Remo em 1970. Ricchi e Poveri, um vocal formado por duas moças e dois rapazes, cantou Che sará.

Aí estou na última noite da minha vida na cidade interiorana em que nasci. Poucos conterrâneos sabem que nasci e me criei num sítio, nunca morei na cidade. Saí da zona rural diretamente para a capital do estado. E nesta noite simbólica, uns seis primos e mais alguns amigos, passamos no quintal de casa, sob pés de cajarana tocando violão e tomando algumas doses. Ali todos se despediam de um estilo de vida, de um mundo simples e uma era prestes a ser ultrapassada.

Por isso quando relembro a chegada à capital a tenho como a emergência de uma nova era. E por certo não foi apenas um rito de transição entre a adolescência e a vida adulta. Eram os anos dos grandes festivais de música aqui e em todos os países. Elvis, The Beatles entre tantos que chegaram ao primeiro plano formaram o grande palco desta transição, o grande e simbólico palco de uma nova era.

Do mercado global, das comunicações de massa, de uma linguagem cultural urbana e ao mesmo tempo universal. No Festival de San Remo o grupo vocal com o Che Sará dizia: Paese mio che stai sulla collina / disteso come un vecchio addormentato / la noia l'abbandono / niente son la tua malattia / paese mio ti lascio e vado via / che sarà che sarà che sarà / che sarà della mia vita chi lo sa / so far tutto o forse niente / da domani si vedrà / e sarà sarà quel che sara.

Abandonam seu lugar sobre uma colina. Lugar velho e adormecido. Abandonam o tédio e se deixam ir. E vão em frente. O que será da minha vida? O que será eu não sei, se faço tudo ou nada, amanhã se verá! O que será? O que será? Eis aí o nosso denominador comum: aqueles festivais eram a linguagem universal da última e grande migração em busca do palco geral da globalização. A diferença naquele momento é que havia um show via satélite ou vídeos reproduzindo para toda a humanidade o momento de ruptura de eras.

Na verdade a perda de um tempo e o achado de outro nunca foi uma sensação solitária. O disco, os grandes shows, os estádios lotados para assistir aos Beatles e a grande estrutura da produção mundial de tournées eram os ensaios do que seria o futuro e hoje o é. Agora mais banalizado, sem aquele olhar de esperança ou perplexidade, apenas um tédio que lentamente baixa nas câmaras solitárias cuja janela única de saída é a tela de computadores ou a televisão. Ambas se tornando cada vez mais a mesma coisa.

A propósito: o nome do vocal é Ricos e Pobres.

A mulher e seu dia internacional - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não se fala no dia da mulher essencialmente pelo gênero. Não falamos de todas as propriedades biológicas comuns às mulheres. O dia da mulher é para lembrar o seu papel social e cultural. Ele se constitui numa forma de “libertar” a mulher para o trabalho. Geradora de expansão econômica num modelo de economia que se baseia no contínuo crescimento de consumidores e por consequência no avanço do lucro auferido pela inversão de capital.

Isso é o que ele mais se caracteriza nos dias de hoje, especialmente para as mulheres de classe média. Mas as origens do Dia Mundial da Mulher estão na luta de mulheres operárias, que eram esmagadas no trabalho do final do século XIX para o início do século XX como toda a classe operária sempre foi. Então neste momento a mulher cumpria um papel de revisão geral do trabalho e não apenas de sua condição de gênero.

Dizer que as mulheres são um sonho, uma flor, uma luz, um perfume é como encantá-las diante da vida. Mas o dia da Mulher é a quebra do encanto, das formas opressoras que sobre elas recaem, mas, sobretudo dos modos como a civilização que mais liberdade deu para a inventividade é justamente aquela que mais busca, numa cadeia parasitária, o lucro sobre a realização do outro.

E digamos assim: o modo atual de exploração do homem pelo homem não tem gênero, aliás, ele até precisa quebrar o machismo como modo de expansão de lucro. Do mesmo modo a expansão capitalista que aconteceu territorialmente, de um continente para outro, precisa continuar crescendo em lucro, de uma classe para outra, dentro da família mesmo que a destrua, e na tecnologia como a biotecnologia quando todos pagarão pedágio para sobreviver mais alguns anos.

Ao liberar a força de trabalho da mulher, fragmentando a renda e a família, o capitalismo não tem comichões morais com a criação de filhos e menos ainda com a proteção dos mesmos. As creches, as escolas, os balés, as piscinas, as línguas estrangeiras, a televisão e a internet são o substituto para a presença feminina, especialmente materna, no desenvolvimento de crianças.

Os “democratas” só não querem que organismos sociais, políticos e do Estado sejam parte do substitutivo. Eles entendem que o “livre mercado” é uma babá muito mais eficiente para os filhos. Que as entidades privadas serão mais “protetoras” e mais “eficientes” no balanço entre custo e benefício. Os “democratas” que tinham horror aos substitutivos de natureza socialista, via Estado, agora estimulam a solução extra familiar como mais uma forma de expansão dos negócios.

Por isso o dia Internacional da Mulher continua sendo uma crítica ao trabalho, às suas escolhas, às suas finalidades, à razão de realizar um determinado trabalho. O Dia Internacional da Mulher é, sobretudo, uma forte crítica da expansão consumista e da exploração das trabalhadoras.

Mãe e Filha, de Petrus Cariry é o longa-metragem que representa o Brasil no Festival de Las Palmas


(Las Palmas de Gran Canaria -Espanha, 6 mar  2012.)
- O cinema emergente de países latino-americanos como o Brasil, o Chile e a Bolívia, e asiáticos como as Filipinas, será exibido na seção oficial do 13º Festival Internacional de Cinema de Las Palmas de Gran Canaria, no arquipélago atlântico das Canárias.

O evento será 'austero mas com a melhor programação' de sua história, disse nesta terça-feira em entrevista coletiva o diretor Claudio Utrera, ao apresentar os 155 títulos que formam a programação desta edição.

Dos 15 longas-metragens que concorrerão na seção oficial do evento, que acontece entre 16 e 24 de março, está o brasileiro 'Mãe e filha', de Petrus Cariry.

Claudio Utrera destacou a produção portuguesa 'Tabu', d e Miguel Gomes - a quem o festival já premiou em 2009 - dada a 'controvérsia' que levantou na última edição da Festival de Berlim.

Outros filmes que estão na seção oficial são a coprodução greco-francesa-albanesa 'Amnesty', de Bouyar Alimani; o espanhol 'Ensayo final para Utopía', de Andrés Duque, que participou da última edição do festival com seu filme 'Color perro que huye', assim como a mexicana 'Azar', de Michel Lipkes, e 'Zoológico', uma produção chilena dirigida por Rodrigo Marín.

Utrera afirmou que o cinema 'mais emergente' da atualidade se localiza em países latino-americanos como a Bolívia, o Chile e o Brasil, e também em outros europeus como a França, em asiáticos, como as Filipinas, e também no Irã.

O diretor do evento não duvidou em afirmar que a seção informativa do festival deste ano será 'a mais forte de sua história', dada a categoria do trabalho de seus diretores, entre os quais destacou a japonesa Naomi Kawase, que apresentará seu último filme, 'Hanezu no tsuki'.

Entre as novidades do festival está um concerto de trilhas sonoras um dia antes do encerramento do evento com a Orquestra Filarmônica de Gran Canária, sob a batuta do compositor e diretor do Festival Internacional de Música de Cinema de Tenerife, Diego Navarro.

Nesse concerto, a orquestra interpretará temas da cinematografia asiática originais de Shigeru Umebayashi, autor fetiche de cineastas como Wong Kar Wai e Zhang Yimou, e a trilha sonora do filme 'Perfume - A História de um Assassino'. EFE

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quarta-feira, 7 de março de 2012

O Império Terceirizando a Morte - José do Vale Pinheiro Feitosa

O quê explica a repetição de certos fenômenos a ponto de torná-los previsíveis? O tempo, o espaço e a estrutura dos mesmos resultando em funções com resultados assemelhados. Muitos levam em conta a seguinte frase: A história se repete, a primeira como tragédia a segunda como farsa. Na verdade isso é parte daquelas famosas manias burguesas de pinçar frases de um autor para comumente construir outro tipo de farsa: a farsa da sabedoria de mesa de bar.

Na verdade a frase foi pinçada do 18 Brumário de Napoleão escrito por Karl Marx que diz o seguinte: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela.”

Repeti a história de Marx para fazer um paralelo entre a decadência dos impérios (especialmente o romano) em comparação com um dos maiores impérios da história: o Império Americano. A Folha de São Paulo traduziu e publicou um artigo escrito por Rod Nordland diretamente de Cabul para o The New York Times que diz o seguinte: “Esta é uma guerra em que os empregos militares tradicionais, de cozinheiros a guardas de base e motoristas de comboios são cada vez mais transferidos para o setor privado. Muitos generais e diplomatas americanos têm guarda-costas empregados de empresas terceirizadas. E junto com os riscos vieram as conseqüências: no ano passado, pela primeira vez, mais funcionários civis de empresas americanas do que soldados morreram no Afeganistão.”

Nordland apresenta uma série de números e confirma que a mesma coisa está ocorrendo no Iraque. Mais “funcionários terceirizados” estão morrendo do que soldados do efetivo para a guerra. Em outras palavras estamos vivendo dois momentos: em primeiro lugar empresas se organizaram para terceirizar a guerra e segundo, isso é o velho e conhecido mercenário. Que guerreia por dinheiro, sem espírito maior do verdadeiro significado da defesa de sua tribo, seu povo ou sua nação.

O mais grave desta farsa americana é que como se observa a terceirização implica em mais mortes para as pessoas em ação. Em outras palavras, estão terceirizando a morte de jovens pobres recrutados por empresas que lucram com isso.

Alysson Amancio - Por uma dança que transforme





Pesquisador, artista e professor, Alysson Amancio vem nos últimos anos contribuindo para a consolidação da dança contemporânea no Cariri. Inquieto e viajado, Alysson não se conteve apenas em aprender a dançar e busca cotidianamente elementos para alimentar a sua percepção e produção estética e artística. Ele acredita ser possível lutar por um mundo mais humano, digno e igualitário e que as artes são impreterivelmente os melhores caminhos para as conquistas nesse embate social.

Alexandre Lucas - Quem é Alysson Amancio?

Alysson Amancio - É sempre difícil falar quem eu sou, pois, todos nós seres humanos temos diversas facetas e mudamos o tempo o inteiro as nossas ideologias de acordo com as experiências nas quais somos atravessados.
Nas minhas características imutáveis, sou um caririense, criado por uma família unida e trabalhadora e que me deu a base e liberdade para ser um sonhador e realizador ao mesmo tempo.
Sou um artista, professor, pesquisador. Um homem do bem que realmente acredita ser possível lutar por um mundo mais humano, digno e igualitário e que as artes são impreterivelmente os melhores caminhos para as conquistas nesse embate social.

Alexandre Lucas - Quando teve inicio seu trabalho artístico?

Alysson Amancio - Meu primeiro contato com o teatro foi na escola, no ensino fundamental. Apaixonei-me completamente pelas artes cênicas e nunca mais parei. Da escola fui para grupos amadores, depois procurei oportunidades para trabalhar com grupos mais profissionais, paralelamente fiz duas graduações em Dança. Participei de vários festivais nacionais e internacionais. E após retornar para Juazeiro do Norte, iniciei a produção da minha própria companhia de dança, meu projeto de formação e difusão da dança através da Associação Dança Cariri e meu trabalho como docente na Universidade.

Alexandre Lucas - Quais as influências do seu trabalho?

Alysson Amancio - Atuando como artista e professor tudo me interessa e influencia o meu trabalho desde as culturas populares até as intervenções mais contemporâneas. Leio muito, vejo muitos filmes em casa, observo atenciosamente as pessoas que convivo e procuro estar cotidianamente concatenado mesmo que virtualmente com a dança cênica produzida no mundo hoje. Em relação a profissionais de dança mais especificamente, amo a vida e obra da coreógrafa Martha Graham. E sobre as minhas influencias atuais: dos brasileiros admiro muito o trabalho do Flávio Sampaio, Andrea Bardawill, Fauller, Wilemara Barros, Ana Vitória, Alejandro Ahmed, Henrique Rodovalho, Rodrigo Pederneiras, Isabel Marques, Roberto Pereira e estrangeiros William Forsythe, Maguy Marrin, Pina Bausch.

Alexandre Lucas – Como foi esse contato com a dança contemporânea?

Alysson Amancio - Sempre gostei de dança contemporânea mesmo quando não sabia o que era essa linguagem. Na minha adolescência ficava fascinado quando via Elina Feitosa ou a companhia de Danielle Esmeraldo em cena. Ainda fiz algumas aulas de dança no Crato com Elina, mas o meu primeiro contato de fato foi em 1997 na cidade de Fortaleza nas aulas com Andrea Bardawill e na Companhia de Dança Janne Ruth. Desde então o contemporâneo tem sido meu principal objeto de estudo, fonte de pesquisa e área de ensino. Essa possibilidade infinita de conceitos e estéticas que a dança contemporânea permite, me instiga profundamente.


Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória:

Alysson Amancio - Considero o Grupo de Teatro Expressões Humanas da Herê Aquino e a Companhia de Dança Janne Ruth como sendo minhas primeiras experiências profissionais nas artes cênicas. Depois disso trabalhei na Adão Companhia de Dança e posteriormente no Rio de Janeiro na Cia de Dança da Cidade e na Esther Weitzman Companhia de Dança. Entretanto, creio que o divisor de aguas na minha trajetória sem dúvida foi o Colégio de Dança do Ceará e a minha graduação em dança no Rio de Janeiro. Estreitar os laços entre a minha dança e o pensamento acadêmico me impulsionou a querer ser mais que um bailarino. Projetou-me para coreografar, pesquisar e escrever sobre dança. Entendendo que essa linguagem artística é extremamente poderosa e capaz de transformar a sociedade de forma avassaladora. É com esse pensamento que desde que retornei para Juazeiro do Norte em 2006, que procuro desenvolver minhas atividades, difundindo e aplicando a Dança com todo o potencial que ela aglomera.

Alexandre Lucas – A dança no Cariri é marcada pela diversidade de estilos?

Alysson Amancio - Existe uma ideia muito cristalizada que o Cariri é o celeiro da cultura popular. Temos realmente uma cultura popular riquíssima e que precisa ser valorizada e reconhecida, todavia essa não é a única possibilidade de arte produzida na região. Esse imaginário, lamentavelmente, contribui para que outras manifestações da dança que não seja o reisado, a lapinha e a banda cabaçal não sejam vistos também como representantes da dança caririense.
Aqui nós temos reisados, lapinhas, banda cabaçais, coco, mas também temos balé clássico, dança contemporânea, dança de rua, quadrilhas juninas, dança do ventre, dança de salão, danças sagradas, dentre outros. Enfim, são muitos os estilos para o nosso deleite.
Estou escrevendo um livro sobre a história da dança cênica caririense que será lançado ainda no primeiro semestre de 2012. Espero que a partir dessa publicação novas pesquisas sejam feitas para documentar a dança local, pois, até hoje não existe nada que eu conheça que tenha esse foco.

Alexandre Lucas – Como é trabalhar dança contemporânea na região do Cariri?

Alysson Amancio - Ninguém gosta daquilo que não conhece. O grande trabalho atualmente na região do Cariri é estimular o maior número possível de produções e circulação de espetáculos de dança contemporânea. Quanto mais grupos ou artistas independentes produzirem trabalhos contemporâneos, mais ampliaremos o número de apreciadores e consequentemente o mercado de trabalho. Quando voltei, em 2006, era tudo muito mais difícil, todas as pessoas que produziam dança contemporânea estavam paradas. Felizmente ao longo de varias ações, criou-se um circulo ativo nessa área. Seis anos depois, eu enxergo com muita alegria mudanças concretas no que se refere a produção de dança contemporânea caririense, inclusive em relação ao olhar de fora sobre a nossa fomentação. Os profissionais de dança mais renomados do Brasil me enviam currículo e propostas para vir dançar ou ministrar oficinas em Juazeiro do Norte.

Alexandre Lucas - Qual o papel social do artista?

Alysson Amancio - Essa frase soará um tanto clichê, mas não vejo como escrever outra coisa. O principal papel do artista é transformar o mundo em algo melhor.

Alexandre Lucas - Qual a contribuição social do seu trabalho?

Alysson Amancio - Não trabalho sozinho, eu trabalho com uma equipe que busca cotidianamente ampliar essa rede e agrupar mais pessoas nesse coletivo. Pensamos grande: queremos projetar a dança do/no cariri para o mundo inteiro. Produzir e fortalecer a dança cênica caririense é a nossa grande motivação. Por isso iniciamos esse trabalho exatamente aqui. Toda grande mudança acontece de dentro para fora. Queremos que o garoto do Bairro João Cabral aprecie os espetáculos de dança locais, e num futuro próximo os Cariocas e depois os Parisienses.

Alexandre Lucas - O que representou e representa para você o trabalho de pesquisa?

Alysson Amancio - Não existe arte sem pesquisa. O artista não pode ser medíocre e acomodado. A curiosidade e coragem devem ser os motores da sua arte. Por isso a minha grande luta é para a criação do Curso Superior de Dança no Cariri. Nós já temos as três linguagens da arte. Música na UFC – Cariri e Teatro e Artes Visuais na URCA. Por que não temos dança?
Em 2008, a Associação Dança Cariri fez um abaixo-assinado com os artistas da dança caririenses e recolhemos mais de 2600 assinaturas, entre estudantes e profissionais da dança reivindicando a criação desse curso.
Em 2011, o Centro de Artes Reitora Arraes de Alencar Gervaiseau aprovou o projeto para a criação do Curso Superior de Dança. Agora falta apenas o Conselho Superior da Universidade Regional do Cariri aprova-lo e o Governador Cid Gomes assinar o termo de criação. Infelizmente isso será o mais difícil, pois a sua politica tem demonstrado pouquíssimo interesse em fortalecer nem o ensino, a extensão e a pesquisa no âmbito acadêmico.

Alexandre Lucas – No Ensino Básico do Estado do Ceará existem profissionais habilitados para trabalhar a dança no Ensino de Artes?

Alysson Amancio - Em Fortaleza sim, já que lá existe o Curso Técnico de Dança e o Curso Superior de Dança da Universidade Federal do Ceará. Além disso, o Vila das Artes, da Prefeitura Municipal de Fortaleza através da Secretaria de Educação financia o Projeto “Dançando na Escola”, proporcionando profissionais capacitados atuarem nas escolas formais de ensino.
Nos interiores cearenses a realidade é completamente diferente. No Cariri, por exemplo, são raríssimas as escolas que oferecem dança além das montagens coreográficas em datas comemorativas. As poucas que se arriscam nessa empreitada desconhecem profissionais realmente qualificados para tais funções e acabam empregando profissionais de outras áreas, que muitas vezes fazem um desserviço no que se refere ao ensino de dança.

Alexandre Lucas – O que representa a dança na sua vida?

Alysson Amancio - A dança é a minha vida. Paixão, razão e profissão. Tenho a grande felicidade de trabalhar com o que eu amo. Portanto, defendo e luto diariamente para a valorização e reconhecimento dessa linguagem artística. A dança pode ser utilizada como entretenimento, terapia, atividade física e profissão. São tantas e possibilidades e benefícios, que eu acho muito triste o homem que nunca se permitiu essa vivencia na sua vida.

terça-feira, 6 de março de 2012

Macondo está em festa !


García Márquez comemora seus 85 anos ao lado de familiares no México

Gabriel García Márquez posa com seu neto Mateo (esq.) e o assistente Genovevo Quirós em sua casa em San Ángel, na Cidade do México (6/3/2012).

  • Gabriel García Márquez posa com seu neto Mateo (esq.) e o assistente Genovevo Quirós

  • em sua casa em San Ángel, na Cidade do México (6/3/2012).


O escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura, comemora nesta terça-feira 85 anos em companhia de sua família em sua residência na capital mexicana, no bairro de Pedregal de San Ángel.

"Gabo" aceitou que uma equipe da Agência Efe o fotografasse em sua casa, onde entre 1965 e 1966 ele escreveu sua obra mais importante, "Cem Anos de Solidão", que teve com uma das suas inspirações o livro "Pedro Páramo", do mexicano Juan Rulfo.

As imagens do autor, que surgiu com um grande sorriso, foram feitas no jardim de sua residência ao lado de seu neto Mateo García e de seu empregado, Genovevo Quirós.

Outro funcionário do escritor, Mónica Alonso, disse à Efe que García Márquez não planejou nada de especial para a data.

A casa está repleta de arranjos de flores enviados ao romancista, que chegou no México em 1961 encorajado pelo também escritor colombiano Álvaro Mutis.

O México celebrará Garía Márquez com diversas atividades em todo o país, entre elas duas exposições sobre a vida e obra do autor de romances como "Ninguém Escreve ao Coronel", "Má Hora" e "O Amor nos Tempos do Cólera".

A coordenadora nacional de Literatura do Instituto Nacional de Belas Artes (INBA), Stasia de la Garza, disse que o objetivo é que sua presença esteja em todo o país e que o povo se aproxime de sua obra.

Aos 85 anos do romancista se somam as comemorações dos 60 anos de seu primeiro conto ("A Terceira Resignação"), os 45 anos da publicação de "Cem anos de solidão", os 30 do prêmio Nobel e os dez anos desde que ele começou a publicar suas memórias.

Ulisses Germano no Cariri Encantado-Sonoridades!

Extremamente criativo e bom de conversa é este poeta, multiinstrumentista e artesão Ulisses Germano. Com ele estarei conversando no nosso Cariri Encantado desta quarta-feira, dia 07, a partir das 14 horas pelas ondas sonoras da Rádio Educadora do Cariri, 1020 khz, AM. No programa lançaremos previamente o cordel "Uma Ruma de Rima no Rumo Alostrófico" que fez em parceria com a mestra poetisa Bastinha Job. Ulisses Germano é também professor de artes da Escola Profissionalizante Gov.Virgílio Távora e, atualmente, desenvolve projeto em parceria com a Sociedade Lírica do Belmonte - Solibel, a escola de músicos camposes fundada pelo Mons. Ágio Moreira.

Pela internet, você sintoniza o programa no endereço:
www.radioeducadora1020.com.br

Tudo em Ordem

STF decide que músico não precisa se filiar à Ordem para exercer a profissão

Jornal do Brasil

A 2ª Turma do STF tinha afetado ao plenário — como caso-padrão — o julgamento de recurso extraordinário do Conselho Regional da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), em Santa Catarina, contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, segundo o qual a atividade de músico não depende de registro ou licença, não podendo sua “livre expressão” ser impedida por interesses do órgão de classe.

A relatora do recurso, ministra Ellen Gracie, deu ênfase, no seu voto, aos incisos 9 e 13 do artigo 5º da Constituição, que dispõem, respectivamente:

“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.

A relatora e a maioria dos demais ministros ressaltaram em seus votos que a questão tinha analogia com a da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, que foi derrubada pelo mesmo plenário, em junho de 2009.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Salve 05 de março! Viva Patativa do Assaré.



Desde a semana passsada temos homenageado e reverenciado a memória de Patativa do Assaré, nosso mais ilustre poeta nascido pelas bandas de cá. Fizemos dois programas Cariri Encantado, na Rádio Educadora do Cariri (quarta e sexta-feira) recordando passagens de sua vida, ouvindo suas recitações e canções e, ainda, músicas compostas por artistas a partir de seus poemas (Abidoral Jamacaru, Gildário, Cícero do Assaré, Fágner, Pachelly Jamacaru, Pingo de Fortaleza, dentre outros). Abrimos o primeiro programa lendo a belíssima carta de José do Vale Pinheiro Feitosa para o poeta e que recordava da passagem dele pelo Rio de Janeiro para tratar do problema ortopédico porque quase perdera a perna num atropelamento em Fortaleza (veja a carta na íntegra publicada neste blog). O programa teve a presença do grande amigo do Patativa, o cineasta Jackson Bola Bantim (na foto) que também compadre é do poeta e detentor de um dos maiores acervos da sua obra.
Hoje, dia 05 de março, Patativa do Assaré completaria 102 anos. Entretanto, sabemos que sua maravilhosa obra poética se eternizará nos corações e mentes de todos que tiverem a oportunidade de conhecê-la.
Ave Patativa, Ave Poesia!

domingo, 4 de março de 2012

Zé do Alumim será lançado no Crato agora em março



Agora em março será lançado mais um filme de Franciolli Luciano (agurdem a divulgação da data). O ator, radialista, teatrólogo e cineasta Franciólli Luciano lançará em março o filme “Zé do Alumin”, um longa de 60 min. rodado em Antonina do Norte na região do Cariri-CE, nos meses de outubro e novembro de 2011.





Todo cearense é batalhador e acostumado às adversidades da vida, buscando sempre um meio honesto de levar conforto para seus familiares, chegando a superar barreiras para muitos intransponíveis superando-as e alcançando êxito em suas empreitadas. Esta é a história do filme Zé do Alumin do cineasta Franciólli Luciano que terá sua avan premier em Crato no Teatro Municipal Salviano Arraes.





O filme é estrelado por:Adelmir Barbosa, Valdirene Cordeiro,Paula Samara Amorim,Jiliciano Lima e Fábio Lemos. Participações especiais; Franciólli Luciano e Fabiana Vieira e do povo de Antonina do Norte.





O filme conta a estória de um vendedor de alumínio, que anda os sertões afora vendendo suas panelas e outros produtos para as donas de casa.





Zé do Alumin, vivido pelo ator Adelmir Barbosa é do tipo que está sempre alegre e encanta seu público fazendo suas performances em cordel, oferecendo seus produtos e alegrando a todos por onde passa.
É muito querido pelos seus colegas de trabalho e pelo seu patrão por ser um excelente vendedor, porém está sempre devendo a firma, conseqüência dos vales feitos quase que diariamente, fazendo seus colegas pensarem que se trata de “mulheres” ou farras constantes.





Zé sempre desconversa quando é questionado sobre os constantes vales e resolve guardar consigo o real motivo dos vales e atrasos na firma.





Se seu problema é sério, ele guarda a sete chaves, achando que todos já têm seus problemas para resolver e por isso não deve levar mais um e causar preocupações.





O fato é que sua mãe sofre de uma doença grave e ele, entre suas horas de folga do trabalho dedica-se a tratar dela indo aos postos de saúde e as farmácias comprar remédios na tentativa de curá-la e nas em que está junto a ela dando seus remédios, aproveita para estudar, alimentando o sonho de um dia ser médico.





Tudo desanda para o Zé do Alumin, quando sua mãe morre uma vez que ela era tudo que ele tinha e sem animo para viver Zé vira mendigo e perambulando pelas, faminto encontra uma moça que um dia lhe dera um caldeirão que lhe dá um copo de leite salvando lhe da fome e com uma frase ela reacende a vida do Zé “Deus disse fazei o bem sem olhar a quem que em dobro vem”!





Zé some das ruas em que vendia seus alumínios e elas agora são vazias dos versos e da alegria que levava as donas de casa e até mesmo seus colegas de trabalho sentem sua falta sem saber do seu paradeiro.





Tempos depois a mesma moça que ganhára do Zé um caldeirão, encontra-se internada em um para curar a sua doença e que no final de tudo, depois de curada recebe a conta e no final das notas está escrito: tudo pago, há muito tempo com um copo de leite! assinado; dr. Zé do Alumin.

A nota dos oficiais de pijama - José do Vale Pinheiro Feitosa

As assinaturas de oficiais reformados em manifesto contra o Ministro da Defesa e a Presidenta da República em razão da Comissão da Verdade tem todas as características das coisas pequenas. Em primeiro lugar a Comissão da Verdade apenas vai expor para a Nação os nomes e métodos de quem praticou tortura, mas não vai punir ninguém, conservando assim a lei da Anistia. Mas sem dúvida, abrirá a oportunidade para no campo do direito individual as famílias tentem, na justiça, ações contra torturadores contumazes. Por isso a Veja entrevistou um já testando os limites da consciência e da tolerância nacional. Acontece que muitos torturados talvez não tenham mais ânimo para punir estas práticas monstruosas. E em segundo lugar embora estas assinaturas vindas dos Clubes Militares, vão demonstrar o nível de rebaixamento político de tais clubes outrora tão ligados às questões nacionais. Com estas assinaturas se tornaram um clube corporativo, em defesa de uma geração de militares que se associaram a uma ditadura e à tortura.

O jornalista Jânio de Freitas numa coluna na Folha de São Paulo põe claridade política na nota da corporação em defesa de seus antigos atos:

Já anda por algumas centenas, mas quanto mais assinaturas tenha o manifesto dos militares desativados contra a presidente da República, sua comandante suprema, e contra o ministro da Defesa, melhor para todos. Eles e nós.

Os comandantes do Exército, Enzo Martins Peri, da Aeronáutica, Juniti Saito, e da Marinha, Julio Soares de Moura Neto, transpostos do governo passado ao atual, têm conduta exemplar, profissional e pessoal. Não se sabe que esforço lhes custa, se custa algum, projetar sua conduta sobre a dos comandados. Seja qual for, têm êxito e nisso dão contribuição essencial à árdua construção da democracia -lenta, gradual e, ainda, restrita.

Os que assinam o manifesto, todos da reserva ou reformados, eram a própria ditadura. Foram parte do seu sustentáculo e de tudo o que nela foi feito e eles temem ver exposto plenamente e julgado. Eram a ditadura ontem, são hoje a voz da ditadura. Não é mal que façam o país ouvir a voz roufenha, velada e já trêmula da ditadura.

Também é assim que somos forçados a não perder a consciência de nossa própria história. O mesmo acontece com eles: não se esquecem do que foram -e, logo, são. E nós outros formamos a consciência de que serão necessárias duas, talvez três gerações, se tudo correr como necessário ao processo de democratização, para que não haja mais resquícios venenosos no profissionalismo militar brasileiro.

A história militar no Brasil, desde a conspiração para o golpe da República, é uma história de indisciplina. Muitos dos que viveram em indisciplina não podem compreender outra conduta.

sábado, 3 de março de 2012

Onde o erro (político) e onde a intenção - José do Vale Pinheiro Feitosa

O ministro da saúde Alexandre Padilha andou, na interpretação de Eduardo Paes, dando uma de delegado Padilha. O Comissário de polícia Deraldo Padilha virou samba de Moreira da Silva: Olha o Padilha. Truculento, severo e intransigente a ferramenta preferencial do comissário era pescoção, tapa e cadeia. Com frequência exagerava na dose chegava a prender casais namorando quando era o encarregado de combater a prostituição na cidade.

O prefeito do Rio não gostou da baixa nota dada à cidade e a rede Globo em “defesa dos fracos e oprimidos” foi para Goiana, tida como boa nota pela burocracia ministerial, só para desmoralizar quando se diz que algo vai bem na saúde pública brasileira. O professor e pesquisador José Noronha desbancou o tal indicador. Só faltou dizer que esta mesma “metodologia” foi empregada pela ANS, há poucos anos passados e criou algo parecido ao sentimento do Eduardo Paes naquele mercado.

Mas não estou dizendo que o presidente da ANS daquela época esteja na raiz desde indicador, apenas aponto a linha sucessória dentro de governos do PT a indicar que os mesmos “cientistas” estão a assessorar a burocracia de governo. O que se diga de passagem a tecnocracia é uma praga em qualquer governo, pois tenta substituir a política por tubos de ensaio social. Não é característica do PT, pois é forte em muitos governos, especialmente nestes tempos de endividamento do Estado e da transformação do ato de governar em ato de gerenciamento.

Tecnicamente o José Noronha mata a pau a questão: “a saúde é multidimensional e deve ser avaliada matricialmente e não somando variáveis de dimensões diferentes para chegar a um índice único. E ainda pior, em corte transversal, sem levar em conta a evolução de cada uma das variáveis ao logo do tempo.” O professor relembra o que o marketing do ministério já havia repassado na hora de divulgação do ranking nacional dos estados e municípios: “O Idsus soma mortalidade infantil com acesso, com taxas de cesarianas, frequência de consultas pré-natais, com cobertura nominal do Programa Saúde da Família e mais outros tantos para chegar ao tal indicador único.”

E politicamente o assunto faz parte de um calendário eleitoral: neste ano de 2012 os aliados do Ministro Padilha estarão disputando reeleições ou sucessões na linha situacionista. No Rio de Janeiro já se acomoda uma aliança entre o partido do Ministro e o velho PMDB de guerra. Como ficam agora o Cabral e o Eduardo?

Será que isso é parte da engenharia das alianças atuais e futuras ou é apenas confusão da burocracia que deixam o ministro Padilha muito mal. Se tem algum viés interno ao ministério, deste modo a burocracia não ganhará a cadeira tentando dar novo assento ao atual ministro em alguma sala do Palácio do Planalto.

Desculpem-me tanta interpretação, mas que o fato está estranho lá isso está. E a Dilma ainda chora em cerimônia na mesma semana do Idsus. Haja coração em coalizão.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Até tu, Brutus ?

02/03/2012 - 07h00

Serra apoia Dilma contra Aécio, diz Kassab ao PT

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FÁBIO BRANDT
DE BRASÍLIA

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, revelou nesta quinta-feira (1) uma conversa constrangedora para o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD). O diálogo, segundo o petista, ocorreu no primeiro semestre de 2011, quando Kassab ainda não tinha escolhido apoiar o rival do PT, José Serra (PSDB), na eleição municipal de 2012.

Leia a transcrição da entrevista de Rui Falcão à Folha e ao UOL
Veja galeria de fotos da entrevista de Rui Falcão

Na ocasião, afirmou Falcão, Kassab declarou: "Para a [presidente] Dilma, a melhor coisa que poderia acontecer é o Serra prefeito de São Paulo. Porque se tiver Dilma e Aécio [Neves, do PSDB], Serra é Dilma [na disputa presidencial de 2014]".

Rui Falcão falou sobre o assunto no "Poder e Política - Entrevista", programa do UOL e da Folha conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília.


Sergio Lima/Folhapress
Rui Falcão durante entrevista ao programa "Poder e Política"; veja mais fotos da gravação
Rui Falcão durante entrevista ao programa "Poder e Política"; veja mais fotos da gravação

A revelação de Falcão pode ser interpretada como represália a Kassab, que negociou aliança com o PT, mas mudou para o lado do PSDB quando Serra decidiu se candidatar. O presidente petista, no entanto, considera o prefeito sincero. "[Kassab] reafirmava: 'Com o governador Serra candidato a prefeito eu vou apoiá-lo, devo lealdade a ele'", relatou Falcão.

Na entrevista, Rui Falcão disse que o PT continua favorável à descriminalização do aborto, mas que os deputados do partido não propõem mudanças na lei atual (que criminaliza o aborto) porque têm outras prioridades no Congresso.

Ele também falou sobre a criação de uma agência reguladora do setor de comunicações, proposta defendida pelo partido. Ele afirmou que a regulação não representa "censura" nem ao "controle de conteúdo da mídia escrita", mas se voltaria a TVs e rádios -que são concessões estatais. "É provável que nos próximos meses ou semanas esse projeto venha à consulta pública [sobre o assunto]", afirmou.

A seguir, trechos em vídeo da entrevista de Rui Falcão. Mais abaixo, vídeo com a íntegra da entrevista. A transcrição completa também está disponível.

Coletivo Camaradas promove Laboratório de Arte Contemporânea




Por Leylianne Alves

Se você tem interesse por arte e estuda em alguma escola de ensino médio da rede pública do Crato, poderá se inscrever, entre os dias 12 e 13 deste mês, no Laboratório de Estudos, Vivências e Experimentações em Arte Contemporânea (LEVE Arte Contemporânea), que será organizado pelo Coletivo Camaradas e terá suas atividades iniciadas no próximo dia 14.


O laboratório tem o objetivo de aproximar os jovens das novas formas de organização artística e da arte contemporânea. Durante os trabalhos, acontecerão visitas a espaços de arte, tais como galerias, teatros, ateliers e mesmo espaços urbanos. Além disso, os participantes também terão contato com artistas, produtores, curadores, pesquisadores e artistas/educadores.

O laboratório terá seis monitores e serão ofertadas 20 vagas por escola de ensino médio. Todas as escolas do Crato serão visitadas durante o período de inscrições. As experiências realizadas neste espaço serão, em especial, as intervenções urbanas e performances. Também haverá espaço para universitários da região do Cariri.

Uma experiência piloto deste trabalho vem sendo realizada, desde o ano passado, no Colégio Estadual Wilson Gonçalves e na Escola Teodorico Teles de Quental. Estas atividades resultaram em sei vídeos que têm a finalidade de auxiliar os professores de Artes e que estão em exibição na Galeria de Artes do SESC Juazeiro do Norte, na Exposição de Não Artistas.


Os trabalhos acontecerão no Auditório do Centro Cultural do Araripe, localizado na RFFSA - Crato. As reuniões acontecerão duas vezes por semana, até o mês de dezembro. O Leve Arte Contemporânea é uma realização do Coletivo Camaradas e tem a parceria da Secretária de Cultura, Esporte e Juventude do Crato, da Sociedade Cariri das Artes, do Centro Universitário de Cultura e Arte – CUCA e o Programa Nacional de Interferência Ambiental – PIA.

Livro sobre narrativas orais do Barro Vermelho será lançado no Crato



O bairro do Alto do Penha na cidade do Crato ganha livro contando as histórias de memórias sociais e imaginárias da comunidade. O livro foi organizado pela professora Ana Rosa Dias Borges e será distribuído gratuitamente nas bibliotecas escolares da Cidade e na comunidade.





O projeto foi aprovado pelo Ministério da Cultura, através do Edital Micro Projetos Mais Cultura em 2010. Além do livro, o projeto propiciou a realização junto aos jovens da localidade, oficinas de produção textual, fotografia, desenho, pintura e identidade cultural, o que serviu de suporte para edição do livro.


De acordo com a professora Ana Rosa a ideia deste trabalho surgiu quando realizava seu trabalho monográfico que versou sobre a oralidade, por meio dos contos populares coletados nas comunidades narrativas orais da Chapada do Araripe. Ela destaca que a partir desta pesquisa sentiu a necessidade de ampliar o seu trabalho investigativo composto das memórias das pessoas mais velhas do lugar para evidencia fragmentos históricos que nunca foram evidenciados na historiografia oficial e cita que a escolha do Bairro Alto da Penha, se deu porque na sua infância residia próximo a localidade e isso proporcionou uma ligação afetiva com o bairro. Ana Rosa enfatiza que o Barro Vermelho que se encontra atualmente subdividido geograficamente em decorrência da urbanização e que o lugar descreve parte da história econômica, social e cultural da cidade do Crato.


O Lançamento do livro acontecerá em dois momentos, no dia 10 de maço, às 19h00, na sede da Pastoral do Menor dentro da Programação do evento cultural “O Alto Mostra a Sua Cara” coordenado pela geógrafa Sibelle Elpidio que é moradora do bairro e no dia 15 de março, às 19h00 horas, no salão de Atos da Universidade Regional do Cariri – URCA e tem a parceria do Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC.

Serviço:
Livro “Narrativas Orais no Barro Vermelho” organizadora Ana Rosa Dias Borges
(88)96196988 - Email: rosasacci@yahoo.com.br

quinta-feira, 1 de março de 2012

Janela


O frevo fervia na avenida, em pleno domingo de Carnaval. A troça se arrastava, rua abaixo, desordenadamente, com aquele andar de batráquio bêbado. À frente ,puxava o cordão o Estandarte rubro com letras douradas e pomposas : “TCM A vida é Maravilhosa” . Passistas, num delicado trabalho metalúrgico, espanavam o ar com o malabarismo frenético do passo : dobradiças, parafusos,locomotivas,ferrolhos , tesouras. Um pouco atrás, a banda atacava, com seus metais brilhantes, as sinuosas notas do “Fogão”, marcadas pela percussão impecável das caixas, surdos e ganzás. E a música imantava de uma súbita alegria o amálgama enorme de foliões fantasiados, no carnaval, com outras máscaras , outras vestes e outros adereços bem diferentes daqueles de que se mimetizavam na vida comezinha e cotidiana. Super-heróis, A La Ursas, Papangus, Fidel Castro, padres, frades , homens travestidos de mulher, de repente, caiam também na folia, engrossando o corso, rua abaixo. Até parecia que a vida era uma festa eterna e sem prazo para terminar. Como por encanto tinham evaporado : o trabalho, a escola, o chefe, a patroa embirrenta, o namorado ciumento, o “isso não pode”, o “é pecado mortal”. E a troça seguia ladeiras abaixo , ladeiras acima: sem destino predeterminado, sem porto, sem relógio que a acorrentasse os passos, sem freio, sem plano de vôo, sem regimento ou estatuto.

Defronte , no percurso, a Academia Santa Gertrudes , algo temerosa, se protegera com madeirites ao seu derredor . Como se as irmãs beneditinas que há quase um século ali oravam, se vissem, num átimo, ameaçadas no seu silêncio e no seu claustro pela alegria contagiante que soprava da rua, envolvida em cores, em música e em dança. E “ a cobra grande / que desce a ladeira / com gosto de gás” aos pouco se foi espremendo entre os madeirites da Academia, seguindo sua viagem hedonística. Neste momento, entreabre-se uma janela no andar de cima e surge um rosto de freira que sorrateiramente observa o desfile . Embaixo, no meio da turba, um folião olha a janela , sem compreender o inusitado da cena quase que surrealista. A freirinha sorri para ele, delicadamente, enquanto volta a fechar aquela fresta que, como um portal , se abrira para uma outra dimensão, para um outro planeta desconhecido e misterioso.

Por instantes , dois abismos se fitaram. O folião, na terra, contemplou o céu; a religiosa, dos píncaros, voltou-se para a terra. Na rua uma alegria franca inundava as pessoas, como que festejando o milagre da vida. No alto, uma felicidade contida debruçava-se sobre uma outra satisfação: a contenção e refreamento dos prazeres mais imediatos, para um outro big bang , bem além do nosso quintal. A porta do folião abria-se para um mundo concreto; a janela da freirinha estendia-se para um outro, menos palpável, menos visível. Por um minuto, no entanto, estes universos se tocaram e perpassou na cabeça do folião o doce gosto do paraíso possível e adiável e a religiosa, como um relâmpago, viu-se ladeira abaixo, sungando o hábito e fazendo misura com os pés. Até que a janelinha , como um portal, voltou a fechar-se e o silêncio firmou-se, novamente, como silêncio e a balbúrdia da avenida retornou a ser um monopólio da rua.

Em que lado da fresta Deus brincava? Em que extremidade do portal deslizava o pecado ? A verdade ressonava no prazer rasgado ou no orgasmo contido ? Em que ponta bailava o sagrado, em que extremo frevava o profano ? Na avenida ou no claustro? Ou os dois lados da janelinha não seriam apenas a continuidade de um mesmo Bloco Carnavalesco : “Vida Louca, Vida Breve em Folia “?

J. Flávio Vieira

4 de marzo de 1943 - José do Vale Pinheiro Feitosa

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Os italianos vivem com uma paixão de vida tão intensa que a morte faz parte de sua narrativa feito uma desgraça de sangue. Morrer em Itália e sendo italiano é mais intenso, mas morrer num bairro de Nova York, de Buenos Aires e São Paulo é igualmente trágico. Basta ser italiano.

Em Montreux na Suíça o mais italiano dos italianos foi dito morto. Morreu de infarto agudo do coração. Por sua Itália e pela sua canção. Lucio Dalla deixou a Itália. Alargou o buraco da crise italiana. Agora na alma deste querido povo.

Há menos de uma semana conversava com Bruno Pedrosa e ele se confessava até hoje assistente regular do Festival de San Remo. Ele se perguntava pelos valores da música italiana que desapareceram como aquelas bolhas de sabão no ar. E ao lembrar-se das bolhas desfeitas, arrancou o seu contrário ainda vivo. Do sólido da canção de Lucio Dalla. Até hoje a alma viva da canção italiana. A voz que há bem pouco vira no Festival de San Remo com a mesma força que aquele povo pensa ter perdido nesta crise brutal que assola a economia Européia.

Nos idos dos anos 90 numa entrevista para o Jô Soares, Lucio Dalla mostrava um lado que pouco conhecíamos. Ele fora o guia, o espírito a conduzir Chico Buarque pela Itália naqueles anos negros do exílio cantado no Samba de Orly. Lucio Dalla dizia que seu 4 de março de 1943 tinha uma versão do Chico Buarque até melhor que a dele: falava do menino Jesus. Aliás, já que falamos de uma vida o 4 de março de 43 é a data de nascimento de Lucio Dalla. Mas ele não nasceu à beira mar, naquele mundo de marinheiros, ele nasceu em Bolonha.

A insegurança de todo viajante se expressa na seriedade do seu rosto preocupado. Nas ruínas de Herculano, vestido com aquelas capas de chuva de cinema, um chapéu estilo Indiana Jones, ainda usava óculos que uma cirurgia de miopia excluiria, me vejo diante de um guia das ruínas falando comigo e rindo. Ficou atento para saber qual besteira fizera. Afinal compreendi: um fratello de Lucio Dalla. E rimos a valer.

Uma das mais bonitas gravações de Toquinho – a Sofia não concorda ela acha que é Aquarela – é cantada em conjunto com o autor da canção Lucio Dalla: La casa in Riva el mare. Igual, por me lembrar aleatoriamente de outra – é aquela versão da Beth Carvalho e Mercedes Sosa do “Solo le pido a dios”. Será que estamos perdendo definitivamente o norte destas canções como aquelas bolhas acima do Bruno Pedrosa?

Então irei ao quarto em que Enrico Caruso morreu. Ao examinar a visão em Sorrento, sobre o mar com os barcos dispersos a pescar com suas lanternas acesas. Como a ter sua última platéia o Tenor viesse até à sacada e ali cantasse no pleno de sua voz até esvair-se em sangue a ruptura do seu câncer de laringe. Esta é a canção que todos os jornais, quase como um clichê lembrarão. Mas Lucio Dalla fará uma falta mais intensa do que todos os clichês da imprensa.


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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A história mostra que os EUA são ávidos por ações militares

Retirado do blog Diário do Centro do Mundo:

Veja o que diz num editorial o jornal chinês Global Times, que reflete o pensamento do governo: “Sem uma defesa formidável, os sentimentos irracionais contra a China podem piorar, e se converter em ação. Na condição de maior potência militar, os Estados Unidos colocaram a China no centro de sua estratégia de defesa. A história prova que os Estados Unidos são ávidos por ações militares. Quando os americanos estão confiantes em sua superioridade, eles costumam usar a pressão militar sem nenhuma cerimônia.”

A democracia européia é um arranjo degenerado - José do Vale Pinheiro Feitosa

Uma coisa o é mesmo que tenha por necessidade a sua contradição. Mesmo que esta coisa o seja já deixando de ser, ela será identificável até com maior realismo por que parte das afirmações no âmago dos movimentos contraditórios.

A Europa é o vetor histórico da democracia da modernidade. O renascimento juntando o mundo greco-romano e o cristianismo e restabelecendo o indivíduo como o centro da história foi o marco fundante da moderna democracia. Depois a nova base mercantil, a descoberta do mundo novo e a industrialização com a acumulação capitalista, completaram o edifício desta democracia.

Em todo caso: a democracia moderna tem a Europa como fundamento. Até por isso se costuma às vezes, numa espécie de paradoxo, acrescentar o termo “cristã” para designar a “democracia” de base européia. Acho que não precisamos ampliar para falar nos princípios que regem esta democracia: é do conhecimento de todos.

A questão é que a Europa há mais de século bem corroendo por dentro a instituição democrática. A começar pelo mundo comercial e sua fachada diplomática. A diplomacia européia tornou-se aquela novilíngua que George Orwell denunciava em seu livro 1984. A destruição da linguagem universal da democracia, por outra língua que desdiz o que está a dizer, faz parte da maior decadência que o pensamento europeu já teve em toda a sua história.

O Holocausto Judaico não deve ser posto apenas na “cônsul” da Alemanha. Ele é Europeu. O colonialismo dos séculos XVIII ao XX é coisa européia. A primeira guerra mundial (que aconteceu principalmente no território europeu e nas suas áreas de colônia) foi a guerra das trincheiras com os marechais dizimando a juventude até a fileira das crianças. A segunda guerra nem se fala. Sem contar o “herdeiro bastardo da democracia européia” querendo fazer subprodutos dos seus ideais com as entranhas do povo de Nagasaki e Hiroshima.

É este corpo histórico decadente que deita falações sobre o mundo árabe. Que deseja uma carnificina sádica e cínica sobre a África. Que soltou a raposa no galinheiro para nutrir-se na carcaça magra de Gregos, Portugueses e Espanhóis. São estes deformados morais que falam a novilíngua em seus ditames diplomáticos: a ameaçar, ameaçar e ameaçar.

O Irã não pode ter a bomba nuclear, mas Israel pode. A Índia teve a bomba e deram a mesma ao Paquistão e lá tem talibã a dar na canela. Os EUA querem a guerra nas estrelas e claro a velha Rússia já se aliou à Nova China para ambos se entupirem com as meizinhas de dizimar carnes e mentes. A Europa trás o estigma da morte. Isso é comum nos corpos terminais.

Muito cuidado com o que eles dizem. Nós os que queremos viver, não deveremos mais ler as “lições de democracia européia” estas estão cheias de páginas danificadas.

José Flávio Vieira - O médico das palavras



Escritor inquieto e bem humorado, José Flávo Vieira busca no seu trabalho como médico o enredo e a alma para suas histórias carregadas de humanismo e questionamentos sobre a vida. Com uma produção crescente nos ultimos anos o médico/escritor consegue conseque fazer o hibridismo entre o erudito e popular, entre o local e o universal.

Alexandre Lucas - Quem é José Flavio Vieira?

José Flávio Vieira - Sou um sujeito esquisito, casado com a Medicina e amante da Literatura. Faço parte de uma longa tradição de médicos que se ligaram às Letras :Lobo Antunes, Guimarães Rosa, Moacir Scliar, Ronaldo Brito, Pedro Nava. A Medicina nos faz viver nesse limite impreciso entre a vida-morte, saúde-doença, bem-estar--infelicidade e acredito nos ajuda a conhecer um pouco mais da fragilidade humana. Pedro Nava dizia que ao médico era tão importante o Livro de Fisiologia como a leitura de Balzac. Não me considero escritor na acepção mais plena da palavra, assim como um corredor de fim de semana não pode se arvorar de Maratonista. A Literatura é um apêndice importante na minha vida, me deu a possibilidade de conhecer novas pessoas, fazer novos amigos e registrar, além da êfemero da oralidade, minha relação com a vida e o mundo.

Alexandre Lucas - Quando teve início sua atuação na literatura?

José Flávio Vieira - Cresci dentro de uma Livraria. Meu pai era professor de Língua Portuguesa e próprietário da Livraria Católica aqui em Crato. Desde menino gostei de escrever, na quinta série já redigia os primeiros textos e os primeiros poemas. Como adolescente tinha um diário escrito religiosamente. No Colégio Estadual Wilson Gonçalves fundei o primeiro Jornal Mural, participei de Grêmio Literário e fui um dos fundadores do Jornal Vanguarda nos fins dos anos 60 . Ali participei também da primeira Coletânea de textos: "Cariri Jovem 67". Hoje, olhando para trás ,com o distanciamento dos anos, imagino que desde mininote pulsava em mim esta tendência e já observava o mundo com olhos de escritor.

Alexandre Lucas – fale da sua trajetória:

José Flávio Vieira - Em 1970 fui estudar em Recife e entrei na Faculdade de Medicina em 1972, formando-me em 1977. Fiz Residência Médica no Hospital Getúlio Vargas na Veneza Brasileira(1978-79) : Cirurgia Geral. No período de Faculdade , em plena Ditadura Militar, participei de Jornais estudantis, como "O Esculápio" . Participei, também, dos Festivais da Canção do Cariri em 1974 e 1975 com o Grupo Kirimbau formado por primos e irmãos meus. Fui letrista de várias canções (" Sargaços" , quarto lugar em 1974; "Salvo Conduto", terceiro lugar em 1975 e muitas outras). Veio dessa época os meus primeiros problemas com a censura. Formado, voltei ao Crato em 1980 e desde então aqui estou. A vida de médico e pai de família me tomaram o tempo e escrevi apenas esporadicamente para os jornais da região. A partir de 1997, no entanto, comecei a escrever regularmente uma crônica nos sábados. Em 2003 lancei o primeiro livro "A Terrível Peleja de Zé de Matos com o Bicho Babau nas Ruas do Crato", um texto teatral que terminou sendo montado, através do II Edital de Incentivo às Artes do Estado do Ceará". Teve Direção minha, de Luiz Carlos Salatiel, Joaquina Carlos, Mauro Cézar, Abidoral Jamacaru e João Nicodemos e envolvia uma trupe de mais de 15 atores. Foram mais de 40 apresentações no Estado do Ceará, com grande sucesso, inclusive com premiação de Melhor Texto, no Festival de Acopiara.Em 2008 lancei o "Matozinho vai à Guerra", um livro quase que memorialístico e muito bem humorado e que terminou tendo uma das histórias : "Zezinho e o Cinematógrafo Herege" sendo levada ao Cinema por Jéfferson Albuquerque Júnior ( 2011) . Finalmente, em 2011, lancei "O Mistério das 13 Portas no Castelo Encantado da Ponte Fantástica" , um livro infantil baseado nos mitos caririenses . O Livro tem ainda um CD com 15 músicas feitas em parceria com inúmeros artistas : Abidoral Jamacaru, Luiz Fidelis, Lifanco, Luiz Carlos Salatiel, Zé Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru, Amélia Coelho, Ulisses Germano, João Nicodemos e com direção musical do maestro Ibbertson Nobre; além de um Audio-Livro que vem anexo . "O Mistério..." ganhou o I Prêmio Rachel de Queiroz" da SECULT e está adotado como paradidático em inúmeras escolas cratenses. Participei ainda de Coletâneas : "Cariricaturas" e "No Azul Sonhado" e fui vencedor dos três Prêmios SESC de Contos ( 2007-2009-2011) , com coletâneas também publicadas. Continuo escrevendo para o Rádio e para o jornalismo virtual ( blogs : Cariricult, Coletivo Camaradas, No Azul Sonhado e o meu : Simbora prá Matozinho).Fui convidado este ano, ainda, a participar do Projeto "Livro de Graça na Praça" em Belo Horizonte, com conto em coletânea que será lançada em Outubro.

Alexandre Lucas – como você consegue conciliar o trabalho médico com a literatura?

José Flávio Vieira - Esta pergunta muitos colegas e clientes me fazem. Como você arranja tempo? Digo sempre que tempo a gente sempre arruma se assim interessar. E para mim escrever traz um grande deleite, um grande prazer, não é um trabalho a mais, mas uma maneira de voar para fora das tariscas da gaiola da pesada vida cotidiana. Além do mais, sou um hiperativo e não consigo ficar parado muito tempo. Não bastasse isso, a Literatura para mim é uma extensão da minha vida profissional como médico e é nesse manancial que eu bebo para derramar depois no papel.

Alexandre Lucas – Todos os dias você escreve?

José Flávio Vieira - Normalmente escrevo uma vez por semana. Sou um indisciplinado, anárquico por natureza, mas nesse ponto sou muito determinado: escrevo às quintas, a não ser quando existe um Projeto novo, aí caio de cabeçae torno-me mais regular.

Alexandre Lucas – A sua forma de escrever une o humor com o linguajar nordestino. Você acha que isso caracteriza a sua poética?

José Flávio Vieira - O humor é uma característica certamente da maneira com que escrevo, falo, vivo. É inclusive uma característica familiar, acredito que roubei das minhas raízes varzealegrenses. Gosto também de mesclar a linguagem erudita com a popular( que no fundo são o verso e anverso de uma mesma moeda) e, principalmente nos diálogos, busco imprimir a doce língua do povo. Uma tentativa geralmente inglória de levar o doce da oralidade para a forma escrita.

Alexandre Lucas – Como você ver a relação entre literatura e política?


José Flávio Vieira - Acredito que a Arte é revolucionária na sua essência e, no fundo, o artista sempre se posiciona politicamente. Escrevemos sempre para denunciar, para tentar mudar o leme do barco e dar uma nova direção. Não aprecio, no entanto, a arte engajada ( qualquer tipo de engajamento no fundo é um cerceamento da atividade artística), embora admita a necessidade disso em determinadas situações, como na Ditadura Militar, por exemplo.

Alexandre Lucas - O seu livro Matozinho vai à guerra foi indicado para o vestibular da Universidade Regional do Cariri – URCA. Você acredita que isso potencializa a produção literária da região?

José Flávio Vieira - Fiquei muito feliz com a indicação, até porque era uma luta de muitos anos. Finalmente temos a possibilidade de olhar também para o umbigo. A URCA acordou para a possibilidade de ter uma visão também regional da Literatura. Isso certamente potencializa a produção literária local e abre horizontes imensos para que a juventude conheça os nossos escritores regionais. O Ceará tem um viés terrível: ele não olha para si , ele sempre vislumbra o mar em busca de Miami. A possibilidade da Arte Popular fazer parte do cotidiano das pessoas passa necessariamente pela Escola e, finalmente, começamos a descobrir isto.

Alexandre Lucas – Quais os seus próximos trabalhos?

José Flávio Vieira - Tenho um Livro pronto de histórias mais urbanas : "A Delicada Trama do Labirinto" que estou vendo a possibilidade de publicar ainda esse ano. Penso ainda num livro de Contos que ainda merece um trabalho mais demorado. E tenho pronto um Audio- Livro de textos: " Ícaro". Penso ainda escrever alguma coisa sobre a História da Medicina aqui no Cariri. E mais: pretendo voltar a escrever para o teatro , uma das minhas paixões.

Alexandre Lucas – Quais os desafios?

José Flávio Vieira - Gosto de trabalhos coletivos ,onde possa envolver os inúmeros artistas da região. No Zé de Matos juntamos teatro-dança-música e em "O Mistério das 13 Portas" mais de 50 artistas estiveram participando do Projeto. Congregar tantas forças não é fácil, passa por administração de egos e sensibilidades, mas potencializa imensamente o trabalho e este é um desafio interessante. Um outro desafio é fazer com que o nosso trabalho seja reconhecido na nossa própria casa, que as pessoas leiam nossos escritores,assistam a nossas peças teatrais, que nossas Rádios toquem nossos artistas, que o Reisado seja visto como uma expressão da nossa identidade e não como extraterrestres que desceram numa nave espacial na Bela Vista.E também que os palcos das nossas festas mais tradicionais não sejam exclusividade do que existe de mais reles na Cultura brasileira. Isso passa pela Escola e é lá onde devemos exercer a nossa força para que a mudança pouco a pouco se efetive. E mais: o Estado precisa ser obrigado a exercer sua função , através de Política Cultural.E aí temos uma arma poderosa que precisa ser engatilhada : o voto.

Alexandre Lucas – Como você vê a relação entre arte e política?

José Flávio Vieira - A Arte por si só é um instrumento político de mudança, de vislumbre de novos tempos e novos rumos. Precisará apenas ter a leveza, a delicadeza para ser Arte e fugir simples e cartorial panfleto.