TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Seqüestre-me!

Seqüestre-me

Preciso de um pouco de ternura

Nesse tempo quente sem ventura

Mesmo que toda indelicadeza seja verdade

E precise ser dita

Mesmo que se perca o que se acredita

Para reencontrar o sabor das palavras que nos circundam.


Eu sou o temor de teus lábios

A altura infinita de teu desejo

A queda do teu ego

E uma porção de gestos, assim falando baixo

Tímidos e temidos

Cínicos e cíclicos dessa mesma história.

Tenho na testa o lunário de uma vida

O mapa de nossas almas

A cruz de nosso trajeto

A promessa que lava a fonte

Os dedos que apontam o monte

Os olhos que vêem o medo

E se viram em tua salvação!

Por amor, e um corte me sangra o peito

Repito, por amor, e a faca me cega a língua

Gemendo, eu grito!

É assim que sempre fui!

E assim serei e direi...

Com ou sem esses sonhos me acordando!

Eu canto e danço as vistas de Deus

E sou um pecador por assassinar teu medo!

Sem piedade, a sangue frio!


Seqüestre-me

Preciso de um pouco de ternura

Nesse tempo quente sem ventura

Mesmo que toda indelicadeza seja verdade

E precise ser dita

Mesmo que se perca o que se acredita

Para reencontrar o sabor das palavras que nos circundam.

Transe

De tantas idas ao banheiro
faço amizade com a descarga.
Ela balbucia,
eu reflito
sobre as figuras abstratas
dos azulejos rachados.

Cearense é Foda !



Alguns filmes de Hollywoody ao serem exibidos no Ceará, tiveram seus títulos modificados, numa inédita campanha de marketing, para que se tornassem mais atrativos aos cinéfilos cearenses. Segue os filme com seus títulos originais e a adaptação cearense:

Uma Linda Mulher
Uma Cabrita Aprumada
O Poderoso Chefão
O Coroné Arretado

O Exorcista
Arreda Capeta!

Os Sete Samurais
Os Sete Jagunços di zói rasgado

Godzilla
O Calangão

Sansão e Dalila
O Cabiludo e a Quenga

Perfume de Mulher
Cherim di Caboca

Tora, Tora, Tora!
Oxente, Oxente, Oxente!

Mamãe faz cem anos
Mãinha num morre mais
Guerra nas Estrelas
Arranca-rabo no Céu

Um Peixe chamado Wanda
O Lambarí cum nomi de Muié

Noviça Rebelde
Beata Increnquera

O Fim dos Dias
Nóis Tamo é Lascado

A Pantera Cor de Rosa
A Onça Baitola

Os Filhos do Silêncio
Os Menino do Mudim

Uma Ponte longe Demais
Pense Como Andei Atrás de Uma Ponte!

Assim Caminha a Humanidade
Seguindo o Rumo da Venta

Os Idiotas
Os Abestados
E pra terminar a minissérie “O Sorriso do lagarto” passou aqui com o título “A Gaitada da Briba”

Me foi enviado por e-mail com autor desconhecido.

LIBERDADE, LIBERDADE, ABRA AS ASAS SOBRE NÓS

Leonel e Armando:

Em primeiro lugar sentia falta do Leonel. Vem o sol do verão e nosso escribas foram cuidar de afazeres do corpo, de mar, de águas e e lazer. Mas agora voltou e o Cariricult ficou mais pleno. Um momento, eu sei que ali pelo mês de dezembro e início de janeiro, ele andou com uns textos bastantes críticos sobre a viagem da família imperial ao Brasil. Isso tudo é bom para nós, para o Leonel e para o Armando.

Causa irritação, a gente fica com raiva pelas convicções em choque, mas todos ganhamos. Querendo entrar o debate por uma via alternativa: proponho a leitura do livro do Pierre Vergé chamado "Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos de Negros entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos". Neste livro, um grande calhamaço, vê-se perfeitamente a estrutura econômica e social, inclusive a geografia da cidade de Salvador por trás do tráfico. Inclusive a estrutura econômica do Daomé ou da chamada Costa da Mina que fica numa faixa territorial entre o Benin e a Nigéria. Acho Armando, difícil glamourizar a família imperial, pois deste modo seriam apenas personagens de um cinema ou seja de ficção. A estrutura do Império, aquela verdadeira, da Corte, do modelo exportador, dos Barões, Duques, enfim foi nesta estrutura que o modelo escravagista, baseado na exportação se sustentou. Ainda falta, no período colonial falar da escravidão indígena que é um fato mais relevante que os livros do ensino fundamental deixam transparecer. Outro dado é que o bloqueio inglês não foi efetivo, o tráfico continuou a sotavento (o vapor era dos ingleses) especialmente de um outro fluxo o de Angola. É importante lembrar que intelectuais, artistas, setores de uma classe média muito acanhada foram importantes formadores de opinião, formadores de um imaginário já resolvido em outros países das Américas. É sempre necessário se estudar a própria queda do império como conseqüência do fim do regime escravagista, pelo menos na parte de suas estruturas econômicas, mas também políticas.

Por último Armando, pelo que li da literatura cearense, falo de autores não marxistas, falo dos clássicos do tipo Antonio Bezerra, pelo que li, nisso a tua maturidade como historiar é de grande valor testar uma hipótese que intui destas leituras: parte dos escravos do Ceará foram comprados como maneira de acumulação de capital. O escravo tinha valor de mercado, comprar escravos mesmo não precisando deles para a produção era uma forma de guardar capital. Então nos três anos da grande seca da segunda metade do século XIX, a economia do Ceará arruinou-se. As salgadeiras do Jaguaribe em Aracati quebraram e o rebanho bovino foi para o espaço, tendo-se que arrumar capital para comprar matrizes animais, especialmente no Piauí. Pois foi nesta época que os proprietários de escravos do Ceará venderam seus "estoques", especialmente para o poderoso plantio de café no Vale do Paraíba. Hoje na região do Paraíba, um bom pesquisador irá encontrar um grande número de descendentes dos escravos Cearense.

A hipótese: a anterioridade da libertação dos escravos na Terra da Luz se deu por um aumento de consciência política anti-escravagista e pelo baixo valor econômico que a instituição tinha no estado. É uma boa hipótese para discutirmos.

Em tudo isso, acho que todos ganhamos como vocês. Aqui no Cariricult sinto falta agora da Socorro Moreira, da Glória, pois o Lupeu está em vertendo um caudal de pensamento em nossa direção. Sinto falta de mais Salatiel e do Carlos dizendo mais do que dizem. E que o Carnaval seja o ambiente dos nossos ruídos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

coivara
aceiro na roça
das palavras
queimo pestanas
na lauda
um hierogrifo
me encara

Tiago Araripe

Jornal Folha de Piqui, nº 04, julho de 1984

Máscaras

O deputado carioca Alberto Brizola apresentou, há uns três anos, projeto de lei na Assembléia Legislativa daquele estado, no mínimo estapafúrdio. Reza o tal projeto sobre a proibição do uso de máscaras durante o carnaval. Na visão do legislador, esta medida arrefeceria a onda ou tsunami de violência que tem contaminado a mais charmosa cidade do mundo. Só num único dia, na baixada fluminense, 30 pessoas haviam sido chacinadas, num massacre praticamente inédito no Brasil. Que culpa tinham ? Uma só: estavam no local e na hora errados. Nossa violência urbana consegue fazer mais baixas que guerras em países conflitados. Aqui o somatório das violências doméstica, do trânsito, do tráfico, das ruas, dos morros é suficiente para nos tornar uma nação em guerra constante. Salve-se quem puder!
É possível que, em meio a esta saraivada eterna de balas, o deputado Brizola tenha gestado esta solução mirabolante. Na visão de Alberto, os assaltantes aproveitam as festas mominas para, mascarados e inidentificáveis, cometerem seus atos ilegais. Pulularam protestos no Rio contra a lei que se mostra, claramente, inócua e tem a função única de desacreditar mais ainda a atividade legislativa neste país. Estes senhores, enfatiotados, pagos regiamente pelo povo, incapazes de destilar uma só gota de suor, deviam ao menos manter um silêncio obsequioso , ao invés de tentar mostrar tão descaradamente, sua inutilidade. Primeiro , os assaltantes do Rio já não têm pejo de cometer delitos à plena luz do dia, de rosto descoberto. Depois, como aquele massacre demonstrou, a violência, infelizmente, não acontece só no carnaval. O sangue de inocentes jorra, todo o dia, de uma fonte perene e contínua. Simplesmente o tráfico tem dado mostras seguidas de que é mais organizado que a polícia( que joga, invariavelmente no mesmo time) ,mais que o governo do Rio, que a Assembléia Legislativa. No Rio, ao contrário do que se divulga, não existe um Governo paralelo, prevalece , sim, um governo único e organizadíssimo: o tráfico.A razão de ele ter se aperfeiçoado tanto administrativamente é uma só: o tráfico assumiu todas as funções sociais que seriam da alçada constitucional do Estado. Ali, como em tantos outros locais do país, absorveu para si as funções de poder executivo, legislativo e judiciário. Tirar a máscara do folião , caro Brizola, é tão inócuo quanto cuspir no rio de lava que escorre do vulcão, na inglória tentativa de torná-lo extinto.
Ademais, se o preclaro parlamentar fosse melhor observador, descobriria que a nobre atividade de dissimular, de vestir vários papéis no palco da vida , quem melhor exerce é o político. Ninguém neste país usa tantas máscaras e desempenha tantos papéis. A mal disfarçada máscara de honesto, o adereço de profundo religioso, a maquiagem de solidário e bondoso, a fantasia de pai dos pobres, o figurino de caridoso – o político faz-se um artista na arte de representar a comédia bufa no nosso pesado cenário cotidiano. Assim, parece esquisito ver o deputado envergar uma cruzada contra suas próprias hostes, querendo proibir aquela indumentária que é a farda básica de qualquer político brasileiro : a máscara.
E não pára por aí, meu caro deputado. Gostamos todos de apreciar a espontaneidade das crianças que, quando não querem , dizem não e quando estão tristes choram e esperneiam. A civilização cobriu os adultos de escudos e disfarces. Os manuais de etiqueta e postura , as diretrizes religiosas, as regras de cunho moral são todos freios que a humanidade nos foi impondo.Assim , dissimuladamente, vamos rindo por fora e chorando por dentro. Somos delicados na superfície enquanto imprecamos palavrões intimamente. Conseguimos até amar sem amor. No fundo, todos carregamos a dualidade do anjo-demônio. Estes artifícios são talvez uma maneira de mostrar apenas nossa face angelical, amenizando o cheiro de enxofre que ameaça escapar dos nossos porões. A máscara está também, meu caro Brizola, nas bases fundamentais da sociedade.Todo mundo é um pouco zorro- Don Diego; às vezes pousa de Clark Kent, outras de Super-Homem. A face que se contempla no companheiro de trabalho, no amigo próximo, na esposa é apenas um reboco preparado para esconder o essencial, o verdadeiro—muitas vezes , talvez, porque não teríamos coragem de olhar para o fundo do abismo.
Sem a máscara, caro deputado, não existiria qualquer organização político-social. Por incrível que possa parecer , os únicos neste mundo que têm a coragem de aparecer sem nenhum disfarce, nus na crueza dos seus gestos e dos seus sentimentos , são justamente aqueles que o senhor pensa em proibir de usar uma máscara inócua num simples baile de carnaval.

J. Flávio Vieira

Mudou o Brasil ou mudaram os brasileiros?

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Ministra Matilde Ribeiro



Cartões de crédito e a falta de exclamações!

Ugo Braga

As pessoas não se chocam mais com os absurdos do cotidiano. É como se as maiores atrocidades não passassem de mera conseqüência das leis da natureza. Nelson Rodrigues se disse certa vez espantado com a falta de exclamações no noticiário. Numa manhã agradável, um tiro solitário arranca fora o belo e forte queixo do presidente norte-americano, matando-o ao vivo e a cores, com a pompa do desfile em carro aberto. Nem uma mísera exclamação nas manchetes do dia seguinte. A seleção mágica de 1982 — esse exemplo não é dele, é meu — perde o jogo eliminatório na tarde fatídica de Barcelona. O país inteiro chora até o amanhecer, mas os jornais omitem as exclamações, os uivos dolorosos de seus leitores nos títulos principais de suas páginas.

É claro, óbvio ululante, para usar um termo apropriado, que Nelson não criticava os jornalistas, nem os jornais. Não, usava-os como exemplo de um comportamento nascituro. As pessoas passaram a não mais se chocar com os absurdos do cotidiano. Sendo assim, ninguém exclamava mais. É como se as maiores atrocidades não passassem de mera conseqüência das leis da natureza, como o orvalho que brota das manhãs frias.

Mas, não, não são! Um ministro não pode pagar gastos evidentemente pessoais com dinheiro público! Um governo não pode esconder tais despesas de quem o elegeu! O tribunal responsável por controlar os gastos não pode, cândida e cordeirescamente, aceitar que eles sigam escondidos sob o manto negro e suspeitoso da alegação de segurança nacional!

Pelo menos não num país civilizado e que se queira desenvolvido.

Metamorfose

O cartão corporativo é um fenômeno recente. Foi criado em 2001. Carrega no gene a boa intenção, algo que, no setor público, é virtude quase sempre falível. Sua função seria a de evitar que funcionários graduados do governo pagassem despesas comezinhas com cheques do Tesouro Nacional. Descritos numa fatura de cartão de crédito, esses gastos seriam melhor fiscalizados, além da vantagem de se estar manuseando um dispositivo muito mais moderno e seguro.

A coisa, porém, desandou. E foi no governo Lula. A atual gestão permitiu-se alargar a ritmo exponencial o volume de gastos quitados com os cartões. Denúncias e rumores dos mais cabeludos passaram a freqüentar o assunto. A antiga virtude da segurança e do controle esmaeceu. Em seu lugar, surgiram os vícios da falta de transparência, do abuso e do cinismo.

A ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, entrou primeiro na guirlanda do escândalo porque exagerou. Administra uma pasta de orçamento pífio. E apareceu como a principal usuária do cartão corporativo. Mas é certo, como a terra gira em torno do sol, que não é a única. Nem mesmo é a mais, digamos, descuidada com o dinheiro público.

Há casos e mais casos relatados anonimamente nos corredores da Esplanada. Diz-se, de certo ministro, que paga suas hospedagens em hotéis, e mesmo as bebidas do frigobar, com o cartão corporativo. O que não seria propriamente errado, se ele não recebesse quantias extra-salariais, as chamadas diárias, para se deslocar no território nacional. É um jeito meio cafajeste de se apropriar de dinheiro pequeno, porém público.

Há também outro que promove banquetes medievais com os colegas de partido, daqueles de se impressionar com o leitão sobre a mesa, maçã boca adentro. Discutem temas do partido. Traçam estratégias do partido. Tramam contra inimigos do partido. E pagam com o dinheiro do governo, isto é, com o seu, com o meu, com o nosso.

Absurdo

Ouvi também algo sobre compras de roupas em grifes famosas e caras. Tratamentos de beleza, operações plásticas e que tais. Não se sabe o que é lenda urbana, o que é futrica, o que é verdade. Mas esse é precisamente o ponto. Não há qualquer controle sobre os cartões corporativos. O Palácio do Planalto se nega a exibir as faturas porque isso poria em risco a segurança nacional (!!!!).

Não imagino, por absurdo que seja a hipótese, um alto funcionário do governo a comprar armas para defender as fronteiras amazônicas ou um novo sistema de controle anti-aéreo para a costa. E ao cabo da transação, puxar a carteira, sorrir para o vendedor, mostrar-lhe o famoso cartão e ouvir a pergunta do outro lado: débito ou crédito?

O caso dos cartões me incita uma série de exclamações. Talvez, a principal delas seja também a mais óbvia, para voltar ao Nelson e à "ululância" da vida: o governante eleito deve prestar contas ao eleitorado! E, mais que isso, zelar pelo bom uso dos recursos retirados impositivamente do distinto público!

E A VIDA CONTINUA

Emerson Monteiro

Nesses dias em que uma forte bruma parece cobrir o céu de espuma ácida e gente acha que grandes transformações aconteceriam diante da real impossibilidade de outras coisas trágicas acontecerem, vem daí a firme e tal vontade de querer notar nas pessoas e no mundo mudanças radicais que determinassem razões essenciais para continuar nos dramas cotidianos. Portas fechadas. Janelas travadas nos dentes de quem vive escondido, nas comédias clínicas das manhãs vazias. Avisos mil de liquidação nas lojas prósperas dos quarteirões centrais da cidade. Sons, equipamentos dourados, fitas coloridas, mostras carmins de noites exóticas. Nuvens cinzentas que envolvem o sol e parecem dizer frases longas, sem nexo, dessa expectativa fascinante de viver.
Animais vagando nas ruas revezam espaço com seres humanos ainda animalizados.
Os fatores externos, portanto, indicam tempo de chuva no sertão nordestino. Dentro das pessoas ausência de sementes ou sementes escondidas no âmago das criaturas.
Religião mesmo vem das entranhas. Mistérios mil da cachoeira das barras escuras que denotam luz no fim de cada túnel de todos os dias. Mensagens de esperança viajam de endereço a endereço, querendo mostrar cara nova. Quem quer encontrar se depara nas esquinas com a festa da vida.
Só isto, pretender viajar nas estradas amplas do depois sem romper os lanços consigo próprio ou machucar as fuças nos blocos metálicos das letras exige um tanto de haver organizado providências anteriores, sinais planejados e pensamentos contidos.
Agir rápido em termos de querer formas novas em si e, por isso, a leves passos de todo dia caminhar... Pausar... Caminhar... Sempre...

Irmãos Aniceto em Guaramiranga

Foto: Elizangela Santos

Os Irmãos Aniceto este ano se apresentarão no Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga. O público que subir a Serra em busca das harmonias sofisticadas e da improvisação do jazz, das melodias pungentes do blues poderá também mergulhar em outras sonoridades e referências culturais.
A apresentação da banda cabaçal Irmãos Aniceto, ícone da cultura popular nordestina tradicional, sintetiza bem a atenção que há algum tempo essa produção vem recebendo da mídia, do poder público e da comunidade acadêmica. (Trechos de reportagem do Diário do Nordeste).
O articulador cultural Jackson Bantim Bola é quem coordena a ida da banda cabaçal a Guaramiranga, dando suporte e a atenção que os seus integrantes necessitam. Vale ressaltar que Jackson Bantim, da Assessoria de Comunicação da Universidade Regional do Cariri – URCA, junto com o músico Calé Alencar, já fez esse trabalho antes, levando os Anicetos e nossa cultura à Europa.

polaroid esquizoid


Minha mãe disse que era agosto. Finalzinho do mês. Ela sabe, e lembra, porque faziam poucos dias que eu tinha nascido. E oito meses que meu pai tinha sido preso. Pra mim, é como se ele sempre estivesse preso. Não lembro bem dele. Depois da prisão minha mãe disse que ele mudou: desaprendeu a rir. Aprendeu a assoviar e costurar paletós. Virou isso: de anarquista a alfaiate. Pensando melhor, ele sempre esteve solto. E nós, amarrados em nós, é que vivíamos presos naquela mini cidade de nada.
*
Um dia nós fomos embora. Um comboio de pessoas grandes e tristes, e alguns meninos, comendo bolachas temperadas com excitação e medo. A rua gravitava no novo. Um batalhão de estranhos ao redor. Nada era igual, e ainda assim, era tudo absolutamente igual. A escola era um misto de guerra e circo. Todos nós, pobres de jó, morrendo de raiva de nós mesmos e de qualquer um que estivesse por perto. Tudo era arma: arame de caderno, ponta de lápis, pedras do pátio. Se chorasse, tava fodido: “viadinho! Mulherzinha”. A mãe: - se apanhar na rua, apanha em casa! Casa... pintada de verde esmaecido, com faixas vermelhas berrantes na altura da janela e em cima. Sem eira nem beira. O muro do quintal, caído, nos tornava parte da grande família dos vizinhos. Meninos pequenos nus, cagando a esmo, narizes sujos e grandes risadas. De que riam os meninos sujos?
*
Cheiro de tinta. Cheiro de cola de sapateiro. Tiras de sandália pra recortar. Quando chovia era voltar no tempo... fugir dos olhos da mãe. Rua. Água aos montes caindo do céu. Meu pai olhou pra mim e disse: cresça! Me fodi. Obedeci. E quando abri de novo os olhos, não tinha mais uma cidade. Eram dezenas. Não tinha mais meninos sujos. Eram homens sujos e violentos de lá para cá. Não tinha mais tarzan em preto e branco gritando pra assembléia de macacos. Era um homem de paletó gritando pra assembléia de macacos.
*
Minha mãe disse que tudo acontece em agosto.
Mês de chuva.
Mês de desgosto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008


Soraia serena me conta que quer saber quantos passos ela deu desde que aprendeu a andar. Soraia serena quer saber quantos bifes comeu desde que seus dentes nasceram fortes e translúcidos. De quebra, quer saber quantas vacas morreram pra que ela matasse sua fome ancestral e sua ânsia de vida. Soraia serena olha pra lua e pergunta se é real a “tal lua”. Se for, pra que serve? Soraia serena quer saber de que é feita a alma, e qual a cor da gargalhada. Soraia serena diz que já comeu muitos homens, e algumas mulheres também. Mas nada disso, ou desses e dessas respondeu o que ela queria: entrar corpo a dentro do outro, saber do orgasmo e da pequena morte da outra, saber o que era gozo e farsa. Soraia serena diz que gostava de fumar maconha e observar formigueiros no pé de mangueira do quintal. Gostava de ver a simetria das formigas em seus passinhos ligeiros. Se perguntava: somos do mesmo feitio? Temos o mesmo deus? Temos o mesmo botão de ligue e desligue? Diz que deixou de fumar porque as formigas foram embora. Me pergunta por quê. Porque elas foram embora? Soraia serena suspira. Sopra as velinhas de seu bolo. Noventa e uma velas. E um sorriso lindo. Sereno. Serena.

Pra gabi ma passion rouge. Que inspirou parte de soraia serena, moradora do condomínio borba gato.

O Martelo das Bruxas


Wilson Bernardo

Santo, santo, santo é o teu nome!
Roma lacuta, causa finita
E o homem tem a cura que o sexo não imputa, o prazer seguro.
Igreja, poder, dogmas e fé
Ratio lacuta, causa finita.
Bruxas, sanatismo inquisidores e cúrias sem verdades.
Mulheres maleficarum na cama de satã
Demoníacos acendedores de fogueiras.
Igreja!
Senhores da lenha, cruzadas da impertinência
perdão,clemência
e o grande juiz não se previne entre o prazer
e o HIV
A miséricordia de deus não impede Sabat!
Fé e ordem, prazer, razão, sensualidade inferioridade,
apetite carnal na cama do homem do bem e do mal.
Inquisidores da virtude espiritual
Bodim Cristo Rémy Calvino Richelieu Koiré Montaigne Inocêncio
Tudo é possivel!
Scintia lacuta, causa finita.

Isso é normal, mas aquilo não.


Ao se dizer que isso é normal, tantas coisas positivas para nós, eis feliz notícia. O trânsito flui normalmente, que bom, com uma hora de atraso. O burocrata diz que teu processo está normal, nas regras, a esperança: aprovado no século que vem, felicidade para os ossos se não é que fui cremado. Temporal de raios ameaçadores sobre tua cabeça, raios para penetrar fundo na tua mente inerte, mas o guia diz, isso é normal por aqui. Pronto, somos melhor que os pára-raios. O médico, de olhar agoniado, consultas dadas e outras tantas para dar aos Planos de Saúde, olha teu exame e diz: está normal. Pegas a porta da rua distribuindo saúde. O filho fumou baseado, a noite numa festa rave, quebrou o retrovisor do teu carro, o vizinho ao amanhecer, comenta: é normal. Pronto, sentença de absolvição.

São exemplos da idéia de normalidade. Jeconias costumava nos repreender no banco da pracinha de Paracuru: eu acho esta tal de normalidade parecida com pílulas para consciência. Ninguém entedia, mas Jeconias há muito que não embarcava na pesca de jangada e agora virara pensador. Estudara com Dona Dinah, fora aluno aplicado, tinha leitura solta e gostava de se apegar a um livro. Dizem que até na pescaria levara livros embrulhados em sacos de plástico. Quando alguém perguntava a Jeconias o que queria dizer ele respondia: é que normal virou sinônimo de verdade. Foi normal é verdade e pronto. Ora se sabe que normalidade pode não ser exatamente a tradução da verdade, mas é parte importante dela. Depois que os aparelhos passaram a medir a realidade, ao se dizer que você ou alguma coisa está normal, isso é a verdade daquela coisa ou pessoa.

O governo baixou medida provisória, vem a paz na consciência ferida: isso é normal. Congressistas e uma grana preta para umas ONGs que lhe dão voto: deputado e senador fazer isso é normal. Eleições, telhas para cobrir um puxado, tijolos para subir um quarto, trocados para comprar a roupa nova para ir votar e logo a verdade: isso é normal. O lucro do Bradesco arrebenta a boca da botija e o economista: isso é normal. Ontem à noite me tornei revolucionário. A normalidade não me atende mais. Não é uma sentença final. É apenas um pedaço da discussão e da minha consciência. Devo isso a Jeconias.

Estávamos naquela sorveteria da esquina da Praça, onde os intelectuais e políticos de Paracuru se reúnem. Dr. Júlio César Alcântara, nome de Imperador e estilo de um Bocage, instigou Jeconias: há há há Jeconias teu sorvete derrete, isso é normal? Jeconias na lata: pois não é doutor. O calor derrete o gelo. Quando o senhor se formou em médico contava com os sentido para comprovar a hipótese de doença que o senhor tinha. Hoje tudo é feito por uma terceira coisa, muito maior e mais diferente dos sentidos do senhor. É o tal de exame, a tal de tecnologia da medicina. Agora não basta o sinal e o sintoma. Agora é tudo nas matemáticas. Por isso é que foi preciso botar estes aparelhos para examinar um bocado de gente e fazer uma lista das medidas de cada um. vem a tal de estatística e tome a usar seu vocabulário. Pois normal hoje em dia é como um jogo de dados, qual a minha chance de dar um seis. A medicina de hoje em dia é a tal de probabilidade. Quando se diz que alguém está com o exame normal, é que naquela medida ela é igual a maior parte das pessoas. É isso. Nada com toda a verdade e nem somente com a realidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Sandro Ornellas na TV


Senhores, coloquem Bombril em vossas antenas de TV. O livro do Sandro Ornellas será mostrado, dissecado, anotado, falado no Programa Leituras, da TV Senado.

02/02


Entrevistado: Nicolas Behr


Dicas de leitura: A Infância do Centauro, José Inácio Vieira de Melo e Trabalhos do Corpo, Sandro Ornellas.


A TV Senado em canal aberto UHF é 53. Os horários do programa são: sábado (9:30 e 20:00) e reprise no domingo (8:00 e 20:00).


Nirineu era o poeta do prédio. Falava difícil. Lia a seleções todos os meses. Tinha como hobby conhecido colecionar palavras. Decorava-as. Estudava seus significados e significantes. Com seus achados escrevia coisas. Determinava outras. Nomeava passantes e passarinhos. Pouco falava. Quando assim fazia, era pra dizer: leiam-me! Nirineu tinha um outro hobby: colecionava pentelhos de gente morta. Entrava no necrotério de madrugada com sua pequena tesoura e fazia sua colheita. Alfredinho, filho de Juvenal da farmácia foi quem descobriu o segredo de nirineu. Por acaso olhou pela sua janela e o viu catalogando pentelhos. Cor. Textura. A quem pertenciam. Contou no bar. E a noite, quando nirineu adentrou o recinto, todos os freqüentadores levantaram, enfiaram as mãos dentro das calças e arrancaram chumaços de pentelho. Foi uma chuva torrencial de pelos pubianos em cima de nirineu. Nirineu enlouqueceu. Dizem que ataca pessoas na rua. Recita um poema. Arranca pentelhos das vítimas e se justifica: - é pra fazer uma corda, pra me levar pro céu.

poliálogos

1
- estou no quinto andar de mim mesmo. Acho que esse deve ser o último andar. Se bobear, caio. De mim em mim. E talvez, só talvez, nem sobreviva.
- você é uma metáfora! Morde sua bunda pra não ser clichê e acaba assim: omisso. Inútil. Apático. Você é patético!!!
- eu ouvi sobre você na televisão. Eles avisaram dos novos vírus. Vírus que andam, cagam e comem como humanos. Mas você não é humana. E não engana ninguém.
- humana não né? E o que você chama conviver contigo? Um estágio, talvez? Um estudo de caso? Uma... contaminação?
- eu gosto de ler Clarice Lispector à noite, antes de dormir!
- foda-se! Você e sua literatura de almanaque!!!

2
Americanos do mundo larguem suas bombas americanos do mundo soltem-se americanos do mundo parem de nos envenenar com seus sanduíches sem realidade americanos do mundo matem suas águias e vão criar galinhas americanos do mundo vão cagar dentro de uma lata americanos de todo o mundo: sentem-se! A vovó vai contar histórias da carochinha para vocês.

3
Um amor eterno
Um terno amor
Feito de suor e espanto
De sonoridades sem sentido e
Brilhos fugidios
Um amor eterno
Estúpido e sujo amor
Feito com porrada, sêmen e palavras desconexas
Um amor, nunca eterno
Ou terno
Amor que é pura arte
Ficção e
Fricção.

4
- você é uma daquelas gordas de botero. Você faz parte do nada existencial da minha vida. Você é a arma sem alma que engole comprimidos sem culpa ou dor. Você é você demais. E isso me incomoda pra caralho!
- eu poderia te responder, mas meu tempo é valioso. Meu nariz fareja o futuro, e você... está no ralo do passado. Eu poderia rir de você, mas sua piada perdeu a graça. Sua programação é em preto e branco, e quer saber? Não passa mais em meu horário nobre.
- eu sou o sultão de Constantinopla. Comedor de vaginas multicoloridas. Fractais. Não racionais. Sultão. Insulto. Insultão.

domingo, 27 de janeiro de 2008

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

Manuel Bandeira

Esfinge*




bem me quéops
mal me quéfren
miquerinos?

eu no polígono das secas
você no delta do nilo

Eu sou o aro da roda
Você, tangente do círculo

eu sou o rei do agreste
Você, rainha do egito


Tiago Araripe

* Publicado no Jornal Folha de Piqui nº 03 de abril de 1984

O ano de 2008 vai doer mais do que se imagina.

Nouriel Roubini

Na crise dos Estados Unidos da América quem mais se prejudica é a classe média que tem aplicações em mercados de ações, inclusive aquelas que sustentam sua qualidade de vida na aposentadoria. Para os entusiastas do novo capitalismo, aquele dos grandes fundos, do capital pulverizado em milhões de pessoas, isso foi um baque fundamental. O capitalismo pode ter mais donos, mas os operadores, que se encastelam nos grandes bancos e nos bancos centrais de autoridades "ultradesreguladoras", são as verdadeiras causas da fartura e da escassez. Em três meses o valor do capital em bolsas de valores perdeu US$ 7,74 bilhões, o maior volume de perdas foi nos próprios EUA (controlam 25% da riqueza mundial). Por decisões de alguns burocratas e especuladores, além da louca dinâmica dos tais mercados de derivativos, a perda equivale a mais de um sexto da riqueza mundial, mais da metade do PIB americano, seis vezes o PIB brasileiro e o dobro dos gastos mundiais com saúde. A fonte destas informações é do jornal o Globo citando Bloomberg, CIA World actbook e OMS.

Nouriel Roubini que passa a ter uma coluna semanal na revista Carta Capital, é um economista que mora em Nova York, mantém um sítio na Internet, foi quem previu a crise americana com um ano de antecedência. Para ele o buraco da crise atual é mais profundo. Em razão disso digitei a entrevista que deu ao Jornal O Globo, edição de hoje, domingo, para assinantes para a jornalista Deborah Berlinck..

O Globo: quem aposte que não haverá uma verdadeira recessão. O que o senhor acha?

Nouriel Roubini: Vamos ter uma recessão grave nos EUA. Ela começou. A questão agora é o quão difícil vai ser a aterrissagem. Alguns dizem que a recessão será suave e durará dois trimestres. Eu acho que a recessão será muito mais longa e severa: pelo menos quatro trimestres, se não mais. E vai doer muito mais do que as pessoas imaginam. Em 2001 a recessão foi impulsionada pela bolha no setor tecnológico, que representa 7% da economia. Agora a recessão está sendo provocada por baixo consumo privado, que representa 70% do PIB. Quando acabarem com a poupança e os consumidores pararem de consumir a recessão vai ser grave.

O Globo: Outras razões para acreditar numa recessão severa?

Nouriel Roubini: Outra razão é quegraves problemas no sistema financeiro. Não se trata apenas de uma crise nas hipotecas de alto risco (subprime). Há problemas com consumidores, cartões de crédito, empréstimos para estudantes, para compra de carros, comerciais...Com a recessão, muitas corporações não vão honrar o pagamento dos junk bonds (títulos podres). Houve excesso de crédito e alavancagem no sistema financeiro e em grande parte da economia. Isso levará a perdas maciças.

O Globo: Muitas empresas podem quebrar este ano, então?

Nouriel Roubini: Nos EUA, historicamente, há 3% de não-pagamento de dívidas, em média, sobretudo nas empresas com negócios de alto risco, endividadas, ou com junk bonds. No ano passado, o percentual de não-pagamento da dívida foi de apenas 0,6%. Agora dispararam para 6% e vão subir ainda mais. O calote vai aumentar muitíssimo.

O Globo: Que setores serão os mais afetados?

Nouriel Roubini: Os que operam mais no longo prazo vão estar muito mais vulneráveis, como o setor automotivo americano., que está me crise. Corporações que tiveram baixos lucros vão ter perdas, e também as empresas que se lançaram em junk bonds.

O Globo: rumores que o Federal Reserve (GED, o BC americano) vai cortar ainda mais as taxas de juros. Isso ajuda?

Nouriel Roubini: Não. O que o Fed fizer agora vai ser muito pouco e muito tarde. O Fed analisou errado as causas da crise, dizendo que era apenas um pequeno problema imobiliário, que iria ser rapidamente solucionado há um ano. Não apenas não está, como está se tornando a pior recessão imobiliária da História dos Estados Unidos. Não se vai solucionar insolvência com política monetária.

O Globo: Por que reguladores e bancos centrais falharam em detectar a crise?

Nouriel Roubini: No caso do Fed, a ideologia era a de um laissez-faire: baixa regulamentação e supervisão do sistema financeiro. Alan Greenspan foi o grande líder de torcida do crédito imobiliário de alto risco. Cometeram o erro de não ver que a inovação financeira pode ser uma coisa boa, mas quando se tem regras básicas, supervisão e regulamentação e transparência. Caso contrário, é a lei da selva.

O Globo: A recessão americana pode afetar boa parte do mundo?

Nouriel Roubini: Essa recessão pode levar a uma significativa desaceleração do crescimento mundial. Não a uma recessão global. Vai ser uma desaceleração mais séria do que as pessoas acreditam, porque os Estados Unidos ainda têm um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). Se pensamos nas ligações de comércio, financiamento, taxas de câmbio, tudo isso significa que quando os EUA espirram, o resto do mundo pega uma gripe. Mas, desta vez, os EUA não apenas estão com uma gripe banal, e sim com um caso grave de pneumonia. O contágio real e financeiro vai ser sério.

O Globo: Que países serão mais afetados?

Nouriel Roubini: A maioria dos paises, mas sobretudo os que têm maior ligação com os EUA, como Canadá e México, China e partes do Leste da Ásia. O crescimento chinês pode cair de 11% para 6% ou 7%, o que é um pouso forçado.

O Globo: E o Brasil?

Nouriel Roubini: Não há o risco de crise financeira com as de 1999 ou 2002. Mas, com a redução no crescimento global, queda no preço de commodities e aversão ao risco, as coisas vão se tornar mais turbulentas.

Um último comentário: como as Ciências Econômicas ganharam conceitos da Medicina, especialmente das Doenças Infecciosas e Parasitárias, nas quais o conceito de contágio é um conhecimento básico.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Entrevista de Eric Hobsbawm publicada no site de Pedro Dória

Permaneci no Partido Comunista não por motivos políticos mas por razões autobiográficas. Não é por idealismo em relação à Revolução de Outubro. Não sou idealista. Ninguém deveria se iludir a respeito das pessoas ou coisas com as quais nos preocupamos. Comunismo é justamente uma das coisas com as quais tratei de não me iludir, embora tenha feito o que pude para permanecer leal a ele e a sua memória. O fenômeno do comunismo e a paixão que ele levantou foi algo específico ao século 20. Foi uma combinação de grandes esperanças nascidas do progresso e da crença na melhoria da humanidade durante o século 19 além da descoberta de que a sociedade burguesa na qual vivemos, não importa quanto sucesso tenha feito, não funciona e, em alguns momentos, pareceu próxima ao colapso. Como não entrou em colapso, criou grandes pesadelos.

Os EUA obviamente escolheram a barbárie contra o socialismo, no Afeganistão. Eles financiaram a al-Qaeda e o Talibã porque acreditavam que o comunismo era uma opção pior. Eu não acho isso. Também não acho que a al-Qaeda ou o fundamentalismo sejam os maiores perigos enfrentados pelo capitalismo. O capitalismo sobreviverá a eles e fará dinheiro com eles. O fundamentalismo islâmico não é um grande perigo porque não é capaz de vencer guerras. Para compreender a situação atual, é preciso compreender que o Onze de Setembro jamais ameaçou os EUA. Foi uma tragédia humana que humilhou os EUA, mas o país não estava de forma alguma mais fraco após os ataques. Três ou quatro ataques equivalentes não mudarão a posição de poder dos EUA no mundo.

Os EUA são o grande poder propagandístico do mundo. A França o foi em 1789, depois o foram os comunistas, e agora são os EUA, em si também um regime revolucionário. Quando você tem a chance de espalhar sua influência, termina se transformando num império. É o caso francês no período de Napoleão. Eles alegavam estar fazendo o bem para os países que conquistavam, mas eram considerados simples conquistadores pelo resto do mundo. A diferença é que, diferentemente do caso alemão, que não quis fazer bem para todo mundo, os franceses e os russos tinham e os americanos têm mesmo o objetivo de fazer o bem ao espalhar suas idéias. Agora, os americanos têm a chance de fazer o que os franceses fizeram no tempo de Napoleão, e os argumentos pró e contra são parecidos.

Eles usaram o Onze de Setembro como oportunidade para demonstrar que são o único poder com a capacidade de domínio. Agora, qual o objetivo deles além de provar que conseguem dominar outro país é difícil de dizer. Não há qualquer justificativa racional para a Guerra do Iraque. Os EUA terão de aprender que há limites até mesmo para seu poder e, com alguma sorte, acho que isto acontecerá. Neste momento, no entanto, o processo de aprendizado mal começou.

Eric Hobsbawm, 2002

De Volta : "Cabelos de Sansão"


Vem aí o disco remasterizado do grande cratense Tiago Araripe, um verdadeiro Cult dos anos 80. Confiram o andamento no blog : http://cabelosdesansao.blogspot.com

"Paulicéia, anos 80. Um teatrinho em frente à Praça Benedito Calixto torna-se ponto de encontro da chamada vanguada paulistana. Ali se apresentam Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Premeditando o Breque (hoje Premê), Passoca, Vânia Bastos, Língua de Trapo, Papa Poluição e tantos outros nomes. Ali dou os primeiros passos solo, depois de cinco anos integrando o Papa Poluição. Tenho como banda de apoio o Sexo dos Anjos (Luiz Brasil, Cid Campos, Felipe Ávilla e Xico Carlos). Naturalmente, o primeiro palco é o Lira Paulistana.

O teatrinho integra um centro de produções independentes que inclui um selo musical, uma editora gráfica e nem-lembro-mais-o-quê. À frente, Wilson Souto Jr., a quem chamávamos carinhosamente de Gordo. O Lira Paulistana havia produzido seu primeiro disco, o ótimo vinil Beleléu, do Itamar Assumpção. Convenci o Wilson de que o meu LP seria o próximo.

Um ano de arranjos, ensaios, arregimentação de músicos, concepção/produção da capa e mais de 300 horas de estúdio depois, eis que é lançado Cabelos de Sansão. Uma proposta ousada para os padrões independentes (sempre achei melhor o termo alternativo) da época: 33 músicos, cada faixa com conceito distinto - em respeito à idéia da composição, master feita nos Estados Unidos, capa com a assinatura do designer gráfico Alexandre Wollner, participações especialíssimas de talentos como Itamar, Tetê, Vânia Bastos, Passoca, Oswaldinho do Acordeon, Tony Ozanah... E um presente: a versão exclusiva feita por Augusto de Campos para a belíssima Little Wing (Asa Linda), de Jimi Hendrix (eu costumava colecionar gravações dessa canção).

Mais de 25 anos depois, graças a Zeca Baleiro e Rossana Decelso, que conduzem o selo Saravá Discos, Cabelos de Sansão voltará à tona em CD histórico remasterizado. O objetivo deste blog é dar vez à trajetória do disco, que pode abrir espaço para outros vôos. Com novas asas.

Aguarde. E nos falemos."

Tiago Araripe

A Chave


Herman Hesse, nascido na Alemanha em 1877, partiu deste mundo em 1962, aos 85 anos. Ele deixou uma vasta e sólida obra literária que o levou ao Nobel de literatura em 1946. No vendaval de mudanças dos anos 60, sua arte teve uma profunda sintonia com a geração libertária do pós-guerra. Romances como “Sidharta”, “O Lobo da Estepe” e “ O Jogo das Contas de Vidro”, tornaram-se verdadeiras bíblias dos hippyes, dos beats e dos estudantes. Lembrei-me de Hesse neste sábado que finaliza uma semana mais triste que as habituais, embora , estranhamente , preceda ao período momino. O que preenche uma vila, imantando-a de uma alma ? Os poetas, os loucos, os boêmios. Quem lhe forja no entanto o caráter e a personalidade são seus educadores. O professor tem nas mãos a possibilidade única de construir o futuro, de moldar os dias que virão. E ele não consegue isto ensinando. Ensinar é apenas uma pequena face do complexo polígono que é a educação. O verdadeiro mestre tem a divina capacidade de apertar os interruptores das habilidades e vocações dos seus alunos. Adolescentes na encruzilhada de suas vidas, ante todas as intempéries e vicissitudes do futuro que se lhes abre sensualmente à frente, de repente percebem, as placas de trânsito que sutil e anonimamente lhes vão sendo colocadas nos caminhos e veredas por seus mestres. Percebo claramente que se hoje exerço bem ou mal a Medicina devo isto a uma das minhas mestras do ensino médio. Pensei tantas e tantas vezes em seguir outras carreiras como : jornalista, engenheiro ou professor como meus pais. Devo o médico que sou nos dias atuais à professora Ivone Pequeno que me abriu os horizontes encantadores da Biologia e terminou por me levar a seguir os rumos da Saúde. Pois bem, Hesse veio-me à mente por uma das suas mais famosas frases e que tão perfeita e visionariamente explica a verdadeira arte que é ensinar : “Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.”
Herman Hesse, hoje injustamente esquecido, renasceu no meu espírito quando , com toda consternação deste mundo, observamos o vôo de pássaro do querido professor Aguinelo Damasceno. Todos que o tiveram como mestre se recordam das mais fortes facetas da sua personalidade. Organizadíssimo, preparava as aulas com um esmero inimaginável. Tinha mapa de classe, numa época em que sequer se havia pensado nesta geografia pedagógica. Comprometido com sua árdua profissão, nenhum aluno seu consegue registrar uma única aula vaga do mestre e até mesmo um simples atraso. Trabalhava na escola pública com um vigor e uma determinação que não se vê nem nos colégios pagos. Além de tudo mostrava-se sincero ao extremo com seus pupilos, qualquer questão que por acaso não tivesse uma resposta pronta na hora, simplesmente informava da impossibilidade de solucioná-la naquele momento , mas na próxima aula traria a correta resposta à pendência, o que cumpria de forma britânica. Talvez por isto mesmo fosse tão respeitado e estimado por todos seus discípulos. Conseguia de forma doce e cordial ter a necessária autoridade sobre hostes de jovens acicatados pelos hormônios da adolescência, sem ter necessidade, em nenhum momento, de se fazer autoritário. Muitos engenheiros cratenses hoje despertaram para arte pelas mãos sábias do professor Aguinelo Damasceno. Ele envelheceu com a placidez beneditina dos sábios e soube com a mesma sapiência com que colheu os opimos frutos da juventude, juntar as folhas ressequidas da vida e com elas fazer o fogo que veio arrefecer o frio inverno da velhice. Talvez a mais duradoura imagem que nos fique do professor Aguinelo seja justamente o da pasta maravilhosa que trazia para todas as aulas. Parecia a cartola de um mágico e ali colecionava um sem número de utensílios. Alguém se acidentava , ele sacava esparadrapo e gaze. A cadeira de alguém quebrava, o professor tirava da pasta mágica martelo, parafuso e chave de fenda. A luz da sala queimava, ele tirava uma outra da bolsa encantada. Para os roucos : pastilhas; para os assanhados: pentes e grampos; para os famintos : frutas e biscoitos; para os nauseados o plasil; para as dores de barriga: constipantes. O mestre sequer percebia que suas artes de Mandrake iam bem além dos simples utensílios e ferramentas. Dali de dentro ele tirava as chaves que abriram muitos e muitos caminhos e luzes que iluminaram o mundo de tantos. Ele conseguiu tornar nítidas e visíveis as mais coloridas imagens que existiam na alma de um sem número de discípulos. Seguindo os preceitos de Hesse, o professor Aguinelo exerceu suas artes de ilusionista e sem que ninguém se apercebesse foi pouco a pouco nos dando aquilo que havia de melhor em cada um de nós. O mundo fica mais pobre de perspectivas e ilusões quando agora se fecha o zíper da sua pasta miraculosa.

J. Flávio Vieira