TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Como era o Brasil em 1808 ?

Armando Lopes Rafael (*)

Rio de Janeiro, 1808: Cena de um "entrudo" que reunia do Senhor ao escravo. Como as galinhas eram caríssimas, à mesa do povo iam iguarias como lagarto, macaco, gambá, paca e tatu, além da feijoada. O peixe era pouco apreciado

Quando desembarcou no Rio de Janeiro colonial, em 1808, a família real portuguesa encontrou uma cidade que possuía 71 ruas, 27 becos, sete travessas e cinco ladeiras. Habitado por 60.000 pessoas (sendo que 30.000 eram escravos), o Rio era um lugar atrasado, de costumes rígidos, comércio limitadíssimo e sem nenhuma vida cultural. A chegada da corte de dom João VI, que trouxe para cá 12.000 pessoas de uma só vez, provocou mudanças radicais na cidade.


Em entrevista à revista Veja (nº. 2040, de 26 de dezembro de 2007) o historiador José Murilo de Carvalho – doutor em ciência política pela Universidade Stanford (EUA), professor titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de vários livros e membro da Academia Brasileira de Letras – assim se expressou sobre o débito que o nosso país tem para com a Família Real Portuguesa, graças a sua transferência para o Brasil em 1808:


“A vinda da Família Real foi, sem dúvida, uma condição necessária para a existência do Brasil. Se Dom João tivesse optado por ficar em Portugal, nosso país não existiria tal como é hoje. Aconteceria aqui o que houve na colônia espanhola na América, uma divisão de países, provavelmente uns cinco. O Brasil oscilou entre a fragmentação e a unidade até 1850. Mas não se fragmentou porque, com a transferência da coroa, se estabeleceu no Rio de Janeiro um centro de legitimidade política sobre as subdivisões da colônia. A atuação da corte no Rio foi fundamental para manter nossa unidade, inclusive com o uso da força contra movimentos separatistas. Viabilizou-se o projeto de grande império, que reforçou essa unidade”.



Para melhor entendermos esta profunda reflexão de José Murilo de Carvalho vamos remontar ao que era o Brasil na primeira década do século XIX.


Até 1808, chamar de Brasil esta imensidão de terras que formava a América portuguesa era apenas uma força de expressão. Na verdade, 200 anos atrás, nem existia o conceito de um Brasil dotado de identidade homogênea. Os habitantes brancos, que habitavam esta parte da América, mesmo os já nascidos aqui, se auto definiam como portugueses. Não era utilizada a expressão “brasileiro” para designar os habitantes que aqui viviam. Artigos publicados naquela época discutiam se a denominação para os nativos da colônia portuguesa deveria ser brasiliano, brasiliense ou brasileiro. Hipólito José da Costa, fundador e editor de um jornal publicado em Londres, o “Correio Braziliense”, defendia que os naturais do Brasil deviam ser chamados brasilienses. Em sua opinião, brasileiro era o português ou estrangeiro que se estabelecera na colônia. Já os indígenas deviam ser chamados de brasilianos.


Os nascidos em Salvador e adjacências se diziam “bahiense”. Os que viviam nas terras das minas gerais apresentavam-se como sendo “das minas”. Não havia unidade entre as diversas províncias que formavam o território da colônia, de dimensões continentais. As províncias eram mais ou menos autônomas. O naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, que visitou a colônia entre 1816 a 1822 (quando a situação já era bem melhor do que no início do século XIX, época da chegada da Família Real, escreveu:



“Cada capitania tinha seu governante, sua pequena milícia e seu pequeno tesouro; a comunicação entre elas era precária, sendo que geralmente uma ignorava a existência da outra”.



Alguém poderá objetar lembrando que já em 1789 um “punhado de heróis” – o brasileiro tem a mania de inventar “heróis” e “heroínas” – fez a Inconfidência Mineira visando à independência do Brasil. Ledo engano. O pesquisador gaúcho Sérgio Faraco publicou em 1990, um interessante livro: “O Processo dos Inconfidentes – Verdade ou Versão” onde diz que aquele movimento sequer falava em Independência do Brasil. Pregava sim, a Independência de Minas Gerais. O que aconteceu – segundo Sérgio Faraco – foi que o Governador de Minas, Visconde de Barbacena, para impressionar a rainha de Portugal, deu uma importância bem maior a um pequeno fato, exagerando sobre a amplitude desse movimento. Talvez tenha sido por isso que Capistrano de Abreu – um cearense considerado um dos maiores historiadores brasileiros – escreveu: “A Inconfidência Mineira não passou de uma conversa, e conversa fiada”...


Isoladas do mundo por mais de três séculos, distantes uma das outras, escassamente povoadas, cada província vivia seu cotidiano de modo diferente. A Província do Grão-Pará – à época englobava territórios que hoje foram os Estados do Pará, Amazonas, Amapá e Roraima – era a mais ligada à metrópole portuguesa, pois todo o seu comércio e vínculos sociais eram feitos diretamente com Lisboa. O Grão-Pará simplesmente desconhecia o Vice-Rei que vivia no Rio de Janeiro.


O jornalista Laurentino Gomes – autor do livro 1808 – em artigo sob o título O ano em que o Brasil foi inventado (in revista Aventura da História, edição 54, janeiro de 2008) afirmou peremptoriamente:


“O Brasil foi descoberto em 1500, mas inventado como país em 1808. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os 13 anos em que a corte portuguesa permaneceu no Rio de Janeiro. Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia proibida, atrasada e ignorante para se tornar um país independente. Portanto, o que se comemora em 2008 não são apenas os 200 anos da chegada da corte ao Rio de Janeiro. O próprio Brasil está fazendo aniversário”.



É verdade. Tudo mudou com a chegada do príncipe regente ao Brasil. Com a chegada da Família Real a colônia passou a ter um centro claro de decisão: a cidade do Rio de Janeiro. No entanto, o maior dos benefícios que Dom João VI prestou ao Brasil foi a manutenção da integridade territorial do nosso país.


(*) Armando Lopes Rafael, sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro Correspondente da Academia de Letras e Artes "Mater Salvatoris" de Salvador (BA)


3 comentários:

Armando Rafael disse...

Por um lapso, não constou a legenda da ilustração deste artigo.Reproduzo-a abaixo:

"Rio de Janeiro, 1808: Cena de um "entrudo" que reunia do Senhor ao escravo. Como as galinhas eram caríssimas, à mesa do povo iam iguarias como lagarto, macaco, gambá, paca e tatu, além da feijoada.O peixe era pouco apreciado".

A propósito, segundo Reinaldo José Lopes: "Até 1808, os brasileiros comiam com as mãos e viviam numa terra sem universidades, imprensa ou médicos. Com a chegada da corte ao Rio de Janeiro, a colônia começou a ficar com cara de país. O pedaço mais lucrativo do império português (a cidade do Rio de Janeiro) também era um local tosco, desprovido de saneamento básico, educação superior, hospitais e até de moeda circulante, pois prevalecia o "escambo"(sistema de troca de mercadorias".

Se na cidade do Rio de Janeiro esse era o "cenário" na primeira década do século XIX, imagine como era o panorama nas cidades mais distantes das diversas Províncias que formavam a América Portuguesa...

Luiz Carlos Salatiel disse...

Armando,

Achamos que tem algum olho gordo republicano emperrando a publicação do seu artigo (rsrs).

Esperamos que agora tenha dado certo.

Ass.: administração do CaririCULT

Armando Rafael disse...

Salatiel:
Ainda bem que nenhum "olho gordo republicano" consegue escamotear os fatos históricos...(rsrsrs)
A propósito, me perguntaram se algum dos Imperadores do Brasil tinha coragem de fazer o que fez, recentemente, o Rei da Espanha, Juan Carlos, quando abriu mão de sua tradicional fleuma e falou em alto e bom tom ao presidente da Venezuela aquilo que muita gente pretendia externar há tempos ao nascente ditador venezuelano Hugo Chávez : "Por qué no te callas?" (Por que não te calas?)

As novas gerações desconhecem um fato histórico - relacionado com Dom Pedro II - que narrarei abaixo:

Era o ano de 1862. Marinheiros ingleses, bêbados e em trajes civis, provocaram tumultos no Rio de Janeiro, a então Capital do Império. Foram presos e, confirmada sua condição de militares, liberados. O inábil e prepotente embaixador britânico William D. Christie exigiu pedido formal de desculpas e indenização dos valores contidos em um navio que fora supostamente naufragado por brasileiros, o Prince of Wales. O almirante inglês Warren promoveu o apresamento de cinco navios mercantes brasileiros. Diante do inimigo muito mais forte militarmente, o Governo Imperial Brasileiro pagou, sob protesto, o valor exigido.

Contudo, Dom Pedro II solicitou o arbitramento internacional do rei da Bélgica para a questão dos marinheiros arruaceiros, exigiu uma indenização pelos navios apresados e um pedido formal de desculpas pela invasão do litoral brasileiro. Face à resposta negativa de Londres, o imperador simplesmente cortou relações diplomáticas com a Inglaterra em 1863. Nesse mesmo ano saiu o parecer favorável à posição brasileira. Somente quando o Reino Unido enviou um pedido formal de desculpas ao Imperador Dom Pedro II,em 1865, é que foram restabelecidas as ligações diplomáticas entre as duas nações. O ato de Dom Pedro II seria o equivalente, hoje, ao de um presidente brasileiro cortar relações com os Estados Unidos.