TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 17 de outubro de 2010

Deusa gorda


Engordara tanto que decidiram isolá-la num quarto, reforçando a cama. Em pouco tempo ultrapassou, mesmo de lado, a largura do umbral da porta, e já não podia sair. Lavantava-se apenas para evitar as escaras, e caminhava dentro do quarto. Comia. Via televisão. Mais da metade do alimento da cidade ia para ela. Decidiram cobrar ingresso para que os viajantes pudessem vê-la. Seria uma retribuição. Suportou calada os rostos estranhos em sua porta. Nessas horas, desligavam a TV e tiravam os lençóis que cobriam seu corpo, para que ficasse bem visível. Deu certo. um pequeno fluxo turístico começou. Reportagem foram escritas a respeito dela. Bateu o recorde de peso, ganhou um prêmio por isso.
Mas veio um período de grande seca em toda aquela região. Murcharam os arrozais e o lamento do gado sedento chegava até seu quarto. Não havia como alimentá-la. Começou a perder peso. Todos deixaram a cidade, menos ela, pois não passava pelo umbral, e mesmo que quebrasse a parede não sobreviveria ao esforço migratório. Ficou sozinha, com bastente água no quarto, alimentando-se da gordura que por tanto tempo acumulara. A TV já não funcinava. Ela fitava o teto, olhando as sombras dos móveis se moverem. Nenhum ruído chegava porque nada estava vivo.
Então um dia, levantou-se como de costume, para evitar as escaras, e percebeu que estava tão magra que passaria facilmente pelo umbral da porta do seu quarto. Tinha aquela pele flácida dos muitos gordos quando emagrecem. Tomou coragem e atravessou a linha mágica, e depois uma segunda, a da porta da frente, que a levou até a antiga avenida da cidade fantasma. Ergueu os braços para o céu e ordenou chuva. As nuvens se formaram prontamente, em grandes maciços de chumbo, e choveu abundantemente na região. O gado se levantou do chão, onde estava morto, a polpa dos frutos secos ficou úmida e o pio dos pássaros se fez ouvir novamente. Mas não permitiu que voltassem as pessoas, e quem se aproximasse de sua cidade, tentando chegar em casa, a deusa gorda matava de longe, dos modos mais variados.

Nuno Ramos é artista plástico, compositor e escritor.

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