TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Euclides do Crato : O Geômetra político de Chico Mendes


“Não há nada como o sonho para criar o futuro.

Utopia hoje, carne e osso amanhã.”

Victor Hugo

Chico Mendes virou lenda. Nascido em 1944 em Xapuri, no Acre, seu nome sedimentou-se, historicamente, na luta pela preservação da Floresta Amazônica. Sindicalista, Seringueiro, Ativista Ambiental, Chico ficou eternamente lembrado, em todo mundo, por sua intransigente luta contra a vil e escravagista exploração do trabalho rural , na Região Norte do Brasil. Ainda criança viu-se imerso no expropriador Ciclo da Borracha, onde levas de pobres seringueiros viam-se lanhados pelo poder do capital ,da mesma forma com que as seringueiras eram talhadas para a extração do leite.

Iniciou a vida de líder sindical , tardiamente, aos 30 anos, como Secretário Geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Já a partir de 1976, participou dos famosos “empates” que eram pacíficas manifestações dos trabalhadores impedindo os desmatamentos , quando colocavam os próprios corpos para proteger as árvores. Além de ações em defesa dos nativos na posse de glebas de terra numa região historicamente infestada de latifúndios. Participou , depois, da fundação do Sindicato dos Trabalhadores rurais de Xapuri e elegeu-se vereador pelo MDB , ali já começaram as ameaças de morte contra ele. Não bastasse isso, em plena ditadura militar, vê-se acusado de subversão e é preso e torturado. Foi um dos fundadores do PT e um dos dirigentes do partido no Acre. Por influência dos fazendeiros, é incluído na Lei de Segurança Nacional, sob falsa imputação de assassinato de um capataz de fazenda, sendo absolvido no decorrer do processo.

Em 1981 assume a Presidência do Sindicato de Xapuri, cargo que ocuparia até o fim dos seus dias. Em 1985, Chico liderou o I Encontro Nacional dos Seringueiros, quando foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) que ganhou fama internacional com a proposta da “União dos Povos da Floresta” que unificava propostas de seringueiros, castanheiros, pescadores, indígenas, quebradores de coco babaçu e ribeirinhos, com a criação de Reservas Extrativistas.

Em 1987 leva denúncias sobre a devastação da Floresta a fóruns internacionais, conseguindo bloquear o financiamento do BID a projetos de destruição ambientalista. Recebe inúmeros prêmios internacionais por sua luta em defesa do Meio Ambiente, entre eles o Global 500 da ONU. Após a desapropriação de terras e a criação das primeiras Reservas Extrativistas, aumentam as ameaças à sua vida. Era uma Morte Anunciada. Em 1988, aos 44 anos, tomba sob os tiros de escopeta dos fazendeiros Darly e Darcy Alves da Silva. Após o assassinato, mais de trinta entidades se reuniram para formar o Comitê Chico Mendes. Mataram o homem, não arrefeceram sua luta, até 2006 , mais de 43 Reservas Extrativistas já tinham sido criadas, abrangendo mais de 8,6 Milhões de Hectares e abrigando mais de 40.000 famílias. Com Chico Mendes, o Brasil inteiro despertou para um olhar ambientalista, como até então nunca tinha acontecido.

Quase todos têm uma clara dimensão do legado de Chico Mendes. Ficava sempre no ar, no entanto, uma incógnita. Como se formou politicamente o Líder Sindical? Nascido numa região, à época esquecida do mundo, sem escolas, a única escapatória do pobre era o extrativismo do látex. A indústria de extração era centralizada numa elite feudal que explorava os trabalhadores até a última gota. A ausência de educação formal para os seringueiros era por si só uma técnica que tinha o fito claro de impedir o crescimento político dos seringueiros. Aquilo não interessava ao patrão, primeiro porque afastava as crianças do trabalho, diminuindo a produção e , por outro lado, abria um perigoso campo para o conhecimento do mundo e futuras e inevitáveis reivindicações. Não sabendo ler nem contar, abria-se a perspectiva da expropriação, da dissimulação. O seringueiro estava sempre devendo, dizia o próprio Chico na sua biografia. O Acre, o Brasil, o Ambientalismo brasileiro mudaram devido a um desses acasos imprevisíveis, desses toques da sorte que, imediatamente, os mais crédulos debitam a forças superiores.

Segundo Chico, em 1962, aos 18 anos, ele enfurnado no seringal, era completamente analfabeto. Pois um dia , chegou no seu barraco um seringueiro diferente, com um outro linguajar e que terminou impressionando toda a família. Aos poucos ganhou a confiança dos companheiros e interessou-se por Chico, oferecendo-se para ensiná-lo a ler. O pai concordou e aí, todo sábado, nosso futuro líder sindical caminhava três horas , mato a dentro, até o barraco do mestre, onde , não tendo cartilhas, usava jornais velhos para alfabetizar o nosso Chico. Aos poucos, o aluno foi aprendendo as primeiras letras. Muitas vezes as aulas varavam noites e , aos poucos, o professor foi introduzindo e discutindo notícias políticas dos jornais.

Só depois de um ano, segundo o próprio Chico, o mestre se identificou. Chamava-se Euclides Fernandes Távora. Era Tenente do Exército e havia participado, junto com Luiz Carlos Prestes , da Intentona Comunista de 1935, ele e inúmeros outros colegas de farda. Depois da débâcle, fora preso com vários outros em Fernando de Noronha. Ele, no entanto, tinha vários parentes importantes do outro lado. Era sobrinho de Juarez Távora e sob a influência do tio, conseguiu fugir da Ilha, vindo para Belém. Ali participou de um outro Movimento que tinha a influência do Major Barata, terminando por ser novamente preso.

Fugira novamente , agora para a Bolívia. Ali, já na década de 50, Euclides participou de movimentos de Resistência de operários bolivianos e mineiros. Houve grande repressão por lá também e, no pega prá capar, ele novamente escapuliu , embrenhando-se na selva boliviana , terminando por atravessar os seringais e vir bater ali no Acre, estabelecendo-se na Fronteira do Brasil. Ali mesmo, imerso na floresta, travestido de seringueiro, foi que Euclides Távora conheceu Chico Mendes e fez com que mudassem os rumos do Sindicalismo e Ambientalismo brasileiros.

É ainda o próprio Chico Mendes quem disseca cuidadosamente como o professor , aos poucos, o foi conduzindo pelos ínvios caminhos da política brasileira. Lia as colunas políticas dos jornais e discutia com o aluno , cuidadosamente, o que estava por trás das letras frias. Após o Golpe Militar de 1964 , então, os ensinamentos políticos se intensificaram. Euclides conseguiu um Rádio e junto com Chico ouvia os programas em português da “Voz da América” , A “BBC de Londres” e a “Central de Moscou”. As discussões furavam as madrugadas : por que essas rádios tinham versões tão diferentes sobre o mesmíssimo Golpe Militar ?

As lições estenderam-se até 1965, quando Euclides reforçou a importância do Movimento Sindical na resistência à ditadura estabelecida e reafirmou o otimismo quanto ao aparecimento de novos sindicatos e novas lideranças. Segundo Euclides, era preciso entrar nas organizações sociais todas eivadas de pelegos, pois só havia condições de mudar o status quo através de um trabalho interno, que remexesse as entranhas do monstro. O final da história é do conhecimento de todos.

O mais interessante, amigos, é que Euclides Fernandes Távora, segundo o próprio Chico Mendes revela na sua biografia, era cratense. Seu pai , Joaquim Távora, aqui morou por muitos anos e, segundo informações de Chico, todos os filhos teriam nascido aqui. Joaquim Távora procedia de Jaguaribe, onde teria nascido na Fazenda Embargo. Era Joaquim filho de um outro Joaquim : Antonio do Nascimento e Clara Fernandes da Silva Távora. Este casal, além do pai de Euclides , foi pródigo em filhos importantes ao Brasil : Juarez Távora, um dos líderes do Tenentismo de 1922 e candidato à Presidência da República em oposição a Juscelino Kubistchek ; Manoel Fernandes Távora , médico e depois Senador, que estudou no Seminário São José, em Crato e aqui clinicou por todo ano de 1903. Manoel inclusive trabalhou no Amazonas e Acre, razão possível da escolha da Região Norte por Euclides, após a Intentona Comunista. Sem falar em outros Távoras igualmente ilustres: Dom Carloto Távora, Bispo de Caratinga em Minas Gerais; Monsenhor Antonio Távora; o Desembargador Elisário Távora e o advogado Belisário Távora, estes últimos tios, pelo lado materno, do pai do nosso Euclides.

Depois de 1965, não conseguimos qualquer informação sobre o paradeiro do nosso Euclides Távora, o cratense mestre do grande Chico Mendes. O certo é que como um Nostradamus ele , visionariamente, parecia antever o futuro. Previra que os anos de chumbo durariam de 10 a 20 anos, que o movimento sindical se organizaria e que se a Ditadura Militar pensava que humilhando, torturando e cortando o movimento libertário, o exterminaria, estava redondamente enganada. Podava apenas os galhos, as raízes germinariam como por encanto e o povo organizado aspergiria as novas sementes ao vento e, em breve, o Brasil seria um grande “empate” contra a opressão e a injustiça social. Euclides sabia que o sonho e a utopia são apenas um dos estágios da realidade : como a pupa e a borboleta.


J. Flávio Vieira

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