TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

terça-feira, 3 de novembro de 2015

LEMBRANDO DO CRATO - Demóstenes Gonçalves Lima Ribeiro (*)


Solenemente, o velho sentou no banco da praça, fechou os olhos e reviveu a época breve em que morou no Crato. Naquele tempo, aos quatorze anos, he’s leaving home. O primeiro a deixar o ninho, ele jamais esqueceria o choro da mãe e a esperança do pai e teria uma vida inteira a disfarçar certa tristeza e solidão.

Aliás, era um domingo, havia muita gente na Siqueira Campos ou tomando sorvete no Bantim. O Cine Moderno exibia “A Noviça Rebelde,” mas ele preferiu o Cassino e “O Professor Aloprado” – nessa noite, Jerry Lewis seria melhor pro coração.

Quando voltou à pensão, as horas passaram devagar, lágrimas no travesseiro e o tic-tac na parede madrugada afora. De manhã, o Diocesano. Haveria que ser forte e organizado nessa luta desigual. E nos fins-de-semana, de ônibus ou de trem, ia e voltava de casa. No jogo de botão, Fechine, saudoso amigo, sempre ganhava, mas ele reforçaria o time, treinaria mais e da próxima vez venceria o campeonato.

O choro da mãe e a certeza do pai... O trem chegando, a cidade quase deserta, o silêncio da noite, o medo invadindo tudo e ele andando rápido: Praça da Estação, Rua da Vala, João Pessoa, Miguel Limaverde, entrava na pensão e adormecia amando loucamente a namoradinha de um amigo seu. Amanhã, aulas de novo, a vida seguindo o próprio rumo, the long and winding road se fazendo devagar. Recife era uma miragem e precisava estudar cada vez mais.

Nem telefone, nem TV, nem internet, mas a pensão era uma festa. A Araripe e a Educadora tocavam Jovem Guarda, “Aline” e “Os Verdes Campos do Meu Lar.” No final da tarde, uma volta na livraria. Pelos jornais do Rio, dois dias atrasados, Lacerda, Jango e Juscelino iriam formar a “Frente Ampla” e derrubar a ditadura. Outras tardes, na Escola Triunfo, aulas de datilografia com a Dona Soledade. A mãe achava importante, o Banco do Brasil era uma opção e ele guardou o diploma, não se sabia o que futuro iria aprontar.

E, sem nenhum rancor, lembrou-se da adolescente do Santa Teresa que acintosamente o ignorava. Ele era desajeitado e feio, até lhe faltava um incisivo, mas por que a humilhação? Onde estavam os pais e a Madre Feitosa que não deram educação a essa menina? Deixou pra lá... Aproximava-se a festa da padroeira e as suas colegas aparentemente o respeitavam. Houve um ensaio de jogral na Praça da Sé e elas cantaram “A Banda.” Pela primeira vez ele ouviu falar em Chico Buarque e tornou-se mais um admirador fanático desse gênio brasileiro incomparável.

E aí, veio a Miss Ceará, exuberante, desfilando de maiô no Tênis Clube, sob a música envolvente do Hildegardo. Ela sorriu, sentou no seu colo e sussurrou que o chalé do Granjeiro já estava acertado. Mas, um maldito “paredão de som” logo lhe acordou, disparando Ivete Sangalo. Alucinado, se deu conta de que estava só, saltou do banco, abriu os braços e explodiu furioso num gritou revoltado: só no Crato.


(*) Demóstenes Gonçalves Lima Ribeiro (médico cardiologista, natural de Missão Velha, e apaixonado pelo Crato, atualmente reside e exerce o ofício em Fortaleza)

Um comentário:

Pedra do Sertão disse...

Todos que saímos do Cariri, em alguma época, temos uma saudade ...saudade...saudede...para ficar na memória coletiva desse povo histórico!

Abraços do Pedra do Sertão

Venha nos visitar tb.

www.pedradosertao.blogspot.com.br