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domingo, 1 de junho de 2008

A Interpretação Freudiana da Festa do "Pau da Bandeira" em Barbalha




Segundo Sigmund Freud, o grande médico austríaco e criador da Psicanálise, ao realizar seus estudos sobre a Psiqué humana e a etiologia das neuroses, pôde constatar que certos atos até então considerados "normais" e inseridos na tradição dos povos, era na realidade, atos de expiação por "delitos" reais ou imaginários desses povos. Assim é que em várias culturas, determinados tipos de comportamento não eram permitidos, por despertar a "ira dos deuses", e portanto, trazer desgraça aos povos. Com o tempo, uma grande quantidade de crendices e atos conjuratórios passou a fazer parte do que Freud acabou definindo como "uma neurose obsessiva e compulsiva universal", para caracterizar diversas religiões, ampliando assim a atuação dos sintomas clássicos de uma neurose obsessiva e compulsiva, no qual, o paciente para livrar-se de algo pior, passa a executar diversos pequenos atos aparentemente sem maior significado prático, mas com grande significado para o paciente, que acredita piamente que se não os fizer, poderá atrair para si coisas terríveis. Assim nascem as superstições e as crendices, segundo a psicanálise.

Um dos grandes méritos da Psicanálise enquanto ciência que estuda a psiqué, foi descobrir o caráter sexual implícito em muitos atos humanos, disfarçados em coisas aparentemente banais. Iniciados por Freud com o clássico estudo da interpretação dos Sonhos, um de seus trabalhos mais famosos, a constatação de toda uma simbologia que denota claramente uma tendência à sexualidade como explicação aos atos humanos foi-lhe muito evidente. Freud chega a afirmar que nos sonhos, uma grande quantidade de cenas e objetos, descritos por ele como "objetos oníricos", podem ser reconhecidos como objetos fálicos e diversos atos aparentemente normais tomariam o aspecto do próprio coito. É a forma que a mente se utiliza para reprimir os desejos proibidos pela sociedade, ou por uma instância psíquica conhecida por "Superego" do indivíduo, que é formado na infância pela introjeção dos pais ( e que alguns chamam de Consciência ), com o conjunto de leis, normas de conduta e ética para a construção de uma sociedade que reprime determinados tipos de comportamento. Assim, reprimidos durante a vigília, é que o indivíduo os ativa em sua forma onírica, disfarçando-o em simbologias. Freud, muito acertadamente apercebeu-se disto ao examinar diversos pacientes neuróticos, e curando-os da dura crítica de seus superegos; Passou a analisar o próprio comportamento obsessivo e compulsivo da humanidade, ao escrever obras tais como "Totem e Tabu", "O Mal-estar na civilização" e "Moisés e o Monoteísmo". Nessas obras, o genial médico austríaco consegue fornecer visões jamais imaginadas pela história sobre a explicação de muitos comportamentos coletivos.

Seguindo a linha de raciocínio de Sigmund Freud, e toda a Psicanálise, não é tão difícil analisar certas tradições, como a festa do Pau da Bandeira, que acontece todos os anos na cidade de Barbalha-CE, em que em determinado dia do ano, apenas os homens saem para a floresta ( numa atitude sorrateira, que se pode caracterizar como uma forma furtiva de busca do meio de acasalamento, início de namoro em busca da prêsa, da caça, ou melhor, da virgem ), a fim de cortarem uma imensa árvore que é assim chamado de "O pau da Bandeira" ( o próprio símbolo fálico ), a fim de trazê-lo para o centro da cidade, envolto em bebedeiras, e cantando vitórias, onde por alguns dias esse mastro é mantido ali, de forma ereta, viril, para impressionar, e supostamente serve de mastro para a bandeira da festa ( em outras culturas, isso seria o equivalente ao ato de renovar os ciclos vitais, e louvar a fertilidade ).

Ora, o próprio santo homenageado pela festa é o Santo Antônio, conhecido como o Santo casamenteiro, pois há a crença de que esse santo teria a propriedade de propiciar o casamento ( novamente a idéia de fertilidade e procriação ). Algumas mulheres acreditam que se tocar no "pau da bandeira" seus desejos de casamento poderão se tornar realidade. E aqui fazemos a constatação do poderoso simbolismo sexual que existe nesse mastro, pois, venerado pela multidão, acaba se tornando o elemento mais importante da festa, mais até do que o próprio santo homenageado. Na verdade, as pessoas veneram aquilo que vêem, veneram o mastro ereto. Os homens o veneram como símbolo da virilidade, e por isso mesmo, cada um se esforça em demonstrar a sua masculinidade e força ao trazer para a cidade o melhor mastro disponível, provando aos seus companheiros que é viril e forte, rivalizando com eles, e por outro lado, as mulheres o veneram pelo fato de que ele ( o mastro ), representar os seus desejos mais íntimos e reprimidos por uma sociedade ainda conservadora, que crê no casamento como a única solução possível e permitida para a execução sem pecado do coito. Assim, como em todas as eras da humanidade, as idéias de exibição de força ao sexo feminino, demonstrando a virilidade, o simbolismo da fertilidade, a veneração a objetos considerados sagrados e a expiação por atos considerados pecaminosos e auto-flagelação continuam íntimamente relacionados e omnipresentes. É como se retrocedêssemos à idade média, onde os casos de auto-flagelação para a expiação dos pecados e aobtenção do perdão divino eram atos práticos absolutamente normais e até incentivados como explicação para as tragédias pessoais, geralmente atribuídas a algum pensamento erótico ou ato em que o autor desejava reprimir ou havia cometido.

Sendo assim, vemos em Barbalha, à luz dos ensinamentos deixados por Sigmund Freud, um verdadeiro banquete para a Psicanálise, onde ali, encontram-se todos os elementos que justificam a repressão subconsciente e muitas vezes até consciente de uma sociedade baseada em tradições que reprimem a sexualidade do indivíduo, e escolhe uma época para a sempre dualidade: A orgia e a Expiação pelos atos. Como qualquer festa religiosa, ao mesmo tempo em que há um lado considerado "sagrado", há outro lado "profano", como o próprio carnaval do Brasil, que significa "O Vale da Carne", época de liberação, em que em seguida, após toda a orgia nababesca, vem o quê ? A quarta-feira de cinzas, dia especial onde muitos que participaram das bebedeiras e orgias do carnaval vão ORAR, a fim de expiar os "pecados", e onde inicia-se um período de vigília denominado Quaresma, onde até então, era considerado pecado se comer carne ( CARNEaval = carnaval ), então, após o vale da carne, há o período da expiação.

Em Barbalha, a simbologia não é diferente, apenas mudam os símbolos, de festa para festa. A celebração da fertilidade, todos os anos pela retirada de mais uma árvore da floresta ( que bem poderia ser o mesmo mastro, mas aí quebraria todo o simbolismo sexual envolvido no ritual da fertilidade e virilidade ).

Concluindo: Essas tradições de expiação encontram-se tão arraigadas no comportamento das sociedades humanas, que é quase impossível aos olhos desatentos e despojados da manta de crenças e crendices e rituais colecionados pelos povos, perceberem o que de fato o são:

Espetáculos coletivos ( teatro ), de celebração da fertilidade, derivados do homem primitivo e de uma sociedade totêmica, exteriorização de desejos sexuais reprimidos, quer pelo coletivo, quer pela força da repressão mental, e a consequente expiação anual de atos considerados pecaminosos; E como toda festa religiosa, ao final, um representante do grande "pai que está nos céus" os perdoa, a fim de que possam passar mais um ano executando os atos que lhes são próprios dos seus instintos mais primitivos e básicos, normais, pilares de qualquer socidade, mas reprimidos para manifestação pública durante as outras épocas do ano.

E vemos assim que o velho Sigmund Freud mais uma vez tinha razão, quando acertadamente demonstra a sexualidade implícita através da interpretação de muitos dos rituais humanos, mas somente são capazes de aceitá-los ou compreendê-los, aqueles que possuem os olhos e a mente abertos à verdadeira interpretação dos comportamentos humanos mais íntimos, mas ao mesmo tempo, tão explícitos.

Por: Dihelson Mendonça
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3 comentários:

José do Vale Pinheiro Feitosa disse...

Grande Dihelson: ao lado de Freud, existe a antropologia. Esta tem um poder maior de análise pois não é normativa como a psicanálise. Ninguém estuda a neurose e atribui ao comportamento humano um valor "patológico" que não seja para medicá-lo. Aì reside muita confusão entre estudos da cultura e da psique. Nem sempre se conseguiu fazer um paralelo científico entre psiquê e cultura. Mesmo Freud tendo compreendido o simbólico das culturas clássicas, especialmente a grega. Mesmo tendo analisado a mente pelo componente religioso e pelos valores totêmicos, que afinal são matérias da antropologia. Nada disso remete necessariamente ao PAU DA BANDEIRA. Como tenho mais idade que você, vou logo falar de algumas coisas. Embora seja o Santo Casamenteiro, a festa da fertilidade, no sentido pagão do termo, ocorre no São João (vê Câmara Cascudo). Por outro lado, quando criança e vivendo numa das lindas reservas florestais do Cariri, o sítio Batateira, cansei de acompanhar a mesma cena de Barbalha só que nas festas de Nossa Senhora da Penha. Ali a acompanhava os Irmão Anicete, que eram meus vizinhos. Se bebia, mas na época, não tinha o mesmo ímpeto pagão, pelo que leio, de hoje. Portanto, caro Dihelson, respeitando o seu esforço de análise, recomendo menos entusiasmo com a falicidade do pau da bandeira, apesar de ser pau. Como se dizia antigamente: padre tem saia e não é mulher.

Abraços

José do Vale Pinheiro Feitosa

Dihelson Mendonça disse...

Meu Caro José do Vale,

Respeito seu ponto de vista, como uma voz dissonante e novos argumentos ao tema, mas diga-se logo de início em um de seus argumentos, que Idade nada tem a ver com verdade, apenas rima ( rs rs ).

Todos tem o direito de discordar da Psicanálise, talvez 80% das pessoas, e quando Freud lançou os pilares desta ciência, já com "Estudos sobre Histeria", não foram poucos os que se revoltaram contra as idéias dele sobre a interpretação dos Sonhos, dos Atos Falhos, e da ubiquidade de sexualidade em quase todos os atos humanos. Apenas com o tempo, e a comprovação da veracidade das informações e a corroboração de outros autores que também escreveram sobre a psiqué humana, é que se comprovou que o grande mestre austríaco estava correto no conjunto da sua obra.

Mas a Psicanálise está aí há mais de 100 anos de existência para provar que veio para ficar, e suas interpretações são perfeitamente cabíveis em nossa e em qualquer era. Independente daqueles que concordam ou não. Não é preciso se concordar com a lei da gravidade para se estar submetido a ela. E no desenvolvimento da Psicanálise, com os livros citados no texto, Freud adentrou mais na análise do comportamento social, e nao apenas na análise do indivíduo. E lhe ressalto que esses comportamentos, não são PATOLÓGICOS, como você possa ter entendido e citou no seu texto. São comportamentos normais de qualquer sociedade, desde a pré-história.

Quando o filho deseja a mãe como objeto sexual, ou quando a filha deseja o Pai, isto é um comportamento normal do ser humano em uma determinada fase do desenvolvimento, chamados respectivamente de Complexo de Édipo e de Electra. Mas a patologia nasce da não consubstanciação da transferência desse erotismo inicial para os objetos finais do desenvolvimento, quando então, após migrarem através de inúmeras fases, concentram-se na sexualidade normal que todo adulto possui.

No âmbito da ampliação desses conceitos de erotismo digamos "social" através da simbologia à Psicologia das massas, sugiro que você leia do próprio autor, "TOTEM e TABU" , e "O Mal-Estar na civilização", pelo menos. Certamente que irá gostar da leitura muito cativante, e irá entender bem o sentido não só da festa do Pau da Bandeira , em que certos simbolismos são de modo "explícito"...um clássico exemplo da tradicional festa da fertilidade, como várias outras que possuem esse caráter.E pelo fato da caracterização, não implica em que mesmo com esses comportamentos e simbolismos, isso seja sinal algum de patologia. Seria um erro classificar assim. Nem todo comportamento anormal é patológico, e a própria definição de nomalidade é assunto que foge a esse texto.

Como falei no artigo, esse aparato simbólico não se encontra somente na festa do pau da Bandeira ( conforntando o argumento da Festa de São João ). Todas as festas religiosas, e a maioria das tradições alimenta-se de simbolismos. CARL YUNG, talvez o mais brilhante discípulo de Freud foi bem mais além na busca para a interpretação do insconsciente coletivo, no seu clássico "O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS", e nele, pode-se avançar bastante na análise daquilo que o homem e suas muitas tradições representam, e que na grande maioria das vezes, pela falta de um aporte científico só são interpretados como aquilo que apenas parece e não como aquilo que de fato, representam.

E quanto ao final, em que você diz: "Padre tem saia e não é mulher", é apenas uma forma jocosa de terminar um texto de forma hilária, caracterizando o seu próprio estilo de escrita com exposição, desenvolvimento e conclusão bem humorada.

Enquanto isso, entretanto, em Barbalha, a simbolismo permanece.

Abraços,

Dihelson Mendonça

José do Vale Pinheiro Feitosa disse...

Grande Dihelson: e texto nos conduz por outros caminhos que não foram aberto na primeira trilha. Quando falei em idade não me referia à uma prerrogativa de velho, apenas servia para lembrar que também havia pau da bandeira para Nossa Senhora da Penha e pelo que entendo, talvez me engane, esta tradição caiu enquanto em Barbalha se manteve. (Obs. é que um dos argumentos fálicos que usastes foi o santo casamenteiro). Do mesmo modo que ser velho não prova nada, assim a leitura dos dois tomos (edição espanhola) das obras completas de Freud não nos levam ao pau da bandeira, a não ser pela grande abertura, inclusive ao nada, que a "interpretação" dos sonhos podem levar. Mas talvez tenhas razão, o caráter essencialmente masculino, a força bruta, o alcóol quase numa farra Viking tenha muito da simbologia sexista. No entanto não deixa de ter outros fundamentos o pau da bandeira, especialmente cultural. Um valor cultural que é o centro deste debate em confronto com a preservação ambiental.