TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 5 de março de 2026

“CONFIDÊNCIAS... NA MADRUGADA” - José Nilton Mariano Saraiva

Desde tempos imemoriais criamos o saudável hábito (ou seria pura insegurança ???) de, ao sentar para tentar redigir alguma coisa, termos ao lado um velho companheiro de luta: o dicionário.

Assim, logo após o seu lançamento no Brasil, em 2001, adquirimos o Dicionário Houaiss (embora já tivéssemos o do Aurélio) por entender tratar-se de uma grande, necessária e imprescindível obra.

Para que tenhamos ideia da sua grandeza, basta atentar que, na sua elaboração, nada menos que 200 (duzentos) lexicógrafos e especialistas no mister participaram da empreitada, e que em suas 2.924 páginas o “livrão” nos traz cerca de 228.500 verbetes, 376.500 acepções, 415.500 sinônimos, 26.400 antônimos e 57.000 palavras arcaicas, além de um sem número de consistentes informações técnicas, evidentemente que versando sobre a Língua Portuguesa (daí também ter sido lançado em Portugal). Sem qualquer demérito ao “Dicionário Aurélio”, o Houaiss lhe dá de goleada. Temo-lo, pois, como um companheiro inseparável, sempre que – como agora – queremos colocar o preto no branco, tentar passar alguma coisa pra você, aí do outro lado da telinha.

Pois foi exatamente numa dessas íntimas trocas de “confidências na madrugada”  (vocês também conversam com o Dicionário, no silêncio da noite ???) que a porca torceu o rabo: a palavra que procurávamos (que não nos recordamos no momento), começava com a letra “P”, cujo vastíssimo banco de dados se encontra relacionado entre as páginas 2.099 a 2.340 do Houaiss, para onde nos dirigimos.

Uma primeira pesquisa e a surpresa desagradável: nadica de nada da dita-cuja. Pacientemente, creditamos o seu “não encontro” à zonzeira típica da chegada do sono àquela hora da madrugada, razão porque nos dirigimos à cozinha para bebericar um gole d’agua e “lavar a fuça”, objetivando acordar de vez.

Numa nova tentativa, nada da palavra. Ficamos um tanto quanto “baratinados” e murmuramos cá com os nossos botões: como é que pode, um “bichão” desse tamanho (2924 páginas) não ter uma simplória palavra dessa. E assim fomos nos deitar com a pulga atrás da orelha.

Pela manhã, já descansado e alimentado, partimos pra encarar a fera de frente, convictos que dessa vez ela não nos escaparia. Ledo engano. A tal palavra, definitivamente, não constava do estupendo Houaiss. Inconformados, tomamos então uma decisão radical: como que a procurar uma agulha no palheiro, sofregamente conferimos, uma a uma, da página número 01 à página número 2.924, na perspectiva da falta de alguma página.

Xeque-mate.

Encontramos, não só no espaço dedicado à letra “P”, mas, também, em mais duas outras letras (N e O ???), quatro ou cinco páginas faltando (em cada uma das letras) e, em seu lugar, páginas repetidas, num imperdoável erro de impressão (ou organização, ajuntamento e por aí vai) para uma obra de tamanho vulto.

Imediatamente acionamos o site ao qual o havíamos solicitado via Internet (Livraria Saraiva) e fomos orientados a devolver o Dicionário, via sedex (evidentemente que sem custos) e, semanas depois, recebemos um outro exemplar de volta (e aí já completo), com o agradecimento da editora responsável (Objetiva), que alegou que no “lote” em que se encontrava o exemplar que adquirimos originalmente teria havido o tal problema (repetição e falta de páginas).

Se, por conta disso, houve um “recall” a posteriori (solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de produtos, feita pelo responsável pela impressão do mesmo), não sabemos e nem nos foi dado conhecimento (mas, aqui pra nós, se você chegou a adquirir um Dicionário Houaiss, confira pelo menos a letra “P” à procura de páginas repetidas e consequentemente à falta das que deveriam ali constar, ok ??? ).

No mais, tirante esse detalhe (atípico), vale a pena investir no Houaiss (e como vale).

 

 

 


terça-feira, 3 de março de 2026

 Senhores, 

O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro da instituição, mercê da dedicação à própria. 

Mas, como não era “jeitoso”, como não era “subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso). 

Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada; e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e desonesto Byron Queiroz). 

Mas, como “dignidade” é algo que deve ser preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou, então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente prejudicial. 

Se o setor bancário perdeu uma figura mui competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil “arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua autoria foram publicados). 

A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica. 

O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre “O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor. 

José Nílton MARIANO Saraiva 

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O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes

  

Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares, rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono dos velhos.

Durante décadas, esses homens e mulheres trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da educação dos filhos.

Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais. Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.

O velho fala demais. Conta histórias que ninguém quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do corpo, fica fedorento, seboso.

A dependência, que deveria despertar compaixão, muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de desumanização.

Aquele que um dia foi o centro da família passa a ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.

Então surge a solução prática, fria e aparentemente civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”

A frase é curta. Mas o efeito é cruel.

Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais lidar com ele.

Em muitos casos, o próprio idoso sequer é consultado.

De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar. Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina, de suas lembranças e de sua história.

O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando visitas que raramente vêm.

No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares, nem sequer é permitido.

O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas pelas ausências.

Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem. Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.

Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.

Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.

— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns, ele pagará por isso.

É uma justiça amarga, construída sobre ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um tribunal sem defesa.

Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta estrutura.

Cuidar de um idoso dependente exige presença permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos, netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.

Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.

E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo: a solidão dos velhos.

O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de garantir dignidade, respeito e convivência familiar.

Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.

O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.

Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.

Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente justificado. E assim o ciclo se conclui.

Os velhos, que um dia foram o centro da família, terminam a vida como hóspedes da própria história.

Mais do que políticas públicas, precisamos recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de amanhã.

Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da existência. A dor termina. A jornada continua.

Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão. Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.

A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde, exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:

Como queremos ser tratados quando chegar a nossa vez de envelhecer?

Fortaleza, 02 de março de 2026

José Nilton Fernandes