TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 25 de novembro de 2007

Indiferença galopante

Emerson Monteiro

Por vezes quer-se pensar que existe relativa ordem neste mundo e a gente sorrir beatífico, parecendo que os equívocos dizem respeito aos outros lá longe. Passa-se a mão por cima dos espinhos, usam-se panos mornos e a vida continua. O tempo sem sol da poesia dorme esquecido na memória dos dias, fera embriagada na boca da caverna do futuro inevitável.

Na semana que passou, porém, notícia forte mexeu como um tanto de gente deslumbrada, nesta vidinha brasileira de dramas entorpecidos nas mais diversas consciências, sobretudo daqueles que se acham no lugar de organizar a sociedade, pagos a peso de ouro, às custas do sangue e do suor dos cidadãos que lhes delega o poder.

O acontecido nefasto procede do Norte do País, da cidade de Abaetetuba, a 130 km de Belém, Estado do Pará, onde uma jovem de apenas 15 anos, acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada durante pelo menos 20 dias com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no recente dia 15 de novembro.

Diante desta nota realista murcham as máscaras humanas, ardem as sensibilidades mais empedernidas e clamam aos céus milhares de filosofias e credos, pois não adiantam argumentos perante as ocorrências frias da verdade.

"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.

"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento. "Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.

Um espetáculo de horror e conivência imperou naquelas terras por mais de 20 dias, aos olhos da humanidade, representada por quem sabia e calava as sevícias executadas pelos outros presos. Que fase triste da longa história da qual fazemos parte, cada um de nós sendo testemunha privilegiada, refestelados no drama diário dos sonhos da vaidade, feia condição dos seres humanos atuais.

“Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres,” acrescenta a notícia da Folha On Line, no dia 25 de novembro de 2007.

Tem o que tirar por menos não. A carapuça se encaixa feita luva na cara de todos os que vivem a época, de cara enfiada no aquário das ilusões do egoísmo dominante. O assunto diz respeito a qualquer um. E o tal acontecimento funesto indica detalhe mínimo revelado na mídia, trama pecaminosa das práticas coletivas.

“Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. ‘Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas’, diz a mãe biológica. ‘Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha’. Mas não funcionou”, publica o jornal.

Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"

Eis aqui, por isso, um leve soco nas fuças da acomodação que alimenta o atraso das pessoas, instituições e seus ocupantes eventuais, no rumo da Eternidade.

AMANHÃ

O amanhã há de chegar, há de chegar sempre,
Sempre o dia vindouro, um futuro ideal.
Mas por hora os homens sangram na tarde,
Sangram como um sol pondo-se num milharal.

O amanhã sanará as chagas de todo o mundo,
E as chagas sumirão de toda a humanidade.
Enquanto isso os homens choram,
Escondendo sua dor, embreagando-se de felicidade?

Este amanhã de tez ão justa,
De que ele é feito e como ele fala?
Este amanhã nada mais é que um brinde com cicuta,

Corrida de muletas, análise de cegos.
Amanhã que é tecido pela voz de quem "Parla",
Mas jamais pelos ouvidos de quem escuta.

sábado, 24 de novembro de 2007

DEZ RAZÕES PARA GOZAR DA AFEIÇÃO DE ALGUNS AMIGOS CRATENSES


(postagem especial para CaririCult e BlogdoCrato)

No auge da polêmica sobre os ‘comentários ou não dos anônimos no blog CaririCult’, a minha personalidade foi questionada e até a simpatia manifestada de alguns para comigo foi taxada de “bajulação ” inconseqüente. No íntimo, me senti gratuitamente ofendido e fiquei quieto, porem aborrecido.

Como sei que o que incomoda é o reconhecimento da minha importância no cenário cultural de nossa cidade, registro aqui, de propósito, a minha interferência direta em alguns projetos (que não os meus próprios) e que contribuíram para que o Crato continuasse sendo esta nossa “capital da cultura”:

1- Idealizei (com Geraldo Urano) do Festival Regional da Canção: até hoje o maior responsável pela construção da musicalidade caririense contemporânea;

2- Mantive (com o Grupo de Artes Por Exemplo) os Salões de Outubro: uma seqüência anual de salões de artes-plásticas que envolvia também música, teatro, poesia e dança;

3- Fundei (com Rosemberg Cariry e outros poetas e escritores da região) o Jornal Nação Cariri, depois transformado em revista literária;

4- Fundei (com Carlos Rafael Dias) a OCA-Officinas de Cultura Artes e Produtos Derivados, que até hoje articula e promove movimentos artísticos da cidade e que manteve o literário “Folha de Pequi”;

5- Ainda com Carlos Rafael Dias, pensamos e elaboramos o projeto da Fundação J. de Figueiredo Filho, defendida pelo vereador Ronald Albuquerque, votada e aprovada na Lei Orgânica do Município;

6- Produzi (sem patrocínio externo) o primeiro disco – AVALLON, de Abidoral Jamacaru, eleito pela crítica especializada o melhor disco independente daquela década, e que recebeu o selo OCA;

7- Produzi, durante algum tempo, a banda “Pombos Urbanos” e que hoje se transformou na maravilhosa “NACACUNDA”;

8- Fui diretor cultural da Solibel – Sociedade Lírica do Belmonte- e sob a nossa gestão é que se construiu as salas de aula que hoje existem, recuperamos o auditório Cristina Prata e retomamos todos os convênios com a Secretaria de Cultura do Estado na época. Ainda, trouxemos o maestro Johnatha David (fundador da escola de música Schomberg) para aprimorar conhecimentos dos alunos e regentes e renovar o repertório da orquestra;

9- Ergui o “NAVEGARTE” (poderia ter comprado uma Hilux!): um belo lugar com a galeria de arte José Nornando Rodrigues; sala de referência Artur Bispo do Rosário, com livros, revistas e catálogos de arte para a leitura do público; bar-café; espaço para festas e shows (2.000 pessoas), quando lá desfilaram músicos desde Nonato Luiz (violonista), Zé dos Prazeres, Socorro Alencar, Cacá Malaquias, João do Crato e Manel de Jardim, Corais de Crato, Fortaleza e da Catalunha, Waldick Soriano e uma dezena de bandas de rock de adolescentes do cariri que nas tardes de domingo invadia o lugar para realizar o “Rock, Pop Cariri”;

10- Dirigi, com José Flávio Vieira, a peça “A terrível Peleja de Zé de Matos contra o Bicho Babau nas Ruas do Crato” - uma opereta que é a maior declaração de amor até hoje feita a uma cidade e todos os seus ícones – com mais de trinta apresentações em todo o Ceará;

Prometi-me parar na décima, porque a décima primeira já seria a criação do blog “CaririCult”



Santo Czar-Mártir Nicolau II



As voltas que o mundo dá...

Armando Lopes Rafael

"Você diz que devo morrer e que nada restará do meu nome, mas as canções que cantei serão cantadas para sempre". (Huexotzin, príncipe asteca - 1484)

Pensei escrever sobre um tema bem ameno para este domingo. Afinal, os leitores dos dias atuais - nos finais de semana - preferem ler sobre futebol, preferencialmente tomando uma cerveja gelada. Mas, criei coragem e resolvi encarar um desafio. Segue o comentário sobre um fato real e histórico...

Em 1917 os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. Por ordem expressa de Lenine, o Czar Nicolau II, sua esposa e filhos foram impiedosamente e traiçoeiramente fuzilados. Com esses assassinatos, Lenine julgava que faria desaparecer, nas brumas da história, a instituição monárquica russa. Hoje sabemos que ele deu com os burros n’água!

Ah! as voltas que o mundo dá...

Os comunistas foram responsáveis pelo mais antinatural e desumano regime político que o mundo já conheceu. Segundo “O Livro Negro do Comunismo” mais de cem milhões de pessoas foram assassinadas para a manutenção desse regime, nos países onde se instalou. De 1917 a 1989, o socialismo real dominou as populações da União Soviéticas (e dos paises vizinhos anexados, que formavam a Cortina de Ferro) à custa do chicote e das baionetas. Nessas sete décadas, os comunistas usaram a tecnologia para escravizar; o poder para oprimir e a mídia para manipular e mentir. Praticaram atrocidades as mais diversas. Uma delas foi o assassinato do Czar Nicolau II. A partir de 1918 ninguém mais, na Rússia, falou sobre a família imperial.

Em 1989, após a queda do Muro de Berlim, o povo russo recuperou a liberdade perdida. Muitos, a partir daí, principalmente nas universidades, (lá, diferente daqui, ninguém quer saber mais de marxismo) se voltaram para restaurar as verdadeiras origens do que eles chamam “Mãe Rússia”. Ocorreu então a volta triunfal da memória do Czar Nicolau II e de sua família.

Primeiro iniciaram uma campanha para localizar os restos mortais do Czar e familiares. Após longas pesquisas conseguiram encontra-los. Depois forçaram o governo de Yeltsin a sepultar condignamente os venerandos despojos, com um pedido de perdão pela atrocidade cometida. Isso aconteceu em 17 de julho 1998, na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo, onde estão enterrados os demais Czares. Devido ao interesse pelos Romanov (família imperial que reinou na Rússia de 1613 a 1917) farta literatura vem sendo publicada sobre eles.

Existe até um projeto na Duma (Câmara dos Deputados da Rússia) para que a atual bandeira tricolor daquele país volte a ter a águia bicéfala dos tempos da Monarquia. Em 19 de agosto de 2000 durante a festa da Transfiguração, Nicolau II e a família imperial foram canonizados, como mártires do comunismo pela Igreja Ortodoxa. O cinema adiantou-se à decisão dos bispos com «Os Romanov, Uma Família Imperial», filme de Gleb Panfilov. Ainda mais popular é o último disco de Elena Bogusheskaya, cantora de renome na Rússia, que lhe dedicou todas as canções e ainda pôs na capa uma imagem de Nicolau com uma aura dourada à volta da cabeça.

Hoje sabemos que matando o Czar e sua família os comunistas deram-lhes o direito de voltar. Existe um ditado popular russo que diz: “Tudo volta. Tudo”. Já no evangelho de João 12:24 também está escrito: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo caindo na terra, não morrer, fica ele sozinho; mas se morrer produz muitos frutos”. Maria Stuart, outra rainha assassinada, escreveu: “Em meu fim está meu começo”.

É este o caso de Nicolau II. Recentemente noticiou-se que será enterrada a múmia de Lênin, exposta no Kremlin. Enquanto isso o túmulo do último Czar, na Catedral de São Petersburgo, recebe flores todos os dias por parte das novas gerações russas.

São as voltas que o mundo dá...

Zumbi



Neste dia 20 de Novembro , quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, eu, um pretenso branco, pus-me a refletir sobre esta data , escolhida por coincidir com a morte do grande Zumbi dos Palmares, aqui no Ceará, nos idos de 1695. Reconheço que a Nação brasileira tem uma dívida impagável para com a raça negra e quaisquer medidas políticas que se tomem serão insuficientes para limpar a grande mancha de vergonha com que o período escravocrata tingiu a nossa história.
Arrancados de suas casas como animais, sob o beneplácito dos estados laico e religioso, transportados aos milhares , de forma subumana , a partir da primeira metade do Século XVI, aqui aportaram os negros , se transformando na força laborativa brasileira por mais de 300 anos. Construíram, com a força do seu sangue, o estranho país que , apesar de todos os infortúnios, aprenderam a amar. Sem nenhum direito civil, torturados de todas as formas possíveis, a raça negra carregou seu suplício até há pouco mais de 100 anos. A Lei Áurea, no entanto, não conseguiu interromper seu calvário: de repente se transformaram em levas de desempregados, perambulando, agora sem destino certo, e os anos que se seguiram, apenas confirmaram as raízes ainda profundamente excludentes da sociedade brasileira. Ainda hoje , imersos num agora mais sutil preconceito, os negros têm os piores salários, são os mais assíduos nas penitenciárias brasileiras e ainda perfazem as faixas de menor índice de desenvolvimento humano do país.
Na verdade, percebe-se claramente, que se a escravidão acabou oficialmente, a partir de 1888, oficiosamente ela apenas ganhou outros matizes e se arrasta faceira até os dias atuais. A elite capitalista brasileira achou pouco a exploração sistemática de uma raça por mais de 300 anos e terminou encontrando meios de continuar sugando o sangue de tantos, nas novas senzalas do país : as fábricas, as favelas, os presídios, as escolas públicas. Dia após dia, a cidadania da raça negra continua sendo açoitada nos novos pelourinhos : salários de fome, inacessibilidade ao trabalho, à segurança, à saúde e à educação, perseguição religiosa.
O Brasil não deve à raça negra apenas o sangue aqui derramado, num dos períodos mais sombrios e vergonhosos da nossa história. Nossa dívida é bem maior. Apesar de todas as agruras , todo sofrimento e perseguições, os negros conseguiram, de forma fenomenal dar a volta por cima. E nenhuma raça marcou mais a cultura brasileira. O Brasil é hoje um país negro na sua essência. Nossa música, por exemplo, tem profundas raízes afro: o samba, o baião, o lumdu, o maracatu de baque virado, o frevo. Sem o tempero africano a riqueza melódico/rítmica da música brasileira seria um mero espectro . Nossa culinária, também, sem o toque africano, existiria como tal ? E vejam que os escravos faziam sua culinária dos restos que sobravam das mesas dos senhores feudais: o sarrabulho. Deste toque de Midas nasceram : a feijoada, a panelada, o sarapatel, o chouriço, a buchada, a moqueca. A sobrevivência cultural fez, também, com que estabelecessem um sincretismo religioso que terminou por grassar por todas as classes sociais e, hoje, o Brasil é profundamente sincrético. Temos uma religião oficial mas que tem nuances específicas: um pouco de catolicismo, um tanto de judaísmo, um tiquinho de kadercismo, da umbanda e candomblé. A eles devemos também as nossas primeiras organizações de resistência à opressão: os quilombos. E Zumbi é , possivelmente, o primeiro herói nacional.
Assim, todas as reivindicações da raça negra ainda são mínimas se comparadas a tantas vidas que foram literalmente imoladas em nome da cultura brasileira. Eles merecem muito mais daquilo pelo qual lutam. Apenas estão pedindo um pouquinho da grande nação negra que é o Brasil e que eles, mais do que ninguém nesta terra, ajudaram a edificar. E é preciso entender que estão solicitando bem aquém do seu direito a companheiros da mesma raça, já que não existe um único brasileiro no planeta que não tenha o grandioso sangue negro borbulhando nas suas veias.



J. Flávio Vieira

Brincando no Sol


Devolve a nuvem rosada
que enchia o meu olhar
quando eu te avistava!

Vem
toco em você com carinho
Corto as unhas do carinho
para nunca te ferir
Vem
traz o perfume do mato
o frescor da madrugada
o luar lá do quintal
Traz o amor que se expande
que corre livre no tempo
ao encontro do destino!

Mar que avistei
e nele me banhei
barulho na concha do ouvido
canção nunca esquecida
solfejo, e grito!

Olhos no teto
papo pro ar
alma soltinha
querendo te achar
coração batuca um verso
boca reza mistério
nariz fareja jasmins...
Volta pra mim?

Você saiu...Sem senha para voltar!

Coração Nublado




Vejo o mundo cortado em telas
Fascinam-me os caminhos
Entre buracos e flores
vejo cores
borro a vida com tintas
faço marinhas
casas de taipa, em pé de serra

Abristes janelas e portas
nem me importa
Estás onde queres
não me feres
fico imóvel,no teu caminhar em mim
Há de ser assim
Uma eternidade basta!

Sinto falta da minha companhia
Aquela que insiste em ficar contigo!

Se o paraiso é colorido
por que insistir no preto ou no branco?
O preto no branco...Parece cinema antigo!

Um sonho termina, outro recomeça
Quem diria que esta tarde escurecida
Fosse a minha paz?

Um triângulo deixa de incomodar
quando se parte em pedaços
ou vira pirâmide de paz!

Dia nublado
sopa na panela
pingos de saudade
escorrem numa tela
tempo abre espaço
afrouxa laço
olha verde, no firmar azul
terra roxa
saída do túnel
Enfim vejo a luz!






A divina dádiva E nem A mecânica

Conferência Regional do Meio Ambiente: Reflexão e ação para salvar o planeta

Aconteceu ontem, 23, no Auditório do SESI, em Crato, a Conferência Regional do Meio Ambiente, etapa que antecede a III Conferência Estadual (CEMA), que acontecerá de 13 a 15 de dezembro, em Fortaleza.
O cantor João do Crato abriu o evento, que contou com a participação de cerca de 150 pessoas, representando 14 municípios da região sul do estado. João do Crato interpretou, à capela, a composição A verdade e a mentira, de Pachelly Jamacaru e Patativa do Assaré. Em seguida foi composta a mesa diretora dos trabalhos, integrada por André Barreto (presidente do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente do do Ceará), Nivaldo Almeida (secretário de Agricultura e Meio Ambiente do Crato), Eraldo Oliveira (gerente do Escritório Regional do Ibama), William Brito (Instituto Chico Mendes, que proferiu a palestra de abertura), Paulo Ney Martins (prefeito de Campos Sales), Geraldo Pinheiro (presidente da Câmara de Diretores Lojistas do Crato, representando o setor empresarial), Alda Ferreira (Associação Cristã de Base, representando os movimentos sociais) e Pierre Gervaiseau (Fundação Araripe, representando a sociedade civil). Nas palavras de abertura, ficou enfatizado o caráter reflexivo e proativo da Conferência.
Desfeita a mesa, o agrônomo William Brito proferiu uma substancial palestra sobre ecocidadania e mudanças climáticas (tema central dos debates), alertando para as conseqüências do desequilíbrio ecológico que se vem acentuando nas últimas décadas, decorrente da exploração desenfreada dos recursos naturais. Alarmantes e preocupantes dados fornecidos na palestra dão conta de que onze dos doze anos mais quentes do planeta desde 1850, ocorreu no período de 1995 e 2006. O superaquecimento global vem acarretando elevação do nível do mar, secas no Brasil (em regiões tradicionalmente não afeitas ao problema climático, como Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Amazônia), desertificação, diminuição da água potável, perda de lavouras e criação, pobreza, fome, doenças, migrações e violência. William Brito alertou ainda para os crônicos problemas ambientais que ultimamente vem ocorrendo com maior freqüência no Cariri, como os incêndios florestais, a biopirataria, que hoje é a terceira atividade ilegal , só perdendo para o tráfico de drogas e de armas; e a questão do lixo e dos recursos hídricos. Neste ponto, William Brito tocou na ferida exposta dos rios Batateiras e Salgado, mas lembrou que os outros rios e riachos da região, como Grangeiro, Carás, Salamanca e Ouro, passam pelos mesmos problemas de barramento e poluição.
A etapa seguinte foi a constituição de grupos de trabalho, divididos por temas (atividades produtivas, terra e água, cidades, macroestruturas e Agenda 21), para elaboração de propostas que serão encaminhadas às conferências Estadual e Nacional.
Após o almoço, houve a apresentação das propostas de cada grupo na plenária e eleição de delegados para a III CEMA.

Obs.: As fotos da Conferência são de Luiz Carlos Salatiel.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Ausência de segredos

Desgraça
a corda solta
do violino torto
da muriçoca bêbada.
Qualquer noite
desseco seu ventre.
O conhecimento colhido fumaça.
A brisa do ventilador
seca o bico da lapiseira.
Formiga ferrugem passeia
pelo braço da poltrona.
Há quem diga
que a morte se aproxima.
Aproxime-se, querida.

OLHO DA FLORA


Foto: Jackson Bantim (Bola)

Bola Bantim sugere: "Os internautas estão convidados para redigir impressões sobre esta imagem "Olho da flora", captada na encosta da chapada do Araripe."
Posted by Picasa

Sexta analgésica

I

Toda gelatina do mundo
para meu coração anêmico.
O deserto amor declarado
pelos córregos dos meus olhos.
II

O vaga-lume
que me guia
ora vadia.
Caio em tentações,
rastejo, mudo de pele.










A divina dádiva


E nem
A mecânica do espanto
Afunilado na retina
Nem os fantasmas
Cítricos dos cajás
Nem o ilusionismo
Beligerante dos camaleões
Ou mesmo a devoluta
Esgrima de mil espadachins
Aturam tanto o suspenso
Entre o porvir e o sido
Como eu estendido nesse
Guaradouro de ressalvas

E nem
A sabedoria ensaboada
Das lavadeiras nuas
Nem os arruados
Arrumados sem rumos
Nem a cartografia
Cretina dos emboladores
Ou mesmo o estio
Dos adivinhadores de chuva
Aturam tanto o escoado
Entre o ir e o ido
Como eu estendido nesse
Aparadouro de suspiros

E quando
Meus dedos magros
Tatearam as
Horas debulhadas
E o vazio entronizou
O seu império de
Reticências aladas
O que poderia eu fazer
Além de escorar as
Portas com ganidos
Entre o abrir e o repartido
Como eu estendido nesse
Ancoradouro de desnutridos

Essa alma que
Urra para o mundo surdo
Essa que espalha pelos bules
Uma insônia agoniada
Essa mais outra que
Deposita fezes nas ostras
Essa ainda parturiente
Das ingrizias pálidas
São todas elas harpas
De arame-farpado
Entre o grunhir e o mordido
Como eu estendido nesse
Abatedouro de trigais

Elas me rodeiam
Todo dia como água
Elas juntas me sitiam
E a teus olhos mil anos
São como um dia
Tu os levas como uma
Corrente de água que
Mata a sede dos bichos
E faz nascer a relva a
Lágrima a saliva e o enigma
Entre o punir e o remido
Como eu estendido nesse
Sumidouro de vogais

Foi quando eu
Do triângulo primeiro
Em cujo vértice está
O absoluto de além horizonte
E em cuja base se opõem
Céu e terra no aquém horizonte
Me fiz noite e dia e solitário
Fustiguei a necessidade
E vi suas trinta e duas mil
Costelas alumiadas
Entre o dormir e o dormido
Como eu estendido nesse
Semeadouro de eras

Foi quando o
Andarilho das Guaribas
Disse em meu ouvido
Que eu tinha que ter
Pelo menos uma porca
Pois se assim não fosse eu
Não valeria nem uma porca
E das metamorfoses
Despencaram insolventes
Ferrolhos e fechaduras
Entre o banir e o preferido
Como eu estendido nesse
Escoadouro de chagas

Então vieram
As chagas que perambulam
E a lonjura inacessível
Dos abandonados
E todo o suor em litros
E toda modorra em quilos
E o silêncio e a velhice das vozes
Mais pesadas do que ele
E eu tripartido em suportar
O cadáver do reino
Entre o parir e o prometido
Como eu estendido nesse
Logradouro de glórias

E eu sentei
Toda a minha sina
Nos degraus das
Escadas flutuantes
E vi anjos e arcanjos
E senti toda a frieza mórbida
Dos metais e toda a leveza
Translúcida dos voláteis
E vi o sorriso da sentença
Proferida ao sacrifício
Entre o surgir e o sugerido
Como eu estendido nesse
Criadouro de origens

Todo aquele
Que bate nos pregos
Pontudos e solitários que
Cravejam o grande portão da fé
Sente estremecer a carne
Frouxa sobre os ossos
Todo aquele que se põe
Rente ao chão sente o bafejo
Do mijo das hienas e a
Incredulidade das serpentes
Entre o possuir e o possuído
Como eu estendido nesse
Bebedouro de lágrimas

Diga lá agora que
Sou eu na velha estrada
Com carne seca e farinha
Em meu bisaco e no rosário
Três novenas bem sortidas
Capazes de amarrarem mais de três
Mil espíritos zombeteiros
No cruzeiro primordial
Diga que eu acredito em quem
Se banha na saliva da reza
Entre o nutrir e o apodrecido
Como eu estendido nesse
Lavadouro de expias

O nome da fonte
Essa que jorra além da sede
É impronunciável
Essa em que os refugos
Procriam refúgios e
Todas as borboletas sutis
Assediam todos os
Fungos parafusados
Na cópula dos flagelados
Sob a árvore frondosa
Entre o surgir e o sugerido
Como eu estendido nesse
Depuradouro de urtigas

O nome da fonte
Essa que ri um rio silencioso
Que banha as chagas
Do charco imóvel e
Que provê a leveza azul
Dos peixes multiplicados
É vertiginoso como a
Divina dádiva que eleva
As dores da adoração
Entre o ungir e o ungido
Como eu estendido nesse
Secadouro de lástimas

quinta-feira, 22 de novembro de 2007


Cena posível de filme impossível

Zeca piston vem devagar pela pista. Desliga o caminhão. Desce. Se espreguiça. Coça os ovos. No rádio do seu carro a voz monocórdica de nelson gonçalves: “maria bethânia, tu é para mim...”
Maria olha com frio o caminhão vermelho parado em sua porta. Enxuga as mãos em seu avental de cor indefinida. A galinha, morta, no balcão em sua frente parece com nada. Ela nunca foi muito jeitosa com facas.
Zeca piston brinca. Pergunta de que foi que a galinha morreu. Maria olha, com frio, responde: - de perguntar coisas idiotas!
Ele senta. Pensa em sair. Não sai. Pede cuscuz com bode. Coca cola gelada. O prato fumega em sua frente. Coloca uma nota de cinqüenta na mesa.
- não tenho trôco.
- melhor... fica de graça.
A faca sobe
- nada...
A faca desce no pescoço de zeca piston. Uma. Duas. Três vezes.
- eu disse... nada... fica de graça nessa porra de vida.
O sangue tinge a toalha encardida. Os ossos do prato. O resto do cuscuz. O olho morto de zeca piston fita a nota de cinqüenta. Esvoaçante. Maria pega a nota. Olha o corpo morto. Cortes mal feitos no pescoço. O caminhão em sua frente ainda vomita nelson gonçalves, indolente: “dolores sierra, vive em barcelona, na beira do cais...” maria entra no caminhão. Desliga o rádio. Engata a primeira. Sai devagarinho. Mais na frente joga a faca suja de sangue. Ela nunca foi muito jeitosa com facas...

Eu tenho cá minhas razões

I
peguei tua mão na jornada,
ficou-me claro que sou o teu estorvo,
que muito mais se abria em possibilidades.





II
rejeitado, as pernas congelaram-me o andar,
já não havia um sentido para se ir,
o matagal havia ocupado toda a trilha.

III
e foste com os dedos entre tantos outros,
em frente, sem criptografias,
livre, com toda a tua caixa de entrada

IV
e fiquei com os itens excluídos,
a caixa da lixeira de vontades deletadas,
um provedor que já não reconhece a senha.



V
tu navegastes na Web Semântica
arquivos XML com informação sobre a informação,
te ligas aos conteúdos transversais de tantos browsers.

VI
cá me encontro na velha Internet,
postando em HTML, manga de camisa e fruta,
em buscas torrenciais que afogam-me de achados.







VII
hoje olhei tua face a face,
eras tantas que já não mais te encontrei,
o passaporte tua identidade, os aviões a morada.








VIII
tu desviavas para o vermelho como as galáxias em fuga,
olhou-me como um ponto de multidão,
apenas vês a floresta que pensas proteger.








IX
hoje sou para ti um tema da extinção,
algo raro que a militância ecológica necessita,
antes do próximo embarque já fiquei nas estatísticas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sepultamento de Madre Esmeraldo

Na manhã desta 4ª feira, dia 21, a cidade de Crato presenciou uma das maiores exéquias dos últimos anos. Depois de missa na Catedral de Nossa Senhora da Penha - celebrada pelo bispo dioesano, dom Fernando Panico - foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Piedade o corpo de Madre Esmeraldo. Cerca de duas mil pessoas acompanharam o enterro da religiosa, que era muito querida nesta cidade, mercê seu trabalho junto à pobreza do bairro do Seminário.

Abaixo, em foto de Antônio Vicelmo, Madre Esmeraldo aparece entre Telma Saraiva e Madre Feitosa. A foto foi feita em 2005, quando o pintor Edilson Rocha, fez entrega à Casa de Caridade de Crato, de uma tela retratando aquela instituição nos seus primórdios. A Casa de Caridade de Crato foi construída pelo Padre Ibiapina em 1868.

Clique para Ampliar



Clique na fotografia para vê-la maiorPadre José Antônio de Maria Ibiapina foi, sem dúvida, o maior missionário do interior do Nordeste. em 12 anos de apostolado pelos sertões (1860-1872) ele construiu 22 Casas de Caridade (4 no Cariri cearense),10 na Paraíba, 2 no Norte do Ceará, 3 em Pernambuco e 3 no Rio Grande do Norte. A causa de beatificação do Padre Ibiapina encontra-se em estudo no Vaticano. Ele poderá vir a ser o primeiro cearense a ser declarado "Beato" (primeiro estágio para a canonização).

Nonada. Sertão: é dentro da gente



Salatiel e Zé Flávio falaram sobre “Os Sertões”. Pois bem. Admito que minha experiência com Euclides da Cunha não foi muito prazerosa. Eu tinha por volta de quinze anos quando tentei ler os sertões dele. Lembro que achei muito enfadonha a descrição minuciosa tecida em “A Terra” e acabei desistindo. Talvez um dia eu tente novamente. Talvez eu me interessasse outra vez se tivesse visto a obra ganhando vida num palco. Mas não pude.


Mire veja: o que posso é falar que percorri o Sertão por outras Veredas. Um Sertão singular, um ser-tão que é mais de dentro que de fora. O de Guimarães Rosa. Terminei, finalmente, de ler o romance. Interessante foi perceber que a descrição espacial do sertão de Rosa não cansa, porque é mais um espelho da vida interior dos personagens que uma descrição externa, apartada de tudo o que é subjetivo: o sertão se constrói sob as lentes que cada um de nós coloca nos olhos: “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano! – ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” E é terrivelmente arrebatador: o Amor, a Guerra, o Sonho, a Traição, o Ódio, a Força, o Medo. Deus e o diabo (na rua, no meio do redemoinho...). Tudo retratado com a intensidade e a beleza do Rosa. O Sertão dele é universal; naquelas páginas a gente fica com coração na mão. É comovente o modo como Guimarães Rosa descreve as oscilações de tudo o que há de mais íntimo em Riobaldo (e em todos nós). E é mágica a história de amor entre nosso Tatarana e Diadorim: uma história onde o amor transcende a tudo (ou quase?). Viver é muito perigoso.


Mire veja. Acho que todo o mundo tem que encontrar aquilo que existe de mais verdadeiro na vida. E um bom lugar para isso é o sertão.


O Sertão e suas tantas Veredas...


(Existe é homem humano. Travessia)

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imagem: do disco "Matita-Perê", do Tom Jobim. Disco que tem muito de Guimarães Rosa. guimarães rosa: nomezinho fantástico que tem que ser repetido o tempo todo, eternamente.


Da janela
Só dava pra ver aquilo:
Um coração atropelado
Estatelado na calçada em frente.
Em frente ao coração
O corpo sem vida de um palhaço
Com um sorriso ingênuo
Pintado de carmim
Em sua boca de silêncio agora.
Mesmo de costas, reconhecível:
Ao redor do corpo, e
Do coração
Pessoas riam
De sua última piada.
Colada no vento. Parado. Em respeito.



para josé do vale pinheiro feitosa

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Patativa do Assaré, Ave Poesia

Foto: Emerson Monteiro
Vejo que nos últimos dias, neste blog, dois assuntos monopolizaram espaço e atenção: a presença de Jorge Mautner no Cariri e a polêmica sobre postagens anônimas.
Revelo, pois, minha intenção de, tão cedo, não mais falar sobre esses dois temas. Principalmente, agora, depois de assistir a Patativa do Assaré, Ave Poesia. Pra mim, motivo de relembrar uma época onde tínhamos um sonho coletivo de construção de uma utopia, de um mundo transformado pela arte e pela poesia.
Não chorei, confesso. Mas, um nó apertou-me a garganta. Parece que só depois de ver o filme é que, finalmente, a ficha caiu. Patativa bateu asas e subiu de vez aos céus.
A emoção bateu forte, tanto quando vi as imagens raras e lindas do filme, como quando ouvi parte da imorredoura obra deste poeta maior. Foi, igualmente, comovente ratificar, pelas citações contidas, que muitos companheiros de fé na arte, não apenas souberam reverenciar o mestre com carinho, mas ajudaram a mantê-lo no mais alto galho da frondosa árvore da vida, fazendo com que o seu canto ecoasse mais duradouramente e para mais distante.
Além de Rosemberg Cariry, leal amigo e cumpadre do menestrel, dono do mérito maior por ser o autor da obra, são particípes deste mutirão: Eloi Teles, Luiz Carlos Salatiel, Emerson Monteiro, Jefferson Júnior, Jackson Bantim, Dedê, Stênio Diniz e tantos outros que montaram o cenário e foram (e alguns ainda são) atores de uma cena armada com a cultura da região, ao longo dos últimos anos.
Além de emocionado, fiquei feliz e honrado por estar ao lado desses artífices em alguns momentos da trajetória. Em especial, ao longo da década de 1980, quando formamos uma nova troupe e nos juntamos aos que aqui ficaram, para reativar o Salão de Outubro, entre os anos de 1983 e 1987.
Em todas essas edições do Salão de Outubro, Patativa esteve presente, fazendo seu recital, sem cobrar um tostão e sem fazer uma única exigência.
Nestes momentos e noutros, tive a oportunidade de conviver com Patativa, usufruindo de sua sabedoria e aprendendo com sua simplicidade.
Como, às vezes, a emoção embota a razão, deixo para Rosemberg Cariry a finalização deste texto:
"Quem lê ou escuta a poesia de Patativa do Assaré pensa, emociona-se e conscientiza-se do mundo, porque na sua poesia estão presentes todas as lutas e esperanças do nosso povo; estão reunidas palavras e idéias que se erguem com a dignidade guerreira dos justos, contra todas as formas de obscurantismos e de exploração do homem. Patativa do Assaré é um cristão primitivo e radical que bebeu na fonte do melhor humanismo".

Ave, Patativa!

Temporada de incêndios

Emerson Monteiro

Um desejo me persegue, o de escrever como quem conta histórias, sem ter de invadir o território das abstrações racionalistas no campo das teorias, matéria especializada para os mestres e doutores dos foros acadêmicos. Porém admito o quanto se torna difícil a quem escreve e lida com as palavras nos recantos da solidão, transação particular ele e a máquina, fazê-lo ao estilo das pessoas simples a narrar histórias fantásticas, diante dos olhares acesos de quem ouve maravilhado.

Ainda que seja por vezes residual, ronceiro, insisto em querer contar as minhas histórias do tipo que elas chegam na ponta dos dedos, o que recai na casa do sem jeito.

E é nesta intenção de falar do tempo de final de ano em que o fogo esturrica mais que tudo os padrões florestais já quase sertanejos das encostas da Serra do Araripe, nosso filão de natureza e sonhos ambientais do Cariri, que quero aqui produzir qualquer coisa.
...

Vários desses incêndios eclodiram em lugares inesperados. Na mata assim considerada, em que os órgãos destinados a evitá-los, ou debelá-los, cumprem as suas partes do modo que os meios permitem. Pois as heróicas guarnições dos Bombeiros, auxiliadas pelo IBAMA, pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar, vêm mostrando unidade e eficiência, no que pese a intensidade da demanda.

Em Juazeiro do Norte, no entanto, o fogo chegou diferente, pelo centro da cidade, destruído a loja Zenir Móveis, na Rua São Pedro, incêndio momentoso, que causou espécie neste início de semana. Em Barbalha, vitimou quase a totalidade do patrimônio do Campo da Embrapa, onde havia depositados resultados preciosos de décadas de pesquisa no reino vegetal.

O fogo, este amigo de largo tempo da Humanidade, merece cuidados especiais. Não existisse, quiçá inexistiria civilização na Terra, pode-se dizer. Contudo ocorre de apresentar facetas de largo risco.

Nas guerras, mesmo, quando disparos dos próprios exércitos aliados ferem seus soldados, por equívoco ou desaviso das tropas, chamam tais ações de fogo amigo. O instrumento de uso a destruir quem dele se utiliza.

A propósito disso, no cotidiano da rotina, torna-se urgente que adotemos comportamentos de validação das amizades, na devida proporção em que nosso fogo vital de criatividade e inteligência não fera os nossos aliados, no fragor das contingências e situações ocasionais.

Por isso, a necessária união de esforços em prol da construção dos ideais superiores da decência humana em métodos satisfatórios.

Houve um período, no Brasil, quando se encontraram, numa cela da Ditadura Militar, dois dos maiores intelectuais deste País, o escritor Antônio Callado e o cineasta Glauber Rocha, e entre eles se estabeleceu diálogo demorado a respeito das forças se unirem em favor da nacionalidade e da revolução social, e um terceiro nome desses valores inestimáveis da cultura comentou:

- A esquerda brasileira só se une na cadeia – uma triste constatação tardia que bem pode servir para analisar os prejuízos acarretados pelo fogo amigo em quaisquer circunstâncias.

Quem aprendeu a andar de bicicleta jamais se esquecerá


Quem aprendeu a andar de bicicleta jamais se esquecerá. Anos depois de parado, basta montar na dita e o equilíbrio se estabelece naturalmente. Pelas ruas do Crato. Do Pimenta à Cruz, do Alto de São Francisco ao Seminário ou descendo deste na direção do Vale do Rio Batateira até o bairro Gisélia Pinheiro. Tem lá suas ladeiras, pois é terra de Pé de Serra. O coração bate mais rápido, a respiração encurta e a pele transpira. Mas ninguém cai. É a regra.

Não é bem um aforismo, pois desprovido de senso moral, mas é uma frase que reconhece a sabedoria popular. Uma vez que se aprendeu a andar de bicicleta jamais......e completa a frase. Como tudo acontece no Crato, houve alguém que assim não se comportava. Muito tempo depois do aprendido, continuava caindo da bicicleta. Moça, linda na estética da juventude, quantos corações se apaixonaram perdidos dada a descorrespondência. Gerou uma enorme discussão. Embora as sucessivas quedas fossem o mote, o motivo sobrejacente era a beleza da jovem, era como uma amplificadora espalhando o eco da excentricidade entre os rapazes.

Teorias? Ih! O Crato nisso é como balaio de frutas descendo dos sítios em direção à feira. Tão cheios ficam que na marcha até o destino, perdas existirão. Teorias curtas e teorias longas, algumas bem estruturadas outras de feitio ajambrado. Por exemplo, atribuir-se um problema de saúde àquela perfeição da criação. Alguém furibundo saltou do banco, com a veia do pescoço estufada, a face em brasa: mais é de lascar. Tem abestado prá dar opinião idiota a respeito de tudo. Pronto só outra teoria.

Mas tinha. O quadro da bicicleta só poderia ser torto, provocando um desvio que levava a moça a cair. Além de quebrar a regra, repeti-la com alguma freqüência. Os curiosos, com os instrumentos que os travestia em verdadeiros engenheiros da NASA, enquanto a moça estava fazendo uma compra e largara a bicicleta na calçada, fizeram as medições e nada havia de errado com o quadro do veículo. Então surgiu a teoria da exceção que toda regra necessita. A moça seria a exceção. Mas não havia paralelo, ela jogava vôlei muito bem, marchava no Sete de Setembro com uma precisão de passos sem igual, dançava nos salões do Tênis com leveza e um ritmo de conjunto musical.

Um grupo de jovens, de natureza conservadora, aventou a hipótese de avisar o pai da moça com a finalidade de proteger aquele benefício que Deus tinha dado à cidade. Mas desistiram, pois teve quem os lembrasse que andar de bicicleta era um dos grandes prazeres que ela tinha. Quem fizesse algo em contrário ficaria na desgraça e toda esperança do improvável que um dia poderia ser possível, morreria de causa precoce.

Então, o mais sagaz espírito investigador resolveu esclarecer o que levava àquelas sucessivas quedas. Como é da natureza desse tipo de gente, logo tratou de observar alguns padrões daqueles acidentes. Depois acompanhou o início do uso da bicicleta até o momento em que o desfecho acontecia. Logo todas as teorias que nasceram da observação foram se transformando em comprovação e finalmente em conclusão.

A que ninguém no Crato tomou conhecimento. A bem da verdade eu tomei, por pura coincidência. Mas foi tão fortuito e sem testemunha que nem deu para coletivizar o que ele descobrira. Isso eu, pois ele ficou mudo, demonstrava não ter qualquer interesse pelo assunto, pois certamente seria pressionado a divulgar seus resultados.
Ele morava naquele prédio de Tomaz Osterne ali na Praça Siqueira Campos. Um dia estávamos lá, numa roda tocando violão, cantando umas músicas, quando todos desceram, inclusive o próprio, para comprar bebida e algo para beliscar. Fiquei cortando uns cajus para amansar a cachaça e quando procurei uma faca numa gaveta, errei de endereço e abri uma outra em que havia um caderno com todo o relato escrito. Para resumir.

As primeiras descobertas. Ela tendia a cair perto da praça Siqueira Campos, normalmente após ter dado umas três voltas na mesma. Embora trafegasse com ar de indiferença, com o rabo do olho percebia o que provocava entre os rapazes que ficavam “babando” por ela. Pouco depois, sem quê, nem para quê, caia.

Mais algumas anotações. A cada volta que dava o equilíbrio daquela Diana sobre a sela da bicicleta ficava mais instável. Uma energia subia pelo corpo dela, ele anotara: sobe e não desce. Parece nascer nos quadris ou um ponto abaixo. Sobe porque é nesta região que os movimentos agitados primeiro surgem, depois se vê a cintura entrando noutro ritmo, logo em seguida os braços ficam esticados e as mãos girando nos punhos do guidom como se estivesse acelerando uma motocicleta. Em questão de segundos um sorriso de satisfação lhe nasce no rosto iluminado. Nesse ponto, o nosso investigador anotou que precisava observar mais seu objeto de estudo, para ver se aquela agitação era a causa da queda como tudo levava a crer e, a partir daí, buscar o que motivava a agitação.

Na página seguinte a primeira conclusão: se restavam dúvidas que ela caia devido à agitação, observei que ela sempre esteve presente antes das quedas. Há um nexo temporal e, portanto, causal entre a agitação e a queda da bicicleta. A agitação sempre vem em primeiro lugar. A contraprova consegui ontem. Enquanto dava as voltas, uma colega de colégio a interrompeu e se demoraram conversando muito tempo. Então ela terminou o passeio de bicicleta sem qualquer agitação ou acidente.

Então apressei a leitura, pois agora só precisava explicar o motivo da agitação e o danado a anotou de modo que levei algum tempo para compreender. Acho que com vocês será bem mais fácil, mas levei uma jornada para entender a mensagem até porque qualquer barulho na escada eu ficava tenso e não conseguia me concentrar.

E ele escreveu assim: os movimentos verticais para promoverem as voltas dos pedais são desprovidos de intencionalidades, mas detentores de recursos friccionais. Nem toda anatomia se adéqua ao desenho do assento, mas se houver uma boa ergonomia, o movimento friccional ocorrerá em cadeia, que fará algo não esperado surgir. É de se ajuntar às provas científicas, que sobre o piso da praça olhares apetitosos davam ao movimento friccional um sentido que de outra forma poderia não existir. Então dessa conjunção de fatores, surge a agitação típica da carne que se materializa como força de intensidade crescente e de uma dimensão tal que deixa o rés do chão cotidiano para atingir a altura em que dos centros genitais vem a possibilidade de se multiplicar e crescer. Sendo assim a regra de que todo que sabe andar de bicicleta jamais se esquecerá não se tornou exceção, assim como aquela de quem provou do prazer a ele sempre voltará, independente das conseqüências.