TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A VOZ DA EUROPA

No momento inicial é pura emoção de mídia. Depois se torna corriqueiro e a notícia se refere aos efeitos, aí já perdendo a raiz da questão. Na ocasião do sofrimento, quando a recessão quebra o patrimônio das pessoas e os trabalhadores não têm mais salários, se torna uma briga intestina, de acusações, de salvadores da pátria e, principalmente, de furor apressado em passar o trator sobre todos em busca de salvação. Grosso modo é o retrato da recessão, considerando o grande efeito depressivo sobre todos, a falta de perspectiva e o futuro incerto, incluindo, no cardápio das famílias, apenas a sobrevivência.

Pela voz de Gordon Brown, primeiro-ministro da Grã-Bretanha o texto da cooperação global diante da atual crise do sistema financeiro. De cara ele fala o óbvio: é a primeira crise financeira da nova era da globalização. Então a questão deste neoliberalismo em crise já não é a mesma do liberalismo do século XIX, antes dos Estados Nacionais agora da Cooperação Global: com problemas globais e soluções igualmente globais. Qual o teor desta cooperação? Segundo Brown: a paz e a prosperidade são indivisíveis.

Como a competição nas economias já não é mais nacional e sim global, as economias não são mais fechadas e sim abertas, é preciso uma nova reconstrução das instituições internacionais que hoje se encontram ultrapassadas em termos de realidade. Segundo o primeiro-ministro: os fluxos internacionais de capitais podem ser grandes a ponto de sobrepujarem governos. Então restou para quem atua nestes fluxos a questão da confiança e ela já não mais existe. Para restabelecer a confiança o G8 propõe não apenas o restabelecimento da liquidez do sistema bancário, mas a capitalização e o financiamento dos bancos.

Então eis a tese do G8, colocar pinos para restabelecer a fratura do sistema financeiro internacional. Aí vem o perigo para todos nós a sul do mundo. Na semana que passou os líderes europeus se juntaram e propuseram os princípios básicos para um novo Bretton Woods: transparência, segurança, responsabilidade, integridade e governança global. Quando tudo poderia se esclarecer, ou seja, qual o papel de quem não é europeu ou norte americano, o discurso de Brown aponta para questões de gestão na governança global, pois é justamente nisso que o perigo mora.

Governança Global sobre a lógica dos grandes capitais, das grandes corporações e do poder das grandes economias não leva a estabilidade alguma, tanto na crise atual como no futuro, inclusive em relação à questão extremamente relevante da gestão ambiental. Ou seja, da prosperidade como eixo da paz e os limites da capacidade do planeta. É nítido como o trabalhismo já não fala pela voz do político desta origem, vejamos o que diz Brown de tal governança: supervisão internacional de instituições financeiras, padrões globais compartilhados de contabilidade e regulação; uma forma mais responsável para remunerar executivos que premie o trabalho duro, o esforço e a iniciativa e as instituições internacionais capazes de alarmes antecipados para a economia mundial.

Ao final o primeiro-ministro, após apontar a "maquinaria" necessária para os interesses do G8, controladora, padronizada e sobre a pressão de instituições internacionais mais duras, concede um termo de interesses das nações mais pobres: a questão de acordos comerciais globais que rejeite o protecionismo. Agora, no calor de endurecer as regras globais, vem uma concessão que não mais se sustenta nestes termos, pois a se considerar o que se quer para Europa e EUA, acordos comerciais globais podem se tornar apenas uma divisão internacional do trabalho e produção. Os países ao sul como produtores de commodities e eles do norte, produzindo tudo aquilo que tem "valor agregado".

O discurso de Gordon Brown foi feito para os paises centrais tomarem as rédeas do mundo neste momento de crise. Por isso é que não falam em mudanças na ONU, na OMS ou na Unesco. Enquanto capitalizam bancos, o mundo afunda em enormes problemas sociais e de fome. O dinheiro gasto só nas últimas semanas não chega aos pés de tudo que foi gasto com preservação ambiental em todo o século XX. Não se fala na mudança de patentes para medicamentos e nem em recursos para doenças negligenciadas. Não se fala em educação global, em segurança alimentar, em segurança nas cidades.

No meu entender, o discurso do velho imperialismo não cedeu com a crise. Ninguém pensa na humanidade como conteúdo da globalização. Ninguém pensa no trabalho como elemento central do capitalismo.

CANÇÃO DE BOIS


Canção de bois
Vem até mim pelo ar, pelo vento em meus cabelos
Assim como se foi,
Como foram meus apelos,
Sem ninguém os escutar.

Canção de bois aqui. Me olha bem no canto dos meus olhos,
Me ouve no gemido dos meus ais.
Segura a lágrima que doura o chão deste sertão quando cai,
Como este vento enverga os trigais.

Canção de bois vem aqui me falar,
Fala para essa gente cega, que fala sem escutar.
Fala que eu também sei cantar, que lira de mim ainda geme
Mesmo que me venham açoitar.

Que danço um balé macrabro
Mas que mesmo ferido, não abro os olhos
Só para ter que chorar.

Canção de bois, eu aqui neste entardecer
Sou o sol que dardeja o calor infinito
E que só cessa o calor, quando por pena
Ouve da lua mil apelo(s) em gritos...
Dos Repúdios

A esgrima da rejeição
É uma cárie no canino crescido
É por lá que passam as solas gastas
E o refluxo da solidão

Toda noite é assim
Quando o ar fica murmurando muros
E as vacas pisoteiam vagas para
Nascerem bezerros seus

Existe na multidão
Um ar de repúdio ao veja só
Nem que seja por um segundo
A farinha nega os farelos

E é justamente nessa hora
Que chega sempre Ramiro Flores
Com seus dentes de ouro
E sua úlcera que incinera a alma

A BÚSSULA DA VIDA NO COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO

Quatro pontos cardeais no espaço compreendido entre o Passeio Público e a Cinelândia.

A oeste, no quadrilátero compreendido pela Escola de Música da UFRJ, a Sala Cecília Meirelles, a Igreja da Lapa e o Muro do Passeio Público. Nele um mulato magro, com o tronco nu, calças encardidas e arregaças, um violão, um microfone e a caixa de som. Neste ponto cardeal a voz amplificada e as batidas metálicas das cordas reboam como as nuvens atômicas no largo limitado pelos Arcos da Lapa e sobem ao éter em busca do Alto de Santa Teresa.

A leste do Passeio, no largo para a Praça Manhatma Gandhi e o Hotel Serrador, de vista para a Senador Dantas. Um negro, com feições de indiano, tranças rastafári, boné, camisa preta e calças cinza, um par de tênis e uma trouxa ao lado. Ora sentado na borda estreita do muro do Passeio ou sobre o respiradouro da garagem subterrânea. O mais absoluto silêncio, uma contemplação de paisagem, mas ao mesmo tempo para o necessário espaço da fórmula com a qual estamos no mundo. Nunca os meus olhos encontraram os dele. Não observa ninguém. Todos os dias é o ponto cardeal do Centro do Rio de Janeiro. Como se alimenta e onde dorme a eterna pergunta do transeunte que ao seu lado passa, também com olhar de paisagem.

Ao norte da Cinelândia, bem em frente à Biblioteca Nacional de um lado e do outro o Bar Amarelinho, sentido oposto o Teatro Municipal e ao sul a silhueta do Pão de Açúcar. Sobre a grade do respiradouro do Metrô, onde os ventos do deslocamento das composições sopram, o terceiro ponto cardeal desta nossa vida disforme. Uma mulher magra, vestida em trapos sobrepostos, lenço na cabeça, negra, jovem e seu olhar esbugalhado para um ponto fixo defronte de si. Sentada sobre a grade do suspiro dos vagões que engolem e vomitam gente, ela eternamente dobra o tronco sobre as pernas num vai e vem, num sobe e desce como se fosse o pistão de uma máquina a vapor.

O quarto ponto, aquele que deveria dar sentido a esta desgraçada Rosa dos Ventos, se forma pelo vazio no qual foi um dia o Prédio do Senado Federal e o majestoso e branco edifício da Câmara dos Vereadores. Nesta planície a pluralidade que a sociedade é se torna o nada em razão dos demais pontos cardeais. Seja este um espaço amplo do burgo ou tal uma maquinaria de tempo a realizar. Afinal o espaço é um pântano e o tempo não maquinou nada. Continua como há mais de século, entre o espaço da senzala e o chicote no lombo do escravo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

DIGA NÃO AS DROGAS!

Postado por João Ludgero

Tudo começou quando eu tinha 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta! Depois, quando você quiser, é só para..." e eu fui na dele.

Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", "da terra", que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó" e em seguida um do "Leandro e Leonardo". Achei legal, coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "Amigo" (programa exibido na globo por eles) e acabei comprando pela primeira vez. Lembro que cheguei na loja e pedi: - Me dá um de Zezé de Camargo e Luciano! Era o princípio de tudo!

Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um Cd de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve... "Banda Eva", "Cheiro de Amor", "Netinho", Babado Novo, etc. Com o tempo, meu amigo foi oferecendo coisas piores: "É o Tchan", "Companhia do Pagode", "Ásia de Águia" , AVIÕES e muito mais.

Após o uso contínuo eu já não queria mais saber de coisas leves: eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer a bunda como eu nunca havia mexido antes! Então meu "amigo" me deu o que eu queria: um Cd do "Harmonia do Samba". Minha bunda passou a ser o centro da minha vida, minha razão de existir. Eu pensava por ela, respirava por ela, vivia por ela!Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde efeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais...

Comecei a freqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí que começou a minha decadência. Fui ao show de encontro dos grupos "Karametade" e "Só pra Contrariar", e até comprei a Caras (revista de fofoqueiros e desocupados) que tinha o "Rodriguinho" (fantoche da mídia) na capa.

Quando dei por mim, já estava com o cabelo pintado de loiro... minha mão tinha crescido muito em função do pandeiro... meus polegares já não se mexiam por eu passar o tempo todo fazendo sinais de positivo! Não deu outra: entrei para um grupo de pagode. Enquanto vários outros viciados cantavam uma "música" que não dizia nada, eu e mais 12 infelizes dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorriamos e fazíamos sinais combinados. Lembro-me de um dia quando entrei nas Lojas Americanas e pedi "As melhores do Molejão". Foi terrível!!! Eu já não pensava mais!! Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas "miseráveis" e letras pouco arrojadas. Meu cérebro estava travado, não pensava mais em nada!

Mas a fase negra ainda estava por vir. Cheguei ao fundo do poço, no limiar da condição humana, quando comecei a escutar "Popozudas", "Bondes", "Tigrões", "Motinhas", "Tapinhas" e "Éguinhas". Comecei a ter delírios, a dizer coisas sem sentido. Quando saia a noite para as festas pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas; uns nobres queriam me mostrar o "caminho das pedras", outros extremistas preferem o "caminho dos templos". Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa.Hoje estou internado numa clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram a única coisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro: doses cavalares de Rock in Rol, MPB e Blues. Mas o meu médico falou que é possível que tenha que recorrer ao Jazz e até mesmo a Mozart e Bach.

Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a esse tipo de droga. Os traficantes só pensam em dinheiro. Eles não se preocupam com a sua saúde, por isso tapam sua visão para as coisas boas e te oferecem drogas. Se você não reagir, vai acabar drogado: alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável, otário e distante; vai perder as referências e definhar mentalmente. Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes, conheça melhor a realidade em que você esta inserido e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte: Não ligue a TV no Domingo à tarde; Não escute nada que venha de Goiânia ou do Interior de São Paulo; Não entre em carros com adesivos "Fui...". Se te oferecerem um Cd, procure saber se o suspeito foi ao programa da Hebe do Faustão ou se apareceu no Sabadão do Gugu; Mulheres gritando histericamente é outro indício; Não compre nenhum Cd que tenha mais de 6 pessoas na capa; Não vá a shows em que os suspeitos façam gestos ensaiados; Não compre nenhum Cd que a capa tenha nuvens ao fundo. Não compre qualquer Cd que tenha vendido mais de 1 milhão de cópias no Brasil; e Não escute nada que o autor não consiga uma concordância verbal mínima. Mas, principalmente, duvide de tudo e de todos. A vida é bela! Eu sei que você consegue! Diga não às drogas!

Luiz Fernando Veríssimo - Adaptado por João Ludgero

Morre Lentamente...

De Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve musica, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio ,quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito ,repetindo todos os dias o mesmo trajeto,quem não muda de marca , não se arrisca a vestir uma nova cor , ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco, e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva que cai incessante.
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.

domingo, 19 de outubro de 2008

TRAGÉDIA, BARBÁRIE E DESAMOR NO MUNDO MODERNO

O que está acontecendo? A última tragédia – recente! -em Santo André-SP comoveu o Brasil de ponta a ponta. Mais um drama entre tantos outros que acontece todos os meses nesse mundo humano. A cada tragédia nos perguntamos perplexos quando será a próxima notícia de barbárie. Parece que não tem fim, pois viver é sempre perigoso e nunca sabemos quem vai surtar, matar ou morrer. Tudo indica que a roleta russa da psique desgovernada vai apontar sua arma para uma nova vítima desconhecida. E essa vítima pode ser João, Maria, Pedro, Eloá, Eu, Você e qualquer um que estiver no caminho da tragédia. Mas, não adianta buscar isolar o problema como se fosse um caso a parte. A questão dessa última tragédia de Santo André não deve apenas ser vista e analisada como uma falha policial. Precisamos olhar o entorno da condição humana moderna, ou seja, o que e como de conteúdo e valor está sendo plantado nas psiques dos jovens. Em outras palavras, a educação e a cultura moderna não vem provocando uma transformação humana capaz de tornar a vida mais consciente e mais livre de padrões alienantes. Nesse mundo de tantas setas e poucas verdades profundas criamos psiques desequilibradas e vulneráveis a todo tipo de ordem e comando de morte e violência. Infelizmente a humanidade está muito longe da cultura da solidariedade e do amor pregado pelos grandes mestres espirituais. Video-games, filmes, novelas, livros, músicas, revistas, jornais, teorias, filosofias e chavões irresponsáveis são usados por muitos criando as condições do ambiente social e moral poluído em que vivemos. O inconsciente coletivo criado dessa forma por muitos serve como um oceano onde mergulhamos nossas consciências incautas e inocentes. Aos poucos como uma rã que não salta da panela quando a água fria onde se encontra é esquentada lentamente, assim da mesma forma, não percebemos a sutileza do condicionamento e do rompimento com a força do Espírito da Paz, da Solidariedade, da Empatia e Alteridade em nosso interior humano. Somos lentamente envolvidos pelo calor das persuasões sutis da vida de resultados efêmeros e conquistas de prazeres apenas materiais. A cada condicionamento sutilmente a mente vulnerável vai se tornando doente e insensível à Força do Espírito em si mesmo. A ditadura existencial da razão funcional aliada aos sentimentos mais imperfeitos ganha espaço e força na consciência daqueles que não percebem a sua alienação para sua verdadeira dimensão humana-espiritual. E nessa trajetória, é natural que um dia essas consciências se perturbem e surtem por força das repetições e acúmulos de mensagens, valores e idéias fracas, distorcidas e pequenas. O drama da vida continuará porque não mudamos os atores, mas apenas terminamos e iniciamos novos atos da grande peça chamada VIDA. Mas, na verdadeira vida não existe acaso. E muito menos numa tragédia como essa e outras que virão ainda!
Prof. Bernardo Melgaço da Silva

Procuro aurora. Onde é que encontrarei a louca e bêbada boreal? De cima da bicicleta vi quando o carro veio em alta velocidade. Era lógico que ele não ia conseguir fazer a curva. O carro bateu na guia da calçada. Por um momento, era como se não houvesse gravidade. Ele girou no ar por alguns segundos, e pousou. Caiu. Pedaços misturados de ferro, velocidade e gente. Um ipod amarrado nas orelhas soltas. Sem dono. Pego. Escuto: “esse é o ninho do passarinho, que já nasce voando sem asas”. Casa das máquinas. Cinco e meia da manhã. Boreal. O acidente decreta o feriado. Ontem a noite aurora me disse, com raiva: “não traduza minhas palavras como se fossem canções desses fudidos norte-americanos. Pelo menos uma vez, diga a verdade”. Não ligo. Puxo meu revólver língua e disparo seis mentiras metálicas e super modernas. Boreal retruca: “você sôa falso. Como um tenor castrado. Como a voz dos desenhos animados. Você é um... Mickey. Não. Você é um pateta”. Rio. Gosto de rir quando ela explode seus molotovs arquétipos. Ela pede ao garçom um copo de silêncio e o saboreia com vagar. Eu, gargarejo cacos de anoitecer. Subo na bicicleta. Procuro nos bares que ainda estão abertos. Aurora. Aurora. Lá está ela. Jogando pedaços de sol em minha janela mal lavada. Penso em contar do acidente. Da música. “essa é a semente da nova terra, essa é a bomba que acaba com a guerra”. Não preciso. Ela vai embora quando me vê. Grito: os cegos, coitados! Não sabem das borboletas. Nem sonham arco íris. Boreal...boreal...
A favela das velas

Juazeiro é uma cidade muito engraçada, cheia de piadas. Muitos não entendem seu senso de humor trágico. Definitivamente a culpa não é dela. Ela até que se esforça para ser entendida através de manifestações óbvias. Mas, se ninguém ri de suas anedotas, ela ri da gente, com sua gargalhada sonora e sua boca socialmente banguela. A favela que cresce nos arredores da Matriz de Nossa Senhora das Dores é uma de suas piadas sujas.

Quando uma quenga de pouco mais de vinte anos, usando mini-saia apertada, quebrando o buxo na canela, exibe a sua tabela de preços através do vermelho néon do seu baton da avon, encostada numa estaca que segura o barraco, ouvindo Aviões do Forró num micro-som fanhoso, a cidade também exibe ali suas malícias e seus malefícios, frutos das oportunidades que ela oferta e dos oportunistas que a infestam.

São as duas faces de uma mesma moeda. Dinheiro esse que corre léguas tiranas dentro e fora dos muros da cidade, às vezes demagogicamente ostentado, às vezes sorrateiramente cultivado. Assim cresce a Juazeiro do Norte dos contrastes. Sendo que vez por outra o passado e o presente se encontram nas esquinas, nos porões e nas salas mais requintadas. E é aí que se percebe facilmente o cinismo patético dessa cidade. Padre Cícero veio para acabar com a promiscuidade do entreposto Tabuleiro Grande. O tempo passou, Juazeiro do Norte saiu do Tabuleiro, mas o Tabuleiro não saiu do Juazeiro do Norte.

Se nesse mesmo espaço geográfico, de um lado existe o mais simbólico templo de devoção e fé dos romeiros, em que entre uma oração e outra, esmolas generosas são ofertadas em forma do dízimo voluntário, do outro lado existe o templo da promiscuidade, erguido com o poder dos interesses escusos, com pregos, papelão, restos de madeira, palhas, flandres e descasos e descasos, em que entre uma cachaça e outra, esmolas generosas são ofertadas em forma de arame farpado para curral. É nesse espaço geográfico em que a multidão, em tempos de romaria, se divide e se multiplica.

De acordo com o filósofo alemão Walter Benjamim, “na multidão o que está abaixo do homem entra em relação com o que impera acima dele e é essa promiscuidade que engloba todas as outras”. Isso é a pura verdade. Vale ressaltar, que a multidão, em sua comédia humana, enquanto massa, se apresenta invisível socialmente, em torno da coisa comum que aquele aglomerado expressa, estão ocultos os interesses privados, quase impossíveis de serem detectados de imediato. No entanto, sob um olhar mais atento, os mecanismos dessa risada irônica da cidade, que ridiculariza qualquer convívio entre o sagrado e o profano, vêm à tona.

É difícil de se acreditar em falta de visão política, que não vislumbra uma cidade turística, além de romeira. Também é difícil de acreditar na máxima de que não se pode solucionar o problema da noite para o dia, uma vez que todos os outros santuários de grande fluxo turístico conseguiram, sendo Aparecida o maior exemplo disso. Entender a tolerância para a continuidade dessa favela como uma manobra do espírito humanitário, em que todos têm o direito de sobreviver de alguma forma, é tão infantil quanto acreditar na fada dos dentes. É claro que a cidade ri de toda essa inocência, através dos trejeitos dos seus travestis, com seus sexos e jóias falsas.

É bem mais fácil de acreditar em um jogo de interesses menores, do que na “imposição de uma mazela social sem fim, culpa da desigualdade”. A permissividade da prostituição, da falta de fiscalização sanitária e da ocupação indevida do espaço, tem uma causa óbvia, e que foge das limitações da administração pública. Esse curral não é só mantido pela troca de favores e pela compra de votos. Existe aí uma troca de interesses públicos e privados, que a cidade esconde debaixo do braço, para alguns, para outros, debaixo do sovaco. Tudo, na realidade, é uma questão de postura, conta piada quem pode e ri quem deve.

Novo golpe contra as FARC

Um exemplo a ser imitado pelo Brasil
A Colômbia renovou sua consagração ao Sagrado Coração de Jesus realizada no ano de 1902 e se consagrou pela primeira vez ao Imaculado Coração de Maria em uma cerimônia celebrada este domingo, na Catedral Primaz de Bogotá. O Cardeal Pedro Rubiano, arcebispo de Bogotá, pediu especialmente à Virgem que interceda pela libertação dos seqüestrados e pelo fim dos males do país, como os grupos paramilitares, a corrupção política, a violência e a parada judicial.
O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, enviou saudações, através de uma carta que se leu no começo da homilia, aos assistentes ao ato; entre os que se encontravam, havia destacados políticos, embaixadores, militares e eclesiásticos, como o núncio do Papa na Colômbia Aldo Cavalli e o presidente da Conferência Episcopal Colombiana, Rubén Salazar.
O Cardeal Rubiano explicou que a iniciativa busca reconhecer que a Virgem forma parte da identidade colombiana e render-lhe tributo à fé mariana, tão expandida no país que, desde o ano 1991, está considerado em sua constituição como “leigo”. A idéia de consagrar a Colômbia ao Imaculado Coração de Maria surgiu faz mais de 20 anos, porém não havia sido até este ano que se logrou levar a cabo, com impulso de quatro mil grupos marianos de Colômbia e a união de todas as instituições católicas e paróquiais do país.

Os Ombros do Gigante


Desde que o físico de El-Rey, mestre Johannes Emenelaus ,embarcado nas caravelas de Cabral, pisou as terras brasileiras em 27/04/1500, o país passou a ter uma medicina minimamente científica. Os primeiros séculos na colonização do Brasil foram marcados, porém, pela visível ausência de profissionais de Medicina no nosso território. Por aqui os tratamentos se atinham basicamente a pajelanças e rituais afro, embora Brás Cubas houvesse fundado o primeiro Hospital brasileiro – A Santa Casa de Santos -- ainda em 1543. Até que os holandeses chegaram a Pernambuco no início do Século XVII, trazendo consigo toda uma colônia judia, fugida da Inquisição Européia, entre eles vários médicos judeus. Pena que tenha durado apenas 24 anos o sonho holandês em terras brasileiras, em 1654 partiram, deixando, no entanto, marcas indeléveis da sua presença em Pindorama. O vácuo da Medicina no Brasil permaneceu por mais de um século e meio ainda. Em 1789, segundo Salles, só existiam quatro médicos no Rio de Janeiro e eram raríssimos em outras paragens brasileiras.A verdadeira história da Medicina brasileira começou , assim, com a chegada da família real , no início do Século XIX, quando em de 1808, há exatos 200 anos, D. João VI criou , no dia 18 de fevereiro, a Escola de Cirurgia da Bahia que a partir de 1813 começou a ser chamada de Faculdade de Medicina. Esta benemérita instituição, durante estes dois séculos, formou mais de 15.000 médicos, disseminando a arte de curar por todos os recantos deste país continental. Tão seminal tornou-se sua influência que a maior parte dos profissionais caririenses ,até meados do Século XX, trouxeram sua arte e seu aprendizado da tradicional Faculdade de Medicina da Bahia. Na ausência de médicos fixados na região, heroicamente aqui atenderam alguns dos nossos mais famosos boticários : Coronel Secundo, Coronel Benedito Garrido, José Alves de Figueiredo (Zuza da Botica), Antonio Fernandes Telles e Teófilo Siqueira. 1889 marca uma data histórica na Medicina pátria, a formatura da segunda médica brasileira e primeira do Ceará: a cratense Dra. Amélia Bénebien Perouse. Desde este marco histórico, um sem número de médicos caririenses atravessaram os umbrais da UFBA : Dr. Irineu Nogueira Pinheiro ( 1910); Dr. Miguel Limaverde(1913); Dr. Joaquim Fernandes Teles ( 1916); Dr. Elísio Figueiredo ( 1916); Dr. Otacílio Macedo ( 1917); Dr. Joaquim Pinheiro Filho ( 1918). Na década de 1920 formaram-se ainda : Dra. Josefina Peixoto e Dr. Antenor Gomes de Matos. A década de 1930 foi pródiga trazendo ao Crato os Drs. Antonio Macário de Brito, o paraibano Nélson Carrera e o Dr. Dalmir Peixoto, formado em 1937 e ainda hoje lúcido e lépido com mais de 70 anos de profissão médica. Nesta década, ainda sob inspiração do nosso segundo Bispo D. Francisco Pires, inaugurou-se o primeiro Hospital do sul cearense , em 1936 : o Hospital São Francisco de Assis. No início dos anos 40 , aqui aportou o maior mito da medicina caririense, o pernambucano Dr. Antonio José Gesteira, o nosso primeiro grande cirurgião, que este ano comemora o centenário de nascimento.O que une e aproxima tantas gerações de médicos ? Hoje, diante do avanço enebriante da Medicina nos últimos cinqüenta anos, somos tentados a pensar na forma precária com que estes patriarcas da medicina do Cariri tratavam seus pacientes. Tudo parece velho, embolorado e obsoleto. Mas amigos, todos eles usaram as armas mais modernas que tinham às mãos na sua época para lenir as dores, minorar o sofrimento, salvar vidas. As futuras gerações pensarão isto mesmo dos atuais profissionais. É preciso lembrar que nada existe de novo na face da terra e o moderno apenas dá uma nova demão de tinta no conhecimento acumulado por muitas e muitas gerações. Isacc Newton dizia que se vira mais longe foi porque simplesmente subiu em ombros de gigantes.Neste Dia do Médico é preciso pois reverenciar todas as inteligências que nos antecederam e que deram sua vida e seu sangue para melhorar a qualidade de vida de tantos. Tantos que anonimamente se debruçaram sobre leitos paupérrimos , lutando desesperadamente contra a dor e contra a morte com as parcas armas que tinham às mãos. Quero abraçar cada um destes sacerdotes no ano em que se comemora o duplo centenário da Faculdade de Medicina da Bahia e os cem anos do nosso médico mais mítico: o Dr. Antonio José Gesteira.


J. Flávio Vieira

sábado, 18 de outubro de 2008

Caboclo de Asas

Sigo a voar pelo mundo
Acompanhando o sol
Num eterno meio-dia

E no espaço de sonhos
Onde as poesias do tempo
São de minha autoria

Pouso no Araripe
E ao aterrissar nos olhos
Cariri que sôo
Logo me toco!
E te realizo.

Minha artesã-nata-canção
De terra, semente e esperança
Adivinho o que virá pela frente
Como um ritual de pajelança

Logo te toco
E me realizo...

E então somos verdade
Num transe
Anunciada
Escrita e cantada

A duas vozes e quatro mãos
Beijos ofegantes de paixão
Minha centelha da Mãe D'água
Envolvida em capuchos de algodão

Sou um caboclo de asas
E minhas flechas de fogo
São profecias Cariris
Varando a tristeza
E a maldade do mundo

Realizando-nos!

Eu e tu - Marta Feitosa



As droguitas são o motivo da vadiagem
No fim da noite ninguém teme a calamidade
E quando o faz, já está feita
Ninguém a procura, ela chega
enroladinha no meio dos plásticos, sonsa
Arremessa contra as putas de fim de noite
o gôzo estéril que agrada as vacas
A calamidade passa a impressão de que é criadora
Levanta do caos os versos
cospe em Shakespeare
E assassina de novo Ghandi
O corpo aliviado
O auto-abuso lembrado
A risada do louco é maior ali
E no terror da morte
É cada um por si chorando às flores
A noite é uma pescaria
Os peixes tagarelando embaixo d'agua
E o pescador silencioso
Pega o que não previa
pra alimentar não só a carne
Mulher é feita de partes
Mãos pra cuidar um mundo
Os cabelos pra cheirar sem espirros
Um buraco pra se entreter nos riscos
E um pescoço sem coleira
Que não são privadas, são públicas as suas emoções
E sempre dão descarga por educação
Quando jogamos coisas velhas fora
depois de uns dias não lembramos o que fôra
Desvencilhamos das sobras
só a essência explica
se o que transborda não faltase
o que perfura cicatriza ou abre valas
em qualquer madrugada.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008


dois
é duas vezes 365
dois
é o começo do três
dois anos:
poesia, personagens,
o subsolo de um romance
amigos
sexo
umas droguitas bacaninhas
um monte de palavras escritas,
e porque não?
um dia de tomar um porre.
séquiço sacro, na rede, há dois anos.
e haja preguiça...

Alô, Marcos Leonel e Lupeu... preciso de um texto seu...

Alô, Amigos,

Desculpem o mau jeito de ter de chamar por alguém em especial em pleno website, mas preciso falar urgentemente com o Marcos Leonel e o Lupeu, para que eles façam um texto e grave aqui no estúdio sobre "O sentido da vida" ou coisa parecida, a fim de que eu possa colocá-lo no CD. Marcos e Lupeu, se vcs lêm essa mensagem, entrem em contato pelo meu e-mail blogdocrato@hotmail.com

Eu tenho a impressão de que a esta altura do campeonato, até o Dr. José Flávio vai ter de ficar fora do meu CD, pois deve fazer 1.000 anos que eu o convido para participar, fazer uma gravaçãozinha aqui, e ele ainda não veio...

Quero agradecer a todo mundo que se deu ao trabalho de vir aqui gravar um pequeno texto para o CD, em especial:

Carlos Rafael
Salatiel
Océlio
Armando Rafael
Wilson Bagatela
Wilson Bernardo
Socorro Moreira
Pachelly Jamacaru
Abidoral Jamacaru
Haroldo Ribeiro
Sílvia Bezzato
João Senna
Glauco Vieira
Lamar Oliveira
Stephanie Pontes
Demontier Delamone
David Krebs
Bob Mesquita
Saul Brito
João Neto
...
e mais um bocado aí que eu posso ter esquecido agora...
Ainda dá tempo, em 1 semana a gente grava o que falta...

Abraços,

Dihelson Mendonça
CD - A BUSCA DA PERFEIÇÃO -

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O que houve com a Rádio Chapada do Araripe e a postagem de Socorro Moreira ?

Olá, Salatiel e Carlos Rafael,

O que houve com o player da Rádio Chapada do Araripe aqui no cariricult, meus amigos?
E o que houve com a postagem da própria Socorro Moreira falando sobre a programação ?

Essa eu juro que não entendi !

Abraços,

Dihelson Mendonça




Programa MÚSICA DO CARIRI.
Na Rádio Chapada do Araripe - Internet.
Horários: No meio da hora: 05:30 - 06:30 - 08:30 - 09:30 ... até 23:30 ( Todos os dias. )

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Geraldo Junior e Os Temporais no Rio de Janeiro

Oi pessoal!
Estamos chegando ao fim do ciclo de apresentações do show de lançamento do nosso CD "Calendário (O Tempo e o Vento)" Esta será uma das ultimas apresentações desse formato de nosso trabalho! Muitas novidades vos esperam! Novas canções, instrumentações, interpretações...
Convidamos todos a se fazer presentes amanhã, dia 17, ao meio dia na Livraria Saraiva da Rua do Ouvidor no Centro. Pra quem não sabe o show é gratuito e estamos aqui no Rio com a banda bendizer completa!
Geraldo Junior, Ranier Oliveira, Flauberto Gomes, Beto Oliveira e Francisco Gomide!

Estaremos vendendo o CD por lá! E pra os que não sabem, lembrem-se que o CD está totalmente disponível pra ser baixado em nosso site: www.geraldojunior.com.br
Lá vocês podem acompanhar nossa agenda e saber das novidades de nosso trabalho!

Abraços,

Geraldo Junior e Os Temporais.

Mil peças

- A.S. é analgésico, alivia a dor. A filha de uma amiga minha ficou viciada, tomava até sem sentir nada, adorava o gostinho...sim,menina, e a história da senhora do xale?
- Vou te contar. Ela enxugou os olhos quando lhe perguntaram "...que guetos te pregarão mil peças pra aprender tudo com dor"...forte né? E depois o poeta dizia "...por quem tu-a senhora-não dorme, por quem se põem-no plural- a pensar, enquanto esse vil poeta-o senhor da senhora-cala..." Viu alguma abordagem nisso? Eu não vi, achei o texto cuidadoso, preocupado sem insinuação nenhuma, quem viu errou...E ainda rolou um comentário, um babado, porque tinha assim: "que o que for para enternecer, não endureça" querendo ela que o senhor seu marido visse ternura no lance e não endurecesse de ciúme, uma pena o cara ficou brabo, tu achas?
- ôxi, que careta, não sabe que texto pode tudo, as linguagens fazem sexo entre si, é do ouvido ao âmago e é nenhuma.
- Ah, e tem mais...
-Não, me poupe, deixe de fofoca e vá logo comprar o A.S. que blog é coisa de maluco, tô fora.

2 resgates históricos da revista VEJA


Idéias
Eduardo Oinegue

O investment grade político
"Iniciou-se ainda no século XIX a última seqüência de pelomenos três presidentes eleitos pelo voto direto, em que umpassou a faixa ao outro, sem mortes, sem intermediação deum vice-presidente, sem interferência dos militares, enfim, semmodificações nas regras eleitorais de nenhuma natureza"

Sabe qual foi a última vez que os brasileiros tiveram a oportunidade de ver uma seqüência de pelo menos três presidentes eleitos pelo voto direto, um passando a faixa ao outro, sem mortes, sem intermediação de um vice-presidente, sem interferência dos militares, enfim, sem modificações nas regras eleitorais de qualquer natureza? Na primeira série de eleições envolvendo civis, iniciada no século XIX, durante a República Velha, quando três presidentes eleitos em seguida concluíram seu mandato e passaram a faixa ao sucessor. E sabe quantas vezes isso voltaria a se repetir no Brasil? Nenhuma vez. Voltamos a ter a chance de ver algo parecido agora, no século XXI.
Primeiro presidente civil eleito no Brasil, Prudente de Moraes (1894-1898) passou a faixa ao sucessor, Campos Salles (1898-1902), que a entregou a Rodrigues Alves (1902-1906) e este a Affonso Penna. Os três primeiros iniciaram e concluíram seu mandato. Affonso Penna morreu de pneumonia em pleno mandato, concluído pelo vice, Nilo Peçanha. Prudente adoeceu e seu vice, Manuel Vitorino, promoveu uma ruptura radical, mudando ministros nomeados pelo presidente, suspendendo obras e até trocando a sede da Presidência de lugar. Restabelecido, o presidente foi vítima de um atentado a faca que matou seu ministro da Guerra e acabou decretando estado de sítio. Isso numa ponta da seqüência. Naquele tempo, a eleição era quase uma formalidade, as fraudes e o voto de cabresto uma regra, e os presidentes recebiam em média uma votação que representava menos de 3% da população. A comparação com os dias de hoje, portanto, pode ser considerada meramente ilustrativa. Ainda assim, o insucesso que tivemos nas tentativas de repetir a mesma seqüência dimensiona o compromisso nacional com o cumprimento e a manutenção das regras.
O saldo do descompromisso brasileiro com as regras é conhecido: da proclamação da República até hoje, um total de 119 anos, o Brasil teve 45 presidentes listados oficialmente. A conta inclui todos os interinos e os integrantes das juntas militares de 1930 e 1969. Dá uma média de permanência no cargo de apenas dois anos e sete meses. Para efeito de comparação, os Estados Unidos não atingiram essa quantidade de presidentes nem tendo a seu favor um século a mais de eleições. De 1789 aos dias atuais, foram 43 os eleitos, de George Washington a George W. Bush.
No governo Fernando Henrique, o Brasil conheceu a estabilidade do ministro da Fazenda. No governo Lula, a estabilidade do presidente do Banco Central. Cabe aos políticos decidir se os presidentes devem ficar quatro anos e ter direito à reeleição ou se melhor é estabelecer um mandato único de cinco anos, sem reeleição. Fernando Henrique e Lula têm uma lista de realizações econômicas e sociais para apresentar em oito anos. JK vai ser lembrado para sempre e ficou apenas cinco. O importante é, enfrentado esse debate, que o seja pela última vez. Já é hora de encerrar a discussão das regras e começar o jogo. Concluída a transmissão de posse do presidente Lula a seu sucessor, terão se passado impressionantes quinze anos de normalidade política. Considerada na conta a normalidade econômica recentemente conquistada, o Brasil terá atingido um patamar de maturidade inédito. Depois do investment grade econômico, o Brasil terá conquistado o investment grade político.
Eduardo Oinegue é jornalista
(Fonte: "Veja", edição 2082, 15 de outubo de 2008)


Livros
SER HUMANO ABOMINÁVEL


Alencar e o trabalho escravo (à esq.): contra os filantropos






O romântico cínico
Os panfletos escravistas de José de Alencar

O título estarrecedor não é o original. Os textos que reaparecem agora como Cartas a Favor da Escravidão (Hedra; 160 páginas; 18 reais) foram publicados entre 1867 e 1868 como Novas Cartas Políticas. Mas seu autor, o romancista e político José de Alencar, dificilmente levantaria objeções ao novo título. Pois o objeto central de seus textos – uma série de panfletos endereçados, na forma de cartas públicas, ao imperador dom Pedro II, que vinha expressando uma débil simpatia pela causa abolicionista – era esse mesmo: defender o trabalho escravo, instituição vergonhosa que só o Brasil, entre todas as nações independentes da América, ainda sustentava. Sobra pouco do autor cearense depois da leitura desses textos. Consagrado sobretudo pelo romantismo indianista de Iracema e O Guarani, José de Alencar era um escritor quando muito medíocre – e, como o leitor de suas invectivas escravistas poderá constatar, um ser humano abominável.
O empenho escravista de Alencar já era fato conhecido. Mas a republicação de sua defesa do regime escravo – em edição organizada pelo jornalista e historiador Tâmis Parron – permite que o leitor tome contato direto com o cinismo de sua argumentação. Nas cartas de Alencar, o escravo aparece como um feliz agente da civilização nos trópicos. Os abolicionistas são ironizados como utopistas de gabinete, cuja filantropia de inspiração européia empalidece na comparação com a caridade praticada no "seio da família brasileira", com sua "senhora de primeira classe" desvelando-se na "cabeceira do escravo enfermo". José de Alencar morreu de tuberculose, aos 48 anos, em 1877. Não teve o desgosto de assistir à abolição, em 1888.
(fonte: revista "Veja" edição 2082, 15 de outubro de 2008)