TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 26 de dezembro de 2010

Nívia Uchôa - O cotidiano como uma poética de luz

Uma série de entrevistas com artistas, produtores e gestores culturais serão realizadas pelo Coletivo Camaradas e disponibilizada para blogs e sites. A série entrevistará nomes como Jorge Mautner, Oswlad Barroso, Vitória Regia Turin, Lula Gonzaga, Hamurabi Batista, Augusto Bitú, Norma Paula, Alexandre Santini, Marlon Torres. A série inicia entrevistando Nívia Uchôa.
Nívia Uchôa tem um trabalho que vem sendo reconhecido nacionalmente, com uma poética própria e cheia de luz, a artista consegue a partir cotidiano das camadas populares criar poesias visuais com a sua fotografia. Natural de Aracati, mas desde a infância reside no Cariri do Ceará.

Alexandre Lucas - Quem é Nívia Uchôa?

Nívia Uchôa - Fotógrafa há 16 anos, com pesquisa etnográfica e antropológica na Região do Cariri, Ceará e no Brasil com uma documentação sobre relação do ser humano com água com projeto Água Pra que te quero! Formação acadêmica Geografia e atualmente sou professora substituta de Fotografia e Cinema da Universidade Regional do Cariri URCA na Escola de Artes Violeta Arraes. Fundadora do grupo de fotografia POESIA DA LUZ

Alexandre Lucas - Quando teve inicio seu trabalho artístico?

Nívia Uchôa - Quando iniciei minha carreira em 1994, meu trabalho já veio carimbado com um olhar artístico, pois minha estética já se consolidava com uma busca pelo meu olhar autoral, pelo meu traço.

Alexandre Lucas - Quais as influências do seu trabalho?

Nívia Uchôa - História da Fotografia , na fotografia Contemporânea, cinema e pintura e a teoria quântica, mas, tenho influencias da fotografia do Cartier Bresson, Sebastião Salgado, Tina Modotti, Celso Oliveira, Tiago Santana, João Roberto Ripper, Cristiano Mascaro, Maureen Brisilliat, Frederico Fellini, Akira Kurosawa, Michelangelo Antoinioni, Glauber Rocha, aqui no Cariri, tenho influencias da profusão artística, do artesanato, da cultura da tradição oral, da pintura do Luis Karimai, do fotografo Gilberto Morimitsu e da influencia do cotidiano desses lugares cheios de identidade e polissêmicos.

Alexandre Lucas - Como você ver a relação entre arte e política?

Nívia Uchôa - Penso que ainda falta mais esforço para que ambas dialoguem com mais freqüência, o artista não pode ficar distante da política e ou vice versa, a política ainda é vista como clientelista, ou melhor, ela ainda é clientelista, dai dificulta fazer a arte e política andarem mais próximas, pelo menos eu não me utilizo dela para minha arte. Mais em nível universal várias vertentes políticas pensam a arte.




Alexandre Lucas - O que representa a fotografia na sua vida?

Nívia Uchôa - Luz, sobretudo vida, não viveria longe da fotografia, da luz que a faz ser. Não seria Nívia Uchôa se não fosse à fotografia, não conduziria meu caminho com tranqüilidade se não fosse a fotografia. Fotografia é o alimento da minha alma.

Alexandre Lucas - Você tem um trabalho de militância política na área da cultura. Isso reflete na sua produção estética e artística?

Nívia Uchôa - Minha militância é mais pelo trabalho e a produção de uma coletividade no mundo da arte, pois penso que sem esse olhar mais coletivo, seremos seres cada vez mais individualistas, a arte é como a água tem para todos e todas, se essa fonte secar sofreremos com isso, quanto a saber se isso reflete em minha produção estética e artística, nunca parei para pensar sobre isso, pois por mais que falo em coletivo, ainda tenho um trabalho solitário, as pessoas não gostam de trabalhar juntas, elas acham que vamos roubar suas idéias e seus ideais, mas, como tenho um traço próprio, não tenho medo de que me roubem, pois não tem como roubar a luz que vejo, a luz que recorto da realidade, essa que nos segue e persegue em um piscar de olhos.

Alexandre Lucas - Fale da sua trajetória?

Nívia Uchôa - Bom, fiz vários trabalhos, mas, citarei aqui os que me deram prazer em realiza-los. Fotografar Juazeiro do Norte-Ce esse faço naturalmente em meu cotidiano, em 1997 fiz um trabalho com um amigo Antonio Vargas, fomos fotografar a rampa de lixo de Jangurussu em Fortaleza-CE, trabalho esse que me emocionou profundamente pela forma que essas pessoas viviam literalmente no lixo, esse trabalho foi exposto na UFC, Grenoble, Paris, Bruxelas, Lion. Em 2000 fiz uma exposição que a Dodora Guimães curadora da exposição, intitulou de Gentes do Cariri, foi com esse trabalho que fiquei conhecida no Ceará, o qual pude expor no Palácio da Abolição no Centro de Artes Visuais Raimundo Cela em Fortaleza, em 2005, 2006 e 2007 fiz um trabalho para a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará sob a gestão da Cláudia Leitão e pude viajar o Ceará quase todo, isso me rendeu algumas publicações entre elas Memória do Caminho do Oswald Barroso e o Guia Turístico Cultural do Estado. Iniciei minha trajetoria no audiovisual e cinema realizando alguns curtas como Adeus meu bem, Catadores de Piqui, Quarta Parede, Quero viver igual a um beija-flor. Em 2010 participei de uma coletiva de 30 anos de Fotografia da Curadora Rosely Nakagawa nos Centros Culturais Caixa Economica Brasilia, São Paulo, Salvador e Curitiba, na ocasião tive a oportunidade de esta ao lado dos grandes fotografos brasileiros Cristiano Mascaro, Thomaz Farkas, Mário Cravo Neto, Pedro Karp Vasquez, Luiz Braga, Celso Oliveira, Tiago Santana, Guy Veloso, entre outros famosos no universo da fotografia brasileira e finalmente um trabalho que me consolido através da antropologia visual, meu mais novo trabalho intitulado Água pra que te quero! Esse esta em fase de conclusão e conto a história de 3 bacias hidrográficas do estado do Ceará através da imagem e de uma pesquisa que fiz com uma equipe em 2 anos. Esse trabalho será lançado em março e constará de um livro e um vídeo onde conto a relação do ser humano com água. E por fim faço parte atualmente da Rede de Produtores de Fotografia no Brasil o qual realiza várias atividades no campo da produção da fotografia brasileira como realizadores, agitadores culturais e comunicadores.

Alexandre Lucas - Qual a contribuição social do seu trabalho?
Nívia Uchôa - Penso que a fotografia está além de tudo a serviço do social, devemos mostrar nosso universo de cotidiano através das imagens, sobretudo quando devemos e podemos relatar a arte através dele. A imagem fotográfica DIZ e com isso ela pode denunciar, conduzir, salvar, ela nos faz acreditar ser ela própria sem nada esconder, a fotografia esta além do que se pode imaginar, ela diz por si só.

Alexandre Lucas - Você acredita que a Academia elitiza a arte?

Nívia Uchôa - Bem, penso que arte se auto-elitiza, a academia ensina arte como está nos livros, à arte esta desde seu inicio, desde quando o ser humano pode se comunicar, arte pela academia é conceito.

Alexandre Lucas - Quando a arte humaniza?

Nívia Uchôa -
Quando ela sai da individualidade e mostra seu lado coletivo, quando ela não cai no amadorismo, mas, quando ela busca saber, propor, dizer para que ela veio, sair dos conceitos e ir para prática.

Alexandre Lucas - Como você enxerga os coletivos de artistas?

Nívia Uchôa - Penso que ainda estamos muito atrasados aqui no Cariri, mas nacionalmente e mundialmente temos vários coletivos. A idéia de se coletivizar é bem interessante, pois precisamos do olhar dos outros para produzirmos e assim saber quem somo nós.

Alexandre Lucas - Como você ver atuação do Coletivo Camaradas e qual a sua relação com esse grupo?

Nívia Uchôa - Vejo com uma força grande, mudou muito aqui em nossa região, o Coletivo Camaradas pensa a arte e a política, pensa os trabalhos a parir de um todo. Minha relação com o Coletivo ainda não é de uma total militância por conta da minha agenda que tem sido intensa, mas, quero e posso me dedicar muito mais.

UNE ganha nova sede com projeto de Oscar Niemeyer






Com investimentos acima de 40 milhões garantidos pelo governo Lula, a União Nacional dos Estudantes -UNE reconstruirá sua sede que foi destruída pela ditadura militar. O projeto é do centenário e ilustre comunista, o arquiteto Oscar Niemeyer.



O Grampo que não houve e a Imprensa que mente - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando, por vezes, lemos nalgum blog alguém vociferando, puxando o punhal, dando voltas no salão em tom ameaçador, pensemos na dança do pavão. Aquilo é cena para consolidar sua versão dos fatos, a validade de suas idéias e ideais.

Eis que a grande imprensa brasileira, tendo por guia a Revista Veja, deram destaque ao Grampo supostamente feito pela Polícia Federal sobre conversa entre o Presidente do Supremo Federal, Gilmar Mendes e um Senador da República: Demóstenes Torres. Não por acaso a Veja sabia que Gilmar chegara ao Supremo pelas mãos de FHC e Torres era do DEM.

O mais grave: os jornalões deram destaque ao verbo do presidente do Supremo chamando o "Presidente da Rapública às Falas". O Ministro Jobim deu realidade à suspeita de falsidade. Quem pagou o pato foi a Investigação contra Daniel Dantas e este se safou numa boa.

Afinal foi realizada a investigação e não houve grampo algum. E agora? Quem responsabilizará a revista Veja, o Jornal Nacional, Folha e o Estadão? Quem chamará Gilmar Mendes às falas? Quem mandará Jobim se explicar?

Estas interrogações não são banais, a resposta e a punição a respeito fazem parte da essência da democracia.

Por isso quando vozes furibundas tremem de ódio quando se diz a palavra PIG (Partido da Imprensa Golpista) sabemos que é mera roda de peru no terreiro.

Olhos de ver - Emerson Monteiro

Nestes tempos libertos e comunicativos, acham-se destravadas milhões de portas ao sabor do conhecimento de dentro da humanidade e do universo, na história dos tempos idos e das possibilidades dos tempos que virão. Ninguém pode reclamar de sonegação de informações. O trabalho das eras chegou ao nível dos desejos avassaladores das oportunidades, nos diversos campos do saber, e torna o viver contemporâneo em um oceano de ofertas, no que diz respeito à quase totalidade técnica de pesquisas, emoções, religião, lugares, personalidades, artes, palco luminoso de luzes e movimentos, posse absoluta das gerações inteiras, sertão, mar, geografia, física, música, ciências.
Aos habitantes coloniais do Planeta bastam: levantar a vista, apertar uns dois ou três botões e fixar o ponto em que a empanada revelará os segredos das origens, mostrando as previsões futuristas dos cálculos infinitesimais. Verdadeira festa de proporção desconhecida limpa as carências, sem contar somas fabulosas acumuladas nos gabinetes e as próximas ações de governo, que melhorarão os recordes obtidos, tudo a favor do patrimônio da raça dos sonhos e da imaginação.
Visão objetiva indica caminhar livre dos interesses exclusivos de só alguns, fora das intenções apenas individuais. O barco pertence ao coletivo, queiram ou não queiram apostadores da grande obra, que questionavam o sentido dessas evoluções. Quando lá nos primórdios apareceram os primeiros hominídeos, antigos resquícios dos atuais seres humanos, por volta de dois a três milhões de anos, já havia na semente o projeto aqui trazido ao campo das multidões. Nada melhor do que ouvi no tempo a existência dessas provas provadas.
Cabe hoje, no entanto, aos protagonistas da cena, valorizar o patrimônio obtido, horas, ar, claridade, energia, que alimenta a condição da grande massa no seu crescimento. Letras pulam acesas na frente dos atores todo momento indicando permanência e generosidade, através das consciências, numa opção de selecionar o lado positivo das duas alternativas de viver e agir.
Longe, pois, tirar de ninguém as chances de pensar maior, desestimular a felicidade de ver as paisagens boas, ler os roteiros alegres trazidos nos braços perfeitos de Quem que nos criou para uma trajetória de benções e que conduzirá o processo justo a bom termo, mantendo o ritmo ideal do vasto espetáculo onde habitaremos para sempre. A todos um Ano Novo de plenas realizações.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Getúlio, JK e Lula: Inesquecíveis!

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Se houvesse um monte Rushmore no Brasil, o rosto de Luiz Inácio Lula da Silva estaria agora sendo esculpido na rocha. Na pedra verdadeira, foram gravadas as imagens dos quatro maiores líderes da história americana: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. No Brasil, só dois ex-presidentes – Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek – ocupam papéis míticos no imaginário nacional. Agora, há mais um. E ele, Luiz Inácio, conseguiu entrar no seleto clube unindo o que seus antecessores tinham de melhor: a visão social e o espírito desenvolvimentista. Getúlio, nosso primeiro “pai dos pobres”, até hoje é amado porque incluiu na agenda política um agente antes excluído: o trabalhador. JK, por sua vez, foi o presidente que fez o brasileiro perder seu complexo de vira-lata e acreditar na própria capacidade de realização. Lula tem traços de ambos. Foi o presidente da inclusão social e também aquele que despertou o “espírito animal” dos empresários, que voltaram a acreditar no futuro e a investir. O resultado: um ciclo de oito anos que se encerra com crescimento do PIB de quase 8%. A vida útil de um mito é determinada pela história. Mas o presidente operário tem tudo para durar mais tempo no coração dos brasileiros do que Getúlio e JK. Sobre o primeiro, haverá sempre a mancha da ditadura implantada no Estado Novo. Sobre o segundo, o peso do desajuste fiscal e da inflação semeada pela construção desenfreada de Brasília. Lula conquistou os seus 80% de popularidade em plena democracia – e teve a sabedoria de rejeitar um terceiro mandato, que poderia colocá-los em risco. Para completar, controlou a inflação e reduziu a dívida pública. Erros, tropeços, bravatas, escândalos... nada disso terá muito peso no balanço final. A lembrança será sempre a do “Lulinha paz e amor”. E ele, que a partir de agora passará a dar nome a avenidas, escolas e creches em várias metrópoles brasileiras, só terá uma “desvantagem” em relação aos dois outros mitos: a ausência de uma morte trágica. O suicídio de Getúlio, em agosto de 1954, e o acidente automobilístico de JK, em 1976, até hoje questionado, ajudaram a elevar os dois ex-presidentes à categoria dos mártires. Lula, um homem feliz e sem inimigos, tem tudo para levar uma existência pacata até o fim dos seus dias. Tempo, ele terá de sobra depois de 31 de dezembro, como acontece com todo ex-presidente. A diferença, no caso de Lula, é que seu verdadeiro espaço cronológico será o da eternidade.

Leonardo Attuch - é articulista revista Isto é.

JORNALISTA DA CAPITAL DESPREZA A ARTE E OS ARTISTAS DO INTERIOR

Acabei de ler uma reportagem numa página assinada por Magela Lima intitulada "Ceará de tantas e tantas cenas" (O Povo, edição de 24.12.2010). Achei-a pobre e descabida. Uma análise de quintal, para divulgação de poucos amigos, com todo o respeito, típica de quem não se dá ao trabalho de considerar o que se realiza em outras regiões do Ceará. O leitor desavisado jamais saberá que existem o Cariri/Centro Sul, o Sertão Central, Sobral/Ibiapaba etc.

Pois saibam todos, inclusive o Sr. Magela Lima, que existe uma profícua e diversificada produção de teatro e dança no Cariri cearense e em outras localidades. Uma matéria num jornal de circulação nacional da estirpe do O POVO não poderia ser tão estreita e apequenadora das artes e dos artistas do interior do estado. Pecaram, o jornal e o repórter, pela falta de pesquisa.

As "tantas e tantas cenas" do Ceará não se resumem aos amigos de Fortaleza. Estendam a visão ao conjunto do estado e verão um mundo bem maior e mais belo que o desenhado no medíocre e infeliz "balanço" do jornalista Magela.

Ainda há tempo de desfazer o equívoco. Dou uma dica: só no Cariri, organizando-se em cooperativa, temos mais de 20 companhias de teatro e dança em plena e farta produtividade. Muitas delas com 5, 10, 20, 25 anos de atividade. Quase todas com elenco profissional e funcionamento permanente, fundado em pesquisa.


Um forte abraço!!!

Cacá Araújo
Crato-CARIRI-Ceará-BRASIL
Ator e Diretor de Teatro
Registro Profissional na DRT-CE nº 0764
Matrícula no SATED nº 0759
Tel.: (88) 8801.0897

ALGUMAS CENAS DO CARIRI










 Fotos de Gessy Maia

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um blog bem legal


Já que estamos em época de festas, desejo boas festas a todos do Cariricult. Um blog bem legal, sem censura, sem frescura, sem ditadura. Onde a gente converge, diverge, faz amizades e enfrenta as dificuldades. Como é bom sermos independentes e livres, não é mesmo, amigos?
Um dos melhores blogs feitos na/pela região. Um abraço a todos!!!!
E que venha 2010.

Um narrativa de natal diferente

Estou correndo para ir à casa do meu filho para a ceia de natal: três gerações se encontrarão. A sogra é bisavó duas vezes e seu tempo é medido em frações da eternidade: o encontro é agora e não depois. Aproveito para postar este texto que li no blog do Luis Nassif e que foi produzido pelo jornal Le Monde. Os créditos estão todos no texto. Aliás um bom apanhado de linhas filosóficas à luz do pensamento do cristianismo. É muito bom para os cristão se verem e sentirem o quanto guardam no seu pensamento de correntes filosóficas que se chocam com sua doutrina original. Isso ocorre inclusive com a instituição Igreja.

Le Monde

Thérèse Delpech*



O filósofo polonês Leszek Kolakowski, no final dos anos 1950, falou sobre o Natal com tanto humor e perspicácia que não resisto a apresentar uma versão abreviada de seu relato. Ei-la.

Em um certo 25 de dezembro, o astrólogo-chefe de Herodes foi até a casa de seu mestre para lhe anunciar o nascimento, sob o signo de Saturno, de uma criança cujo destino era se tornar rei dos judeus. Ele acrescentou, sem tirar qualquer conclusão disso, que o poder de Herodes estava ameaçado por esse acontecimento. O rei, um tanto cético, considerando os personagens modestos aos quais Saturno geralmente oferece sua proteção, perguntou assim mesmo, por medida de precaução, onde essa criança havia nascido, antes de dispensar o astrólogo e reunir seu conselho.

Os quatro maiores dignitários do reino, cada um deles representante de uma perspectiva filosófica bem distinta, faziam parte dessa alta instância. Herodes lhes anunciou que, diante da impossibilidade de determinar de qual criança se tratava exatamente, uma vez que os astros se calavam sobre esse assunto, ele decidiu massacrar todos os recém-nascidos da cidade de Belém. E sobre isso os quatro conselheiros foram convidados a se exprimir, um de cada vez.

O primeiro era um estoico. Ele ressaltou que o destino não podia ser modificado, e que, portanto, era melhor deixar todos aqueles bebês em paz, entregando a questão para a divindade. De fato, se ela havia decidido o nascimento de um novo rei dos judeus, o fato poderia ser lamentável, mas nada poderia alterar o curso das coisas. Como dizem, se te derem limões, faça uma limonada.

O segundo, um epicurista, refutou a inevitabilidade do destino, e argumentou que o crime coletivo poderia talvez ter o efeito desejado: eliminar um concorrente. Mas ele aceitou a conclusão de seu confrade, por ser imoral atacar frágeis criaturas que não dispunham de nenhum meio de defesa.

O terceiro, um moralista religioso, também negou a predestinação, e aceitou a ideia de que o crime poderia salvar o poder real, mas ressaltou que o assassinato não seria vantajoso a longo prazo, em razão da justiça divina, que geralmente não era favorável ao extermínio de recém-nascidos. Portanto, se Herodes massacrasse inocentes, após sua morte estaria sujeito a um castigo perto do qual a perda do poder seria uma ninharia.

Nesse ponto da história, o caso decididamente não se encaminhava a favor dos planos de Herodes. No entanto, ainda restava o quarto conselheiro, um político (ou, se preferirem, um sofista), que argumentou de uma forma totalmente diferente de seus predecessores. Herodes sabia, por experiência própria, que podia contar com ele. É absurdo, ele disse, afirmar que os recém-nascidos são incapazes de se defender, pois todo inimigo morto está exatamente na mesma situação: na verdade, se ele fosse capaz de se defender, não teria sido morto. Portanto, não há nenhuma diferença entre as crianças, por mais jovens que sejam, e as hordas de legionários cobertos de aço. Ademais, na luta pelo poder, tudo é permitido. No final, para completar, o político lembrou que o princípio da responsabilidade coletiva é o mesmo do pecado original: Adão e Eva não seriam na verdade os únicos responsáveis por inúmeras tragédias de inúmeras gerações? Qual a diferença entre a história do mundo e o assassinato coletivo anunciado por Herodes?

O rei, satisfeito, fechou o conselho, declarou todos seus conselheiros favoráveis ao massacre, e foi executar seu plano. A sequência, todos sabem: os recém-nascidos foram mortos a golpes de espada, enquanto a pequena criança visada tomou a estrada para o Egito montada em um jumento.

O epílogo, em compensação, é contado com muito menos frequência, sendo que ele contém a moral de toda a história. Ele ocorre dezenas de anos mais tarde, nas chamas do inferno, onde Herodes encontra seus quatro conselheiros acompanhados do astrólogo. Cada um levava no peito, segundo a tradição infernal mais difundida, uma placa indicando o crime cometido.

Para Herodes e o político, o caso era simples: ambos foram condenados por infanticídio. O estoico foi condenado por ter professado a doutrina herética do fatalismo e ter propagado um derrotismo que enfraquecia a luta que ele deveria conduzir na Terra pela causa divina. O epicurista foi condenado por ter desdenhado da questão do poder e assim contribuído para a anarquia. Quanto ao moralista religioso, ele foi condenado por ter defendido uma falsa moral, fazendo de Deus um mero contador e se baseando no cálculo das consequências no além dos atos cometidos aqui, e não na verdadeira moral que nasce do amor desinteressado da divindade.

Mas e o pobre astrólogo, vocês dirão, que só relatou aquilo que os astros diziam, por que ele teria sofrido o mesmo destino que os outros cinco? Era isso que ele mesmo não conseguia entender. Eis, então, o que estava escrito em sua placa, e que pode dar lugar a mais de uma reflexão entre os leitores: “Condenado por ter transmitido falsas informações com consequências funestas”. Na verdade, ao anunciar que havia nascido um rei dos judeus, o astrólogo se esqueceu de acrescentar um elemento essencial: esse reino não era deste mundo.

*Thérèse Delpech, cientista política e filósofa, especialista em questões de defesa.

Tradução: Lana Lim

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2010/12/24/uma-outra-form...

A lei da Compensação - Emerson Monteiro

Discorrer quanto às leis do mundo moral requer dose dupla de poder de expressão e clareza nos detalhes, ao menos para chegar perto da compreensão de quem escuta e informar o suficiente daquilo que se pretenda, porquanto eis aqui um tema que pede palavras novas, aspectos instigantes de convencimento e raciocínio, cores e formas excitantes, senão, nada feito, assunto encerrado, botas jogadas fora. Isso porque a realidade pressiona sem dó nem piedade, visualmente, concretamente, materialmente; realidade, aquela que circula em torno da gente feita mutuca, impõe seu respeito em quase tudo e todo tempo, independente do gosto particular das pessoas e modas.
Uns apetites querem sabores picantes, cheiros intensos das circunstâncias, reclamam alimentos pesados, esportes radicais, sons estridentes, emoções fortes. Outros, os poéticos, por sua vez aceitam ritmos e harmonias suaves, o sabor mais oriental dos pratos vegetarianos, o hálito perfumado de incensos e flores, que lhes tocam a leveza da sensibilidade e transporta aos abismos infindáveis das vastidões distantes, passageiros aceitos de viagens impossíveis.
Bom, querendo falar de uma dessas leis dos mundos morais, coisas abstratas que existem fora do mundo físico, falar da lei da Compensação, começamos relacionando-a com outra lei já por demais reconhecida, a lei da Gravidade, que nos mantém grudados ao sistema solar, sem a qual se tornaria inviável permanecer no solo, e, caso contrário, vagaríamos tontos pelo Universo, quais meteoros ou cometas, errando no vácuo. Dessa lei, também invisível, ninguém duvida. Mas existem outras que formam o campo de força onde estamos.
Uma delas, a lei da Compensação, por sua vez, nos reconforta por dentro nas crises inevitáveis, e esclarece aquilo que a vida impõe, pois obedece a regras ocultas, porém manifestas, na história de todas as pessoas.
Por pior que sejam os caprichos do Destino, em troca virá o reverso da medalha permitindo uma leitura positiva das ocorrências, revelando graça e razão de ser. Ninguém gira, portanto, ao léu fora das normas perfeitas das leis da Natureza, na Justiça exata que rege os acontecimentos desde o princípio eterno das evidências.
Em rápidas considerações, dizer que a ciência de viver implica na interpretação do que ocorre, seja de ruim, seja de bom, obedece a determinações superiores que conciliam as existências de modo justo. Ninguém nada paga sem dever, ninguém nada sofre sem merecer. Caso não atrapalhemos, todas as ações fluem por si e virá, um dia, a compensação amenizar as dores, no tempo certo, sem sombra de dúvidas. Ainda que cientes, no entanto, só poucos aceitam como regulares os tropeços da sorte, sofrendo deste modo antes e depois das tempestades, esquecidos da perfeição que determina a Lei e suas lições de conforto a todos nós.

Feliz Natal...

CANOA AFOITA



É tempo de quentura fria

Quero ver-te para contigo cear
nunca parar
nunca sumir
e estar em ti
feito vulcão
como pluma
bruma, brisa e furacão

É tempo de fervura
de ousadia e luminura

Lapinhas, limão, laranja, cachaça
reisado, sanfona, zabumba
caretas, catirinas, mateus e bois-bumbás

É tempo
de renovar o sagrado
profanando-o com a nossa alegria devota e insubmissa

Somos de vento
pó, pedra, água, luz, sal, borra, floresta e deserto

Que
se faça o grito
se desenhe o rito
se acorde o sonho
manifeste o punho

Nosso barco
veleja, viceja, peleja, combate
e almeja atracar no cais da dignidade

O caminho
da paz é minado

O templo
dos falsos profetas
conserva o pecado e os pecadores
para alimentar a existência dos deuses, da exploração e do sacrifício

O tempo do amor
faz das infinitas horas de choro e sangue
orações em favor de uma era de igualdade

Remaremos nós
náufragos da sorte
em canoa afoita rio acima
bravos e heróicos em busca do beijo da felicidade


Cacá Araújo

Natal do Ano 2010
Crato-Cariri-Ceará-Brasil

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


A festa do Natal no folclore do Brasil

Lapinha de Mãe Celina (Crato-CE-Brasil) / Foto: Cacá Araújo
Por Mariza Lira
O ciclo das festas de Natal vai de 24 de dezembro até o dia 6 de janeiro, dia de Reis, mas os preparativos começam muito antes.

Essa festa tradicional que desde o alvorecer da Idade Média se vem filtrando através das gerações, chegou ao Brasil trazida pelas primeiras levas de colonizadores lusos.

A festa de Natal propriamente dita abrange a missa que é rezada à meia-noite e segundo se diz, o povo a chamou de "missa do galo", porque a essa hora é que os galos começam a cantar. Há ainda os presépios e os autos pastoris.

A noite de Natal também é conhecida, no Brasil, como "noite santa". E o maior atrativo da "noite santa", para os católicos é a missa do galo, que se realiza em quase todas as paróquias do país.

Não é que o santo ofício não seja assistido pelos fiéis com toda a religiosidade, mas, a saída e o regresso da missa é que constituíam o encanto dos namorados e o divertimento dos gaiatos.


Antigamente nos coretos que se armavam nos adros das igrejas, a filarmônica local, a "charanga", como se diz por aí, alegrava o povo tocando músicas ruidosas.

Os namorados dos velhos tempos aproveitavam a confusão para um piscado de olho significativo, um sorriso cheio de promessas e alguns, mais ousados, ao aperto de mão, ao beliscãozinho, que antigamente se usava, ou mesmo a uma ligeira jura de amor.

Os gaiatos na confusão da saída amarravam as pontas dos xales das rotundas "carolas", isto é, das velhotas igrejeiras, prendiam com alfinetes, duas a duas, as saias das negras ou punham rabos nos fraques e sobrecasacas dos senhores austeros.

As vitimas quando se apercebiam do ridículo, quase sempre mostravam o seu desagrado energicamente e os mais irritados ameaçavam "céus e terra".

Os pândegos de longe gozavam as reações das vítimas.

Os valentões e capoeiras, "por dá cá aquela palha", trocavam tabefes e rasteiras, mas tudo não passava de "um susto e uma carreira", como se dizia então.

Depois da missa era quase que uma obrigação a visita aos presépios, fossem eles armados nas igrejas ou em qualquer casa particular.

A idéia de reproduzir a cena de Belém, partiu de São Francisco de Assis, que em 1223 armou o primeiro presépio com pessoas e animais verdadeiros desenvolvendo cenas reais.

E agradou de tal modo a idéia, a todo o mundo católico, que, desde então, o hábito de se armarem presépios pelo Natal, espalhou-se por toda a Europa cristã.

Em Portugal, segundo frei Luiz dos Santos, o primeiro presépio foi armado no convento das Terras do Salvador, em Lisboa, também com personagens e animais verdadeiros.

No Brasil desde o século XVI, se armam presépios na Bahia, Rio e em Pernambuco, onde o primeiro foi devido à iniciativa do franscicano Frei Gaspar de Santo Antônio.

Há uma antiga descrição em verso , feita pelo poeta baiano Joaquim Serra da qual se conclui que os presépios do passado pouco diferem dos presépios do presente:

Céu de estrelinhas douradas,
Estrelas de papelão:
Brancas nuvens fabricadas
De plumagem de algodão!
Anjos soltos pelos ares,
Peixes saindo dos mares,
Feras chegando d'além.
Marcha tudo, e vem na frente
Os Reis Magos do Oriente
Em demanda de Belém!
E está a Lapa; o Menino
Nas palhas deitado
Com um sorriso de alegria,
Todo doçura e amor!
Contempla o quadro divino
São José ajoelhado,
E a santíssima Maria
De Jericó meiga flor

Ao presépio o povo ligou uma superstição. Está generalizada em todo o Brasil a crença de que quem arma presépio um Natal tem que fazer durante sete anos para alcançar as bênçãos de Deus e se não o fizer tudo andará para trás.

Ingênuas crendices do povo.

No Rio antigo ficou registrado, nas velhas crônicas, o presépio do cônego Felipe, na ladeira da Madre de Deus; era tão completo e tão suntuoso que era honrado com a visita de dom João VI.

Não menos famoso foram os do convento da Ajuda e da ladeira de Santo Antônio.

Outro presépio, citado pelos cronistas antigos foi o do Barros, carpinteiro estabelecido com uma oficina, à rua dos Ciganos, hoje Constituição.

Sempre houve espalhados aqui e ali, nos vários pontos da cidade, presépios que o povo visitava com religiosidade e encantamento.

Muito popular foi um armado numa casa modesta da rua Ana Néri, próximo à matriz de Nossa Senhora da Luz.

Era uma cenografia ingenuamente pitoresca, mas com movimentação elétrica, ao som dos discos passados em vitrola.

O povo afluía a ele de todos os pontos da cidade.

Os autos pastoris foram introduzidos em Portugal, em 1502, no reinado de dom Manuel.

A rainha dona Beatriz encomendara ao poeta Gil Vicente, um auto pastoril para festejar o nascimento do príncipe dom João.

A câmara da rainha foi transformada num presépio e o príncipe profanamente comparado ao Menino Jesus.

Anos após chegavam ao Brasil os autos pastoris. Informa Serafim Leite que um dos primeiros autos representados no Brasil foi a Écloga Pastoril, exibida em Pernambuco, em 1574.

Essa festividade teve o máximo esplendor no norte a leste do Brasil e ainda constitui aí a nota tradicional mais pitoresca.

Adquirindo feição própria e variável nos vários estados do Brasil, esses autos natalinos tomaram denominações diversas; autos ou bailes pastoris; pastoras ou pastoris; cheganças e reisados; marujadas; fandangos da barca.

Revivendo uma reminiscência pagã, no norte, centro e leste do país, o mais típico desses autos é o bumba-meu-boi, havendo variantes como o boi-bumbá e outros.

Na região do São Francisco há o "rancho da burrinha", como devem haver outros festejos desse tipo, com outras denominações, espalhadas por esse Brasil afora.

É interessante observar que enquanto o auto das pastoras e pastorinhas conserva o aspecto geral da primitiva pureza e ingenuidade, os pastoris, o bumba meu boi e suas variantes tornaram-se um tanto profanos e até com acentuado sabor livre, de acordo com o feitio do organizador e o meio donde surgiu.

Nos autos das pastoras o argumento gira em torno do nascimento de Jesus, enquanto que nos pastoris, no bumba-meu-boi e seus congêneres, prende-se ao tema da morte e ressurreição. Nas cheganças e marujadas o motivo principal é a luta entre mouros e cristãos.

Todos eles são constituídos de monólogos, diálogos declamados, canções, duetos, coreografia numa dramatização conhecida, tradicional mesmo ou organizados por apreciadores do divertimento.

Daí muitos desses folguedos de Natal serem tão variáveis. E não se pense que essa variabilidade ou o modo de se apresentar esse ou aquele auto é criação nossa. Entre os povos cristãos da Europa nós os vamos encontrar em variantes bem semelhantes.

No Brasil há bailes pastoris tradicionais como o do Marujo, o do Meirinho, o da Lavadeira, o do Elmano, os dos Quatro Pastores, o da Catarina, o do Velho Terêncio e tantos que seria quase impossível enumerá-los, muitos deles são fragmentos e adaptações de outros tantos de procedência peninsular.

É preciso compreender que esses autos e bailes pastoris não variam apenas de estado para estado, cidade ou lugar, mas, até de ano para ano.

Isso porque o povo que os apresenta, não os cria originalmente, presencia-os, observa-os em qualquer lugar, em qualquer época e, só então, apresenta-os com características suas ao seu feitio.

Cumpre, pois, aos mais instruídos recolhê-los e sem deturparem as características regionais, reconstitui-los isentos de erros e lacunas que só nos viriam diminuir.

É o caso do Auto das Pastoras 24 de Dezembro, coligido em Pernambuco, sua terra natal, pela mestre musicóloga Ceição Barros Barreto que o apresentou, ao público, lindamente reconstituído.

Os grupos pastoris percorrem as ruas durantes as noites festivas, parando diante das casas previamente avisadas.

Ao canto do pedido de licença, as portas se abrem de par em par. O grupo festivo entra e desenvolve o poema musicado.

Melo Morais Filho, o grande cultor de nossas tradições, durante algum tempo organizou interessantes grupos de pastoras, para festejar o ciclo do Natal.

De sua residência em São Cristóvão partia o grupo alegrando as ruas do então aristocrático bairro, visitando as residências amigas que o recebiam festivamente.

A jornada terminava, com o bumba-meu-boi.

Esse brinquedo natalino é uma perfeita amálgama de reminiscências.

A principal figura é o boi, arcabouço de pau, grosseiramente coberto, escondendo um homem, cujos movimentos, marcha e cabeçadas são semelhantes aos do boi. A cabeça ou é de papelão ou é uma caveira autêntica, revestida de qualquer maneira, deixando respontar os chifres do animal.

O vaqueiro, caracterizado como os nossos caboclos sertanejos, traz o agulhão, vara comprida com um ferrão na ponta, com que tange o boi.

Há personagens vários como o rei, com coroa de latão; o secretário, pomposamente vestido; o doutor; a Catarina; o padre; o Mateus; negro escravo; o capitão do mato. lembrança da escravidão: o Sebastião; o Arrequinho, corruptela de Arlequim; pastoras, negros, índios e outros mais.

O cavalo-marinho, o mestre Domingos, a cobra verde, o sapo, o diabo são personagens variáveis.

O grupo é guiado pelo Mateus, em alguns pontos confundido com o vaqueiro, que vai gritando: Eh! Boi. Eh! Boi.

Nas casas e lugares previamente marcados o bumba-meu-boi desenvolve o poema até que o animal cai inanimado.


O vaqueiro então grita dramaticamente: O meu boi morreu, quem matou meu boi?

Enquanto o médico e o mágico pretendem reanimá-lo o vaqueiro vai cantando uma versalhada referente do exame do boi até que o médico inicia o testamento ou partilha do boi, mais ou menos neste estilo:

A rabada
É pra rapaziada;
O mocotó
É pro seu Jacó;
Um pé e a mão
É pra seu capitão;
A tripa de cima
É pra minha prima;
A tripa de baixo
E pro seu Camacho;
Os panos do figo (fígado)
É pra meus amigos;
E o bofe
É pro regabofe;
A ponta do janeiro
Pra fazê um tabaqueiro;
A testa do boi
É pra vocês doi;
O rim
Eu quero pra mim;
E a tripa gaiteira
E pras moças solteiras.

E assim improvisando rimas, vai o doutor distribuindo as diversas partes do boi até que ele ressuscita.
Acaba a representação com a despedida em coro:

Retirada, meu bem retirada.
Acabou-se a nossa função;
Não tenho mais alegria
Nem também consolação.
Bateu asas, cantou o galo,
Quando o Salvador nasceu,
Cantam anjos nas alturas,
Glória in excelsis Deo!

O testamento do boi, partilha simulada entre os presentes, nada mais é que a comunhão simbólica usada em todas as religiões.

A partilha faz desaparecer a culpa.

A ressurreição do boi representa a remissão geral.

O auto do bumba-meu-boi, ingênuo divertimento popular, é a expressão singela dos antigos rituais de sacrifício.

Por toda a parte, do solar a choupana a mesma alegria sadia e pura na noite de Natal.

Nessa noite nos lares não faltava a ceia — ou melhor — consoada.

Nelas figuravam as guloseimas típicas; rabanadas ou fatias do céu, bolo de Natal, castanhas, nozes, amêndoas, avelãs, passas, figos secos, tâmaras, canjiquinhas, bolos de bacalhau, um mundo de coisas gostosas.

À meia noite abria-se o vinho, a champagne, todos bebiam e se congratulavam desejando Bom-Natal, Boas-Festas.

Em muitas casas havia bailes e era hábito também os seresteiros percorrerem as ruas fazendo serenatas.

Esse costume de desejar Boas Festas, que hoje usamos, foi legado pagão, que as mais antigas civilizações nos deixaram.

As congratulações com troca de presentes, festas com cantos e danças eram usadas pela volta da primavera, marcando o início das colheitas, conforme encontramos na mitologia.

Os gregos conservaram a tradição transmitindo-a aos romanos.

Os primeiros cristãos adaptaram a usança à sua data magna — o Natal de Jesus.

Desde então é o mesmo entusiasmo por essa época festiva.

Nos bons tempos as casas se enchiam de forasteiros. As cidades, as vilas e mesmo os lugarejos se movimentavam.

As vitrinas e os mostruários das lojas transbordavam de novidades, presentes de toda a espécie, "festas" que uns davam aos outros, tradição que o encarecimento da vida está fazendo desaparecer.

Dar festas era quase que uma obrigação. Cada um a cumpria de acordo com suas posses.

Os "senhores" abastados não trepidavam em oferecer de festas um escravo prestimoso ou uma crioula chibante.

Desde as vésperas de Natal os escravos cruzavam as ruas levando festas "que meu sinhô mandô, desejando Bom Natal e Boa Saídas e Melhores Entradas".

E eram presentes de valor: baixelas e faqueiros de prata, jarrões da China, animais de montaria, leitões, perus, jóias, perfumes, flores.

Até os escravos gozavam regalias excepcionais nesse dia.

Ganhavam roupa nova, tinham licença para ir à missa do galo, recebiam uns cobres e assim gozavam a folga à "tripa forra".

As crianças eram surpreendidas, pela manhã, com as meias de brinquedos nos sapatinhos e não davam sossego à família com os apitos, gaitas e chocalhos.

Mas, as meias e o Papai Noel de importação européia, são relativamente recentes e variam nos diversos pontos do Brasil conforme a influência imigratória.

Os caixeiros das velhas casas comerciais, que antigamente permaneciam abertas até às dez horas da noite, dormiam nas lojas, às vezes sobre os balcões e tinham poucas saídas anuais.

Pelo Natal puxavam das velhas arcas ou dos baús de folha, a roupa de "ver a Deus e à Joana", como se dizia então, calçavam sapatos rinchadores e saiam a tirar o "pó do lodo" ao menos naquela noite.

As casas comerciais presenteavam os fregueses com caixotes de vinhos, champagne, presuntos, caixas de passas e outros brindes caros.

Os mais modestos enviavam folhinhas de cromos coloridos com a respectiva propaganda da casa.

Os jornais enchiam-se de cartões de boas-festas, que os amigos desejavam entre si, os negociantes e as casas comerciais, faziam anúncios espetaculares de suas especialidades.

Assim era o Natal de outros tempos.

(Lira, Mariza. "A festa do Natal no folclore do Brasil". Diário de Minas. Belo Horizonte, 25 de dezembro de 1951) 
Fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/dezembro

Bissexto

Finalzinho de ano existe uma regra imutável e previsível para os próximos meses. Promessas de mudanças nos hábitos de vida ! Uns se comprometem a deixar o cigarro, outros encetam dietas rigorossíssimas, alguns afirmam como certo o começo do Cooper pela manhã. Ano novo ,vida nova ! Após o ribombar dos fogos do Reveillon, vêem-se todos assoberbados por tarefas não tão fáceis de cumprir e que geralmente começam a ficar menos regulares a partir do Carnaval e , o mais das vezes, não têm forças nas canelas para alcançar a Semana Santa.
No mês passado, Eufrázio, um contador de uma pequena loja de Secos & Molhados , nas comemorações do Natal da firma, firmou os pés nos seus propósitos. Os colegas de repartição comentaram depois que o nosso contabilista exagerou um pouco na dose de transformação. É que o nosso comerciário sempre fora um operário padrão, sério, compenetrado, desses que vivem eternamente para o trabalho. Possuía ainda uma pacata vida familiar, casado com Dona Nair Loreto, uma senhora temente a Deus e beata de carteirinha. Tinha dois filhos, já casados, que moravam ou sobreviviam para as bandas de São Paulo. Eufrázio não tinha vícios, vivia nos Encontros de Casais com Cristo e até estudava para formar-se diácono. Era preceptor dos Cursos de noivos na Igreja e um dos membros mais convictos da Ordem do Santíssimo. Já entrado nos sessenta, parece que ia plantando mais nas roças da vida eterna do que nos pomares terrestres. Pois bem, a transformação que ele realizou no último Reveillon , assim, pegou todos de surpresa. Quem lá diabos poderia imaginar uma reviravolta daquelas ? Sem qualquer explicação mais contundente, nas comemorações do Natal, um Eufrázio um pouco mais loquaz do que o habitual desejou os melhores votos para todos e vaticinou aquilo que parecia ser mais uma daquelas temporárias e fugazes promessas de fim de ano:
--- Até o presente momento, meus amigos, não vivi, apenas trabalhei como um burro de carga para os outros. Até parece que vim à terra a trabalho e não a passeio. A partir de agora vou montar no alazão da minha vida e tomar as rédeas do meu destino !
Depois daquele dia, seguiu à risca a promessa natalina. Pediu demissão do emprego que o poria em pijama de aposentado nos próximos cinco anos. Largou a mulher, mudou de casa e de cidade. Soube-se depois que se transferira para Andaraí, na Chapada Diamantina, onde se unira a um rapazinho, design gráfico, e ali haviam instalado o Restaurante de Comida Natural: “Verde que te quero Ver-te”. Abandonou também as hostes católicas e agora freqüentava uma comunidade alternativa lá no “Vale do Capão” . O outrora sedentário Eufrázio agora trabalhava, nas horas vagas, como guia turístico, nas sinuosas trilhas do Vale do Sincorá. Ao invés da opa do Santíssimo envergava duas recentes e imensas tatuagens: um dragão vermelho e de unhas afiadíssimas nas costas e um carismático Fidel Castro no ombro esquerdo, além de um brinquinho discreto na orelha direita.
Alguns amigos ,que em viagem depois o visitaram, trouxeram a novidade de todas as imprevisíveis mudanças ocorridas no nosso contador. A cidade em peso o criticou e comentava que o homem tinha endoidado de vez, ninguém perdoava a sua coragem e, pior, todos abominavam a constatação de que os que o visitaram , liam uma incontestável felicidade nos seus olhos. A cidade impossibilitada, pela distância, de assassiná-lo em vida, resolveu encaminhar um abaixo assinado para Eufrázio, uma espécie de execração pública, condenando-o por sua atitude considerada irresponsável e vulgar. O contador respondeu com um pequeno bilhetinho que foi lido na Câmara de Vereadores.
--- Infelizmente não posso fazê-los felizes. Cada um é o artífice da sua própria felicidade. Ninguém pode viver a vida pelo outro e nesta viagem a passagem é apenas de ida. Saiam do casulo das suas vidinhas estranguladas e vivam ! Quanto a mim as mudanças prometidas para este ano apenas começaram e lembrem : este ano, graças a Deus, é bissexto !

J. Flávio Vieira

As razões do perdão - Emerson Monteiro

A pequenez das individualidades humanas responde a um tanto das indignações que vivem aparecendo nas encruzilhadas deste mundo. É pisarem no pé da gente que sobe fogo de arrogância do tamanho da falta de juízo, gerando atitudes imprudentes, garras afiadas rasgando folhas de zinco e palavras agressivas de sapecar e sacudir as estruturas em volta. Riscos inesperados de causar contrariedade em nós e nos outros, nas famílias, na sociedade, destruindo esperanças e futuros brilhantes pela frente. Depois que passa o temporal, sobra grudado no céu da boca o desassossego da raiva, bicho que, alimentado no orgulho, sujeita virar ódio, com amplas repercussões negativas, de causar espanto nas páginas policiais mais avermelhadas.
Esse endurecimento de gênio vem de longe, dos tempos de menino, das famílias equivocadas e seus conselhos de vingança. Lembro bem de quando no colégio apareciam desentendimentos de alunos, o professor José do Vale buscava contornar a revolta dos mais agressivos, e dizia:
- Vocês já ouviram falar na existência de um quarteirão de valentões? - Isso ele justificava porque os valentões não duram muito, se destroem com extrema facilidade, pois, como dizem os orientais, ninguém se aguenta muito tempo na ponta dos pés.
A mansuetude, portanto, torna-se, a cada momento, uma norma de sabedoria valiosa para todos os lugares deste chão, ainda que haja competições de tudo quanto é lado. O capitalismo vive disso, da competitividade exacerbada, porém insiste em desestimular o extremo das guerras, numa contraditória hipocrisia. Essa constatação demonstra ser a do fio de equilíbrio em que se arrasta a civilização deste período da história.
Jesus, no entanto, trouxe o perdão das ofensas qual motivo da evolução aos níveis espirituais do seu Reino dos Céus. Dar a outra face quando nos baterem. Ignorar as provocações. Não ter inimigos. Uma doutrina digna e fundamental para a transformação superior que buscamos em nos mesmos, no embates da convivência pacífica. O Caminho, a Verdade e a Vida, passos da salvação dessa jornada, no campo atual das coisas materiais.
Assim, o perdão revela o lado divino dos seres humanos e que os conduzirá ao sonho da esperada felicidade, única justificativa de atravessar os desafios da existência com glória e com sucesso. Instrumento de exercitar a humildade, quem obtém o grau de praticar o perdão decerto usufrui no coração os valores da aceitação de melhores sentimentos bons, o que Jesus ensina através de suas santas palavras.
Perdoar, eis o meio eficiente de acalmar, dentro de si, as forças destruidoras da agressividade, sentimento contrário à poderosa Lei do Amor maior.

Bibi da Onça - Um Otimista no Natal - Por José do Vale Pinheiro Feitosa

O título carece explicação. Bibi por diminutivo de Beraldo e Onça por feito de coragem ao contrário. Madrugada de valentões: caçada de uma onça que dizimava as ovelhas lá no olho d´água da Serra do Quincuncá. A luta para arrumar a arriscada excursão na coragem de Bibi. Ele acompanhou, mas assim que o rastro da fera e tiquinhos de bosta verde no meio do mato apareceram, deu uma sede de deserto na alma de Bibi. As cabaças estavam secas. Alguém sugeriu que Bibi chupasse um taco de rapadura. Pronto Bibi bateu em retirada a busca de um pote de água dormida. A onça colou ao apelido de Bibi.

Bibi é otimista inveterado. A sentença do patrão das terras onde vive agregado são loas de obediência. Mas ele tem uma arrumação no olhar: o olho esquerdo fulmina o pessimismo dos que reclamam e o direito ilumina as glórias do patrão. O Patrão anda por aí na Hilux refrigerada, mora na cidade e de costuma provar o sal da terra nos mares bravios do Ceará. Bibi é outra coisa: casa com teto vazado feito arupemba e paredes com buracos de espia.

Neste natal o patrão mandou a Hilux na fazenda para pegar as carnes de um carneiro e um peru de primeira. Aproveitou a viagem e mandou uma “ceia de natal” para os agregados da sua fazenda. O olho direito de Bibi da Onça brilhou como uma super nova.

Os agregados que restavam na fazenda eram poucos e Bibi aproveitou para criticar:

- Viram no que dá? É esta tal de Bolsa Família e os homens se aposentando cedo demais. Tem muito caba bom de eito que foi morar na cidade com aquele dinheirão que ganha do governo não quer mais nada com o trabalho. Agora é isso aí! Uma festa desta tinha para mais de quarenta pessoa. Agora é só nós.

De fato os presentes à “ceia” não passavam muito de quinze pessoas. Entre eles uns três sobrinhos de Bibi, Mário e sua mulher Ana, Zé Chulé e a mulher, Tonho e Zefinha e mais outras pessoas que não adianta esticar a lista. E aí veio a ceia. Que decepção. Bibi, abriu a bolsa de plástico e tinha umas seis pet de tubaína. Mario olhou para Ana e estimulou o olho esquerdo de Bibi.

- Mas minino só mandou “espoca bucho”. Antigamente pelo menos tinha aluá. Agora é este bicho que faz nós soltar tanto traque que escangalha o buraco que rima com caju.

- Deixe de ser ingrato. Seu pessimista. Nunca vê as coisas boas que acontece. Tudo é ruim, não adianta dar as estrelas. O aluá é coisa ruim, da casca do abacaxi, suja, cheia de micróbio. Agora não, este refrigerante de primeira é sadio, a água é até pasteurizada.

Mario olha para Ana e comenta: e vai ter pastel?

- Qui nada. Ói lá em riba da mesa, só tem aquela bulacha dura da bodega de Mané da Rola.

Bibi ficou possesso com as palavras de Mario e Ana. Foi de porta a fora e fez uma oração de louvor ao seu patrão, com o chapéu na mão e o olho direito olhando para a casa grande adormecida no silêncio do natal, com tubaína, bolacha dura e sem a Missa do Galo.

RESPOSTA AO PÉ DA LETRA – Por Pedro Esmeraldo

Ultimamente, após a tempestade sombria, tenho sido molestado por pessoas pretensiosas e insistentes cujo objetivo é macular a minha imagem.
Não sei por que motivo essas figuras maldosas se lançam contra mim, a fim de toldar a consciência, devido à queda rápida de figuras notáveis da política local.
Não sou culpado pelo desgaste de pessoas amigas que não souberam conduzir os destinos da vida.
Não atiro pedras em ninguém. Às vezes, sou obrigado a criticar quando observo alguns erros, mas confirmo: minhas críticas são admoestatórias e, portanto, não buscam desfazer dos meus amigos.
Segundo palavras dessa pessoa maldosa, respondo: não gosto de atirar em ninguém, porque tenho como meta proteger os animais, quer sejam racionais ou irracionais. Por isso, comprovo que não sou artista popular.
Não sou de tomar medidas apressadas e nem ouvir as conversas de pessoas bisbilhoteiras, pois para mim, palavras loucas não devem ser ouvidas.
Não pretendo falar mal de ninguém e nem cito nome de pessoa alguma quando pronuncio palavras desconexas ao redor de amigos.
Só procuro fazer o bem aos amigos, principalmente aqueles que são verdadeiramente amigos, e servir ao Crato.
Não é do meu feitio ser intolerante, se por acaso algum dia cair no erro, sinto-me na obrigação de pedir desculpas diante da sociedade.
Peço que da próxima vez possam respeitar as pessoas idosas e os amigos que andam em volta dos senhores de grande quilate, por isso volto a dizer: a gente tem como propósito as amizades em torno de mim mesmo. Muitas vezes, é necessário estar com as orelhas em pé e tomar cuidado para não confiar em certas pessoas de péssimas qualidades morais. Por essa maneira; lembro-me de uma frase que vou transmitir agora que foi pronunciada por alguém: Deus me livre dos amigos, porque dos inimigos eu sei me livrar. Afirmo, portanto, que se deve ter cuidados de certos amigos.
No tempo de minha infância, saí pelo sítio ao redor da minha casa com a companhia de dois cães de guarda que me protegiam na hora do perigo. Esses sim eram verdadeiros amigos e não esses que vivem andando ao redor das pessoas e por trás tiram o couro de seus amigos, que se tornam vítimas.

Crato-CE, 22 de dezembro de 2010.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

"Recusa", não; "Veto", sim - José Nilton Mariano Saraiva

Ciro Gomes, como se sabe, após “assombrar” o Brasil ao afirmar na TV que o tucano José Serra era o mais preparado para o exercício da Presidência da República, posteriormente, de forma humilhante, voltou às mesmíssimas emissoras televisivas para desdizer o que houvera dito no dia anterior e, ainda, recomendar o voto em Dilma Rousseff, o que lhe valeu um tremendo e corrosivo desgaste não só junto aos seus decepcionados adeptos, mas, também, de toda a população brasileira (alguns, mais possessivos, tacharam-no de mau caráter, venal, vira casaca, e por aí vai).
De sua parte, em troca do apoio recebido quando se sagrou a primeira mulher habilitada pelo voto popular a exercer a Presidência da República, Dilma Rousseff honrou e cumpriu o compromisso que houvera pactuado antes, muito antes da eleição presidencial, reservando, na cota do PSB, o Ministério da Integração Nacional para o senhor Ciro Gomes (que, após fazer “charminho”, lá da Europa mandou avisar que resolvera aceitar, SIM, conforme recado transmitido pelo irmão-governador e porta-voz, à equipe dilmista).
Crítico mordaz do fisiologismo desbragado do PMDB, mas, paradoxalmente, dono de uma trajetória política sinuosa, conflitante e desprovida de qualquer resquício de coerência político/ideológico/programática (já transitou pelos díspares ARENA, PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB), o que o nivela aos integrantes daquele partido (PMDB), Ciro Gomes é, na verdade, um recalcitrante partidário do... “bloco dos Ferreira Gomes sozinhos”.
Tanto é que, agora, os dirigentes do PSB, à frente Eduardo Campos, governador de Pernambuco, deram-lhe um basta, avisaram que ali era “final de linha” para suas peraltices, acabaram com o joguinho de bate-assopra e mostraram-lhe que o partido tem hierarquia e não se presta a servir de trampolim para aventureiros de plantão, ao exigirem o Ministério da Integração Nacional (da cota do PSB) para um (autentico) dos seus quadros, o ex-prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra. Para Ciro Gomes, quando muito, a Secretaria de Portos (e olhe lá).
Ofendido e chateado por ter sido preterido pelo próprio partido, Ciro Gomes (que há houvera aceito, SIM, o Ministério da Integração Nacional), tratou de plantar junto à imprensa o factóide de que estava “recusando” o convite da presidente Dilma Rousseff para aquela função, porquanto seu objetivo mesmo era o Ministério da Saúde.
Puro papo furado, conversa fiada, história pra boi dormir, já que o Ministério da Saúde nunca lhe esteve disponível. Assim, que fique bem claro: Ciro Gomes não recusou, mas foi, SIM, vetado, para o Ministério da Integração Nacional, pelo comando do PSB. Que, aliás, ainda foi comprovadamente magnânimo ao permitir-lhe indicar alguém do seu adstrito círculo para a Secretaria de Portos (até então dirigida por um seu subordinado), e aonde ele abrigará a grande incógnita do governo, o desconhecido atual prefeito de Sobral.
Resumo da história ??? Como Aécio Neves mais dia menos dia abandonará o PSDB (já que não se bica com a dupla FHC/Serra) e fundará (ou abrigar-se-á) (n)uma nova agremiação partidária, Ciro Gomes (se antes não for expulso) também dará adeus ao PSB e tentará viabilizar-se como vice do mineiro, numa futura chapa pra concorrer à Presidência da República, em 2014.
Só que aí eles baterão de frente com Lula da Silva, um dos maiores presidentes que o Brasil já teve, que estará de volta nos braços do povo para mais oito anos de “aulas práticas” de como se desenvolver uma nação redistribuindo renda.

Programa COMPOSITORES DO BRASIL - Rádio Educadora do Cariri


“Menino Deus
Quando a flor do teu sexo
Abrir as pétalas para o universo
Então por um lapso se encontrar
Ligando os breus, dando sentido aos mundos
E aos corações sentimentos profundos
De terna alegria, no dia
Do menino Deus
No dia do menino Deus”

(Menino Deus, Caetano Veloso)


NATAL BRASILEIRO


Por Zé Nilton

Desde que o homem captou o som ouvindo a natureza, descobriu a estrutura matemática de suas combinações e inventou uma escala tonal com infinitas possibilidades de manifestar uma melodia, a música definitivamente marca os eventos da trajetória humana.

A música, dentre múltiplas serventia, parece despertar certa substância em nosso cérebro, quando nos lembramos de algo em que ela fora testemunha.

Os acontecimentos por que passamos não se repetem, ou melhor, a atmosfera da época e o clima do momento estão ausentes nos ciclos repetitivos de nossas vidas. No entanto, caso esses momentos tenham sido emoldurados pela música – ou por aquela música que embalou e marcou aquele momento, ao ouvi-la e juntá-la ao ocorrido, entramos na aura que decolou daquela ocasião e que agora emerge na nossa lembrança.
Só para entendermos melhor: outro dia, numa entrevista, o músico Tom Zé descreveu, com pureza de detalhes, o momento em que ouviu, pela primeira vez, a voz e o violão de João Gilberto interpretando “Chega de Saudade”. Seu semblante se transfigurava à medida que ia detalhando o local, o clima, as pessoas e tudo o que se encontrava à sua volta, enquanto desfrutava daquela ocasião mágica. Assim também ocorreu com toda uma geração de jovens compositores nos idos de 1959.

Parece que essa “sobredeterminação,” como uma imagem projetada num espelho – quando a música ajuda a tecer a ocasião - aguça o sentimento de (des)prazer quando lembramos.

Caso o leitor não concorde com minhas observações, remeto-o para a leitura de um livrinho (muito substancioso), do cratense Paulo Elpídio de Menezes, - “O Crato de meu tempo”, Fortaleza: edições UFC, 2ª. edição, 1985.

Nele o autor faz uma descrição histórica de nossa cidade nos fins do século XIX, levando em conta não o calendário histórico-linear, aquele em que se vai marcando os acontecimentos numa escala evolutiva. O autor se vale dos ciclos da vida, dos ciclos festivos como forma de construir suas rememorações, que terminam por revelar uma história (social) da cidade e de seu povo. Em todos esses eventos ele cita os folguedos, as músicas, as cantigas, as brincadeiras de rua, as serenatas e descreve as letras. Enfim, fala de sua infância e adolescência revividas em sua memória enriquecida pela trilha sonora que marcaram sua lembrança.Então, o que seria do ser humano se não houvesse a música?

Acho mesmo que no Natal, assim como em outros ritos de passagem, e todos os ciclos festivos, a música ajuda muito a realçar as simbologias desses eventos.
No Brasil a música natalina é marcada pela diversidade de criação.

As cantigas dos autos de natal no Brasil são expressões da cultura local. Acredito ser a música de Natal uma manifestação musical extraordinariamente rica, porquanto ela acompanha sob diversos ritmos e tons, os temas dos ciclos natalinos que se realizam em diferentes subculturas.

Por aqui tudo foi perfeitamente assimilado pelos diversos grupos que ensejaram a (des)ocupação paulatina do nosso território. No plano da música, os instrumentos, as danças, as cantigas, muitos ritmos, os autos, as coreografias etc. transplantadas por populações misturadas de todas as partes do mundo, foram acolhidas e até ressignificadas para permitirem sua continuidade no tempo...

Esse será o tema de hoje do Programa COMPOSITORES DO BRASIL. Vamos falar um pouco das músicas do natal brasileiro, de seus compositores e cantores. Lembrando da compositora Chiquinha Gonzaga, nascida em 1847, e que aos 11 anos de idade, em uma festa de Natal no lar, apresentou, com letra de seu irmão, sua primeira composição, uma música natalina: “Canção dos Pastores”.
NA sequencia:

UM NATAL BRASILEIRO, de Ivan Lins com Ivan Lins
FELIZ NATAL, de Martinho da Vila com Martinho da Vila
PRESENTE DE NATAL de Francisco Alves com Francisco Alves
ENTRADA DO BOI DE REIS, Colhido por Toinho Alves
NATAL TODO DIA, de Maauricio Gaetani, com Roupa nova
MENINO JESUS DE PRAGA, de Jorge Ben Jor, com Jorge Ben Jor
MENINO DEUS, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, Clara Nunes
MENINO JESUS, de Geraldo Rocco, com Almir Sater
BOAS FESTAS, DE Assis VAlente, com Ná Ozzetti.
VÉSPERA DE NATAL, de Adorina Barbosa, com Demonios da Garoa
MENINO DEUS, de Caetano Veloso, com Caetano Veloso
NATAL DAS CRIANÇAS DE Belcaute, com Carequinha
CRÔNICA DO NATAL CAIPIRA, de Aldemar Paiva, com Rolando Brodrin

Quem ouvir, verá!

Programa: Compositores do Brasil
Rádio Educadora do Cariri (www.radioeducaroradocariri.com)
Telefone88) 3523-2705
Todas as quintas de 14 as 15 horas
Pesquisa, produção e apresentação de Zé Nilton
Operador high tech: Iderval Dias
Direção Geral: Dr. Geraldo Correia Braga