TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Duas faces de uma só natureza - Emerson Monteiro


A mulher e o homem são aspectos distintos, porém integrais, da natureza que os dois formam e se repetem ao infinito. Houvesse ausência de um, e deixaria vazio de não ter tamanho, a ponto da total interrupção dos acontecimentos biológicos que representam a longa história de todos nós.

No decorrer do tempo, contudo, devido aos motivos dos que buscam aprender das condições normais, invés de somar, excluem e criam divisões, a pretexto de reinar a fria competição, a concorrência desleal, da selvageria de um dos sexos, quando eles mesmos sozinhos se completam.

As características da mulher e do homem representam perfeição em termos de organização social, na elaboração da célula mãe da família e dos grupos. De sã consciência, ninguém levantará bandeira de superioridade entre esses dois aspectos essenciais do casal humano à procriação e educação das gerações, no sentido da construção ideal de uma sociedade justa.

As definições de cada um desses distintos elementos compõem a vida e pedem apenas que se respeitem no tanto certo de estabelecerem a felicidade ideal das pessoas. Exemplos haverá aos turbilhões de quem compreendeu tais características próprias da mulher e do homem, frutos da ciência universal. Isso põe a pensar no quanto ainda precisam conhecer dos segredos da paz, até rezar do jeito correto nas cartas das existências coletivas.

A riqueza dessas peculiaridades dos sexos rasga vistas dos que querem aprender o objetivo da lei da Criação, seus sabores e suas normas dignas da mais lúcida exatidão matemática.

Ao observar, pois, a ação amistosa entre os irmãos, o viajante das estrelas conclui que sem a mãe ou sem o pai nada existiria para merecer nome de filhos, e nenhuma história nasceria antes de tudo para se conhecer.

Eis, por isso, qual a solução das crises que sustentam a ilusão de serem opositores as duas manifestações dos que vierem morar algum tempo neste chão comum de dois.

credo

Triste quando alguém nos detesta.
Torce o nariz e franze o cenho.

Triste quando alguém nos odeia.
Muda de calçada e foge da praça.

Pensa em nos assaltar
e nos matar na esquina.

Pensa em pôr nossa fotografia
debaixo do ninho de uma coruja,

uma coruja cega e manca
em noite de lua cheia.

Aterrorizante quando alguém
planeja nossa morte.

Testa veneno em camundongos,
compra uma arma de traficante.

Suo frio só de pensar nas artimanhas diabólicas
que um estranho nutre mentalmente sonhando
com a nossa desgraça.

Triste e patético quando alguém se desvencilha
do nosso abraço e prefere pular do desfiladeiro.

É tão triste quando alguém que nunca nos viu dormindo
nem chorando nem atormentado com a própria sorte
ainda tenta nos esfolar como se esfola um bode.

Triste quando alguém não vai com a nossa cara.
E pede ao vizinho o telefone da polícia.

E pega no nosso pé.
E enche nosso saco.

É triste, meu deus
quando o santo de alguém
não bate com o nosso arcanjo.

É bem mais triste, confesso,
quando esse alguém consegue
incutir em nossa alma tal tristeza.

Ou essa vingança,
uma vontade inebriante
de roubar da mão
do carrasco
a lâmina.

É triste ver a cabeça do nosso inimigo
rolando escadaria abaixo com os olhos abertos.

São Jorge me proteja
e São Benedito me prepare
um cafezinho quente na sua choupana.

Entre "tapas e beijos"... o "morde e assopra" - José Nilton Mariano Saraiva

Transmitido ao vivo pela TV Assembléia, semana passada (15/09/11), o plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará acolheu os participantes de um seminário abordando o tema “Um basta na corrupção”, promovido pelo Instituto de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp) e solicitado pelo Deputado Estadual Fernando Hugo (ao qual fizemos questão de comparecer).
Além do próprio, dentre os componentes da eclética mesa figuravam: a jornalista Adisia Sá, o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza Tim Gomes, o jurista Almir Pinto, a conselheira do TCE Soraia Vitor, o presidente da OAB-CE Valdetário Monteiro, o representante do Ministério Público promotor Romério Pinheiro, o bispo emérito de Limoeiro do Norte Dom Edmilson Cruz; o procurador-chefe da Fazenda Nacional Luiz Martins e o Deputado Federal Raimundo Gomes de Matos, que foram unânimes em condenar, sob aplausos, o atual estágio de corrupção vigente no país.
Vale ressaltar o reconhecimento de quase todos para com a presidenta Dilma Roussef que, segundo Tim Gomes "...dá exemplo à sociedade com a demissão sumária de ministros envolvidos em atividades irregulares”; já a jornalista Adísia Sá foi direto ao ponto, ao contundentemente declarar: "Fala-se muito de combate à corrupção. Por que não se diz onde estão? Estou cansada de ouvir a mesma coisa. Temos que dar o nome dos responsáveis. Apontar nomes, provar e punir", cobrou Adísia, elogiando a presidente Dilma Roussef, "...que já pôs na rua vários ministros. Isso é um exemplo para governadores e prefeitos".
A surpresa, entretanto, deu-se quando a palavra foi facultada a algumas pessoas que antecipadamente se haviam inscrito. Foi então que, o Deputado Estadual Moésio Loiola surpreendeu (agradavelmente) a todos. Após as saudações de praxe, manifestou seu profundo desconforto com as recorrentes acusações assacadas contra os políticos em geral e os componentes do legislativo estadual, em particular (embora nas as desmentisse), mas que estariam sendo injustiçados e, dirigindo-se diretamente ao presidente da OAB-CE Valdetário Monteiro, - olho-no-olho - chamou-o de querido, simpático, inteligente, mas...
Mas que ele tomasse providências (e urgentes) porque o poder Judiciário pouco diferia dos poderes Executivo e Legislativo em matéria de mordomia, nepotismo, fisiologismo e que as maracutaias são tantas que tornam praticamente impossível identificar os envolvidos; acusou peremptoriamente (com todas as letras, pontos, vírgulas, acentos e exclamações) a existência de desvio de conduta, fraude, estelionato, negociação de sentenças, venda de liminares, manipulação na distribuição de processos, grilagem de terras, favorecimento na liberação de precatórios, contratos ilegais e malversação de dinheiro público e – muito mais grave - que tinha conhecimento, de fontes fidedignas, que muitos juizes não se davam ao trabalho de sequer ler os processos, manusear os autos, a fim de emitir as sentenças respectivas, dependendo do figurão que estaria por trás e da propina liberada.
Não é preciso dizer que foi aplaudido de pé. Surpreso, o presidente da OAB-CE Valdetário Monteiro (que já houvera usado da palavra) pediu e conseguiu replicar (ou treplicar) e, entre “tapas e beijos, morde e assopra”, os dois se comprometeram a ter uma conversa esclarecedora, a posteriori.
Você, aí do outro lado da telinha, acredita que mudará alguma coisa ???
Ou será que os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) que se rotulam de autônomos e independentes, aqui se igualam e continuarão, convenientemente, defecando pra humanidade ???
Façam suas apostas.

artwork by LUPIN



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Micróbio - José do Vale Pinheiro Feitosa

José Roberto é professor de odontologia em Recife, escreveu um livro e publicou esta história. O Hélder Gurgel é dentista cearense e repassou-me por via oral, pois não li o livro do Zé.

Vinha o Zé Roberto de Recife para o Cariri onde faria uma Conferência. Lá pelas tantas, em Serra Talhada, param para fazer um lanche numa churrascaria de beira de estrada. Enquanto lanchavam viam numa mesa próxima uma pessoa, no meio da tarde, bem relaxada tomando uma cerveja. Estava com a roupa branca dos profissionais de saúde.

Enquanto o Zé ralava pelos sertões, o colega estava ali num bem bom. Lá pelas tantas o “colega” acabou a geladinha e veio na direção deles e de repente parou e cumprimentou o Zé com manifesta alegria. Sem lembrar-se de quem se tratava, este o chamava professor com orgulho de aluno, o Zé foi levando o desconhecimento em “banho Maria”.

O “colega” estava feliz com a situação vivida, contava ao Zé que tinha boa clientela de odontologia, possuía fazendas e uma boa criação. Estava casado, morando numa mansão digna de coronel do sertão, onde a boa vida se estendia aos seus. E foi neste contato que uma pulga acordou a memória do Zé. Agora sabia quem era o “colega”.

Era o Micróbio. E o apelido do “colega” vem a ser o miolo desta história. Aos eventos.

O Micróbio chegou com a casca grossa dos sertões no primeiro ano da faculdade de odontologia. Com as botas de vaqueiro cheirando a couro cru, um cigarro no bico, protuberância abdominal das cervejas. Estava nas cadeiras básicas da faculdade. Naqueles idos do Micróbio ainda existia prova oral. Com o irascível professor de microbiologia.

O aluno era questionado diante dos colegas, numa prova transparente a todos. Chegou a vez do nosso Micróbio. Ele veio pela sala como um boi laçado resistindo ao laçador. Ao sentar-se na cadeira de examinado, foi como um malho batendo na piçarra das estradas de então.

O professor examina aquele “animal” indócil e os olhos do mestre faíscam de estranhamento. Olhou para a lista com o nome do aluno e quase soletrando cada letra dele, perguntou ao aluno de chofre: O que é um micróbio?

O examinado tomou um susto pela pergunta e logo tratou de puxar um cigarro da amassada e suada carteira de sua blusa manchada.

Não deu tempo e o professor vociferou: O senhor não pode fumar aqui. Pode devolver o cigarro para o lugar de onde veio. O aluno se encolheu um pouco, mas como todo bom sertanejo bateu firme com os dois pés com as botas cheirando a couro cru, como a esperar o ataque do mestre.

O professor subiu um tom no mal estar que aquele matuto lhe provocava e tascou a pergunta: Seu fulano o que é um micróbio?

Silêncio constrangedor na platéia. O pessoal das últimas cadeiras ainda ousou um riso de mangofa pelos cantos da boca. O nosso examinado quase fica escornado com a manobra perversa do mestre.

Um micróbio é....E um grande intervalo a subtrair conteúdo à resposta. O mestre a esperar e o aluno com a voz interrompida por um bolo na garganta. O mestre tenta desatolar a vaca no brejo: Um micróbio é o que mesmo seu fulano?

Um olhar para o teto altíssimo do salão e de lá nenhum caibro a lhe soprar a resposta. Olhou para um lado e para o outro até que o movimento do pescoço parece ter soltado o bolo que interrompia a resposta e de lá ela saiu a penetrar fundo as ouças do professor: Um micróbio é uma coisa bem pequenininha. E fez assim: juntado o indicador e o polegar como a espremer alguma coisa muito pequena. Assim como se mata piolho.

O mestre só faltou saltar da cadeira de indignação e gritou: Pequenininha como seu fulano?!...

O coitado do aluno estava num canto de cerca, cercado pelos dois lados, pelas costas e pela frente. E o mestre com o vozeirão, a faces rubras de ódio, repetiu a pergunta a querer saber o quanto o micróbio era pequenininho.

Animal preso e sem saída não tem outro jeito. É negociar uma saída, baixar o fogo da broca do patrão e dar pelo menos uma franguinha de presente. Foi como o aluno presenteou ao mestre: Assim como um mucuim!

Um mucuim seu Fulano? Um mucuim seu Fulano? Como do tamaaanho de um mucuiiiim?! Se antes o vulcão estava aos estrondos, agora havia entrado em erupção.

Eita com os seiscentos mil demônios! A coisa andava quente pru lado do examinado e ele vai cedendo. É preciso fazer mais concessões aos limites do infinitamente pequeno. E ele foi rápido para vencer o desastre da ira vulcanoclástica: Do tamanho do ôi do mucuim! Se for menor do que o ôi do mucuim, eu não acredito!

Agora o Zé Roberto lembrava-se do causo completo. Ao se despedir do “colega”, o Zé na sua ironia nunca abandonada perguntou-lhe: E o micróbio?

Ao que o “colega” respondeu: Nunca precisei dele!

Quebra de Patentes - José do Vale Pinheiro Feitosa

“A presidente Dilma Rousseff defendeu nesta segunda-feira a possibilidade de o governo brasileiro flexibilizar patentes de alguns medicamentos contra doenças crônicas não-transmissíveis, como hipertensão, câncer, diabetes e doenças respiratórias. A defesa da quebra de patentes foi feita durante Reunião de Alto Nível sobre Doenças Crônicas Não-Transmissíveis, realizada em Nova York. O Brasil respeita os seus compromissos em matéria de propriedade intelectual, mas estamos convencidos de que as flexibilidades aprovadas em Doha são indispensáveis para políticas que garantam o direito à Saúde - disse Dilma.”


As rotas comerciais da antiguidade e as grandes navegações estão na matriz de tudo que a humanidade é atualmente. Este comércio mundial aproximou as culturas existentes e ao aproximá-las ampliou o conhecimento de cada cultura isoladamente. Aquele comércio se tornou a maior troca de conhecimentos sobre a realidade que as culturas isoladas até então desconheciam. Foi quem fundou a cooperação entre as diversas culturas e criou o senso geral do que seja a humanidade.

Por vezes não era uma dinâmica de cooperação, era de conquista, mas o conquistador sempre é transformado pelos elementos do conquistado. A cooperação, a troca, a disseminação de conhecimento entre as diversas culturas é tal que é impossível, a rigor, definir o que seja uma descoberta ou o que seja uma propriedade intelectual.

A chamada propriedade intelectual é um mito do capitalismo para garantir a exploração das pessoas por meio de empresas de produção e financeiras. A propriedade intelectual em que pese o investimento ou o esforço de quem quer que seja nunca é uma coisa isolada. A descoberta é fruto do estoque de conhecimentos já existentes e a novidade é apenas um acréscimo aos esforços de gerações.

Por isso diante do que a ciência conquistou no cuidado com a saúde uma das maiores aberrações da exploração é a patente intelectual em biotecnologia. Na verdade um grupo de investidores se torna uma espécie de Leão de Chácara a cobrar pela sobrevida das pessoas doentes. E com os métodos preventivos é pior ainda: estão cobrando pelo direito à existência.

Acontece que isso só serve para acumular capitais e deixar que tais capitais se tornem verdadeiros cassinos a apostar com o futuro da humanidade. Quem está compreendendo a crise econômica atual tem bem consciência do que estou a dizer. Parte daqueles capitais veio do lucro com a exploração da saúde e a doença das pessoas, especialmente aquelas dos países pobres.

Por isso a conferência da ONU sobre doenças crônico-não transmissíveis tem tamanha importância histórica. Acontece que estas doenças determinam uso continuo de medicamentos e exames e por isso mesmo não podem ficar sob o tacão de agentes do lucro puro e simples. Não existe equação para os problemas das doenças crônico-não transmissíveis como cânceres, diabetes, hipertensão, asma entre outras tantas que não seja pela quebra das patentes intelectuais em biotecnologia.

A posição do Brasil sobre o assunto é um marco histórico e começa a mudar o curso de um velho debate que no âmbito do comércio mundial forçou os países a adotarem medidas leoninas de proteção à propriedade intelectual. Quando a Presidente da República e o Ministro da Saúde advogam a quebra de algumas patentes, estão a rigor, quebrando o mito da propriedade intelectual a qualquer custo.

A racionalidade da ciência é distributiva, cada nova descoberta a melhorar a vida das pessoas deve se tornar um direito de todos. O direito de todos sob pena de que o direito à saúde não seja capaz de ser exercido. A racionalidade da empresa e do sistema financeiro é o lucro e o lucro tem apenas a racionalidade para o que se propõe: acumular riquezas sob as mãos de poucos e alguns.

A posição do Brasil na conferência da ONU tem a racionalidade do bem comum e da qualidade de vida coletiva. Por isso a política e as instituições coletivas como o Estado continuam a ser o que de melhor tem a humanidade, especialmente quando vis-à-vis às chamadas leis de mercado.

Vale conferir – José Nilton Mariano Saraiva

Duas horas e quarenta e cinco minutos de projeção (durante os quais você não consegue tirar o olho da telinha), um roteiro inteligente e uma fotografia soberba. O resultado é um “faroeste” daqueles (só visto nos nossos “tempos de menino”), enfocando a importância da “ferrovia” no desbravamento e afirmação do oeste norte-americano, com seus ônus e bônus (e o mais importante, sem nenhum índio por perto), além de uma novidade em filmes da espécie: a ganância humana e o surgimento do tema corrupção, já àquela época.
Tendo por protagonistas a jovem, belíssima e exuberante italiana Cláudia Cardinale (exalando beleza por todos os poros, embora que discretamente), Charles Bronson (como o mocinho durão, esbelto e praticamente em começo de carreira) e Henry Fonda (como o vilão da trama e numa atuação soberba, com o seu olhar frio e implacável), o filme ERA UMA VEZ NO OESTE é algo de magistral e digno de ser visto por quem aprecia um “faroeste” diferente de tudo que você imagina - inclusive e principalmente o “duelo final” entre os personagens Bronson X Fonda é de arrepiar - quando finalmente Fonda tem a resposta que o incomoda e o persegue durante toda a trama: quem na realidade era Bronson (na realidade, testemunha ocular do assassinato de um irmão, perpetrado por Fonda, lá atrás). De quebra, num segundo DVD, a opinião de consagrados diretores sobre o filme e a história/bibliografia de todos os principais personagens. Vale conferir.

Adendo:

O ator norte-americano Charles Bronson foi uma das vítimas do Mal de Alzheimer. Perto de perder a vida, aos 81 anos, em 2003, o ator de ERA UMA VEZ NO OESTE praticamente havia esquecido a sua identidade e não se lembrava de nada de seu passado como astro de Hollywood.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

AGENDE-SE: TRADUÇÕES CARIRIS EM FORTALEZA E SOUSA-PB!

Estamos na estrada. Dia 21, no Centro Dragão do Mar, a partir das 19 horas. No dia 22, no Mercado dos Pinhões, a partir das 19 horas. Dia 23, no CCBNB-Sousa-PB, a partir das 19 horas. Esta pequena "tournée" está sendo patrocinada pelo CCBNB-Cariri - grandes Lenin Falcão, Tibico Brasil - e pela prefeitura Municipal de Fortaleza.
Esperamos  todos vocês para compartilhar a alegria de cantar as "novas cantigas do povo de um lugar"!
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a borboleta do pântano

O seu cheiro de lama atrai.
É o que diz a minha borboleta do pântano.

Ela não se cansa de cheirar meus cabelos.
Meus braços, minhas costas e orelhas.

Criança doida a minha borboleta do pântano.
Uma fadinha lilás, inteligente e sorriso faceiro.

Um dia ela disse que me mataria na cama.
Tiraria minha pele e venderia no mercado da sua aldeia.

Jurou-me de morte caso eu tatuasse meu antebraço.
Mas ela tem uma tatuagem no tornozelo, uma lira.

A minha borboleta do pântano
quando pousa sobre meu ombro
não quer mais ir embora e vive
sussurrando aos meus ouvidos
que meu cheiro de lama atrai.

Nâo duvido que ela me mate na cama.
Suado ela esprema meu pescoço até
a última gota do meu cheiro de lama.

A minha borboleta do pântano
é um perigo, mas a sua tatuagem
no tornozelo (uma lira) comove-me.

Não sabe ela
que sou eu
um dia

que a sangro
tirando-lhe do tornozelo
aquela tatuagem fantástica.

De que as borboletas do pântano gostam para dormir?
Preciso pesquisar que tipo de vinho misturado a sonífero
ela poderá tomar sem desconfiar do meu entusiasmo
nem do gosto da mistura mágica.

É certo,
dormindo ela
arranco-lhe da pele
aquela tatuagem incrível.

Se ela não conseguir antes, claro
matar-me na cama e espremer meu pescoço
tirando até a última gota do meu cheiro de lama.

O dinheiro e as religiões - Emerson Monteiro


Aonde chegar a mão humana ali ocorrem transformações por vezes desencontradas, e nem sempre para melhor. As mudanças de rumo daquilo visto nos inícios qual valores importantes sujeitam inverter seus objetivos originais. A invenção do dinheiro, por exemplo, demonstra isso com uma clareza meridiana. Em princípio visto qual rara solução para circular a riqueza na sociedade, depois endureceu os corações e gerou graves riscos à paz dentro das famílias e no seio das classes sociais. Parecido até com outro fenômeno que consta do livro bíblico do Êxodo.

Quando Moisés conduzia os descendentes de Abraão através do deserto da Arábia, na saída do Egito, o que durou 40 longos anos de agruras e apreensões, houve momento quando a fome pareceu dominar aquele povo de milhares de pessoas.

Em apuros, pediram a Deus que lhes salvasse da rude provação. Nos dias, então, logo cedo da manhã, passou a cair do céu o maná, um alimento misterioso, com o qual se alimentavam e sobreviveram.

No desejo de garantir os dias seguintes, os judeus quiseram guardar esse pão, e foram alertados de não o fazer. Aqueles que desobedeciam depois apenas achavam restos estragados. Como guardavam o sábado, grãos caídos nas sextas-feiras resistiam bem até o domingo.

Noutro trecho bíblico, Jesus afirma: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

Isto ponderamos em vista dos excessos praticados, na época de hoje, com relação ao desespero de tantos para reter o dinheiro, inclusive no seio das religiões, desvirtuando os propósitos e valores da vida em grupo, isso tão só para chegar ao poder e controlar para si as multidões feitas rebanhos animais. Quantos se perderam feio na jornada do trabalho coletivo por causa dessa fome alucinada do vil metal, e distorcem as bênçãos das riquezas.

Há nisso sérias lições a tirar e modificar as atitudes, no afã de construir o futuro. Porquanto, noutra rara e bela afirmação, Jesus considera: Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?

A ideologia praticada nesta hora, contudo, desvirtua princípios e insufla o culto exacerbado da matéria e dos capitais, iludindo também os dirigentes religiosos e dificultando para muitos a crença dos ensinos eternos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

artwork by LUPIN



o beijo

Fui testemunha da maravilha
que é um beijo demorado
entre um casal de sapos.

Eu vi com estes olhos [que a terra
há de oferecer às minhocas]

a suntuosidade e sutileza das línguas
do moço sapo e da senhorita sapa.

Eu vi com estes olhos [que o mar
há de oferecer aos moluscos]

a sensualidade das pontas
em leves gracejos e toques.

Não há mortal [gente
ou bicho] que beije
semelhante aos dois
anfíbios.

Fui testemunha de cada intervalo mágico
em que as línguas tremiam, suspiravam,
tomavam fôlego e retornavam

só as pontas para que depois
por inteiras sumissem as línguas
dentro daquelas bocas.

Eu vi com estes olhos [que o vento
há de oferecer às calçadas]

o casal estremecido,
as jugulares pulsando,
as glândulas ruborizadas.

Não tem gente ou bicho ou entidade
que beije tal qual o casal de sapos.

É um beijo longo e molhado,
tenro, doce, frenético
e ardente.

Eu vi,
eu juro que vi.

Com estes olhos
que a mim pertencem
por obra e divina graça

nunca cabendo posse deles
às minhocas nem aos moluscos
tampouco às calçadas em noites frias.

Ciência da alimentação ideal - Emerson Monteiro


Em face dos excessos gerados pela indústria, que só prioriza os lucros em detrimento da qualidade de vida e da saúde, mais que antes o cidadão médio precisa desenvolver o conhecimento daquilo que utiliza para se alimentar. Isto, quando bem respeitado, possibilitará tipo saudável e maior aproveitamento da existência. Caso contrário, viver se transforma em um calvário constante à medida que passa o tempo e os resultados, no corpo, do que utilizamos de alimento mostra os seus reais efeitos.

Um tanto dos produtos vendidos em lojas e supermercados não estão próprios para o consumo humano, apesar dos órgãos oficiais assim atestarem. Na verdade, essa propriedade para consumo é relativa ao que a febre do lucro ditar, pois esses cuidados para com os valores da saúde andam afastados de qualquer conceito ideal de alimentação adequada.

Primeiro de tudo, os conceitos alimentares do Ocidente guardam pouca ou nenhuma identificação com a natureza original da vida. Vender sempre foi a lei da tradição alimentar ocidental. Tudo começou quando traziam das Índias as famosas especiarias para comerciar nos mercados europeus, dentro das leis da oferta e da procura do Mercantilismo dominante. A regra básica, pois, seria lucrar a todo custo.

Mudadas as rotas do Caminho das Índias, os impérios chegaram às Américas, e o que trataram de desenvolver, as usinas de açúcar, elaborando substância hoje considerada o principal agente cancerígeno utilizado pelas pessoas humanas, o açúcar refinado, destruidor do equilíbrio orgânico. Enquanto dizimaram as populações nativas, incorporando poucos ou nenhum dos conceitos de uma culinária trazidos no correr dos tempos de uma tradição do uso correto dos elementos naturais, acumulada pelos séculos.

Por isso, os orientais vivem em mais harmonia com a saúde. Buscaram aprender dos antigos o bom uso dos alimentos. Melancólico se entregar aos braços dos industriais e comerciantes sem usar a consciência da boa alimentação, o que evitaria milhares dos males físicos que enchem hospitais e destroem vidas desde o nascedouro.

domingo, 18 de setembro de 2011

A Carmem e Acrofobia - José do Vale Pinheiro Feitosa

A acrofobia não é da Carmem, mas a narrativa é do mesmo personagem que me contou as duas histórias.

Mas pensando melhor o medo de ser Carmem é assim como um medo de altura. Saltar da pose de psicóloga até o abismo dos lenços enfeitiçados no pescoço do moreno sedutor. Com uma dança a oferecer pelas costas o fascínio das montanhas duplas do corpo.

Bem que merece. Uma noite no Teatro Municipal do Rio para ouvir Nelson Freire no virtuosismo de uma audição de piano e orquestra. Um sobrinho para comprar os ingressos. Qual a condição? Eu vou comprar no lugar que posso pagar. Está bem. Ficamos todos juntos!

Algumas garrafas de cachaça transportadas da cidade até o alojamento em chalés num meio semi-rural. Um baile à fantasia e todos juntos. Alto nível. Analisando o contexto do imaginário humano em sociedade. O baile fazia parte do relaxamento após tensas rodas de autoconhecimento.

Ninguém vai ao Teatro Municipal sem uma roupa de gala. Além de tudo era o aniversário dela. E a comemoração acontecia nos salões art-nouveau do teatro com seus candelabros e a elegância dos salões, assentos das poltronas, e belíssimo e iluminado palco.

O fogo da aguardente com a doçura do mel de abelhas surripiado da despensa dos padres. O alojamento era da Diocese. Não existe um drama espanhol que resista a tal cruzamento. A Carmem não estava ali para seduzir apenas um. A todos: fosse em grupo ou com alguma individualidade seduzida.

O lugar a que pode pagar não daria outro. Cadeiras marcadas nas galerias do municipal. Naquelas poltronas laterais quase despencando no abismo da platéia. Ali naquela fronteira em que o corpo treme o drama de saber-se se irá pular voluntariamente ou congelar-se de pavor.

As noites de baile a fantasia abrem, mas o recato feminino procurou o leito para apascentar as dúvidas das cenas vividas. Mas enquanto as companheiras de quarto dormiam, a madeira da cama do chalé ao lado rangia como uma velha caravela no centro de uma tempestade.

Eu sou psicóloga. Eu não vou saltar. Eu sou resolvida, não tenho medo de altura. Mas as leis da gravidade são outra matéria, pertencem à física embora a psicologia entenda as leis da atração. E foi isso que o diabinho dizia: pula. Que psicóloga que nada, abraça-te ao vazio pelo qual tua vida escapa.

Entre o lenho e madeiras rangidas surgiram as conseqüências dos ruídos audíveis. São ais, expressões que pedem mais, um gemido enganador, pois não se fala da dor. E no êxtase do momento naquele chalé, não teve quem compreendesse por que Deus tem que tão ardorosamente ser chamado. Carmem em ação.

Menino pega meu braço e me tira deste abismo. Calma! Calma que nada, eu vou pular, me tire daqui. As mãos geladas, prenúncio da morte iminente, agarraram os braços do sobrinho. E lá vai com ele até os batentes das galerias, ali mesmo de onde a acrofobia permitiu-lhe as notas musicais de Nelson Freire.

No dia seguinte no café da manhã os incômodos das ouças agredidas por tantos rogos a Deus. A palavra mais comentada foi que: mas que coisa mais inconveniente. Um dos seduzidos, o moreno em quem todos apostavam, não levou o troféu da noite e logo tratou de desmentir qualquer hipótese de ménage à trois.

Nelson Freire assistido dos batentes das galerias por uma simples fobia de altura e todas as demais pessoas incomodadas por igual medo desta ligação entre a carne e Deus.

sábado, 17 de setembro de 2011

paixão

Seis cuecas salvam uma alma.
Sobretudo as cuecas
de hoje em dia:

noventa e seis por cento de algodão
e quatro por cento elastano.

Espero que agora
as minhas formiguinhas
não sumam de madrugada

naquela hora em que o braço
involuntariamente busca a amada.

Elas sempre tiveram como desculpa
as minhas velhas cuecas sem elástico.

Diziam que não existia clima.
Que era de doer minha aparência.

Pelo que já pressinto
hoje tardão da noite

amarei enlouquecido
minhas formiguinhas.

Oxalá elas usem
aquele baby doll.

Aquele
vermelho.

CASISMO NO REINO DA LUZ SOLAR

No conhecido Reino da Luz Solar, a hipocrisia, a corrupção e a mentira são as bases da filosofia de governo. O rei, um excêntrico homem de modos finos e trato demagógico, casou-se com uma donzela da Casa do Vento Baixo, fincada em uma das muitas ruas, cada uma com muitas casas, cada casa com muitas vidas.

No início, como ele havia corrompido praticamente todos os pássaros do lugar, distribuindo alpiste importado e gaiolas de luxo, só se cantava hinos em seu louvor. E, aos olhos dos súditos embevecidos, era quase um deus, embora já se proclamasse com tal, em comportamento emplumado e palavrório fútil.

Depois, verificando que apenas na Casa do Vento Baixo chegava comida e bens necessários à existência digna, os moradores de todas outras as casas de todas as outras ruas protestaram alegando que trabalhavam e pagavam impostos, o que lhes gerava direitos de também receberem benefícios. Com grande rapidez e profunda capacidade letal, o rei soprou ventania de inverdades pregando a mentira e o conformismo:

- Se olho para a Casa do Vento Baixo, todas as outras são contempladas. Alegrem-se, pois em ela estando plena de satisfação, as demais vidas das demais casas das demais ruas igualmente estarão. Abracem-se a ela e a ela rendam orações e sacrifícios. Esta é a minha vontade! Este é o destino inevitável...

Depois disso, sentou-se num trono de ouro ornado com pedras preciosas e foi rodeado de bajuladores de todas as estirpes, os quais lambiam-lhe os pés e comiam as pulgas que caíam de seus pelos penteados com pentes de prata por jovens escravos roubados de famílias distantes.

Um de seus fiéis lambe-pés, entusiasmado com o prestígio, insurgiu-se contra os revoltosos e cantou:

- Casistas! Isso é casismo! Todos os moradores de todas as casas de todas as ruas deviam ver que nossa onipotente e onisciente majestade é a face mais límpida da justiça e da verdade. Se os da Casa da Rua do Vento Baixo recebem benefícios é porque fazem por merecer, eles são o centro da metropolização do reino. Que fiquem com o que restar. Recebam o lixo!

Mas a crescente voz de todos os que foram enganados e traídos por Cigomenon II, tirano do Reino da Luz Solar, não se deixou intimidar:

- Não queremos migalhas nem lixo. Exigimos dignidade! Nosso merecimento repousa na democracia e na justiça social. Que o rei cruel devolva nossas instituições, promova a dignidade para todos os moradores de todas as casas de todas as ruas! Estamos fartos de tirania, humilhação e corrupção. Vamos destronar Cigomenon II!

Uma onda de perseguições varreu o reino. Muitos foram queimados na fogueira, outros deportados, outros se venderam...

Em meio a toda a desgraça, haviam os guerrilheiros da frente de libertação. E uma grande e avassaladora insurreição se constrói no coração de todos os decentes moradores de todas as outras casas de todas as outras ruas...

- Vamos destronar Cigomenon II!


Cacá Araújo
Escritor, Dramaturgo e Folclorista
Crato-CE, 17 de setembro de 2011.

Notas

Para Aquiles "Magic Fingers" Sales

Dedos tensos atiram notas
como rajadas de bala
Elas não matam nem ferem
Apenas fazem cócegas

São apenas notas
Sem cifrões
Apenas cifradas

São só notas tocadas
Extraídas da tensão das cordas
Mas que relaxam e gozam
Quando são acariciadas

Dedos rápidos tiram notas
Como um filho apressado
Para tirar o pai da forca

Imperdível!!!


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Por que mudou ??? Mudou por que ??? – José Nilton Mariano Saraiva

“Há tempos o Crato batalha para que o aterro sanitário consorciado da Região Metropolitana do Cariri fique em nosso município, o que traria inúmeros benefícios”.
Este, um dos trechos da matéria divulgada meses atrás num dos blogs da Região do Cariri, tratando de “aterros sanitários” (com o aval positivo do prefeito do Crato), conforme depreende-se da leitura abaixo; num segundo momento, o vice-prefeito do Crato andou pelo sul-sudeste do país, conferindo in loco os “benefícios” que adviriam da implantação de tal instrumento na cidade (também objeto de reportagem do blog, inclusive com fotos).
Hoje, estranhamente, e desdizendo o que dissera antes, a grita é generalizada, todo mundo diz ser do contra, armou-se um verdadeiro circo pra tratar do tema e os cratenses se perguntam atônitos: por que mudou ??? mudou por que ???
No mais, permitimo-nos, ao final, relacionar os “benefícios” (???) que o Crato receberá se aceitar receber tal “presente” (os grifos são por nossa conta).

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(Transcrição – ipsis litteris - de trechos da matéria do blog):

“NE - Os aterros sanitários consorciados são a última palavra em tecnologia de reciclagem de lixo, pois evitam poluir o meio-ambiente. O lixo é colocado em locais onde atravessa inúmeras camadas de diferentes materiais, até ser completamente transformado em substâncias inertes e não nocivas às populações. HÁ TEMPOS O CRATO BATALHA PARA QUE O ATERRO SANITÁRIO CONSORCIADO DO DA REGIÃO METROPOLITANA DO CARIRI FIQUE EM NOSSO MUNICÍPIO, O QUE TRARIA INÚMEROS BENEFICIOS. O investimento é da ordem de 12 milhões de reais, e tem como parceiros o Banco Mundial e o Governo do Estado do Ceará”.
“O presidente do aterro consorciado, Samuel Araripe, prefeito do Crato, afirma que já houve avanços representativos em relação ao aterro consorciado. A parte de legislação do consórcio já está pronta, diretoria constituída, e a parte de legislação já passou pelo Poder Legislativo. O prefeito destacou a dificuldade de escolha do terreno, por conta da legislação, que impede que o aterro seja construído a menos de 20 quilômetros do aeroporto. "Isso dificulta a construção do aterro em Juazeiro e parte do Crato", explica”.
”Segundo o prefeito, a maioria das pessoas ainda tem uma idéia equivocada em relação ao aterro. Ele destaca ASPECTOS POSITIVOS COMO A ECONOMIA DE TRANSPORTE PARA A CIDADE QUE SEDIAR O PROJETO, AUMENTO NA ARRECADAÇÃO DO ICMS ECOLÓGICO E PERSPECTIVA DE CONSTRUÇÃO DE UMA USINA DE GERAÇÃO DE ENERGIA, O QUE JÁ SE TORNA FACILITADO”.
Samuel Araripe define como um grande negócio para um Município sediar: "Espero de fato que saia do discurso para a prática, porque o consórcio foi constituído há dois anos", ressalta. Segundo Samuel Araripe, a filosofia de implantação do aterro é perfeita, mas é importante definir a responsabilidade direta de cada integrante. Há três propostas de gerenciamento: na primeira, os próprios Municípios gerenciam; na segunda, a atribuição fica para o Estado; na terceira, entra o setor privado. "Em última instância, como consorciado, afirmo que O CONSÓRCIO DEVE SER ADMINISTRADO PELOS MUNICÍPIOS”, defende êle.

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Aqui, ALGUMAS VERDADES SOBRE OS ATERROS SANITÁRIOS

01) Há necessidade de um grande investimento para sua implantação e manutenção; 02) A fermentação e digestão da matéria orgânica pelos micro-organismos anaeróbios geram gases altamente nocivos à atmosfera, além do chorume, líquido poluente e mal cheiroso. 03) O material plástico, contido no lixo do aterro, que não é biodegradável, permanece incólume, criando bolsões de gases e condições de deslizamento das camadas componentes do aterro; 04) Inutilização de grandes áreas em locais valorizados próximos às cidades que nunca mais poderão ser utilizados, senão para cobertura verde; 05) Necessidade de investimento em equipamentos pesados como tratores, caminhões e retro escavadeiras para operar o aterro; 06) Elevado custo operacional para cumprir as condições operacionais mínimas obrigatórias; 07) Tempo de uso limitado, obrigando a busca permanente de outras áreas para novos aterros; 08) Poluição da atmosfera pela exalação de odores fétidos num raio de vários quilômetros; 09) Riscos permanentes de poluição dos mananciais subterrâneos; 10) Necessidade de permanente incineração dos gases emanados pelos drenos constituídos principalmente pelo gás metano, vinte e uma vezes mais poluente que o gás carbônico.
Outrossim, há que se atentar que a impermeabilização permanente de um aterro sanitário é uma tarefa de engenharia impossível porque, até a presente data, nenhuma tecnologia criou uma superfície capaz de conter a infiltração de forma permanente. A argila forma uma superfície filtrante, deixa passar água e quem nos garante que o lençol de material, através da ação química ou bioquímica provocada pelo contato com o chorume, escorra ? Um determinado material poderá conter a infiltração da água por algum tempo, porém, mais cedo ou mais tarde esta camada de proteção irá ceder, permitindo a passagem da água que irá transportar os metais pesados contidos no lixo do aterro para os lençóis freáticos. Regiões pobres e carentes em recursos hídricos não podem e não devem correr o risco de contaminar, de forma irreversível, os seus já escassos recursos. Assim, os aterros sanitários são soluções paliativas. Visam apenas camuflar o grande problema do lixo, empurrando-o para as gerações futuras, que terão de enfrentar verdadeiras bombas de retardo, detonáveis a qualquer momento.

Boff(e)


Quinca de Liliosa é um jornalista nato sem nunca ter esquentado nenhum banco de escola. Como bom profissional, corre atrás da notícia e tem uma sincronia enorme com os fatos que narra. Invariavelmente – sabe-se lá como --- esteve presente nos acontecimentos de que faz as reportagens, talvez para que isso dê uma confiabilidade maior às matérias. Não foi coisa de ouvir dizer, vi com esses olhos que a catarata ainda há de cegar ! Por mais de uma vez foi pego no contrapé, constatando-se o incrível dom da onipresença: estava em dois lugares diferentes , no mesmo instante, em que teriam havido dois acontecidos diversos. Claro que, como bom jornalista, Quinca punha tempero na reportagem : aumentava um pouco dali, esticava um tanto dacolá, acrescentava tramas paralelas, sabia perfeitamente que sem um pouco de ficção o jornalismo não é possível.

Semana passada , na praça Siqueira Campos – a difusora de Liliosa – ele me chegou com os olhos brilhando. Trazia uma notícia quentíssima. Controlou um pouco a ansiedade, enquanto esperava que a platéia se formasse ao derredor. Depois, quando já havia córum regulamentar, iniciou a narração. Primeiro, como sempre, fez ar de mistério: “ Sei não ! A coisa é séria, amigos, acho que é melhor não contar! Isso pode trazer problemas para mim!” Acostumados com o prefixo de Liliosa, os circunstantes nem tremeram, sabiam do que era preciso e aí começaram a insistir um pouco. Finalmente o nosso jornalista acedeu, não antes que todos jurassem, de pés juntos, que aquela história não ia sair dali: era segredo de estado. Preenchido o contrato que tinha muitas cláusulas leoninas, Quinca respirou fundo e, após um estudado silêncio perfeitamente teatral, desfiou o segredo, guardado a sete chaves como os dos meninos de Lurdes.

--- O Hospital Regional do Juazeiro está abarrotado de acidentados !

A platéia , imediatamente, armou um ar de incredulidade! Já? E o hospital foi feito num foi prá bater retrato, não? Eles atendem gente , lá? É? Pensei que fosse só um estúdio fotográfico! -- Saltou, ironicamente, o velho Zé Idéia de lá do seu canto!

--- Está cheinho, minha gente, foi um acidente terrível. Pernas quebradas, braços retorcidos, cílios arrancados, silicones pelo chão, perucas prá tudo quanto é lado! Só de plumas, paetês e purpurinas retiraram da porta do Regional mais de três caminhões.Sem falar em 2855 plataformas que os carroceiros carregaram. E os gritos de dor são de dar pena. É ver umas dez ambulâncias com os alarmes ligados! UEMMMMMMMMM!

O que teria acontecido? Perguntaram-se todos. Desfile de carnaval não existe nessa época. Alguma confusão em baile de gala? Mas baile durante o dia, com todas aquelas roupas de noite e logo onde? No Juazeiro? Liliosa mantinha o segredo estrategicamente. De onde teriam saído tantas senhoras prontas, em pleno dia e como fora possível um acidente daquele porte, com tanta gente fina e importante junta no mesmo momento? Aos poucos, Quinca foi revelando o resto da história, como se se tratasse de um strip-tease.

Não, não se tratavam de senhoras em stricto sensum. O acidente, na verdade, acometera um incontável número de rapazes alegres. A platéia, imediatamente, associou à Parada Gay do Juazeiro que iria acontecer naqueles dias. Caíra um carro alegórico? A estátua de São Sebastião despencara de um dos carros no meio das moças donzelas? Teria sido mais um ataque da desprezível homofobia ainda tão presente na nossa sociedade? Liliosa, no entanto, mais uma vez, desfez a interpretação rápida da platéia.

--- A Parada Gay de Juazeiro, amigos, só vai se realizar amanhã, fiquem tranqüilos que todos vocês não perderam , não! Ainda vai ser possível desfilar, viu?

O que teria, então, ocorrido? Como teria sido possível tamanho acidente, nas vésperas do evento? As bichinhas aos berros, chorosas, lacrimosas, cheias de escoriações e hematomas? As roupas de gala aos farrapos? Foi no aeroporto que ocorreu o pavoroso desastre! ---esclareceu nosso jornalista. Um acidente aéreo com os GLTS que vinham para a Parada, imaginaram todos.

Quinca, após um breve silêncio, mais uma vez dissuadiu-os. Não, não tinha sido isso! Depois de um silêncio cientificamente programado, Liliosa, por fim esclareceu a causa da calamidade. Estava mais de um milhão de rapazes alegres no aeroporto regional do Cariri esperando os companheiros que chegariam para a Parada Gay do dia seguinte. Todos foram a rigor e se espremiam , num calor infernal, só aplacado pelos incontáveis leques que ritmicamente flanavam. Junto, havia um pequeno grupo de professores que aguardava a chegada do grande Leonardo Boff que vinha, naquele dia, proferir uma memorável e concorridíssima palestra no Ginásio Poliesportivo. Arapuca estava armada, amigos. Sem ter conhecimento da vinda do teólogo, no mesmo vôo, de repente deu-se o estouro da boiada. As bichinhas saíram em desabalada carreira em busca da sala de embarque e foi um pisoteado só: cílios pelo chão, penas de pavão, silicones, perucas, plumas e paetês. É que , inadvertidamente, uma professora ao avistar o Leonardo que já havia desembarcado e se dirigia à sala de embarque, caiu na besteira de gritar:

--- Vejam, o Boff já vem ali, meu povo ! Ele é lindo !


J. Flávio Vieira