TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Solidariedade feminina ou... "a posição" - José Nilton Mariano Saraiva

O grande segredo de todas as mulheres com relação aos banheiros é que, quando pequenas, quem as levava àquele recinto era a própria mãe. Ela ensinava a limpar o assento com papel higiênico e cuidadosamente colocava tiras de papel no perímetro do vaso e instruía: "Nunca, mas nunca mesmo, sente em um vaso sanitário de banheiro público". E, em seguida, mostrava "a posição", que consiste em se equilibrar sobre o vaso sem que, no entanto, o corpo entre em contato com o próprio.
A "posição" é uma das primeiras lições de vida de uma menina, super importante e necessária, e irá acompanha-la por toda a vida. No entanto, ainda hoje, em nossa vida adulta, "a posição" é dolorosamente difícil de manter quando a bexiga está estourando.
Quando você TEM que ir ao banheiro público, encontra uma fila de mulheres que faz você pensar que o Brad Pitt deve estar lá dentro. Você se resigna e espera, sorrindo para as outras mulheres, que também estão com braços e pernas cruzados na posição oficial de "estou me mijando". Finalmente, chega a sua vez. Isso, se não entrar a típica mamãe com a menina que não pode mais se segurar. Você, então, verifica cada cubículo por baixo da porta para ver se há pernas. Todos estão ocupados!
Finalmente, um se abre e você, desesperada, se lança em sua direção, quase que puxando a pessoa que está saindo. Você entra e percebe que o trinco não funciona (nunca funciona); não importa... Você imagina pendurar a bolsa no gancho da porta, mas...não há gancho. Então, você inspeciona a área. O chão está cheio de líquidos não identificados e você não se atreve a deixar a bolsa ali; então, você a pendura no pescoço mesmo, enquanto observa como ela balança sob o teu corpo, sem contar que você é quase decapitada pela alça porque a bolsa está cheia com os 50 kg de bugigangas que você foi enfiando lá dentro, a maioria das quais você não usa, mas que você guarda lá, porque ...nunca se sabe, né ???
Mas, voltando à porta... Como não tinha trinco, a única opção é segurá-la com uma mão, enquanto, com a outra, você abaixa a calcinha com um puxão e se coloca "na posição". Alívio...... AAhhhhhh.....finalmente...
Aí é quando os seus músculos começam a tremer ...Porque você está suspensa no ar, com as pernas flexionadas e a calcinha cortando a circulação das pernas, o braço fazendo força contra a porta e uma bolsa de 50 kg pendurada no pescoço. Você adoraria sentar, mas não teve tempo de limpar o assento, nem de cobrir o vaso com papel higiênico. No fundo, você acredita que nada vai acontecer, mas a voz de tua mãe ecoa na tua cabeça "jamais sente em um banheiro público!!!" e, assim, você mantém "a posição" com o tremor nas pernas... E, por um erro de cálculo na distância, um jato finíssimo salpica na tua própria bunda e molha até tuas meias!! Por sorte, não molha os sapatos.
Adotar "a posição" requer grande concentração. Para tirar essa desgraça da cabeça, você procura o rolo de papel higiênico, maaassss... puuuuta que o pariuuuu...! O rolo está vazio...! (sempre).
Então você pede aos céus para que, nos 50 kg de bugigangas que você carrega na bolsa, haja pelo menos um miserável lenço de papel. Mas, para procurar na bolsa, você tem que soltar a porta. Você pensa por um momento, mas não há opção...E, assim que você solta a porta, alguém a empurra e você tem que freiá-la com um movimento rápido e brusco, enquanto grita, OCUPAAADOOOO!!!
Aí, você considera que todas as mulheres esperando lá fora ouviram o recado e você pode soltar a porta sem medo, pois ninguém tentará abri-la novamente (nisso, as mulheres se respeitam muito) e você, enfim, pode procurar seu lenço sem angústia. Você gostaria de usar todos, mas quão valiosos são em casos similares e você guarda um, por via das dúvidas.
Você então começa a contar os segundos que faltam para sair dali, suando em bicas, porque você está vestindo o casaco, já que não há gancho na porta ou cabide para pendurá-lo. É incrível o calor que faz nestes lugares tão pequenos e nessa posição de força, que parece que as coxas e panturrilhas vão explodir. Sem falar da porrada que você levou da porta, da dor na nuca pela alça da bolsa, do suor que corre da testa, das pernas salpicadas...
Heroicamente você resiste a tudo, já que prevale a lembrança de tua mãe, que estaria morrendo de vergonha se te visse assim, já que sua bunda nunca tocou o vaso de um banheiro público, porque, "você não sabe que doenças você pode pegar ali".... Você está exausta. Ao ficar de pé, você não sente mais as pernas. Você acomoda a roupa, rapidíssimo, e tira a alça da bolsa por cima da cabeça!...Você, então, vai a pia lavar as mãos.
Está tudo cheio de água, então você não pode soltar a bolsa nem por um segundo. Você a pendura em um ombro, e não sabendo como funciona a torneira automática, você a toca até que consegue fazer sair um filete de água e estende a mão em busca de sabão. Você se lava na posição de “corcunda de notre dame” para não deixar a bolsa escorregar para baixo do filete de água.... O secador, você nem usa. É um traste inútil; então, você seca as mãos na roupa porque nem pensar usar o último lenço de papel que sobrou na bolsa para isso. Você então sai..
Sorte sua se um pedaço de papel higiênico não tiver grudado no sapato e você sair arrastando-o; ou pior, a saia levantada, presa na meia-calça, que você teve que levantar à velocidade da luz, e te deixou com a bunda à mostra!
Nesse momento, você vê o teu carinha que entrou e saiu do banheiro masculino e ainda teve tempo de sobra para ler um livro enquanto esperava por você. "Por que você demorou tanto?" pergunta o idiota. Você se limita a responder: "A fila estava enorme"
E esta é a razão porque as mulheres vão ao banheiro em grupo. Por solidariedade, já que uma segura a tua bolsa, outra o casaco, a outra segura a porta e assim fica muito mais simples e rápido, já que você só tem que se concentrar em manter "a posição" e a dignidade.

Autor: desconhecido

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