TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Escutando o barulho que vem lá do porão! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ota Benga.

Enjaulado no Jardim Zoológico de Nova York. Junto com macacos. Exposto à visitação pública. Andando pelo bosque do Zoológico e perseguido por uma multidão curiosa. Que, por vezes, lhes dava rasteiras apenas para se divertir.

Fora aprisionado na sua tribo de origem. Pigmeus. No meio das florestas tropicais da África. E transportado a Nova York sob o manto da hegemonia branca, que incrivelmente se tomava ares de ciência. Usando até mesmo a teoria da Evolução das Espécies de Darwin.

Segundo este preconceito travestido em ciência, ali, enjaulado, estava o elo perdido entre o macaco e o humano. E no “cavalo de pau” mirabolante das ideias que devastam a desumanidade estavam figuras destacadas da sociedade americana, mesmo nortistas, que diziam: ser os negros uma espécie diferente, “uma raça degradada e degenerada”.

Grupos de igrejas evangélicas negras, por dentro do mesmo cristianismo branco e europeu, mas com especificidade política em superação de suas condições sociais protestou contra o enjaulamento de Ota Benga. Isso abriu um grande debate entre a mídia reacionária do país e estes setores.

Durante meses prevaleceu o “direito” dos diretores do museu de enjaular o pigmeu junto aos macacos. Mas a opinião pública virou, inclusive porque até mesmo setores do sul racista ironizaram a vestal Nova York e o jovem foi entregue para adoção por um orfanato da igreja cristã negra.

Finalmente Ota foi entregue a uma família na Virgínia, no interior, onde brincou com as crianças. Aprendeu inglês. A religiosidade deles. Ensinou coisas às crianças. Foi se desenvolvendo nos preceitos da “civilização americana cristã”.

À proporção que foi chegando à adolescência, era uma criança pigmeia quando fora aprisionado, Ota foi sendo tomado por um profundo banzo. Uma fossa de nostalgia que apenas terminou com uma bala no coração, dentro de um galpão cinza e degradado que ficava no outro lado da rua onde morava.

Toda esta miséria humana formada por vestais do pensamento humano. Que se tomam de poderes para demonstrar olhos de fogo e pelos seus dedos lançarem raios destruidores do desamor ao outro. A loucura que transforma seres humanos em bonecos de retalhos.

Retalhos de ideias incoerentes e contraditórias. Apenas balas raivosas que, por vezes, resultam em adolescentes que fulminam os outros com armas de fogo.   

Porque estamos falando dos nossos pensamentos, palavras e atos. Todos exposto em público nesta rede de comunicação interpessoal. E para um país com predomínio de cristãos, com frequência figuras que junta fé com preconceitos, dogmas com copos de fel e jamais compreenderam sequer o que diz o Novo Testamento.

São personagens mais do mundo amorfo de uma confusão do que propriamente compreensivos cristão das palavras de Paulo: “Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine”.

São personagens perplexas diante do Papa Francisco, que disse aos repórteres que levava consigo a escultura do Padre Espinal (assassinado pela direita boliviana) da foice e martelo com o cristo em cima. Levava e compreendeu a escultura como o espírito de uma época a teologia da libertação.

E mais do que as pedras que se imaginam irremovíveis disse o Papa Francisco ao se referir às suas declarações: “Às veze, vêm notícias que tomam uma frase e ainda fora do contexto. Sim, eu não tenho medo, simplesmente digo: olhem para o contexto! Se eu erro, com um pouco de vergonha, peço desculpas e vou em frente.


Finalmente um papa Humano. Que admite o erro, se desculpa, mas não desiste de seguir em frente.   

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