TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Foto-vídeo/reportagem : Noite boêmia no Rio de Janeiro!
Vi filmes, exposições, peças de teatro. Bebi todas nos botecos e bares da Lapa. Fui ao Maracanã vê o "mengão" jogar, ao Corcovado e seu Cristo de Braços abertos...Mas o que fiz de melhor foi montar o blog CaririCult.
A gente se vê!
domingo, 26 de agosto de 2007
Gênios da Música Moderna - Herbie Hancock
"Só há um Herbie Hancock no mundo. O resto é imitação da coisa real"
Chick Corea - 1979
Uma pequena homenagem a um dos criadores da música eletrônica moderna.
Praticamente, o inventor do Fusion, que é a mistura do Rock com o Jazz!
É até desnecessário frisar a importância de Herbie Hancock no panorama da música moderna ocidental.
Herbie conseguiu alterar a história da música, e influenciar não só a sua geração, como formou escola, e em praticamente todos os países do mundo, músicos de diversas correntes e estilos musicais o têm na conta de Ídolo. Tanto pelas inovações no Jazz/Rock introduzidas já na banda do Miles Davis, que o descobriu, seja nos seus trabalhos solos, em que juntamente com Miles, firmou o gênero Fusion, que serve até hoje de substrato para todas as grandes produções musicais eletroacústicas de vanguarda.
Nesse vídeo de 1975, Herbie Hancock, improvisa em uma de suas mais conhecidas composições, Cameleon, e já demonstra idéias musicais melódicas e acordes de substituição que só viriam a ser absorvidas por outros, décadas depois. Aliás, diga-se de passagem, Herbie foi talvez o primeiro a compor uma música baseado em Harmonia quartal, bastante conhecida, chamada "Mayden Voyage". E seja no piano elétrico, como no acústico, está sempre inovando e seus trabalhos estão anos-luz de distância. Geralmente incompreendido mesmo pela crítica especializada, seus trabalhos só conseguem ser melhor apreciados, às vezes anos depois de ter sido realizados. Seu "swing" e toque balançado se tornaram uma marca registrada.
"Não é que o som do Herbie parece com a música dos anos 70 e final dos 60. O som da década de 70, com a black music, o balanço, o uso de sintetizadores, é que veio com o Herbie Hancock. Depois, o mundo simplesmente o seguiu! "
Dihelson Mendonça
Herbie Hancock
Herbert Jeffrey Hancock nasceu a 12 de abril de 1940 e começou a tocar piano com sete anos; logo se tornou um prodígio, ao solar o primeiro movimento do concerto de piano de Mozart com a Sinfônica de Chicago aos 11 anos. Depois de estudar na Faculdade de Grinnell, Hancock foi convidado por Donald Byrd em 1961 para integrar o seu grupo em New York; logo em seguida a Blue Note lhe ofereceu um contrato para gravar o seu primeiro álbum "Takin Off". Em maio de 1963, Miles Davis o convidou para participar de seu quinteto e por lá ficou durante cinco anos, tempo esse em que absorveu as influências do mestre, deixando o piano acústico e aderindo ao piano elétrico Rhodes. Ao mesmo tempo, sua carreira solo continuava na Blue Note, criando composições sofisticadas para os álbuns "Maiden Voyage", "Cantaloupe Island", "Goodbye to Childhood" e o primoroso "Speak like Child". Ele também gravou em muitas sessões produzidas por Creed Taylor e elaborou sua primeira trilha sonora para o filme "Blow Up" de Antonioni.
Tendo deixado a banda de Davis em 1968, Hancock gravou o álbum funk, "Fat Albert Rotunda" e em 1969 formou o sexteto Headhanters, grupo de jazz-rock que utilizava desde o sintetizador de Patrick Gleeson até os seus Echoplexed, piano elétrico e clavinet, instrumentos que tornaram as gravações mais espaciais e ritmicamente mais complexas, criando um espaço bem personalizado na vanguarda musical. No grupo, todos os nomes dos músicos foram vertidos do inglês para o africano (Herbie era Mwandishi). Em 1973 Hancock se separou da banda e passou a estudar o budismo, tendo como meta final tornar as platéias mais felizes.
Hancock gravou vários álbuns eletrônicos com qualidade superior nos anos setenta, mas se recusou a abandonar o jazz acústico. Depois de uma reunião, os ex-integrantes do Miles Davis Quintet (Hancock, Ron Carter, Tony Williams, Wayne Shorter, com Freddie Hubbard no lugar de Miles) se apresentaram em 1976 no Newport Jazz Festival de New York. No ano seguinte eles excursionaram com o nome de V.S.O.P.O grupo continuou se apresentando esporadicamente até 1992 e depois da morte de Williams em 1997 não existe mais nenhuma possibilidade de um novo retorno.
Hancock continuou seu estilo camaleônico nos anos oitenta: lançou na MTV em 1983 um single "Rockit" (acompanhado por um vídeo notável); lançou em 1986 ao vivo o álbum "Jazz Africa" com o virtuoso músico gambiano Foday Musa Suso; montou diversas trilhas sonoras, entre elas a de "Round Midnight" com a qual ganhou o Oscar; e tocou em festivais e excursões com os irmãos Marsalis, George Benson, Michael Brecker e muitos outros. Depois do álbum tecno-pop de 1988, "Perfect Machine", Hancock deixou a Columbia e assinou um contrato com a Qwest onde fez somente "A Tribute to Miles" em 1992. E finalmente, assinou com a PolyGram em 1994 para gravar jazz pela Verve e álbuns pop pela Mercury. A curiosidade, versatilidade, e capacidade de Hancock continua crescente, sem nenhum sinal de fraqueza, como atesta o Grammy conquistado em 1998. 
Discografia:
1962 Takin Off Blue Note
1963 Inventions and Dimensions Blue Note
1963 My Point of View Blue Note
1965 Maiden Voyage Blue Note
1968 Speak Like a Child Blue Note
1969 Fat Albert Rotunda WEA
1970 Mwandishi WEA
1973 Head Hunters Sony
1977 V.S.O.P.: The Quintet Sony
1981 Quartet Columbia
1986 Jazz Africa (live) Columbia
1993 An Evening With Herbie Hancock and Chick Corea Columbia
1995 New Standard Polygram
1998 Gershwin World Columbia
2002 The Herbie Hancock Box Columbia/Legacy
Fontes: Biografia - Clube do Jazz
Capas e fotos: website oficial: www.herbiehancock.com
Aprenda mais sobre Jazz e Música Instrumental Brasileira. Visite www.portaldojazz.com
.
Por que devemos saber da eternidade dos Mutantes
Porque simplesmente ainda não rolaram músicas tão do caralho. Como a do vídeo acima.
LÃ

Sala em semipenumbra. No centro :um velho divã de um azul gasto , acompanhado de suas inseparáveis cadeiras acolchoadas e carregando a mesma cor esmaecida. No chão, um velho tapete felpudo, de pele de carneiro, abrigando o gato cinza da casa , ferrado num sono tranqüilo, como se sonhasse com um mundo repleto de ratos. Na parede -- de um bege descolorido que já não recordava a última demão-- postava-se uma velha gravura inglesa . Era um lago de água cristalina , envolto por montanhas cobertas por pinhos bem alinhados e salpicados de uma fina camada de neve, tendo no meio um barquinho rústico com um jovem bem vestido na popa, manobrando os remos e, na proa, acomodava-se uma linda mocinha, com um vestido farfalhante branco, portando na cabeça um lindo chapéu da mesma cor e com as mãos segurando uma sombrinha em perfeita combinação com o vestido.O quadro imprimia um ar discretamente sentimentalista à sala. Defronte à porta principal , que ligava a casinha à varanda em “L” , perfilava-se uma cadeira de balanço de aparência antiga, mas muito bem conservada. Nela refestelava-se uma velhinha de cabelos prateados, óculos redondos e a meio nariz e que se balançava delicadamente num pêndulo doce e calculado. Suas mãos, ainda ágeis, manobravam uma agulha que tecia , pouco a pouco, flores arredondadas e em alto relevo. O fio de lã se desenrolava ritmicamente do novelo adormecido numa cestinha de vime posta ao chão, ao pé da cadeira.No colo, a velhinha guardava já um longo fragmento da toalha de mesa que vinha sendo pacientemente tecida há muitos e muitos meses.
O silêncio da salinha era quebrado apenas pelos delicados movimentos dos dedos na lã e pelo ruflar invisível das asas de um beija-flor que assediava sensualmente uma rosa-menina que pendia de um jarro da janela. A mântrica repetição dos movimentos da agulha e da cadeira como que hipnotizava a velhinha. E o sono desenrolou-se como se preso estivesse ao novelo de lã. A cabeça prateada, empurrada pelo sono, recostou-se sobre um dos ombros e a agulha tombou sobre o projeto da colcha.
De repente, o silêncio da sala perturbou-se com um outro som.Um guri nu na inocência dos seus oito meses engatinha pela sala e se aproxima da cadeira da vovó. Ali encontra o fio de lã que ligava , umbilicalmente, o novelo ao promissor início de colcha. Enrosca as mãozinhas no fio e tenta escalar a altura da cadeira, como se se tratasse das tranças de Rapunzel.Mal percebe que o fio não tem sustentação e que à medida que segue puxando, vai, pouco a pouco, desfazendo o trabalho de tantos e tantos meses da avó. Quando desperta, a velhinha atônita se depara com o netinho sorrindo enroscado numa rede que minutos antes havia desenhado um jardim , na colcha que tão cuidadosamente vinha sendo construída.
Na sala só o beija-flor pareceu entender a profundidade da cena que acabara de presenciar. No tear da vida é exatamente assim. O novo sempre é tecido pelas mãos do velho e mal a colcha começa a se desenhar principia o desfazer-se A obra do homem, por mais linda e promissora que seja , tecida com inspiração e transpiração , árdua e demoradamente, se desfaz num fugaz instante . O tempo, engatinhando como um menino, desfaz o crochê da vida continuamente : os desenhos das ilusões, o bordado das esperanças, o macramé do vivido e do por viver. Perplexos o beija-flor e o menino como se perguntam: E o que fazer com este fio de eternidade a atar, indelevelmente, o novelo do desejo à esfacelada colcha do sonho ?
J. Flávio Vieira
sábado, 25 de agosto de 2007
F(r)ases
BlogPoem - Ninguém é Comum...

Enganando entre a dor e o Prazer
Sou um homem comum, qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer como um homem comum
Mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto a guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum e eu sou ninguém
No meio de tanta gente de repente vem
Mesmo eu no meu automóvel no trânsito vem
O profundo silêncio da música límpida de Peter Gast
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum, qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei-de viver e morrer como um homem comum
Mas o meu coração de poeta projecta-me em tal solidão
Que às vezes assisto a guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum e eu sou ninguém
No meio de tanta gente de repente vem
Mesmo eu no meu automóvel no trânsito vem
O profundo silêncio da música límpida de Peter Gast
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast, o hóspede do profeta sem morada
O menino bonito Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção do meu rock'n'roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum
Peter Gast, Caetano Veloso
Foto: Há dias assim. Autor: Pedro Moreira. www.olhares.com
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
BLOW UP

"Vivemos uma época na qual, segundo Lévinas, o ontem agoniza e o amanhã balbucia; uma época que se caracteriza fundamentalmente por transições, translocações, desvios, complexidades, em resposta à crise de fundamentos, de alicerces e de representações que estamos experimentando, pelo menos desde fins do Século XIX. Eu chamo o Século XX, em termos culturais, de século da descoberta radical da temporalidade, em todos os níveis: após a falência das representações e totalidades pretensas de sentido, trmos de nos voltar incisivamente ao propriamente essencial -- a vida em todas suas facetas -- se quisermos sobreviver a graves situações socio-ecológicas que nós mesmos gestamos.

Mas há que se fazer uma destinção clara: temporalidade -- a emergência do novo, do inusitado, do outro, enfim, em nada se confunde com cronologia, com a vontade de ordenação do que é, em última análise, não ordenável. Trata-se, portanto,de uma era de desconstrução do fixo e de desordenação das lógicas de rigidez mental. Neste sentido -- e aí só os experts no assunto podem asseverar se minha suspeita tem algum fundamento -- os novos parâmetros da ciência contemporânea, ao abrirem determinados âmbitos de imponderabilidade, de variabilidade não-(pré)visível, acabam por materializar, na exploração do empírico e na consequente elaboração de hipóteses e teorias tradicionais, por se articular com esta transformação, em última análise, de nossa prórpia concepção do real."Ricardo Timm de Souza
Blog Poem

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
p leminsky
A Decadência Cultural no Brasil - Espírito de uma Era !
"VESTIBULAR FUVEST 2050 - PROVA DE LITERATURA BRASILEIRA"
>1. Leia o trecho do poema abaixo e responda as questões:
>
>"O JUMENTO E O CAVALINHO ELES
>NUNCA ANDAM SÓ
>QUANDO SAI PRA PASSEAR LEVAM A
>ÉGUA POCOTÓ
>POCOTÓ, POCOTÓ,
>POCOTÓ, POCOTÓ
>VAI LACRAIA
>POCOTÓ, POCOTÓ, POCOTÓ,
>POCOTÓ"
>
>(Eguinha Pocotó, Mc Serginho, 2003)
a) A forma adotada pelo autor do texto leva o leitor a uma
reflexão crítica acerca de alguns elementos do estilo
literário da época, ao mesmo tempo em que insere temáticas
dotadas de valor universal. Assinale a passagem em que
o autor expressa com maior intensidade este dualismo.
Identifique a figura de linguagem adotada.
b) Ao idealizar em um mesmo patamar, personagens que até o
momento só haviam sido tratados com a devida separação de
classes, coloca o autor o "jumento e o cavalinho" como uma
paródia da realidade social do país na época. O
brilhantismo desta visão crítica é destacado por expressões
que para um leitor menos atento podem parecer erros
gramaticais, mas que na verdade geraram uma nova
aplicabilidade da língua portuguesa. Identifique estes
trechos e as inovações gramaticais por eles introduzidos.
c) Eleita como acompanhante nos passeios dos dois
protagonistas, a Égua Pocotó rompe a solidão até então
predominante no panorama urbano estabelecido. Mais do que
um triângulo amoroso convencional, o autor atribui aos
personagens um status que transcende a natureza metafísica
convencional.
Emerge então o caráter feminino, no auge de sua auto-
afirmação como contraponto ao pansexualismo. Descreva o
papel da Égua Pocotó como elemento de instabilidade no
equilíbrio social do início do século XXI.
d) O texto de Mc Serginho, precursor do movimento
literário-cultural denominado pocotoismo, propõe uma nova
métrica e abordagem ao texto poético.
Alguns críticos da época chegaram a compará-lo à "pedra no
caminho" de Drumont, um poeta de menor importância no
século XX, injustiça revertida mais tarde com a
identificação da sua efetiva quebra de paradigma literário.
Compare o estilo da obra de Mc Serginho com os autores
clássicos do século XX e justifique a relevância de sua
obra.
...
Assim será...
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Sífiso

Entrou em casa , à noite, como se trouxesse no corpo as feridas de uma batalha. Os dias todos pareciam uma xerox de um só . Trabalho repetitivo de tabelião de cartório, imerso no cofre da fina burocracia: escrituras, registros civis e de óbitos, reconhecimento de firmas. Olhava para aquele mundão de livros velhos e sobrenadava-lhe a certeza: ali , no cartório, estava depositada a vida perdida de várias gerações. Prazeres que não foram desfrutados, viagens que deixaram de ser feitas, felicidade enfim que acabou encarcerada em páginas esmaecidas, aguardando a sanha feroz dos inventários.O estranho é que, com o passar do tempo, aquela inutilidade armazenada nas prateleiras empoeiradas começou a inundar um pouco a sua própria existência, como se seu mundo, de alguma maneira, fosse sendo também aprisionado entre carimbos e certidões. O patrão, rígido, já tinha aquela cara esquisita de formato partilha. Até mesmo o descanso do domingo adquirira uma feição cartorial: ou Faustão ou Sílvio Santos. Sentia-se, como tantos dos seus clientes, um pouco órfão, ausente e interdito. Pois foi com aquela cara de arquivo morto que entrou em casa, por volta das 20 horas. Dirigiu-se para a mesa da sala em busca do jantar, já olhando , com o rabo do olho, a rede que o esperava atravessada na varanda. Estranhamente não viu pratos , nem talhares. Súbito, a mulher saiu do quarto e, sorridente, andou em sua direção.

Estava maquiada, cabelo esticado às custas de uma escovinha de última hora e vestia um longo , preto, ainda com o cheiro da loja. Pensou, rapidamente, que ela devia estar voltando de alguma festinha da escola do filho. Com a barriga protestando, pediu-lhe que servisse o jantar. A esposa franziu o cenho , não deu palavra e retornou cabisbaixa, apagando os próprios passos . Ele recostou-se na rede e ficou imaginando o que poderia ter ocorrido: alguma fofoca de vizinha, um telefonema anônimo, alguma festa em casas de amigos ou na toca daquela jararaca da sua sogra, que havia esquecido ? Antes que chegasse a alguma conclusão, ouviu uns soluços secos que ressoavam a partir das paredes do quarto. Correu para lá e deu com a esposa aos prantos, sentada na cama, com a maquiagem já toda borrada.

Que diabos estava acontecendo ? Achegou-se e perguntou, carinhosamente do que se tratava:
--- O que aconteceu ,Terezinha?Você está doente? Está sentindo alguma dor ?Levantaram algum falso contra mim ? Quer que eu lhe ajude a tirar esta roupa de festa ?
Terezinha , muda, apenas chorava convulsivamente e aumentava o tom do pranto, em uma oitava, a cada nova pergunta do marido. Em pouco , a patroa parecia um soprano interpretando uma ópera desconhecida. Ele achou mais sensato parar e voltar à rede da varanda onde tentou , sem êxito, descobrir o enigma. Adormeceu em meio ao cansaço e a fome e sonhou com uma terra em formato de almofada, assolada por uma tempestade de carimbos. Despertou cedinho e retornou para a tarefa de Sífiso. Não adiantava mexer com aquela sensitiva, ressonando ainda com o vestido da véspera na cama. Ao retornar, à noite, encontrou-a ainda trombuda e só , então, descobriu o erro fatal: esquecera seu aniversário de vinte anos de casado. A esposa o aguardara, ontem, para um jantar a luz de velas e algum presentinho que relembrasse a data. Passara batido. Tentou desculpar-se , sabendo de antemão que para tal crime não haveria perdão, não tinha sursis, era inafiançável : estaria condenado ad eternum .
Tentou minar aquele coração pétreo com afagos, com uma posição diferente na cama, com um almoço arrumado de última hora e um perfume francês. Mas tudo parecia exatamente o que era : uma tentativa vã de corrigir um erro imperdoável. Usou então o argumento derradeiro , deslocou-se até uma floricultura e encomendou um bouquê de rosas vermelhas , aquelas que trazem o cor flamejante da paixão . Junto anexou um cartãozinho dourado , com dois pombinhos ,aos beijos em um dos cantos, e sapecou a cantada em letra bonita, com seu linguajar de tabelião:
“ Para Terezinha,
Meu maior bem móvel.
Amo-te
O referido é verdade.
Dou Fé .
Osvaldo
Depois das flores o clima melhorou um pouco, as coisas foram voltando para o devido lugar. . Qualquer briguinha , no entanto, qualquer arrufo e lá ressuscita o terrível pecado de omissão :
--- Você não lembra, não ? Até nosso aniversário de casamento você esqueceu ...

Aprendeu, tardiamente, que o coração feminino tem arquivos impecáveis e de facílimo acesso. O detalhismo está profundamente entranhado naquelas almas :Terezinha perdoou , mas não esqueceu. Osvaldo comprou agenda eletrônica, marca as datas importantes no calendário sobre seu bureau, usa até a Internet, temendo uma recorrência fatal no mesmo crime hediondo. Contratou até algumas testemunhas que possam falar a seu favor em casos mais melindrosos. Percebe, porém, que como na vida, nos livros de tombo do sentimento não é possível passar procuração e nem substabelecer.
J. Flávio Vieira
Imagens : Salvador Dali
Daniel Peixoto e a Banda Montage

Circula uma nova Revista no Cariri : Zoom Publicitário. Na usa primeira edição traz reportagem sobre a Banda Montage do artista cratense Daniel Peixoto. A Banda foi formada em janeiro de 2005 , em Fortaleza e migrou no ano seguinte para São Paulo tornando-se , segundo seu redator Franklin Lacerda, uma figura recorrente na noite paulistana. O Show da Banda foi eleito o melhor do ano pela conceituada revista SHOWBIZZ . A Banda de eletro rock foi elogiada pela revista como uma Banda que faltava há pelo menos 18 anos no Brasil. A Montage participou dos mais importantes festivais este ano : Abril Pro Rock, MADA, Ceará Music, REC BEAT, MACHINA FESTIVAL, SUPERNOVAS, CAMPARI ROCK. Segundo a revista, a apresentação do vocalista Daniel Peixoto é considerada uma das mais viscerais dos últimos tempos. O CD da Banda " I Trusty My Dealer" será lançado ainda este ano, mas já existe um venil de remixes , lançado na Europa, com grande sucesso. Do Cariri para o Mundo !
Onde Encontrar :
http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=6059
Blog:
www.fotoblog.com/danielpeixoto/23218424
Pelo amor de Manuel

Rejane Gonçalves
Pedro já chegara à eternidade velho. Incomodava-se, talvez por isto, ter que ficar quase sempre sozinho, ele e as mil e tantas chaves tilintando no bolso de seu camisolão, desassossegadas, por terem, elas e Pedro que se desdobrar entre aquele mundo de casa, o cuidado com as almas moradoras e ainda a prestimosa recepção às almas recém libertas do corpo. Não era fácil entender os sumiços, as saídas noturnas do Senhor e muito menos as desculpas, os motivos escusos de que se valia para abandoná-lo ali. Só. Imerso na estúpida brancura desse mar de nuvens.
Hoje, mais do que nunca, lhe parecera pouco convincente, poderia dizer até inacreditável o teor da explicação recebida, tanto que por não ser capaz de ultrajar o respeito encaliçado em sua mente de servo, fez que sim com a cabeça, quando Ele contara com voz mansa, igual se quisesse acalmar uma criança inconsolável, que àquela noite teria de mais uma vez se ausentar.
Moveria seu Espírito feito asas de uma imensa águia sobre a face de todas as águas. Era preciso, dissera, para satisfazer ao amor de uma criatura, na qual, num tempo muito mais distante do que seja qualquer tempo atrás, havia plantado um desejo, uma semente da criação de uma mulher, a mesma que Ele, com a barba por fazer e toda sua competência de Criador, não conseguira terminar. Da primeira vez por causa de uma estúpida preguiça. Da segunda, por tédio, fastio, sei lá. Da terceira vez por não suportar que os olhos, escolhidos para ela, fitassem o Eterno com a intimidade de um irmão gêmeo. Não achava justo olhar para dentro de uma velhice mais velha que a Dele. Era ameaçador. E que portanto ele, Pedro, entendesse. Precisava ir. Estar presente na hora exata de colher o poema na palma da mão.
Zangado, Pedro abriu o pesado portão de ferro, aquele que sempre fora reservado ao Senhor. Viu a túnica branca esvoejante se transmutar em alvas penugens de um pássaro descomunal. Seus olhos já acostumados à repetição desta cena, nela não mais se fixavam. Seu coração – mesmo que ordenasse cala-te, o que vês é puro artifício, magia primária apenas – nunca conseguiu se acostumar. Jamais obedeceria a ordem de Pedro e de novo bateu desgovernado ante a grandiosidade do espetáculo. Cada vez mais descontente Pedro desejou que o poema não ficasse pronto, e se ficasse que o poeta, zeloso de sua criação, conseguisse escondê-la do Criador.
Com o alvorecer, ele ouviria bochichos, veladas notícias das águas da Terra. Aquela foi a noite em que todas serenaram. Adejando sobre elas, o leve tremular das asas de Deus assemelhava-se a um pano translúcido que sobreposto à face das águas, controlasse suas ondulações, regendo o ritmo, suavizando o movimento. Era uma Bandeira hasteada, entregando-se e resistindo ao vento.
(texto escrito após a leitura do poema “Teresa” de Manuel Bandeira)
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
NOITES DE CABÍRIA

O cinema saiu do cinema e foi para a televisão. A orquestra saiu do clube e foi para o CD. A comida da mesa e conservou-se congelada. A bebida estocou-se nas prateleiras entre as quentes e as geladas. O fogo com apenas um botão é um restaurante. A casa virou a saída para a rua. E todos lá permanecem. Poucos chegam ao vão da noite.
- Isso é a violência que afugenta as pessoas da noite. Reúnem-se em casa que é mais seguro.
- Não acho que seja. Não acho mesmo. A casa se aparelhou. O som, o vídeo, a geladeira, as comidas pré-preparadas, as bebidas em abundância. A festa migrou para dentro de casa.
A velha discussão entre a expulsão e a atração para explicar até onde se chegou. O mais pesquisador foi aos detalhes:
- Se estaciono, um flanelinha vem atormentar. Nos sinais os assaltantes espreitam. Nos cinemas o cheiro de pipoca embrulha o estômago e as chupadas nos canudos de refrigerantes clamam um vomitório. Nos restaurantes a espera. Na boite bate estaca e bate bunda. No retorno para casa o tiro de uma arma de fogo pode nos acertar. Então entramos todos num programa de redução de riscos: ninguém mais sai de casa à noite.
Aí as coisas da expulsão. Os motivos pelos quais fugiram das ruas para suas casas. Como a discussão era de dois lados, o outro entra em cena:
- Posso ficar confortavelmente, do jeito que quero e com a roupa que me convém. Ligo o som, posso viajar do erudito ao popular, do canto ao instrumental, posso ouvir uma poesia, deliciar-me com um cantor ou me expandir com um coral. Se desejo, tenho o cinema da noite em múltiplos canais ou então vejo o que quero com apenas um pequena bolacha fina e leve. Janto o que quero, converso com quem quero e bebo até o limite que a luz se desliga. Por quê sair? È melhor ficar.
Enquanto este diálogo ocorria, a velha Lapa se entupia de gente nos bares, no Circo Voador, na Fundição Progresso, seguia com gente em busca das casas da Rua dos Inválidos até a Praça Tiradentes. A cidade se enche à noite nos mesmos lugares como há dezenas de anos. A vida noturna repete-se como necessidade dos espaços abertos, das calçadas e dos labirintos das ruas qual pautas ricas da lira cultural carioca.
Quando outros vão, tantos chegam. Aos bailes Funk sobre os morros em que os traficantes de drogas recebem, pois fora não podem se arriscar. Um louco baile de pura energia sensual, sexual e ritualística. Uma coreografia que explode em centenas como as borbulhas de um caldeirão em ebulição. Repetem-se muitas, inventam-se outras, originam-se algumas. O grande encontro como as noites viradas, reviradas, atravessadas até se espatifar, desmaiado de tanto sono num desastre de trânsito ou nos macios dos colchões de dormir. A festas Rave.
Pois então, a cidade são muitas. Umas que vão e chegam, outras circulam, outras se escondem, há quem se encontre, a solidão cercada de edifícios. Apartamentos conjugados que parecem um universo inteiro na casca de um ovo. Triplex que imitam as Villas do Lago de Como. Capilares são as ruas, com suas válvulas de cruzamento, suas seqüências que seguem e seguem para tão longe que nem se sabe para onde e por qual motivo.
A urbes é tudo que não é, sendo nada do que poderia ser.
- Isso é a violência que afugenta as pessoas da noite. Reúnem-se em casa que é mais seguro.
- Não acho que seja. Não acho mesmo. A casa se aparelhou. O som, o vídeo, a geladeira, as comidas pré-preparadas, as bebidas em abundância. A festa migrou para dentro de casa.
A velha discussão entre a expulsão e a atração para explicar até onde se chegou. O mais pesquisador foi aos detalhes:
- Se estaciono, um flanelinha vem atormentar. Nos sinais os assaltantes espreitam. Nos cinemas o cheiro de pipoca embrulha o estômago e as chupadas nos canudos de refrigerantes clamam um vomitório. Nos restaurantes a espera. Na boite bate estaca e bate bunda. No retorno para casa o tiro de uma arma de fogo pode nos acertar. Então entramos todos num programa de redução de riscos: ninguém mais sai de casa à noite.
Aí as coisas da expulsão. Os motivos pelos quais fugiram das ruas para suas casas. Como a discussão era de dois lados, o outro entra em cena:
- Posso ficar confortavelmente, do jeito que quero e com a roupa que me convém. Ligo o som, posso viajar do erudito ao popular, do canto ao instrumental, posso ouvir uma poesia, deliciar-me com um cantor ou me expandir com um coral. Se desejo, tenho o cinema da noite em múltiplos canais ou então vejo o que quero com apenas um pequena bolacha fina e leve. Janto o que quero, converso com quem quero e bebo até o limite que a luz se desliga. Por quê sair? È melhor ficar.
Enquanto este diálogo ocorria, a velha Lapa se entupia de gente nos bares, no Circo Voador, na Fundição Progresso, seguia com gente em busca das casas da Rua dos Inválidos até a Praça Tiradentes. A cidade se enche à noite nos mesmos lugares como há dezenas de anos. A vida noturna repete-se como necessidade dos espaços abertos, das calçadas e dos labirintos das ruas qual pautas ricas da lira cultural carioca.
Quando outros vão, tantos chegam. Aos bailes Funk sobre os morros em que os traficantes de drogas recebem, pois fora não podem se arriscar. Um louco baile de pura energia sensual, sexual e ritualística. Uma coreografia que explode em centenas como as borbulhas de um caldeirão em ebulição. Repetem-se muitas, inventam-se outras, originam-se algumas. O grande encontro como as noites viradas, reviradas, atravessadas até se espatifar, desmaiado de tanto sono num desastre de trânsito ou nos macios dos colchões de dormir. A festas Rave.
Pois então, a cidade são muitas. Umas que vão e chegam, outras circulam, outras se escondem, há quem se encontre, a solidão cercada de edifícios. Apartamentos conjugados que parecem um universo inteiro na casca de um ovo. Triplex que imitam as Villas do Lago de Como. Capilares são as ruas, com suas válvulas de cruzamento, suas seqüências que seguem e seguem para tão longe que nem se sabe para onde e por qual motivo.
A urbes é tudo que não é, sendo nada do que poderia ser.
José do Vale Pinheiro Feitosa
Parabéns Ariano Suassuna!
Em todo o país, multiplicam-se as homenagens ao grande mestre e ícone da cultura nordestino-brasileira ARIANO SUASSUNA pela passagem dos seus 80 anos bem vividos.Ariano Suassuna nasceu na então Cidade da Paraíba (Parahyba em ortografia arcaica), que hoje é a cidade de João Pessoa, num dia de Corpus Christi, o que acabou por ocasionar a parada de uma procissão que ocorrera no dia de seu nascimento na frente do palácio do governo do estado. Ariano viveu os primeiros anos de sua vida no Sítio Acauhan, no sertão do estado da Paraíba. Aos três anos de idade (1930), Ariano passou por um dos momentos mais complicados de sua vida com o assassinato de seu pai, no Rio de Janeiro, por motivos políticos, durante a Revolução de 1930, o que obrigou sua mãe, Cássia Vilar Suassuna, a levar toda a família a morar na cidade de Taperoá, no Cariri paraibano.
Ainda em Taperoá, Ariano teve conhecimento da morte do seu pai, que ocorreu dentro da cadeia de eventos que sucederam e estavam ligados à morte de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e, como produto destes acontecimentos, sua família precisou fazer várias peregrinações para diferentes cidades, a fim de fugir das represálias dos grupos políticos opositores ao seu falecido pai.
De 1933 a 1937, Ariano residiu em Taperoá, onde "fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral."
Em 1942, já adolescente, Ariano muda-se para cidade de Recife, no vizinho estado de Pernambuco, onde passou a residir definitivamente. Estudou o antigo ensino ginasial (ensino fundamental) no renomado Colégio Americano Batista, e o antigo colégial (ensino médio), no tradicionalíssimo Ginásio Pernambucano e, posteriormente, no Colégio Oswaldo Cruz. Posteriormente, Ariano concluiu seu estudo superior em Direito (1950) e em Filosofia (1960).
Ariano estreou seus dons literários precocemente no dia 7 de outubro de 1945, quando o seu poema Noturno foi publicado em destaque no Jornal do Comercio do Recife.
Na Faculdade de Direito, conheceu Hermílio Borba Filho, com quem fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, "Uma mulher vestida de Sol". Em 1948, sua peça "Cantam as harpas de Sião" (ou "O desertor de Princesa") foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Seguiram-se Auto de João da Cruz, de 1950, que recebeu o Prêmio Martins Pena, o aclamado Auto da Compadecida, de 1955, O Santo e a Porca - O Casamento Suspeitoso, de 1957, A Pena e a Lei, de 1959, "A Farsa da Boa Preguiça", de 1960, e "A Caseira e a Catarina", de 1961.
Entre 1951 e 1952, Ariano volta a Taperoá, para curar-se de uma doença pulmonar. Lá escreveu e montou "Torturas de um coração". Em seguida, retorna a Recife, onde, até 1956, dedica-se à advocacia e ao teatro.
Em 1955, "Auto da Compadecida" o projetou em todo o país. Em 1962, o crítico teatral Sábato Magaldi diria que a peça é "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Sua obra mais conhecida, já foi montada exaustivamente por grupos de todo o país, além de ter sido adaptada para a TV e para o cinema.
Em 1956, afasta-se da advocacia e se torna professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco, onde se aposentaria em 1994. Em 1976, defende sua tese de livre-docência, intitulada "A Onça castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira".
Ariano foi o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Tal movimento procura orientar para esse fim todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, entre outras expressões.
Desde 1990, Ariano ocupa a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Manuel José de Araújo Porto Alegre, o Barão de Santo Ângelo, (1806-1879).
Em 1993, foi eleito para a Cadeira 18 da Academia Pernambucana de Letras, cujo patrono é o escritor Afonso Olindense.
Algumas de suas obras:
Teatro
Uma mulher vestida de Sol, (1947); Cantam as harpas de Sião ou O desertor de Princesa, (1948); Os homens de barro, (1949); Auto de João da Cruz, (1950); Torturas de um coração, (1951); O arco desolado, (1952); O castigo da soberba, (1953); Auto da Compadecida, (1955);
O casamento suspeitoso, (1957); O Santo e a Porca, (1957); O homem da vaca e o poder da fortuna, (1958); A pena e a lei, (1959); Farsa da boa preguiça, (1960); A caseira e a Catarina, (1962); As conchambranças de Quaderna, (1987);
Romance
O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, (1971).
O Rei Degolado, (1976). A História de Amor de Fernando e Isaura
Ainda em Taperoá, Ariano teve conhecimento da morte do seu pai, que ocorreu dentro da cadeia de eventos que sucederam e estavam ligados à morte de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e, como produto destes acontecimentos, sua família precisou fazer várias peregrinações para diferentes cidades, a fim de fugir das represálias dos grupos políticos opositores ao seu falecido pai.
De 1933 a 1937, Ariano residiu em Taperoá, onde "fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral."

Em 1942, já adolescente, Ariano muda-se para cidade de Recife, no vizinho estado de Pernambuco, onde passou a residir definitivamente. Estudou o antigo ensino ginasial (ensino fundamental) no renomado Colégio Americano Batista, e o antigo colégial (ensino médio), no tradicionalíssimo Ginásio Pernambucano e, posteriormente, no Colégio Oswaldo Cruz. Posteriormente, Ariano concluiu seu estudo superior em Direito (1950) e em Filosofia (1960).
Ariano estreou seus dons literários precocemente no dia 7 de outubro de 1945, quando o seu poema Noturno foi publicado em destaque no Jornal do Comercio do Recife.
Na Faculdade de Direito, conheceu Hermílio Borba Filho, com quem fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, "Uma mulher vestida de Sol". Em 1948, sua peça "Cantam as harpas de Sião" (ou "O desertor de Princesa") foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Seguiram-se Auto de João da Cruz, de 1950, que recebeu o Prêmio Martins Pena, o aclamado Auto da Compadecida, de 1955, O Santo e a Porca - O Casamento Suspeitoso, de 1957, A Pena e a Lei, de 1959, "A Farsa da Boa Preguiça", de 1960, e "A Caseira e a Catarina", de 1961.
Entre 1951 e 1952, Ariano volta a Taperoá, para curar-se de uma doença pulmonar. Lá escreveu e montou "Torturas de um coração". Em seguida, retorna a Recife, onde, até 1956, dedica-se à advocacia e ao teatro.
Em 1955, "Auto da Compadecida" o projetou em todo o país. Em 1962, o crítico teatral Sábato Magaldi diria que a peça é "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Sua obra mais conhecida, já foi montada exaustivamente por grupos de todo o país, além de ter sido adaptada para a TV e para o cinema.
Em 1956, afasta-se da advocacia e se torna professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco, onde se aposentaria em 1994. Em 1976, defende sua tese de livre-docência, intitulada "A Onça castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira".
Ariano foi o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Tal movimento procura orientar para esse fim todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura, entre outras expressões.
Desde 1990, Ariano ocupa a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Manuel José de Araújo Porto Alegre, o Barão de Santo Ângelo, (1806-1879).
Em 1993, foi eleito para a Cadeira 18 da Academia Pernambucana de Letras, cujo patrono é o escritor Afonso Olindense.
Algumas de suas obras:
Teatro
Uma mulher vestida de Sol, (1947); Cantam as harpas de Sião ou O desertor de Princesa, (1948); Os homens de barro, (1949); Auto de João da Cruz, (1950); Torturas de um coração, (1951); O arco desolado, (1952); O castigo da soberba, (1953); Auto da Compadecida, (1955);
O casamento suspeitoso, (1957); O Santo e a Porca, (1957); O homem da vaca e o poder da fortuna, (1958); A pena e a lei, (1959); Farsa da boa preguiça, (1960); A caseira e a Catarina, (1962); As conchambranças de Quaderna, (1987);
Romance
O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, (1971).
O Rei Degolado, (1976). A História de Amor de Fernando e Isaura
Recomendo também:
Entrevista realizada pela "Caros Amigos", que você pode acessar pelo link abaixo:
terça-feira, 21 de agosto de 2007
ÍCARO

Olhos fitos na avenida, tudo parecia inimaginavelmente diminuto. Dali de cima, as coisas se desencadeavam em slow-motion, como se à distância a vida não tivesse pressa. Os homens e os veículos se deslocavam lentamente, como se adivinhassem premonitoriamente que a correria é um anzol lançado pelo abismo. Soava, em meio a tudo ,um silêncio grávido e perturbador. Seria essa a idêntica visão que teria desse mundo, quando já não fizesse parte dele? Desfeito o zoom , tudo parecia tão perfeito! As ruas traçavam paralelas e perpendiculares quase geométricas; os carros transitavam com excessivo cuidado e as pessoas marchavam com passos simétricos e aparentemente calculados. Até o mais céptico dos homens , àquela distância, terminaria por concluir que deveria haver um maestro, de batuta erguida, dirigindo, ao longe, aquele espetáculo.

O tabuleiro de xadrez , estendido lá em baixo, com suas casas traçadas e divididas pelos fios elétricos, pareciam aguardar a mão gigantesca pronta a marcar a próxima jogada. Súbito, a aguda simetria da paisagem lhe feriu a alma, como se ,de repente, fizesse um contraponto com seus caóticos conflitos interiores. Aos cinqüenta anos, caminho estreito à frente, os dias todos exatamente iguais , como se clonados por um anjo mau; um casamento que se findara por decurso de prazo mas que teimava em apodrecer no meio do povo; um emprego num Banco onde era ameaçado diuturnamente : "-- Sabe como é seu Ermano, o mercado anda muito exigente, essas máquinas todas fazem o serviço do senhor, com a vantagem de não reclamar e nem Ter cara de ressaca...ou o Senhor produz ou vai plantar batatas! ".

A solução para todos os seus problemas estava bem ali, diante dos seus olhos, alguns poucos segundos e..... Tumm! Resumiria-se tudo na perplexidade curiosa dos transeuntes, nas lágrimas de crocodilo da família, na fingida cara de tristeza do chefe e dos colegas e na tranquilizadora franja do esquecimento. Ali , porém , estava a contemplar a paisagem e o mundo daquela altura parecia tão perfeito, tão harmonioso, que por um momento se afastaram todas as suas amarguras e frustrações , como se a exatíssima vastidão do universo sorvesse suas mesquinhas pequenezes. Fechou um pouco os olhos para recobrar as forças e caminhou em direção ao abismo. Estancou , novamente, quando, como numa miragem, foi despertado: viu surgir no edifício ao lado, num salão de festas de cobertura, um palhaço, puxando a roda com várias crianças e entoando o "Atirei o Pau no Gato".

Como numa projeção de slides, retornou ao aniversário dos seus cinco anos, quando a vida aparecia para ele igualzinho à Casa de João e Maria : paredes de bolo, telhas de chocolate, ladrilhos de bombons. Aquela certamente era a trilha sonora perfeita , para o seu vôo de Ícaro: suas frágeis asas tostadas apelo sol da realidade .

Observou, porém, antes da decolagem, mais detidamente o palhaço, com sua máscara, seu nariz de framboesa e sua maquiagem carregada. Então, foi como se baixasse o santo. Somos todos tantos dentro de nós mesmos, personagens sem conta neste palco da vida..., pensou, se um não vem desempenhando bem o seu papel, elimina-se este personagem, ao invés de incinerar toda a peça e destruir o teatro. Deu meia volta, desceu as escadas. Em casa mandou a mulher à merda, no trabalho mandou o chefe à PQP e só parou quando teve a certeza absoluta que havia suicidado completamente o Ermano. A partir daí, renasceu em meio aos seus eus tantas vezes confusos , loucos , contraditórios, mas redivivos.
J. Flávio Vieira
Perfil da Humanidade...
Quem quiser conhecer o que é a humanidade mesmo, dá só uma olhada nesse link aqui, na parte de baixo, e vai lendo os comentários que as pessoas postaram sobre a matéria publicada:
http://www.mundonegro.com.br/noticias/index.php?noticiaID=101
Foto-vídeo reportagem do 35o. Festival de Cinema de Gramado!
CLIQUE E VEJA!
Oi Salatiel,
O importante é que o filme comece a circular e as pessoas
possam reconhecer a genialidade deste grande poeta do povo brasileiro.
O filme é realmente uma homenagem da nossa geração a um amigo,
a um compadre, a um mestre. Em cada um daqueles fotogramas arranhados e
manchados, de super 8 a 16mm, está um pedaço da nossa história e,
mais ainda, um pedacinho do nosso coração e da nossa vida. Este filme
também é um filme sobre nós que fizemos Por Exemplo, Salão de Outubro, Nação
Cariri e mergulhamos em tantas outras vivências estéticas.
Obrigado pela representação.
Um grande abraço do amigo
Rosemberg
(*) Estive em Gramado-RS (dias 16 a 19/08) para exibir/apresentar o filme documentário Ave Poesia- Patativa do Assaré, de Rosemberg Cariry.
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