TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O dono do palco

Um amigo e companheiro de inúmeras trilhas musicais, Aquiles, divide comigo uma mesma opinião: em se tratando de show, o artista tem que ser dono do palco, não pode pedir emprestado a quem quer que seja. Tem que mostrar a certidão de propriedade. Assim foi Cleivan Paiva no show de abertura do III Festival de Música Instrumental do Cariri, promovido pelo essencial, digo essencial, Centro Cultural do BNB.

Não decorei nenhum nome de nenhuma música. Também pouco importa, uma vez que elas são por si inesquecíveis enquanto composição. Fazia tempo que eu não testemunhava esse mago da guitarra em ação. Que força de improviso, em cima de harmonias complexas e andamentos sobrenaturais.

O trio, formado por Cleivan, João Neto e Demontier Delamoni, respectivamente guitarra, baixo e bateria, exibiram técnica e talento. João Neto em noite especialmente inspirada, com trezentas mãos e uma consciência maior do que a Chapada do Araripe, deu um calor a mais. Convenções, harmonias penduradas, improvisos geniais e climas de pura dinâmica fizeram valer a noite.

O som não estava dos melhores, a guitarra muito baixa, inclusive sendo encoberta pela bateria em alguns momentos mais pirados de Delamoni. Agora baixo e bateria estavam bem mixados, sem brechas de timbres. A guitarra de Cleivan, na primeira música, estava muito abafada pelo excesso de grave, logo corrigida, mas permanecendo um pouco abaixo dos outros instrumentos, o que jamais pode acontecer, se o show é exatamente do guitarrista.

Cleivan é um artista único no cenário musical caririense, rápido, criativo, o riginal e preciso, sem deixar notas espalhadas no chão e sem enganações, sem aqueles clichês ridículos de jazz ou da chamada pegada brazuca, meio samba meio bossa, que tanto enche o saco. Só mesmo o solfejo de voz em cima de algumas melodias, que é completamente redundante e perfeitamente dispensável. Cleivan, esqueça o microfone meu velho.

A guitarra limpa, com o som educado do captador do braço engordado pelos registros graves, parece ser a tônica de mil entre novecentos guitarristas de jazz. Da mesma forma que o fraseado rápido e sem bands ou qualquer outro recurso mais sujo. Cleivan apresenta essas características em seu timbre e em seu fraseado, o que eu particularmente acho um verdadeiro desperdício. Nesse ponto eu sinto saudades do som mais agressivo e mais elétrico dos tempos do Ases do Ritmo. Mas nada que possa arranhar o quadro geral, são apenas preferências.

Cleivan abriu com classe e estilo o III Festival de Música Instrumental do Cariri, comprovando o seu grande momento como instrumentista e compositor. A programação promete grandes apresentações, mas com certeza, a de Cleivan será uma das principais.

O Tesouro do Céu


No que você se dispõe comigo?!
Contando as vidas, na trilha da existência
A ciência dos céus
Os horizontes da vã espiritualidade.

Menina encantada no firmamento!
O que posso eu fazer pra que tu me sejas um pedido
E que se realize, sem que precises também deixar de ser sonho
Eu sempre contei estrelas, mundos e anos-luz de possibilidade
E nunca temi que eu meus dedos nascessem verdades

Teu mapa astral me levou a essa paixão infinda
Dos confins do hemisfério sul, observo o cosmo!
Meu sertão lendário de poesias cadentes.

Um sumério a desbravar desejos sem limites
Um caririense a tragar mistérios, acredite!
Prevejo o futuro D/Cifrando nossos mundos
Em canções que nos brotam do âmago mais profundo

Os que somos, o que fomos
O que desenharemos nas nuvens e além?
Nas constelações?!
O que faremos pra nunca deixarmos de ser elementais?!
Na falta de gravidade, uma gravidez imprevista
Os olhos me saltando a vista
A dádiva mais sutil do universo
A rima mais pueril dos meus versos

Foi o que aprendi em tantos planos vencidos
Evoluindo em danças circulares ethereas
Minha alma que sempre foi tão séria
Hoje sorri cantando em lágrimas
Uma velha canção à capela

NOTICIAS DA SEMANA




MANTENDO A PEDALADA

Na foto ao lado, vemos o poeta Patativa do Assaré ladeado (à esquerda) pelo Padre Joaquim Ivo, pároco de Assaré e por Dom Fernando Panico (à direita). A foto foi feita poucos meses antes do falecimento de Patativa do Assaré, ocorrido em 08 de julho de 2002.


Dom Fernando Panico encontra-se em Guaramiranga, desde o dia 21, pregando o retiro dos frades capuchinhos do Ceará. Retorna na próxima 6ª feira, 25, para iniciar visitas pelas paróquias. Impressiona o ritmo de trabalho do bispo de Crato. É do Padre Andriola esta frase: “Dom Fernando é como uma bicicleta: se parar cai”


UMA BOA NOTÍCIA

Está à venda – nas bancas de revistas de Crato – a edição fac-similar do livro "Apontamentos para a história do Cariri", escrito por João Brígido em 1858. Esse livro foi publicado inicialmente pelo “Diário de Pernambuco”, de Recife, em forma de folhetim, em 1861. Uma 2ª edição veio a lume em 1888 publicada pela Tipografia da Gazeta do Norte, de Fortaleza. Muito provavelmente esta é a primeira publicação sobre a História da Região do Cariri, constituindo-se, portanto, numa verdadeira preciosidade para os pesquisadores, profissionais e interessados na História do Sul-Cearense. A nova edição de “Apontamentos para a História do Cariri” foi feita pela Universidade Regional do Cariri, no início de 2007, mas só agora se encontra à disposição do público. Os interessados devem se apressar por só foram colocados à venda 100 (cem) exemplares.


PINTO MADEIRA 1

O próximo numero do “Jornal do Cariri” que circulará na próxima 3ª feira (dia 29) trará matéria de página inteira sobre Pinto Madeira, o caudilho caririense nascido no sítio Silvério, no sopé da Chapada do Araripe, em Barbalha. Pinto Madeira participou, ativamente, no Cariri, dos acontecimentos da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, esta em 1824. Era monarquista convicto, mas, diferente do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, era rancoroso e vingativo. Esses defeitos lhe acarretaram muitos inimigos.

PINTO MADEIRA 2

Por conta disso, Pinto Madeira foi condenado à morte, num júri parcial – composto por inimigos seus – em 26 de novembro de 1834, numa casa onde hoje funciona o Museu de Fósseis de Crato, na Praça da Sé. Não por crime da sua sedição, mas porque teria, anos antes, ordenado a morte de um parente de um dos jurados. Numa monografia– publicada em 1946– Irineu Pinheiro escreveu: “Morreu virilmente Pinto Madeira. Conta a tradição, ouvida por mim desde menino, que momentos antes do fuzilamento, ofereceu-lhe um lenço para que vedasse os olhos um dos seus mais implacáveis inimigos, José Francisco Pereira Maia. Recusou o condenado a oferta, replicando ter no bolso lenço próprio. Durante anos a fio, fez-lhe promessas o rude povo dos sertões, considerando-o um mártir, isto é um santo”.


POVO MARCADO, POVO FELIZ

Na verdade, o título desta nota ia ser: “É temporada de eleições”. Mas se eu tivesse colocado este título o leitor pularia a nota. Pouca gente iria ler. O brasileiro está de saco cheio com o tema “eleições”... Pobre povo brasileiro. Via de regra ele não vota num plano de governo. Elege sempre a campanha mais bem feita de um candidato maquiado por uma agencia de publicidade. Como nesta República não existe tradição partidária, o povo é obrigado (literalmente) a votar nos candidatos e não nos partidos. Aí está o chamado “Pulo do Gato” para nossos políticos...


ELEIÇÕES PASSADAS

Foi assim em 1986 graças ao estelionato do “Plano Cruzado”. Foi assim em 1989 com o engodo Collor e seu slogan “O Caçador de Marajás”. Na eleição de FHC utilizou-se o “Plano Real” e o mote: “Quem acabou com a inflação vai acabar com o desemprego”, lembram-se? O brasileiro tem memória curta, dificilmente o leitor estava lembrado. Só para encerrar: na primeira campanha de Lula da Silva usou-se o lema: “Quero um Brasil decente”. Deu no deu. Na última, em 2006, os marqueteiros determinaram a retirada a cor vermelha do PT nas propagandas de Lula. Os escândalos estavam associados à legenda. Colocaram um fundo azul que parecia propaganda de margarina com uma frase em letras garrafais: “Lula de novo, com a força do povo”. Tadinho do povo...


CENTENÁRIO DE UM HOMEM DE BEM

Renato Casimiro está organizando um livro para comemorar o centenário de nascimento do empresário Antonio Corrêa Celestino. Este, durante décadas, teve destacada participação na vida social e econômica de Juazeiro do Norte. A obra deverá ficar pronta para a data do centenário, 07 de dezembro de 2008. No livro constarão depoimentos dos quatro filhos de Celestino, notas autobiográficas, um depoimento de Armando Lopes Rafael, amigo do homenageado, além de uma introdução a cargo de Renato Casimiro. Antonio Corrêa Celestino faleceu em março de 1995. Sua vida foi um exemplo de dedicação à comunidade, à Religião Católica pela sua fé inquebrantável e à Pátria pelo ardoroso civismo de que era possuidor.


EM ALTA

Nesta 5ª feira haverá o reinício das aulas no Seminário São José de Crato. São cerca de 60 seminaristas, que participarão antes de um retiro espiritual a ser encerrado domingo, dia 26. As vocações religiosas vêm crescendo no Sul do Ceará.

Cleivan Paiva se apresentou no CCBN - Bravo, Maestro !

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Um belo show aconteceu na noite de ontem no Centro Cultural Banco do Nordeste. O Show do Guitarrista Cleivan Paiva. Muito bem acompanhado pelo contrabaixista João Neto e pelo Baterista Demontier de Lamona, no show foram apresentadas várias composições recentes e os sucessos já consagrados do artista, que está no seu terceiro álbum, e possui mais de uma centena de composições de altíssima qualidade, que de forma alguma pode ser comparada em profundidade musical a muitos trabalhos que se ouve por aí como a "música do Cariri". A música de Cleivan Paiva não é apenas do cariri. É do mundo ! Não é regional. É universal. Um artista que soube polir como poucos, e com grande esmêro a arte da composição para não percorrer caminhos triviais, e atingiu a plena maturidade musical como tão poucos no Brasil. Desenvolveu grande identidade, o que o torna único dentre muitos. Parabéns a esse grande artista, que dignifica o cariri com sua música exótica e ao mesmo tempo tão ubiquitária, que está num pedestal ocupado por pouquíssimos músicos dentro do Brasil musical.


Por: Dihelson Mendonça

NÓS E OS OUTROS

Conta-se, do confronto entre nós e os outros,
sobre uma lado forte e violento, vestido na roupa de um guerreiro,

à procura de um sábio, normalmente um monge, que lhe revele a natureza exata do embate.

- Monge, pede-lhe o guerreiro, ensina-me sobre o conflito entre nós e vocês.

Em toda história, para que o ensino tenha apelo, deve o monge, ser baixo e franzino, de modo que ensina:
- Na minha consciência santa, na altura do equilíbrio de todas as coisas, não posso te reconhecer, apenas existe este estado divino entre mim e o silêncio onisciente.
- Além do mais, lutas por conquistas diárias, enquanto conquistei todas as coisas materiais e todos os caminhos até os céus.

O guerreiro fica atordoado.
Diante de si um homem sem estratégia de longo prazo, sem táticas dos pequenos avanços no terreno.
Mas, sobretudo, um conquistador soberbo e prepotente, nem mais o outropara se confrontar. Apenas existe a solidão auto-suficiente, a autonomia que exclui o outro.

Diante de tanto individualismo junto ao divino, o guerreiro grita:
- “És tu o mais potente outro. O outro que se basta, aquele para qual nós não existimos.És um porta voz do extermínio do outro”.

O monge ficou imóvel. O discurso do guerreiro se transformara em ruído de uma presença incômoda. As metralhas de sílabas resvalavam na couraça blindada de sua paz interior. A cidadela em que se encontrava poderia resistir a longo cerco, pois era feita das mais resistentes rochas que a crosta endurecida das elites históricas soldaram em metamórfica vontade. Eram pedras empilhadas com a argamassa da sabedoria iluminada, que tanto afastam os outros de nós, que se transformam em filósofos de um República Platônica.

O guerreiro apalpou-se para realçar sua presença ali.
O monge nem uma pálpebra tremia.

Se algo existe entre o guerreiro e o monge, não se percebe, sequer um sopro que mova os finos pêlos que o braço tem. Movimentos que existiriam apenas para revelar que os sopros transitam entre ambos.


Uma importante lição encabeça esse tronco entre as pessoas: mais que os espaços em que estamos ou iremos, vigem as categorias insanas entre as pessoas. Entre o guerreiro e o monge uma batuta classifica duas inconciliações, pois reduz momentos adjetivados a substantivos nominais.


A cada instante tomamos decisões sem adjetivações, apenas quando uma vez extraído o sumo decidido, poderemos traduzir o que sentimos e o que os outros sentiram. Por isso a memória, embora um defectivo do movimento que não se repete, uma espécie de salto na agulha de um disco, é tão importante para que um sopro entre nós e os outros ocorra, simplificando, arredondando a quina que rasga o sentimento de todos.


Somos portadores de sensibilidades próprias, de necessidades reservadas, que precisam da compreensão que ao mesmo tempo em que nos faz plural, compõe uma sinfonia harmônica.


Diante de uma situação inesperada, podemos reconhecer o que se esperava.
Assim, quando alguém nos ofende,podemos compreender a ofensa, nos libertando dela ao invés da prisão reacional primitiva que enjaula a vontade ao invés de renová-la.

Visitados pela calúnia, podemos transformar o embuste em pantomima de cenário farsesco .

Quando a injúria for regra da esquina, outros quarteirões poderão ser visitados, mas se é urbi et orbe, mude-se a civilização.

Diante da enfermidade inevitável, poderemos, através do outro, receber a terapia que reduza nosso sofrimento ou retarde a morte precoce.

Ante a morte de um ente querido, faça do teu sentimento o que melhor te convém para expressares que falta lhe fará ou, então, a solidão que clama por companhia.

Surpreendidos por situações, mesmo antes de classificá-la como efeito precoce ou tardio, busque ajustar teu centro ao novo ponto de gravidade.

A decisão é nossa, em companhia dos outros, nada há neste mundo que não a coletividade que se interpenetra, se adiciona e se anula.

Portanto criar é reprodução, mas sob a forma de outros, sob a égide de novos tempos, ao largo de tantos espaços.

Sua vontade é soberana sobre uma malha de pessoas.

Sua intimidade é feita de exterioridade e a externalidade é composta por ações de vontade.

Portanto a preservação da intimidade é espaço analisado e recebe de volta suas manifestações para fora.

Saia para o dia,
se
necessária a noite,
por inteiro.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O BRILHAR DAS GARRAFAS


É sob esse luar, esta luz de mercúrio que me toca...
É sob a harmonia dos bêbados, das bolas do bilhar, do brilhar das garrafas...
Quer hoje nasce este poema turvo e sujo como o sangue na navalha que fere a carne.
Pois carnes são feridas na guerra, na guerra dos olhares calados, calados pela mordaça do desejo e do freio da timidez.
É sob esse luar, que a sordidez do poeta se mostra e seus desejos mais primevos se desencarceram e sorreiem na noite tresloucados como hienas gargalhando do próprio oportunismo.
É assim que as almas se comportam meus caros poetas! Com a brida da educação sobre os instintos. E eu com a face magra, cercada pelas combracelhas groças e barba rala exponho meus desejos na varanda da alma. Para que a brisa possa escorrer seus dedos sobre eles, na esperança que no chocalhar de dentes eles acertem uma vítima qualquer.
Sobre o o dorso de minha alma não há ninguém a conduzir a brida, e nem de brida precisam meus caros instintos.

Meu filho de seis anos brincando

Chegada a hora do sono profundo.
Esquecer os elos e os selos antigos.
Dormir cauteloso no lado mais sombrio.
Buscar algo ou alguém ou assombro.
Não mexer a artéria fina saindo do pulso.
A agulha singela megera nega fogo.
Meu filho ensina aos amiguinhos imaginários
como matar o pai de desgosto.
Odeia as sílabas.
Cilada a outra calçada.
Sempre há uma casca.
Banana ou manga.
Tombo tenebroso ausente o anjo da guarda.
Viu como é fácil facilitar as coisas?
Suma com os fonemas e não volte mais pra casa.
A proteção

Os leprosos estão fora da cidade.
Agora os risos são arreganhados dos lados.
Parede e meia separam os resolutos.
As amantes já não podem provar nada,
Mas no fundo elas gostam desse
Arrepio brusco de chuva nas vulvas,
Podem ser entendidos como lamentos
Indo lentos pelo corredor adentro.

As moedas resguardam o grude.
Elas cultivam os solavancos e histéricas
Copulam metálicas nos bolsos curvos.
Uma mancha se forma bem ao lado
Do papel amarelado em silêncio,
A oração pra sumir diante do inimigo
Foi escrita em tremido e parda.
Agora coleciona mais um obscuro.

Existe uma conferência de pulgas
Sobre a qualidade do sangue em serviço.
As regras são cretinas em suas réguas,
Medem o escondido sem o nulo.
Uma a uma as reticências são sós,
Enfileiradas rumo ao grande futuro.
Mas, por Deus, está tudo bem,
Os leprosos estão fora da cidade.

A ÚNICA HISTÓRIA REAL É A SUA E NO CRATO

Precisa engajar-se num sonho maior? Estudar muito para avançar na vida? Ganhar mais dinheiro para ter os meios que deseja? Precisa conquistar o amor de alguém? Deseja ser alguém muito melhor que tem sido? Tais objetivos e metas ocorrem na imperfeição que é a própria vida. Por isso a humanidade raciocina, tem estratégias animais, acumula conhecimento e busca novas informações. Isso tudo é um valor geral da humanidade. Mas não é exatamente o seu. Não se refere a você especificamente, qualquer que seja seu projeto de vida. Nem por isso será menos humano, apenas que a generalidade pode incluir, mas não inclui a sua necessidade específica. Esta será por sua vontade junto aos outros. Mas mesmo isso não explica tudo. O que explica tudo é o território no qual se acorda, realiza a vigília da vida e novamente dorme. No território é que a vida efetivamente é mais humana.

Por isso nesta manhã de julho, quando a tarde for esgotando o que o dia poderia oferecer e a noite vier, pense que o território do Crato é a verdadeira realidade. É nele e em razão dele que a vida flui. E mais ainda, não deixe por menos a representação política do Crato. Se tiver que criticar os atores do jogo eleitoral o faça como apreensão da realidade não para achar que a realidade é maior que você. A apreensão da realidade sobre o território do Crato é o principal papel da crítica política. Por isso, num sistema político em que a representação é o método, busque aperfeiçoar o método. Isso não se encontra fora de você, isso é o que apenas depende de você. Não tem problema se iguais a você forem insuficientes para qualquer mudança, não existem mudanças sem a formulação da mudança.

Não imagine que o território está fora de você, pois você é tudo que é nele e em razão dele. É claro que existe o território/processo dependente de coisas extraterritoriais, mas mesmo este processo tem nascedouros e sumidouros no Crato mesmo. Por isso não imagine que a degradação ambiental das bacias dos rios do Crato não seja um assunto seu. Ele é e nestas eleições esta questão adquire uma intimidade muito maior com o seu comportamento político. Muito maior do que se costuma imaginar. Especialmente agora que parte dos brasileiros e particularmente dos cratenses, parece ter penetrado num limbo existencial: resume-se a criticar a própria representação que elege. Não é incomum que um ser essencialmente político venha, como numa regressão infantil, se queixando da política ou seja, abdicando de si mesmo, dos outros e do seu território.

O futuro da juventude, que parece uma coisa enorme, uma coisa fora das dimensões do indivíduo comum, não é assim que se dará. O futuro da juventude depende da escola pública, da universidade pública e isso tem tudo a com as próximas eleições municipais do Crato. Ou então, num jogo de representação política as eleições são uma chave prática de entendimento e transformação da realidade. A saúde pública, cada vez tecnologicamente mais cara e complexa, é uma questão municipal. A própria segurança pública também o é. Assim como são as ruas, a iluminação pública, a oferta de água limpa e a limpeza ambiental.

Se a máquina estatal, prefeitura e câmara de vereadores, não são suficientes para tanta complexidade da vida territorial, ampliem-se os mecanismos de construção e controle social. É simples, barato e fácil de fazer. Dar debate, discussão, pode cair em miudezas, tudo isso pode acontecer, mas em todas as experiências coletivas sempre se encontrou uma saída mais eficiente para a aplicação dos recursos territoriais. E isso é tão verdade que humanidade e humanismo são coletivos.

A crônica do Bruxo do Sítio Rosto



As favas brotam airosas
ou
De como ter Chronical Blues no terreiro de casa.

A
qui no Sítio Rosto, a vida amanheceu a mil. A noite de sábado fôra por demais agitada. Cachorros demais, latidos demais. Sem falar que, um sono trêfego (vamos parar de comer à noite), veio compulsoriamente à tona, às 3 horas da manhã. Acordei-me no meio da inesperada passagem da “rasga-mortalha,” que, por três vezes, cruzou o céu de breu, que pairava sobre o Sítio Rosto. Ela voejava rasantemente seu canto fúnebre, rumo às águas poucas e turvas do rio da Cascata. Não tive dúvida: “me apeguei com meu santinho” e perdi o sono de vez.
Às nove da manhã, quando o dia viceja neste meu rincão, não por contraste, é comum fazer um silêncio obsequioso. As mulheres, mães de todos os meninos, galinhas e cachorros, ouvem a sagrada missa pelo rádio e fazem a rotineira bóia domingueira; ou fazem a sagrada bóia domingueira e ouvem a rotineira missa pelo rádio? Decifrar este mistério, quem há-de?
Igualmente importante foi o meu encontro com um grande (apesar do seu menos de um metro de altura), e carinhoso amigo. Tindô (foto acima) falou das coisas que faz. E, como sói acontecer em narrativas profissionais, disse-o ao ainda triste e sonolento, com um misto de entusiasmo e decepção. Otimista, só retive o que ele me confabulou de bom de seu responsável mister. Olha só, aí fui deixando a sonolência de lado e abri bem os olhos, e os ouvidos! E, como era domingo, dia de prazer, fui lascivamente degustando as suas ocasionais observações sobre os tipos, as caras e bocas, os suspiros, os choros, as gafes, as pompas e as circunstâncias que decorrem furtivamente das pessoas no ato do casamento civil. Embevecido pela sua narrativa, fui me dando conta, olhando para a sua pequenez, de como ele se percebe altamente importante, ao realizar o ideal da humanidade de homens e mulheres em torno do casamento. Arrepiei-me, quando ele falou entusiasticamente do orgulho em ser um instrumento de felicidade, por acalentar sonhos de realização social de tantas e tantas vidas. Tindô, atenção namorados, noivos e pretendentes, é juiz de paz, o outrora juiz ordinário ou juiz de dentro. E como esta instância do Poder Judiciário ainda não foi, em muitos lugares, devidamente regulamentada por lei, como manda a Constituição de 1888, finda o seu titular conhecido como “Juiz de Casamento”. É o caso do meu amigo Tindô.
Neste momento da conversa, voltei-me para a História do Crato do século XVIII, mais precisamente a partir de 1755. Nesse ano, em 07 de junho, entrava em vigor a lei que, entre outras medidas, em seus noventa e cinco parágrafos, abolia a tutela das populações indígenas às missões religiosas e determinava a integração do índio à sociedade civil colonial, ao mesmo tempo em que transformava os antigos aldeamentos e fazendas indígenas em vilas. Isto e tudo o que derivou dela – chamada de Diretório dos Índios – estavam consubstanciados na reforma do Estado Português para todas as suas colônias, tendo a frente o poderoso Sebastião José de Carvalho e Melo – o Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal –, Ministro e Secretário de Estado e Negócios do Reino, no reinado do caridoso D. José I.
Vem daí que a Missão do Miranda, em 1764, já destituída da missão de catequese recebe o status de Vila Real. Igualmente vem daí que, em virtude de sua grande maioria populacional ser formada por remanescentes indígenas, (cerca de 250 pessoas adultas entre índios e brancos, e mais de oitenta crianças), popularizou-se também como Vila de Índios.
Implantada a estrutura político-admnistrativa da novel comuna portuguesa no coração do que hoje é o Cariri, imagina quem foi o nosso primeiro juiz ordinário?! O Dr. José Amorim, um ilustre e combativo índio da grande Nação Cariri.
Aí eu convido você, leitor, a imaginar, num exercício de comparação, a labuta do pequeno-grande homem Tindô. Saca quantos laços matrimoniais entre índios e brancos, como mandava o Diretório, não foram anunciados pelo nosso primeiro Magistrado José Amorim, num linguajar português/tapuia, já que pela mesma Lei, tornou-se obrigatório o ensino da língua portuguesa, assim como obrigatória foi a proscrição da língua Cariri. E saca quantas esperanças não foram adormecidas na mente daquele filho, outrora senhor das terras cariris, e agora transformado em cidadão português, ao instrumentalizar a união entre duas culturas de valores tão assimétricos.
O mesmo sonho, talvez sempre sonhado por nubentes apressados na eternidade da vida a dois, sob o Dr. Francisco de Assis Carlos da Silva, o anão Tindô, quem sabe, teria sonhado, sob o pretor José Amorim, (esse nosso produto enviesado do iluminismo europeu à la Rousseau), muitos e muitos casais na crença de uma vida que poderia ter sido e que não foi... Mas aí é uma outra estória.
Meu dileto amigo Tindô dirige o Cartório de Registro de Casamentos do Lameiro, sito entre dois botecos, no Largo D. Rosa, em frente à Capela do glorioso São José, nas imediações do Sítio Rosto.
No ano vindouro, o Cartório e a magistratura no Lameiro completarão 70 anos de existência. E haja casamento!
(O Bruxo do Sítio Rosto)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Salmos

Mente por demais caridosa
sempre cai em armadilhas bestiais.
A mão trêmula,
os olhos turvos.
Esse brilho todo é nosso.
Comunga-te com a Verdade.
Os pássaros engaiolados
por cantarem furiosos
não te perdoam o cárcere.
Tu que não vês a tristeza.
Esse brilho todo é nosso.
Comunga-te com o Vazio.
Os objetos silenciosos
quando tu dormes
livram-se eles das vestes.
Que sutileza de covardia
teus sonhos gordurosos.
Mão trêmula,
os olhos turvos.
Toda essa farsa é nossa.
Quanta ausência em tuas palavras.
Lava teus pés sobre o jazigo de teus avós.
Sê homem, canalha.
Sê forte o bastante para permitir ao verme teu coração.
Nada de escarros, teu sangue não é sagrado.
Comunga-te com a noite.
Esse arrepio todo é nosso.
Essas vértebras enferrujadas nossas asas.
Cada uma delas é uma porta que se abre.
Tu morres sempre muito cedo.
O sopro é um tiro enxofre.
Em um piscar de cursor,
debruçarás sobre as teclas.
O vento só leva cinzas de guerreiros.
Comunga-te com a Morte.
Ainda não estás no Hades
mas o ventilador empoeirado
abre suas hélices.
Esse ruído melancólico é nosso.
Que mais desejas, tolo?

FOLHA DE SÃO PAULO, EM 8 DE MAIO DE 2002




SUBSTITUIÇÃO NO STF

Degradação do Judiciário

DALMO DE ABREU DALLARI

Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos
consagrados nos dispositivos constitucionais. Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituiçõese ncarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do
mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da
ética. Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem
sido
afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de
Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o
presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou
ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode
ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal
ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do
Brasil e a toda a comunidade jurídica.
Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero
em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil,
o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso
é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o
povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento
rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e
transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria
sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal,
tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo
depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a
indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto
funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima
vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a
indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado
está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém
seja membro da mais alta corte do país.
É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a
constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental
na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática
de ilegalidades e corrupção.
É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo
especializou-se em "inventar" soluções jurídicas no interesse do
governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se
notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique,
o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União,
aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa
de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas
vezes negada pelo STF, "inventaram" uma tese jurídica, que serviu de
base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em
que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da
União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da
administração que não cumprissem decisões judiciais.
Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do
advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram
fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais,
contra atosde autoridades federais. Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e
tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário
brasileiro é um "manicômio judiciário".
Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros
ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no
"Informe", veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo,
significativamente intitulado "Manicômio Judiciário" e assinado pelo
presidente daquele tribunal, observa-se que "não são decisões
injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral
da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo".
E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr.
Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto
de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na "indústria de
liminares".A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um
problema ético. Revelou a revista "Época" (22/4/ 02, pág. 40) que a
chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$
32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar
Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem
cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito
longe de se enquadrar na "reputação ilibada", exigida pelo artigo 101 da
Constituição, para que alguém integre o Supremo.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir
calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada,
contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo
Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou
"ação entre amigos". É assim que se degradam as instituições e se corrompem
os fundamentos da ordem constitucional democrática.

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Dalmo de Abreu Dallari, 70, advogado, é professor da Faculdade de Direito da USP. Foi secretário de Negócios do município de São Paulo

Música: Morena Samba - Dihelson Mendonça e Haroldo Ribeiro



Para quem não conhece meu trabalho "popular", e para afugentar o estereótipo de "pianista clássico" que alguns têm sobre mim, aqui está uma música minha, chamada "Morena Samba", em parceria com meu grande amigo Haroldo Ribeiro, e a letra de Sílvia Bezzato, belamente interpretada pela cantora paulistana Anna Canário no seu CD: Brasilização. Como músico popular, minhas influências são principalmente o Tom Jobim, o Edu Lobo, e a turma da corrente maior da Bossanova. Mesmo sendo músico do Cariri, meu trabalho é mais universalista, e a bem da verdade, embora valorize o trabalho dos que fazem, não sou muito afeito em nível puramente pessoal, a que o artista caririense tenha que se obrigar a fazer letras e música que falem em mangas e pequis para ser considerado artista caririense. Assim como o cantor João do Crato sempre se reclama de que também, devido a seu nome, as pessoas pensam que por se chamar João do crato, segundo ele próprio: "é esperado que eu suba no palco com um saco de pequi na cabeça e vestido de boiadeiro"... rs rs. Bem, voltando ao assunto, no álbum encontra-se outra música da minha autoria e do Haroldo, chamada "Seu Olhar". Recebi o link do vídeo recentemente da própria cantora Anna Canário, que foi gravado no Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga, e repasso pra vocês.

Abraços,

Dihelson Mendonça
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Vai começar o III Festival da Música Instrumental no Cariri - De 23/07 a 02/08 no BNB - Juazeiro. - Imperdível !!!

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A Hora e a Vez da Música Instrumental no Cariri !
De 23/07 à 02/08 no CCBNB - Juazeiro.



Para quem aprecia a arte da música, não pode perder:
III Festival da Música Instrumental no Cariri

Os grandes nomes da Música Instrumental se encontram no Cariri para um festival que promete ser um verdadeiro "desfile da arte musical", contemplando os diversos estilos da música instrumental, desde a Música Clássica, aos trabalhos Contemporâneos de Música experimental, às composições para grupos, num grande festival de música que já se encontra na sua terceira edição, patrocinado pelo Banco do Nordeste, e que acontecerá no Centro Cultural BNB em Juazeiro do Norte, de 23 de Julho à 02 de Agosto de 2008. Grandes nomes da música instrumental Brasileira estarão presentes. ENTRADA FRANCA.

Programação:

Dia 23, quarta-feira

18h30 Di Freitas (CE) & Pablo Lerner (ARG).

20h Cleivan Paiva (CE).

Dia 24, quinta-feira

18h30 Aerotrio (PB)

20h Jefferson Gonçalves (RJ)

Dia 25, sexta-feira

18h30 Manassés (CE)

20h O Quadro (PE)

Dia 26, sábado

19h30 João Omar & João Liberato. (BA)

Dia 30, quarta-feira

18h30 Trio Sotaque (PE)

20h Pádua Pires (CE)

Dia 31, quinta-feira

18h30 Costinha (RN)

20h Duo Groove & Primata (RN)

Dia 01, sexta-feira

18h30 Duo Pianíssimo (CE)

20h Cássio Nobre (BA)

Dia 02, sábado

19h Dihelson Mendonça & Trio (CE)

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E desde já fazendo minha própria propaganda, O Dihelson Mendonça Trio se apresenta no dia 02 de Agosto, Sábado, às 19:00 no III Festival BNB da Música Instrumental, com:

Dihelson Mendonça - Piano
João Neto - Contrabaixo
Saul Brito - Bateria

Com o show "Quebrando Tudo", de composições autorais, em show elogiado pela crítica e público, apresentado no SESC crato recentemente. Aguardo vocês por lá. Dessa vez não há desculpas para os apreciadores da verdadeira música de qualidade...

Por: Dihelson Mendonça
www.blogdocrato.com
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GARDEL E CHICO VIOLA

Quando tudo começou foi de repente. Ninguém esperava como se espera o dia amanhecer. O leste empalidecendo o azul marinho das noites. Todos os mistérios perdendo a profundidade para a superfície fria de luzes fluorescentes. As incompreensíveis estrelas perdendo o brilho das frases elaboradas, ficando na assistência anônima da multidão que existe, mas ninguém a . Esta alvorada que tanto se espera como se observa o passo a passo de sua evolução.

De repente as mutilações começaram. Dos tecidos lanhados as enchentes desenfreadas por barreiras rompidas. A rede capilar ampliou as possibilidades de derramamento de sangue sobre as areias quentes do meio dia. Queda, inchaços, fraturas, trauma craniano. Um politraumatismo criando novas articulações onde antes era um osso longo.

A dose diária de desastre de motos mudando a vida da juventude no trânsito das cidades. Uma ingenuidade humana e um efeito manada em que a novidade arrasta como um imã a vida pela combustão dos motores. Sobre rodas enlouquecidas nas rotações por minuto em destino de algo vago que não vale a morte e a mutilação.

Os dois maiores ícones da música argentina e brasileira na primeira metade do século XX foram iguais em destino. A indústria fonográfica, em associação com o broadcasting, entronizou reis populares. Carlos Gardel e Francisco Alves. Cada um na música de seus respectivos países. Tornaram-se gigantes dos discos e dos shows populares. Multidões encantadas com o mito moderno que da indústria surgia. Seguramente uma nova maneira de gestar mitos, justamente quando a mitologia clássica se tornara secundária, obsoleta ou objeto de estudos eruditos.

Ambos foram vítimas trágicas de outra "conquista" do século XX. O motor a combustão. Compacto, mais leve, com muito maior potência e capacidade de produzir trabalho por massa utilizada como fonte de energia. Por eles o mais pesado que o ar pôde flutuar e viajar distâncias incríveis, assim como o veículo se tornou portátil para um único condutor.

Ainda nos idos dos anos trinta, precisamente a 23 de junho de 1935 morria em Medelin na Colômbia um dos maiores ídolos da Argentina. Gardel fazia uma tournée pelo país e viajaria para Bogotá. Uma disputa entre dois pilotos foi a causa humana. Um piloto Colombiano e um outro Alemão. O alemão desafiou o colombiano sobre a destreza de vôo. Em seguida ao levantar vôo do Aeroporto do Medelin subiu até uma certa altura para depois voltar e passar rasante sobre o avião pilotado pelo colombiano enquanto este taxiava na pista. O piloto colombiano, abastecido com litros de combustível e transportando vários passageiros, entre os quais Gardel, fez uma manobra de revide, os dois aviões chocaram-se no ar e desceram como bolas de fogo. Todos os corpos carbonizados.

Chico Alves vinha pela Rio-São Paulo, na altura de Pindamonhangaba, em 27 de setembro de 1952 quando seu carro buick chocou-se com um caminhão na contramão. Chico viola morreu no desastre.

E os nosso motoqueiros e velocistas destes veículos que tanto brilham quanto enganam?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

"CAMPANHAS POLÍTICAS"


Tem dias que você não faz nada de “errado”, mas as coisas realmente não dão certo. Ontem aqui no Crato, cidade cheia, cheia de gente querendo curtir as festas (que por sinal nunca vi coisa mais coerente: uma festa agropecuária e o povo mais uma vez como gado) e eu em minha santa casa com apenas duas doses de rum no estômago e a imagem das amigas lindíssimas do meu amigo. Tudo bem, da próxima elas se liberam mais. O cruel é que fui dormir cedo, aliás, tentei, pois dormi mal para C...ralho, acordei como se tivesse bebido todo o vinho do mundo. Passei o dia mal, mas tudo bem. Não era a primeira vez que isso acontecia. O dia em casa quarando nunca me foi estranho, assim como dias sem aparecer para dar as caras também.
A tarde fui ao café e fiquei calado por duas horas ouvindo uma criança que queria ter trinta anos...sei lá, tinha hora que ela me parecia mais velha que a Dercí. Mas ali mesmo vi o início (que na realidade é a perpetuação) do que chamam “campanhas eleitorais”. Um monte de gente com bandeiras ganhando sei lá quando para ficar debaixo de um sol de foder e com um som chato em seus ouvidos, cegos, como a retina de um filme do Buñuel (que esqueci o nome) onde a navalha escorre docemente sobre ela. Aí você pensa: Rapaz, essa coisa não muda nunca? Não, pelo visto não muda mesmo. O que eu acho graça é a cara de pau desses miseráveis saírem na frente de um pelotão de coitados, explorados, semi-analfabetos e acharem que por meio disso sua popularidade sobe, que isso é campanha. Puta merda, imagina o quanto um filho da mãe desse gasta numa campanha, o quanto daria para ajudar...aí você pensa em partir em rumo da horda de explorados e quebrar uma garrafa de rum na cabeça de um miserável desses, mas sei que isso não muda as coisas, ou se mudarem, mudam para pior. O que resta é ver aquele pelotão de fodidos amargarem o fruto da própria ignorância cultivada, aguada e vitaminada por um grupo de homenzinhos medíocres. Eis um fato: A ignorância com ânsia de crescimento e nossos políticos de luvas, bonés, pazinhas e uma lata na mão aguando-a para colher e dar a dentada em seus frutos, com um nobre jardineiro tomando vento na cara de pau que quase sempre tem. Nossos intelectuais mudos, os poetas sem liras, os pintores cegos... todos num coro fazendo um silêncio assustador. Eis um recorte da “cidade da cultura”.

Alfinetes

Perambulei demais sexta.
A lua acomodou-se entre as costelas.
Sequer tinha tempo para tossir.
Demônios santificados pasmos
fugiam dos meus versos.
Alguns tropeçavam
e eram pisoteados.
Outros me abraçavam de longe.
Milagroso o amanhecer:
As chaves no bolso,
identidade amassada.


VIVA LA VIDA EM TOM PASTEL

Depois de percorrerem o mundo, lotarem estádios e embolsarem muito dinheiro, eles se reclusaram, compuseram novo material e lançaram a maior bomba de 2008. Definitivamente a banda Coldplay está configurada como uma banda de um disco só, o primeiro, e algumas faixas esporádicas. “Viva La Vida Or Death and All His Friends ”, segundo o vocalista Chris Martim, faz referência a uma frase de Frida Khalo, que ele achou o “máximo”.

Para esse novo cd, que já vendeu mais de um milhão de cópias, eles convocaram um dos maiores magos da produção do universo pop, Brian Eno, que começou a construir a sua reputação quando ainda era integrante da lendária banda Roxy Music, na década de 70. De lá para cá, Eno tem assinado a sua grife de produção, com o respaldo de parcerias de peso, como Robert Fripp, David Bowie, Carla Blay, John Zorn, entre inúmeros outros, inclusive U2, a matriz sonora do Coldplay.

Eno domina velhas e novas tecnologias, é músico, compositor e arranjador. Mas nada disso adiantou, a estética sonora é a mesma dos tempos de Ken Nelson, em A Rush of Blood to The Head, e em “X&Y”, que é produzido em sua maioria por Danton Supple e algumas faixas por Ken Nelson. Até parece que Eno compareceu apenas com o nome e deixou a sua reputação no hall de entrada do estúdio.

Em “Viva La Vida” o Coldplay não tenta se livrar de forma nenhuma da sombra sonora do U2. Muito pelo contrário, faz questão mesmo de imitar, tal qual uma banda cover. Ao longo de um interminável repertório, a banda desfila o que parece ser uma única composição, com uma mesma melodia e com os mesmos truques vocais. São faixas que não conseguem ser tristes e nem melancólicas, apenas letárgicas. É comum você encontrar nos encartes dos discos da banda, agradecimentos pela compra, pela audição e pela paciência. Nesse deveria vir um pedido formal de desculpas pela completa falta de criatividade.

O som de “Viva La Vida” parece ter vindo diretamente da merdologia dos anos 80, a pior década da produção pop, em que poucas coisas se salvam. “Viva La Vida” é um meio termo entre o pior do Marillion, se é que existe algo bom deles, e uma mistureba de Simple Minds e U2. Acho que Eno chegou antes do que qualquer um dos membros da banda, e gravou uma cama sonora cheia de delays e reverbs digitais, aprontou toda a sua parafernália de processamento digital e esperou a banda.

Até palma tem delay e reverb nesse disco. Existe um exagero de ambiências inexplicável. A bateria foi plastificada em processamentos digitais, aliás, captar baterias nunca foi o forte de Eno. A guitarra é uma chatice pobre de delays, a milhões de distância do leque de timbres de um Jack White, por exemplo. Os teclados eu vou resumir em uma única palavra: merda. Os vocais foram gravados em destaque, anunciando aí uma breve separação.

Alguém precisa dizer para o Coldplay que clima musical não é uma questão de efeitos como chorus, flange, delay, phase e reverb, muitos menos compressores e seqüenciadores; é uma questão de dinâmica, domínio dos tempos musicais, dos andamentos e a da instrumentação. É só pegar qualquer disco de Nick Cave, Tom Waits, Joni Mitchel, Van der Graff ou King Crimson e aprender.

Para os fãs, nada do que foi dito aqui faz diferença. Também não importa. Para quem está de fora, no entanto, esse é um disco completamente descartável. Não existe destaque nenhum nesse disco. Quem conseguir ouvir esse disco de uma sentada só pode ser considerado um ex-combatente do golfo pérsico, cheio de seqüelas auditivas e mentais. Essa é uma bomba com mecanismos sofisticados. Para completar a banda Creaky Boards acusa Chris Martin de ter usado a música “The Songs I Didn’t Write” para fazer a faixa “Viva La Vida”.




Só para divulgar o blog http://peduvido.blogspot.com/

Lançado livro sobre o escultor José Rangel - ou o monumento que o Crato não vê



O assunto já foi muito debatido. Existe em Crato, no desativado Aeroporto Nossa Senhora de Fátima, em plena Chapada do Araripe - a 10 Kms do centro da cidade - um bonito monumento feito pelo escultor José Rangel. O monumento foi feito em 1967 - quando as aparições de Nossa Senhora em Fátima completaram 50 anos - por iniciativa do então prefeito Humberto Macário de Brito. Trata-se de uma estátua de Nossa Senhora de Fátima que hoje está abandonada e não é vista mais, já que o aeroporto não mais funciona. Dezenas de apelos foram feitos para relocaliza-la na cidade, de preferência nas proximidades da igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, ou na Praça da Ladeira da Integração. Afinal, Crato é uma cidade pobre em monumentos públicos. A propósito, o escritor Gilmar de Carvalho vem de lançar um livro sobre o famoso escultor José Rangel. Leia abaixo matéria publicada no jornal O POVO, edição de 19-07-2008, caderno "Vida e Arte":
(Na foto de Carlos Rafael, o monumento existente no Aeroporto de Fátima, ora desativado).
LIVRO
A vida em esculturas
Angélica Feitosa, da Redação
O menino José levou uma surra, daquelas que não se esquece nunca mais. Tinha 12 anos e, para acalmar as agonias, foi passar um tempo com o tio na capital. O motivo do perrengue? Fez um boneco do Judas, para ser escorraçado na Semana Santa, com a cara do avô materno. Do talento do menino brotou semelhança tão atrevida que não tinha quem negasse a inspiração. Das memórias de Jardim, cidade do Cariri a 540 km de Fortaleza, o nome artista José Rangel vem embrulhado em histórias, causos, atrevimentos, boemia e renúncias. "No fundo, isso se reflete na busca do artista dos estereótipos, de que não dá valor ao dinheiro, do caráter boêmio", observa o pesquisador Gilmar de Carvalho, professor doutor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará.

Não conformado com a falta de (re)conhecimento do artista plástico, Gilmar foi responsável por escavar a vida e obra de um dos filhos mais ilustres de Jardim. O resultado está no recém-lançado Rangel Escultor - o artista que veio de Jardim, viabilizado pela Lei de Incentivo à Cultura, da Secretaria da Cultura do Ceará. No novo trabalho, Gilmar de Carvalho chafurda a vida de José Rangel, até onde alcançou. "Pelo que conseguimos remover das camadas da memória, ele era uma pessoa disciplinada, determinada, cumpridora das obrigações, dos contratos de trabalho", aponta, à revelia de muitas das histórias.

Para a tarefa, Gilmar pesquisou em jornais e revistas, revisitou parentes e amigos do artista com a ajuda do jornalista Nivaldo Tavares Rangel, sobrinho de José Rangel, além de pesquisas na biblioteca da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, com o auxílio de uma estagiária. O resultado são 87 páginas traçadas no perfil da humanidade do artista. Gilmar de Carvalho não se limita a retratar a obra e fazer o percurso de José Rangel em suas moradas, desde a partida da cidade de Jardim, o período em Fortaleza, os estudos na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e a vida em Recife. Junto desse caminho, o pesquisador rememora a própria origem da cidade de Jardim, os rebuliços, histórias e contextos de cada ano e lugar significativos entre os anos de 1895 e 1969, nascimento e morte de Rangel.

Em um dos episódios, Rangel presenteia a mãe ao esculpir, na praça da Igreja de Jardins, a imagem de Nossa Senhora das Graças de costas para o templo, mas mirando a casa de dona Maroca, do outro lado da praça. Com o mimo, bastava à mãe do artista sentar-se na calçada para rezar e lembrar-se do filho. Posteriormente, a obra ganhou cores a mando de um padre, o que teria deixado o artista não muito contente. Restaurada muitos anos depois pelo artista Sérvulo Esmeraldo, a obra ganhou novamente a cor crua do cimento. Com trabalhos significativos, José Rangel foi artista dos espaços público e o próprio desenvolvimento da obra do artista se deu dessa forma.

Gilmar baliza que, de início, ele fez uso da areia da Praia do Peixe, hoje de Iracema, como as primeiras modelagens. Em Copacabana, anos mais tarde, os trabalhos na areia eram retomados e remexiam a região. Além de modelar perfis, mulheres e santos, José Rangel esculpia cenas de sexo à noite e, no escrito de Gilmar, "quando o dia amanhecia, chegavam até a chamar a polícia para acabar com aquela 'pouca vergonha'". Tendo como morada de suas obras os céus e o vento, o artista seguia a fidelidade a escultura. Embora tenha feito com maestria, desenhos e pinturas, era no campo da escultura o seu destaque. Em seu livro, Gilmar aponta para a perseguição da tridimensionalidade da escultura como maior forma de expressão de José Rangel.
Em Fortaleza, o mais famoso dos seus trabalhos é uma escultura realizada em conjunto com Antônio Machado e José Maria Sampaio, o Monumento do Cristo Redentor, um marco comemorativo do Centenário da Independência do Brasil, localizado na (oficialmente) denominada Praça Senador Machado, ao lado do Seminário da Prainha. "Ele trabalhava com esculturas de espaço público, obras de grandes formatos", define o pesquisador. Na capital carioca, são várias as obras espalhadas pela cidade, muitas obras cíveis, como a escultura de bronze de um soldado de joelhos curvados e mão no peito como ferido, intitulada A epopéia do sacrifício, sobre a placa comemorativa ao Dezoito do Forte de Copacabana, incrustada na avenida Atlântica. Gilmar destaca, contudo, que o grande diferencial de José Rangel foi de, junto a Vicente Leite, serem os primeiros artistas cearenses a terem uma educação artística formal. "Os dois cumpriram temporadas na Escola de Belas Artes, do Rio de Janeiro e abriram um novo capítulo na história da arte cearense, que foi romper com o autodidatismo do trabalho com arte. Os artistas começam a ver a possibilidade de se educarem", conta Gilmar.
Dessa forma, parte-se da nova atitude, de deixar de pensar que o artista é somente aquele que trabalha de forma intuitiva, mas também deve se preparar melhor, estudar, na busca de crescer em seu ofício.
Serviço
Rangel Escultor - O artista que veio de Jardim. De Gilmar de Carvalho. Editora: Expressão Gráfica - Secult, 2007. Preço: R$ 15, à venda, na livraria Lua Nova (Bairro Benfica).