TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

domingo, 17 de junho de 2012

O PIANISTA - José Nilton Mariano Saraiva

Com a invasão da Polônia pelos nazistas, os judeus poloneses foram segregados no “Gueto de Varsóvia”, onde enfrentaram a fome, o frio, o abandono, a tortura e humilhações de toda ordem, levando-os a um corrosivo processo de aniquilação físico-psíquico-moral. A esperança de que os aliados logo chegassem para por fim àquele diuturno martírio foi paulatinamente arrefecida, ante o sadismo, a carnificina e à seqüência de horrores praticada pelos alemães.
Para que lições fossem extraídas daquele momento dantesco, Roman Polonski, ex “morador” do tal gueto (de onde milagrosamente conseguiu fugir), houve por bem legar à posteridade um “testemunho-reconstitutivo” daquela época, ao produzir o monumental filme “O Pianista” onde, sem fugir dos horrores vivenciados pelos poloneses, centra a narrativa numa tradicional família classe média (pai, mãe, dois irmãos e duas irmãs).
Após a invasão da Polônia pelos alemães, literalmente forçados a tomarem um trem que os levará para uma tal de “higienização” (em verdade, para o campo de extermínio de Treblinka) milhares de polacos, a família Szpilman entre eles, é o próprio retrato da impotência e do desespero.  Wladyslaw Szpilman, um dos irmãos, famoso pianista da Rádio de Varsóvia, no último momento, mesmo à revelia, é posto de lado por um policial polonês amigo de infância. E vê, desesperado, pai e irmãos irem ao encontro da morte. 
E aí aumenta o seu martírio. Sozinho no mundo, desempregado, sem eira e nem beira, sendo obrigado a carregar a “prova” da inferioridade da raça judaica (uma faixa no braço com a Estrela de Davi), Szpilman torna-se um morto-vivo a zanzar entre escombros e cadáveres.  Recolhido ao “Gueto de Varsóvia” e obrigado a trabalhar numa unidade alemã, toma conhecimento e se engaja na formação de um grupo de resistência aos alemães. Antes que sejam descobertos e dizimados, Szpilman, com a ajuda de conterrâneos não judeus consegue fugir do gueto e é “escondido” no mais improvável dos abrigos: um apartamento localizado exatamente no “coração da toca do leão” (em frente a um Hospital alemão e vizinho da sede da Polícia nazista). Da janela, assiste ao impiedoso massacre e à aniquilação do gueto onde habitara. Com a passagem do tempo, finda sendo descoberto por uma vizinha alemã; doente e desnutrido, foge e volta a zanzar pelas ruas.
Mas o destino de Szpilman apronta-lhe uma surpresa: à procura de comida no que sobrou de uma suntuosa mansão, é descoberto pelo solitário capitão alemão Wilm Hosenfeld que, surpreendentemente cordato, lhe interroga amistosamente.  Ao sabê-lo “pianista” profissional, desconfiado coloca-o frente a um piano que, sem nenhum arranhão, escapara das bombas nazistas e pede-lhe que... "toque". E aí, Szilpman, mesmo com sede e faminto, parece entender ser aquele o seu passaporte para a sobrevivência, sua senha para a vida: e extraindo do amâgo da alma uma força descomunal até então desconhecida, sob o olhar abismado do requintado oficial alemão mostra toda a sua maestria e competência no manejo do teclado do nobre instrumento (são exatos quatro minutos - uma eternidade numa projeção cinematográfica - de uma verdadeira aula de como se tocar piano).
Visivelmente sensibilizado, o capitão alemão não só NÃO o denuncia, como o orienta a resistir um pouco mais, a manter-se escondido, já que os russos se encontravam às portas da cidade e os alemães teriam que bater em retirada. Pra eles, alemães, a guerra acabara. Oferece-lhe o próprio casaco para amainar o frio e volta outras vezes trazendo-lhe comida e pondo-o a par do desfecho do confronto.
Com a retomada da Polônia pelo exército russo, Szpilman finalmente sai da toca e quase se dá mal por se achar “embrulhado” no casaco do “amigo” alemão. Feito os esclarecimentos, é reconhecido como um polonês e saudado efusivamente por ter sobrevivido ao extermínio nazista.
Após tudo normalizado, volta à Rádio de Varsóvia e retoma sua verdadeira identidade de... “pianista”. Morreu em Varsóvia em 2000, sem que antes tenha conseguido “PAGAR” uma dívida tanto antiga como eterna: conseguiu que o "amigo" alemão, capitão Wilm Hosenfeld, que lhe salvou a vida, fosse postumamente honrado... pelo poloneses.
Um filmão, filmaço, obra de arte, ou qualquer outra definição que lhe seja mais apropriada.

Clipping de André Setaro: Sérgio Augusto recorda Ivan Lessa

Clipping de André Setaro: Sérgio Augusto recorda Ivan Lessa: Por Sérgio Augusto Lamentávamos não termos sido amigos de infância. A diferença de idade, porque pequena, não seria estorvo. Tivemo...

sábado, 16 de junho de 2012

Voa, passarinho, voa !!! - José Nilton Mariano Saraiva

Mesmo sabendo que a montanha de reais que o remunera (15 milhões) é dinheiro sujo, fruto da contravenção e da atuação desassombrada de uma quadrilha da mais alta periculosidade, Márcio Thomaz Bastos (ex Ministro da Justiça do Governo Federal) alegando já ter cumprido a quarentena exigida e, portanto, habilitado pra atuar profissionalmente (como advogado), não tá nem aí pra quem dele exige um mínimo de escrúpulo ou coerência (lembremo-nos que lá atrás ele houvera dado um parecer contundente contra o atual cliente): assim, primeiro conseguiu com que o Juiz Federal Tourinho Neto,  membro do Tribunal Regional Federal da 1ª Zona, (teria “rachado” a grana com o próprio ???) em tempo recorde transferisse (sem qualquer justificativa convincente)  seu cliente, Carlos Cachoeira, da prisão de segurança máxima de Mossoró-RN para o presídio da Papuda, em Brasília-DF. Agora, pouco mais de três meses da detenção, com uma agilidade não muito usual em casos da espécie, o mesmo Tourinho Neto, em decisão individual, houve por bem conceder um habeas corpus determinando que o marginal fosse posto em liberdade imediatamente (por inacreditável que pareça). O incrível argumento usado é que, como o esquema criminoso que o “coitadinho” do Cachoeira chefiava foi desfeito com a sua prisão e as casas de jogos de azar fechadas “...não há mais a potencialidade, dita no decreto da prisão preventiva, que traga perturbação à ordem pública” (quanta cretinice). Ou seja, toda a “sujeirada” que tomamos conhecimento através das gravações legais autorizadas pela Justiça, onde o senhor Carlos Cachoeira casa e batiza, faz e desfaz, manda e desmanda (e contemplando os três poderes da República), chegando a sugerir inclusive uma possível derrubada do Presidenta da República, tudo isso não vale nada, tudo isso se desmorona, tudo isso cai por terra, em razão do uso de um simples artifício, uma brecha jurídica providencialmente deixada no texto legal para casos da espécie: o ato inicial do processo teria sido proferido por um Juiz não habilitado pra tal. De outra parte, como os demais envolvidos (bem remunerados executivos da quadrilha) se escudam na própria Constituição Federal pra não abrirem o bico e como os Governadores envolvidos e convocados a depor não fazem a menor cerimônia em “gozar” com a cara dos integrantes da CPMI (o de Goiás não conseguiu explicar sobre a transação e compra de uma mansão, enquanto que o de Brasília simplesmente alegou não ser “corretor” pra saber o preço de imóvel que comprara subfaturado), a tendência é que o senhor Carlos Cachoeira, livre como um pássaro se sinta estimulado a passar umas férias longe do país, comandando sua quadrilha via celular de última geração, sem que ninguém lhe aporrinhe.
Voa, passarinho, voa !!! Desmoralize de uma vez por todas esse nosso corrupto Poder Judiciário.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Gabo perde a memória para que o lembremos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Nesta semana um amigo muito próximo de Gabriel García Márquez informou que o grande escritor estava perdendo a memória e que não se lembrava mais dos amigos. Aos 85 anos Gabriel assim como o Arcanjo apresentava mensagens eternas. O escritor pernambucano Urariano Motta escreveu um belo texto sobre tais notícias. Nele recordou que a história da perda de memória de Gabo já havia sido referida na biografia Gabriel García Márquez - uma vida, escrita por Gerald Mantin. Urariano extraiu um trecho em que isso se revelava que considero uma das mais exuberantes manifestações de amor ao mundo:

Gabo não podia mais dar respostas claras e acuradas a perguntas diretas e inesperadas, e era capaz de esquecer o que acabara de dizer cinco minutos antes. Eu não era especialista sobre as diferentes formas e progressões da perda da memória, mas minha impressão foi de que sua condição progredia com bastante constância. Era duro ver um homem que havia feito da memória o foco central de toda a sua existência assediado por tal infortúnio. Gabo era “um recordador profissional”, como sempre se chamou...
Com dicas adequadas podia lembrar-se de mais coisas do passado remoto – embora nem sempre os títulos de suas obras – e travar uma conversa razoavelmente normal e até bem-humorada. Mas sua memória imediata estava fragilizada, e Gabo se mostrava claramente angustiado com isso e sobre a fase em que parecia ter entrado. Depois que conversamos sobre seu trabalho e seus planos por algum tempo, declarou que não tinha certeza se voltaria a escrever. Então ele disse, quase melancólico: “Escrevi bastante, não escrevi? As pessoas não podem ficar frustradas, e não podem esperar mais nada de mim, não é?” 

Estávamos sentados em imensas poltronas azuis, numa saleta íntima do hotel, de onde se via o anel rodoviário do sul da Cidade do México. Lá fora estava o século XXI, voando. Oito pistas de tráfego incessante.

Ele me olhou e disse:

- Sabe, algumas vezes fico deprimido.
- Como? Você, Gabo, depois de tudo que realizou? Não acredito. Por quê?

Ele gesticulou para o mundo além da janela – a grande artéria de tráfego intenso, a intensidade silenciosa de todas aquelas pessoas comuns vivendo a vida num mundo que não era mais seu - depois voltou o olhar para mim e murmurou:

- Porque percebo que tudo isso está chegando ao fim.
 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Bola e a Bóia



                                   Há quem considere a Crônica um gênero literário menor. Talvez, comparando com o Conto, o Romance, o Ensaio, a Poesia, não tenha ela o mesmo charme e a mesma fama .  Desconfio, no entanto, que esta opinião advém da volatilidade maior do estilo: ligada geralmente aos fatos mais corriqueiros e cotidianos , possui uma permanência mais etérea. O texto publicado no jornal,  hoje, amanhã já está, muito provavelmente, limpando as vidraças da sala. Trabalhar com esta impermanência , tecendo o bordado numa ponta, enquanto o tempo desfaz o fio do outro lado, parece-me  uma coisa mágica e remete quase que imediatamente à efemeridade da vida: matéria prima de todos os gêneros literários. E não são poucos os grandes escritores que soçobram ante os mistérios da Crônica; faltam-lhes, tantas vezes,  leveza, despojamento, humildade para enfrentar o profundo abismo que é escrever acossado pelo grande e implacável  apagador das horas. Machado de Assis, meu escritor predileto, talvez o maior que o país já produziu, não me parece um grande cronista. Humberto de Campos,  o mais produtivo da sua época, hoje é totalmente esquecido. Lembro da grande coleção azul,  dele,  de mais de  trinta livros , na biblioteca imensa do Tio Sávio Pinheiro. Devorei-a, na adolescência, com voracidade. Talvez os textos fossem datados demais e tenham perdido o glamour com o advento das novas gerações. Rubem Braga, certamente ,mantém-se distanciado como  o mais importante escritor  do gênero, em língua portuguesa, possivelmente porque  é profundamente poético e poesia não tem idade : banha-se na fonte da eterna juventude.
                                   O certo é que me apetece esse encanto de garimpar nossa doce história cotidiana. Fatos aparentemente sem importância, gestos leves, movimentos fortuitos, personagens tidos como menores e que cairiam  rapidamente na lixeira da memória não fosse o olhar atento do cronista. E mais: tentar perenizá-los usando a mesma argamassa amorfa,  frágil e etérea com que são constituídos.
                                   Querem  um exemplo ? Esta semana publicou-se uma notícia trivial na televisão. Foram devolvidos a alguns japoneses, alguns objetos tragados no terrível Tsunami do ano passado. As marés os carregaram até o Alaska, na outra extremidade do mundo. Algumas pessoas os recolheram e identificando alguns deles os devolveram aos seus donos no Japão. Sakiro Miura, uma japonezinha simpática, recebeu uma bóia que emoldurava a porta da sua loja de mergulho: nela estava escrito, em caracteres japoneses, o nome do esposo, falecido há 30 anos. Um rapaz recebeu uma bola de futebol onde gravara o próprio nome  e estampava várias assinaturas dos seus colegas de escola. A bola e a bóia não possuíam qualquer valor monetário e a notícia, tirando-se o inusitado, não carrega maior importância. Debite-se na conta ainda  a gentileza dos moradores do Alaska : perceberam que , de alguma maneira, junto com os objetos, devolviam à Sakiro e ao rapazinho um pouco daquilo que a tragédia havia arrancado das suas mãos. A bola e a bóia restituíam junto a esperança: o combustível de toda nossa jornada nesta terra.
                                   Atrás da notícia, escondia-se uma verdade só perceptível ao cronista. O  preço real  das coisas não pode ser avaliado apenas por seu valor venal: de troca, de venda , de escambo. Existe tantas vezes um valor sentimental que imanta os objetos e que não pode ser mensurado por trena , nem pesado com balança Fillizola. Sakiro não negociaria sua bóia por qualquer dinheiro desse mundo. E mais : só ela consegue dimensionar este custo, ninguém mais desse mundo. Seu tesouro está assim, biblicamente, imune às traças, aos ladrões e  ao caruncho.
                                   Quando os tsunamis por fim devastarem as praias da nossa existência, estes serão os únicos bens que boiarão e que um dia , quem sabe, o destino devolverá à nossa porta, para nosso gáudio, como a bóia de Sakiro Miura : uma florzinha que desabrocha em meio ás  ruínas que restaram. 

J. Flávio Vieira

O Banhado do Taim, a fundação do Movimento Verde e a Rio +20 - José do Vale Pinheiro Feitosa


Vínhamos pela BR-471 de Chuí para Pelotas quando avistamos, na estrada quase vazia de automóveis, placas indicando um trecho cuja velocidade mínima seria de 40 km por hora. Perigo de animais selvagens atravessando a pista. Estávamos na região da Reserva Ecológica do Taim, uma estreita faixa de terra entre o Oceano Atlântico e a Lagoa Mirim, nos municípios de Rio Grande e Santa Vitória do Palmar.

Rio de Janeiro, junho de 2012, as ruas cheias como o seu dia-a-dia de veículos explodindo fumaça pelo escapamento. O noticiário igualmente tomado de notícias da Rio +20. Pelas ruas da cidade, a cada esquina, encontro da espécie humana grunhindo suas cordas vocais em múltiplos idiomas.

A consciência ecológica, verde, conservacionista, sustentável ou que nome venha a ter é ampla nesta Conferência das Nações. E pensar que tudo começou no turbilhão que jogou o mundo entre os anos 60 e 70. Quando a consciência planetária se imiscuiu na cultura e na política. A consciência que igualmente esteve no movimento hippie, no Rock and Roll, na Guerra do Vietnã e a resistência a ela, nos movimentos estudantis pelo mundo inclusive o Paris de 68 e além das guerras de libertação colonial na África e na Ásia.

A Reserva Ecológica do Taim faz parte da planície costeira que caracteriza o extremo sul do Brasil. Os banhados do Taim, como é seu nome original se compõem por praias lagunares, marinhas, lagoas, campinas, pântanos e dunas. Ali vive e se formou um rico ecossistema composto por animais e plantas. João de Barros, Tuco-Tuco, Tartarugas, Capivaras, Jacaré-do-Papo-Amarelo, Ratão-do-Banhado, Orquídeas, Bromélias, Cactos, Figueiras, Juncos e Água Pés.

No Forte de Copacabana se montou uma estrutura enorme onde os militantes ecológicos, visitantes, curiosos e representações populares e do mundo científico engajado se mistura como uma Torre de Babel de línguas. No RioCentro as delegações penam em discordâncias e concordâncias com um longo texto que será retificado pelos Chefes de Estado.

A primeira vez que se tomou uma consciência ecológica do ponto de vista político e como uma consciência na cultural mundial, aconteceu por fatos cumulativos e com a Conferência de Estocolmo, ou Conferência da ONU sobre Meio Ambiente Humano começando em 5 de junho de 1972 (apenas 40 anos). O mundo estava perplexo com os efeitos da contaminação por venenos no solo, nas águas e nos animais oriundos de processos industriais e da agricultura. Os testes com bombas atômicas deixavam uma rastro letal de Estrôncio-90 no meio ambiente. A Baleia Azul tinha sido tão perseguida que estava à beira da extinção.

Entramos na velocidade indicada nas placas sobre um aterro que atravessa aproximadamente 20 Km da reserva do Taim e se descortina uma paisagem belíssima ladeada pelos pampas, a criação de gado e grandes grupos de capivaras de um lado e outro do banhado. Enquanto o motor do carro nos transportava vinha-me a lembrança da grita do Pasquim e do Coojornal do Rio Grande do Sul denunciando a construção da BR-471 sobre a reserva do Taim, expondo suas obras e uso ao desastre ecológico.

O Presidente Obama, a Chanceler Merkel e David Camerom não se farão presentes à cúpula dos Chefes de Estado da Rio +20. Num desânimo estrutural e na contramão da necessidade de se repensar a marcha da humanidade, estes líderes das nações mais intensas em consumo do planeta, não virão, permanecerão onde estão. Numa atitude sempre evasiva nestes fóruns mundiais, mas quando se trata de defender o meramente econômico com base em moeda pura, as grandes nações nunca se escondem. Estão lá para fazer os acordos entre si, à margem da maioria da humanidade.

Na Primeira Conferência a de Estocolmo de 1972, aquela que funda o movimento verde, o atual formato já estava pronto: a sociedade civil, cientistas e chefes de estado. Indira Ghandi, premier da Índia disse: “A minha percepção é de que pessoas que não se entendem com a natureza são cínicas em relação à humanidade e não estão confortáveis consigo mesmas”. A partir dali o assunto entrou na agenda da humanidade e o Brasil, por sua cidade Rio de Janeiro, se tornou uma referência fundamental nas principais conferências até aqui.

Enquanto o nosso carro avançava no aterro sobre o banhado do Taim, aquelas frases de efeito na grita contra a truculência da ditadura que apontara o dedo no mapa para aquela região e ali plantara a estrada que violentava a natureza. Tudo que lera no Pasquim e no Coojornal fazia sentido: um, dois, três, quatro, mais outro, outro e outros mais corpos de capivaras jaziam esmagados a se confundir com o asfalto da rodovia.

Hoje pela manhã o Rio amanheceu azul após tantos dias de chuvas. Amanheceu azul com uma matriz da floresta da tijuca a ladear o intrincado de ruas. Tudo de ruim que disseram das cidades aqui acontece. Aconteceu e acontecerá. Mas não existe esperança que não sejam sobre os eventos em acontecimento e por isso pode-se mudar o rumo da história. Pelo fato pura e simples do que acontece continuamente é de onde se transforma.   

Antes de terminar é impossível esquecer do livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson, sistematizando os efeitos do desenvolvimento e do progresso sobre o meio ambiente. Assim como José Lutzemberg a abrir a consciência ecológica no Brasil após anos de trabalho na BASF quando sentiu os efeitos danosos dos agrotóxicos sobre os agricultores. E aqui uma frase dele de 1972 a primeira vez que li sobre o assunto numa entrevista que ele deu acho que para o Pasquim ou outro jornal alternativo da época feito O Movimento ou Opinião: “Se não conseguirmos, em pouco tempo vencer a piromania nacional, estará nosso país a transformar-se, durante a vida dos jovens e crianças de hoje, em deserto e serão indescritíveis as calamidades que sofreremos. A provável e talvez já desencadeada inversão climática tornará impossível a recuperação, mesmo a longo prazo.”   Lutezemberg foi um dos primeiros a falar no aquecimento global com esta frase. 

FUTEBOL: A Verdadeira Copa – José Nilton Mariano Saraiva

Com sede Suíça, a FIFA-Fédération Internationale de Football Association, abriga em seus quadros mais países que a própria ONU-Organização das Nações Unidas, já que com cerca de 215 afiliados. Trata-se, pois, de uma das maiores e mais rentáveis multinacionais do planeta.
Mas foi justamente aí, na ânsia desmedida em cooptar filiados através da politicagem rasteira do quantificar independentemente do qualificar, que aquela Federação Internacional acabou por transformar a sua principal mercadoria, a Copa do Mundo de Futebol, num torneio sem o charme, a atração e a credibilidade de outrora.
Se você aí do outro lado da telinha desconhece, saiba que quando o Brasil ganhou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, o torneio se restringia a 16 seleções nacionais, normalmente fortes e competitivas.
Mas, a partir de certo momento, a televisão, antevendo o preenchimento da sua grade com uma atração com poder de atrair anunciantes com “bala na agulha”, firmou parceria com a FIFA e a “porteira” foi escancarada: o aumento das vagas pulou pra 24 e posteriormente para 32 seleções, sob uma justificativa não lá tão convincente: os povos dos continentes africanos, da Oceania e de outros países (sem nenhuma tradição no esporte), também eram filho de Deus e, portanto, não poderiam ficar de fora da “maior festa do futebol” (a questão do "patrocínio" foi estrategicamente "esquecida") .
E foi assim, através dessa tal globalização (um tanto quanto enviesada), que a Copa do Mundo de Futebol se transformou na xaropada que é hoje: insossa, previsível, sem atrativos, com “peladas monumentais” à espera de uma “zebra” qualquer aqui e acolá e, principalmente, com jogos em horários que se amoldem ao espaço disponível na grade televisiva e ao fuso-horario, mesmo que o distinto público não tenha condição de comparecer aos estádios (meio-dia ou tarde da noite). Daí a substituição do torcedor de arquibancada pelo torcedor de poltrona.
Ainda bem que para se contrapor a essa “zorra” toda, a UEFA (União das Federações Européias de Futebol) patrocina uma competição que, se contasse com o Brasil e a Argentina poderia perfeitamente ser rotulada com o “verdadeiro” Campeonato Mundial de Futebol: a Eurocopa, que é disputada nos mesmos moldes da antiga Copa do Mundo da Fifa - 16 clubes, divididos em 4 chaves, com 4 clubes cada, classificando-se dois de cada grupo até se chegar ao funil onde só sobram os dois finalistas (claro que, pra não fugir à regra, aqui e acolá temos que digerir algum “purgante” brabo, algum jogo chocho).
E aí, paradoxalmente, só temos que agradecer à televisão por nos permitir assistir (na poltrona, é claro) a embates virtuosos entre times de inquestionável gabarito, tais quais: Alemanha, Espanha, Rússia, Polônia, Portugal, República Tcheca, Dinamarca, Holanda, Itália, França, Inglaterra, Suécia, Croácia, Ucrânia e, um pouco menos, Irlanda e Grécia.
Alguém dúvida que se fosse possível incluir Brasil e Argentina em tal competição teríamos a verdadeira Copa do Mundo de Futebol, já que mais qualificada ???

O ANO ELEITORAL EM CRATO - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quando um empresário se candidata, se elege e assume um cargo público ele vive um dilema, mas um dilema a priori resolvido: entre o interesse público e o seu ele fica com o seu.”
Wilson Fadul - Prefeito de Campo Grande, Deputado Federal, Ministro da Saúde, Editor, Presidente de Banco.

Todos sonhamos e desejamos a retomada da vocação da cidade de Crato para que a região do Cariri tenha melhores chances de desenvolvimento. Sem o Crato ou com a Política da cidade funcionando de modo subalterno e confuso, a região ficará empacada numa eterna perda de autonomia, apenas absorvendo as sobras das políticas ditadas pelo Governo Estadual e suas alianças regionais.

A rigor ninguém tem a fórmula para a retomada desta vocação, mas algumas tradições históricas, educacionais e culturais dão algumas pistas como bem explicitou Dr. José Flávio Pinheiro Vieira em postagem recente. E não se tem uma pista completa por que antes é preciso ouvir a sociedade, fazê-la se manifestar sobre o tema, incluindo desde as associações de bairros, passando por organizações da sociedade civil, do comércio e indústria, a URCA e setorialmente todas as instâncias municipais: câmara de vereadores e conselhos municipais e os funcionários dos diversos setores da administração municipal.

É preciso ter este objetivo de construir coletivamente a vocação da cidade para que as políticas públicas se orientem por ela. E este coletivamente só pode existir no povo do Crato, ele não vem de fora, é a partir do seu conceito próprio que a cidade pode apresentar a sua contribuição para a região e reivindicar políticas estaduais e federais para dar curso às políticas locais.

Por isso mesmo, alguns parâmetros políticos precisam ser evitados a todo custo para que a cidade retome seu destino e exerça o papel de liderança que lhe cabe. Quais são estes parâmetros de natureza conjuntural e estrutural:

a      a)   Do ponto de vista conjuntural: o Crato não pode ficar nestas eleições a reboque dos desejos políticos do Governador do Estado. Não pode por dois motivos muito simples: o Governador tem mais dois anos de mandato e trabalha nesta altura apenas para a sua própria sobrevivência política o que não trás vantagem alguma para o Crato além do atual Governo estadual ser fruto de uma aliança entre forças politicas da região metropolitana de Fortaleza e da região norte para as quais os interesses do Cariri são secundários.

         b)   Ainda na lógica conjuntural: seria um erro histórico o Crato eleger um prefeito por força de um ou dois políticos regionais, cujos interesses se resumem ao próprio domínio político. Sejam estes políticos senadores ou deputados da região não é pelo desejo deles que a cidade conquistará autonomia, pois o desejo deles quase que se insere apenas no espectro do poder pessoal.

c      c)    Do ponto de vista estrutural: o Crato precisa superar a velha política local, feita por conchavos entre famílias, que se prendem a um saudosismo eterno e uma inveja doentia do sucesso de outras cidades. Esta estrutura precisa ser superada até para que os filhos e netos destas famílias possam ter progresso e amplie a capacidade de liderança para o bem comum.

O modo de superação da cidade, como dissemos, é pela construção coletiva de um plano de identidade local, com a inserção de novos atores sociais e econômicos que não tiveram, não têm e nunca terão vez uma vez não se supere aquelas conjunturas e estrutura citadas. Para isso é preciso um núcleo político popular e democrático que promova a inserção destas novas forças. E isso não se mostra impossível no quadro econômico, social e político do país, quando se vive um momento especial de crescimento econômico com distribuição de renda e um novo paradigma do Estado de Direito Democrático.

O núcleo popular e democrático não tem donos, mas tem um norte que são as políticas nacionais de desenvolvimento com inserção social. O núcleo é dinâmico, inclusivo e distributivo, convocando todos os bairros para a construção coletiva. O núcleo popular e democrático terá algumas questões que estão na raiz daquilo que o Dr. José Flávio apontou: o meio ambiente, a educação pública, a saúde pública, a cultura popular e universal, saneamento básico e proteção social.

Por último o núcleo político e popular precisa ser estendido rapidamente, convocado e aberto para a construção. Seria um erro se fazer política apenas repetindo as fórmulas clássicas de programas de rádio, panfletos e palanques. É preciso multiplicar rapidamente estes núcleos nos bairros e partir para o entusiasmo popular não como objeto de promessas eleitoreiras, mas como a construção do possível e do necessário. Desenvolver o espírito crítico na população para denunciar todas as manobras que quebram o espírito democrático das eleições como cabos eleitorais assalariados, compra de votos e outras coisas que a legislação eleitoral veta.

Em palavras finais: o núcleo popular e democrático é popular e democrático e vai abandonar todas as velhas formas de fazer política com as quais a cidade se acostumou e se acomodou. É preciso ir para a rua como diz a canção: “é preciso ir aonde o povo está, se foi assim, assim será.”      


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Silvero Pereira - A arte existe para tremer os conceitos



Professor, ator, diretor, pesquisador,  proletária da arte assim é o jovem que com apenas três décadas tem na sua bagagem muita história para contar.  Silvero vem desenvolvendo um trabalho significativo que une pesquisa, experimentação estética/artística e comprometimento político com as questões do movimento LGBTTT. O artista enfatiza “Acredito que a nossa sociedade ainda não está preparada para compreender as questões de sexualidade na nossa atualidade, por isso utilizo minha arte para provocar, tirar do conforto, confrontar e questionar os paradigmas”.

Alexandre Lucas – Quem é Silvero Pereira?

Silvero Pereira -  é um garoto que completa 30 anos agora em junho (20). Garoto porque aos 12 anos começou a  trabalhar para ajudar nas despesas da família, trabalhando de dia e estudando a noite e com isso nunca teve tempo de curtir sua infância, sua imaginação. Assim, aos 30 anos e tendo 14 anos dedicados ao teatro, descobriu nessa arte a possibilidade de viver sua infância perdida, de poder brincar, criar, imaginar e realizar. Entretanto, tudo isso é com muita responsabilidade e dedicação. O Silvero, como me enxergo, é um batalhador, um trabalhador que acredita naquilo que faz, que faz teatro por necessidade, seja essa necessidade de viver, de brincar, de questionar ou de expor inquietações.

Alexandre Lucas – Quando você teve seus primeiros contatos com a arte?

Silvero Pereira -  Desde pequeno eu já realizava algumas manifestações artísticas, sempre gostei de pintar, desenhar e nas brincadeiras de criança sempre fazia dramatizações, imitações de filmes, novelas, mas tudo de forma muito intuitiva. Meu real contato com o Teatro se deu aos 17 anos quando ingressei no ETFCE (atual IFCE) para fazer Ensino Médio e Técnico em Turismo. Assim, nas aulas de educação artística decidi por teatro e com o Paulo Ess (professor na época) pude enxergar o teatro compromissado com a arte, com a formação de artistas e de platéia. Desde modo, me envolvi, ingressei no grupo de Teatro da Instituição, fui fazer curso de Teatro após Ensino Médio e desde e então faço Teatro. 

Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória:

Silvero Pereira -  Comecei em 1997, na Cia Dionisyos de Teatro com direção de Paulo Ess. Dentre meus espetáculos como ator estão "Filé Com Fritas ao Vinagrete“, "O Rei Que Não Sabia Ler", "O Suicida", "Ray Tex" e "Meu Admirador Secreto”, todos com direção de Paulo Ess; com exceção do último que teve como diretor o Autor e Pesquisador Fernando Lira. Em 2000 ingressei para a CIA LUA de Teatro, onde atuaria nos espetáculos "Rosa Escarlate, "Dominus Tecum" e " Não Confirmo Nem Duvido", todos com direção de Ueliton Rocon. No mesmo ano criei o Grupo Parque de Teatro, por meio da Fundação Parque de Formação Integral do Tapuio na cidade de Aquiraz, onde desenvolvo  um trabalho social e voluntário com crianças e jovens usando a arte como mecanismo educacional e social. Com o Grupo Parque de Teatro realizei a montagem dos seguintes espetáculos : “O Destino a Deus Pertence” (2002), “O Mistério da Cascata” (2004), “Muito Barulho Por Nada” (2005), “Conte Lá Que eu Conto Cá!” (2007) e " A Incrível Jornada de Vicente e a Estrela Cadente" (2012). Ainda em 2005, pelo mesmo grupo estreie  o solo “Uma Flor de Dama” , tendo minha direção, texto adaptado, interpretação, cenário, figurino, maquiagem e sonoplastia.Com este solo participei de mais de 16 festivais por todo o Brasil (CE, PE, PA, DF, RN, BA, MG, ES). Em 2006 atuei em “Dorotéia”, com direção de Herê Aquino, pelo Grupo Expressões Humanas. E no período de 2001 a 2004 atuei no Grupo Bagaceira de Teatro nos espetáculos: “Os Brinquedos No Reino da Gramática” (com direção de Renata Gomes), “Ano 4 D.C.” e “Engodo” (ambos com direção de Yuri Yamamoto). 
Atualmente sou integrante e encenador do Grupo 3x4 de Teatro, de Fortaleza-CE onde dirigi os esquetes:“As vivas cores da ilusão”, “Para Sempre Fiel” e “Confissões Entre Paredes”, “Para Uma Avenca Partindo”, “Os Sobreviventes”, "Red Roses", "Terça-Feira Gorda" e “Creme de Alface”, na mesma dirigi os espetáculos “As Rosas”, “Aniversário de Casamento”, “Curtas nº 1”, “Curtas nº 2”, "Para Papai Noel..." e "Silvestres". Em 2009 dirigi o espetáculo “Tudo o que eu queria te dizer” da Cia. Lai-tu de Teatro (Fortaleza) e , como professor do Curso Princípios Básicos de Teatro, realizei a montagem de “Alice – Nem tudo que parece é” (2009). Em 2010 estrei o terceiro trabalho de minha pesquisa sobre o universo das travestis cearenses com o título de “Engenharia Erótica – Fabrica de Travestis” com o Grupo Parque de Teatro. No mesmo ano estrei no espetáculo “S./A. Sociedade Anônimna” Produção do Grupo 3X4 de Teatro; o Solo “DEPOIS DO PONTO” e “Mixórdia – Encontro Desordenado de Fragmentos” no Curso Princípios Básicos de Teatro, do qual sou  professor e onde estreei em agosto de 2011 o espetáculo de conclusão “E SE...”. Já em janeiro de 2012 realizei a montagem de "Cabaret Show: Yes, Nós Temos Bananas!" e trabalho na montagem de 03 espetáculos com previsão de estreia ainda neste ano: "Metrópole" do Grupo 3X4 de Teatro; "Quanto vale o preço de quem paga o seu verdadeiro amor" do CPBT; "Quem Tem Medo de Travesti" com o Grupo As Travestidas.

Alexandre Lucas –  A sexualidade é uma das temáticas abordadas no seu trabalho. Como você ver essa questão?

Silvero Pereira -  Eu estou no Teatro porque ele me dá a oportunidade de expor minhas angústias, minhas inquietações com questões sociais. Acredito que a nossa sociedade ainda não está preparada para compreender as questões de sexualidade na nossa atualidade, por isso utilizo minha arte para provocar, tirar do conforto, confrontar e questionar os paradigmas, os conceitos e os "pré". Nossa sociedade precisa de esclarecimento e o teatro permiti, pelo menos na forma como executo, que as pessoas vejam e reflitam, não aponto conclusões, aponto desconforto naquilo que pensam.

Alexandre Lucas – Como ocorre a sua  pesquisa para construção do seu trabalho teatral?

Silvero Pereira -  Minha pesquisa é longa e cautelosa, não consigo levar nada para a cena de imediato, gosto de analisar, estudar, pesquisar, re-avaliar. O meu processo criativo dura em média entre 8 meses a dois anos de elaboração até chegar há um resultado. Essa pesquisa parte de experimentações estéticas, laboratórios corporais, emocionais, pesquisa "in locus", anotações, discussões, ensaios abertos e pesquisa acadêmica.

Alexandre Lucas – Como você ver a relação entre arte e política?

Silvero Pereira -  Necessária. Nós, artistas, temos a política nas mãos. Nós também somos formadores de opinião, ou pelo menos capazes de provocar questões e isso por si só já é ser político. A arte existe para tremer os conceitos, uma obra que não causa, que não modifica, que não desestabiliza, não tem finalidade. Só entramos em cena ou só pintamos um quadro porque queremos expor nosso ponto de vista perante à sociedade. Isso é política.

Alexandre Lucas – Qual a contribuição social do seu trabalho?

Silvero Pereira -  Meu teatro caminha em duas mãos. A primeira tem haver com a transformação social realizada no comunidade do Taupio (Distrito de Aquiraz) onde há 12 anos existe o Grupo Parque de Teatro. Neste local eu cheguei em 2000 para mostrar as crianças o que o teatro tinha de significado pra mim. No início a Comunidade encarava o Teatro como distração, lugar para deixar os filhos durante um turno para os pais terem tempo livre. Hoje a mesma comunidade encara o teatro como profissão, desejam ver os filhos no teatro. Hoje alunos meus são professores e coordenadores de arte na comunidade, são estudantes de Artes Cênicas e constituíram famílias e estabilidade financeira por meio da educação que receberam na arte. Já em segundo plano está meu trabalho no movimento LGBTTT, pois há 10 anos atrás iniciei uma pesquisa sobre o teatro e o transformista e hoje, anos depois, olho para a  cidade de Fortaleza, ou mesmo o nosso estado do Ceará, e vejo a minha colaboração. Hoje é possível ver travestis em bares, transformistas sem medo de mostrar a sua arte em qualquer local, ou mesmo quando escuto de pais e mais que assistiram meus espetáculos dizerem " Eu hoje compreendo e respeito melhor o meu filho, porque você me fez ver o quanto fui cruel!" 

Alexandre Lucas – Além desta abordagem sobre sexualidade, quais outras questões são enfatizadas no seu trabalho?

Silvero Pereira -  Meu trabalho tem haver com aquilo que no momento me incomoda. Atualmente tenho falado muito sobre sonhos, amizade, resiliência, infância e mundo Trans. 

Alexandre Lucas – Quais os próximos trabalhos?

Silvero Pereira -  Meus próximos trabalhos em vista são os seguintes:

Setembro : "Quanto vale o preço de quem paga o seu verdadeiro amor" do Curso Princípios Básicos de Teatro do Theatro José de Alencar
                        " Metrópile" Grupo 3X4 de Teatro

Outubro: " Quem Tem medo de Travesti" Grupo As Travestidas. Esse deve estrear no Cariri

Dezembro: Um infantil de natal ainda sem título pelo Grupo 3X4 de Teatro

Já em 2013: o musical "Yes, Nós Temos Bananas!" e um infantil sobre travestis e transformistas, ambos pelo Grupo As Travestidas
                      "Translendário 2013"         

A esquerda que não teme dizer o seu nome - livro de Vladimir Safatle


A questão da igualdade e das diferenças no atual estágio da história da humanidade. Isso é importante uma vez que caracterizou o mundo desde o século XIX a idéia de uma igualdade entre os homens a que se chamou socialismo/comunismo com um número razoável de vertentes de como fazer a igualdade.

Antes uma ressalva: as principais perversões do capitalismo (acumulação) e do comunismo (concentração de poder) terminaram de alguma forma no mesmo denominador comum. Quer dizer: o poder de opressão de poucos sobre todos. A diferença básica entre os dois é que o capitalismo é um modelo econômico enquanto o comunismo um modelo essencialmente político.

Em ambos a igualdade se desfaz em contradições e por incrível que pareça a individualidade se encastela numa casamata defensiva ao mundo que lhe cerca. O capitalismo como modelo econômico é visitado pela política constantemente, com freios e contrapesos que evitem o excesso de acumulação que destrói a liberdade e a democracia. As ideias neoliberais do final do século XX e início deste século foram políticas e, portanto, com repercussões na forma de organização e vida dos indivíduos.

Os neoliberais como pensamento ideológico e político ainda estão com algum prazo de validade embora nos leve a crer que já vencido em alguns casos bastante evidentes neste momento. Especialmente por ser incapaz de uma autocrítica que extraia respostas à acumulação em poucos e a pobreza de todos.

Já o pensamento socialista como ideologia e política se debate na própria crise do fim da guerra fria e agora quando as ideias neoliberais entram em crise real, favorece a autocrítica do pensamento de esquerda, tornando-o mais aberto e consoante com a história. O Vladimir Safatle publicou o livro “A esquerda que não teme dizer o seu nome” levando Caetano Velloso a fazer uma crítica na sua coluna dominical no jornal O Globo ao que o Vladimir o respondeu com o seguinte e inovador pensamento sobre o modo de tratar as diferenças num pensamento de esquerda. Leia abaixo: 
   
Caetano critica minha maneira de defender o igualitarismo, vendo nisso um arcaísmo. Para ele, tal igualitarismo não seria muito diferente do tom opressivo da esquerda “indiferente” e “universalista” de sua juventude. Esquerda para quem questões de raça, sexo, nacionalidade e estética eram diversionismo que nos desviariam da revolução.

Longe de mim querer diminuir a importância dos apelos de modernização social embutidos em demandas de reconhecimento da diversidade de hábitos e culturas. Estas são questões maiores, por tocarem diretamente a vida dos indivíduos em sua singularidade. Não se trata de voltar aquém das políticas das diferenças e de defesa das minorias. Trata-se de tentar ir além.

Quando afirmo que devemos ser indiferentes à diferença é por defender que a vida social deve alcançar um estágio no qual a diferença do outro me é indiferente. Ou seja, a diversidade social, com sua plasticidade mutante, deve ser acolhida em uma calma indiferença. Que para alcançar tal estágio devamos passar por processos de abertura da vida social à multiplicidade, como as leis de discriminação positiva. Isso não muda o fato de não querermos uma sociedade onde os sujeitos se atomizem em identidades estanques e defensivas. Queremos uma política pós-identitária, radicalmente aberta à alteridade.

Um exemplo: discute-se hoje o direito (a meu ver, indiscutível) de homossexuais se casarem. Mas por que não ir além e afirmar que o ordenamento jurídico deve ser indiferente ao problema do casamento?

“Indiferença” significa, aqui, não querer legislar sobre as diferenças. Ou seja, por que não simplesmente abolir as leis que procuram legislar sobre a forma do casamento e das famílias, permitindo que os arranjos afetivos singulares entre sujeitos autônomos sejam reconhecidos? Não creio que isso seja arcaísmo, mas o verdadeiro universalismo.”

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Desta vez a Europa está à beira do precipício - Niall Ferguson e Nouriel Roubini


Chamo atenção para este texto apesar de grande para um blog. É importante sabermos por onde vai a Europa uma vez que ali se apontará o caminho para o futuro das instituições especialmente as que envolvem capital e trabalho.
A gestão da crise pela Alemanha ameaça repetir as tensões do século passado.
Falta um minuto para a meia noite na Europa?
Tememos que a política do Governo Alemão de fazer algo que serve pouco e já chega tarde corre o risco de provocar precisamente uma repetição das crises da metade do século XX que a integração europeia pretendia evitar.
Resulta-nos extraordinário que seja a Alemanha, precisamente, a que parece não haver aprendido com a história. Obsecada com a inexistente ameaça da inflação, dá a impressão de que a Alemanha atual atribui mais importância ao ano de 1923 (o ano da hiperinflação) que o ano de 1933 (o ano em que morreu a democracia).  Aos alemães seria ruim recordar que uma crise bancária europeia ocorrida nos de 1933 contribuiu de forma direta com a decomposição da democracia, não só em seu próprio país, mas em todo o continente.
Levamos mais de três anos advertido que a Europa continental necessitava limpar os lamentáveis balanços de seus bancos. No fizeram praticamente nada. No entanto, desde dois anos que se estende um pânico silencioso entre os bancos da periferia da zona do euro: reduziram-se os serviços financeiros transfronteiriços, interbancário e gerais, e passaram a ser financiados pelo Banco Central Europeu; e o dinheiro inteligente – grandes depósitos no assegurados de pessoas com altos investimentos – há abandonado as costas da Grécia e outros bancos mediterrâneos.
Porém agora o público está perdendo a confiança, e o pânico pode estender-se a depósito sem assegurar os menores. Se a Grécia saísse do euro, se produziria um congelamento de depósitos, e os depósitos em euros se converteriam num novo dracmas: portanto, um euro num banco grego não equivale a um euro num banco alemão. Os gregos já retiraram mais de 700 milhões de euros de seus bancos no último mês.   
Mais preocupante é que no mês passado também houve um aumento das retiradas de dinheiro de alguns bancos espanhóis. A torpe operação de resgate do Bankia levada a cabo pelo Governo só tem servido para incrementar inquietação na população. Numa visita recente a Barcelona, um de nós perguntaram várias vezes se era seguro ter dinheiro num banco espanhol. Este tipo de processo pode ser explosivo. O que hoje é uma tranquila visita ao banco pode converter-se numa corrida de salve-se quem puder. Se acontecer a saída da Grécia, as pessoas racionais se perguntariam: quem vem a seguir?
Com se debateu numa reunião do Nicolas Berggruen Institute acontecida na semana passa em Roma. A forma de sair da crise parece clara.
É extraordinário que seja a Alemanha a que pareça não haver aprendido a história.
Em primeiro lugar, é preciso estabelecer um programa de recapitalização – mediante ações preferenciais sem direito a voto – dos bancos da zona do euro, tanto na periferia como no centro, direta e através do Instrumento Europeu de Estabilidade Financeira (IEEF) e seu sucessor, o Mecanismo de Estabilidade Financeira (MEE).
A estratégia atual de recapitalizar os bancos a base do que os Estados peçam emprestado nos mercados mercados nacionais de bônus – ou ao IEEF – tem resultado desastrosa na Irlanda e na Grécia: tem provocado uma explosão de dívida pública e tem feito que o Estado se tornasse cada vez mais insolvente, ao tempo em que os bancos se convertem num risco maior na medida em que mais partes da dívida pública está em suas mãos.
Segundo, para evitar o pânico os bancos da zona do euro – um fenômeno seguro no caso da saída da Grécia e muito provável em qualquer caso – é necessário criar um sistema europeu de garantia de depósitos.
Com o fim de reduzir o risco subjetivo (ademais o risco do preço das ações e o risco creditício assumidos pelos contribuintes da zona do euro), também havia que tomar outras medidas:
1.     O programa de garantias de depósitos deve se financiar com os gravames bancários apropriados: podia ser um imposto de transações financeira o, melhor ainda, um imposto sobre todos os passivos bancários.
2.     É necessário por em prática um programa de resolução bancária no qual os credores não segurados – tanto os majoritários como minoritários – sejam os primeiros que paguem, antes de recorrer aos contribuintes para cobrir as perdas de um banco.
3.     Devem tomar-se medidas para limitar o tamanho dos banco com a finalidade de evitar o problema das entidades demasiadas grandes para falir.
4.     Também somo partidários de um sistema de supervisão e regulação para toda a União Européia.  
É certo que o fundo europeu de garantias de depósitos não funcionará se existe o risco contínuo de que o país saia da zona do euro. Garantir os depósitos em euro seria muito caro, porque o país em questão necessitaria converter toda a dívida a uma nova moeda nacional, que em seguida se depreciaria em relação ao euro. Por outra parte, se o seguro de depósitos só tem validade enquanto o país não abandone o euro, será incapaz de impedir um pânico bancário. Por conseguinte, é necessário tomar mais medidas para reduzir as probabilidades de que se produzam mais abandonos da zona do euro.
Há que acelerar as reformas estruturais que estimulam o crescimento da produtividade. Entre as políticas que podem conseguir está a maior flexibilização monetária por parte do Banco Central Europeu, um euro mais débil, algum estímulo fiscal no núcleo duro, mais gasto em infraestrutura que reduzam os gargalos e facilitem o abastecimento na periferia (a ser possível, com uma regra de ouro para as inversões públicas) e incrementos salariais acima da produtividade no centro para impulsionar os ingressos e o consumo.
Por último, dado o volume insustentável das dívidas públicas e os custos de endividamento de vários Estados membros, não vemos alternativa possível a algum tipo de mutualização da dívida.
Na atualidade existem várias propostas de eurobônus. Entre elas, a que preferimos es a de um Fundo Europeu de Redenção como faz o Conselho Alemão de Assessores Econômicos,  não porque seja o melhor, sim por que é a única capaz de aliviar a inquietação alemã sobre a perspectiva de assumir riscos creditícios.
O FER é um programa provisional que não derivará para um sistema de eurobônus permanente. Conta com os avais suficientes e uma antiguidade adequada, ademais de ter condições mais firmes. O principal perigo é que qualquer proposta que seja aceitável pela Alemanha suporia a perda da soberania fiscal par aos Estados que seria inaceitável para a periferia da zona do euro, em especial a Itália e Espanha.
Ceder parte da soberania é inevitável. Sem embargo, existe uma diferença entre federalismo e neocolonialismo, como nos disse um veterano político na reunião do NBI em Roma.
 Dado o volume insustentável das dívidas, não vemos alternativa possível a algum tipo de mutualização.
Há pouco tempo, a postura da Alemanha sobre estas propostas tem sido sempre negativa. É compreensível a preocupação alemã sobre o risco subjetivo. Será difícil de justificar o fato de que se tem arriscado o dinheiro dos alemães se na periferia não se leva a cabo umas reformas substanciais. Porém é inevitável que essas reformas cheguem a algum tempo. A reforma estrutural do mercado de trabalho alemão não foi precisamente  um êxito da noite par o dia. Pelo contrário, a crise bancária europeia é um risco financeiro que poderia disparar em questão de dias.
Os alemães devem compreender que a recapitalização bancária, o seguro europeu de depósitos e a mutualização da dívida não são opcionais. São medidas essenciais para evitar uma desintegração irreversível da união monetária europeia. Se, todavia, não estão convencidos, devem entender que os custos da ruptura da zona do euro seriam astronômicos, para Alemanha tanto como para o resto do mundo.
Ao fim e ao cabo, a prosperidade atual  da Alemanha é em grande parte uma consequência da união monetária. O euro tem dado aos exportadores alemães um tipo de câmbio mais competitivo do que o velho marco. E o resto da zona do euro continua sendo o destino de 42% das exportações alemãs. Desaparecer a metade deste mercado em uma depressão não pode ser benéfico para a Alemanha.
A hora da verdade, com reconheceu a Chanceler Merkel na semana passada, a união monetária sempre teve implícita nela uma maior integração em uma união fiscal e política.
Porém antes que a Europa pense em dar este passo histórico, deve demonstrar que tem aprendido as lições do passado. A União Europeia se criou para não repetir os desastres dos anos trinta. E é hora de que os dirigentes europeus – e em especial os alemães – estejam conscientes de que estão perigosamente perto de cair nele.   
Escrito por Niall Ferguson – é catedrático da Universidade Harvard; seu último livro é “Civilização: Ocidente e o resto.”  Nouriel Roubini é catedrático da Universidade de Nova York e presidente da Roubini Global Economics. Ambos são membros do Conselho para o Futuro da Europa do Nicolas Berggruen Institute.