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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA DEFENDE VERBA MENOR PARA A SAÚDE - José do Vale Pinheiro Feitosa

Peguemos duas notícias de hoje, uma diz ter a Associação Médica Brasileira (AMB) declarado apoio a Aécio Neves e a outra diz que a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que proximamente se atingirá a marca entre 5 a 10 mil casos novos por semana da doença provocada pelo Ebola.

A carta de apoio da AMB termina assim: “Conclamamos todos a votar em Aécio Neves (45) para presidente do Brasil, a fim de que possamos trabalhar juntos, orgulhosos e confiantes, podendo proporcionar melhor saúde e assistência aos nossos pacientes.” Em nota o chefe da missão da ONU que se dedica ao combate da doença declara: “Ou paramos o ebola agora ou enfrentaremos uma situação sem precedentes e para a qual não temos um plano.”

Onde as duas notícias se aproximam e onde se distanciam. Aproximam-se por ter como tema comum a saúde. Ambos são manifestos políticos tentando mobilizar corações e mentes. Ambos supostamente foram refletidos por profissionais da saúde.

Distanciam-se pelos interesses manifestos atrás das palavras. A AMB é uma entidade de classe, corporativa, que luta essencialmente pelo controle corporativo das especialidades médicas através das associações de especialidades. São as velhas guildas da idade média que controlavam os números e o perfil aceito aos artesãos. Só um exemplo de como funcionam para revelar qual interesse têm na saúde coletiva: todo beneficiário de Plano de Saúde tem que pagar por fora aos anestesistas. Eles se organizaram de tal modo que a sociedade mesmo pagando os tubos por um Plano de Saúde, tem que pagar o pedágio a eles. E simbolicamente tem um detalhe: eles, pelos anestésicos, levam você à linha tênue entre a vida e a morte.

A OMS, mesmo que sujeita à pressão das grandes indústrias de tecnologia de saúde, continua sendo o órgão universal dos interesses de toda a humanidade. O chefe da missão diz que é preciso tratar 70% dos casos e enterrar 70% das pessoas de maneira segura ou, então, a epidemia foge ao controle. E pode chegar a outros países distantes. Os exemplos americanos e espanhóis são evidentes para que acreditemos na OMS. 
  
A dinâmica da AMB e suas associações, por outro lado, não consegue fugir mais do suprimento do Complexo Industrial da Saúde, este que, artificialmente, lança mão de todos os mecanismos para criar e manter especialidades médicas. Os Congressos de Especialidades se tornaram um balcão de anúncios e os painéis e conferências magnas, a voz do produtor de tecnologia. Por isso no mundo todo surgem instituições de Avaliação de Tecnologia, que pretendem operar de modo independente, para que se separe onde se encontra a eficiência verdadeira e a negociação do uso intensivo no interesse da contabilidade do Complexo.

O surto do Ebola não é a mesma coisa de combater os islamitas com aviões e drones nos desertos do Iraque e da Síria. Ele tem o potencial de se tornar uma nova peste. Diante da falta de recursos terapêuticos, de um mundo em convulsão que gera milhares de desabrigados e concentrações em lugares precários, do rápido deslocamento por avião, há que se pensar na solidariedade na ação coletiva e humana como uma necessidade. Que se pensar uma política de saúde universal, independente de dinheiro para comprar a vida ao invés da morte.

Entre a AMB e a OMS há uma vala enorme de separação. Uma vala onde ardem os interesses do Complexo Industrial da Saúde e seus agentes de campo. A vala onde o interesse individual suplanta o interesse da sociedade. Onde a liberalidade é sinônimo de bem remunerado serviço por uma boa imagem de marketing.

Um marketing que todo profissional de saúde sente pela traição dos “colegas” a desqualifica-lo por uma melhor posição no “mercado.” Uma dinâmica para criar dúvidas nos seus “consumidores” em relação aos “produtos” do mesmo associado à AMB. E sintam que num enorme ato falho eles terminam dizendo: proporcionar melhor saúde e assistência aos nossos pacientes.

São eles, os mágicos, quem controlam a oferta, aqueles que proporcionam. Eles são os sujeitos os outros os pacientes. Malandros põem saúde no meio para disfarçar o que realmente fazem: assistência. Neste discurso a complexidade das relações saúde e doença, com seus componentes sociais, econômicos e políticos não existem. Existe apenas a assistência. Mas corrijo: existe a política.

O apoio a um candidato que desviou recursos da saúde. Não aplicou sequer os recursos previstos na Constituição que Minas Gerais deveria ter feito.


É AMB ficou difícil. Como argumentar no futuro por mais verbas para o SUS? E quando a Agência Nacional de Saúde privilegiar mais os interesses das “operadoras de Plano Privados de Saúde” do que dos “prestadores de serviços de saúde?”

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