TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

sexta-feira, 10 de maio de 2013

“AO CAIR DA TARDE...” (*)


Texto: Jorge Carvalho

...Saio de minha residência no Bairro Santa Luzia e me dirijo à Avenida Dom Francisco em direção à estação rodoviária. Continuando a caminhada, “dobro” à esquerda e começo a adentrar o populoso e aconchegante Bairro São Miguel. Véi do Caldo, antigo Pau do Guarda, Serviço Social da Industria (SESI). Recordo, ao passar em frente a esta instituição, o antigo São Pedro do SESI e a bandinha comandada pelo maestro Correinha. As luzes da Avenida Padre Cícero começam a clarear meus passos, no momento que “piso” a calçada do antigo cemitério do cólera (hoje terminal da CHESF). Adiante, a Igrejinha de São Miguel: Padre Frederico, lembro no momento (sacerdote carismático e um grande benfeitor da nossa cidade).
O Colégio Municipal vejo ali bem próximo. Nessa casa educacional, lecionei dois anos (1986 a 1988). “Piso” a Rua da Cruz. Bem adiante, a Casa de Saúde Joaquim Beserra de Farias, referência em ortopedia e traumatologia na região. “Dobro” o quartel da 5ª Companhia de Polícia (antiga Escola José de Brito). Atravesso a Nelson Alencar (a sempre rua da saudade), rua da Vala (Tristão Gonçalves), Senador Rompeu, Dr. João Pessoa.
Já passam das 20 horas, o canal do Rio Grangeiro aos meus olhos, ali próximo. Subo (pela esquerda) a Santos Dumont. Chego na antiga esquina de Zé Honor. Vou até a “quina” da Barbara de Alencar, me deparo com Chico Norões, Chico Nascimento, Fuisca, Luciano Pierre, Didi das bicicletas, Paulo Ernesto, Cacá de Bantim, Antônio Vicelmo, Arnaldo Brito, Cavalcante (relojoeiro), Vicente e Gilson (barbeiros), Vicente Brito, Carlos Pedro, Pierrin. Em frente, avisto o Palácio Alexandre Arraes - nosso marcante prefeito. Avisto a Sagrada Família, onde Seu Zé de Basto vem ao pensamento. Ao olhar para o alto, deslumbro o centenário Seminário São José. São 22 horas. Um ventinho gostoso sopra, naquele horário de início de madrugada, provavelmente vindo das “bandas” do romântico Lameiro, invadindo as ruas Teófilo Siqueira e das Laranjeiras (alô Bebeto, alô Olival). Chego no Parque Municipal: Quadra Bicentenário. Dou um tempo e bebo a primeira (da branca), servida por Aderbal no Bar do Parque. Converso com Gilberto Filho, Emanuel Nunes, Jamacaru, Geraldo Urano, Jacinto, Moacir Lócio, Hélio Pinheiro, Abidoral, Carlos Salatiel, Mathias (vigia da quadra), seu Nivaldo. Aos meus olhos o Colégio São João Bosco (onde estudei), o Hospital São Francisco. Passo na Faculdade de Filosofia. Chego ao Crato Tênis Club.
Antes, passei e comprei uns dez cordéis, na lojinha da poetisa Josenir Lacerda (Cordel e Arte). “Dou um pulinho” na cinquentenária mercearia do meu estimado Juarez Caçula, peço-lhe a benção e “tomo” a segunda (também da branca). Olho pra “riba”, avisto o bairro Caixa D’água – o sempre alto da alegria. Se eu atravessar a pracinha e seguir em frente, vou em direção ao clima gostoso do lameiro. São quase 24 horas (meia noite). Escolho dobrar (outra vez) à esquerda.
“Pego” a Carolino Sucupira. Caminho um pouco e passo atrás da Reitoria da nossa Universidade. Recordo o antigo campo do Sport: Palmeiras x Sport, Satélite x Shell, ou mesmo a Seleção Cratense x Seleção Juazeirense, em partida de futebol por mais um intermunicipal.

Novembro/2009
Jorge Carvalho

A caminhada terá continuidade
(*) Simulação

quinta-feira, 9 de maio de 2013

AS MORTES DE BANGLADESH NAS VITRINES DOS SHOPPING - José do Vale Pinheiro Feitosa


As análises marxistas do capitalismo estão historicamente localizadas no estado da economia política no século XIX. No entanto como método da evolução histórica do sistema capitalista ela não é datada e se aplica ao momento atual. A base da economia política, a dinâmica filosófica hegeliana e o ideário socialista dão ao pensamento marxista método de apreensão da realidade atual e aplicação política da superação ou da síntese das contradições inerentes ao capitalismo em seu movimento autofágico e gerador de crises econômicas e sociais.

As soluções, ou sínteses das contradições no seu mover-se pelo “combustível” da soma de quantidades até realizar o salto qualitativo de um estado para outro é compreensível pela inteligência humana, mesmo que este movimento aconteça num corpo de coisas fora dos controles políticos. Por exemplo, quando a Reforma Protestante quebra a hegemonia institucional do feudalismo, nucleada no poder Papal e imediatamente surge a Contrarreforma dentro do próprio catolicismo, este movimento contrário já quebrava a então inquebrantável força inercial do papado.  Não foi a toa que a mais evidente instituição da Contrarreforma tenha sido a Companhia de Jesus.

Era Companhia por associar-se à dinâmica do Mercantilismo, por isso esteve tão presente nas colônias Portuguesas e Espanholas como instrumento de “capitalização” de almas (e claro do poder material sustentado pelo mercantilismo). Quando os Estados Nacionais foram se consolidando a Companhia de Jesus começou a ser perseguida em sua “autonomia” (vide o Marquês de Pombal), inclusive pelo novo poder papal aderente ao sistema de economia política que é o capitalismo. Em conclusão: a contradição do sistema feudal em crise a partir do início de Renascimento não é uma mera luta entre o velho e o novo, como vimos os termos das forças contraditórias só movem a história porque já são algo diferente do original. A Reforma Protestante afrontava a principal instituição Feudal e a Contrarreforma também já trazia para o campo da luta real no tecido social algo diferente do que era o Vaticano antes da Reforma.  

Enfim: o individualismo, as luzes da razão, o surgimento de uma nova classe de vanguarda (a burguesia), os Estados Nacionais, a modificação nos meios de produção, o mercantilismo com seu colonialismo, a produção industrial, o comércio mundial e o sistema financeiro ubíquo é o movimento criativo do capitalismo como entendemos hoje. São estas algumas das categorias (não todas)  que precisam ser analisadas como compreensão da tragédia simbólica da empresa de roupas de Bangladesh e a ferocidade lucrativa da Benetton e assemelhadas.

A “honra” do pagamento de juros na bolsa da miséria e suas políticas de austeridade.     

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A CULPA É DO LULA - José do Vale Pinheiro Feitosa


O Lula é o culpado de tudo com o “bolsa esmola” e o “segura vagabundo”. A confirmação me chegou por e-mail hoje. Em Aquiraz a presença de caraminguás no bolso dos pescadores em razão daquelas doações do Lula melhorou os negócios no cabaré de Dona Tarcília Bezerra. É o business: o jeito foi ampliar as instalações para correr mais freguesia e os apurados das noitadas.

Acontece que uma congregação da Igreja Universal do Reino de Deus juntou-se em orações e exorcismações a varar o silêncio do bairro popular.  Apagar da face da terra o cabaré de Dona Tarcília. Eis o vaticínio daqueles fieis de olhos esbugalhados, da saliva gasta e das cordas vocais em últimos decibéis.

Acontece com toda obra. Um dia ela acaba e fica pronta para receber a freguesia ampliada. A nova iluminação, suspeito que até por comando digital, estava pronta a estimular todos os tipos de desejos carnais. As colunas de Sodoma a Gomorra estavam a postos para espalhar o sêmen do pecado nas horas escuras das noites.   

E foi aí que os céus se manifestaram e numa disenteria de espantar a moça do tempo, abriu ventanias arrasadoras e trovoadas ensurdecedoras. E foi quando do centro de um cumulus nimbus mais pleno de águas saiu um raio fatal que destruiu toda a fiação e abriu um incêndio que incinerou o telhado e outros recursos da reforma de Dona Tarcília.

Aí a congregação entrou em delírio de fé. A força de Deus se manifestara bem no alvo do pecado. Nunca se viu tamanha comemoração como naquele dia em que todos viram ao vivo e a cores a manifestação plena de Deus. E não só a prova de sua manifestação mas a prova de que Deus atendia às suas orações e aos seus reclamos.

Ora, Dona Tarcília não é besta e abriu um processo contra o pastor, a igreja e toda a congregação com o seguinte fundamento legal: eles teriam sido os responsáveis pelo fim do seu prédio e do seu negócio, utilizando-se da intervenção divina direta ou indireta e das ações ou meio.

O Juiz manda ouvir os acusados e estes negam toda e qualquer responsabilidade ou qualquer ligação com o fim do negócio de Dona Tarcília.

E foi ai que na primeira audiência entre acusados e acusadores o Juiz se manifesta: eu não sei como vou decidir neste caso, mas uma coisa está patente nos autos do processo.

Temos aqui uma proprietária de um cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada. 

domingo, 5 de maio de 2013

As opções políticas que geram epidemias - José do Vale Pinheiro Feitosa


Há poucos anos, junto com um colega médico que é um premiado fotógrafo, fiz um texto para um livreto intitulado Rita – a face humana da tuberculose. O livro foi publicado pela Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Rio de Janeiro com apoio de duas ONGs: o Fórum ONG-TB-RJ e o GAEXPA. Até bem pouco tempo o texto estava no site destas ONGs.

Ali, se narrou de forma resumida a vida e o problema com a tuberculose de Rita de Cássia Vieira Smith. Ao examinar o sobrenome Smith descobrimos que ela era casada com um americano, infectado pela HIV e que vivia no Brasil, num casamento que lhe dava o direito ao tratamento que ele não conseguia ter acesso nos EUA.

O tratamento, bem conduzido por equipe treinada e com medicação gratuita dada pelo Estado Brasileiro é uma condição sem a qual aumenta a incidência da Síndrome de Imunodeficiência que tem altos índices de letalidade em pouco tempo. E este tratamento é a realização de uma política que tornou a saúde o direito do cidadão e um dever do Estado.

Lembro este caso uma vez que acabo de ler uma postagem oriunda da Reuters e assinada por Kate Kelland que de modo resumido diz o seguinte: as políticas de austeridade fiscal nos EUA e na Europa provocaram aumento de suicídios, depressão e de doenças infecciosas e dificultaram o acesso a médicos e medicamentos.

A análise destes dados e suas conclusões foram feitas pelo economista de Oxford, David Stuckler e pelo epidemiologista de Stanford, Sanjay Basu. Durante a recessão nos EUA mais de cinco milhões perderam acesso aos instrumentos tecnológicos de saúde. As infecções e mortes consequentes da infecção pelo HIV aumentaram e até a malária recrudesceu na Grécia. Segundo os pesquisadores o que mais encontraram com as políticas de austeridade foi escassez de medicamentos essenciais, epidemia de abuso do álcool, suicídios e depressão.

O importante desse estudo é que ele nega exatamente o que parece nos levar a concluir ao ler o texto até aqui: tudo não é consequência da recessão. Mas tenhamos calma que a explicação dele é contundente: “No final o que vimos é que a piora da saúde não é uma consequência inevitável das recessões econômicas. É uma escolha política.”     

Está explicado que o problema é político. Que a sua reversão é uma luta política por outras escolhas. Entre as quais ampliarem a democracia e reduzir a influência das elites endinheiradas, que não pagam impostos, concentram riquezas e o poder de decisão econômica mais do que milhões de pessoas.  E esta luta passa por uma bem conduzida crítica ao neoliberalismo e ao grande sorvedouro de vidas humanas que a ideologia promoveu por suas opções políticas.

A contemporização com estas opções políticas mesmo que para “quando o carnaval chegar” é a adoção consciente da frieza cruel diante da desgraça de milhões. Ou 26% de desempregados não é um problema para se está num mundo orgânico cujo sangue é o dinheiro?


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Por Vossa Mercê me ardo de amores...




                            
   A carta foi descoberta em uma greta, na parede de uma casa antiga de Toledo na Espanha. O proprietário atual da velha mansão se dispusera a fazer uma reforma. Por trás de uma das vigas,  deu-se com o tesouro , envolto em um canudinho e atado comum já puído barbante.  Junto uma espiga de milho que deve ter ajudado a introduzir o canudo nas profundidades do muro. Havia sido ali colocada, cuidadosamente, como uma relíquia que se quer preservada. Como se a descoberta  inoportuna pusesse em desequilíbrio a estabilidade de dinastias e estados. A restauração careceu de cuidados arqueológicos. O documento ameaçava desintegrar-se ao simples toque das mãos. Para surpresa de todos,  a cartinha não carregava consigo segredos de estado, estratégias militares, conspirações palacianas. Tratava-se de  uma carta de amor.
                               As linhas  haviam sido escritas, em letra artística,  com uma pluma de pássaro : nada mais adequado  para palavras de amor !  Fluidez, leveza, horizontes infinitos de passarinho. Nela, um apaixonado Dom Alfonso de Vargas y Montes  dirigia-se à sua querida Doña  Maria de Sierra,  com a aflição dos amantes, em frases como : “É por vossa mercê que me ardo de amores...” e “nasci para servir a vossa mercê e não para mandar”.   Agradecia por alguns favores recebidos  e demonstrava, claramente, que o amor se fazia correspondido,  pois  D. Alfonso elogiava, cortesmente, a letrinha da amada em correspondências anteriores.  Citava ainda duas outras pessoas que, certamente, deviam conhecer a relação  secreta: “ Pepita, quando te beijar, te dará dois beijos, um por mim e outro por Don Juan”. Terminava a missiva de forma esperançosa : “Por haver escrito com pressa, não explico melhor meu afetuoso amor por vossa mercê. Para manhã, sendo Deus servido, espero resposta”.  Datava D. Alfonso sua correspondência : “29 de Outubro de 1700”.
                               Tinham se passado mais de trezentos anos desde que o nosso apaixonado e fervoroso Vargas y Montes encaminhou  aquelas bem traçadas linhas à sua amada. Quem seriam D. Alfonso e D. Maria de Sierra ? Qual o fim dessa história ? Pesquisadores tentaram identificar o casal de enamorados , mas mostrou-se impossível o projeto. Na época, não havia registro nenhum de mulheres  e nem participação delas em  levantamentos censitários. Dom Vargas y Montes também não se localizou.  Descobriu-se, apenas, que a atual vivenda onde a relíquia foi descoberta  fazia parte de um antigo seminário e aventou-se a possibilidade de a amada de D. Afonso ser uma religiosa, talvez enclausurada com o único fito de ser afastada de um pretendente de origem plebeia ou  inadequado aos olhos da família Sierra.
                               O leitor pode até concluir, como Álvaro de Campos, que “Todas as cartas de amor são ridículas” , independentemente da cronologia de quando se as grafaram. Talvez, no entanto, mais grotescas e ridículas sejam as forças que se antepõem seguidamente ao exercício natural do amor em suas mais diversas formas. A paixão de D. Afonso e Doña Maria terminou corroída pela inexorabilidade  do tempo, como todas as coisas neste mundo,  sujeitas à ferrugem e ao cupim das horas.  Se os beijos  do nosso galante  escritor aconteceram apenas pela intersecção de Papita  ou um dia chegaram à esperada realidade, não se sabe. Apenas temos a certeza que duraram o infinitesimal momento em que aconteceram. Se o amor carrega consigo essa efemeridade inevitável, a cartinha de trezentos anos prova, por outro lado, que o sentimento que tangeu D. Afonso e D. Maria são eternos na sua essência. Hoje , com os celulares e os e-mails,  já não possuem a perenidade de registro que Vargas y Montes um dia imprimiu.  Mas, no íntimo, mantém aquela cola básica que se faz a força motriz da humanidade e que um dia redundou na degustação dos frutos da árvore do bem e do mal e na expulsão dos jardins do éden.
                                               O que faz a Terra girar sempre continua sendo a  a esperança que imantou D. Vargas y Montes :  a de que, para amanhã, sendo Deus servido, uma resposta há de chegar.

 J. Flávio Vieira

OS CAETANOS - Eu vou por que não?

https://www.facebook.com/events/155021341336470/155036004668337/?ref=notif&notif_t=plan_mall_activity

Na próxima semana a banda OS CAETANOS aportam pela primeira vez no nosso Cariri. Eles vem trazendo um repertório todo montado em cima da obra do grande Caetano Veloso, só que tocado, interpretado e representado às sua maneiras. O pernambucano Cláudio Brasil, lider e cantor da banda, encarna o bahiano de forma inusitada e carregado de performances tropicalistas. É realmente um evento que não se pode perder. Um trabalho que vem dando grande destaque aos Caetanos, pela maneira diferenciada, ousada e recheada de jeitos, trejeitos à la Caetano Veloso. 
O local desse evento não poderia deixar de ser o Crato Tênis Clube, um espaço que tem todo o glamour da tropicália, dos tempo em que a banda Ases do Ritmo balançava os nossos corações tocando sucessos de Caetano, Gil, Mutantes e outros ícones desse movimento que marcou uma geração no Brasil. O antigo salão do clube do Pimenta será o palco desta apresentação que será um marco na história cultural e musical no Cariri. Os Caetanos vem pra fazer a festa e, assim como eles, nós vamos fazer acontecer um dos eventos mais bacanas do Cariri. Porque nós nascemos para ser superbacanas. Venha com a sua alegria, o seu amor, a sua paz e sigamos juntos, afinal, eu vou, por que não?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Exploração - por José do Vale Pinheiro Feitosa


A ideia da exploração do homem pelo homem remonta à antiguidade. Melhor dizendo: às civilizações clássicas. E tem por base a produção agropastoril e a exploração de minérios. Quer dizer a necessidade de tirar a liberdade de ir e vir e tornar o escravo aprisionado ao sistema de produção de natureza continuada.

A diferença da exploração que começa com o Renascimento, as grandes navegações, o mercantilismo, a reforma protestante e a contrarreforma, que desembocou no capitalismo e na sociedade industrial é o fim da terra como valor e a urbanização como estratégia. A urbanização não é o mote da mudança, mas a empresa capitalista e o sistema financeiro que acompanhou para precificar e garantir a posse dos excedentes.

A exploração do homem pelo homem não se encontra numa maldade ontológica humana e nem na sua degeneração moral. A natureza do capital é a exploração e, portanto, o patrimônio moral é esse, como dizem os americanos tudo em nome do business. Aliás, como John Houston bem mostrou em seu filme Prizzi´s Honor “legitimamente” seguido pela Máfia americana.

A colonização europeia dos outros continentes aconteceu movida pela empresa mercantil e assim acelerou a transformação mundial global de modo que o fenômeno começa há quinhentos anos. A tomada das terras indígenas, africanas, australianas e asiáticas não foi um processo clássico de ocupação de terras por outros povos como no feudalismo. Foi ela, a tomada, feita sobre a plataforma da empresa mercantil que sustentava grandes plantações, minerações, caçadas e coletas para abastecer os navios de porto em porto.

Aqui no Brasil mais do que tomar violentamente as terras indígenas, a mercantilização e o capitalismo destruíram a cultura medieval portuguesa e a cultura original indígena e as substituiu pela fazenda não mais feudal, embora guardasse muitos aspectos daquele tempo. A exploração do homem pelo homem continua a grande questão filosófica, se entendemos a filosofia como a organização da ideia para entender o seu mundo e assim transformá-lo.

Entender que o capitalismo e suas contradições estão no desemprego em massa, nas guerras, na fome, no desespero do indivíduo, nas cloacas urbanas, na violência interpessoal, na prostituição feminina, no consumo de estimulantes e substâncias inebriantes e de modo geral na cultura do consumismo conspícuo.

Mais do que repetir os mantras de nossas revistas e jornais conservadores os nossos intelectuais, os professores e os formadores de opinião têm que ampliar os horizontes do local da discussão. Não podemos sair pela tangente e nem por ideias escapistas que o problema do mundo se deve à Venezuela e aos irmãos Fidel de 86 anos e Raul de 82 anos de idade. Osama Bin Laden tem sua execução comemorada hoje. Foi há dois anos.

O capitalismo continua o local da discussão.        

A "face oculta do patrocinador" - José Nilton Mariano Saraiva

Até a “pedra da batateira” (lá no Crato) tem plena consciência (pedra, pensa ???) que na partida final da Copa do Mundo de Futebol, de 1998, realizada na França, a seleção brasileira atuou (não necessariamente em termos numéricos) desde o princípio, com um jogador a menos, daí a atuação ridícula e a conseqüente acachapante derrota por 3 x 0 para os anfitriões. É que o jogador Ronaldo Nazário (vulgarmente conhecido por o “Gordo”), que houvera sofrido convulsões minutos antes, foi escalado para aquele jogo meia-hora antes, sem que tivesse a mínima condição para tal (e aí, faltou um “doutor” arrochado, com um mínimo de ética e dignidade, para diagnosticar isso). Tanto é que, momentos antes da pugna se iniciar, no documento oficial disponibilizado para a imprensa de todo o mundo, figurava o nome do seu então reserva eventual, Edmundo, como titular do ataque brasileiro. O que aconteceu para que um jogador sem a mínima condição (e durante todo o jogo isso ficou comprovado) tenha sido posto, de forma até temerária, para disputar uma final de Copa do Mundo, após um suposto ataque epiléptico ??? Por que motivo a expectativa de milhões de pessoas foi prematuramente relegada a um plano secundário, frustrando-as de forma irremediável, porquanto com um jogador a menos em campo ??? À época, sem maiores contestações, desculpas sem pé nem cabeça foram ventiladas por parte de dirigentes, equipe médica e por aí vai, mas que nunca convenceram a ninguém. Posteriormente, restou comprovado que a razão determinante fora obliterada: o jogador entrou em campo literalmente dopado por um coquetel de possantes remédios. Pois foi em função da atipicidade daquele momento e em circunstâncias até dramáticas, que o Brasil conheceu, em toda a sua desfaçatez e crueza, a “face oculta do patrocinador”, e que a mercantilização desbragada chegara com força ao futebol: é que a Nike, patrocinadora não só da Seleção Brasileira, mas, também, do próprio jogador, teria “exigido”, “imposto”, “determinado”, por cima de pau e pedra, que ele fosse escalado, independentemente do comprometimento da sua condição físico/clínica. Como as quantias envolvidas eram dignas de algum desses príncipes árabes que nadam em petróleo, a “ordem” foi obedecida sem qualquer contestação e, assim, a seleção brasileira apresentou-se de forma pífia, naufragando de forma vergonhosa. E não se falou mais nisso, petê saudações (talvez se o jogador tivesse “batido as botas”, em pleno gramado, a verdade surgiria cristalina). Fato é que, de lá pra cá, a força do patrocínio-mercenário se solidificou a cada dia, e isso se reflete na “invasão” dos antigos “mantos sagrados” (camisas da seleção e dos clubes, às quais tínhamos orgulho de envergar), que se transformaram em autênticos outdoors ambulantes, já que descaracterizadas por propagandas de qualquer espécie. Ou será que algum torcedor do Vasco da Gama, por exemplo, algum dia imaginou ver o time entrar em campo com uma camisa azul e branco, que não tem nada a ver com a tradição do clube; ou que um flamenguista tenha que suportar o time envergar um uniforme amarelo e azul, tudo isso imposto e bancado pelo patrocinador ???. No mais, a badalada escolha do melhor jogador do mundo não passa de um jogo de cartas marcadas, uma farsa patrocinada pelo tal patrocinador que, inclusive, chega até a determinar os resultados das partidas (inclusive em Copas do Mundo) dependendo das suas conveniências. É a “face oculta do patrocinador” em toda a sua pujança, que muitos teimam em não ignorar. 

TEATRO DE BONECOS EM CRATO-CE


A COMPANHIA DE TEATRO DE BONECOS
O CLUBE DE SISIFO 

Apresenta

 “O ESPANTALHO”
Uma estória para crianças que acontece no milharal
Manipulação: Juan Carlos Guzmán Vélez (Colômbia)



Auditório do Centro Cultural do Araripe (RFFSA), Crato-CE, 17h30min
02 (quinta) e 03 (sexta) de maio de 2013, 17h30min

ENTRADA FRANCA



Sinopse:
"O espantalhinho faz muito bem seu trabalho, mas fica sozinho no momento de ter que enfrentar o seu terrível inimigo. Então, descobre que precisa dos outros pra salvar sua vida e com ajuda da plateia e algum bichinho da roça tenta afastar o fogo. Nesta procura eles vivem interessantes aventuras."

Informações:
(88) 8801.0897
(88) 9960.4466

Apoio:
Prefeitura Municipal do Crato
Secretaria Municipal da Cultura
Sociedade Cariri das Artes 
Cia. Brasileira de Teatro Brincante
Ponto de Cultura Cena Brincante
Guerrilha do Ato Dramático Caririense

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ói eu aqui de novo!


O vai e vem ao Cariricult além de refletir o fluxo da minha vida atual é, na essência, um sempre vem. Ao encontro da minha gente. Dos jovens que suportam nos ler afinal temos tanto de nossa geração. E aos andados no tempo que de vez em quando prometem nunca mais me levar em consideração, riscando-me do mapa de suas palavras. E sei que alguns e-mails trocados até comemoram as bordoadas.  

Mas o que seria do debate sem emoção e o justo estranhamento? Não seria e aproveito para confessar uma ignorância histórica. Quando os blogs e a redes sociais começaram a expor as ideias e as pessoas saltaram em grosseria, um palavrório destemperado que imaginava fosse apenas uma deseducação às regras do debate. Estava enganado.

Revendo histórias do jornalismo da República Velha, do nosso conterrâneo Antonio Salles e de figuras como o Barão de Itararé pode-se se ter a noticia de quanto os debates eram ácidos e até mesmo destemperados como são os de agora. Se alguém teve ou tiver a oportunidade de ler sobre o Correio de Manhã e Edmundo Bittencourt vai entender que hoje somos até tímidos e educados. Talvez digamos mais bobagens pelo que nos falta em certa cultura humanística.

Mas de qualquer modo o entusiasmo com suas ideias não é ruim, ao contrário é muito bom e temos que achar muito mais o modo de visa-las dos que as pessoas que as apresentam. Isso até vem a respeito de que quatro meses adiante a Síria continua se matando. As Coreias brincam de guerra, mas o substrato disso tudo é uma das Coreias com arma atômica concluindo-se que aquela região já está com este armamento e o Japão lembrando Hiroshima, até que as duas Coreias sejam apenas uma, não interessa o regime, mas a geopolítica da Ásia. Hoje o centro do futuro da economia.

E os “democratas” da Venezuela saíram na pancadaria com os chavistas. Os “democratas” que promovem golpes. Os “democratas” que são a esperança de muita gente das plagas brasileiras. Mas a esperança tem data marcada: outubro do próximo ano. No Ceará o quadro é muito interessante, os irmãos Gomes parecem apostar num poste, o Eunício faz prefeituras e multiplica placas de melhor senador pelas estradas do Ceará. O papel do PT no Ceará ainda está aberto, depende muito do Eduardo Campos numa candidatura a Presidente.

No país a Dilma faz campanha eleitoral a olhos vistos. Basta um exemplo: o futebol na companhia dos operários da obra do Maracanã (houve mesmo? Terminei não conferindo o fato). Aqui no Rio os arranjos estão de venta e popa e com muitas contradições, mas parece mesmo que a liga PMDB e PT é o principal e único projeto da reeleição da Dilma.

Por isso a Presidenta rifou o Brizola Neto na disputa da presidência do PDT com o Lupi. Com uma mão tirou o PDT do arranjo do Eduardo Campos e com a outra garantiu a unidade de sua campanha. O jornal O Globo com mais frequência leio manchetes e os telejornais do sistema estão num limite de conveniência por uma razão simples: eles dependem das políticas monetárias do governo e sua oposição é qualificada no sentido de forçar “certas soluções”.

Enfim é um prazer enorme está aqui com esta gente com quem tanto me identifico até nas profundas divergências.  

sábado, 27 de abril de 2013

"Jugo" - José Nilton Mariano Saraiva


A “obediência canina” é um dos pré-requisitos básicos àqueles que têm a desventura de trabalhar sob o "jugo" do global narrador Galvão Bueno, já há décadas o chefe supremo da equipe esportiva da TV Globo. Nem que isso represente navegar contra a maré. É de todos conhecido, por exemplo, a “geladeira” (isolamento) em que foi posto o crítico de arbitragem Arnaldo Cesar Coelho, por ter tido a ousadia de discordar de uma opinião do “chefe”, durante uma transmissão ao vivo.
Pois bem, durante a narração do último jogo Brasil X Chile, o Galvão Bueno passou toda a transmissão tecendo loas à facilidade, à funcionalidade, à eficiência e, enfim, à competência com que os responsáveis pela reforma do estádio Mineirão agiram, no tocante à mobilidade urbana (fluidez do trânsito) no entorno daquela praça de esportes, assim como com relação ao acesso às dependências do estádio. Para tanto, valeu-se do depoimento dos subalternos, que confirmaram e reafirmaram com todas as letras, pontos e acentos tudo o que o chefe houvera dito (chegar ao Mineirão e adentrá-lo nunca foi tão fácil).
Mas...
Dia seguinte, no principal telejornal da emissora global (Jornal Nacional), as imagens e depoimentos dos torcedores mineiros que “tentavam” chegar ao estádio nos deram a real dimensão da coisa: transito literalmente parado, muita confusão, revolta, insatisfação e grita generalizada por parte dos torcedores. Em suma, caos absoluto.
Como, ao mostrar e comprovar a “zorra” reinante na ocasião, a Globo publicamente desmentiu tudo o que o Galvão Bueno e subordinados afirmaram na transmissão ao vivo, no dia anterior, a pergunta que fica é: será que, tal qual a maioria dos torcedores, a cúpula da emissora global já “abusou” da arrogância e prepotência do próprio ??? Estaria reconhecendo a “saturação” do material ??? Ou que o “prazo de validade” da mercadoria oferecida aos seus telespectadores já passou ??? Será ???
Afinal, não custa lembrar, dias atrás a belíssima, simpática e competente Fátima Bernardes foi afastada do mesmo Jornal Nacional, carro-chefe da emissora, sob o argumento da necessidade de “oxigenação” do caro e valorizado horário nobre da TV Globo (embora a substituta, a também competente e belíssima Patrícia Poeta, se nos apresente como um verdadeiro “colírio para os olhos”).
O que você, aí do outro lado da telinha, acha ???

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Pronuncie... se puder - José Nilton Mariano Saraiva

Weidenfeller, Łukasz Piszczek (Grosskreutz), Neven Subotić,
Mats Hummels, Marcel Schmelzer, Sven Bender,  İlkay Gündoğan (Schieber), Jakub Błaszczykowski (Kehl), Mario Götze, Marco Reus, Robert Lewandowski (Jurgen Klopp/Treinador).
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Até pela grafia dos nomes dos seus integrantes, não há como deixar de reconhecer tratar-se de um “genuíno” e autentico time de futebol alemão (o respeitável Borussia Dortmund). Mesmo porque, ao contrário dos grandes times mundiais da atualidade, repletos de “alienígenas”, aqui há a prevalência dos matutos “filhos da terra” (com uma ou outra honrosa exceção), daí a extrema dificuldade ou “enrolação” da língua para todos nós que não estamos acostumados com tal tipo de pronúncia. No mais, não é de hoje que o futebol alemão se destaca pela marcação implacável (em razão de um preparo físico excelente), pela insistência com que seus jogadores “caçam” os adversários em qualquer parte do gramado (já que parecem “voar” em campo), pela verticalidade e objetividade das suas ações (na perseguição do gol), pelo outrora inimaginável e envolvente toque de bola (eram conhecidos por "cintura dura"), e, principalmente pela absoluta ausência de firulas ou frescuras (tão comuns no nosso futebol). Em sendo assim, independentemente dos resultados dos dois jogos da próxima semana (que determinarão os finalistas da Copa dos Campeões da Europa), contra os fortíssimos (e não descartáveis) timaços-poliglotas-espanhóis do Barcelona e Real Madrid, o futebol alemão, através do Bayern de Munique e Borússia Dortmund, prova ser, literalmente, a “bola da vez”. Fato é que, queiram ou não determinados  "gênios" (analistas) do futebol brasileiro,  Alemanha e Espanha estão “sobrando” em termos de futebol moderno, eficiente e gostoso de ser ver

O ocaso, o tempo e o acaso



“Tudo depende do tempo e do acaso”
Eclesiastes

                                               Há exatos dez anos, silenciava a pena de um dos mais prolíficos e brilhantes escritores cearenses: O Padre Antonio Vieira. Nascido na pequenina Lagoa dos Órfãos, em Várzea Alegre, Vieira dizia-se filho sentimental e intelectual da Cidade de Frei Carlos. Deixou quase trinta livros publicados, dentre eles “O Jumento, Nosso Irmão” , reconhecido internacionalmente, publicado numa versão inglesa e tido como  a mais impressionante e completa obra já escrita sobre o  nosso querido Jerico. Sua produção fluía de uma extraordinária erudição que avançava pelos campos da Literatura, da Sociologia, da Filosofia, do Direito, da Antropologia, da História, da Gramática, da Política, da Religião. Vieira era um poliglota, um orador inspiradíssimo e dono de um estilo único e inconfundível. Mesclava, com rara destreza, a poesia e o humor e fez-se um  incansável engenho de produção literária. Como professor (de incontáveis línguas e matérias) tinha o poder quase único de hipnotizar platéias e transferir a portentosa sabedoria acumulada por tantos e tantos anos, com uma leveza e didática difíceis de se encontrar nos atuais mercados educacionais.
                                               Mais que um escritor, o Padre Vieira era um Artista. Estava profundamente antenado com o seu tempo. Conseguia ver bem além dos filtros religiosos e morais que a sociedade nos vai impingindo, pouco a pouco, na busca de empalhar-nos com verdades prontas e receitas pré-fabricadas. Franzino, feio e aparentemente frágil, Vieira carregava uma força de um guerreiro espartano. Eleito deputado federal em plena Ditadura Militar, insurgiu-se, bravamente, contra o golpe de 64, contra a Censura e a Tortura. Seus pronunciamentos no Congresso possuíam uma contundência inimaginável num regime de exceção. Por isso mesmo, terminou cassado nas primeiras lufadas do AI-5. Numa época , amigos, em que tantos e tantos se acumpliciaram com a ditadura e outros tantos fizeram-se de Judas e entregaram estudantes, sindicalistas e políticos  tidos como subversivos aos leões famintos da arena pátria; Vieira, como artista,  teve a clarividência de reconhecer quem eram os mocinhos e os bandidos e, corajosamente, alistou-se com os que pugnavam pelo bom combate. Não foi menos corajoso ao insurgir-se contra algumas leis pétreas da igreja de que fazia parte. Postou-se contra o celibato clerical, contra o medievalismo crônico de algumas teses imutáveis, contra o preconceito de gênero nas suas hostes, contra a hierarquia mais burocrática e menos pastoral. Hoje, quando as mudanças nas estruturas arcaicas  parecem mais que imperiosas, o tempo demonstrou , claramente, que o Padre Vieira trilhava, mais uma vez, o caminho da luz.
                                               O legado de um escritor insre-se nas páginas que escreveu. A herança de um artista, no entanto, ultrapassa as fronteiras da sua obra. Em que contribuímos, com nossa Arte,  para transformar esse mundo num lugar mais bonito, mais justo, mais feliz, mais alegre ? Acredito que Vieira buscou, desesperadamente, legar um planeta mais igualitário , mais franco e mais risonho para a posteridade. Reclamava de ter sido tolhido como ser humano, na impossibilidade de gerar descendência, mas deixou quase trinta filhos, na forma de  livros.  Espalhados pelo Brasil, necessitam de reedições para que cheguem às novas gerações e continuem o seu poder transformador.
                                               Passados dez anos, chega o tempo em que um artista tão importante precisa sair do purgatório da nossa história. O Cariri e o Ceará precisam saudar essa dívida para com um dos seus mais expressivos artistas. Tudo nessa vida, como diz o Eclesiastes, depende do tempo e do acaso, mas bem que podíamos dar um empurrãozinho a estas duas forças motrizes da humanidade. 

J. Flávio Vieira