TRIPULANTES DESTA MESMA NAVE

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Los Perros y el Poeta - José do Vale Pinheiro Feitosa

As longas ruas de Santiago assim as são pelo comprido vale que se estica entre os Andes e a Cordilheira do Mar. E por todas as alongadas ruas os cães vivem soltos, especialmente no centro formigueiro de gente. Ainda não em matilhas, mas em grupos ou solitários.

A sociedade protetora dos animais manifesta sua vontade política de não retirá-los das ruas, os donos de bancas e camelôs os alimentam e assim cães que viram latas, mas vira-latas não são pelos padrões das pobres ruas brasileiras, ocupam um território. Atravessam as longas e movimentadas avenidas da capital ao ritmo das pessoas, pelos sinais, sem compreenderem as cores, mas seguindo a procissão humana em obediência ao verde sinalizado.

Do corpo congelado dos latifúndios conservados e dos feitores da mineração do cobre surgiu uma elite ígnea e por isso mesmo acobertou-lhe uma grossa camada oxidada. Dessa ferrugem em camadas como uma massa folheada, vieram os bastardos do latifúndio e das susseranias, as sobras lanhadas dos feitores rurais, as escolas de fazer guerra aos apelos das novas camadas populares em busca de participação nas riquezas.

Estos perros se convirtieron em matilha. Assaltaram o poder popular, bombardearam a sede do poder democraticamente eleito. Aprisionaram, torturaram e mataram os cantores, os artistas, os líderes, os estudantes, os operários, los obreros como Manoel de Amanda.

Levaram a todos para o Estadio Nacional e ali começaram a seleção de assassinatos, de soltar os cães agressivos, os chutes na barriga das mulheres grávidas. Um oficial louco de ódio trucidou o compositor e cantor Victor Jara. O canil fora alimentado na medida, nem muito e nem pouco, mas com a ameça da escassez pelo governo imperial dos Estados Unidos da América em Saque. A matilha dos cães do Chile orquestradas pela chibata de comando de Augusto José Ramón Pinochet Ugarte.

Os franceses têm muitos créditos com a civilização ocidental. Mas um débito tremendo com os direitos humanos, com a dignidade e a paz dos povos em razão do seu pervertido espírito colonial. Não muito diferente dos outros países colonialistas da Europa, mas esmerados em técnicas de fazer sofrer os oprimidos. A sua prolongada guerra colonial na Argélia gerou o pior dos soldados, aquele pervertido em torturas e destruição da humanidade e das pessoas. Era, Augusto Pinochet, filho de um militar de origem francesa.

Los perros atacaram La Chascona, a residência do poeta Pablo Neruda e de Matilde, que fica ao pé do Cerro San Cristóbal no bairro popular de Bela Vista. Cercaram o bairro com armas e veículos de guerras. Os soldados tomaram as ruas, entraram na casa do poeta, saquearam os livros e os queimaram em las calles próximas. A nuvem negra do sacro espírito das fogueiras inquisitoriais. O ódio ao poeta. Aos comunistas. Ao povo que havia eleito Salvador Allende.

O golpe de los perros aconteceu no dia 11 de novembro de 1973 e no dia 23, doze dias passados, morreu Neruda. Membros das embaixadas, especialmente da embaixada da Suécia se deslocaram em solidariedade a Matilde que cercada por los perros, velava o corpo do poeta. La Chascona estava cercada por baionetas caladas. E Matilde resolveu que iria levar o corpo de Neruda pelas ruas até ao cemitério sobre enorme risco pela saliva de ódios da direita chilena que cercava o poeta.

No dia marcado Matilde não ficou só. O embaixador da Suécia, Harald Edlestam que salvou muitos exilados brasileiros e que é tema de um recente filme sueco, entrou no meio do cortejo em franco desafio às balas dos golpistas. E vieram outros membros de outras embaixadas e los perros não tinham como atacar este pessoal, mas acompanharam o féretro com passadas de fel espelhado pelas ruas de Santiago. Para surpresa da história, anônimos foram surgindo não se sabe de onde e silenciosamente engrossaram o cortejo que honrava o poeta maior do Chile.


Um desafio ao ódio. À morte. Ao assassinato e à tortura. O poeta não saiu vencedor da morte física, mas a humanidade dos chilenos foi salva neste gesto. Incluso los perros no pueden esquercer de ella.  

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Casamento da Senhora Baratinha - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quem quer casar com a senhora baratinha
Que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha
É carinhosa e quem com ela quiser se casar
Terá doces todo dia, no almoço e no jantar.

O genial Braguinha pegou esta música de domínio público, deu-lhe uma letra memorável que muitas crianças pelo Brasil cantaram e ainda cantam. Mas na semana que passou outra Baratinha casou-se, no Copacabana Palace, o mais palácio de todos os palácios da burguesia brasileira. A filha do magnata dos ônibus, Jacob Barata que tem concessões desde o Amazonas até o Rio e que pelo que consta é sócio de Chiquinho Feitosa, o mais próspero magnata dos ônibus mui confortáveis das ruas de Fortaleza e seus subúrbios.

Foi uma festa digna de encher as revistas de consultórios e cabelereiros, uma festa apropriada ao exibicionismo dos riquíssimos cearenses que tão bem o afiadíssimo Jáder de Carvalho estripou em seu livro denúncia intitulado Aldeota. Enquanto as ruas de Fortaleza e das cidades cearenses cruzam com um dos maiores índices de violência eis o que disse a colunista social Hildegard Angel sobre a vestimenta das madames presentes à festa.

“Todo esse décor (ela falava da deslumbrante decoração dos salões) serviu de cenário à mais fantástica coleção de vestidos jamais reunida numa festa no Rio de Janeiro. Esta a opinião que ouvi de vários que lá estiveram, quer como convidados, quer prestando serviço ao evento. Um especialista em moda, que pediu para não ser identificado, falou: Nunca vi tantos vestidos deslumbrantes como nessa festa. E de gente que ninguém conhece. Acredita-se que grande maioria das mulheres com essas roupas sensacionais, vestidos de alta costura, grandes marcas, fosse de convidados do Ceará, que ocuparam vários apartamentos no hotel. O Copa bombou na festa e na ocupação.”

E a “ocupação” se deveu a duas manifestações que cercarem o grande baile da corte: uma na igreja e outra em frente ao Copacabana Palace. Na igreja enquanto o padre celebrava o enlace, a gritaria vinda de fora ressoava no vão celestial da santa cerimônia. A saída de noivos e convidados foi na base da porrada: policiais e seguranças às cacetadas e cotoveladas enquanto o povo rebelado gritava no mínimo que o noivo iria broxar.

Um destaque da festa foi o padrinho dos noivos: Ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Logo a maldade levanta na rede uma série de processos que tiveram o dedo do ministro que se originavam na família Barata. Mas a razão é mais familiar: Chiquinho Filho, é filho de Chiquinho que é irmão de Guiomar mulher de Gilmar. Chiquinho Feitosa, o pai, também teve um pai. Que foi Carlos Albuquerque, nascido na localidade de Jardim na cidade de Paracuru. Temos duas derivativas dessa história: Carlos Albuquerque para melhorar de vida migrou para Tauá. Lá montou um grande armazém e se envolveu no assassinato da primeira mulher por “questões de honra” como se dizia antigamente. Mas casou-se com uma filha de uma das matriarcas dos Inhamuns.

O pai de Carlos Albuquerque, conta uma lenda, que deve ser lenda, embora toda a Paracuru acredite nela. Consta que um navio carregado de fardos de borracha navegava próximo à costa da cidade e foi bombardeado por submarino alemão. Os fardos de borracha se espalharam nas correntezas do mar. O pai de Carlos Albuquerque, que tinha barcos de pesca, navegou em busca dos fardos, além de estimular os jangadeiros da cidade a arrastá-los até a costa que ele os compraria. Seria esse o nicho ecológico desse imenso capital.

Mas fardo pesado quem vivenciou mesmo foram seu bisneto e convidados do seu casamento com Beatriz Barata. Filha de Jacob Barata. Não adiantou que um dos três salões da frente do Copacabana Palace fosse destinado a ser o Salão de Doces como bem-casados da Elvira Bona, doces de Christiana Guinle, chocolates de Fabiana D´Angelo, chá, café, brownies. O chamapagne era Veuve Clicquot e garrafas de Black Label eram virais no copo que o desejasse. Vários bares de caipirinha, saquê e assim por diante. O bolo de Regina Rodrigues em vários andares numa brancura de fazer inveja aos mais puros anjos.

O buffet foi do Copacabana Palace, distribuído em vários salões e varandas, mesas de frios, pratos quentes e o cerimonial de Ricardo Stambowsky e fotos de Ribinhas. Não sei nada disso.  Tudo foi copiado da nota de Hildegard Angel.

E o povo na rua assistindo a todo tipo de desprezo com a dor dos outros, a mobilidade urbana, o baixo salário, fome e a miséria. Uma das evidências foi que nesse dia a Lei Seca não funcionou para o convidados mamados que pegavam seus carrões. O povo na rua gritando, vaiando e os convidados lá de cima esnobando suas posições. Jogavam notas de vinte reais, salgadinhos até que um parente da noiva jogou um cinzeiro que feriu um manifestante e aí a OAB entrou no circuito e parece que alguma punição haverá.

Mas a linda festa da Baratinha terminou mesmo foi com a polícia de choque com gases lacrimogêneos, spray de pimenta, balas de borracha, prisões e pancadaria. No povo da rua. Naqueles que até vivem na zona sul mas têm horror a este exibicionismo de bilionários que insultam o povo.

Na manhã seguinte um dos manifestantes da zona sul foi abrir a porta para sua faxineira que viajara quatro horas nos miseráveis ônibus do pai da Senhora Baratinha. Nem só de fora Dilma as manifestações vivem. Parece que alguma consciência de classe também entra nesta dispersa agenda dos movimentos de rua pelo mundo todo e aqui nas ruas brasileiras.  

Ps. Hildegard Angel é uma das últimas remanescentes do colunismo social à moda antiga. Mas tem uma matriz dolorida em sua vida: o irmão Stuart Angel foi preso e assassinado na Ditadura Militar e a mãe Zuzu Angel sofreu uma morte suspeita de ter sido provocada enquanto investigava a morte do filho. No texto dela, em seu blog, ela toma o pulso desta luta de classe nas ruas do Brasil







sábado, 13 de julho de 2013

A Praça Deserta - José do Vale Pinheiro Feitosa

E lá venho em meu caráter renitente a esse banco vazio de uma praça da minha cidade. É noite de sábado, mas em minuto algum desta noite ela se encheu de gente como no passado.

Estão todos no Facebook, em frente às telas iluminadas das televisões, deixando vazios um, dois, três, quase todos bancos e apenas um ocupado, esse em que me sento.

Mas venho com esperança do humano. Não me falem em passado e nem em futuro. Basta ser vivo para ser presente. Acho um horror aquela frase que diz ser o jovem o futuro. Conversa de conservador querendo guardar seu privilégio de há muito que domina.

E venho como aquele personagem da canção do Milton Nascimento que todos os dias vem esperar o trem que nunca passa. Mas enquanto solitário nesta noite de sábado, o silêncio me faz ouvir o clic das pequenas sementes pretas que caem do cimo das palmas que adornam a praça sobre o mosaico do seu piso.

Um Crato inteiro sumiu desta praça. Entrou profundamente dentro das furnas onde se comunica com o mundo todo, menos com a praça. Talvez resguardando seus peitos de balas das armas apontadas que lhes surrupiam os objetos de valor. Até os tênis de marca. Como se as armas não ultrapassem os portais das furnas.

E por isso meu caráter renitente. Vim à solidão da praça esquecida. Do esquecimento que a praça tem de gente. A amnésia das estrelas que já não enxergam os dedos que lhes contavam. A lua que olvidou todas as pessoas sumidas.


Vim para solidão para não esquecer de ninguém. Ninguém que nesta praça não se encontra.  

Assim como Renan Calheiros e Henrique Alves eu também já viajei num avião da FAB - José do Vale Pinheiro Feitosa

Antes da conversa começar uma lembrança de um fato passado: alguém aí no Crato, agastado por minhas críticas políticas, andou espalhando que eu fora figura importante na saúde do PSDB e depois, por oportunismo, me aliara à oposição vitoriosa. Foram notas dissimuladas nos blogs da região, cuja verdadeira versão assim como a fonte do boato eu apenas soube por um e-mail revelador. Eu nunca fui nem do PMDB dos tempos áureos de cuja costela saiu o PSDB mas ocupei cargos de confiança em diversos governos, desde Sarney, passando por Brizola no Rio, depois com Jatene nos governos Collor e no primeiro Fernando Henrique. E foi aí no governo FHC que andei numa aeronave da FAB.

Vi o amanhecer de Brasília na Base Aérea esperando um avião do modelo Avro, um velho turbo-hélice que vinha da Base Aérea do Galeão. Destino: Marabá no Pará. Quatro horas de voo até pousar. Além de quadros de vários ministérios do governo FHC, ia um batalhão de repórteres.

Cinegrafistas, repórteres de televisão, gente do rádio, jornais e revistas. Viajava com uma quantidade imensa de rostos conhecidos da televisão. Todo mundo pago pelo governo, numa aeronave da FAB. E sim, todas as grandes cadeias de jornalismo, com a Globo à frente, Bandeirantes, SBT e outras mais além da revista Veja, Isto É os principais jornais de Brasília, São Paulo e Rio. E, claro, grandes rádios.

Eu fora enviado pelo Ministério da Saúde sem saber exatamente qual era a missão. Mas como tinha delegação para analisar qualquer demanda estava tranquilo naquele ambiente ambíguo e impreciso. Por volta de uma hora estávamos todos, autoridades e imprensa hospedados nos mesmos hotéis e à noite em rodas comuns.

Eu tinha um amigo entre os quadros do governo, a missão era do Ministério da Reforma Agrária e este amigo era assessor direto do Raul Jugmann,  então ministro e hoje destacado quadro do PPS do Roberto Freire. No dia seguinte o ministro chegou num jatinho da FAB e fomos em duas aeronaves, a elite no jatinho e o rebotalho no turbo hélice até São João do Araguaia.

Logo após o pouso foi toda a excursão até um assentamento de agricultores e ali vimos a “maravilha da obra de reforma agrária” do governo FHC. Tudo funcionava. Raul Jugmann mostrava força, uma esquadra de representantes de todos os ministérios estava ali para salvar os trabalhadores sem terra.

Depois foi um banquete com os peixes da Amazônia, carnes de gado à vontade e a presença de todos os prefeitos da região e o Raul juntando força contra alguém ou algo. Foi um discurso de união para organizar a reação. Que era previsível mas não dito às claras.

No dia seguinte, em Marabá, após o café da manhã eis a cereja do bolo. Num auditório do INCRA Raul reuniu-se com representantes do MST e na presença de toda a imprensa que viajava às expensas do governo, armou a arapuca para expor as reinvindicações dos trabalhadores com mero sectarismo.

Olhe que aquela manobra ocorreu após aquele massacre de Eldorado dos Carajás executado pelo polícia do Pará então governado por um político do PSDB. Logo depois Raul com seus assessores subiram no jatinho e rumaram para Brasília e nós almoçamos para começar a longa e demorada viagem de volta naquele turbo-hélice dos anos sessenta. Chegamos a Brasília por volta de onze horas.

O pessoal da imprensa ainda tinha energia para piadas e brincadeiras, mas sinceramente tive pena de todos nós a serviço de uma causa anti-democrática que era desmoralizar um legítimo anseio por inclusão econômica da gente do campo e que os governos vêm apenas como baderneiros. E que o agrobusinesse tem horror como tem às reservas indígenas. Como as empreiteiras têm dos terrenos que poderiam se tornar parques para o lazer nas cidades tensas e atulhadas.  


Do mesmo modo que ventríloquos nas redes sociais movem suas mandíbulas pelos mesmos cordões que fazem parte dos voos da FAB.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Tênue fronteira" - José Nilton Mariano Saraiva

O que se observou, nas recentes manifestações populares, é que por muito pouco não foi ultrapassada a tênue fronteira entre Democracia X Anarquia. É que, em nome de um regime que se nos apresenta como “do povo, pelo povo e para o povo”, alguns dos manifestantes extrapolaram na exteriorização do que achavam ser de direito, faltando com o respeito ao oponente e quem se lhe antepusesse à frente. Afinal, provocar e denegrir a tropa que cuida de proteger as pessoas (polícia) e posteriormente reclamar da reação; atentar contra o patrimônio público e privado (depredando a torto e a direito); impedir o ir e vir das pessoas (impossibilitando-as de ir ao trabalho e receber por isso); bloquear vias importantes por onde escoa a produção nacional, e por aí vai, não é bem um “ato democrático”. Claro que o trabalhador tem o direito (assegurado pela própria Constituição Federal) de fazer greve, de manifestar-se livremente, de exigir um melhor tratamento das autoridades constituídas, mas, tudo isso, dentro dos limites da racionalidade e da razoabilidade. E, definitivamente, não foi o que vimos. Estivemos, sim, às portas do regime anárquico, o que não é recomendável.
A propósito, confira, abaixo, texto do filósofo Platão sobre a Democracia, pela qual, tudo indica, não tinha muito apreço, embora dentro de uma argumentação razoavelmente consistente:
“...O pai se acostuma a tratar o filho como igual e a temer as crianças (...), que não têm mais respeito nem temor pelos pais, por se julgarem livres (...). O mestre teme e adula seus alunos e estes zombam de seus mestres e preceptores.  (...) os jovens vêem os velhos como iguais e os agridem, com palavras e atos; os velhos, por seu lado, para agradar os jovens, fazem-se debochados e ridículos. (...) os animais parecem-se com seus donos; e, assim, vêem-se cavalos e asnos, acostumados a passear livres e soberbos, empurrar pelas ruas os transeuntes que não lhes cedam passagem”.
Como se vê, e segundo o autor “...Platão é implacável com a democracia. Apresenta-a como o regime do abuso, da leviandade, da permissividade. Ela se acomoda a tudo: ao desinteresse dos cidadãos pelo que é comum, a instituições de qualquer outro regime, a todos os gêneros de vida. Mais que um excesso de liberdade, reina nela a licença, em todos os registros. Ela penetra na vida das famílias e contamina, segundo diz, mesmo os animais”.

E você, aí do outro lado da telinha, o que pensa ???

quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Deboche" - José Nilton Mariano Saraiva

Como todos tiveram oportunidade de observar, as manifestações que irromperam por esse Brasilzão afora, objetivando “acordar” o Governo para demandas reprimidas, calaram fundo não só no seio da população, mas, principalmente, na seara política. Assim, não mais que de repente, os “mafiosos” com assento no Congresso Nacional (há exceções, evidente) trataram não só de por as barbas de molho, mas, também, de elaborarem às pressas uma providencial e oportunista “agenda positiva”, que consistiria em desenterrar e por em votação velhos projetos de há muito apresentados.
Entretanto, após os ânimos serenados e a poeira assentada, aqueles que vulgarizaram a nobre atividade política, transformando-a numa bem remunerada profissão, parecem ter “voltado à normalidade” e esquecido as tais “vozes roucas das ruas”. Assim, de novo legislando em causa própria, decidiram implodir a proposta do Executivo (presidenta Dilma Rousseff) de realização de um plebiscito visando processar uma reforma política de peso, que, certamente, cortaria privilégios do Legislativo, destacando-se: fim do financiamento de campanhas por parte de grandes conglomerados (que a posteriori sempre são ressarcidos através de licitações fraudulentas e outros mimos); recaal político, uma espécie de “cassação do mandado” por parte do próprio eleitor, ao constatar a mudança de rota do parlamentar, e por aí vai.
Agora, passado tão breve interregno, pra provar que aquele primeiro ato não passou de grotesca dissimulação e que não estão nem aí para o que pensa o povão, suas “excelências” se negaram, terminantemente, a acabar de vez com essa verdadeira excrescência que é a figura do “suplente de senador” (dois para cada parlamentar, normalmente parentes ou financiadores de campanha) que, sem receber um único voto, assumem a vaga e as mordomias respectivas (hoje, 17 suplentes estão lá, usufruindo o bem bom).
E o mais incrível é que, tentando sair bem na foto, sem nenhuma desfaçatez ou respeito para com o eleitor, deram “repeteco” à dissimulação ao, sarcasticamente, sacarem da cartola sem fundo, como se fora algo imbuído de seriedade e um grande sacrifício,  a possibilidade de reduzir o número de suplentes de 2 para 1 e... fim de papo; acabar coam o penduricalho, jamais.

Trata-se, como se vê, de um verdadeiro deboche para com as “vozes roucas das ruas”, passível de retaliações futuras. 

A ideologia e a geopolíticas nas cabeças colonizadas - José do Vale Pinheiro Feitosa

O comércio do Atlântico morreu? É chegada a hora do Pacífico? Tais perguntas estão na ordem da emergência do Japão nos anos 80 e da China nos tempos atuais. É notório que apenas nos últimos 300 anos o comércio do Ocidente foi maior do que o da China e da Índia. Todos esperam o retorno dos negócios aos centros históricos.

Mas existe a costa atlântica africana a abrir uma grande oportunidade. A própria América Latina desponta com enorme força na economia mundial e sua face mais exuberante se encontra no Atlântico. Em outras palavras os países exclusivos da costa do Pacífico por certo têm interesse geopolítico mas a era do Pacífico não explica tudo.

Então a chamada Aliança do Pacífico em contraposição ao Mercosul ou à Unasul não tem razão na geopolítica regional, mas tem na geopolítica dos Estados Unidos da América. E a questão não é se alinhar ou não à maior nação do mundo. A questão é se teremos ou não um destino próprio e com decisões tomadas internamente e não à distância e no interesse daqueles que já ganharam muito.

Nisso reside o papel ideológico das Revistas Veja, Época, dos grandes Jornais e das grande cadeias de Televisão a sustentar as benesses econômicas do Chile e a Aliança do Pacífico. Outro dia o possível candidato do PSDB, senador Aécio Neves, foi para a Argentina e nas páginas de um jornal de oposição advogar as vantagens relativas da Aliança do Pacífico.

O Chile é um país que tem um bom comércio exterior e nisso reside a menina dos olhos dos liberais, mas o Chile ficou aprisionado a uma situação grave: ele é um exportador de produtos primários ou dependentes de recursos naturais intensivos que em conjunto representam 87% das exportações chilenas. Isso quer dizer metais não ferrosos (o cobre é sua espinha dorsal), carnes e pescados, produtos de lavoura, celulose, bebidas (o vinho) e por aí vai.

Do mesmo modo que o Brasil o Chile esteve bem quando o preço das Commodities estiveram bem. Só que o Brasil tem um mercado interno importante e uma base industrial igualmente poderosa. Em parte o sucesso das exportações do Chile se deveu ao encanto das vantagens de livre comércio especialmente estimuladas pelo velho desejo americano de criar uma zona continental de livre comércio para funcionar sobre a liderança dele e assim fazendo sombra ao crescimento Chinês, Japonês e até Coreano.

Mas tudo se torna fantasia quando a realidade da crise não sustenta os sonhos geopolíticos. O EUA já não são mais o destino principal dos produtos chilenos transferindo parte para a China e havendo crescimento do Brasil e do México. Agora fica muito difícil aquele projeto imperialista de dominar o quintal latino americano.

E principalmente se tornará se as economias da América do Sul se integrarem mais e se o bom combate ao pessoal vendido ao império for consequente. Temos que avançar mais na unidade e reduzir ao máximos provocações do tipo Aliança do Pacífico. Isso não significa perder o comércio do Pacífico. Ao contrário é apenas retirar as amarras imperiais desse comércio.


Aliás a autonomia latino americana será muito boa para a convivência com os EUA e suas interferências golpistas na vontade popular. Uma América Latina com economia forte será ruim para modelos imperialistas, mas será, por outro lado, uma relação de sustentabilidade muito mais duradoura do que este atual modelo instável e predatório, especialmente da natureza. 

Agora, o "Judiciário" - José Nilton Mariano Saraiva

As recentes manifestações que abalaram a República, sem que tenha sido possível identificar seus idealizadores (porquanto geradas nas redes sociais) tinham destinatário certo e endereço conhecido: a classe política, no Legislativo e Executivo, em Brasília. 
Fato é que a grita sobre a corrupção na esfera política ecoou tão fortemente nas ruas que, ao pressentirem a gravidade da situação, de pronto os Deputados e Senadores “lembraram” de um sem número de projetos que dormitavam nas gavetas e escaninhos da vida. E aí, tivemos algo inusitado: “suas excelências” participando de reuniões plenárias, grupos de trabalho, comissões disso e daquilo, e isso durante os cinco dias úteis da semana, quando o “normal” para eles - e só para eles – era comparecer ao expediente somente as terças e quartas-feiras (viajam na quinta e retornam a Brasília na segunda). 
O Executivo, por sua vez, igualmente acusou o golpe, tanto que a presidenta Dilma Rousseff se valeu da TV para sugerir, em cadeia nacional, a realização de um plebiscito objetivando uma reforma política (hoje, baixada a poeira, os congressistas já boicotaram a iniciativa presidencial).

Estranhamente, entretanto, o outro poder constituído, o "Judiciário", não foi sequer lembrado. E o nosso Judiciário definitivamente não é flor que se cheire, tantas são as decisões em favor de uma casta de privilegiados, e em desfavor dos menos favorecidos.  Só dois fatos ilustrativos, por falta de espaço: 1) em Brasília, por falcatruas, num mesmo dia o banqueiro Daniel Dantas é trancafiado duas vezes por determinação do Juiz Federal Fausto de Sanctis; de pronto (em ambas), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, atropelando os ritos processuais, manda soltá-lo (antes, o banqueiro já houvera confidenciado aos advogados que não se preocupassem com os tribunais superiores, porquanto lá ele resolvia); 2) em Fortaleza, o ex-presidente do BNB, Byron Queiroz, é “agraciado” pela Justiça Federal com três condenações (14 anos de prisão, em todas elas) em razão das portentosas e comprovadas fraudes quando geria o BNB; apela ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife-PE, onde é absolvido POR UNANIMIDADE.  
Partindo do pressuposto de que Juízes Federais embasam suas decisões em provas robustas e consistentes, salta à vista que por trás de tais anomalias se escondem corruptores e corrompidos por excelência.  
Assim, urge que os holofotes sejam direcionados ao “Judiciário”. Tentemos abrir essa caixa-preta. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Ômega 3 do óleo de peixe de águas geladas - José do Vale Pinheiro Feitosa

Vá que as meizinhas de nossas rezadeiras, os chás de nossas avós, os rituais dos xamãs não se enquadrassem no script exato da racionalidade e da pesquisa científica cujas dúvidas e assertivas a maioria segue. Mesmo assim seja por rejeição ao modelo comercial vigente, seja por acreditar mais nas coisas naturais do que industrializadas ou seja pela profunda umbilicação com o tempo da cultura, a verdade é que muita gente aceita as curas tradicionais.

Em parte há uma desconfiança bastante razoável com as práticas enganadoras, de fetiche da mercadoria, da promessa da panaceia entre médicos e laboratórios, entre profissionais de saúde e a estratégia de “vender mais e melhor o seu peixe”. A febril mercantilização da saúde se tornou na patologia e na insanidade subjacente e ameaçadora a requerer mais e mais gastos diretamente do bolso das pessoas.

Revistas, programas de televisão, especialmente no horário das famílias, seja de manhã para atingir as mulheres em casa ou aos domingos no Fantástico, vivem de apresentar “estilos”, “técnicas”, “medidas”, “necessidades” de coisas novas e desconhecidas sem as quais não haverá amanhã para ninguém. É uma prática enganosa, irresponsável e sem validação externa que garanta a responsabilidade científica de tudo isso. Mas conseguem o efeito: gera uma demanda permanente nas famílias.

E pensei nisso tudo ao atravessar de barco a distância entre a ilha de Chiloé e o Continente numa região ao sul do Chile. E pensei não apenas com a dinâmica intelectual. Pensei por intenso estímulo olfativo. Um fedor de carnes apodrecidas, com olores de animal oriundo do mar que se expandia por todo o ambiente do barco e penetrava o carro, apesar dos seus vidros fechados.

Fedia como fedeu o e-mail que uma colega médica recebeu de outra profissional. Esta última enviou um e-mail indignada para um conjunto de colegas com uma reclamação que torna grave a mercantilização da medicina no Brasil. E olhem que o mal cheiro no barco da travessia vinha de uma grande carreta com enorme carroceria em forma de baú. O caminhão ficava um pouco depois do nosso carro. Era um caminhão perfeitamente legal, destes que rodam todas as estradas do mundo levando mercadoria de um para outro lugar.

Ao ler o e-mail daquela colega, minha amiga viu estarrecida que aquela denunciava a ameaça que tinha recebido de um representante de laboratório que dizia o seguinte: a nossa auditoria interna identificou que a senhora não tem prescrito o nosso medicamento e que, ao contrário, tem feito escolhas pelo medicamento do nosso concorrente. Isso não fica bem pois acabamos de oferecer um cruzeiro marítimo para a senhora.

Imediatamente me veio a comparação entre a carga podre daquele caminhão em Chiloé na travessia do Catamarã e o Transatlântico carregado de médicos às expensas de um laboratório. Tudo transpirava o mesmo odor, e a médica havia suspeitado daquilo tudo. Ela era matéria prima para o lucro da Indústria Farmacêutica. E mais revelador ainda, com uma suspeita digna de um Snowden: como a empresa tomara conhecimento da prescrição da médica? Teria controle das farmácias ou das informações geradas pelas receitas controladas para a Vigilância Sanitária?

E tudo poderia se voltar ao Xamã quando ele ainda não fora aprisionado ao “mercado” como aqueles panfletos que vendem a “Madame” que traz o namorado de volta. Acontece que o Congressos dos profissionais de saúde são máquinas dos laboratórios e da indústria de equipamentos. Não são congressos científicos, são feiras para vender produtos. Assim como as ofertas para ouvir de graça um grande especialista pago pelo laboratório e logo em seguida um bom jantar num caro lugar.

O caminhão que fedia na travessia entre Chiloé e o Continente estava com carga plena de vísceras de salmão. As vísceras iriam para uma indústria multinacional que alguns meses depois estaria com seu produto devidamente embalado e tornado atraente nas prateleiras das farmácias do Brasil. Assim como os profissionais de saúde que se imaginam dominando o processo do seu conhecimento.


Logo de manhã despeja-se na palma da mão para que possa ser enviado diretamente à boca e em seguida deglutido com um copo de água. Aquela capsula dourada do óleo de salmão. O óleo do peixe das águas frias: criado em cativeiro, comendo ração e enganado para ovular.    

terça-feira, 9 de julho de 2013

Chiloé - José do Vale Pinheiro Feitosa

Retorno hoje à série de texto que vinha fazendo sobre o Chile. Em razão dos últimos acontecimentos o foco dos assuntos se intensificaram e deixamos de mão sua publicação. Mas hoje retornamos com a esperança que os leitores deste blog curtam sua leitura. 

Era uma manhã fria, de névoa densa e baixa, com o Oceano Pacífico em frequente ondulação, embora de pouca amplitude. O catamarã que transportava o carro em que estávamos, entre o continente e a Ilha de Chiloé não balançava muito e fomos para o alto dele a experimentar o agasalho quase absoluto frente ao intenso e cortante gelo dos ventos daquele tempo ruim enquanto vivíamos a paisagem.

Chiloé não fica muito distante da orla continental, tem uma grande ilha, com várias cidades, a extensão principal tem mais de duzentos quilômetros, nela nascem e desembocam rios, existem montanhas, inúmeros acidentes geográficos costeiros e um arquipélago de ilhas a rodear-lhe. Vivem no arquipélago mais de 154 mil pessoas.

Suas cidades principais são Ancud e Castro. Os habitantes são identificados como chilotes e ele têm a sensação plena de que estão na ponta sul do mundo. Pela formação de seu povo, na fusão de ameríndios e europeus as noites e dias são diferentes. Quando o sol desaparece na risca do Pacífico, a noite se adensa de plenas “americanidades”, os seres míticos descem como uma bruma à realidade ancestral que teima em manifestar-se com as “pincoyas”, os “traucos” e toda uma rica mitologia chilota.

Chiloé foi um objetivo estratégico para a conquista dos bravos araucanos e suas águas já eram navegadas pelas naus espanholas, vindas do vice-reinado do Peru desse a primeira metade dos anos de 1500. Nas águas de Chiloé o brilhante poeta dos Araucanos don Alonso de Ercilla e Zúñiga navegou na missão conquistadora em que era parte.

Os espanhóis, já em 1567 fundavam vilas, entre as quais a capital atual de Chiloé que é Castro. Chiloé se desenvolveu nos negócios do mercantilismo espanhol e foi um dos últimos territórios do atual Chile a separar-se da Coroa Espanhola. O movimento de separação do Chile da Espanha ocorreu durante as invasões napoleônicas da península ibérica, no mesmo ano em que a corte portuguesa fugiu para o Brasil. Liderada por Bernardo O´Higgins isso aconteceu entre 1817 e 1818. Mas Chiloé só fez parte da nova República a partir de 1826.

Aí foi o projeto de conquista do extremo sul e foi de Chiloé que partiu a expedição que conquistou o estreito de Magalhães para o chilenos em 1843. Chiloé hoje é um dos centros da produção do salmão, onde os peixes atingem a maturação na costa marítima e por isso tem um valor econômico estratégico para o país. E como o interior nordestino e as regiões amazônica ainda sob forte influência das culturas indígenas, Chiloé é de uma riqueza extraordinária em cestarias, enfeites, cerâmicas e trabalho com madeira. A riqueza da vegetação de juncos, capins, plantas arbustivas típicas de costas, faz de Chiloé a singularidade que é encontrada e vista, por exemplo, no museu de Ancud.

Se os nordestinos sentem na sua epiderme todos os ventos da mitologia ancestral, em Chiloé ela é imensa, guarda a memória dos conquistadores espanhóis e como aqui formam um sincretismo mitológico que por vezes até se assemelha aos nossos. Não sei dizer se as semelhanças são pela identidade ibérica de nossos povos ou pela identidade americana do primórdio da ocupação do continente pelos seres humanos.

Como o El Caleuche que é um barco fantasma que aparece e desaparece num repente, todo ele iluminado, com sua tripulação fantasmagórica cantando e dançando ao som de encantadoras melodias. Os comerciantes que tiveram a sorte de negociar com a tripulação se tornaram prósperos. A Pincoya é a Afrodite de Chiloé, a deusa da fertilidade que é uma mulher belíssima e tudo depende do sentido em que ela dança quando sob o estímulo envolvente da voz melodiosa do seu marido o Pincoy. Se a sua dança gira em direção ao mar haverá abundância e se em direção à terra, haverá escassez. Considere-se que a fertilidade de Chiloé é a pesca marinha.

E a mitologia vai num paralelo com a nossa ou não com personagens míticos como a Fiura uma mulher velha asqueroso que endoida às pessoas, o Camahuet que é um touro com unicórnio, o Brujo, o Invunche, a Viuda, o Trauco, La Violadora, El Cuchivilu, Ten-Tem Vilu e Cai-Cai Vilu; El Culebrón, El Coo, Chihued; Basilisco e o Caballo Marino. Mas o paralelo desta mitologia conosco se encerra na nossa falta de vontade com nossa cultura. Eu sei disso tudo porque em Chiloé eles vendem um simpático livrinho com estas coisas.

O Chile é um lugar longo, montanhoso, estreito, vulcânico e inteiramente sujeito a terremotos e abalos de todas as naturezas. Como todo povo em suspense suas paixões são maiores, seu espírito transformador intenso, mas igualmente é maciço e esmagador o braço de sua elite vinculada à exportação de commodities, especialmente o cobre. Em Chiloé o maior evento dos últimos séculos foi um terremoto com epicentro em Valdívia que abalou Chiloé de tal modo que uma parte da ilha afundou mais de metro no magma por onde as águas do mar inundaram terrenos que até então eram cultivados e habitados. Isso aconteceu em 1960 e o sofrimento de Chiloé foi tremendo, abalando suas vilas e cidades e sendo a ilha agredida por duas tsunamis simultâneas uma entrando pelo estreito com o continente e outra pegando a ilha de frente.


Conversei com um professor aposentando que naquele dia estava dando aulas numa pequena ilha em frente a Chiloé. Ele nos disse que o chão balançava como se balança um lençol para tirar-lhe o pó. Após cessado o desastre maior ele saiu com um pequeno barco para procurar pessoas isoladas na costa da pequena ilha e quando chegou a um dos lados o mar borbulhava como uma panela no fogo. Não era uma fervura, era como água mineral gasosa.     

domingo, 7 de julho de 2013

O Gigante se Apequenando* - José do Vale Pinheiro Feitosa

Você acredita que a única forma de civilização é aquela que se criou e se desenvolveu nos países anglo-saxônicos e especialmente na Inglaterra e nos EUA? Ninguém soube aproveitar tão bem os benefícios dos avanços tecnológicos como esses países a ponto de terem dominado por 300 anos o maior dinamismo econômico que foi o Ocidental.

A Inglaterra do século XVIII e especialmente do século XIX não só desenvolveu uma enorme capacidade produtiva e comercial, como praticamente dominou mares e terras colonizadas onde se dizia o Império nunca se poria. Mas o grande vitorioso e extraordinário país foram os EUA e isso pela tecnologia com o consequente aumento da produtividade, da produção nacional, a absorção de novas forças de trabalho como aquelas das mulheres.

Aliás a liberação das mulheres das tarefas domésticas em consequência do avanço tecnológico e a absorção da sua força de trabalho na produção teve um papel produtivo quase que igual à liberação da força de trabalho masculina da produção agrícola. A educação, a saúde pública, a juventude e as mulheres formaram a formidável máquina produtiva dos EUA e o elevou à potência mundial desde os últimos anos do século XIX.
Os EUA, em menos de 60 anos, passaram pela mais completa revolução no uso de energia, no avanço da velocidade de deslocamento, na capacidade de comunicação e cultura e na capacidade de computação. A eletricidade, o motor a combustão, a revolução eletrônica, a verticalização das cidades e a urbanização tornaram a mudança dentro da civilização ocidental em algo jamais visto na história.

Isso significou aumento da prosperidade por benefícios decorrentes do aumento de riquezas materiais. Durante esse período cada geração praticamente dobrava a sua capacidade de consumo em relação a seus pais. O poder estratégico e tático da nação dominou o cenário mundial por todo o século XX.   

O EUA pararam de crescer. Até diminuíram sua produção em relação ao últimos sete anos. E o mais importante, isso leva a crer que não seja uma mera crise de modelo de acumulação como foi nos anos 30. Agora novos fatores intervenientes que estão na raiz do modelo de crescimento acelerado se opõem a este crescimento.

Um deles é demográfico. A população envelheceu (as mulheres já tinham ido para o mercado) e não tem de onde extrair mais força de trabalho para ampliar a produção. O déficit na educação dos EUA é um rombo espetacular, os custos do ensino superior estão muito elevados, os jovens estudantes e recém formados estão endividados e o pior dos mundos, a parcela que consegue se graduar é relativamente menor do que em países como o Canadá.

E dois fenômenos que são muito relatados na crise atual: a enorme dívida das famílias e do governo e a ampliação da desigualdade econômica, reduzindo os ganhos na maioria da população e transferindo parte do que se ganha para uma minoria que não consegue reproduzir este ganho em produtividade.

Segundo análise do economista Robert Gordon (estas ideias estão num vídeo com tradução em português publicado no site http://www.ted.com/) se os EUA conseguissem manter a enorme velocidade de inovação tecnológica que conseguiu nos últimos cem anos mesmo assim a sua capacidade de crescimento seria reduzida à metade do que foi no passado recente em razão daqueles quatros fatores citados. Este quadro iria levar a que as gerações futuras não consigam aumentar sua capacidade econômica nem um quatro dos seus pais atuais.

Mas como tudo leva a crer que esta espetacular inovação não ocorra, aí tudo pode ficar pior.


*o gigante aqui é a taxa de crescimento dos EUA.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Arrastão das Redes Sociais - José do Vale Pinheiro Feitosa

Um laboratório financiado pelo fundo de pesquisa da Microsoft, chamado FUSELABS que realiza pesquisa básica e aplicada sobre experiências sociais voltada para a inserção de usuários na criação, conexão e colaborações com informações e ideias, especialmente em busca social, envolvimento de comunidades on-line e mídia cívica. Enfim analisam o comportamento das redes sociais diante de movimentos cívicos e políticos e o modo como estas redes funcionam para inserir, conectar e colaborar com tais movimentos ou como instrumento de associação e colaboração.

O Fuse tem um blog que publicou uma análise do uso do Twitter nas manifestações recentes aqui no Brasil, lembrando que o Twitter foi o principal meio de conexão no ambiente das mídias sociais utilizados durante as manifestações (este dado eu apresentei num texto publicado aqui ali por volta do dia 21). Os pesquisadores coletaram todos os Tweets (1.579.824) postados entre primeiro de junho e 22 de junho contendo as principais hashtags (VemPraRua; MudaBrasil, ChangeBrazil, ChangeBrasil, passelivre; protestosrj; ogiganteacordou; copapraquem; pimentavsvinagre; sp17j; consolação; acordabrasil.)   

Antes uma questão essencial: ao pegar as principais hashtags o FUSE não mede exatamente a marcha espontânea das manifestações uma vez que hashtags mais evidentes e listados acima tinham uma organização por trás, muitas suspeitas de serem financiadas (como ogiganteacordou, changebrazil, changebrasil etc.). Isso demonstra claramente que pelo menos uma parte importante da força das mídias não acontece dentro dela mesmas mas fora dela pelos mesmos agentes da política e do jogo de poder no Brasil e fora do país.

De modo que os resultado que lerão abaixo refletem muito o modus operandi de tais organizações e claro a capacidade que têm de saber usar as mídias sociais e acelerar as mensagens de modo a criar um estado de emergência geral em quem se encontra conectado à redes sociais. Vamos observar alguns achados da pesquisa.

A dinâmica dos tweets ao longo dos dias mostrou que estas hastags vinham desde o dia primeiro de junho mantendo um padrão de publicações diárias abaixo de mil por dia, refletindo muito o movimento passe livre, mas a partir do dia 13 de junho elas ultrapassaram este número e no dia 14 já se aproximada perto de 50 mil publicações. Entre os dias 15 e 16, após a repressão dura em São Paulo e no Rio, as publicações atingiram próximo a cem mil. Nos dias 17 e 18 as publicações chegam ao máximo perto de cento e cinquenta mil e se mantiveram assim até o dia 21 quando a parti do dia 22 retornou aos números de publicações iguais àqueles do dia 15.

Segundo a própria análise do FUSE LABS o momento em que o twitter esteve mais ativo aconteceu na noite do dia 17 de junho, por volta de 20 horas, quando os manifestantes ocuparam a cúpula do Congresso Nacional. Neste momento o pico de publicações atingiu a 96.531 tweets por hora. Uma das fontes mais ativas de publicações esteve com o AnonymousBrasil, estrutura muito bem organizada nas redes sociais, inclusive compostas por gente muito técnica em ciência da computação. Aliás os Anonymous esteve por trás de convocatórias em dias posteriores sempre de natureza ideológica e contra o Governo Dilma e em defesa da luta contra a PEC 37 que entrou como tema nas manifestações como um contrabando pois não se tratava de uma grande questão social.  

E o conteúdo das mensagens? Por aquelas contagens de palavras o que se destaca frente a todos é palavra Brasil, vem prá rua; verás que um filho teu não foge à luta e o gigante acordou. Como vemos são mensagens genéricas e que poderiam vir de qualquer hashtag. Porém se destacaram muito o change brazil; help e brazil que vieram de grupos específicos. Os nomes de governadores e prefeitos não aparecem e Dilma não está entre os principais. Existem várias palavras sobre políticas e direitos públicos e com referências à manifestações na Turquia. Mas surge uma expressão importante que é: abaixo a rede globo o povo não é bobo.

Enfim são mensagens que refletem as forças em luta que vieram para ruas. No final fica a sensação que o encaminhamento posterior é para quem tiver melhor organização. Aliás tem uma coisa muito interessante que é a natureza internacional dos protestos, ou seja a participação de publicações feitas fora do Brasil. Apenas a metade das publicações foram feitas no fuso horário de Brasília. E na outra metade veio de uma gama variada de outras localidades se destacando Santiago (a estudantada está rebelada), o fuso horário da Groelândia; do Atlântico Médio, Hawaii, Quito, Hora do Atlântico (Canadá); Hora do Leste (EUA e Canadá), Istambul e Buenos Aires.

Ai vemos outro dado: a lutas nacionais fazem parte da luta global. Inclusive a participação de tweets de Istambul reflete muito bem a associação internacional desta luta. Fica claro que a presença de brasileiros no exterior deve refletir nisso como do mesmo modo a participação de pessoas que estão vivendo em países que passam por manifestações assemelhadas. Neste sentido fica mais claro a associação entre Istambul e o Brasil do que entre o Cairo e o Brasil que não aparece entre os mais importantes.  

Outro dado é que a rede de interação começa escassa no início em 15 de junho, fica densa no dia 17 de junho, permanece alguns dias e retorna a ser escassa no final. Isso significa no meu entender o clássico comportamento social do momento da fervura quando os atores mais ativos borbulham para depois arrefecerem. No pico da fervura, nos dias 17 e 18 os agentes mais ativos na rede ampliam muito as suas interações para novos contatos, mas depois disso retornam ao padrão inicial.

O estudo recomenda que a análise continue se ampliando com outras hashtags e que se olhe mais para os outros canais de comunicação como o Facebook. Além do mais é preciso descer a uma análise mais cuidadosa sobre as motivações e o papel dos diferentes atores como pessoas isoladas, estudantes, organizações políticas como o MPL, os partidos políticos tradicionais, coletivos como o Anonymos e, claros, grupos de interesse econômico por trás de vídeos como o Change Brazil (acrescento eu).

Enfim, o nosso pessoal de ciências sociais, ciência da política, de psicologia social, direito, economia, comunicação social e outros ramos do conhecimento pode entrar no jogo imediatamente e qualificar ainda mais as análises destas redes pois elas revelarão muito das dinâmicas em curso nesta fase da história. Inclusive o papel eventualmente manipulador dos governos e das corporações donas desta redes como o Google, a Microsoft etc.

A título de contribuição segue o endereço do FUSE LABS o qual recomendo pois uma simples visita a ele já mostra o perfil de projetos que desenvolvem e até mesmo oportunidade de colaboração e qualificação. O endereço é http://fuse.microsoft.com/.



Mènage à trois



J. Flávio Vieira

                                               Os nome e sobrenome não eram, definitivamente, próprios para Matozinho. Talvez, por isso mesmo, D. Lilibeth Safra Vanderbilt jamais conseguiu se adaptar àqueles cafundós do Judas. Despencando  para os setenta e lá vai porrada, viúva,  esticada e reesticada por várias plásticas, ela morava na vila há mais de dez anos. Vivia reclusa, não participava da vida social da cidade, não falava com quem quer que fosse, com exceção, claro, de Felismina – sua empregada de muitos e muitos anos –  por inteira falta de  opção, a quem tratava , mesmo assim,  como se a Lei Áurea nunca tivesse sido promulgada. Matozinho, por outro lado, não gostava nem um pouco de D. Lili  -- como a chamavam, às escondidas, quebrando o ritual de nobreza,  denominação contrária totalmente à vontade da dona. A senhora contemplava a todos do andar de cima, com desdém e um certo nojo mal contido. O povo, entre dentes, vingava-se daquela importância . Mulher nobre daquele jeito era para morar num castelo no Vale do Loire e não em Matozinho! E,  de língua em língua, pinicavam o oratório dela, trazendo a versão oficiosa das outras cores menos brilhantes e mais esmaecidas  que se escondiam por baixo de tanto sangue azul.
                                               D. Lili era filha do velho Pedro Cangati, um dos líderes políticos mais influentes da cidade, nos anos 30 e 40. Nascera, na verdade,  Setembrina do Espírito Santo Cangati --- parecia nome feio, palavrão para se imprecar em desafetos, mas aquilo, por mais incrível que possa parecer, era nome de gente , sim senhor !  O Setembrina herdara de uma avó materna e o Cangati do pai, o Espírito Santo certamente compunha o nome na intenção de proteger o dono daquele aleijo ortográfico. Ainda mocinha, Setembrina , carregando o nome ou o karma, partiu para o Rio de Janeiro, onde estudou e renegou seguidamente suas origens plebéias. Andou viajando p constava o local de nascimento:  Salzburg na Áustria e o nome pomposo Lilibeth Safra Valderbilt, filha adotiva do Sr. Pedro Cangati. D. Lili , por muitos anos, permaneceu no Rio, nem se dignava dar as caras em Matozinho. Só falar naquela cidadezinha lhe dava engulhos, se fazia de mal entendida e negava mais que Pedro antes do canto do galo. Morava em um apartamento comprado pelo pai na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde se metia em festas grã-finas e posava de bacana. Tudo ia às mil maravilhas com ela e seu ciclo de amizades, até que o curso normal das coisas deu um cavalo-de-pau.
ela Europa e, depois, mesmo voltando ao Brasil, se radicou oficialmente no continente europeu. Para tanto, claro, precisou trocar, rapidamente , o nome brega e, através da força política do pai, um novo Registro Civil foi lavrado em Matozinho, pelo notário Zé Filgueiras. Lá,
                                               Um belo dia,  o velho Pedro Cangati fez a viagem derradeira. A mãe de Lilibeth já havia seguido na frente alguns anos atrás. Aberto o inventário, viu-se que as enormes posses do chefe político se diluíam entre os doze filhos legítimos e mais de trinta espúrios que  Cangati deixara espalhados na região. Lilibeth, já balzaquiana, caiu do andor. Vivera até então às custas do pai e da cagação  de goma. Não possuía emprego qualquer, acostumara-se ao subsídio. Percebendo que sua dinastia estava ameaçada e que até o apartamento do Rio teria que ser vendido para o rateio, Lilibeth desesperada, encontrou a única saída possível. Botou-se para cima de um primo, Ludovico Cangati, vereador em Matozinho e dono de muitas terras por lá. Ludovico era solteirão, comentava-se, à boca miúda, que ele vazava corrente , que já vivia maritalmente com  o capataz da sua Fazenda Unha-de-Gato, mas D. Lili não viu escapatória. Casou com Ludovico ( que pôs uma nuvem de fumaça no falatório sobre sua sexualidade), salvou ela  a reputação, mas,  com um grave efeito colateral : teve que se mudar para Matozinho. Aliás, em parte : seu corpo estava ali na vila, mas a alma ainda perambulava pelo Sena e pelo Calçadão de Copacabana. A convivência com o esposo, não pareceu difícil. Ela fechava os olhos para as preferências de Ludovico, até mesmo porque, pelo que se sabia das suas perambulações cariocas, ela apreciava mocinhas e nunca fora muito “fanática por rola”.
                                               Assim, parecia mais que justificável a reclusão de D. Lili. Primeiro, não queria se misturar com aquela gentalha, aquela récua de pé-rapados que vivia naquele oco do mundo. Depois, queria fugir de insinuações quanto às preferências esdrúxulas dela e do marido. No mais, era um oceano de preconceitos: tinha náuseas diante de negros, de pobres , e, principalmente, de nordestinos, judeus  e homossexuais. Periodicamente, partia para o seu querido Rio e lá fazia suas compras e degustava suas menininhas. Roupas, sapatos, perfumes finos atulhavam as malas na volta. Usava-os em casa, pois não saía para nenhum lugar daquelas brenhas imundas. Mandara construir uma capela em casa e pagava ao Padre Arcelino para celebrar, todo mês, uma missa para ela e Ludovico . A Felismina era permitido assistir ao culto do lado de fora.
                                               Desconfiava-se que D. Lili, apesar da nobreza, não perdera , de todo, o gosto por algumas iguarias locais. Muitas vezes,  a força dos Cangatis lhe batia forte.  Mas não dava o braço a torcer. Pedia a Felismina, sorrateiramente, para comprar, às escondidas, o pé-de-moleque de Toinha Socó, a Buchada de Cida , a lingüiça de Mundica de Bertioga, o quebra-queixo de Zuzu Jurumenha. Ia a funcionária, no entanto, com ordem expressa de dizer que era para ela mesma, que, afinal, uma locomotiva chique, não come comida digna de ser oferecida aos porcos, né ?  O que diria Glória Kalil ?
                                               Beirando oitenta, D. Lili caiu doente. Ludovico a levou ao Rio. Diagnosticaram uma doença grave. Ela, no entanto, voltou feliz, encantada com o nome pomposo da moléstia: Esclerose Amiotrófica Lateral. Aquilo, sim, era nome digno de constar num atestado de óbito !  O certo é que a saúde de Lilibeth degringolou rapidamente. Numa das revisões, faleceu no Rio de Janeiro, para sua alegria. Ludovico a sepultou por lá, seguindo a vontade da mulher :
                                               --- No São João Batista, viu Ludovico? Não esqueça !
                                               Uns dois anos depois, o esposo resolveu fazer o traslado dos restos mortais para Matozinho. Estava ficando velho e a distância o impedia de visitá-la regularmente. Lili deve ter se revirado no túmulo, como ventilador. No novo sepultamento, no Cemitério Nossa Senhora da Alegria, os coveiros ficaram surpresos. As roupas da locomotiva estavam puídas, os ossos pareciam negros( que castigo!) e o perfume que rescendia dos restos mortais não eram do Chanel Número 1 ! Lilibeth não deve ter apreciado  muito a homenagem que a Câmara de Vereadores lhe presenteou. Uma rua periférica com o nome em letras graúdas: “Setembrina do Espírito Santo Cangati” e, logo abaixo, entre parêntesis, em caixa miudinha : “D. Lili”. O pior é que a ruazinha desembocava no lixão da cidade.
                                               Ao menos o jazigo que Ludovico mandara erguer mostrava-se digno da importância da moradora. Todo de mármore, monumental, com anjos dependurados nas beiradas e , finalmente, o Lilibeth Safra Vanderbilt ( 1936-2012) , em alta relevo  e, abaixo,  o  latinório : “Resquiat in Peace”. Semana passada, no entanto, Ludovico visitando o cemitério deu com uma cena inusitada. Em cima do túmulo uma cadela vira-lata  no cio, sendo coberta por dois cães pé-duros. Saiu correndo, imaginando a profanação do jazigo de Lili, uma pessoa tão fina e elegante , presenciando aquela afronta logo acima dela. Mas que putaria ! Procurou o coveiro e pediu providências imediatas. Inconscientemente, minorou a agressão que estava acontecendo, utilizando a técnica Safra-Vanderbilt de converter o brega em chique:
                                               --- Por favor, seu coveiro, acuda, ali ! Tem dois Dobbermans fazendo Mènage à Trois com uma Poodle, no túmulo de Lili !